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ALERTA AO GOVERNADOR – Diário do Nordeste

Senhor Governador: Fortaleza, segundo o Ipece, possui 130 mil analfabetos. Na verdade, se aditarmos os funcionais, os querabiscam o nome e não sabem juntar letras em frases, o número sobe para 500 mil. Além disso, metade de seus 2,5 milhões é pobre. Pobreza não é fato. É falta de estudo e chance. É bom que a cidade se renove para as Copas, mas melhor seria se não houvesse mendigos, catadores de riquixás das sobras alheias, meninos cheirando “crack” e famílias faveladas.
A educação deve ser prioridade tal como o Centro de Eventos, o Castelão, o Aquário, a refinaria, a integração do metrô, comunicação, estradas e viadutos, casas populares, água e esgotos, delegacias, hospitais, presídios e a futura ponte estaiada. Em toda a cidade há pobreza e delinquência. Até na rua da residência do governo desfilam jovens “dependentes” e ociosos.
O óbvio: a cultura decorre da educação. Analfabetos têm dificuldades em concentração para pensar, ver peças de teatro e filmes. Convoque gente capaz para os conselhos de Educação e Cultura, não aceite imposições de lobbies. Conselhos devem aprofundar argumentos e não interesses. O Dragão do Mar, o Centro de Eventos e tantos outros equipamentos estaduais podem servir de núcleos de ensino fundamental. Repito: educação é base. Cultura é consequência.
O Ceará não pode ter cara de rico enquanto não resolver a miséria, o saneamento básico e o analfabetismo. Exemplos: 1. as mortes e sequelas diárias decorrentes da profusão de mototaxis são atestados da procura de sobrevivência por ausência de qualificação. 2. Camelôs são empreendedores potenciais a busca de espaço para a lida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/12/2012.

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MEDALHA DO SESQUICENTENÁRIO – Jornal O Estado

