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PAIXAO CINQUENTONA- TJA – Jornal O Estado

Tenho uma paixão cinquentona por ele. Era meninote e me punha a pé da Rua Major Facundo, desde a Praça do Carmo, para lá. Ia com a despreocupação dos enlevados pela oportunidade do encontro. Morava na cidade calma, com 270 mil pessoas, 15.000 “aparelhos telefônicos”, um grande hotel, o San Pedro, cinco emissoras de rádio, um novo e lindo cinema, o São Luiz. Admirava as vitrines da Aba Filme, na Rua Barão do Rio Branco, mostrando as fotos das meninas bonitas da cidade que tomavam lanches no Tonny’s. Era ainda o velho palco, o mesmo de 1910. Burle Marx não burilara a vegetação hoje ensombrando o lado incorporado da Rua General Sampaio, nem era dele o antigo prédio da escola, depois faculdade, olhando para a entrada da casa da Maria Luiza Rodrigues e o Edifício Lord. Sabia que ele me abriria, como espectador, de alguma forma, as frestas das artes, da interpretação, do canto, da música. Queria apurar sentidos, tinha pressa e curiosidade de saber. E foi lá que vi, entre outros, Paulo Autran, Tonia Carrerro, Procópio e Bibi Ferreira, Eva Todor e até o Zé Trindade, um fracasso, diga-se. Paquerava por lá, ouvindo moças da sociedade declamando poemas aprendidos sob a tutela da Sra. Violeta Modesto de Almeida, em festival promovido pelas “Damas de Jacarecanga”, em benefício dos pobres do Pirambu. Estava lá vendo o piano negro iluminando a magia de Jacques Klein, cearense do Aracati, já famoso concertista internacional, ao tocar sonatas de Beethoven. Em tempos de Semana Santa via o Gólgota, depois Paixão de Cristo. Foi nele que acompanhei o crescimento da Comédia Cearense, de muitos atores e o despertar do teatrólogo Eduardo Campos. . Anos depois, em festa de gala, subi os degraus que levam a seu palco, ao lado do meu pai, para receber orgulhoso o pergaminho da faculdade. Vi tantas peças, anos a fio. Como veem, não é amor recente, nascido depois que Bia Lessa comandou suas mudanças, os jardins surgiram e a frente cresceu, respondendo por todo o lado sul da Praça José de Alencar. É paixão antiga, dos que o conheceram sem climatização, vendo o porteiro “Muriçoca” e o Clóvis Matias, desde sempre. E não poderia deixar de louvar este 17 deste junho, sua data centenária, meu velho amigo, o Theatro José de Alencar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/06/2010.

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CINEMA E SUBSTÂNCIA – Diário do Nordeste

Sabem José Augusto Lopes, Miranda Leão e Pedro Martins Freire, entre outros, do meu velho amor pelo cinema. Não o dos blockbusters/ grandes produções, mas o cinema-arte, aquele a nos intrigar pela não obviedade da trama, a identificação precisa dos cânones do diretor, a estética da composição plástica, a marcação dos protagonistas, a iluminação acertada, os cortes, a trilha musical, o trabalho do continuísta, a remontar cenas interrompidas pelos intervalos obrigatórios, causados pela mudança da luz ou estafa do elenco. Ontem, 19 de junho, foi o dia consagrado ao cinema brasileiro. E o que me alegrou, além da data, foi a lembrança e a honra de um convite recebido. Falo do convite da Editora Valer para ontem participar do lançamento do livro do escritor manaura Márcio Souza, “A substância das sombras – a arte do nosso tempo”, seguido de debate sobre cinema. Márcio Souza é escritor premiado, nascido nos bastidores de jornal, a fazer crítica de cinema, ainda adolescente. Márcio é autor, entre muitos, do clássico livro “Galvez, Imperador do Acre”, tendo sido professor convidado de literatura da University of Califórnia, Berkeley, Estados Unidos. O que isso tem a ver comigo? Muito. Adolescente, entrei, de metido, no Clube de Cinema, dirigido por Darcy Costa. E, como já o fazia, continuei a anotar, com mais precisão de detalhes, todos os filmes assistidos e até fazer apreciações sobre eles. Não duvidem. Tenho os cadernos. Estão lá as páginas amareladas relatando, com despreocupação juvenil, a minha crítica. Por outro lado, gente há ainda a não saber da minha experiência continuada e diária, como jornalista. Fui, sim, por anos, a convite de Eduardo Campos, nos Associados. O pagamento era feito, todos os meses, por Anastácio de Souza, tesoureiro. Um dia desses, com ajuda da historiadora Walda Weyne, consegui resgatar, digitalizado, parte desses escritos jornalísticos dos anos sessenta. São centenas de páginas. Voltando ao fio da meada, gostaria de ter ido a esse lançamento e, principalmente, comparecido ao debate. Parabéns, Márcio Souza. Obrigado, Editora Valer pelo convite. Cinemeiros, somos sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/2010.

