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PEDAÇOS DESENCONTRADOS DESTE 2011 – Jornal O Estado

O ano de 2011 estará terminando na próxima semana. Os anos ou os tempos acontecem, simplesmente, não só para o planeta Terra, esse que dividimos com sete bilhões de pessoas, mas em todo o universo ainda em processo de descoberta pelos cientistas com minguadas verbas. Até a Nasa está pifando. E este ano não foi um ano bom para a ciência, pois faltou dinheiro para os governos de quase todos os continentes. Todo ano tem tragédias, mortes, terremotos, posses e derrubadas de governo. É o ávido fadário.
Dilma entra na história como a primeira mulher a assumir a presidência do Brasil. O Estado do Rio perde quase 1.000 pessoas em enchentes nas serras fluminenses, repetindo o que acontecera no ano de 2010. Promessas, verbas, mortos e poucas prisões. Hosni Muburak cai do Governo do Egito e começa a “Primavera Árabe” derrubando outros ditadores do médio-oriente. O Japão sofre um “tsunami” arrastando 10.000 pessoas para o além e vê parte de sua costa totalmente destruída. O ano não terminou e quase tudo já está reconstruído.
Descobriu-se, afinal, que Osama Bin Laden não estava escondido na confluência do Brasil, Paraguai e Argentina onde reina em cascatas a Cachoeira do Iguaçu. Osama morreu no Paquistão, dentro de sua casa que pretendia ser um “bunker”. Não era. Morreu desvalido e seu corpo desapareceu em meio a mar proceloso, não o de Castro Alves. Aguardemos livros sobre o “local que eu descobri”. Em uma Europa com economia gripada o Príncipe William casa com a jovem Kate para o deleite do jornalismo oco e das revistas para desocupados. A cantora Amy Winehouse, uma casa de vinhos ambulante, morre aos 27 por excesso nos costumeiros excessos.
Barak Obama e Michele vem ao Brasil e nada dizem de concreto. Vão a palácios em Brasília, ficam na orla do Rio e visitam o Pão de Açúcar à noite e que tais. O mesmo do mesmo. Hugo Chavéz briga com um câncer em Cuba. Silvio Berlusconi, o coroa que paga para dizerem que é o rei das moçoilas, estrebucha e perde o poder na Itália. Fica com a mídia, a dinheirama, o futebol e grava um disco com canções de amor. Steve Jobs, o design maior da informática, de jeans e camiseta preta, perde a luta contra o câncer e faz logoff aos 57. Todas as tribos se reúnem em Wall Street, inclusive a Maria Luiza Fontenele, e assestam seus estilingues contra as vidraças blindadas de banqueiros desalmados. O nosso Supremo Tribunal Federal aprova a união estável entre pessoas do mesmo sexo sem saber que estará aumentando o número de questões nas varas de família nos próximos anos. Aguardem.
Lula é acometido de câncer na garganta, revela o mal de forma pública e termina o ano com 75% no Ibope da regressão do tumor. Dilma, a presidenta esquentada, revela-se durona e manda sete ministros trapalhões para o vazio que é o eixão do Plano Piloto. O escândalo do “Mensalão” ainda dormita e talvez não acorde. O povo da Rússia parece zangado com o Puttin. A Coréia do Norte perde o seu ditador, Kim Jong-il, que é mostrado em transparente esquife de vidro para o herdeiro do trono, o Kim Júnior. Os soldados americanos deixam o Iraque por falta de grana.
Para falar de flores e espinhos, o filme “O Discurso do Rei” ganha o “Oscar”, o Santos endeusa Neymar e se perde na “Ola” de quatro do Barcelona. Somos melhores em quê? Talvez do “crack”. Roberto Carlos choraminga na Globo, Sílvio Santos está renovado e o Brasil parece acreditar que a crise do mundo vai passar ao largo do equador. Aeronautas prometem atrapalhar o fim-de-ano e o Papai Noel, infelizmente, anda mais em moda que o menino da Galiléia. Uma pena. Não gaste o seu 13º. com o que não precisa e não pose para o ano novo. Vá com temperança, medite ou ore e boa sorte. Felicidades.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/12/2011.

