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CRÔNICA DO DESVARIO – Diário do Nordeste

Não sei por onde começar. Escolho Amy Winehouse. A primeira vez que a vi, pela televisão, foi em Beijing. O telão do bar do hotel reproduzia show seu. Os caracteres e a locução eram em Mandarim. Só descobri o nome ao final. Entre estarrecido e curioso fiquei pasmo com a figura gótica, franzina e voz marcante. O sobrenome judeu Casa de Vinho (Winehouse) não se mostrou suficiente. Era adicta de tudo e ninguém parecia cuidar dela. Tinha cara de jovem desvalida e o que a distinguia dos consumidores contumazes de cocaína e crack eram o talento e a irreverência consequente. Morreu aos 27, por absoluta desconexão com o mundo que a aplaudia. O mito surgido pela insensatez humana. Pulo para Oslo e a Ilha de Utoeya, no país que tem, ao meu olhar, o sol da meia-noite mais bonito do planeta, Dinamarca, sempre admirada por seu recato social coletivo. Agora, um desatinado – porém inteligente – “cavaleiro templário moderno”, Anders Behring Breivik, talvez leitor de romances do americano Dan Brown, como o “Código Da Vinci”, ativa carro-bomba em Oslo e daí, friamente, se desloca, falsamente fardado, para matar dezenas de jovens reunidos em Utoeya. Volto à China, país que vende tecnologia para todo o mundo e vejo que dois trens se chocam e matam 43 pessoas. Como? Os Estados Unidos, por sua vez, sofrem a angústia que só terminará depois de amanhã, 02 de agosto. Se os partidos Democrata e Republicano não chegarem a um acordo, mínimo que seja, o país poderá dar o maior calote mundial. Se isso acontecer, tudo o mais virá em ondas gigantescas como um Tsunami macroeconômico para todos, Brasil, inclusive. Aqui, a presidente Dilma está quase terminando a gravidez de nove meses, desde o seu primeiro dia no Alvorada. Neste período, já não aceita mais os conselhos do médico Palloci, devolve o enxoval e os presentes do “republicano” Ministério dos Transportes, enquanto rumina como chegará à délivrance marcada para fins de setembro. Ao cabo, um registro pessoal de pesar: o falecimento nos EEUU da arquiteta Maria Clara Nogueira Paes Caminha, profissional de brio, filha exemplar e mãe de filhos capazes e cidadãos do mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2011.

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O QUE É UM CÔNSUL? – Jornal O Estado

