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CUAUHTÉMOC – Diário do Nordeste

Ver a terra do mar é sempre luminoso. Somos e não somos. Pertencemos ou não? Esta semana estive em um veleiro. E o que faz um grande veleiro em mares brasileiros neste ano de 2010? Ele singra as águas do continente americano para dizer da alegria dos que há 200 anos se libertaram do jugo espanhol e criaram, nesta banda da Terra, uma identidade própria, peculiar, multicultural e racial. Octávio Paz advertia que o contador de história tem visões como poeta, daí olho o veleiro Cuauhtémoc e lembro da poeta mexicana Margarita Paz Paredes quando diz em seu poema Busca: “Veio depois às minhas famintas praias e era um peixe rutilante em minhas redes de assombro. Mas sobre a areia desmanchou-se-lhe a estranha pele de azougue”. O México, como o Brasil, é um país derramado em verso e prosa. O México é também um país fustigado pelas guerras, mas teima em viver em paz. A palavra Cuauhtémoc refere-se a um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria azteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes. Assim, o belo veleiro Cuauhtémoc é a águia-proa do México a tocar em missão pacífica os mares e portos do mundo para falar da latinidade que nos é comum. Veio em cruzeiro de instrução da Armada do México, com 246 tripulantes, sob o timão firme do Comandante José Francisco González Galindo, e já aportou, nesta viagem, em Balboa (Panamá) e Barranquilla (Colômbia), Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, de onde seguirá para cidades argentinas, uruguaias, chilenas, venezuelanas e dominicanas, até chegar a Vera Cruz, no México, em 23 de julho próximo. Que suas brancas velas amantes do vento se enfunem com os ares brasileiros e leve a nossa maresia e algas como um toque de amizade em seu casco. Como dizia o meu parente pelo lado materno, Pero Vaz de Caminha: “E Deus que aqui nos trouxe, alguma razão tinha para isso”.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/2010

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QUE BICHO É ESTE? – Jornal O Estado

Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no vídeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que seríamos íntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acolá e tudo saía ao contrário do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, João. E recomecei a mexer em suas funções. Ele era a própria pós-modernidade. Continha televisão, rádio FM, câmera fotográfica de alta resolução, som estéreo, proteção contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas línguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3/Mp4 e capacidade de memória expandida. E eu havia colocado o “chip” do meu antigo e simples celular nele. Eu só queria um telefone. Um que não estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, não conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a vocês, é que não sabia mais fazê-lo. Até pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por não pedir ou dar o seu número a ninguém. Assim, são pouco importunadas. Mas, vez por outra, alguém descobre o número e invade o espaço da privacidade sofrida. Não perguntam onde você está, se pode ou se gostaria de falar. Vão entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringonça – o bicho estava no sonho – era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, coçou a cabeça escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. Não consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Será que a coisa que tinha às mãos era um mero telefone? Não queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir rádio ou tv. Meucci já morreu. Só queria o meu velho celular.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/01/2010.

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ELANO PAULA – Jornal O Estado

Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito. Findo – para alguns – o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e cultivar ou recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser reinstigada para o hoje com ações, boa companhia, leitura de jornal, revista, livro e o maldito ou bendito computador. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. E por saber que a vida não é sonho é que Elano Paula ou Elano Viana de Oliveira Paula perdeu o umbigo em Maranguape e a inocência no Rio de Janeiro. Seria dual ou múltiplo, sempre. Fez-se adulto, ainda jovem. Misturou engenharia civil com serviço militar. E se fez capitão. A guerra já era e ele entrou noutra. A da vida. E por ser hábil em várias coisas, se fez radialista, produtor, compositor, engenheiro, construtor, escritor, pintor e cético/crente. Como os homens não vivem sós e não podem dublar sentimentos viu-se apaixonado por uma voz e uma cabeça e o corpo veio junto. Acasalou-se por pouco menos que meio século. E, enquanto viviam, Elano mexeu com quase tudo, ao mesmo tempo. É testemunha da ação da mortalidade, a contragosto. Daí viu-se só. Mas não seria o ocaso. Veio o acaso – se existe – bem de perto, mas era de longe, do Estado onde o seu pai se exilara para viver como queria. E aí o ardor hibernado, aflorou. E foi jorro de benquerenças, desafiando diferenças e enfrentando até olhares dúbios. Que olhares? Ninguém vive a vida do outro. O outro é que sabe – quando sabe – de si. E então neste primeiro ano da segunda década do século XXI, no mês segundo, do dia 1 ao 5, estamos comemorando o baobá em que se transformou Elano de Paula. E esse baobá frondoso é madeira de lei, com viço, energia, inteligência, argúcia, capacidade crítica e vida plena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/02/2010