Quis o provedor Luiz Marques acolher, ontem à tarde, o meu nome para, de princípio, falar em nome das ilustres pessoas aqui agraciadas. Ora, a tarefa poderia caber, pela precedência, ao Deputado Federal, Padre e Provedor José Linhares Pontes, perene da Santa Casa da Misericórdia de Sobral. E, certamente, a todos os outros. Ser agraciado com uma Medalha Impoluta por instituição que comemora o seu sesquicentenário, com a respeitabilidade e o aprumo de conduta da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza é motivo de honra aos quinze laureados. As santas casas de Misericórdia no Brasil, sabemos todos, são entidades de benemerência nascidas antes da proclamação da República.
A Igreja Católica de Roma, de forma pioneira, criou, no século XIII, as universidades de Bologna, Paris e Oxford, para disseminar a cultura e a informação que se transmudam em reflexão e amadurecem como conhecimento a iluminar o mundo. Essa Igreja teve, séculos depois, a sabedoria e a compaixão de modelar, organizar e gerir, de princípio junto com o Estado, hospitais de caridade para atendimento aos pobres que eram, e ainda o são, a maioria da população brasileira. Resistir por 150 anos às bruscas mudanças de regimes políticos e às derivações episódicas – ou não- das múltiplas ordens econômicas e do intricado sistema financeiro, pressupõe o trabalho silêncio e profícuo dos que fazem o bem e, claro o descortino de suas gestões.
Um dos fatos que nos surpreende, com alegria, neste século XXI do quase esgotamento da colossal Europa, da emergência da China, da Índia e do Brasil, dos tempos e caminhos cibernéticos que suprimem palavras e empobrecem a linguagem culta é a manutenção de terminologias da pré-modernidade para a designação de suas mesas administrativas, seus mordomos e suas provedorias.
A tradição permanece na forma, mas há na pessoa do professor e engenheiro Luiz Marques a capacidade de gestão qualificada para dotá-la, junto com seus pares, de conteúdo científico e administrativo que supera as dificuldades entre as despesas, sempre crescentes, e as receitas defasadas impostas pelo SUS e demais órgãos que gerenciam a saúde pública brasileira.
Sabemos que cada um dos agraciados estabeleceu uma ponte, um “stent” ou uma sutura sem queloide com esta majestosa Casa, feita de pedra e cal, monumento arquitetônico alicerçado na fé de seus fundadores, mas, principalmente, no relacionamento atual dos dirigentes com os clientes, a sociedade, o seu corpo clínico, a sua área de enfermagem e o seu setor administrativo
As homenagens prestadas há poucos dias a médicos de nomeada que por ela passaram em processos de formação acadêmica e a demonstração publicada de afeto pelo Dr. Candido Pinheiro são atestados magníloquos dessa convivência prazerosa.
Ana Maria Fontenele, Antonio Edmilson Lima Júnior, Antonio Palácio de Queiroz, Horácio Marques, in Memoriam, Jaime Tomás de Aquino, Jorge Alberto Studart, José Kalil Otoch, José Linhares Pontes, José Raimundo Arruda Bastos, Luciano Pamplona Júnior, Raimundo Gomes de Matos, Roberto Proença de Macedo e Walter Belchior Fernandes não carecem de apresentação. Cada um de per si representa uma mostra qualificada e multifacetada da coletividade de Fortaleza. Nada haveria a acrescentar aos seus brilhos peculiares.
De minha parte, digo que sou, com orgulho, sobrinho-neto do Padre João Saraiva Leão, erudito e pastor verdadeiro, que foi Capelão com desvelo desta Casa abençoada pelo Criador, em boa parte do século passado. Faz-se mister destacar fato acontecido há décadas. Ao ser solicitado pela Prefeitura de Fortaleza para sugerir estudo sobre a então futura regulamentação dos cemitérios particulares da cidade, tive a acuidade e a lembrança de tornar obrigatória que parte significativa das receitas brutas desses campos-santos se destinassem, especificamente, a esta Irmandade e ao Instituto José Frota, o IJF.
Estas, talvez, sejam as razões da nossa presença nesta solenidade que consolida a convicção de que fazer o bem sem grandes alardes é um dos caminhos que justificam a breve passagem do homem pela vida. Por fim, em nome dos agraciados, o nosso reconhecimento ao Provedor Luiz Marques e a todos os integrantes deste íntegro sodalício.
O Estado-Ce, em 15.12.2012)

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2012.

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CULTURA E ARTE – Diário do Nordeste

Há anos, a profa. Universitária, Walda Weyne, realizou pesquisa em hemerotecas. Ela objetivava revelar ações culturais e artísticas dos anos 60 em Fortaleza. Valeu-se da coluna do Correio do Ceará, “Informes Acadêmicos”, escrita por mim. Comecei no jornal em novembro de 1962. Nessas colunas abordava a emergência da Universidade do Ceará, depois UFC, política universitária, cultura e arte. Dei uma lida nas centenas de páginas. Passo alguns com o cuidado de colocar datas, para referências. Começo com notas de 17.11.62: 1. “O Presidente da UEE, Barros Pinho, deverá executar um programa administrativo assessorado por capacitados alunos das escolas…”.2. “Surgem rumores que é pensamento do novo Governo criar uma Universidade Estadual…”. No dia 27 do mesmo mês, o Reitor Martins Filho rebate críticas do jornal Correio da Manhã: “Disse o Magnífico que se faz cultura popular na UC através do Museu de Arte, do Coral e do Curso de Arte Dramática”. Em 24.01.63 registro a discussão sobre a criação de uma revista cultural: “Cabe, portanto, ao diretor (da Imprensa Universitária)Paulo Elpídio e ao Reitor Martins Filho, que é também presidente da Academia Cearense de Letras, apoiarem tal iniciativa, que é séria e decidida”. No dia 06.05.63, falo do acidente de Lambretta do Prof. de Artes , o suíço Jean Pierre Chabloz: “tem recebido visitas dos mais destacados vultos das letras, artes e cultura de nossa terra”. Em 23.08.63: “Parsifal Barroso, Mozart S. Aderaldo e João Clímaco ministrarão aulas no curso de arte e literatura coordenado por Artur E. Benevides e que tem o patrocínio da Academia Cearense de Letras”. Eu fiz esse curso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2012

