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O SUBMARINO

Já utilizei velocípede, bicicleta, motocicleta, carro, caminhão, ônibus, ultraleve, uma espécie de paraquedas monitorado, aviões de todos os tipos, helicóptero, mas nunca tive a coragem de viajar num submarino. Na verdade, uma vez, num desses parques de diversões americanos, fiz “uma viagem ao fundo do mar”, em um simulacro de submarino, parece que chamado de “Yellow submarine”, em alusão à música dos Beatles. Eles tentam reproduzir todas as sensações, mas é só uma viagem brevíssima e à flor da água.
Como cinéfilo, já vi muitos filmes centrados em viagens submarinas, mas sempre parece que vou me afogar na quantidade de água que circunda um submarino no silêncio e na pressão existentes no fundo do mar. É claro que há as belezas da flora e da fauna marinhas, mas meu elemento é a terra. Nem de nadar no mar eu gosto. Sempre o considerei um ente indomável que se sente conspurcado com tudo o que lhe é estranho e mexe com as suas entranhas.
Os submarinos são elementos estranhos aos oceanos, especialmente os nucleares que tem a sua razão de ser na possibilidade de lançamentos, entre outros, de mísseis de guerra na direção mar-solo com alcance de 4.000 km. Conclui-se, facilmente, que um submarino nuclear não é uma nave comum de pesquisa, mas integrante de um sistema de armamento estratégico de um determinado país.
Essa conversa preliminar é para mostrar como estavam, estão, estiveram ou estarão (sub)metidos os 118 tripulantes do submarino nuclear russo Kursk que, por um defeito técnico ou sabotagem, ficou à deriva no fundo do mar de Barents, a noroeste da Rússia, em águas internacionais. Junto com os 118 tripulantes estão 24 mísseis.
Foram os americanos que inventaram o submarino nuclear, em plena guerra fria dos anos 50. Os russos não se fizeram de rogados e logo dominaram a tecnologia. O resultado está ai, 118 pessoas ameaçadas de uma morte anunciada em toda plenitude. Não vale falar nos acidentes passados, pois, no caso em espécie, o passado só deveria ser referido como uma forma inteligente de aprendizagem para o presente.
Tento imaginar a convivência, nestes dias, dessas 118 pessoas, constituída de técnicos em balística, a oficialidade e meros marinheiros. Todos, seres humanos, com vínculos fortes – ou tênues – aqui na terra, onde suas famílias indefesas torcem pelo sucesso da operação resgate, pois o oxigênio só dá para mais cinco dias.
É claro que este não é o único problema que a televisão globalizada e catastrófica nos mostra, mas pincei esse fato para mostrar a minha angústia kafkaniana em saber que sempre algo pode acontecer pela insensatez dos homens. A Rússia, herdeira presuntiva dos antigos poderes da U.R.S.S., é o exemplo de um país que ainda não se definiu entre levar avante os mirabolantes sonhos de superpotência ou acabar com a miséria das classes menos favorecidas, elas que, no começo do século, exterminaram a família do Czar Nicolau, que pode vir a ser, paradoxalmente, canonizada – em bloco- pela Igreja Ortodoxa Russa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/08/2000.

