Quis o provedor Luiz Marques acolher, ontem à tarde, o meu nome para, de princípio, falar em nome das ilustres pessoas aqui agraciadas. Ora, a tarefa poderia caber, pela precedência, ao Deputado Federal, Padre e Provedor José Linhares Pontes, perene da Santa Casa da Misericórdia de Sobral. E, certamente, a todos os outros. Ser agraciado com uma Medalha Impoluta por instituição que comemora o seu sesquicentenário, com a respeitabilidade e o aprumo de conduta da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza é motivo de honra aos quinze laureados. As santas casas de Misericórdia no Brasil, sabemos todos, são entidades de benemerência nascidas antes da proclamação da República.
A Igreja Católica de Roma, de forma pioneira, criou, no século XIII, as universidades de Bologna, Paris e Oxford, para disseminar a cultura e a informação que se transmudam em reflexão e amadurecem como conhecimento a iluminar o mundo. Essa Igreja teve, séculos depois, a sabedoria e a compaixão de modelar, organizar e gerir, de princípio junto com o Estado, hospitais de caridade para atendimento aos pobres que eram, e ainda o são, a maioria da população brasileira. Resistir por 150 anos às bruscas mudanças de regimes políticos e às derivações episódicas – ou não- das múltiplas ordens econômicas e do intricado sistema financeiro, pressupõe o trabalho silêncio e profícuo dos que fazem o bem e, claro o descortino de suas gestões.
Um dos fatos que nos surpreende, com alegria, neste século XXI do quase esgotamento da colossal Europa, da emergência da China, da Índia e do Brasil, dos tempos e caminhos cibernéticos que suprimem palavras e empobrecem a linguagem culta é a manutenção de terminologias da pré-modernidade para a designação de suas mesas administrativas, seus mordomos e suas provedorias.
A tradição permanece na forma, mas há na pessoa do professor e engenheiro Luiz Marques a capacidade de gestão qualificada para dotá-la, junto com seus pares, de conteúdo científico e administrativo que supera as dificuldades entre as despesas, sempre crescentes, e as receitas defasadas impostas pelo SUS e demais órgãos que gerenciam a saúde pública brasileira.
Sabemos que cada um dos agraciados estabeleceu uma ponte, um “stent” ou uma sutura sem queloide com esta majestosa Casa, feita de pedra e cal, monumento arquitetônico alicerçado na fé de seus fundadores, mas, principalmente, no relacionamento atual dos dirigentes com os clientes, a sociedade, o seu corpo clínico, a sua área de enfermagem e o seu setor administrativo
As homenagens prestadas há poucos dias a médicos de nomeada que por ela passaram em processos de formação acadêmica e a demonstração publicada de afeto pelo Dr. Candido Pinheiro são atestados magníloquos dessa convivência prazerosa.
Ana Maria Fontenele, Antonio Edmilson Lima Júnior, Antonio Palácio de Queiroz, Horácio Marques, in Memoriam, Jaime Tomás de Aquino, Jorge Alberto Studart, José Kalil Otoch, José Linhares Pontes, José Raimundo Arruda Bastos, Luciano Pamplona Júnior, Raimundo Gomes de Matos, Roberto Proença de Macedo e Walter Belchior Fernandes não carecem de apresentação. Cada um de per si representa uma mostra qualificada e multifacetada da coletividade de Fortaleza. Nada haveria a acrescentar aos seus brilhos peculiares.
De minha parte, digo que sou, com orgulho, sobrinho-neto do Padre João Saraiva Leão, erudito e pastor verdadeiro, que foi Capelão com desvelo desta Casa abençoada pelo Criador, em boa parte do século passado. Faz-se mister destacar fato acontecido há décadas. Ao ser solicitado pela Prefeitura de Fortaleza para sugerir estudo sobre a então futura regulamentação dos cemitérios particulares da cidade, tive a acuidade e a lembrança de tornar obrigatória que parte significativa das receitas brutas desses campos-santos se destinassem, especificamente, a esta Irmandade e ao Instituto José Frota, o IJF.
Estas, talvez, sejam as razões da nossa presença nesta solenidade que consolida a convicção de que fazer o bem sem grandes alardes é um dos caminhos que justificam a breve passagem do homem pela vida. Por fim, em nome dos agraciados, o nosso reconhecimento ao Provedor Luiz Marques e a todos os integrantes deste íntegro sodalício.
O Estado-Ce, em 15.12.2012)
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2012.