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FORTALEZENSE – NOVOS TEMPOS – Jornal O Estado

A Academia Fortalezense de Letras está de parabéns e alegre com a aprovação, sem nenhum voto contrário, do novo Estatuto e Regimento da AFL, na presença de 23 acadêmicos, maioria absoluta, à Assembleia Geral Extraordinária, de 16 de junho de 2010. A Fortalezense é uma academia do Século XXI. Não cabe mais se fixar no belo modelo “ancien garde” da Academia Francesa e da notável ABL, a Brasileira. Uma academia não apenas se funda. Ela se constrói no tempo pelas obras de seus integrantes, pelo respeito à sua imagem pública. Cresce com atitudes sociais e culturais definidas, mesmo havendo divergências, no foro adequado. Ela têm fundamentos, projeto de futuro, frequência habitual, sócios convergentes em torno dela e criação literária . A criação e funcionamento do www.academiafortalezensedeletras.blogspot. diz da nossa inserção no presente midiático, da vontade de ser plural e usar a Internet como veículo auxiliar da difusão da cultura e da informação institucional. Procuramos ser transparentes. A nossa atuação nas duas últimas Bienais do livro mostra que não viemos para coadjuvantes, mas atores no processo de transformação da cultura fortalezense. A Homenagem prestada pela unanimidade dos vereadores da Câmara Municipal de Fortaleza, em novembro de 2009, diz da nossa aceitação e do respeito gerado. Queremos bons acadêmicos nas vagas abertas. Entendemos por bom acadêmico qualquer pessoa, maior de idade, residente permanente de Fortaleza, com produção literária significativa, socialmente aceito(a), que acate as normas da instituição, deseje se candidatar na forma do Edital da vacância, orgulhe-se de a ela pertencer, defenda-a, não dissemine a cizânia, e procure fazê-la brilhar, a partir do aprimoramento do que faz como intelectual e cidadão. As duas edições, 2009 e 2010, das semanas Viajando nos Livros levaram milhares de jovens à contemplação, participação e entusiasmo pelos livros que foram distribuídos, pelas palestras proferidas, peças encenadas, debates realizados e a presença efetiva das academias de jovens que apoiamos com o aplauso do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particular do Ceará e o apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. E sem nenhuma despesa da AFL. A atual Administração já editou a Acta Literária. Publicamos boletins eletrônicos e em versão escrita a todos remetida. O Boletim é registro de fatos e feitos. Neste junho de 2010, convocamos uma Assembleia Geral Extraordinária com publicação prévia do edital no jornal O Estado, no dia 03 de junho de 2010. Também houve convocação por escrito, por correio, e-mail e telefone, para todos os acadêmicos. Os projetos do Estatuto e do Regimento estiveram na Secretaria e no blog, aguardando sugestões. Agora, estão, novamente no blog, com as alterações aprovadas. Como Presidente da Fortalezense e seu eventual guardião até setembro, tento fazer o possível e ajudá-la a crescer em harmonia e ciosa de seu nome. A partir desta semana, seremos a única academia de letras a integrar o Pacto por Fortaleza, iniciativa da Câmara Municipal de Fortaleza. Na próxima segunda-feira estaremos na Universidade Federal do Ceará, junto com a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, pensando a cultura da nossa terra.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/06/2010

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AS COPAS – Diário do Nordeste