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O FUTURO CHEGOU? Diário do Nordeste

Estamos em 2010 e é ano de eleição. O Brasil chegou ao futuro? Explico: Stefan Zeig era um escritor judeu austríaco. Em 1936, veio ter ao Brasil. Viajou pelo país e se maravilhou com o que viu. Veio, foi e voltou em 1940. Resolveu pedir visto de permanência e acenou em troca com um livro que escrevia: “Brasil- Um país do futuro”. Diz Alberto Dines, no prefácio da edição de 2006 do referido livro, que: ”Zweig efetivamente fez um negócio com o governo brasileiro: em troca do livro, receberia junto com a mulher um visto de residência permanente”. Assim, publicado em 1941, era mais um livro ufanista que surgia. Para o historiador José Murilo de Carvalho: “o título do livro de Zweig transformou-se em ironia”. Zweig comparava o Brasil “cordial” com os horrores do nazismo, do qual fugia. Em certo ponto, ele diz: “Tudo que é brutal repugna os brasileiros”. Assim, esse livro – pouco lido – servia mais como citação de que nós seríamos o – e não um – país do futuro. O jornalista Marcelo Coelho opina: “Seja como for, se muito do que lemos…parece pouco verdadeiro, não é que Zweig esteja mentindo. A realidade é que está mais errada do que seu livro.” Estes comentários estão no Caderno Mais, da Folha, de 18.10.2009. Agora, digo eu, estamos no futuro. E o Brasil é um país ainda de futuro, mas em pouco tempo, será um país destacado. Não só pela desenvoltura do presidente Lula; o será também por nossas riquezas em reservas minerais e florestais, solo vicejante, política fiscal rígida, grau tecnológico de empresas descobrindo mercados no mundo, o peso das “commodities”, o incremento do consumo interno e dos pequenos e médios negócios. O será ainda pela sua inserção na política e mídia internacional, não mais como exótico, mas parceiro confiável. Este país somos nós. Esta Nação são todos, desde os que vivem do Bolsa Família aos que viraram o ano com iguarias. Este país pujante só precisa despoluir-se socialmente. Diminuir as desigualdades, cuidar da infraestrutura, respeitar a natureza, cuidar da saúde, educar crianças e jovens e ficará pronto. 2010 é decisivo para isso. Vote com a razão. Seu voto é o futuro. Você fará o futuro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/2010.

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TEMPO DE FELICIDADE – Jornal O Estado

O Natal e o Ano Novo ensejam trocas de mensagens, telefonemas e contatos pessoais. Em todos, fica claro o desejo – na maioria, sincero – de felicidades para os familiares, amigos, colegas e afins. Da forma como é posta, parece-nos que ficamos com uma carga benfazeja de desejos de felicidades ou, trocando as letras, com uma compulsão de ser feliz. Essa conclusão é uma dúvida que se impõe. Como um chuveiro em que cada gota é um rastro de felicidade a nos molhar. Será que estamos preparados para esse banho de felicidade? Cada um de nós tem, dentro de si, alguém ignorado, guardado a sete chaves, que nos faz duvidar, criticar ou contrariar a opinião que, quase sempre, externamos. Diz o psicanalista Contardo Calligaris que: “no fundo a palavra felicidade é inadequada para representar o que de fato é o ideal das pessoas.” E conclui: “estou absolutamente convencido de que ninguém quer ser contente e satisfeito. Acho que isso não é um ideal para ninguém, não é um ideal cultural possível”. Não concordo com ele, mas admito que o ser humano é por demais complexo para ser rotulado de feliz ou infeliz. Temos momentos felizes, mas há outros, a maioria, em que questionamos essa ideia burguesa do tudo certo, tudo justo, todos felizes. O que nos move é a capacidade de ter anseios, de viver de forma aberta, clara, mesmo que isso nos faça passar do céu ao inferno em pouco tempo. Não há dúvidas de que algumas pessoas aparentam ser mais felizes que outras. Tampouco há dúvidas de que alguns fingem melhor que outros. Todos, enfim, vivem. E o ano que se inicia nos dá a oportunidade de tentar melhorar relacionamentos, descobrir qualidades no outro, ouvir mais que falar e estar sempre pronto a auxiliar sem que o outro nos peça. Isso, quem sabe, possa ser um ideal de felicidade, o de saber-se útil e capaz de assimilar os percalços, maximizar momentos de bem-estar e minimizar os tropeços do dia a dia. A vida é um concurso diário, inscreva-se nele e tenha êxito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/01/2010