O dia de hoje é consagrado ao Cônsul. O que é um Cônsul? Na Antiguidade Romana era o Magistrado Supremo. No ano de 509, antes de Cristo, Roma substituiu o rei por um magistrado, o pretor, cuja atividade tinha a duração de um ano. Nos meados do Séc. V a.C. essa atividade foi desdobrada em duas, sendo designados cônsules. Para exercer essa função exigia-se idade mínima de 33, depois 37 e, em seguida, 43 anos. O consulado era o ponto culminante da carreira política, sendo eleito pelos comícios centuriais. Durante um ano exerciam os poderes de Chefe de Estado. Emprestavam seus nomes ao ano em que exerciam suas funções. O fim dos poderes dos cônsules deu-se no crepúsculo do Séc. II a.C. Depois, já na era cristã, o imperador os designava e já no Séc. IV certas funções permitiam a inscrição na casta consular hereditária. Depois disso, a figura do Cônsul teve proeminência na Primeira República Francesa, em 1799, perdurando até o surgimento do Primeiro Império, em 1804, na chamada Revolta dos 18 de brumário, tendo sido escolhidos três cônsules, Napoleão, Sieyès e Ducos. De fato, o primeiro Cônsul Bonaparte exercia totalmente o poder. Na diplomacia atual, em todos os países, diz-se do funcionário que representa, em uma nação estrangeira, o seu país e tem como missão proteger os cidadãos desse país constituinte, ser fomentador de relações, notadamente comerciais e práticas de boa vizinhança. No caso do Brasil, os cônsules são funcionários de carreira, formados, a partir de 1945, no Instituto Rio Branco – assim intitulado em homenagem ao historiador e cônsul José Maria da Silva Paranhos, com atuação diplomática eficaz no final do século 19 e começo do 20, o Barão do Rio Branco – órgão do Ministério das Relações Exteriores. O lugar onde exerce a sua função é chamado de consulado ou repartição consular, que tem imunidade diplomática. No caso específico dos cônsules honorários eles devem ser cidadãos maiores de um país, reconhecidamente capazes, com penetração social, nele residente, e representar os interesses de outra nação. O processo de formação de um cônsul de carreira segue, em cada país, um rito próprio. Aqui no Brasil para exercer a diplomacia é necessário ser brasileiro, nato ou naturalizado, ter curso superior completo e submeter-se a um concurso público anual. O processo de escolha dos cônsules honorários começa com a indicação de um ou mais nomes pelo Embaixador ao governo do país por ele representado. Esses nomes são submetidos ao seu Ministério de Relações Exteriores e um deles é escolhido. Posteriormente, seu nome é enviado ao Brasil onde terá jurisdição que o submete aos órgãos de informação e ao próprio Itamaraty. Aprovado o nome, a ele é fornecida Carta Patente, por ordem da presidência da República do país que lhe concedeu o título, e a carteira do Corpo Consular Honorário Estrangeiro do MRE, com matrícula e número de série. Parabéns a todos os cônsules. Próxima segunda, dia 8, a Embaixada e o Consulado da República Theca juntam-se à Sociedade Consular do Ceará e abrem, às 19 horas, na Galeria BenficArte, exposição de fotos sobre a trajetória do arquiteto e artista Plástico Joze Plecnic. Vá lá.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/08/2011.

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A EXPOSIÇÃO SOBRE JOZE PLECNIK, A REPÚBLICA TCHECA E O CONCURSO – Jornal O Estado

A Tchecoslováquia, como país, surgiu em 1918, com o fim do Império Austro-Húngaro. Tão logo nasceu o país, Jo%u017Ee Ple%u010Dnik foi chamado para ser o arquiteto-chefe do Castelo de Praga, em 1920. Ali trabalhou até 1934, mesmo que passasse, desde 1921, a viver em Liubliana, sua cidade natal, onde veio ao mundo em 1872. Liubliana era e é da parte Eslovênia. Seu pai era um carpinteiro durão que queria que seus três filhos tivessem “profissões práticas”. Por conta disso, Ple%u010Dnik formou-se em marcenaria – aos 16 anos – na Escola Profissional de Graz, em 1888. Com a morte do pai, Plecnik vai para Viena aos 20 anos onde estuda arquitetura com Otto Wagner, um dos luminares da arte na época. Wagner acreditava e professava que os motivos decorativos históricos não deveriam permanecer e propunha a criação de ornamentos mais leves e orgânicos. Findo o curso, Ple%u010Dnik, em 1911, viaja à Praga para lecionar no Colégio de Artes e Ofícios. Em 1920, repito, é convidado para ser o arquiteto-chefe das obras do Castelo de Praga. Seu trabalho dura 14 anos. Em 1948, a Tchecoslováquia passou a integrar, forçadamente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, através do Golpe de Praga. Finda a 2ª Guerra, a Tchecoslováquia continua com as duas etnias, os Tchecos e os Eslovacos. Finalmente, em 1993, com o desmantelamento da URSS, se reparte em duas, surgindo, através do acordo chamado “Divórcio de Veludo”, por ser amistoso, as República Tcheca e a Eslovênia. Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, morto em 1957, volta a ser cultuado após os anos 80 e suas refinadas obras de arquitetura, escultura e marcenaria estão agora expostas, graças à Embaixada da República Tcheca, o Consulado Honorário local e a Sociedade Consular do Ceará em múltiplas e belas fotografias, na Galeria BenficArte (Av. Carapininima, 2.200, Mezanino) As fotos poderão ser apreciadas, com calma e atenção, gratuitamente, por toda a próxima semana. A Exposição do “Arquiteto de Praga” dever ser visitada, quase como parte da grade curricular por estudantes de arquitetura, bem como arquitetos, artistas plásticos, especialmente escultores, amantes da arte e pelo público em geral, como expressão eloquente do arquiteto, artesão e escultor Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, na terra de Franz Kafka. A cidade de Praga fica no centro da Europa, rasgada pelo rio Vltava que obrigou a construção de belas pontes. Lá no alto de uma colina, no lugar chamado Hradcany, está o Castelo de Praga que, longe de lembrar os nobres seus ocupantes, nos remete à obra de um de seus arquitetos, mostrando que a arte transcende a política e a nobreza. Nela, os gênios nunca morrem. A propósito, no próximo mês de setembro, o Consulado da República Tcheca no Ceará, na pessoa do Cônsul Honorário Raimundo Viana, lançará com o apoio da Sociedade Consular do Ceará e da equipe cultural do Shopping Benfica, concurso exclusivo para estudantes, regularmente matriculados, em universidades públicas e privadas, que deverão escrever sobre o tema: “A República Tcheca e Praga são uma bênção”. O(a) vencedor(a) terá direito a viagem aérea de ida-e-volta à Praga, com permanência paga por dez dias. Que tal?
João Soares Neto,
Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2011.