Escrevo na quinta. Confesso, não vi nada de excepcional nesta Copa. Tudo igual. Parece jogo eletrônico. A única novidade é o país África do Sul, mesmo desclassificado no futebol, estar sendo desvendado. Gente alegre, cores, dores, problemas e anseios. Não sem quem é o jogador Felipe Melo, com nome de tenista. Procuro a razão do mau humor do Dunga, a ganhar milhões e recrutar uma legião estrangeira sem grande amor à pátria, dizem alguns. São garotos-propaganda de tudo e qualquer coisa. Lamento não entender a razão de jogadores brasileiros usarem brilhantes em suas orelhas. Só se for para afirmar: fiquei rico. Algumas cadeias de televisão estão cheias do dinheiro de anunciantes bilionários, ávidos pela imagem de cada atleta ou seleção. A maioria dos patrocinadores é multinacional e trabalha por pesquisa e números. Pátria é coisa do passado. O mundo deles é o dos interesses. Dos 23 atletas brasileiros, só três jogam no Brasil. O resto joga e desfila em festas e aeroportos da Europa e, quando chegam, são, via de regra, acompanhados de louras siliconadas em pagodes patrocinados por cervejarias. Confesso ter saudades de Tostão, com sua lucidez e talento. Confesso não ter saudade de Zico, com seu azar. Revelo estar impressionado por Pelé ser ainda um dos maiores faturamentos em publicidade. Não vejo ou ouço o Galvão Bueno. Não consigo entender a não convocação de Ronaldinho, o gaúcho, tantas glórias e gols. Juro não saber quanto é a gratificação pelo título. Repórteres dizem que centenas de pessoas viajaram por conta dos cofres da viúva e do futebol brasileiro. Esse mesmo futebol a dever horrores à previdência social, sonegar imposto de renda e dar cobertura e visibilidade a personalidades toscas. Admito não saber bem quem é Ramires e tampouco em que posição joga. Falem-me, por favor, de Thiago Silva. Esta conversa não é ranzinza, é fruto do desapontamento lúcido pela consciência da pura mercantilização do esporte. Depois, virá a Copa de 2014, “a nossa”. O que menos importará será o futebol. Bilhões ficarão nas mãos das mesmas empresas, especializadas em tudo, acopladas ao poder, quaisquer que sejam os eleitos, tais carrapatos em gado mal cuidado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/06/2010.

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LULA E A MENSAGEM – Jornal O Estado

Vi o filme Lula – O filho do Brasil. Primeiro, pensei que era história verídica. Depois, admiti ser estória romanceada. Em seguida, perguntei-me se não seria o uso da neurolinguística (elaboração cerebral da mensagem) transformando-se em programação sensorial do espectador. Cocei a cabeça e vislumbrei a saga de uma “sub-raça”, como o queria Euclides da Cunha ao se dividir entre algoz e alcoviteiro dos nordestinos do interior do Brasil, em “Os Sertões”. Vi algo de Gilberto Freyre com seu “Casa Grande e Senzala” (O Nordeste – de onde saiu Lula – seria a senzala do Brasil do século XX?) e do “brasileiro cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (o líder sindical seria um catalisador ou incendiário?). A mente voou e não sei por qual razão pensei sobre a origem do Mito grego, como caráter explicativo e simbólico da realidade. Relembrei ainda o canadense Marshall McLuhan com o seu livro, em parceria com Quentin Fiore “O Meio é a Mensagem”, de 1967. É óbvio que o filme é meio e as mensagens são extraídas não só dos diálogos, efeitos sonoros e cenários, mas do que cada espectador é, ou sente, a partir de suas estórias de vida que possam provocar mudanças de padrão na sociedade. Dizem que o filme é político. E qual filme não é? Dizem que o filme reescreve a vida de Lula e, certamente, de sua mãe D. Lindu, cujo anagrama (rearranjo das letras de uma palavra) daria algo como Dilnu. Ora, se ele se baseia no livro de Denise Paranaguá, é estória recontada, com direito à fuga do rigor da narrativa biográfica tradicional. O fato é que não achei perda de tempo vê-lo e tampouco concordo com os que execram a família Barreto por ter descoberto o mapa da mina com patrocinadores fortes e gentis. Afinal, os Barretos sempre souberam tirar água de pedra. Não foi sem razão que o sobralense Luiz Carlos Barreto chegou ao Rio sem saber nada, aprendeu fotografia, virou cineasta, produtor amado e odiado por seus colegas. Inveja? Barretão tem dois filhos (Bruno e Fábio) que mexem bem com cinema. Fábio, o diretor de Lula, acidentou-se, dramaticamente, antes da estreia nacional, no dia um deste ano de 2010. Falam em azar. Besteira. Dirigir à noite, no Rio, a 120 km, sem cinto, é imprudência, só isso. Seria bom que cada candidato a cargo majoritário contasse sua vida em filme. Se não têm patrocinadores, o façam em cordel, ensaio ou montem um vídeo. Desculpem, errei. Lula não é candidato.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2010

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A PAZ DO SENHOR – Diário do Nordeste

