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CUIDADO COM A CHINA – Jornal O Estado

Creio que estamos nos preocupando demais com as crises do mundo árabe/muçulmano e esquecendo a China. Não que as crises e ditaduras do mundo árabe/muçulmano não devam nos preocupar. A China é um país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Capital e interior. Não como turista, mas procurando ver o que não nos mostram e o que estava atrás de muros. Lembram os muros onde os toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois muitas micro-casas (6 m2 ou um pouco mais) ficam atrás de muros parecidos. Alguns muros são bonitos, tem até paisagismo moderno, mas na “passagem do toureiro” para a parte interna há uma brutal diferença. Há ainda muita pobreza na China, a diferença é que o jovem chinês tem mais ambição e foco que qualquer rapaz do mundo ocidental. Eles sabem que só há uma saída para cair fora dos guetos em que vivem, o conhecimento. Assim, estudam, mas para valer. Trabalham, igualmente, sem descanso. As “roupas comuns dependuradas” mostram como se assemelham às favelas brasileiras. Por outro lado, fora dos muros e de edifícios antigos e decadentes, há a China rica, esfuziante, com os mesmos luminosos bregas de Las Vegas. Há os chineses que atingiram o patamar do bem-estar, embora morem em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram os hábitos, vestem roupas copiadas dos ocidentais e até se acostumaram a beber vinho. Um exemplo: no ano passado, 2010, a China foi o maior consumidor do mundo de vinho francês tipo bordeaux. Consumiram 20 milhões de garrafas. Isso não é nada se compararmos com a população de 1,6 bilhão de pessoas, mas é um indício. Os deslumbrados de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Os casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos, não só nos hotéis internacionais, mas nas ruas e em centros comerciais. Você pode comprar bolsas Louis Vuitton originais em lojas do grupo francês LVMH ou, simplesmente, optar pelas imitações em mercados populares. Iguais os da Rua 25 de Março, em São Paulo. Dizia, no começo, que devemos nos preocupar com a China. Hoje, a China industrializada e poderosa – 2ª. economia do mundo – tem tentáculos em toda a África. Nada de ideologia ou guerra. A China tem exércitos de empresas trabalhando em todas as áreas industriais que vão, pouco a pouco, sendo quase donos de parte considerável dos países africanos e em outros continentes. Aqui no Brasil, já se sabe, a China é a nossa maior parceira comercial e vai em frente, acreditem. Hoje, penso eu, que a tal geração Y, a nascida depois dos anos 80 do século passado, deveria estar estudando Mandarim, a língua de lá. A geração Z – que ora assim denomino – nascida já neste século, cruzará, sem erro, com grupos de chineses, seus negócios, universidades e a nova cultura sínica que tem a sabedoria de agregar toda a tecnologia contemporânea, mas sem esquecer os velhos sábios, lendo a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Analectos”, de Confúcio. Esses livros, tais como a Bíblia, têm várias versões através dos séculos, mas dão uma ideia de como a filosofia “Tao” serve, inclusive, para os chineses endinheirados de hoje que se sentem os “tais” e acalentam os sonhos dos pobres que estudam, lutam e pensam atingir outros patamares de vida. Aprender sem pensar é tempo perdido, dizia Confúcio.
João Soares Neto, escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/02/2011.

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EDSON E FRIAS – Diário do Nordeste