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CONCURSOS E VIDA – Diário do Nordeste

É grande o número de jovens que, ao concluir os estudos, seja de nível médio ou superior, se lança na luta para passar em concursos públicos. Não é raro se ouvir: “estou estudando para concursos”. Não importa qual seja. Certamente, a carreira de funcionário público é um dos caminhos para milhões de jovens – e de não jovens – que não conseguem ou perderam a ocupação em empresas privadas ou, simplesmente, optaram por ser “concurseiros”. Acontece que os concursos oferecem milhares de vagas e, todos os anos, milhões de jovens adultos procuram trabalho. Um exemplo: um concurso recente oferece 159 vagas e mais de 6.000 as disputam. Os que não forem aprovados terão sentimento de frustração e, quase sempre, serão cobrados por suas famílias. Enquanto isso, o tempo passa e mais gente entra ano a ano na disputa por um número menor de vagas. Essas pessoas precisam ter foco. Ter foco é saber o que se deseja na vida. A competição é uma espécie de seleção natural fazendo a sua parte. Por capacidade ou sorte cada um faz sua estrada. Assim, anos da fase mais produtiva são gastos em aulas que consistem em aprender a entender ou decorar matérias e assimilar dicas ou “bizus”. É provável estar cometendo equívocos nesta análise rápida. Acontece que a vida não é um bálsamo. Ela é uma constante e infinda luta entre desejos, capacidade e a realidade que nos cobra atitudes. Há alternativas outras, além dos empregos públicos e privados. Veja as suas habilidades, sua formação escolar, o seu “jeito” para fazer determinadas tarefas. Vá à luta. Revi, recentemente, o filme “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Almodóvar. Nele aparece um motorista de táxi que, além da corrida, vende aos passageiros: jornais, revistas, cigarros e coisas mais. Assim, tinha uma renda adicional. Imagine que alguém tenha 500 reais. Pode, por exemplo, iniciar um micro negócio de frutas. Comprar na Ceasa e vender na sua rua, no prédio, no bairro. Venda porta a porta. Lucro diário. Há oportunidades simples à espera de pessoas com garra. Nada é humilhante. A dignidade é saber-se capaz de fazer algo lícito, produtivo e que lhe dê sustento e prazer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/01/2010.

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LULA E A MENSAGEM – Jornal O Estado