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O AMOR MATA

Li muito do que foi escrito pelos grandes jornais e revistas brasileiros acerca do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo ex-namorado Pimenta Neves. Muito sensacionalismo, corporativismo, apelos sentimentais e pouca análise crítica. Parece que todos os jornalistas foram apanhados de surpresa, pois, via-de-regra, a imprensa dita regras, insinua culpas, antecipa julgamentos e toma partido. De repente, ficou atônita. Um jornalista era um assassino; uma jornalista, a vítima.
Imaginem, só para raciocinar, se o assassino tivesse outra profissão. Teria, talvez, sido linchado, pois a imprensa sensacionalista poderia incitar populares a isso. Para encerrar esta parte da história, fica apenas uma lição elementar: jornalista é gente igual a todos.
Dito isto, fiquei me indagando, por quê a falta coletiva de lucidez? Por quê não se considerou a fragilidade do ser humano, tão clara para Isaiah Berlin, ao dizer: “A noção do todo perfeito, a solução final, em que tudo o que é bom coexiste, não me parece apenas inatingível- isso é um truísmo”.
Como os jornais e as revistas não me deram respostas convincentes, procurei me valer, lá no Rio de Janeiro, de uma leitora e amiga. Ela é, para mim, uma pessoa capaz de emitir opinião, pois, na sua condição de psicanalista, costuma escrever artigos e ensaios para revistas especializadas
Vejam o que Thaís Oliveira nos diz sobre o comportamento de Pimenta: “A ligação que mantinha com ela, graças à sua idade, lhe dava uma espécie de garantia contra a idéia de envelhecimento e portanto de morte. A origem narcísica do desespero de Pimenta pode ser enquadrada no que foi designado pelo psicanalista Heinz Kohut como “fúria narcísica”. Essa reação pode ocorrer quando uma pessoa, ferida em sua vaidade patológica – e aqui não importa o seu grau de cultura e experiência – é tomada por uma agressividade descontrolada que anula praticamente sua racionalidade. Nesse estado, ela age tomada por grande impulsividade, com o intuito de punir o responsável pela sua dor, pela perda de seu equilíbrio.”
Thais, finalmente, vai ao crime: “ao rejeitar Pimenta, privou-o da impressão de ser ainda um homem jovem, poderoso , viril e, portanto, protegido da morte. Ao invés de entrar em depressão ou sentir tristeza com a perda da namorada, o jornalista a puniu como ‘responsável’ pela ‘fúria narcísica’ que lhe foi imposta, invertendo a situação e fazendo com que ela, que era de fato jovem, viesse a morrer… Sandra, sem saber, pôs um ponto final à situação de efeito “mágico” que sustentava a vida emocional de Pimenta e que o ajudava a negar todas as perdas que sofremos no processo de perda da juventude”.
Para mim, a análise da psicanalista Thais Oliveira é um um bom subsídio aos que não entendem que o amor pode matar. E não se contenta em matar só a pessoa, o “criminoso-abandonado” transcende a dor da sua perda ao procurar sepultar/aniquilar, post-mortem, igualmente, o caráter, a família, a dignidade, enfim, os valores da abandonadora-morta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2000.

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INDEPENDÊNCIA E DEBOCHE

Parte dos brasileiros ainda debocha do episódio da independência brasileira. Pouca gente estudou o assunto, pesquisou a história e se compraz em achar graça e ridicularizar o ato. Bobagem ou falta de autoestima nacional. Seria o inconsciente coletivo do povo?
A independência das colônias latino-americanas já vinha acontecendo há tempos, seguindo o exemplo da América que se libertou da Inglaterra, em luta que durou de 1775 a 1782, mesmo após a independência em 04 de julho de 1776.
Os latino-americanos aproveitaram o exemplo da América e a invasão francesa em Portugal e Espanha por Napoleão Bonaparte, destronando os seus soberanos, propiciando a onda de rebeldia nas colônias. Foi a essa época que surgiram, entre muitos, Simon Bolívar. Miranda, Hidalgo, San Martin e Iturbide, com os processos de libertação da Venezuela, México, Chile, Colômbia, Equador, Argentina e outros.
O enfraquecimento dos países colonizadores, Espanha e Portugal, oferecia clima propício, e isso ajudou a eclodir um sentimento de revolta e a procura da independência. No caso específico do Brasil, surgiu em 1820 o regime constitucional proclamado pelos portugueses, mas a pressão dos separatistas criava condições para a independência.
D. João VI, como todos sabem, foi chamado de volta à Portugal em abril de 1821, deixando seu jovem filho D.Pedro I, como regente. A esse tempo, a maçonaria brasileira, talvez procurando cooptar D.Pedro I, outorgou-lhe o título de “defensor perpétuo do Brasil”, aconselhando-o a não obedecer às ordens de Portugal. A partir desse e de outros fatos, surge o episódio do Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, e começa a história que todos conhecem.
O não derramamento de sangue no episódio da independência brasileira parece ter frustrado alguns historiadores e patriotas, apelando para o deboche, perdurando até hoje. O que essas pessoas não atentam é que o Brasil estava cercado de lutas libertárias em todo o continente e isso foi o elemento indutor do processo que se fez, graças a Deus, pacificamente, pois não houve resistência de Portugal, sem forças, pois às voltas com seus próprios problemas.
Criava-se, naquele episódio, uma característica própria da nação brasileira. O diálogo sempre tem superado as questões ideológicas. País gigante, não viveu grandes episódios localizados ou generalizados de insurreições, guerrilhas significativas, revoluções ou movimentos separatistas. Com o seu imenso território, tem oferecido a nós brasileiros, apesar de tudo, esse clima de liberdade, euforia e a capacidade de superar os nossos problemas, ainda tão grandes.
Em meio a denúncias de corrupção, às procelas da globalização, acrescidas do canibalismo interno das grandes empresas nacionais, o Brasil vive um momento muito especial, pois tem que se firmar como nação independente, neste mundo comandado por corporações transnacionais que desrespeitam fronteiras, descaracterizam culturas e corrompem instituições e governos. Para isso, mais uma vez, temos que nos unir e, sem deboche, procurar consolidar a nossa independência, comum a todos os que nasceram e vivem neste país tão maravilhoso.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/09/2000.

