Sem categoria

O BRASIL PATINA – Jornal O Estado

Quando imaginava poder aprender microeconomia, o que não aconteceu, uma expressão ficou gravada na memória: o ponto do nivelamento ou o “break-even-point”. Entendo ser essa a fase em que a macroeconomia, paradoxalmente, coloca o Brasil. Queiramos ou não, o país é, em sentido amplo, uma grande empresa, da qual todos fazem parte. Temos que ir para frente. Mas há entraves que nos tornam desencantados. Se você quiser ir de trem ou de navio do nordeste para São Paulo, o que fazer? Não há ferrovias nacionais, tampouco boa navegação de cabotagem. Só há dois meios: estrada ou céu. As estradas brasileiras são feudos de partido político que não se importa com buracos, mas parece fazer rombos em licitações duvidosas. Caminhões e ônibus são parados por assaltantes. No céu, além de, em terra, aeroportos sem tecnologia logística de ponta, cada transportadora transformou seus aviões em amontoado de cadeiras com muito menos conforto que ônibus rodoviário, não fossem os buracos destas. Não conheço nenhum país desenvolvido que não possua boas estradas, ferrovias nacionais e portos com grande movimento de navios de passageiros e cargas. Sejam portos fluviais ou marítimos. Não conheço nenhum país desenvolvido que não respeite o trânsito e a acessibilidade. Dia desses, em um lugar de bom nível, vi um cadeirante a reclamar do acesso e de que a porta do banheiro não permitia a sua entrada. O trânsito brasileiro é uma fábrica de cadáveres. Ninguém respeita a velocidade, porque não há nenhuma pessoa a instruir. Usam-se máquinas de fotos sensores e pardais, apenas para multar. Não há mais guardas orientando pedestres e guiadores. Há, sim, agentes de blocos em punho para flagrar delitos, mas não se estimula a construção de edifícios garagens e ciclovias, tampouco se força o uso de faixas de pedestres com gradis protetores. As motos, de diferentes cavalos, transformam o trânsito em “farwest”. Há nuvens de capacetes coloridos e afoitos em meio a carros soltando CO2 parecendo, do alto, uma tela surreal. Claro que a indústria está crescendo, mas não podemos conceber que um turista caia de bonde, agonize na rua, seja assaltado e não socorrido. Deve existir segurança pública. Há anos, estava com amigos visitando a Europa. Folgazões. De repente, sentimos falta de uma delas. Voltamos à praça. Um taxista informou que ela havia desmaiado e um colega seu a levara a hospital público. Havia tido uma hipoglicemia. Fomos ao hospital: limpo, sem macas nos corredores e ela tendo pronto atendimento. Custo zero, serviço público. Aqui se morre nos corredores de hospitais por falta de atendimento. É por tudo isso que torço por Dilma. Para que desmonte a estrutura política eivada de erros e comprometida com o atraso. Só assim, sairemos do ponto de nivelamento – em que patinamos – para o almejado estado de bem-estar social onde não existem tantos miseráveis, o esgoto seja uma obrigação e não uma conquista. A lama desapareça das favelas que precisam ser urbanizadas e acolhidas numa sociedade discriminatória e excludente que deve mudar.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2011.