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ANO NOVO, NÓS, FILAS E COTAS – Jornal O Estado

O ano vai ficar novo e nós seremos os mesmos? Desataremos os nós? O Brasil deu uma pequena repaginada – ainda sem versão final – em seus costumes no ano de 2012. Neste tempo de fim de ano cada pessoa tem direito a planos pessoais para o futuro. O futuro é depois do hoje. Eu gostaria, portanto, caro leitor, fosse acrescentado mais um item em seus projetos de vida. Adote um princípio consagrado na maior parte do planeta: ficar em fila. Nada de ser careta ou moralista. Não ficar em fila mostra pouca educação, incapacidade de obedecer a regras não simpáticas e achar-se com mais direito que os outros. Ficar em fila é questão de educação.
E por falar nisso, há ainda muita coisa por fazer no Brasil. Por exemplo, a péssima educação -ou instrução- nos coloca em 84º. lugar na fila do mundo, no campo do conhecimento. No censo atual (2010) do IBGE há registro de apenas 7,9% dos brasileiros com curso superior completo. No Nordeste, esse percentual cai para 2,3%. Se verificarmos o número de analfabetos maiores de 15 anos, chegamos a 13% ou 26 milhões de gente quase surda e cega para ouvir, ler e entender algo complexo. A informação, a educação, a leitura e o conhecimento aclaram as ideias e nos transformam em pessoas críticas ajuizando fatos com menor propensão de erro.
Estudamos quase nada, lemos pouco e não nos preparamos para as guinadas e os embates do mundo. Ele está girando em ciclos cada vez menores por conta do avanço tecnológico e da Web. Repito, 26 Milhões de compatrícios não sabem ler, escrever ou sequer garatujar o nome na carteira de trabalho. A educação, direito fundamental da pessoa, ainda não contempla, em nosso país, um arco significativo. É privilégio.
Entretanto, surgiu há algum tempo a ideia das cotas (por critérios sociais e raciais; e para alunos de escola pública) já em processo de consolidação e alguns milhares estão conseguindo, nesse caso, “furar a fila” do atraso para entrar na universidade pública e gratuita. Paradoxalmente, esse fato não é burlar a fila, tanto o uso das aspas, mas um reparo do Brasil na sua história permeada de injustiças e de desamparo. Por questões de raça, status e cultura, muitos não foram assimilados por uma sociedade preconceituosa a se julgar superior por força de sua pele, do local de nascimento ou dos cobres em seu bolso. As cotas vão eliminando desigualdades.
Ainda agor o nordestino migrante em São Paulo, levado em velhos ônibus clandestinos para ser porteiro ou zelador em prédios ou mão-de-obra barata em projetos ditos sociais, é tratado por “baiano”, como adjetivação pejorativa e preconceituosa. Ele vai direto para uma favela onde já tem parente ou amigo. Isso não é destino, é tragédia, tudo por conta da ausência de oportunidade de sua família incrustada em um grotão qualquer e da inexistência de educação básica na infância.
Voltando às filas: furá-las, no contexto, é não aceitar o outro à sua frente. É não respeitar a ordem natural das coisas. É procurar regalia em qualquer situação. É valer-se disso e daquilo para burlar os costumes e as leis. A esperteza, a malandragem, a promiscuidade entre o público e o privado é uma furação de fila enraizada a ser extirpada. Inclua o respeito ao outro e a si mesmo em seus desejos para 2013. O brasileiro precisa de epifanias. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/12/2012.