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MACHO MAN

Os homens brasileiros, com mais de 50 anos, vivem dilemas existenciais sérios. Sabem que o nosso modelo de “macho man” está ultrapassado, não tem volta. Por outro lado, não possuem a maturidade para encarar, como naturais, as mudanças chegadas com o tempo. São tantas, de toda ordem, a causar espantos e perplexidades. Ora é a parceira a desafiar com o seu saber e independência; os filhos a fustigarem com indagações, cujas respostas não sabem; os reptos da vida profissional, mostrando sem dó, nem piedade, a necessidade de reexaminar os caminhos já percorridos e sinalizando novas estradas a serem trilhadas, mesmo sinuosas e insondáveis.
Paralelo a tudo isso, além da mente, o corpo passa a emitir sinais, pedir cuidados com o diabetes, o colesterol, a visão, as coronárias, a obesidade, a flacidez dos músculos, as artroses, o fantasma da impotência e as doenças cativas do homem, dentre as quais avulta as da próstata.
Um anúncio institucional de um plano de saúde tem alertado para esse problema, a Faculdade de Medicina da USP realizou, no último mês, a Semana do Alerta sobre a próstata e pessoas próximas a mim que foram afetadas. Daí, passei, casuisticamente, a estudá-lo com atenção. O que escrevo a seguir é a visão curiosa de um leigo, nada mais que isso. O objetivo é um só: alertar.
O urologista, com o seu dedo em riste, é temido por muitos homens, sob a desculpa de “depois eu faço”. Hoje, um homem com mais de 50 anos, ao fazer o seu check up anual deve incluir o exame do PSA. Na realidade, o PSA, um exame recente, feito a partir do sangue, é um marcador eficaz da saúde da próstata. Seu nome vem do inglês e significa Antígeno Prostático Específico. O antígeno, no caso, é uma substância que, penetrando no organismo, vai detectar especificamente através de uma escala, que começa com zero e cresce, o grau de sanidade – ou não – da próstata. Determinaram, após pesquisas, que os níveis ideais variam de zero a quatro. Assim, o homem, ao fazer anualmente o seu exame de PSA, deve ler e discutir os resultados com o seu urologista.
Além do PSA, o toque retal é outro indicador importante. Dura menos de um minuto, e nenhum homem deve se sentir menos “macho” por ter a consciência de fazê-lo a partir dos 50 anos, ou após os 40 anos, se houver história de câncer, especialmente de próstata, na família.
Quando o PSA apresenta índices superiores a quatro, não há razão para alarmes. O paciente poderá ter apenas uma inflamação na próstata ou, ainda, uma hiperplasia benigna, isto é, uma doença perfeitamente curável, através de tratamento ou cirurgia. Auxiliado por exames de ultra-som trans-retal e biópsia , o urologista poderá indicar o procedimento mais adequado a cada caso.
Na pior hipótese, os que forem acometidos de câncer de próstata poderão ficar curados, desde que a doença tenha sido detectada no início e atingida somente a cápsula prostática. O médico retirará toda a próstata, verificará se não há metástases – auxiliado pela patologia – nas áreas próximas e, com muita probabilidade, o doente poderá ficar curado. As técnicas, usadas universalmente, tentam preservar a capacidade de ereção do paciente e minimizar a possibilidade de incontinência urinária.
Ser homem, depois dos 50, é ter uma mente lúcida para agir previdentemente, com capacidade para enfrentar as adversidades – se elas acontecerem – e forças para superá-las, tocando a vida com energia e sem medo. Este é o novo macho man.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/09/2000.