Sem categoria

OURO E OTTO – Diário do Nordeste

Se você ainda não foi ver as exposições em curso no Espaço Cultural da Unifor, está perdendo tempo. São distintas, mas interligadas pela latinidade, embora distantes séculos. Elas são abertas a todos, de terça a domingo. Vá e leve sua família. Até o estacionamento é gratuito. Vá com tempo e limpe bem os olhos. Há estudantes-guias bem treinados que poderão ajudá-lo nessa caminhada por salões climatizados, com iluminação adequada que dá uma sensação de bem-estar. Comece pela “Tesouros e Simbolismos da Colômbia Pré-Hispânica”. Na realidade, ela é o produto da conjunção dos diferentes povos indígenas que habitavam a região que veio a denominar-se “Colômbia”, em homenagem a Cristóvão Colombo, o descobridor das Américas, exceto o Brasil. Fala a História que alguns desses povos, os Muisca, Quimbaya, Sinú,Tayrona e Calima, além da agricultura de subsistência, dedicavam-se à ourivesaria fina e eram, também, oleiros. Vá ver máscaras, brincos, piercings, figuras geométricas etc. O ouro era misturado à liga cobre e dava origem ao que eles chamavam de “tumbaga”. Não perca.
A outra exposição, “Do Brasil à Catalunha” é obra do longilíneo e assemelhado D. Quixote, o paraibano Otto Cavalcanti, que de Itabaiana foi ter ao Rio, flertou com o estilo de Modigliani, andou pelo Brasil, inclusive Fortaleza, e pousou sua maturidade artística em Barcelona, o fulcro da ciosa Catalunha. Otto é pessoa agradável de conversar, exibe vitalidade aos 80 anos e sabe, por formação, o que é pintura e desenho, misturando pincéis e nanquim. Suas cores são fortes, extra e vagantes, sintetizando o imaginário do menino do interior, o jovem atrevido na cidade maravilhosa ao maduro e irrequieto vegetariano que anda pelas “Ramblas” e sabe usar o vermelho, quiçá compensando as carnes não ingeridas. Dele, sou orgulhoso possuidor, desde 1983, do bico de pena, “Vilassara de Mar”, superposto por águas azuis, verdes, rosa, tons de amarelo e ocre, em que um “homem-músculo”, sob um frondoso guarda-sol às vistas de um ajudante, contempla, ao longe, jogadores de golfe. Voltando ao fio da conversa inicial, não adie sua visita. Veja o Ouro e o Otto. Aproveite o domingo. A arte une pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/07/2011

Sem categoria

LUIZ CRUZ DE VASCONCELOS – Jornal O Estado

A longevidade, 92 anos do professor Luiz Cruz de Vasconcelos foi fruto de sua dura, intensa e profícua vida. Até bem pouco era salutar cumprimentá-lo ao andar nas manhãs ensolaradas da Avenida Beira-Mar. Fui seu aluno na cadeira de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da UFC. Cioso do seu mister, suas aulas não eram improvisações. Penalista consagrado com larga experiência em júris, o Prof. Luiz Cruz nos dava a sensação de que era possível entender não só a jurisprudência, a doutrina, mas até a prática – por ele exercida em todo o Estado, especialmente Fortaleza. Nascido em Granja, no norte do Estado, rincão que defendia com ardor cívico, notabilizou-se por ser, além de advogado e professor, um teórico da política filiado que foi ao não então pragmático Movimento Democrático Brasileiro. Na minha sala de memórias há uma foto especial. Foi batida no dia da minha colação de grau em Direito. Dela constam o então Reitor da UFC Antônio Martins Filho, sorrindo e cumprimentado a meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, que também sorria e o prof. Luiz Cruz, que, à época, ocupava a direção da Faculdade de Direito, olhando fixo para mim e trocando um abraço. Pouco tempo depois de formado, fui ter ao prof. Luiz Cruz. Contextualizo: eu coordenava um pioneiro projeto habitacional que inaugurava no mercado a construção financiada de edifícios ou, como se dizia, unidades multifamiliares. Não tínhamos o dinheiro para comprar o terreno escolhido, na Av. Luciano Carneiro. Descobri que era da família dele. Fui à sua casa, faceando a Igreja de Fátima, e ele me recebeu com alegria. Expliquei todo o processo do projeto para ele, dando-lhe, acima de tudo, a minha jovem palavra de que tudo seria pago em breve tempo. Ele levantou, olhou para mim e disse: eu confio em você, pode fazer. Prometido, cumprido. Construímos e entregamos, em prazo recorde, o Conjunto Luciano Carneiro. Depois, por muitas vezes, nos encontramos. Tive a honra de ser conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, da qual ele era o Presidente Honorário Vitalício, após ter sido seu Presidente. Esse homem, mesmo depois de ter atingido a compulsória, não parou a sua lida e continuou a participar de foros jurídicos e literários. A sociedade, a advocacia, a retórica e o magistério jurídico perderam Luiz Cruz de Vasconcelos, um homem de caráter, pois, no dizer de Schopenhauer: “as causas não determinam o caráter da pessoa, mas a manifestação desse caráter, ou seja, as ações”.

João Soares Neto,
Escrito
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/07/2011.