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PAI EM FORMAÇÃO – Diário do Nordeste

Repito-me, ano a ano. Sou pai dos anos setenta. Jovem, não entendia da vida de casado ou de puericultura. Fui tateando por leitura, intuição e senso comum. Acompanhei pré-natais, partos, visitas a pediatras, escolas, primeiro dia de aula, festinhas de aniversários, primeiras comunhões, natais, carnavais e que tais. Como o diálogo adulto/ criança não é simples, criei dois personagens para auxiliar: Paulinho e Rosinha. Irmãos, exemplares, moravam por perto, um pouquinho mais velhos e nunca os encontrávamos. Rosinha era estudiosa, obediente, não brigava com o irmão. Paulinho era alegre, compreensivo e dividia o que tinha com a irmã. Foram crescendo. Frequentei reuniões de pais e mestres, festivais de dança, vestia camisas borradas de tintas por elas e usava de inventividade nos aniversários. Em um deles aluguei ônibus e saímos, com outras crianças, passeando pela cidade, ouvindo música, vendo animais, parques, fazendo a festa ao ar livre. Cresceram. Veio a fase difícil da puberdade e no meio de cinco mulheres, eu, meio sem jeito. Era comunidade feminina ciumenta e possessiva. Acontece que além de pai, era marido. Já adultas, ocorreu a separação, difícil, e o divórcio. Sofreram. Sofri. Superamos. Hoje, elas têm filhos e sabem o que criança cobra e apronta. Uma me disse: “pai, as minhas filhas têm o mesmo ciúme de mim que eu tinha de você. Estou pagando”. Outra: “A oldest lê igual a você”. Outra mais: “O caçula tem seu temperamento”. Rosinha, o personagem, parece rediviva. Na medida da ignorância paterna, minha versão é mais amena. Tentei passar o que intuía, imaginava que sabia e o que admitia ser correto. Nossa casa, grandes árvores frutíferas, era um mini-parque ecológico/esportivo a acolher amigos para brincar, estudar e celebrar. Acordava-as, não faltava às refeições, chegava cedo do trabalho, íamos, por anos, à praia da Tabuba, viajávamos nas férias e ajudava nos deveres escolares. Acompanhei escolas, vestibulares, fins de cursos, procurei tê-las por perto no trabalho. Vieram namoros, fases difíceis, noivados, casamentos, partos e, agora, aniversários de netos. Hoje, dia dos pais, posso dizer a elas: contem comigo.

João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/08/2011.