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A DITADURA DO CORPO

O surgimento, neste século, de profissões novas como, por exemplo, educação física, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e a atenção que a medicina, a biotecnologia e a engenharia genética deram ao ser humano, fizeram aumentar os cuidados com o corpo, sem falar nas plásticas, pois isto é outra história.
Honoré de Balzac falava, no século XIX, das “mulheres de 30” como se estivessem no ponto final de uma vida ativa. Hoje, as mulheres – e os homens, por extensão – de 30, 40 e 50 anos estão se vendo e se sentindo bem mais novas que suas mães, na mesma idade. Os recursos da coméstica, as aulas de ginástica, musculação, natação, corrida, alongamento, yoga, dança e as lutas estão deixando um rastro de saúde, especialmente quando associadas a uma alimentação saudável, e a ingestão de vitaminas e antioxidantes. Hoje muita gente fala com desenvoltura sobre ácidos graxos, fibras, sal, gordura, proteína, carboidrato e colesterol.
Por outro lado, o aumento da longevidade, as aposentadorias precoces e o medo de envelhecer têm encorajado pessoas de mais idade a saírem de suas casas em demanda de parques, praças, avenidas, praias, piscinas e academias. Assim, jovens, adultos, maduros e velhos misturam-se em uma sinfonia em que todos entoam uma mesma trilha melódica: mexer com o corpo para viver mais e melhor. Acordar cedo e malhar deixou de ser um modismo e transformou-se em prática saudável para os que precisam, acreditam e desejam continuar em forma, obedecidas as razões do corpo.
Ao mesmo tempo em que psiquiatras, psicólogos e terapeutas cuidam das mentes das pessoas, há um quase exagero na publicidade, na medicina, na nutrição e nas carreiras esportivas com a obtenção de um melhor físico. É a ditadura do corpo esbelto, mesmo que a mente não esteja totalmente sã. Vamos a um exemplo: recentemente, no estado americano do Novo México, os pais perderam a guarda de uma filha de três anos pelo simples fato dela estar pesando 55 quilos. Em outras palavras, é o Estado dizendo que compete à família a responsabilidade de cuidar dos corpos de seus integrantes.
A Olimpíada em curso na Austrália está sendo pródiga em quebras de recordes, pois os atletas vivem cuidando,por anos seguidos, de seus corpos de modo a transformá-los em feixes de músculos capazes de obedecer a impulsos instantâneos. Uma fração de segundo pode ser fatal na obtenção de uma medalha. Poder-se-ia dizer que esta olimpíada associa, de forma absolutamente integrada, a medicina e a nutrição às técnicas esportivas, não dando oportunidade a improvisações, mesmo que o talento e o arrojo ainda sejam as maiores características dos vencedores.
Esta ditadura do corpo parece ter uma razão de ser. Os geriatras e gerontologistas têm afirmado que as pessoas que conseguirem chegar saudáveis ao ano 2010 terão, ainda, muitos e muitos anos de vida. É chegar para ver.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2000.