Sem categoria

NETA LEITORA – Diário do Nordeste

Minha neta mais velha apagou 14 velas. Véspera do aniversário, perguntei: O que você quer de presente? “Vô, eu quero livros.” Disse-me autor e títulos. Fiquei muito alegre, pois é leitora consciente, há tempos. Faz anos ganhou concurso entre crianças que se aventuravam a criar estórias e ter seu trabalho publicado em jornal. Fiquei feliz em vê-la recebendo a medalha. Essa sardenta neta querida é bonita, não porque netos sejam sempre guapos, mas porque o seu porte e educação a fazem diferenciada. Seu jeito de falar é pausado, seus olhos acompanham as palavras e sabe onde colocar as mãos. Colocar as mãos num corpo em mutação não é tarefa fácil para adolescente. Ela sabe, sim, usá-las com graça e leveza. Lembro quando iniciava a aprender vôlei. Fui lá ver. Era pequena para a rede alta, mas demonstrou jeito e hoje faz parte da seleção do seu colégio, na faixa etária. Os avós, quando não têm uma avó por perto – o que é o meu caso – ficam meio fora do contexto e não participam, como gostariam, de todos os momentos do crescimento dos netos.
Mesmo assim, já a flagrei isolada de todos, livro à mão, cenho de quem está realmente interessada no que lê. Lembro do dia do seu nascimento. Tive que adiar viagem importante, já marcada. Valeu a pena. À época, neste mesmo jornal, escrevi: “Os poucos, porém queridos, leitores que acompanham este escrevinhador dominical vão me perdoar. Saio do geral para o particular. Deixo de lado preocupações com o mundo e me rendo, com alegria e emoção, ao sentimento paternal e descubro malgrado todas as falhas cometidas ao longo da vida, o prazer de ver uma filha sendo mãe. Pois é, até eu, bastião da pseudo fortaleza masculina, rendi-me ao doce encanto de ser avô”. E por aí ia o meu extravasamento. Hoje, 14 anos depois, ao sabê-la cumpridora dos deveres, esportista, como os seus pais o são, e ter o “insight” de devorar, em silêncio, páginas de livros, lembro da menina “ferrugem” que assim o fazia. Essa outra menina, querida Lu, é sua mãe que ainda hoje tem, à cabeceira, livros para degustar, entre o trabalho e os afazeres de formar filhas conhecedoras da realidade, sem perder o enlevo da benquerença familiar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/07/2011.

Sem categoria

PEDIDO DE AMIGO – Jornal O Estado

Um amigo, hoje aposentado, sem espaço para dizer o que sente e sofre, pede-me o favor de publicar o que escreveu. Por sabê-lo sério, reproduzo-o, sem censura, tal como o recebi: “O Banco Central do Brasil-BC deveria trocar as palavras “do Brasil” por “dos Banqueiros”. Eles mandam e desmandam, tudo muito civilizado, sem alardes. Quase todo ex-presidente do BC funda, depois da quarentena, um banco ou cria uma grande consultoria do outro lado do balcão. Ou seria do mesmo lado? Vou só dar um exemplo: o crédito consignado é uma empulhação. Trata-se de empréstimos feitos por bancos “amigos” a servidores públicos e/ou beneficiários do Instituto Nacional de Seguridade Social. Os bancos têm todas as garantias pois o empréstimo será, sempre, descontado da aposentadoria ou dos proventos de quem pediu o dinheiro. Quando falo em bancos “amigos” é porque, até bem pouco tempo, era – não sei se ainda é – necessária a autorização especial do BC. O que se viu, nesse Brasil afora, foi a proliferação de mini-agências, correspondentes, agentes, panfleteiros, homens-sanduíches apregoando a facilidade da obtenção desse malsinado “empréstimo consignado”. Sabe-se que hoje há 145 bilhões de saldo de crédito consignado. A consignação é a antiga anticrese ou, sendo mais claro, é o desconto obrigatório feito, mensalmente, na folha de pagamento dos devedores. O risco dos bancos, nessa operação, é igual a zero. Tudo é garantido na referida folha de pagamento. O juro que cobram é exorbitante e, na maioria das vezes, o aposentado é iludido com esclarecimentos dúbios. Nesses últimos anos, muitos tamboretes ou bancos prestes a dar golpe no mercado, se salvaram por conta dessa dádiva do governo. Espero que algum parlamentar venha a se insurgir contra essa imoralidade. Há milhares de famílias que foram enganadas e hoje não têm como sobreviver com o líquido (descontado o empréstimo) que recebem. Além disso, os incautos ainda eram – e são – seduzidos para receber cartões de créditos. Aí foi que o desastre aumentou. Em dezembro, o Banco Central resolveu impor restrições aos créditos acima de três anos. Agora, os cartões de crédito consignados dos servidores também têm limites acima de três anos. Você sabe quanto custa o juro de um cartão de crédito desses? É melhor não saber. O governo estabeleceu os juros do Consignado em 28% ao ano, mas quanto os bancos embutem de taxas de abertura de crédito, boletos, retenções e que tais? Pior do que isso só a selecinha do (her)Mano que conseguiu a façanha de quebrar o recorde mundial ao perder quatro penais consecutivos. Mas, tudo estará resolvido até junho de 2014, a preços baixos, prazos cumpridos ou compridos, o hino nacional tronituando. Logo depois, aguardem, virá a eleição para a presidência, a festa do réveillon, a posse e, como ninguém é de ferro, o carnaval”. Pedido atendido.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/07/2011.