Esta semana, lendo a edição comemorativa dos 90 anos da Folha de São Paulo, estabeleci conexão entre Edson Queiroz e Octávio Frias. Ambos eram comerciantes, como Frias gostava de ser chamado, ou empresários, ou empreendedores, como hoje se diz. A diferença entre Edson e Frias é que este comprara em 1962, em sociedade com Carlos Caldeira Filho, a Folha, que já havia passado por duas outras mãos, desde a sua fundação, em 1921. Edson – empresário de sucesso na distribuição de gás liquefeito de petróleo, indústria de eletrodomésticos e pela implantação da Universidade de Fortaleza, decidiu fazer um jornal, a partir do nada. E o montou de forma acelerada, mas planejada, com bons profissionais e consolidou o seu grupo de comunicação, possuidor de televisão e rádio. Ambos, Edson e Frias, eram diretos em seus objetivos. O jornalista Clovis Rossi conta, nessa edição comemorativa, conversa tida com Frias. Rossi era correspondente em Buenos Aires e estava cansado de ficar lá, queria viajar. Ele escreve: “Frias, cortou logo o papo com uma frase que não consegui esquecer… O que você prefere, viajar mais ou ter a independência que tem para escrever o que quiser?”. Edson era também direto, obstinado e ajudava, sempre de forma discreta, como o fez com o seu diretor Astrolábio Queiroz, até o fim. O mesmo, com o radialista Paulino Rocha. Lembro do dia 04 de dezembro de 1981, quando saiu o número zero (teste) do Diário do Nordeste. Amigos de Edson Queiroz, entre eles, eu e o Antônio dos Santos, então presidente da Assembleia Legislativa, que, interinamente, ocupava o Governo do Ceará, confraternizavam, visitavam as oficinas e saiam de lá com exemplares do DN ofertados por Edson, em mangas de camisa e radiante. O primeiro número saiu logo no dia 19. Trazia o editorial “Compromisso de Luta”, falando dos objetivos do jornal com novidades como a segmentação em cadernos e excelente feição gráfica. Hoje, quase 30 anos passados, relembrei esses fatos ao ler a bela edição comemorativa da Folha que, inclusive, relata de forma clara e sem sofismas seus sucessos, erros e percalços. Como dizia Machado de Assis: “O jornal é a verdadeira forma de república do pensamento”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2011.

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CRÔNICA DO CARNAVAL – Jornal O Estado

Acabou-se a esbórnia. Escrevo nesta quarta, cinza por chuvas que caem em meio a uma cidade que se repovoa depois de quatro dias de sandices. Para que serve mesmo o carnaval? Pergunta um amigo filósofo. Sei não. Apenas sei que é atrelado à quaresma, essa trégua cristã de quarenta dias que, quase sempre, termina em outros feriados não tão santos. A propósito, a CNBB, da Igreja Romana, lançou agora a Campanha da Fraternidade deste ano: Discutir a vida no nosso planeta. A vida eterna fica para depois. Do Rio, Danuza Leão resmunga contra a falta de sentido dos espetáculos do Sambódromo e faz crer que ele apenas é reduto de bicheiros, traficantes, figurantes, celebridades (ela que o foi no século passado, fala de cátedra) e de turistas incautos e insones com as nádegas anestesiadas, enquanto Roberto Carlos e Gisele Bundchen são mostrados com exclusividade por uma rede de televisão. Acabou a festa. Limpe-se o que foi sujo. A presidente Dilma voltou da “Barreira do Inferno”, seu local escolhido para descansar no Rio Grande do Norte. Deveria lançar foguetes contra certos políticos. Enquanto isso, cervejeiros foram presos no Rio de Janeiro por fazer xixi nas ruas. Alegam, alguns dos detidos, que as cabinas plásticas são como celas de presídio, pequenas e sujas. Devem saber do que falam. O ex e futuro candidato a candidato a presidente, Aécio Neves, aparece em feijoada boca livre com a camisa estampando a palavra devassa e é alvo de beijos encomendados ou espontâneos. Romário, o deputado federal, agora de passaporte diplomático, faz o que gosta: aproveita o carnaval para jogar futebol com amigos em país que integrava a URSS. “Bruna, a surfistinha” é vista por todos, até pelo Contardo Calligaris, psicanalista e cronista, que diz ter gostado do filme. Leonilson, artista cearense, nascido no Benfica, morto em 1993, aos 36 anos, ocupa página inteira da Folha. Na sua terra quase não se fala dele. Há uma escultura sua na Beira Mar da Praia de Iracema. Maria Luiza Fontenele e Rosa da Fonseca aproveitam o público da Domingos Olímpio e divulgam sua utopia em folhetos. Por falar em utopia, a feminista Rose Maria Muraro (lembram dela?), aos 80 anos, prepara o seu 36º. Livro: “Um mundo ao alcance de todos”. Quando será isso? Um carro, dirigido por mulher, se recolhe ao leito do canal da Aguanambi de pneus para cima. Ninguém morreu, ainda bem. Nos condomínios lotados da orla leste caminhões limpa-fossas recolhem dejetos, deixam olores no ar e respingos nas estradas. Jovens morrem no país inteiro. Só na Bahia, de todos os santos e axés, foram 4.120 atendimentos em postos de saúde. O péssimo livro “A Cabana”, de William P. Young, continua entre os mais vendidos, certamente para pessoas que deveriam aprimorar a leitura. Raymundo Netto prossegue com sua boa e “serial” crônica “Coisas engraçadas de não se rir”. O Dia da Mulher, terça, 08, foi lembrado por poucos. Estavam quase todos invocando Baco. Evoé. Parabéns a todas as mulheres, construtoras de um mundo sem limites neste século 21.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/03/2011.