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ENCONTRO ACIDENTAL – Diário do Nordeste

Andava eu pela orla em horário que não o de costume. Manhã alta, sol derretendo. De repente, vejo alguém que me parece íntimo. Fazia flexões de pernas amparado em um poste. Tal como o faço. Apresto o olhar, reflito e concluo que já o vi em solenidades, televisão e jornal, mas nunca havíamos falado. Em dúvida, perguntei-lhe o nome. Confirmou, com simplicidade. Era quem pensava. Estávamos de calção e camiseta. Somos da mesma década e, por conseguinte, imaginamos saber algo do Brasil desde muito tempo. Cada um com seu olhar. Carregava uma garrafa de água na mão direita e nada na cabeça suada que sofria com o sol. Recomendei que usasse um boné. Responde que o perdera no último voo. Enveredamos pelas sendas que mais gosta: política e Brasil. Fomos de fio a pavio. Do que fizera, do que deixara de fazer e como se sentia hoje na vida que não planejara. Impuseram-na e tiraram-lhe a legitimidade necessária para estar, quem sabe, no lugar dela nesta pugna de 2010. Apesar disso, estará junto para o que der e vier. Sua voz ainda traz o jeito mineiro do interior, não o erudito dos personagens modernistas de João Guimarães Rosa, em “Primeiras Estórias”, mas, quem sabe, o da simplicidade da linguagem de Fernando Sabino. Falou da mãe, que tem a idade da minha, e hoje, em face de sua nova faina, ganhou a primeira casa própria em toda a sua vida de mulher do interior. Ele, “globetrotter” por vida e circunstâncias, resolveu, agora, sair da cidade grande para morar nos arredores, mas sem deixar de cuidar dos escritórios que lá montou em profissão até então inativa e hoje em perfeita ordem. Disse que estivera em Portugal, não era dado a vinhos e comilanças e isso o deixara com um laivo de ardência que não o disponibilizava para o guaraná artesanal. Caminhávamos em direção ao sol. Cumprimentei amigos que não o identificaram. Aumentamos os nossos passos enquanto a terra dos irmãos Castro entra no papo e ele, que lá morara, acredita que, nesta década, a pequena ilha manterá o brilho eclipsado pelos embargos já nos estertores. Ao final, sob uma copa de árvore, pede licença e consulta o seu BlackBerry. Deixa seu e-mail. Apertamos as mãos. Atravessa a pista.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2010.

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SOCIEDADE CONSULAR – Jornal O Estado