Vi o filme Lula – O filho do Brasil. Primeiro, pensei que era história verídica. Depois, admiti ser estória romanceada. Em seguida, perguntei-me se não seria o uso da neurolinguística (elaboração cerebral da mensagem) transformando-se em programação sensorial do espectador. Cocei a cabeça e vislumbrei a saga de uma “sub-raça”, como o queria Euclides da Cunha ao se dividir entre algoz e alcoviteiro dos nordestinos do interior do Brasil, em “Os Sertões”. Vi algo de Gilberto Freyre com seu “Casa Grande e Senzala” (O Nordeste – de onde saiu Lula – seria a senzala do Brasil do século XX?) e do “brasileiro cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (o líder sindical seria um catalisador ou incendiário?). A mente voou e não sei por qual razão pensei sobre a origem do Mito grego, como caráter explicativo e simbólico da realidade. Relembrei ainda o canadense Marshall McLuhan com o seu livro, em parceria com Quentin Fiore “O Meio é a Mensagem”, de 1967. É óbvio que o filme é meio e as mensagens são extraídas não só dos diálogos, efeitos sonoros e cenários, mas do que cada espectador é, ou sente, a partir de suas estórias de vida que possam provocar mudanças de padrão na sociedade. Dizem que o filme é político. E qual filme não é? Dizem que o filme reescreve a vida de Lula e, certamente, de sua mãe D. Lindu, cujo anagrama (rearranjo das letras de uma palavra) daria algo como Dilnu. Ora, se ele se baseia no livro de Denise Paranaguá, é estória recontada, com direito à fuga do rigor da narrativa biográfica tradicional. O fato é que não achei perda de tempo vê-lo e tampouco concordo com os que execram a família Barreto por ter descoberto o mapa da mina com patrocinadores fortes e gentis. Afinal, os Barretos sempre souberam tirar água de pedra. Não foi sem razão que o sobralense Luiz Carlos Barreto chegou ao Rio sem saber nada, aprendeu fotografia, virou cineasta, produtor amado e odiado por seus colegas. Inveja? Barretão tem dois filhos (Bruno e Fábio) que mexem bem com cinema. Fábio, o diretor de Lula, acidentou-se, dramaticamente, antes da estreia nacional, no dia um deste ano de 2010. Falam em azar. Besteira. Dirigir à noite, no Rio, a 120 km, sem cinto, é imprudência, só isso. Seria bom que cada candidato a cargo majoritário contasse sua vida em filme. Se não têm patrocinadores, o façam em cordel, ensaio ou montem um vídeo. Desculpem, errei. Lula não é candidato.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2010

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A PAZ DO SENHOR – Diário do Nordeste

As igrejas sempre abrem as suas portas para todos. Agora, nestes tempos, costumam, quase sempre, fechá-las com fortes trancas. Vivemos num templo de violência, o horror nas páginas dos jornais, das rádios e nos noticiários sangrentos da televisão. As igrejas, quando abertas, por seus padres ou pastores, sempre nos desejam a paz do Senhor. E ao sairmos para a rua, nua e crua, desponta o nosso medo camuflado, arrebatando a fé procurada. Vemos-nos encurralados. O “flanelinha” pode ser ameaça. O motorista ao lado grita porque não lhes damos passagem na hora da sua buzina estridente. Vendedores de tudo nos abordam ou batem no vidro. Passamos do humor natural para o receio, levados pelos crimes acontecidos, sabidos e comentados dia e noite, de todas as formas. Não vivemos mais em cidades livres, triunfantes em suas alegrias notívagas, etílicas ou futebolísticas, mas entre ameaças nos esgueiramos. Cada habitante parece um refugiado à procura da saída. Casas e edifícios viraram “bunkers” com cercas protetoras, grades em portas e janelas, interfones roufenhos, cães a latir, vigias armados no alto de torres e alarmes prontos para o inesperado. Estamos, cada um de nós, protagonizando – sem saber – cenas de um filme tipo “Os fracos não têm vez”, romance escrito com gosto de sangue por Cormac McCarthy, que virou celulóide nas mãos de Ethan e Joel Cohen. Tão violento que ganhou um “Oscar”. Mas, aqui não é a Hollywood da ficção. É o mundo real em que crianças são mortas em matagais, gangues enfrentam policiais, sequestram-se menores em colégios, empresas de segurança prosperam, assaltam-se bancos semanalmente, fuma-se crack de cócoras à vista de todos, prostitutas e travestis enfrentam as noites das ruas municiados de armas contra maus clientes e adolescentes “alugados” cometem crimes. Em todas as horas, carros são roubados/furtados, assaltos se repetem como o quebrar das ondas. Somos todos personagens da história da cidade em que vivemos do jeito que podemos e não nos alegram essas lembranças reais e duras do dia a dia que parecem um manto a nos cobrir não como proteção, mas como a tenda de um circo de horrores. Até quando?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/2010.