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PEDAÇOS DE NATAL – Diário do Nordeste

Agora que o fim do mundo se foi sem nos levar, poderemos comemorar o Natal. E perguntei a um homem do povo: se você tivesse dinheiro para comprar uma cesta de natal a quem daria?. Respondeu: Ao da minha raça, o Dr. Joaquim. Ontem, um sapateiro/engraxate, que conhece todos os cantos onde ando, pediu uma grana e falou que ia viajar para o interior. Agradece: Deus o abençoe. Semana que vem ele volta. A mesma conversa de sempre.
Neste começo de noite, recolho-me para cumprir estas linhas e antevejo o fim do ano, mas ninguém me explicou porque o peru é quem tem que paga o pato na ceia natalina. A propósito, há poucos dias, dialogava com um político em fim de mandato Ele dizia uma frase que ficou martelando: “política é para rico besta e pobre sabido”.
A sabedoria é diferente da sapiência, mas até bem pouco não se notava a diferença. Parece que neste Natal os sabidos estarão preocupados. Há no mundo uma mudança de ares e de cores. Sai, pouco a pouco, o branco anglo-saxão e emerge o amarelo da terra de Lao Tse. Países oscilam. Cá por nossas bandas os netos de escravos estão comandando o ainda maior país do mundo e duas cortes superiores brasileiras. É tempo de mandar a prepotência para o brejo, a falácia recolher-se em contos de fada ou botecos e os que se imaginam permanentes em qualquer coisa que leiam os obituários.
Gilberto Freyre, amado e odiado, dizia ser o Brasil o país das impossibilidades possíveis. Mas é Natal. É um breve tempo de reflexão, de encontros e fraternidade. Seria bom que fôssemos verdadeiros, sem farsas ou disfarces, como os do Papai Noel. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/12/2012

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CALMARIA E BRASA – Diário do Nordeste

Estamos empanturrados de comida ou cheios de graça do Natal. Agora, nesta calmaria até o meio dia do 31, cuidamos de nossas vidinhas, agradecendo mimos recebidos, levantando as contas a pagar no novo ano, fazendo planos, a deletar ou aceitar as mídias sociais a nos assolar por todos os lados. Somos colecionadores de instantes. Eles nos agradam ou maltratam.
Ninguém é tão forte para já não ter esmorecido por conta de fatos ou pessoas. O ímpeto nos transforma em brasa; é a inquietação salvadora, a loucura a nos impelir ao desconhecido e a nos moverem cada jornada. Não há ano novo se as trilhas forem as mesmas. Devemos ter dúvidas, mas sejam elas dizimadas pela coragem de retirar a nossa âncora da masmorra existencial da inação. Mexa-se, dispense guias e vá abrindo as suas picadas, mesmo se cansar. Os mortos não cansam.
Cansar é estar vivo. Recupere-se, a água está ao seu alcance. Basta procurá-la como se fazia em criança brincando de esconde-esconde. Não se meta a besta. O homem lá de cima e os cosmos não gostam disso. Deixe de se achar. Não pose. Os cliques da vida e do insondável gravarão seus desvios. Seja você; não pense em adornos. Nenhum vai modificá-lo.
Todos ficamos nus. Há, a cada dia, um volume de inquietude a ser removido para não deixar sequelas. Não chore em silêncio, há ombros disponíveis. Ache-os. Divida, não subtraia. A calmaria é um hiato. A brasa é a constância. Queime-se. Enumere seus objetivos, mas dê um jeito de ajudar o destino ou a sorte. Não há jardins sem se estrumar o chão com as nossas próprias mãos. Para as rosas, dizia Machado, o jardineiro é eterno. Vida sem luta é pena. Feliz 2013.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2012

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O QUE HÁ DE NOVO APÓS O ANO NOVO? – Jornal O Estado