A Sociedade Consular do Ceará reúne, atualmente, os cônsules honorários dos seguintes países: Alemanha, Dieter Gerding; Áustria, Elfriede Reinhilde Lima; Belize, Airton Teixeira; Chile, Cleber Cunha; Colômbia, Maurício Duran Dominguez; Congo, Antônio Farrajota; Finlândia, Ednilton Soárez; França, Fernanda Jensen; Holanda, Annette de Castro; Hungria, Zsofia Erros Sales; Itália, Roberto Misici; México, João Soares Neto; Noruega e Suécia, Marcos de Castro; Portugal, Francisco Neto Brandão; Thecoslováquia, Raimundo Viana; Romênia, Luciano Maia; e Uruguai, José Maria Zanocchi. Há boas perspectivas de novos associados para, reunidos e em consenso, torna-la mais forte e coesa. O cônsul honorário é pessoa escolhida entre candidatos, após profunda e criteriosa análise de seu currículo e história pessoal pelo governo do país representado para atuar em determinadas áreas geográficas, podendo abranger vários estados ou apenas um. Após a análise do país indicador, o governo brasileiro, através do Ministério das Relações Exteriores, em exame conjunto com o Ministério da Justiça, concede – ou não – permissão para atuar e lhe é expedida uma Carta Patente. Cada Cônsul Honorário passa a ser portador de Carteira de Identidade do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com matrícula própria, explicitando sua função. O Cônsul Honorário é responsável pelo registro cadastral de todos os nacionais do país representado, aos quais deve dar apoio e orientação, ao ser solicitado. Por outro lado, ele é o elo entre a sua Embaixada e as empresas do país representado com os governos estaduais e municipais, entidades de classe, federações e associações da indústria, comércio e serviço do(s) estado(s) onde tem jurisdição. A atividade de Cônsul Honorário não lhe dá nenhum tipo de remuneração, mas o obriga a, em casos concretos, a manter uma sede, receber autoridades, participar de solenidades, fazer viagens, ir a hospitais, delegacias de polícia e até a necrotérios para reconhecimento e autorizar trasladação de corpos. Cada Cônsul Honorário é ligado a um Cônsul pré-determinado da Embaixada de seu país, com quem troca informações sobre concessão de vistos, missões comerciais, mostras de arte, comunicação social etc. Voltando à Sociedade Consular do Ceará, ela estava sendo presidida pelo Cônsul Honorário da Suécia e Noruega, Marcos de Castro, mas, nesta semana, houve a eleição de uma nova diretoria cuja posse será às 19h00min horas do próximo dia 21 de fevereiro, uma segunda-feira, no Centro Cultural Oboé, na Rua Maria Tomásia, Aldeota. Os novos integrantes da diretoria da SCC estão cônscios de suas responsabilidades e esperam ter relacionamento mais próximo com as autoridades governamentais, de modo a ensejar afinidades e concretização de negócios beneficiando nossas exportações e importações de bens e serviços, bem como a divulgação adequada da educação, cultura e das artes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/02/2011.

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O QUE É MBA? – Diário do Nordeste

Recebo telefonema de pessoa amiga referindo-se a tópico que abordei último domingo neste DN: a baixa qualidade do ensino brasileiro. Pede que fale “do engodo que são, em grande maioria, os chamados MBAs, espalhados pelo Brasil”. Na verdade, MBA é, originariamente, Master in Business Administration, curso de dois anos de mestrado, criado nos Estados Unidos e disseminado pelo mundo. Profissionais de nível superior, independente de suas formações, se dispõem a fazer esse mestrado para concorrer no competitivo mercado de trabalho de gestão que cobram de engenheiros, médicos, economistas e outros, capacitação e uniformização de linguagem técnica para suportar a dureza da vida profissional. A Harvard Business School era a irradiadora desses cursos. Entretanto, a crise da economia americana em 2008 produziu quebras de empresas e demissões, com alerta para a mudança dos seus currículos. Segundo lista do jornal inglês “Financial Times”, a Harvard caiu para o 3º. lugar no ranking. Patriotada à parte, o jornal escolheu a London Business School(junto com a Wharton/Penn) como a primeira da lista dos 20 melhores cursos de MBA do mundo. Entristece-nos o fato de nenhuma universidade brasileira haver sido incluída. São dez americanas. França, China, Índia e Espanha têm duas. Inglaterra e Suíça ficaram com uma, cada. Nesta semana, Sabine Righetti, jornalista da Folha, escreveu a reportagem “Para Inglês Não Ver”, lamentando que o nosso ensino superior só agora esteja se internacionalizando. Diz ser a língua inglesa básica para a interação de alunos e professores. Sei, por exemplo, que a Unifor está propiciando intercâmbios com universidades estrangeiras. O que ela faz é abrir a mente de professores e dos jovens para o mundo de agora, ao mesmo tempo em que estabelecem redes sociais para seus futuros profissionais. Voltando aos MBAs brasileiros, muitos são prosaicas pós-graduações – sem reprovações – realizadas em alinhavados fins de semana com estudantes de olho no relógio. Assim, são formas rápidas e fáceis de ganhar dinheiro de pessoas que ainda acreditam em diplomas, sem cuidar da sua formação continuada e ajustada à mutante realidade.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2011.