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DIA DA POESIA – Diário do Nordeste

Poetas mourejam palavras, metafísicos da escrita que são. Acolhem e transmudam em versos a sensibilidade, os sinais, os símbolos, os sentidos, os sentimentos e os sonhos. Madame de Stael, em De l’Allemagne fala que “a poesia é a linguagem oficial dos cultos”. Concordo com ela. Há que haver muita estrada para atingir a Meca do saber. É preciso vida vivida antes de alinhar vocábulos, procurar metáforas, quiçá um mero verso. Dizia T.S. Eliot que “a poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”. Estar poeta não é ser poeta. O poeta fica, os outros, passam. Castro Alves está, altaneiro, em uma gávea perpétua. Olavo Bilac vive uma alvorada de amor eterno. Carlos Drummond de Andrade faz versos livres no paraíso dos poetas e João Cabral de Melo Neto é o diplomata do uni verso. Vinícius de Moraes povoa birosca celeste cantarolando. Cecília Meireles, talvez atrás da coisa que passa, virou asteroide. A poesia não explica, ela é a dúvida. A poesia não ensina, ajuda a pensar. Alcides Pinto conversa com São Francisco, não mais no Estreito, mas na imensidão do Cosmo. Antônio Tomás, o padre, polvilha sonetos em nimbos celestiais. Gerardo de Melo Mourão fala sobre a invenção do mar para a escuta de Luís de Camões. O poeta, digo eu, não o é porque se assume. Sê-lo-á se for vero e isso tempo leva. Amanhã, segunda, 14 de março, é o Dia da Poesia. A galeria Benficarte acolhe poetas brasileiros, vivos e no além, para mostrar o que disseram sobre o ser mais misterioso do planeta: a Mulher. Não há quem a defina sem que falte algo essencial. A mulher habita a sensatez, mas palmilha o descompasso. Seu coração pode estar fechado, mas suas artérias permitem a circulação do bicho-homem, esse ser dependente/independente que, com ela, povoa o mundo. Virgílio, poeta latino, dizia que a mulher é “inconstante e sempre mutável”. Quem poderia chegar mais próximo de sua essência? O poeta. Por tal razão foram reunidos, de forma plural, para homenagear a mulher, no dia consagrado ao poeta Castro Alves.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2011.

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MULHER, POESIA PURA – Jornal O Estado