Sem categoria

A ENTREVISTA – Diário do Nordeste

Recentemente fui visitado no trabalho por uma estudante universitária. Usava óculos de grau com aros vermelhos (lembram da Rita Lee?), tinha cabelos encaracolados, cores indefinidas. Calçava rasteira (é assim que se diz das sandálias rasas), saia larga de chita marrom bem abaixo do joelho, camiseta branca de algodão customizada (são as que se tiram as mangas, mudam o decote e cortam a bainha deixando aparecer fiapos) com pingos de tintas multicores.
Usava pulseiras de linhas entrelaçadas em crochê, nos dois pulsos. Ao pescoço, um grosso cordão preto finando em bolsinha com três canetas. Sabia o meu nome, o que fazia (havia lido livros e textos meus) e gostaria que respondesse a algumas perguntas. Para quê, perguntei. Falou ser para a monografia de fim de curso. Aqui não importa dizer qual, direi que era da área de ciências sociais. Não teria mais que 22 anos. Assim, era metade século 20, metade 21. Chamou-me de João, mordeu a ponta de sua caneta, sentou na borda da cadeira e disse, de cara: você mente? Indaguei por que deveria responder. Ela retrucou: se você disser que não mente, a conversa está encerrada. Foi então que perguntei: qual a razão disso tudo? Ela voltou a mordiscar a caneta. Falou que não havia verdade (grande novidade…), todas as pessoas tinham segredos.
Esse era o objeto de sua monografia com título algo assim (pelo menos, foi o que entendi): “De como as pessoas se apegam às mentiras, quando é mais fácil falar a verdade”. Entrei na dela: pergunte o que quiser. Como você trabalha tanto e tem tempo para escrever? Será que é você mesmo quem escreve? O meu notebook estava aberto. Acessei o Word e fiz o resumo do seu trajar e de como a via. Dei ordem à impressora e recebi o papel ainda úmido. Entreguei a ela. Era quase o que ora apresento, a diferença é que nesse pequeno texto, falava da minha alegria ao vê-la esgrimindo, destemidamente, com pessoa de outra geração. E concluía: nunca tenha medo. Posso ficar com este papel? Claro, respondi. Ela, então, fez as perguntas. Respondi o que pensava. Anotava tudo em páginas de agenda cheia de adesivos e, ao final, disse: você parece careta, mas não é. Menos Mal.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/07/2011.