As igrejas sempre abrem as suas portas para todos. Agora, nestes tempos, costumam, quase sempre, fechá-las com fortes trancas. Vivemos num templo de violência, o horror nas páginas dos jornais, das rádios e nos noticiários sangrentos da televisão. As igrejas, quando abertas, por seus padres ou pastores, sempre nos desejam a paz do Senhor. E ao sairmos para a rua, nua e crua, desponta o nosso medo camuflado, arrebatando a fé procurada. Vemos-nos encurralados. O “flanelinha” pode ser ameaça. O motorista ao lado grita porque não lhes damos passagem na hora da sua buzina estridente. Vendedores de tudo nos abordam ou batem no vidro. Passamos do humor natural para o receio, levados pelos crimes acontecidos, sabidos e comentados dia e noite, de todas as formas. Não vivemos mais em cidades livres, triunfantes em suas alegrias notívagas, etílicas ou futebolísticas, mas entre ameaças nos esgueiramos. Cada habitante parece um refugiado à procura da saída. Casas e edifícios viraram “bunkers” com cercas protetoras, grades em portas e janelas, interfones roufenhos, cães a latir, vigias armados no alto de torres e alarmes prontos para o inesperado. Estamos, cada um de nós, protagonizando – sem saber – cenas de um filme tipo “Os fracos não têm vez”, romance escrito com gosto de sangue por Cormac McCarthy, que virou celulóide nas mãos de Ethan e Joel Cohen. Tão violento que ganhou um “Oscar”. Mas, aqui não é a Hollywood da ficção. É o mundo real em que crianças são mortas em matagais, gangues enfrentam policiais, sequestram-se menores em colégios, empresas de segurança prosperam, assaltam-se bancos semanalmente, fuma-se crack de cócoras à vista de todos, prostitutas e travestis enfrentam as noites das ruas municiados de armas contra maus clientes e adolescentes “alugados” cometem crimes. Em todas as horas, carros são roubados/furtados, assaltos se repetem como o quebrar das ondas. Somos todos personagens da história da cidade em que vivemos do jeito que podemos e não nos alegram essas lembranças reais e duras do dia a dia que parecem um manto a nos cobrir não como proteção, mas como a tenda de um circo de horrores. Até quando?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/2010.

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O OTIMISMO DO ROBERTO – Jornal O Estado

Roberto Gaspar é o próprio Otimismo Itinerante. Vive alegre e circula muito. Gosta de ver e ser visto. Ao vivo e em fotos. Transpondo essa energia para o papel, Roberto é livre, descontraído, amável e sabe embaralhar episódios de sua vida, desde a bacia de picolés comprada com o primeiro dinheiro ganho até vivências em Canoa Quebrada onde se mistura com todos e narra a vida surreal de seu cunhado Rodolpho -“um “príncipe” -; a chegada e a rápida saída de brancosos paulistas; a mulher vendendo óleo de coco, o Raimundo Carpinteiro; a rezadeira e os pais de santo. Ele é ainda, segundo narra, marido apaixonado. Vejam: “Fecho a porta devagar e deixo os anjos a velarem o sono justo da mais linda e mais extraordinária mulher que conheço”. Estar arrebatado de amor em plena maturidade é uma graça e ele extravasa essa alegria em várias partes de suas estórias. Myriam é citada muitas vezes, sempre com amor e carinho explícitos. É paizão e não deixa de citar os filhos, Renata, Adriana, Andréia e Beto, suas outras paixões e acompanhantes de existência/viagens. Multifacetado, não fala só de família e Canoa Quebrada, onde descansa, à beira-mar, o seu corpo nos fins de semana prolongados, admirando o mar e as falésias. Conta conversa com engraxate sobre proeza sexual, viagens ao Quixadá, ao Piauí e se aventura pela Europa, começando pela mãe Lisboa, reza em Fátima, católico declarado que é, segue ao Porto e se deslumbra com Santiago de Compostela. Vai em frente e chega a Paris, pleonasticamente “com alegria e entusiasmo” e não foge da narração de lugares visitados e pelos quais se enamora. Ele é assim, derramado, uma avis-rara neste mundo de pessimismo, futricas e olho grande. O seu livro é um itinerário de estórias vividas, sem preocupação literária. Em todo o percurso zigzagueado do livro há sempre a marca do Roberto. O jeito de gente boa a não baixar a crista e saber se postar em todas as mesas e rodas, seja no chão escaldante de praia quase nativa, ou em rodas sociais das quais participa com regozijo e constância. No afã de escrever, diletante que é, está no terceiro livro, ontem lançado pelo selo da Academia Fortalezense de Letras. Com sua disposição, certamente, não será o último. Escrever é um ato de coragem e isso Roberto tem. Abra o livro, veja a primeira estória, a do título do livro, e prepare-se, com certeza, para chegar à França, sua última parada. Por enquanto, repito.