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CUIDADO COM A CHINA – Jornal O Estado

Creio que estamos nos preocupando demais com as crises do mundo árabe/muçulmano e esquecendo a China. Não que as crises e ditaduras do mundo árabe/muçulmano não devam nos preocupar. A China é um país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Capital e interior. Não como turista, mas procurando ver o que não nos mostram e o que estava atrás de muros. Lembram os muros onde os toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois muitas micro-casas (6 m2 ou um pouco mais) ficam atrás de muros parecidos. Alguns muros são bonitos, tem até paisagismo moderno, mas na “passagem do toureiro” para a parte interna há uma brutal diferença. Há ainda muita pobreza na China, a diferença é que o jovem chinês tem mais ambição e foco que qualquer rapaz do mundo ocidental. Eles sabem que só há uma saída para cair fora dos guetos em que vivem, o conhecimento. Assim, estudam, mas para valer. Trabalham, igualmente, sem descanso. As “roupas comuns dependuradas” mostram como se assemelham às favelas brasileiras. Por outro lado, fora dos muros e de edifícios antigos e decadentes, há a China rica, esfuziante, com os mesmos luminosos bregas de Las Vegas. Há os chineses que atingiram o patamar do bem-estar, embora morem em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram os hábitos, vestem roupas copiadas dos ocidentais e até se acostumaram a beber vinho. Um exemplo: no ano passado, 2010, a China foi o maior consumidor do mundo de vinho francês tipo bordeaux. Consumiram 20 milhões de garrafas. Isso não é nada se compararmos com a população de 1,6 bilhão de pessoas, mas é um indício. Os deslumbrados de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Os casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos, não só nos hotéis internacionais, mas nas ruas e em centros comerciais. Você pode comprar bolsas Louis Vuitton originais em lojas do grupo francês LVMH ou, simplesmente, optar pelas imitações em mercados populares. Iguais os da Rua 25 de Março, em São Paulo. Dizia, no começo, que devemos nos preocupar com a China. Hoje, a China industrializada e poderosa – 2ª. economia do mundo – tem tentáculos em toda a África. Nada de ideologia ou guerra. A China tem exércitos de empresas trabalhando em todas as áreas industriais que vão, pouco a pouco, sendo quase donos de parte considerável dos países africanos e em outros continentes. Aqui no Brasil, já se sabe, a China é a nossa maior parceira comercial e vai em frente, acreditem. Hoje, penso eu, que a tal geração Y, a nascida depois dos anos 80 do século passado, deveria estar estudando Mandarim, a língua de lá. A geração Z – que ora assim denomino – nascida já neste século, cruzará, sem erro, com grupos de chineses, seus negócios, universidades e a nova cultura sínica que tem a sabedoria de agregar toda a tecnologia contemporânea, mas sem esquecer os velhos sábios, lendo a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Analectos”, de Confúcio. Esses livros, tais como a Bíblia, têm várias versões através dos séculos, mas dão uma ideia de como a filosofia “Tao” serve, inclusive, para os chineses endinheirados de hoje que se sentem os “tais” e acalentam os sonhos dos pobres que estudam, lutam e pensam atingir outros patamares de vida. Aprender sem pensar é tempo perdido, dizia Confúcio.
João Soares Neto, escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/02/2011.