Sem categoria

ROBERTO MARTINS RODRIGUES – Jornal O Estado

Os que foram alunos, nos cursos de bacharelado e pós-graduação, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, a partir da década de 60, certamente concordarão comigo: o prof. Carlos Roberto Martins Rodrigues foi, sem dúvida, o mais comunicativo entre todos os mestres daquela escola centenária. A par disso, ele é um dos expoentes do Direito Administrativo em nosso país, mercê de sua formação acadêmica distinguida. Roberto, quando criança, sofreu uma grave desidratação, que já matara seus dois irmãos mais velhos, Maria Taís e Carlos Eduardo. Foi salvo pela alimentação da avó materna e a promessa de d. Zilda, sua mãe, de nunca mais usar joias, incluída aí a aliança de casamento. O menino, são e salvo, estava pronto para, ao chegar à adolescência, estudar piano e pedalar a sua bicicleta alemã Singer com buzina personalizada. Por outro lado, o aluno foi um dos integrantes da turma pioneira do Instituto Lourenço Filho e teve a ousadia de fundar, com outros jovens, o jornal “Fortaleza Repórter”, a Liga Exemplar Joaquim Albano – em desagravo ao mestre que o ensinara a falar francês precocemente – a Associação Mirim de Imprensa, o Circo Mascote e a “Beautiful Virgínia Band”, em homenagem à primeira namorada. Seu pai, o advogado, professor de Direito Civil e dep. federal José Martins Rodrigues, resolveu levá-lo para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde atuava, com brilhantismo, na Câmara dos Deputados. O jovem Roberto encantou-se com a cidade. Ia aos ensaios da Mangueira, admirava a música de Ary Barroso e as jogadas de Heleno de Freitas, o Pelé da época. Andava pela ainda brejeira Copacabana e aprendia a dançar na Avenida Danças e Brasil Danças, ao pé do Palácio Monroe, na Av. Rio Branco. Ao mesmo tempo, ingressava, de forma brilhante, na Faculdade Nacional de Direito, tendo sido aluno de Evaristo de Moraes Filho, Hermes Lima, Haroldo Valadão, Afonso Arinos e Mattos Peixoto, dentre outros. Depois de formado, tornou-se amigo e seguidor de Hely Lopes Meireles, a quem se deve a sistematização do Direito Administrativo, como ciência, no Brasil. Volta ao Ceará, e funda o Clube dos Advogados, nos moldes ingleses. Um clube de classe. Em seguida, é eleito o mais jovem presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, tendo exercido três mandatos. A par disso, ingressa nos quadros de professores da Faculdade de Direito da UFC, da qual é Mestre e Doutor, e na Procuradoria Geral da República, ocupando a sua direção por longo tempo. Hoje, o dr. Roberto, advogado de nomeada e professor consagrado, coordena o Curso de Direito de uma faculdade privada, sem esquecer de amar, como sempre o fez, conversar com aprumo e ouvir suas músicas preferidas, entre elas o jazz americano. Este perfil, a destempo feito, é um pálido reparo à sua involuntária não inclusão no meu livro “Gente que Conta”. Acontece que o andamento e o desencontro tramaram contra nós. Seu nome foi um dos primeiros a ser lembrado, a Internet não cuidou disso. Roberto concorda com Cervantes ao entender que o amor, se é amor, é sempre verdadeiro. Para ele a vida é um traço de união do nascimento com a morte. Uma ponte que se consegue atravessar com trabalho, otimismo, bom humor, amor, afetividade, realizações úteis, prazer, fé no bem e na felicidade. Esta é uma pálida aquarela da vida cintilante desse cearense que honra o Ceará, dignifica a advocacia e enobrece o nosso magistério superior. Roberto é Gente que Conta.
João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/07/2011