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DIA DE VOTAR

Chegou o dia. Como o voto no Brasil é obrigatório para maiores de 18 e menores de 70 anos, você deve ir votar. Procure seu título, veja a seção eleitoral, pegue um livro ou revista e vá. Pode ter fila, mas não acredito. A votação será eletrônica e tudo correrá mais rápido. Esta é a parte legal e mecânica da história.
A outra parte, a de consciência, é a mais séria. Você tem que procurar respostas na sua consciência e não nas propagandas eleitorais dos candidatos. A sua consciência é guardiã de sua história pessoal, das suas origens, do seu desenvolvimento e da sua maturidade como cidadão. Não adianta ficar lembrando o que disse o candidato A, B, C, D ou Z. Você tem que conversar com você mesmo. Descobrir o que lhe incomoda, o que lhe agrada. Pensar no que deseja para a sua cidade em termos de futuro e saber quem poderá ajudá-la a atingir esse objetivo.
A sua consciência tem que responder aos ditames de sua realidade pessoal e da “realidade real”, aquela do dia-a-dia, em que as promessas mirabolantes são apenas jogo de cena para enganar incautos. Prove que você não é incauto.
Permita-se pensar um pouco em sua cidade. Lembre-se como ela era quando você nasceu, como foi ficando e como é hoje. Veja o que foi feito, o que não foi e o que você imagina ser prioritário. Raciocine um pouco e não tenha medo de concluir, por exemplo, que você até hoje estava influenciado por isso ou aquilo. Estabeleça juízos de valor e dê alguns minutos do seu tempo em favor de duas decisões corretas: a escolha dos seus candidatos a vereador e prefeito. Não fique aí indeciso. Não vote só por votar. Vote no que acredita ser o melhor para a sua cidade. Não vote contra alguém ou algum, vote a favor do que considera capaz.
O vereador é como se fosse um procurador seu. O seu pensamento deve ser parecido com o dele. Ou melhor ainda, o pensamento dele é que deve ser parecido com o seu.
O Prefeito, por sua vez, é uma espécie de administrador ou gerente de alto nível da cidade, um tipo especial de empregado, por tempo determinado, de todos nós, os eleitores.
O Prefeito não deve ser alguém superior, iluminado, mas uma pessoa comum, capaz, dinâmica, com capacidade de arregimentar e liderar uma equipe multiprofissional para cuidar das ações da cidade. Prefeito não é mágico, nem santo, nem demônio. Prefeito ou prefeita tem que ter legitimidade para poder lutar e conseguir administrar o caos em que as cidades, especialmente as grandes, se tornaram.
Agora feche o jornal. Pare diante do espelho e diga o nome dos seus candidatos. Se você não fizer careta, as escolhas estão certas. Se ficar em dúvida, pense mais um pouco e vote a favor de sua cidade. Bons votos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/10/2000.

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BRASYDNEY

De forma vergonhosa, o Brasil terminou a sua participação nas Olimpíadas de Sydney no 51º lugar (ranking de produtividade). Ficamos atrás do México, Cuba, Uruguai, Belarus, Bahamas, Letônia, Azerbaijão e Moldova, entre outros. Há denúncias de corrupção, recebimento de dinheiro de patrocinadores por baixo do pano, atletas “amarelando” e “sem amor à pátria” e poucas, pouquíssimas (12) medalhas de prata (6) e bronze (6). Necas de ouro. Parece que tudo deu errado e deu, na verdade.
As televisões e os grandes jornais foram, como sempre, os grandes beneficiados. Venderam a idéia – e caríssimas cotas de patrocínio – de que o Brasil ganharia isso e aquilo e fomentaram uma empolgação e expectativas nacionais. Nem uma coisa, nem outra. A diferença de fuso horário, virava de ponta cabeça a nossa idéia de dia e noite. Por outro lado, a divulgação à exaustão com narradores bobos e monótonos, depois de um certo tempo, causava um enfado imenso. A patriotada das redes brasileiras de televisão chegava a desfaçatez de divulgar apenas os cinco primeiros países colocados e o pífio desempenho nacional.
Os jogos Olímpicos, de há muito, deixaram de ser somente uma competição esportiva. São um grande negócio que tira da magia do esporte bons resultados financeiros e de marketing para o país sede. No caso específico de Sydney, os custos foram da ordem de um bilhão e duzentos e oitenta milhões de dólares (muito menos do que o Brasil perdeu com os bancos Marka e FonteCindam). Esse dinheiro foi gasto em recuperação de áreas, construção de estádios, remodelação da cidade, passagens aéreas para todas as delegações (sob o argumento de que a Austrália é muito longe), um grande investimento em marketing, construção de apartamentos-alojamentos que, em seguida, serão vendidos à população local etc. Mas, o dinheiro não saiu apenas dos cofres públicos australianos. Grandes patrocinadores como a Coca-Cola, a BHP (que atua em mineração), a Westerfield (imobiliária) e a Testra (telecomunicações) bancaram parte da festa. A Austrália, distante, passa a fazer parte do imaginário de quantos viram os jogos e as festas de abertura e encerramento. Isso dá retorno imediato e no futuro.
Penso que está na hora do Brasil se candidatar, de verdade, sem carioquice, a ser sede de uma futura Olimpíada. Seria uma grande jogada de marketing, um processo de desenvolvimento forçado da região escolhida, melhoria na segurança pública, trazer o foco das comunicações mundiais para o nosso país e, quem sabe, um pouco mais de medalhas. Temos charme, talento e muitas cidades a escolher. Falta apenas gente séria para tomar a iniciativa. O Comitê Olímpico Brasileiro deve ser mudado, de ponta a ponta. As escolas e as universidades precisam voltar a estimular a prática de esportes e nós, com certeza, deixarmos de ser bobos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/10/2000.