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EDSON E FRIAS – Diário do Nordeste

Esta semana, lendo a edição comemorativa dos 90 anos da Folha de São Paulo, estabeleci conexão entre Edson Queiroz e Octávio Frias. Ambos eram comerciantes, como Frias gostava de ser chamado, ou empresários, ou empreendedores, como hoje se diz. A diferença entre Edson e Frias é que este comprara em 1962, em sociedade com Carlos Caldeira Filho, a Folha, que já havia passado por duas outras mãos, desde a sua fundação, em 1921. Edson – empresário de sucesso na distribuição de gás liquefeito de petróleo, indústria de eletrodomésticos e pela implantação da Universidade de Fortaleza, decidiu fazer um jornal, a partir do nada. E o montou de forma acelerada, mas planejada, com bons profissionais e consolidou o seu grupo de comunicação, possuidor de televisão e rádio. Ambos, Edson e Frias, eram diretos em seus objetivos. O jornalista Clovis Rossi conta, nessa edição comemorativa, conversa tida com Frias. Rossi era correspondente em Buenos Aires e estava cansado de ficar lá, queria viajar. Ele escreve: “Frias, cortou logo o papo com uma frase que não consegui esquecer… O que você prefere, viajar mais ou ter a independência que tem para escrever o que quiser?”. Edson era também direto, obstinado e ajudava, sempre de forma discreta, como o fez com o seu diretor Astrolábio Queiroz, até o fim. O mesmo, com o radialista Paulino Rocha. Lembro do dia 04 de dezembro de 1981, quando saiu o número zero (teste) do Diário do Nordeste. Amigos de Edson Queiroz, entre eles, eu e o Antônio dos Santos, então presidente da Assembleia Legislativa, que, interinamente, ocupava o Governo do Ceará, confraternizavam, visitavam as oficinas e saiam de lá com exemplares do DN ofertados por Edson, em mangas de camisa e radiante. O primeiro número saiu logo no dia 19. Trazia o editorial “Compromisso de Luta”, falando dos objetivos do jornal com novidades como a segmentação em cadernos e excelente feição gráfica. Hoje, quase 30 anos passados, relembrei esses fatos ao ler a bela edição comemorativa da Folha que, inclusive, relata de forma clara e sem sofismas seus sucessos, erros e percalços. Como dizia Machado de Assis: “O jornal é a verdadeira forma de república do pensamento”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2011.

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CRÔNICA DO CARNAVAL – Jornal O Estado