Sem categoria

CRÔNICA DO DESVARIO – Diário do Nordeste

Não sei por onde começar. Escolho Amy Winehouse. A primeira vez que a vi, pela televisão, foi em Beijing. O telão do bar do hotel reproduzia show seu. Os caracteres e a locução eram em Mandarim. Só descobri o nome ao final. Entre estarrecido e curioso fiquei pasmo com a figura gótica, franzina e voz marcante. O sobrenome judeu Casa de Vinho (Winehouse) não se mostrou suficiente. Era adicta de tudo e ninguém parecia cuidar dela. Tinha cara de jovem desvalida e o que a distinguia dos consumidores contumazes de cocaína e crack eram o talento e a irreverência consequente. Morreu aos 27, por absoluta desconexão com o mundo que a aplaudia. O mito surgido pela insensatez humana. Pulo para Oslo e a Ilha de Utoeya, no país que tem, ao meu olhar, o sol da meia-noite mais bonito do planeta, Dinamarca, sempre admirada por seu recato social coletivo. Agora, um desatinado – porém inteligente – “cavaleiro templário moderno”, Anders Behring Breivik, talvez leitor de romances do americano Dan Brown, como o “Código Da Vinci”, ativa carro-bomba em Oslo e daí, friamente, se desloca, falsamente fardado, para matar dezenas de jovens reunidos em Utoeya. Volto à China, país que vende tecnologia para todo o mundo e vejo que dois trens se chocam e matam 43 pessoas. Como? Os Estados Unidos, por sua vez, sofrem a angústia que só terminará depois de amanhã, 02 de agosto. Se os partidos Democrata e Republicano não chegarem a um acordo, mínimo que seja, o país poderá dar o maior calote mundial. Se isso acontecer, tudo o mais virá em ondas gigantescas como um Tsunami macroeconômico para todos, Brasil, inclusive. Aqui, a presidente Dilma está quase terminando a gravidez de nove meses, desde o seu primeiro dia no Alvorada. Neste período, já não aceita mais os conselhos do médico Palloci, devolve o enxoval e os presentes do “republicano” Ministério dos Transportes, enquanto rumina como chegará à délivrance marcada para fins de setembro. Ao cabo, um registro pessoal de pesar: o falecimento nos EEUU da arquiteta Maria Clara Nogueira Paes Caminha, profissional de brio, filha exemplar e mãe de filhos capazes e cidadãos do mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2011.

Sem categoria

O QUE É UM CÔNSUL? – Jornal O Estado

O dia de hoje é consagrado ao Cônsul. O que é um Cônsul? Na Antiguidade Romana era o Magistrado Supremo. No ano de 509, antes de Cristo, Roma substituiu o rei por um magistrado, o pretor, cuja atividade tinha a duração de um ano. Nos meados do Séc. V a.C. essa atividade foi desdobrada em duas, sendo designados cônsules. Para exercer essa função exigia-se idade mínima de 33, depois 37 e, em seguida, 43 anos. O consulado era o ponto culminante da carreira política, sendo eleito pelos comícios centuriais. Durante um ano exerciam os poderes de Chefe de Estado. Emprestavam seus nomes ao ano em que exerciam suas funções. O fim dos poderes dos cônsules deu-se no crepúsculo do Séc. II a.C. Depois, já na era cristã, o imperador os designava e já no Séc. IV certas funções permitiam a inscrição na casta consular hereditária. Depois disso, a figura do Cônsul teve proeminência na Primeira República Francesa, em 1799, perdurando até o surgimento do Primeiro Império, em 1804, na chamada Revolta dos 18 de brumário, tendo sido escolhidos três cônsules, Napoleão, Sieyès e Ducos. De fato, o primeiro Cônsul Bonaparte exercia totalmente o poder. Na diplomacia atual, em todos os países, diz-se do funcionário que representa, em uma nação estrangeira, o seu país e tem como missão proteger os cidadãos desse país constituinte, ser fomentador de relações, notadamente comerciais e práticas de boa vizinhança. No caso do Brasil, os cônsules são funcionários de carreira, formados, a partir de 1945, no Instituto Rio Branco – assim intitulado em homenagem ao historiador e cônsul José Maria da Silva Paranhos, com atuação diplomática eficaz no final do século 19 e começo do 20, o Barão do Rio Branco – órgão do Ministério das Relações Exteriores. O lugar onde exerce a sua função é chamado de consulado ou repartição consular, que tem imunidade diplomática. No caso específico dos cônsules honorários eles devem ser cidadãos maiores de um país, reconhecidamente capazes, com penetração social, nele residente, e representar os interesses de outra nação. O processo de formação de um cônsul de carreira segue, em cada país, um rito próprio. Aqui no Brasil para exercer a diplomacia é necessário ser brasileiro, nato ou naturalizado, ter curso superior completo e submeter-se a um concurso público anual. O processo de escolha dos cônsules honorários começa com a indicação de um ou mais nomes pelo Embaixador ao governo do país por ele representado. Esses nomes são submetidos ao seu Ministério de Relações Exteriores e um deles é escolhido. Posteriormente, seu nome é enviado ao Brasil onde terá jurisdição que o submete aos órgãos de informação e ao próprio Itamaraty. Aprovado o nome, a ele é fornecida Carta Patente, por ordem da presidência da República do país que lhe concedeu o título, e a carteira do Corpo Consular Honorário Estrangeiro do MRE, com matrícula e número de série. Parabéns a todos os cônsules. Próxima segunda, dia 8, a Embaixada e o Consulado da República Theca juntam-se à Sociedade Consular do Ceará e abrem, às 19 horas, na Galeria BenficArte, exposição de fotos sobre a trajetória do arquiteto e artista Plástico Joze Plecnic. Vá lá.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/08/2011.