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ESTAR CRIANÇA

Quinta-feira foi o Dia das Crianças. É claro que a mídia tem interesse em fomentar os dias disso e daquilo. Mas, nós também vivemos de símbolos, arquétipos, lembranças, ícones, motivações e sonhos. Sonhemos, então em estar criança.
Os que já passaram há muito do tempo de ser criança poderiam aproveitar seus imaginários para revisitar as crianças que foram. Poderiam ver o “making off” de suas infâncias, analisar com olho adulto e serem mais indulgentes com os pais e irmãos. Olhar de onde vieram seus pais, quais eram os seus valores, as suas formações e as lutas que travaram para ocupar seus lugares neste tão vasto mundo. É preciso, repito, ver o passado com olhar indulgente, sem a lente zoom que particulariza e aumenta os defeitos. Os nossos pais talvez sejam como nós, mas no tempo deles.
De um tempo para cá, especialmente nestes cem anos freudianos, os pais passaram a responder por muitos dos nossos erros, das nossas frustrações, dos desencontros existenciais e por ai vai. Os pais foram ficando na berlinda com os estudos edipianos e as visões de Electra. De princípio, todos os pais eram castradores, cerceadores de nossos desejos, balizadores de nossas condutas e indutores dos nossos destinos. Depois, veio o contraponto. Deixaram de proibir. Liberaram geral e são culpados por omissão, dos mimos em excesso ou pela falta de tempo para os diálogos necessários entre pais e filhos.
Cá entre nós, na minha revisita pessoal, me vejo cercado de irmãos com idades parecidas e gostos díspares, na grande mesa da sala de jantar com uma jovem mãe dedicada, equilibrada e ciosa de suas responsabilidades. Um pai mantenedor e coadjuvante no processo de tentar transformar aquela “miuçaia” de gente. Sendo o mais velho, precisava ser exemplo e, na verdade, não sabia ser nada, era massa em formação em meio a um mundo que se encantava com a televisão, a liberação feminina, a pílula anticoncepcional, a militância estudantil, a magia dos livros, os enlevos dos filmes e a obrigação de estudar o que muitos professores mandavam e eu já intuía que pouco valeria na vida real. Foi assim comigo, não deve ter sido muito diferente para vocês, humanos e contemporâneos que somos.
Mas falava de estar criança. Estar criança é não complicar, é tentar dormir o sono dos justos, diminuir a autocensura, ouvir histórias, rir de qualquer coisa, meter a mão em tinta fresca, embevecer-se, não levar a vida muita a sério, acreditar em sonhos e não ter medo de bicho papão. Estar criança é muito mais que isso. Parece ser um processo individual de resgate, como se fora uma forma proustiana de desencavar porões para retirar apenas e nada mais que brinquedos, mesmo que simples.
Como diria Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa: “Sim, julgo, às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao cevado que é o nosso destino”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/10/2000.