Segunda, 14, data consagrada a Castro Alves e à Poesia, tive a ventura de juntar poetas. Alguns, em carne viva. Outros, em versos eternizados. De todos, recolhi poemas. Os daqui, eles mesmos os indicaram. Os do além, eu os escolhi. Poemas são mergulhos dos quais emergem respingos de sombras, amores, sonhos e dores. O tema: mulher. Vocês verão aqui, em rigorosa ordem alfabética, pequenos trechos de poema de cada poeta. Recorte e guarde, se desejar. Vou numerá-los, para que você, leitor, possa saber, com clareza, de quem são os poemas, sem aspas: 1. Antonio Girão Barroso: Maria, na doce paz deste poema sem lágrimas/minha mão quer te ofertar rosas e não versos; 2. Artur Eduardo Benevides: Porque ao fim da tarde já cheguei,/sentindo que meus dias vão findar,/jovem- só por te amar – ainda serei;3.Carlyle Martins: E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,/de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos/dirão que enlouquecemos de paixão;4. Carlos Augusto Viana: O teu corpo é um barro alucinado, /fruto de finas águas; e os tecidos/que o cobrem têm o âmbar cultivado/por dedos de farândolas tingidos;5. Carlos Drummond de Andrade: Para amar uma mulher, mais que/tentar conquistá-la/ há de ser conquistado…todo tomado e, um pouco de sorte, também ser/amado; 6. Castro Alves: Eu fui a brisa, tu me foste a rosa,/fui mariposa,/-tu me foste a luz;7.Cecília Meireles: Está vendo os salões que se acabaram/embala-te em valsas que não dançou/ levemente sorri para um homem/O homem que não existiu;8. Cid Carvalho: Pois sigo na lágrima tua e quando encostas /o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso/do meu cavalo louco nos caminhos do fim;9. Dimas Macedo: quero-te o ventre/partilhado de lírios./E os círios acesos/de teus lábios;10.Florbela Espanca: Amo-te tanto! E nunca de beijei…/E neste beijo, Amor, que eu te não dei/guardo os versos mais lindos que te fiz;11. Francisco Carvalho: Assim nasceu o pecado, segundo/a escritura bíblica. Alguns sábios/acreditam/nessa ingênua metafísica;12. Gerardo Melo Mourão:… eterna solidão da eterna noite/ e teu último poeta fere na pedra a boca//súbito lembrada do teu nome;13. Giselda Medeiros: E sei mais: que por amor/tornas gostoso o amargo do jiló/e que fazes nascer um sol indefinido/na escuridão dos eclipses da vida 14. Horácio Dídimo: O pão nosso de cada dia nos dai hoje/pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não há ternura/pelo fruto de suas entranhas; 15. João Dummar Filho: És a virgem exigente/e eu o pecador/és a verdade esplendorosa e eu, da existência a dor; 16. Batista de Lima: E Deus/ criou a mulher/para dar luz/ao homem;17. Barros Pinho: Nos olhos da amada/o verbo edifica/os acentos da solidão; 18. José Telles: Não preciso, sequer, / tocar tuas entranhas, /dá-me apenas a paisagem do teu corpo para ser aplaudida;19. Juarez Leitão: Os pés de Donamaria contam histórias/de muitas lutas e poucas maravilhas!/Os calos são medalhas de suas glórias / conseguidas nos lombos dessas trilhas; 20. Leda Maria: Vez ou outra, acordamos mas/ lentamente, repetindo textos santos,/canções de marinheiros/e versos de partida; 21.Linhares Filho: Meu destino é a quietude que se esconde sobre tuas/algas e sob a tua salsugem;22.Luciano Maia: Ó musa ignota, ser misterioso/caprichosa, lindíssima mulher/ e me fazer ousar: e ainda ouso/ o poema encontrar, onde ela quer; 23.Millôr Fernandes: Deus, a graça é imerecida,/mas dai ainda/ uns aninhos de vida; 24.Octavio Paz: Teu corpo se constela de signos verdes/renovos num corpo de árvore/ não te imposta tanta miúda e cicatriz luminosa:/olha o céu e a sua verde tatuagem de estrelas; 25.Olavo Bilac: Amo-te! Sou feliz! Porque, do Éden perdido,/ levo tudo, levando o teu corpo querido/pode em redor de ti, tudo se aniquilar/tudo renascerá cantando ao teu olhar; 26.Paul Verlaine: E os cuidados que vós podeis ter são apenas/andorinhas voando à tarde pelo céu/-Querida- num belo dia de setembro; 27.Pedro H.S. Leão: eterno é o que um só segundo/ é o que passou tão de repente/ sem dar tempo amanhecer; 28.Regine Limaverde: Sofro pelas mulheres que não tiveram/ os seios tocados/ os lábios procurados;/que se cansaram, em vão, ou jamais dormiram/ no leito de um Deus;29.Roberto Pontes: Felizes são aqueles que amantes/dão-se de todo aos ritos do seu jogo/ e amparam suas mágoas e desejos/ na reciprocidade sacra dos seus ventres;30.Soares Feitosa: Mantive a prisioneira sob algemas/que ninguém é louco de manter/tesoiro tão rico ao léu;31.Vinícius de Moraes: E de te amar assim, muito a miúde/é que um dia em teu corpo de repente/ hei de morrer de amar mais que pude;32. Virgílio Maia: Trago-te a mim, te entrego os corações/que flechados e azuis tragos nos braços. /Quero agora guiar-me por teus passos/ E no teu corpo haurir loucas lições; 33. Walt Whitman: Não se envergonhem, mulheres/é de vocês o privilégio de conterem/os outros e darem saída aos outros; 34. William Shakespeare: Assim é o meu amor e a ri reporto/ por todas as culpas eu suporto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/03/2011.