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PEDAÇOS DE NATAL – Diário do Nordeste

Agora que o fim do mundo se foi sem nos levar, poderemos comemorar o Natal. E perguntei a um homem do povo: se você tivesse dinheiro para comprar uma cesta de natal a quem daria?. Respondeu: Ao da minha raça, o Dr. Joaquim. Ontem, um sapateiro/engraxate, que conhece todos os cantos onde ando, pediu uma grana e falou que ia viajar para o interior. Agradece: Deus o abençoe. Semana que vem ele volta. A mesma conversa de sempre.
Neste começo de noite, recolho-me para cumprir estas linhas e antevejo o fim do ano, mas ninguém me explicou porque o peru é quem tem que paga o pato na ceia natalina. A propósito, há poucos dias, dialogava com um político em fim de mandato Ele dizia uma frase que ficou martelando: “política é para rico besta e pobre sabido”.
A sabedoria é diferente da sapiência, mas até bem pouco não se notava a diferença. Parece que neste Natal os sabidos estarão preocupados. Há no mundo uma mudança de ares e de cores. Sai, pouco a pouco, o branco anglo-saxão e emerge o amarelo da terra de Lao Tse. Países oscilam. Cá por nossas bandas os netos de escravos estão comandando o ainda maior país do mundo e duas cortes superiores brasileiras. É tempo de mandar a prepotência para o brejo, a falácia recolher-se em contos de fada ou botecos e os que se imaginam permanentes em qualquer coisa que leiam os obituários.
Gilberto Freyre, amado e odiado, dizia ser o Brasil o país das impossibilidades possíveis. Mas é Natal. É um breve tempo de reflexão, de encontros e fraternidade. Seria bom que fôssemos verdadeiros, sem farsas ou disfarces, como os do Papai Noel. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/12/2012

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CALMARIA E BRASA – Diário do Nordeste

Estamos empanturrados de comida ou cheios de graça do Natal. Agora, nesta calmaria até o meio dia do 31, cuidamos de nossas vidinhas, agradecendo mimos recebidos, levantando as contas a pagar no novo ano, fazendo planos, a deletar ou aceitar as mídias sociais a nos assolar por todos os lados. Somos colecionadores de instantes. Eles nos agradam ou maltratam.
Ninguém é tão forte para já não ter esmorecido por conta de fatos ou pessoas. O ímpeto nos transforma em brasa; é a inquietação salvadora, a loucura a nos impelir ao desconhecido e a nos moverem cada jornada. Não há ano novo se as trilhas forem as mesmas. Devemos ter dúvidas, mas sejam elas dizimadas pela coragem de retirar a nossa âncora da masmorra existencial da inação. Mexa-se, dispense guias e vá abrindo as suas picadas, mesmo se cansar. Os mortos não cansam.
Cansar é estar vivo. Recupere-se, a água está ao seu alcance. Basta procurá-la como se fazia em criança brincando de esconde-esconde. Não se meta a besta. O homem lá de cima e os cosmos não gostam disso. Deixe de se achar. Não pose. Os cliques da vida e do insondável gravarão seus desvios. Seja você; não pense em adornos. Nenhum vai modificá-lo.
Todos ficamos nus. Há, a cada dia, um volume de inquietude a ser removido para não deixar sequelas. Não chore em silêncio, há ombros disponíveis. Ache-os. Divida, não subtraia. A calmaria é um hiato. A brasa é a constância. Queime-se. Enumere seus objetivos, mas dê um jeito de ajudar o destino ou a sorte. Não há jardins sem se estrumar o chão com as nossas próprias mãos. Para as rosas, dizia Machado, o jardineiro é eterno. Vida sem luta é pena. Feliz 2013.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2012

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O QUE HÁ DE NOVO APÓS O ANO NOVO? – Jornal O Estado

