Domingo é dia de conversa leve. Acordar relaxado, ler o jornal com os pés para o alto e pensar no almoço tardio com a família ou amigos. Acontece que, por ser dia vadio para a maioria, a cabeça fica disponível para pensar e tirar conclusões. Vamos pensar juntos? Será que você vive em um mundo real ou fantasia demais? Um pouco de fantasia não faz mal, mas tirar os dois pés das pedras da vida pode causar problemas. Sei que você não está nem aí para a tal crise da Grécia. Nem grego falamos. Tampouco se dá conta de que há muitas empresas brasileiras, desde alguns anos, lançando-se na Bolsa de Valores -em queda livre – e trocando papel por dinheiro. Com isso, saem planejando, comprando e entram num eixo sem fim. Há, por exemplo, Brasil afora, centenas de empresas construindo e vendendo imóveis a entregar com prestações iniciais mínimas e prazos longos para pagamento. Há algumas sérias, é claro. Mas, há gente prometendo o que não pode. Na área de petróleo, há um grande xis na questão, vendem o que ainda nem prospectaram, com dinheiro do BNDES, e tampouco sabem se vão refinar e entregar. O mercado financeiro brasileiro diz-se sólido, mas há empresas vendendo recebíveis duvidosos. Os recebíveis são títulos que alguém promete pagar o que comprou, alugou ou arrendou. Foi assim com o mercado de hipotecas americano. Pessoas compraram casas acima de suas rendas. Veio a crise, os empregos diminuíram, hipotecas deixaram de ser pagas e bancos quebraram. O Brasil não é esse mar de rosa que gostaríamos que fosse. As cidades estão repletas de construções e de carros novos vendidos a perder de vista. E se o Zé perder o emprego? Como vai pagar a prestação do carro? Quando isso acontece, títulos perdem o valor e começa o transtorno na economia. E tem gente que compra logo casa, carro e móveis e não pensa como pagar se o emprego pifar. “Deus dá um jeito”, pensam uns, mas Deus anda preocupado também com o vulcão que espalhou cinzas pela Europa e deu um chega pra lá na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, que até bem pouco nadavam em oportunidades. Desculpe ter escrito isto neste domingo, mas sempre é bom desconfiar. Eu, quando confiei, me dei mal.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/2010.