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A ENTREVISTA – Diário do Nordeste

Recentemente fui visitado no trabalho por uma estudante universitária. Usava óculos de grau com aros vermelhos (lembram da Rita Lee?), tinha cabelos encaracolados, cores indefinidas. Calçava rasteira (é assim que se diz das sandálias rasas), saia larga de chita marrom bem abaixo do joelho, camiseta branca de algodão customizada (são as que se tiram as mangas, mudam o decote e cortam a bainha deixando aparecer fiapos) com pingos de tintas multicores.
Usava pulseiras de linhas entrelaçadas em crochê, nos dois pulsos. Ao pescoço, um grosso cordão preto finando em bolsinha com três canetas. Sabia o meu nome, o que fazia (havia lido livros e textos meus) e gostaria que respondesse a algumas perguntas. Para quê, perguntei. Falou ser para a monografia de fim de curso. Aqui não importa dizer qual, direi que era da área de ciências sociais. Não teria mais que 22 anos. Assim, era metade século 20, metade 21. Chamou-me de João, mordeu a ponta de sua caneta, sentou na borda da cadeira e disse, de cara: você mente? Indaguei por que deveria responder. Ela retrucou: se você disser que não mente, a conversa está encerrada. Foi então que perguntei: qual a razão disso tudo? Ela voltou a mordiscar a caneta. Falou que não havia verdade (grande novidade…), todas as pessoas tinham segredos.
Esse era o objeto de sua monografia com título algo assim (pelo menos, foi o que entendi): “De como as pessoas se apegam às mentiras, quando é mais fácil falar a verdade”. Entrei na dela: pergunte o que quiser. Como você trabalha tanto e tem tempo para escrever? Será que é você mesmo quem escreve? O meu notebook estava aberto. Acessei o Word e fiz o resumo do seu trajar e de como a via. Dei ordem à impressora e recebi o papel ainda úmido. Entreguei a ela. Era quase o que ora apresento, a diferença é que nesse pequeno texto, falava da minha alegria ao vê-la esgrimindo, destemidamente, com pessoa de outra geração. E concluía: nunca tenha medo. Posso ficar com este papel? Claro, respondi. Ela, então, fez as perguntas. Respondi o que pensava. Anotava tudo em páginas de agenda cheia de adesivos e, ao final, disse: você parece careta, mas não é. Menos Mal.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/07/2011.

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ROBERTO MARTINS RODRIGUES – Jornal O Estado