Sem categoria

A EXPOSIÇÃO SOBRE JOZE PLECNIK, A REPÚBLICA TCHECA E O CONCURSO – Jornal O Estado

A Tchecoslováquia, como país, surgiu em 1918, com o fim do Império Austro-Húngaro. Tão logo nasceu o país, Jo%u017Ee Ple%u010Dnik foi chamado para ser o arquiteto-chefe do Castelo de Praga, em 1920. Ali trabalhou até 1934, mesmo que passasse, desde 1921, a viver em Liubliana, sua cidade natal, onde veio ao mundo em 1872. Liubliana era e é da parte Eslovênia. Seu pai era um carpinteiro durão que queria que seus três filhos tivessem “profissões práticas”. Por conta disso, Ple%u010Dnik formou-se em marcenaria – aos 16 anos – na Escola Profissional de Graz, em 1888. Com a morte do pai, Plecnik vai para Viena aos 20 anos onde estuda arquitetura com Otto Wagner, um dos luminares da arte na época. Wagner acreditava e professava que os motivos decorativos históricos não deveriam permanecer e propunha a criação de ornamentos mais leves e orgânicos. Findo o curso, Ple%u010Dnik, em 1911, viaja à Praga para lecionar no Colégio de Artes e Ofícios. Em 1920, repito, é convidado para ser o arquiteto-chefe das obras do Castelo de Praga. Seu trabalho dura 14 anos. Em 1948, a Tchecoslováquia passou a integrar, forçadamente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, através do Golpe de Praga. Finda a 2ª Guerra, a Tchecoslováquia continua com as duas etnias, os Tchecos e os Eslovacos. Finalmente, em 1993, com o desmantelamento da URSS, se reparte em duas, surgindo, através do acordo chamado “Divórcio de Veludo”, por ser amistoso, as República Tcheca e a Eslovênia. Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, morto em 1957, volta a ser cultuado após os anos 80 e suas refinadas obras de arquitetura, escultura e marcenaria estão agora expostas, graças à Embaixada da República Tcheca, o Consulado Honorário local e a Sociedade Consular do Ceará em múltiplas e belas fotografias, na Galeria BenficArte (Av. Carapininima, 2.200, Mezanino) As fotos poderão ser apreciadas, com calma e atenção, gratuitamente, por toda a próxima semana. A Exposição do “Arquiteto de Praga” dever ser visitada, quase como parte da grade curricular por estudantes de arquitetura, bem como arquitetos, artistas plásticos, especialmente escultores, amantes da arte e pelo público em geral, como expressão eloquente do arquiteto, artesão e escultor Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, na terra de Franz Kafka. A cidade de Praga fica no centro da Europa, rasgada pelo rio Vltava que obrigou a construção de belas pontes. Lá no alto de uma colina, no lugar chamado Hradcany, está o Castelo de Praga que, longe de lembrar os nobres seus ocupantes, nos remete à obra de um de seus arquitetos, mostrando que a arte transcende a política e a nobreza. Nela, os gênios nunca morrem. A propósito, no próximo mês de setembro, o Consulado da República Tcheca no Ceará, na pessoa do Cônsul Honorário Raimundo Viana, lançará com o apoio da Sociedade Consular do Ceará e da equipe cultural do Shopping Benfica, concurso exclusivo para estudantes, regularmente matriculados, em universidades públicas e privadas, que deverão escrever sobre o tema: “A República Tcheca e Praga são uma bênção”. O(a) vencedor(a) terá direito a viagem aérea de ida-e-volta à Praga, com permanência paga por dez dias. Que tal?
João Soares Neto,
Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2011.