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O OTIMISMO DO ROBERTO – Jornal O Estado

Roberto Gaspar é o próprio Otimismo Itinerante. Vive alegre e circula muito. Gosta de ver e ser visto. Ao vivo e em fotos. Transpondo essa energia para o papel, Roberto é livre, descontraído, amável e sabe embaralhar episódios de sua vida, desde a bacia de picolés comprada com o primeiro dinheiro ganho até vivências em Canoa Quebrada onde se mistura com todos e narra a vida surreal de seu cunhado Rodolpho -“um “príncipe” -; a chegada e a rápida saída de brancosos paulistas; a mulher vendendo óleo de coco, o Raimundo Carpinteiro; a rezadeira e os pais de santo. Ele é ainda, segundo narra, marido apaixonado. Vejam: “Fecho a porta devagar e deixo os anjos a velarem o sono justo da mais linda e mais extraordinária mulher que conheço”. Estar arrebatado de amor em plena maturidade é uma graça e ele extravasa essa alegria em várias partes de suas estórias. Myriam é citada muitas vezes, sempre com amor e carinho explícitos. É paizão e não deixa de citar os filhos, Renata, Adriana, Andréia e Beto, suas outras paixões e acompanhantes de existência/viagens. Multifacetado, não fala só de família e Canoa Quebrada, onde descansa, à beira-mar, o seu corpo nos fins de semana prolongados, admirando o mar e as falésias. Conta conversa com engraxate sobre proeza sexual, viagens ao Quixadá, ao Piauí e se aventura pela Europa, começando pela mãe Lisboa, reza em Fátima, católico declarado que é, segue ao Porto e se deslumbra com Santiago de Compostela. Vai em frente e chega a Paris, pleonasticamente “com alegria e entusiasmo” e não foge da narração de lugares visitados e pelos quais se enamora. Ele é assim, derramado, uma avis-rara neste mundo de pessimismo, futricas e olho grande. O seu livro é um itinerário de estórias vividas, sem preocupação literária. Em todo o percurso zigzagueado do livro há sempre a marca do Roberto. O jeito de gente boa a não baixar a crista e saber se postar em todas as mesas e rodas, seja no chão escaldante de praia quase nativa, ou em rodas sociais das quais participa com regozijo e constância. No afã de escrever, diletante que é, está no terceiro livro, ontem lançado pelo selo da Academia Fortalezense de Letras. Com sua disposição, certamente, não será o último. Escrever é um ato de coragem e isso Roberto tem. Abra o livro, veja a primeira estória, a do título do livro, e prepare-se, com certeza, para chegar à França, sua última parada. Por enquanto, repito.

João Soares Neto,
presidente da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2010

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CUAUHTÉMOC – Diário do Nordeste