Acabou-se a esbórnia. Escrevo nesta quarta, cinza por chuvas que caem em meio a uma cidade que se repovoa depois de quatro dias de sandices. Para que serve mesmo o carnaval? Pergunta um amigo filósofo. Sei não. Apenas sei que é atrelado à quaresma, essa trégua cristã de quarenta dias que, quase sempre, termina em outros feriados não tão santos. A propósito, a CNBB, da Igreja Romana, lançou agora a Campanha da Fraternidade deste ano: Discutir a vida no nosso planeta. A vida eterna fica para depois. Do Rio, Danuza Leão resmunga contra a falta de sentido dos espetáculos do Sambódromo e faz crer que ele apenas é reduto de bicheiros, traficantes, figurantes, celebridades (ela que o foi no século passado, fala de cátedra) e de turistas incautos e insones com as nádegas anestesiadas, enquanto Roberto Carlos e Gisele Bundchen são mostrados com exclusividade por uma rede de televisão. Acabou a festa. Limpe-se o que foi sujo. A presidente Dilma voltou da “Barreira do Inferno”, seu local escolhido para descansar no Rio Grande do Norte. Deveria lançar foguetes contra certos políticos. Enquanto isso, cervejeiros foram presos no Rio de Janeiro por fazer xixi nas ruas. Alegam, alguns dos detidos, que as cabinas plásticas são como celas de presídio, pequenas e sujas. Devem saber do que falam. O ex e futuro candidato a candidato a presidente, Aécio Neves, aparece em feijoada boca livre com a camisa estampando a palavra devassa e é alvo de beijos encomendados ou espontâneos. Romário, o deputado federal, agora de passaporte diplomático, faz o que gosta: aproveita o carnaval para jogar futebol com amigos em país que integrava a URSS. “Bruna, a surfistinha” é vista por todos, até pelo Contardo Calligaris, psicanalista e cronista, que diz ter gostado do filme. Leonilson, artista cearense, nascido no Benfica, morto em 1993, aos 36 anos, ocupa página inteira da Folha. Na sua terra quase não se fala dele. Há uma escultura sua na Beira Mar da Praia de Iracema. Maria Luiza Fontenele e Rosa da Fonseca aproveitam o público da Domingos Olímpio e divulgam sua utopia em folhetos. Por falar em utopia, a feminista Rose Maria Muraro (lembram dela?), aos 80 anos, prepara o seu 36º. Livro: “Um mundo ao alcance de todos”. Quando será isso? Um carro, dirigido por mulher, se recolhe ao leito do canal da Aguanambi de pneus para cima. Ninguém morreu, ainda bem. Nos condomínios lotados da orla leste caminhões limpa-fossas recolhem dejetos, deixam olores no ar e respingos nas estradas. Jovens morrem no país inteiro. Só na Bahia, de todos os santos e axés, foram 4.120 atendimentos em postos de saúde. O péssimo livro “A Cabana”, de William P. Young, continua entre os mais vendidos, certamente para pessoas que deveriam aprimorar a leitura. Raymundo Netto prossegue com sua boa e “serial” crônica “Coisas engraçadas de não se rir”. O Dia da Mulher, terça, 08, foi lembrado por poucos. Estavam quase todos invocando Baco. Evoé. Parabéns a todas as mulheres, construtoras de um mundo sem limites neste século 21.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/03/2011.

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DIA DA POESIA – Diário do Nordeste

Poetas mourejam palavras, metafísicos da escrita que são. Acolhem e transmudam em versos a sensibilidade, os sinais, os símbolos, os sentidos, os sentimentos e os sonhos. Madame de Stael, em De l’Allemagne fala que “a poesia é a linguagem oficial dos cultos”. Concordo com ela. Há que haver muita estrada para atingir a Meca do saber. É preciso vida vivida antes de alinhar vocábulos, procurar metáforas, quiçá um mero verso. Dizia T.S. Eliot que “a poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”. Estar poeta não é ser poeta. O poeta fica, os outros, passam. Castro Alves está, altaneiro, em uma gávea perpétua. Olavo Bilac vive uma alvorada de amor eterno. Carlos Drummond de Andrade faz versos livres no paraíso dos poetas e João Cabral de Melo Neto é o diplomata do uni verso. Vinícius de Moraes povoa birosca celeste cantarolando. Cecília Meireles, talvez atrás da coisa que passa, virou asteroide. A poesia não explica, ela é a dúvida. A poesia não ensina, ajuda a pensar. Alcides Pinto conversa com São Francisco, não mais no Estreito, mas na imensidão do Cosmo. Antônio Tomás, o padre, polvilha sonetos em nimbos celestiais. Gerardo de Melo Mourão fala sobre a invenção do mar para a escuta de Luís de Camões. O poeta, digo eu, não o é porque se assume. Sê-lo-á se for vero e isso tempo leva. Amanhã, segunda, 14 de março, é o Dia da Poesia. A galeria Benficarte acolhe poetas brasileiros, vivos e no além, para mostrar o que disseram sobre o ser mais misterioso do planeta: a Mulher. Não há quem a defina sem que falte algo essencial. A mulher habita a sensatez, mas palmilha o descompasso. Seu coração pode estar fechado, mas suas artérias permitem a circulação do bicho-homem, esse ser dependente/independente que, com ela, povoa o mundo. Virgílio, poeta latino, dizia que a mulher é “inconstante e sempre mutável”. Quem poderia chegar mais próximo de sua essência? O poeta. Por tal razão foram reunidos, de forma plural, para homenagear a mulher, no dia consagrado ao poeta Castro Alves.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2011.