Já utilizei velocípede, bicicleta, motocicleta, carro, caminhão, ônibus, ultraleve, uma espécie de paraquedas monitorado, aviões de todos os tipos, helicóptero, mas nunca tive a coragem de viajar num submarino. Na verdade, uma vez, num desses parques de diversões americanos, fiz “uma viagem ao fundo do mar”, em um simulacro de submarino, parece que chamado de “Yellow submarine”, em alusão à música dos Beatles. Eles tentam reproduzir todas as sensações, mas é só uma viagem brevíssima e à flor da água.
Como cinéfilo, já vi muitos filmes centrados em viagens submarinas, mas sempre parece que vou me afogar na quantidade de água que circunda um submarino no silêncio e na pressão existentes no fundo do mar. É claro que há as belezas da flora e da fauna marinhas, mas meu elemento é a terra. Nem de nadar no mar eu gosto. Sempre o considerei um ente indomável que se sente conspurcado com tudo o que lhe é estranho e mexe com as suas entranhas.
Os submarinos são elementos estranhos aos oceanos, especialmente os nucleares que tem a sua razão de ser na possibilidade de lançamentos, entre outros, de mísseis de guerra na direção mar-solo com alcance de 4.000 km. Conclui-se, facilmente, que um submarino nuclear não é uma nave comum de pesquisa, mas integrante de um sistema de armamento estratégico de um determinado país.
Essa conversa preliminar é para mostrar como estavam, estão, estiveram ou estarão (sub)metidos os 118 tripulantes do submarino nuclear russo Kursk que, por um defeito técnico ou sabotagem, ficou à deriva no fundo do mar de Barents, a noroeste da Rússia, em águas internacionais. Junto com os 118 tripulantes estão 24 mísseis.
Foram os americanos que inventaram o submarino nuclear, em plena guerra fria dos anos 50. Os russos não se fizeram de rogados e logo dominaram a tecnologia. O resultado está ai, 118 pessoas ameaçadas de uma morte anunciada em toda plenitude. Não vale falar nos acidentes passados, pois, no caso em espécie, o passado só deveria ser referido como uma forma inteligente de aprendizagem para o presente.
Tento imaginar a convivência, nestes dias, dessas 118 pessoas, constituída de técnicos em balística, a oficialidade e meros marinheiros. Todos, seres humanos, com vínculos fortes – ou tênues – aqui na terra, onde suas famílias indefesas torcem pelo sucesso da operação resgate, pois o oxigênio só dá para mais cinco dias.
É claro que este não é o único problema que a televisão globalizada e catastrófica nos mostra, mas pincei esse fato para mostrar a minha angústia kafkaniana em saber que sempre algo pode acontecer pela insensatez dos homens. A Rússia, herdeira presuntiva dos antigos poderes da U.R.S.S., é o exemplo de um país que ainda não se definiu entre levar avante os mirabolantes sonhos de superpotência ou acabar com a miséria das classes menos favorecidas, elas que, no começo do século, exterminaram a família do Czar Nicolau, que pode vir a ser, paradoxalmente, canonizada – em bloco- pela Igreja Ortodoxa Russa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/08/2000.