Ver a terra do mar é sempre luminoso. Somos e não somos. Pertencemos ou não? Esta semana estive em um veleiro. E o que faz um grande veleiro em mares brasileiros neste ano de 2010? Ele singra as águas do continente americano para dizer da alegria dos que há 200 anos se libertaram do jugo espanhol e criaram, nesta banda da Terra, uma identidade própria, peculiar, multicultural e racial. Octávio Paz advertia que o contador de história tem visões como poeta, daí olho o veleiro Cuauhtémoc e lembro da poeta mexicana Margarita Paz Paredes quando diz em seu poema Busca: “Veio depois às minhas famintas praias e era um peixe rutilante em minhas redes de assombro. Mas sobre a areia desmanchou-se-lhe a estranha pele de azougue”. O México, como o Brasil, é um país derramado em verso e prosa. O México é também um país fustigado pelas guerras, mas teima em viver em paz. A palavra Cuauhtémoc refere-se a um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria azteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes. Assim, o belo veleiro Cuauhtémoc é a águia-proa do México a tocar em missão pacífica os mares e portos do mundo para falar da latinidade que nos é comum. Veio em cruzeiro de instrução da Armada do México, com 246 tripulantes, sob o timão firme do Comandante José Francisco González Galindo, e já aportou, nesta viagem, em Balboa (Panamá) e Barranquilla (Colômbia), Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, de onde seguirá para cidades argentinas, uruguaias, chilenas, venezuelanas e dominicanas, até chegar a Vera Cruz, no México, em 23 de julho próximo. Que suas brancas velas amantes do vento se enfunem com os ares brasileiros e leve a nossa maresia e algas como um toque de amizade em seu casco. Como dizia o meu parente pelo lado materno, Pero Vaz de Caminha: “E Deus que aqui nos trouxe, alguma razão tinha para isso”.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/2010

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QUE BICHO É ESTE? – Jornal O Estado

Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no vídeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que seríamos íntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acolá e tudo saía ao contrário do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, João. E recomecei a mexer em suas funções. Ele era a própria pós-modernidade. Continha televisão, rádio FM, câmera fotográfica de alta resolução, som estéreo, proteção contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas línguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3/Mp4 e capacidade de memória expandida. E eu havia colocado o “chip” do meu antigo e simples celular nele. Eu só queria um telefone. Um que não estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, não conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a vocês, é que não sabia mais fazê-lo. Até pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por não pedir ou dar o seu número a ninguém. Assim, são pouco importunadas. Mas, vez por outra, alguém descobre o número e invade o espaço da privacidade sofrida. Não perguntam onde você está, se pode ou se gostaria de falar. Vão entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringonça – o bicho estava no sonho – era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, coçou a cabeça escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. Não consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Será que a coisa que tinha às mãos era um mero telefone? Não queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir rádio ou tv. Meucci já morreu. Só queria o meu velho celular.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/01/2010.

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ELANO PAULA – Jornal O Estado

Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito. Findo – para alguns – o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e cultivar ou recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser reinstigada para o hoje com ações, boa companhia, leitura de jornal, revista, livro e o maldito ou bendito computador. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. E por saber que a vida não é sonho é que Elano Paula ou Elano Viana de Oliveira Paula perdeu o umbigo em Maranguape e a inocência no Rio de Janeiro. Seria dual ou múltiplo, sempre. Fez-se adulto, ainda jovem. Misturou engenharia civil com serviço militar. E se fez capitão. A guerra já era e ele entrou noutra. A da vida. E por ser hábil em várias coisas, se fez radialista, produtor, compositor, engenheiro, construtor, escritor, pintor e cético/crente. Como os homens não vivem sós e não podem dublar sentimentos viu-se apaixonado por uma voz e uma cabeça e o corpo veio junto. Acasalou-se por pouco menos que meio século. E, enquanto viviam, Elano mexeu com quase tudo, ao mesmo tempo. É testemunha da ação da mortalidade, a contragosto. Daí viu-se só. Mas não seria o ocaso. Veio o acaso – se existe – bem de perto, mas era de longe, do Estado onde o seu pai se exilara para viver como queria. E aí o ardor hibernado, aflorou. E foi jorro de benquerenças, desafiando diferenças e enfrentando até olhares dúbios. Que olhares? Ninguém vive a vida do outro. O outro é que sabe – quando sabe – de si. E então neste primeiro ano da segunda década do século XXI, no mês segundo, do dia 1 ao 5, estamos comemorando o baobá em que se transformou Elano de Paula. E esse baobá frondoso é madeira de lei, com viço, energia, inteligência, argúcia, capacidade crítica e vida plena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/02/2010