Os que foram alunos, nos cursos de bacharelado e pós-graduação, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, a partir da década de 60, certamente concordarão comigo: o prof. Carlos Roberto Martins Rodrigues foi, sem dúvida, o mais comunicativo entre todos os mestres daquela escola centenária. A par disso, ele é um dos expoentes do Direito Administrativo em nosso país, mercê de sua formação acadêmica distinguida. Roberto, quando criança, sofreu uma grave desidratação, que já matara seus dois irmãos mais velhos, Maria Taís e Carlos Eduardo. Foi salvo pela alimentação da avó materna e a promessa de d. Zilda, sua mãe, de nunca mais usar joias, incluída aí a aliança de casamento. O menino, são e salvo, estava pronto para, ao chegar à adolescência, estudar piano e pedalar a sua bicicleta alemã Singer com buzina personalizada. Por outro lado, o aluno foi um dos integrantes da turma pioneira do Instituto Lourenço Filho e teve a ousadia de fundar, com outros jovens, o jornal “Fortaleza Repórter”, a Liga Exemplar Joaquim Albano – em desagravo ao mestre que o ensinara a falar francês precocemente – a Associação Mirim de Imprensa, o Circo Mascote e a “Beautiful Virgínia Band”, em homenagem à primeira namorada. Seu pai, o advogado, professor de Direito Civil e dep. federal José Martins Rodrigues, resolveu levá-lo para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde atuava, com brilhantismo, na Câmara dos Deputados. O jovem Roberto encantou-se com a cidade. Ia aos ensaios da Mangueira, admirava a música de Ary Barroso e as jogadas de Heleno de Freitas, o Pelé da época. Andava pela ainda brejeira Copacabana e aprendia a dançar na Avenida Danças e Brasil Danças, ao pé do Palácio Monroe, na Av. Rio Branco. Ao mesmo tempo, ingressava, de forma brilhante, na Faculdade Nacional de Direito, tendo sido aluno de Evaristo de Moraes Filho, Hermes Lima, Haroldo Valadão, Afonso Arinos e Mattos Peixoto, dentre outros. Depois de formado, tornou-se amigo e seguidor de Hely Lopes Meireles, a quem se deve a sistematização do Direito Administrativo, como ciência, no Brasil. Volta ao Ceará, e funda o Clube dos Advogados, nos moldes ingleses. Um clube de classe. Em seguida, é eleito o mais jovem presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, tendo exercido três mandatos. A par disso, ingressa nos quadros de professores da Faculdade de Direito da UFC, da qual é Mestre e Doutor, e na Procuradoria Geral da República, ocupando a sua direção por longo tempo. Hoje, o dr. Roberto, advogado de nomeada e professor consagrado, coordena o Curso de Direito de uma faculdade privada, sem esquecer de amar, como sempre o fez, conversar com aprumo e ouvir suas músicas preferidas, entre elas o jazz americano. Este perfil, a destempo feito, é um pálido reparo à sua involuntária não inclusão no meu livro “Gente que Conta”. Acontece que o andamento e o desencontro tramaram contra nós. Seu nome foi um dos primeiros a ser lembrado, a Internet não cuidou disso. Roberto concorda com Cervantes ao entender que o amor, se é amor, é sempre verdadeiro. Para ele a vida é um traço de união do nascimento com a morte. Uma ponte que se consegue atravessar com trabalho, otimismo, bom humor, amor, afetividade, realizações úteis, prazer, fé no bem e na felicidade. Esta é uma pálida aquarela da vida cintilante desse cearense que honra o Ceará, dignifica a advocacia e enobrece o nosso magistério superior. Roberto é Gente que Conta.
João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/07/2011

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CRÔNICA DO DESVARIO – Diário do Nordeste