Há o que você tiver feito de diferente. Promessas foram feitas, está firme ou não vai cumpri-las? Ler este caderno Linha Azul é algo admirável. A palavra linha dá sinal de ser uma reta (a linha do trem), mas se a prolongarmos, imaginariamente, ela fará curvas sobre o planeta Terra até se encontrar com a ponta inicial. Lembra da Linha do Equador? Linha indica também a expressão “andar na linha”, isto é, fazer as coisas certas. Mas o segredo não é só fazer as coisas certas. O segredo, de verdade, é fazê-las no tempo certo. Acontece que só se sabe qual o tempo certo depois que ele passa. E depois que passa não tem mais graça. A linha, além disso, é parte da trama de um tecido, assim como as pessoas formam o tecido social, este que está contido neste caderno leve e que abre o fim de cada semana mostrando algo do que já aconteceu ou louvando, em sua primeira página, fatos ou pessoas. O caderno além de linha tem o nome azul. O azul pode ser a mistura do ciano com o magenta. É uma cor primária, calma, aquietada e que dá enlevo às pessoas. Configura a noite clara, lua plena, decorada com estrelas e constelações. Mas, todas as cores têm nuances, o azul tem um sem-fim. Nos enxovais de criança o azul representa o sexo masculino. Mera convenção. Em inglês, entretanto, a palavra azul (blue) pode, igualmente, significar tristeza, melancolia ou o nosso banzo herdado dos africanos. Os mesmos que, nos Estados Unidos, inventaram o “blues”, gênero musical melancólico, cantado ou tocado com expressividade, a partir de sua origem natural em cânticos nos templos religiosos, antes e após a libertação dos escravos. Assim, estar blue pode significar estar triste. Mas o jornal não pensou nessa hipótese, quer celebrar o fim de semana de forma alegre, prazenteira, com registro fotográfico, crônicas leves, artigos, colunas e muito mais sobre as pessoas, a matéria prima essencial deste caderno. O jornal cotidiano sabe de seu existir efêmero: um dia, horas, minutos, dependendo da paciência e interesse de cada leitor. Por tal razão, o caderno Linha Azul se faz agradável para a leitura de um público multifário espelhando a sociedade que retrata. E jornal – ou o caderno – só faz sentido quando passa de mão em mão, comentado, elogiado, criticado, recortado e até pisoteado. O ex-presidente Lula, em seus amuos, dizia não ler jornal para não ter azia. Mera metáfora para dizer que tinha adversários na imprensa. No primeiro dia, após Brasília, em seu apartamento no bairro Santa Terezinha, em São Bernardo do Campo, SP, lá estava ele com óculos, camisa regata e jornais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/01/2011.

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CHUVA E SOL – Diário do Nordeste

Chovia em Brasília quando a presidente eleita Dilma Vana Rousseff entrou, na sexta-feira passada. Foi na altura da Catedral desenhada por Niemeyer, no velho Rolls Royce, com capota levantada, para a posse no Congresso Nacional. Ao sair, o sol espreitava e ela pode, junto com a filha, desfilar de pé e acenar para a multidão. Nada do que digo neste escrito é novo, todos viram, leram ou ouviram. As televisões aclararam ao Brasil, no dia da posse e da transmissão de cargo, as diferenças básicas de personalidade entre o presidente que sai e a nova presidente. O que todos já sabíamos. Lula foi e é espontâneo, derramado, desenvolto ao falar, pouco se preocupando com o conteúdo, mas sempre focado na emoção e na reação do público que o ouve. Foi assim ao sair do Palácio da Alvorada, em carro fechado. Abaixou o vidro e foi acenando com a mão direita. Na hora da decolagem do avião que o levaria para São Paulo, lá estava ele na cabine do piloto, de vidro aberto, quase com a cabeça de fora. Na outra janela, D. Marisa Letícia também acenava. Dilma é diferente. Já deu para ver. É metade mineira, metade búlgara. Sua mãe, também Dilma, tem Silva no sobrenome. Seu pai, o imigrante bem-sucedido, Pétar Roussef, registrou a filha apenas com o Roussef. Aliás, na parte brasileira ela não é só mineira. De lá saiu adolescente, indo para São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília. Seu discurso escrito, como manda o protocolo, tinha 48 páginas. Não lembro de ter ouvido qualquer menção a seu falecido pai. É claro que discurso protocolar presidencial é feito em equipe, mas traduz, em sua essência, a característica de quem dá as diretrizes. Ela, a presidente, corta, acrescenta e até finaliza. Uma das palavras mais citadas no seu discurso foi mulher. Deu ênfase ao compromisso de erradicar a miséria de 18 milhões de pessoas, até 2014. Hoje, 43% das moradias brasileiras ainda são insalubres, não têm água e esgoto, causando doenças e mortes. Esse é um grande desafio, sem falar na carência de educação pública de razoável qualidade e das reformas tributária e política. A par disso, já estão circulando e-mails pedindo o fim da reeleição.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2011.