João Soares Neto,
presidente da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2010

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CUAUHTÉMOC – Diário do Nordeste

Ver a terra do mar é sempre luminoso. Somos e não somos. Pertencemos ou não? Esta semana estive em um veleiro. E o que faz um grande veleiro em mares brasileiros neste ano de 2010? Ele singra as águas do continente americano para dizer da alegria dos que há 200 anos se libertaram do jugo espanhol e criaram, nesta banda da Terra, uma identidade própria, peculiar, multicultural e racial. Octávio Paz advertia que o contador de história tem visões como poeta, daí olho o veleiro Cuauhtémoc e lembro da poeta mexicana Margarita Paz Paredes quando diz em seu poema Busca: “Veio depois às minhas famintas praias e era um peixe rutilante em minhas redes de assombro. Mas sobre a areia desmanchou-se-lhe a estranha pele de azougue”. O México, como o Brasil, é um país derramado em verso e prosa. O México é também um país fustigado pelas guerras, mas teima em viver em paz. A palavra Cuauhtémoc refere-se a um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria azteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes. Assim, o belo veleiro Cuauhtémoc é a águia-proa do México a tocar em missão pacífica os mares e portos do mundo para falar da latinidade que nos é comum. Veio em cruzeiro de instrução da Armada do México, com 246 tripulantes, sob o timão firme do Comandante José Francisco González Galindo, e já aportou, nesta viagem, em Balboa (Panamá) e Barranquilla (Colômbia), Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, de onde seguirá para cidades argentinas, uruguaias, chilenas, venezuelanas e dominicanas, até chegar a Vera Cruz, no México, em 23 de julho próximo. Que suas brancas velas amantes do vento se enfunem com os ares brasileiros e leve a nossa maresia e algas como um toque de amizade em seu casco. Como dizia o meu parente pelo lado materno, Pero Vaz de Caminha: “E Deus que aqui nos trouxe, alguma razão tinha para isso”.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/2010

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QUE BICHO É ESTE? – Jornal O Estado

Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no vídeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que seríamos íntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acolá e tudo saía ao contrário do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, João. E recomecei a mexer em suas funções. Ele era a própria pós-modernidade. Continha televisão, rádio FM, câmera fotográfica de alta resolução, som estéreo, proteção contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas línguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3/Mp4 e capacidade de memória expandida. E eu havia colocado o “chip” do meu antigo e simples celular nele. Eu só queria um telefone. Um que não estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, não conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a vocês, é que não sabia mais fazê-lo. Até pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por não pedir ou dar o seu número a ninguém. Assim, são pouco importunadas. Mas, vez por outra, alguém descobre o número e invade o espaço da privacidade sofrida. Não perguntam onde você está, se pode ou se gostaria de falar. Vão entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringonça – o bicho estava no sonho – era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, coçou a cabeça escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. Não consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Será que a coisa que tinha às mãos era um mero telefone? Não queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir rádio ou tv. Meucci já morreu. Só queria o meu velho celular.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/01/2010.

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ELANO PAULA – Jornal O Estado

Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito. Findo – para alguns – o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e cultivar ou recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser reinstigada para o hoje com ações, boa companhia, leitura de jornal, revista, livro e o maldito ou bendito computador. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. E por saber que a vida não é sonho é que Elano Paula ou Elano Viana de Oliveira Paula perdeu o umbigo em Maranguape e a inocência no Rio de Janeiro. Seria dual ou múltiplo, sempre. Fez-se adulto, ainda jovem. Misturou engenharia civil com serviço militar. E se fez capitão. A guerra já era e ele entrou noutra. A da vida. E por ser hábil em várias coisas, se fez radialista, produtor, compositor, engenheiro, construtor, escritor, pintor e cético/crente. Como os homens não vivem sós e não podem dublar sentimentos viu-se apaixonado por uma voz e uma cabeça e o corpo veio junto. Acasalou-se por pouco menos que meio século. E, enquanto viviam, Elano mexeu com quase tudo, ao mesmo tempo. É testemunha da ação da mortalidade, a contragosto. Daí viu-se só. Mas não seria o ocaso. Veio o acaso – se existe – bem de perto, mas era de longe, do Estado onde o seu pai se exilara para viver como queria. E aí o ardor hibernado, aflorou. E foi jorro de benquerenças, desafiando diferenças e enfrentando até olhares dúbios. Que olhares? Ninguém vive a vida do outro. O outro é que sabe – quando sabe – de si. E então neste primeiro ano da segunda década do século XXI, no mês segundo, do dia 1 ao 5, estamos comemorando o baobá em que se transformou Elano de Paula. E esse baobá frondoso é madeira de lei, com viço, energia, inteligência, argúcia, capacidade crítica e vida plena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/02/2010