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NARCISISMO

Para começo de conversa, é bom que se fale sobre a razão de se chamar alguém de narcisista. “Fulano é um narcisista” ou “este é um comportamento narcisista”. Por quê se diz isso?
Segundo a mitologia grega, Narciso era um jovem por quem a ninfa Eco se apaixonou. Eco fora privada da fala por Hera, a esposa de Zeus, e só podia repetir as últimas sílabas das palavras que ouvia. Incapaz de dizer a Narciso de seu amor, foi por ele rejeitada e morreu de tristeza. Os deuses puniram então Narciso por seu desamor, fazendo-o apaixonar-se pela própria imagem. Um dia, quando olhava sua face em uma fonte, ficou enamorado por ela e recusou-se a abandonar o local. Morreu de debilidade e transformou-se numa flor (o narciso) que cresce à beira das fontes e mananciais. A psicanálise, a psiquiatria e a psicologia apropriaram-se desse mito e, a partir dele, começaram a desenvolver seus estudos e teses.
Essas observações são mero produto da leitura do livro “Narcisismo, negação do verdadeiro Self”, de Alexander Lowen, Editora Cultrix, e decorreram da verificação óbvia e real de que o narcisismo está em franca ascensão em todas as camadas sociais e faixas etárias. Como não tinha conhecimento sobre assunto tão sério, resolvi dar um passeio sobre o livro em referência. Do que li, ouço e vejo, ficou claro que o narcisismo sinaliza uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self (ego, o eu, a individualidade).
Avulta também que os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem, daí negarem quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar.
Via de regra, são egoístas, concentrados em seus próprios interesses, mas carentes dos verdadeiros valores do self – notadamente, auto expressão, serenidade, dignidade e integridade. Parece faltar aos narcisistas um sentimento do self derivado de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do ego, vivem a vida como algo vazio e destituído de significação. Muitos dos narcisistas são bem-sucedidos em suas atividades profissionais ou negócios, o que sugere uma divisão entre o que realizam no mundo e o que acontece em seus íntimos.
Por outro lado, apresentam combinações de ambição intensa, fantasias de grandeza, a par de sentimentos de inferioridade e excessiva dependência da admiração e aprovação externas. Olhem as colunas sociais, joalharias, salões de beleza, boutiques, academias de ginástica, igrejas, universidades, reuniões sociais, entidades de classe, clubes, empresas, imprensa, profissionais liberais, os poderes constituídos e vocês identificarão muitos narcisistas. Alguns temporários, outros incuráveis.
Os narcisistas têm a clara necessidade de ser perfeitos e de fazer com que os outros os vejam como tais. É bom estabelecer uma distinção entre a preocupação saudável com a busca da perfeição profissional e da própria aparência, baseados no senso do self, e o deslocamento da identidade do ego para a imagem, o que é característico do estado narcisista.
Ora, dirão vocês, se o narcisismo é um comportamento patológico que fica patente, apesar dos disfarces, adiantaria falar sobre ele em um simples suelto? Entendo na minha visão laica que, pelo menos, algumas pessoas poderão fazer uma autoanálise ou identificar melhor as suas companhias e tirar, quem sabe, algum benefício, pois como disse Shakespeare há 400 anos em “Muito Barulho Por Nada”, Ato III, Cena I, sobre o narcisista: “tem-se em tão alta conta o seu espírito que tudo o mais para ele é sem valia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2000.