Há o que você tiver feito de diferente. Promessas foram feitas, está firme ou não vai cumpri-las? Ler este caderno Linha Azul é algo admirável. A palavra linha dá sinal de ser uma reta (a linha do trem), mas se a prolongarmos, imaginariamente, ela fará curvas sobre o planeta Terra até se encontrar com a ponta inicial. Lembra da Linha do Equador? Linha indica também a expressão “andar na linha”, isto é, fazer as coisas certas. Mas o segredo não é só fazer as coisas certas. O segredo, de verdade, é fazê-las no tempo certo. Acontece que só se sabe qual o tempo certo depois que ele passa. E depois que passa não tem mais graça. A linha, além disso, é parte da trama de um tecido, assim como as pessoas formam o tecido social, este que está contido neste caderno leve e que abre o fim de cada semana mostrando algo do que já aconteceu ou louvando, em sua primeira página, fatos ou pessoas. O caderno além de linha tem o nome azul. O azul pode ser a mistura do ciano com o magenta. É uma cor primária, calma, aquietada e que dá enlevo às pessoas. Configura a noite clara, lua plena, decorada com estrelas e constelações. Mas, todas as cores têm nuances, o azul tem um sem-fim. Nos enxovais de criança o azul representa o sexo masculino. Mera convenção. Em inglês, entretanto, a palavra azul (blue) pode, igualmente, significar tristeza, melancolia ou o nosso banzo herdado dos africanos. Os mesmos que, nos Estados Unidos, inventaram o “blues”, gênero musical melancólico, cantado ou tocado com expressividade, a partir de sua origem natural em cânticos nos templos religiosos, antes e após a libertação dos escravos. Assim, estar blue pode significar estar triste. Mas o jornal não pensou nessa hipótese, quer celebrar o fim de semana de forma alegre, prazenteira, com registro fotográfico, crônicas leves, artigos, colunas e muito mais sobre as pessoas, a matéria prima essencial deste caderno. O jornal cotidiano sabe de seu existir efêmero: um dia, horas, minutos, dependendo da paciência e interesse de cada leitor. Por tal razão, o caderno Linha Azul se faz agradável para a leitura de um público multifário espelhando a sociedade que retrata. E jornal – ou o caderno – só faz sentido quando passa de mão em mão, comentado, elogiado, criticado, recortado e até pisoteado. O ex-presidente Lula, em seus amuos, dizia não ler jornal para não ter azia. Mera metáfora para dizer que tinha adversários na imprensa. No primeiro dia, após Brasília, em seu apartamento no bairro Santa Terezinha, em São Bernardo do Campo, SP, lá estava ele com óculos, camisa regata e jornais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/01/2011.

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CHUVA E SOL – Diário do Nordeste

Chovia em Brasília quando a presidente eleita Dilma Vana Rousseff entrou, na sexta-feira passada. Foi na altura da Catedral desenhada por Niemeyer, no velho Rolls Royce, com capota levantada, para a posse no Congresso Nacional. Ao sair, o sol espreitava e ela pode, junto com a filha, desfilar de pé e acenar para a multidão. Nada do que digo neste escrito é novo, todos viram, leram ou ouviram. As televisões aclararam ao Brasil, no dia da posse e da transmissão de cargo, as diferenças básicas de personalidade entre o presidente que sai e a nova presidente. O que todos já sabíamos. Lula foi e é espontâneo, derramado, desenvolto ao falar, pouco se preocupando com o conteúdo, mas sempre focado na emoção e na reação do público que o ouve. Foi assim ao sair do Palácio da Alvorada, em carro fechado. Abaixou o vidro e foi acenando com a mão direita. Na hora da decolagem do avião que o levaria para São Paulo, lá estava ele na cabine do piloto, de vidro aberto, quase com a cabeça de fora. Na outra janela, D. Marisa Letícia também acenava. Dilma é diferente. Já deu para ver. É metade mineira, metade búlgara. Sua mãe, também Dilma, tem Silva no sobrenome. Seu pai, o imigrante bem-sucedido, Pétar Roussef, registrou a filha apenas com o Roussef. Aliás, na parte brasileira ela não é só mineira. De lá saiu adolescente, indo para São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília. Seu discurso escrito, como manda o protocolo, tinha 48 páginas. Não lembro de ter ouvido qualquer menção a seu falecido pai. É claro que discurso protocolar presidencial é feito em equipe, mas traduz, em sua essência, a característica de quem dá as diretrizes. Ela, a presidente, corta, acrescenta e até finaliza. Uma das palavras mais citadas no seu discurso foi mulher. Deu ênfase ao compromisso de erradicar a miséria de 18 milhões de pessoas, até 2014. Hoje, 43% das moradias brasileiras ainda são insalubres, não têm água e esgoto, causando doenças e mortes. Esse é um grande desafio, sem falar na carência de educação pública de razoável qualidade e das reformas tributária e política. A par disso, já estão circulando e-mails pedindo o fim da reeleição.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2011.