Não sei por onde começar. Escolho Amy Winehouse. A primeira vez que a vi, pela televisão, foi em Beijing. O telão do bar do hotel reproduzia show seu. Os caracteres e a locução eram em Mandarim. Só descobri o nome ao final. Entre estarrecido e curioso fiquei pasmo com a figura gótica, franzina e voz marcante. O sobrenome judeu Casa de Vinho (Winehouse) não se mostrou suficiente. Era adicta de tudo e ninguém parecia cuidar dela. Tinha cara de jovem desvalida e o que a distinguia dos consumidores contumazes de cocaína e crack eram o talento e a irreverência consequente. Morreu aos 27, por absoluta desconexão com o mundo que a aplaudia. O mito surgido pela insensatez humana. Pulo para Oslo e a Ilha de Utoeya, no país que tem, ao meu olhar, o sol da meia-noite mais bonito do planeta, Dinamarca, sempre admirada por seu recato social coletivo. Agora, um desatinado – porém inteligente – “cavaleiro templário moderno”, Anders Behring Breivik, talvez leitor de romances do americano Dan Brown, como o “Código Da Vinci”, ativa carro-bomba em Oslo e daí, friamente, se desloca, falsamente fardado, para matar dezenas de jovens reunidos em Utoeya. Volto à China, país que vende tecnologia para todo o mundo e vejo que dois trens se chocam e matam 43 pessoas. Como? Os Estados Unidos, por sua vez, sofrem a angústia que só terminará depois de amanhã, 02 de agosto. Se os partidos Democrata e Republicano não chegarem a um acordo, mínimo que seja, o país poderá dar o maior calote mundial. Se isso acontecer, tudo o mais virá em ondas gigantescas como um Tsunami macroeconômico para todos, Brasil, inclusive. Aqui, a presidente Dilma está quase terminando a gravidez de nove meses, desde o seu primeiro dia no Alvorada. Neste período, já não aceita mais os conselhos do médico Palloci, devolve o enxoval e os presentes do “republicano” Ministério dos Transportes, enquanto rumina como chegará à délivrance marcada para fins de setembro. Ao cabo, um registro pessoal de pesar: o falecimento nos EEUU da arquiteta Maria Clara Nogueira Paes Caminha, profissional de brio, filha exemplar e mãe de filhos capazes e cidadãos do mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2011.

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O QUE É UM CÔNSUL? – Jornal O Estado

O dia de hoje é consagrado ao Cônsul. O que é um Cônsul? Na Antiguidade Romana era o Magistrado Supremo. No ano de 509, antes de Cristo, Roma substituiu o rei por um magistrado, o pretor, cuja atividade tinha a duração de um ano. Nos meados do Séc. V a.C. essa atividade foi desdobrada em duas, sendo designados cônsules. Para exercer essa função exigia-se idade mínima de 33, depois 37 e, em seguida, 43 anos. O consulado era o ponto culminante da carreira política, sendo eleito pelos comícios centuriais. Durante um ano exerciam os poderes de Chefe de Estado. Emprestavam seus nomes ao ano em que exerciam suas funções. O fim dos poderes dos cônsules deu-se no crepúsculo do Séc. II a.C. Depois, já na era cristã, o imperador os designava e já no Séc. IV certas funções permitiam a inscrição na casta consular hereditária. Depois disso, a figura do Cônsul teve proeminência na Primeira República Francesa, em 1799, perdurando até o surgimento do Primeiro Império, em 1804, na chamada Revolta dos 18 de brumário, tendo sido escolhidos três cônsules, Napoleão, Sieyès e Ducos. De fato, o primeiro Cônsul Bonaparte exercia totalmente o poder. Na diplomacia atual, em todos os países, diz-se do funcionário que representa, em uma nação estrangeira, o seu país e tem como missão proteger os cidadãos desse país constituinte, ser fomentador de relações, notadamente comerciais e práticas de boa vizinhança. No caso do Brasil, os cônsules são funcionários de carreira, formados, a partir de 1945, no Instituto Rio Branco – assim intitulado em homenagem ao historiador e cônsul José Maria da Silva Paranhos, com atuação diplomática eficaz no final do século 19 e começo do 20, o Barão do Rio Branco – órgão do Ministério das Relações Exteriores. O lugar onde exerce a sua função é chamado de consulado ou repartição consular, que tem imunidade diplomática. No caso específico dos cônsules honorários eles devem ser cidadãos maiores de um país, reconhecidamente capazes, com penetração social, nele residente, e representar os interesses de outra nação. O processo de formação de um cônsul de carreira segue, em cada país, um rito próprio. Aqui no Brasil para exercer a diplomacia é necessário ser brasileiro, nato ou naturalizado, ter curso superior completo e submeter-se a um concurso público anual. O processo de escolha dos cônsules honorários começa com a indicação de um ou mais nomes pelo Embaixador ao governo do país por ele representado. Esses nomes são submetidos ao seu Ministério de Relações Exteriores e um deles é escolhido. Posteriormente, seu nome é enviado ao Brasil onde terá jurisdição que o submete aos órgãos de informação e ao próprio Itamaraty. Aprovado o nome, a ele é fornecida Carta Patente, por ordem da presidência da República do país que lhe concedeu o título, e a carteira do Corpo Consular Honorário Estrangeiro do MRE, com matrícula e número de série. Parabéns a todos os cônsules. Próxima segunda, dia 8, a Embaixada e o Consulado da República Theca juntam-se à Sociedade Consular do Ceará e abrem, às 19 horas, na Galeria BenficArte, exposição de fotos sobre a trajetória do arquiteto e artista Plástico Joze Plecnic. Vá lá.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/08/2011.