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AO NOVO PREFEITO

Todos nós estamos felizes com o fim desta campanha eleitoral para Prefeito. Fortaleza e mais 30 cidades brasileiras tiveram 29 dias de prorrogação. Candidatos e eleitores estão saturados. Apurados os votos, definido o eleito, gostaria de fazer algumas sugestões.
Sei que as promessas foram muitas. Algumas exequíveis, outras decorrentes do clima da campanha e da imposição de marqueteiros políticos, a doce reencarnação eletrônica e midiática de Maquiavel nestes estertores de fim de milênio.
Tenho algumas sugestões, simples, sem precisar de muito dinheiro e fáceis de serem executadas. Só precisará de modéstia para examiná-las e torná-las factíveis. Muitas vezes, o simples é tão óbvio, mas não se vê. Alguém da equipe do prefeito eleito deve ter cuidado de registrar o que foi prometido. Essa mesma pessoa poderia, se desejar, agregar as idéias abaixo. Por outro lado, seria bom que a nova equipe fosse definida logo para a sociedade tomar conhecimento de seus nomes, de seus planos de trabalho e das fontes dos recursos. Fortaleza vai cobrar as promessas feitas, mesmo as mirabolantes. Daqui há quatro anos os eleitores serão ainda mais esclarecidos.
Mas eu falava de sugestões e aí vão elas. Vou enumerá-las para tornar mais fácil. 01. É preciso que a Prefeitura e o Governo do Estado passem a agir com maturidade, bom senso e equilíbrio. Governador e Prefeito são prepostos da população e a ela devem satisfação. Não fica bem essa disputa boba e sem sentido entre Estado e Prefeitura, quando poderiam, entre outras coisas, somar esforços para erradicar os habitantes das áreas de risco, melhorar as condições sanitárias da cidade, equipar os hospitais e definir, seguindo a Constituição, quais as reais áreas de competência do Município e do Estado. Um exemplo dessa briga boba é uma placa colocada no local do antigo Fórum Clóvis Beviláqua, dizendo ser a área de propriedade do Estado. Na verdade, a área é do povo e a ele deve ser restituída, futricas e vaidades à parte. 02. Todo final de ano a Praça Portugal é lindamente decorada. Por que não deixar a iluminação permanente, tirando apenas os adereços natalinos?03. Por que não se aproveita o largo em declive defronte ao Labomar e ao Edifício Granville na Beira Mar e se faz uma praça bonita, com um relógio de sol e canteiros de flores?. Não há flores nas praças de Fortaleza. 04. O Mercado Central dá as costas para a Monsenhor Tabosa e o Centro Dragão do Mar. Bastaria uma alça metálica, com uma desapropriação mínima, para ligá-lo ao maior corredor de compras da cidade. 05. Considerando que as casas que margeiam o lado sul da Avenida Leste Oeste (do viaduto do Marina até à Escola de Aprendizes Marinheiros) não devem ser retiradas, por que não torná-las atraentes, pintando-as de cores diferentes, como se fosse um grande casario e gramando os acessos paralelos à antiga via férrea? 06. Falou-se tanto em “parada fácil” para ônibus, por que não fazer três: nas saídas da Unifor, da Uece no Itaperi e da UFC no Pici? 07. Os taxis locais são de todas as marcas e cores, mas poderiam ser padronizados com um simples adesivo axadrezado com as palavras:Taxi, Fortaleza com amor. Custa fazer? 08. Por qual razão não se utiliza a Rua José Avelino para escoamento de parte do tráfego da Monsenhor Tabosa?. Bastaria alargá-la (enquanto não há edifícios), asfaltá-la e fazer um binário à altura do Sebrae. 09. Criar uma linha de jardineira (ônibus abertos) para turistas entre a Beira Mar e o Mercado Central, passando pelo Centro Histórico, Monsenhor Tabosa, Mercado dos Pinhões, Praia de Iracema e Beira Mar. Qual o impecilho? 10. Criar postos anticorrosivos de salva-vidas ao longo da orla marítima, da Barra do Ceará ao Caça e Pesca. Pessoas se afogam por falta de assistência imediata. 11. Já que não se pode extinguir, por falta de empregos, por que não institucionalizar a atividade de “vigilante de veículos”? Cadastrados, com crachás, fardados e treinados poderiam ser distinguidos de marginais. 12. Em todas as avenidas abertas há grandes paredes remanescentes de desapropriações sem tratamento paisagístico. Por que não utilizar pintores populares e embelezá-las?13. Criar um painel informativo computadorizado na frente do IJF, mostrando o atendimento diário, a internação instantânea, os acumulados no mês e no ano.
Vou parar por falta de espaço. Não de ideias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/10/2000.