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O DIA EM QUE MATARAM O PRESIDENTE – Jornal O Estado

Quis o destino que conhecesse Elano Paula e Chico Anysio no final da década de 60. Era eu pretensioso a ponto de conversar com eles, pensando falar de igual para igual. Imagine! Mal saído da universidade, conheci os dois irmãos e amigos, já consagrados.
Elano, engenheiro civil e empresário, tinha um pé no concreto, outro no rádio e na televisão. Veio ter à Fortaleza para fazer o novo em termos habitacionais e gestão empresarial, no tempo em que o computador era um grande móvel e precisava de climatização constante para funcionar sem problemas. É o letrista da música “Canção de Amor”, que imortalizou Elizete Cardoso, tem vários livros publicados, sabe pintar e é um conversador nato.
Chico Anysio ou Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho. ator, era e é como aquele polvo alemão, o Paul, que adivinhava o resultado dos jogos da última Copa do Mundo: sabe de tudo, antes. Atua, escreve livros, dirige, pinta, gosta de casamentos, filhos e de cavalos, tem mais de mil faces, bastando rodopiar no palco de cara limpa – ou não – para ser quem ele quiser. Tornou-se, por obra e graça de seu talento e profissionalismo, o maior humorista do Brasil.
Eles, cearenses, do Rio e do mundo, têm um amor declarado à cidade de Maranguape, onde nasceram. Há poucos anos, me convidaram para participar com os dois de um projeto novo: um blog com o nome Maranguape. Fiquei orgulhoso pela formação do trio e pela lembrança, pois a vida, o espaço e o tempo nos separavam. Agora, mais uma vez, sou surpreendido. Convidam-me para escrever a orelha do livro “O Dia Em Que Mataram o Presidente”, que fizeram juntos.
Eles, Elano e Chico, acostumaram-se, desde há muito, a trabalhar na área da literatura a quatro mãos. Esse novo livro é um romance brasileiro na feitura, personagens e enredo. Começa com um sequestro no Rio, perto do Arsenal de Marinha; explode um Boeing em Buenos Aires; um Senador da República, com a sua jovem e bela amante, sobe a serra de Petrópolis para encontro em fazenda da família; e, entre outros cenários, aparece o Planalto Central onde novas tramas são urdidas para matar o Presidente da República em Fortaleza.
O leitor deve saber que livro é um objeto precioso, de validade indeterminada, silencioso, sempre à disposição, sem nada reclamar. Esse livro vai torná-lo, se já não o é por natureza, curioso. Tão intensa é a sua exposição não linear que cada página poderá transformar o texto escrito em imagens mentais televisivas de um verdadeiro folhetim policial. As cenas irão sendo criadas pelo próprio leitor, acredite. Ele terá a oportunidade de saber como funcionam as cabeças de pessoas geniais como o Elano e o Chico. Duas palavras finais, orelha de livro serve também para marcar a página em que se para de ler. Nesse caso, penso que o leitor só parará na última que, por sinal, tem algo a ver com a primeira. É só aguardar o lançamento.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/01/2011.

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PAPÉIS AVULSOS – Diário do Nordeste

Ao redor de minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, do trabalho e no carro. Os papéis vão tomando todos os espaços de mesas e das cadeiras. Uma bagunça. Hoje, resolvi fazer limpeza nesses papéis avulsos. Estou gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros alérgicos e culpa. Será que não precisarei disso ou daquilo em algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, percebo que falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a crítica aguda machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, no “ A Sereníssima República”. A propósito, a nossa República não anda nada calma. Há excesso de questões irresolvidas entre os poderes e as mídias– que ainda incluem o papel dos jornais, revistas e livros – nos mostram as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos e sindicatos, malthusianos como polvos, ocupam espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado por falta de confiança em auxiliares que escolhera como confidentes. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos em burocracia, dificuldades com soluções negociadas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2011