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O DIA EM QUE MATARAM O PRESIDENTE – Jornal O Estado

Quis o destino que conhecesse Elano Paula e Chico Anysio no final da década de 60. Era eu pretensioso a ponto de conversar com eles, pensando falar de igual para igual. Imagine! Mal saído da universidade, conheci os dois irmãos e amigos, já consagrados.
Elano, engenheiro civil e empresário, tinha um pé no concreto, outro no rádio e na televisão. Veio ter à Fortaleza para fazer o novo em termos habitacionais e gestão empresarial, no tempo em que o computador era um grande móvel e precisava de climatização constante para funcionar sem problemas. É o letrista da música “Canção de Amor”, que imortalizou Elizete Cardoso, tem vários livros publicados, sabe pintar e é um conversador nato.
Chico Anysio ou Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho. ator, era e é como aquele polvo alemão, o Paul, que adivinhava o resultado dos jogos da última Copa do Mundo: sabe de tudo, antes. Atua, escreve livros, dirige, pinta, gosta de casamentos, filhos e de cavalos, tem mais de mil faces, bastando rodopiar no palco de cara limpa – ou não – para ser quem ele quiser. Tornou-se, por obra e graça de seu talento e profissionalismo, o maior humorista do Brasil.
Eles, cearenses, do Rio e do mundo, têm um amor declarado à cidade de Maranguape, onde nasceram. Há poucos anos, me convidaram para participar com os dois de um projeto novo: um blog com o nome Maranguape. Fiquei orgulhoso pela formação do trio e pela lembrança, pois a vida, o espaço e o tempo nos separavam. Agora, mais uma vez, sou surpreendido. Convidam-me para escrever a orelha do livro “O Dia Em Que Mataram o Presidente”, que fizeram juntos.
Eles, Elano e Chico, acostumaram-se, desde há muito, a trabalhar na área da literatura a quatro mãos. Esse novo livro é um romance brasileiro na feitura, personagens e enredo. Começa com um sequestro no Rio, perto do Arsenal de Marinha; explode um Boeing em Buenos Aires; um Senador da República, com a sua jovem e bela amante, sobe a serra de Petrópolis para encontro em fazenda da família; e, entre outros cenários, aparece o Planalto Central onde novas tramas são urdidas para matar o Presidente da República em Fortaleza.
O leitor deve saber que livro é um objeto precioso, de validade indeterminada, silencioso, sempre à disposição, sem nada reclamar. Esse livro vai torná-lo, se já não o é por natureza, curioso. Tão intensa é a sua exposição não linear que cada página poderá transformar o texto escrito em imagens mentais televisivas de um verdadeiro folhetim policial. As cenas irão sendo criadas pelo próprio leitor, acredite. Ele terá a oportunidade de saber como funcionam as cabeças de pessoas geniais como o Elano e o Chico. Duas palavras finais, orelha de livro serve também para marcar a página em que se para de ler. Nesse caso, penso que o leitor só parará na última que, por sinal, tem algo a ver com a primeira. É só aguardar o lançamento.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/01/2011.

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PAPÉIS AVULSOS – Diário do Nordeste

Ao redor de minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, do trabalho e no carro. Os papéis vão tomando todos os espaços de mesas e das cadeiras. Uma bagunça. Hoje, resolvi fazer limpeza nesses papéis avulsos. Estou gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros alérgicos e culpa. Será que não precisarei disso ou daquilo em algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, percebo que falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a crítica aguda machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, no “ A Sereníssima República”. A propósito, a nossa República não anda nada calma. Há excesso de questões irresolvidas entre os poderes e as mídias– que ainda incluem o papel dos jornais, revistas e livros – nos mostram as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos e sindicatos, malthusianos como polvos, ocupam espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado por falta de confiança em auxiliares que escolhera como confidentes. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos em burocracia, dificuldades com soluções negociadas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2011