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A EXPOSIÇÃO SOBRE JOZE PLECNIK, A REPÚBLICA TCHECA E O CONCURSO – Jornal O Estado

A Tchecoslováquia, como país, surgiu em 1918, com o fim do Império Austro-Húngaro. Tão logo nasceu o país, Jo%u017Ee Ple%u010Dnik foi chamado para ser o arquiteto-chefe do Castelo de Praga, em 1920. Ali trabalhou até 1934, mesmo que passasse, desde 1921, a viver em Liubliana, sua cidade natal, onde veio ao mundo em 1872. Liubliana era e é da parte Eslovênia. Seu pai era um carpinteiro durão que queria que seus três filhos tivessem “profissões práticas”. Por conta disso, Ple%u010Dnik formou-se em marcenaria – aos 16 anos – na Escola Profissional de Graz, em 1888. Com a morte do pai, Plecnik vai para Viena aos 20 anos onde estuda arquitetura com Otto Wagner, um dos luminares da arte na época. Wagner acreditava e professava que os motivos decorativos históricos não deveriam permanecer e propunha a criação de ornamentos mais leves e orgânicos. Findo o curso, Ple%u010Dnik, em 1911, viaja à Praga para lecionar no Colégio de Artes e Ofícios. Em 1920, repito, é convidado para ser o arquiteto-chefe das obras do Castelo de Praga. Seu trabalho dura 14 anos. Em 1948, a Tchecoslováquia passou a integrar, forçadamente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, através do Golpe de Praga. Finda a 2ª Guerra, a Tchecoslováquia continua com as duas etnias, os Tchecos e os Eslovacos. Finalmente, em 1993, com o desmantelamento da URSS, se reparte em duas, surgindo, através do acordo chamado “Divórcio de Veludo”, por ser amistoso, as República Tcheca e a Eslovênia. Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, morto em 1957, volta a ser cultuado após os anos 80 e suas refinadas obras de arquitetura, escultura e marcenaria estão agora expostas, graças à Embaixada da República Tcheca, o Consulado Honorário local e a Sociedade Consular do Ceará em múltiplas e belas fotografias, na Galeria BenficArte (Av. Carapininima, 2.200, Mezanino) As fotos poderão ser apreciadas, com calma e atenção, gratuitamente, por toda a próxima semana. A Exposição do “Arquiteto de Praga” dever ser visitada, quase como parte da grade curricular por estudantes de arquitetura, bem como arquitetos, artistas plásticos, especialmente escultores, amantes da arte e pelo público em geral, como expressão eloquente do arquiteto, artesão e escultor Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, na terra de Franz Kafka. A cidade de Praga fica no centro da Europa, rasgada pelo rio Vltava que obrigou a construção de belas pontes. Lá no alto de uma colina, no lugar chamado Hradcany, está o Castelo de Praga que, longe de lembrar os nobres seus ocupantes, nos remete à obra de um de seus arquitetos, mostrando que a arte transcende a política e a nobreza. Nela, os gênios nunca morrem. A propósito, no próximo mês de setembro, o Consulado da República Tcheca no Ceará, na pessoa do Cônsul Honorário Raimundo Viana, lançará com o apoio da Sociedade Consular do Ceará e da equipe cultural do Shopping Benfica, concurso exclusivo para estudantes, regularmente matriculados, em universidades públicas e privadas, que deverão escrever sobre o tema: “A República Tcheca e Praga são uma bênção”. O(a) vencedor(a) terá direito a viagem aérea de ida-e-volta à Praga, com permanência paga por dez dias. Que tal?
João Soares Neto,
Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2011.