Li muito do que foi escrito pelos grandes jornais e revistas brasileiros acerca do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo ex-namorado Pimenta Neves. Muito sensacionalismo, corporativismo, apelos sentimentais e pouca análise crítica. Parece que todos os jornalistas foram apanhados de surpresa, pois, via-de-regra, a imprensa dita regras, insinua culpas, antecipa julgamentos e toma partido. De repente, ficou atônita. Um jornalista era um assassino; uma jornalista, a vítima.
Imaginem, só para raciocinar, se o assassino tivesse outra profissão. Teria, talvez, sido linchado, pois a imprensa sensacionalista poderia incitar populares a isso. Para encerrar esta parte da história, fica apenas uma lição elementar: jornalista é gente igual a todos.
Dito isto, fiquei me indagando, por quê a falta coletiva de lucidez? Por quê não se considerou a fragilidade do ser humano, tão clara para Isaiah Berlin, ao dizer: “A noção do todo perfeito, a solução final, em que tudo o que é bom coexiste, não me parece apenas inatingível- isso é um truísmo”.
Como os jornais e as revistas não me deram respostas convincentes, procurei me valer, lá no Rio de Janeiro, de uma leitora e amiga. Ela é, para mim, uma pessoa capaz de emitir opinião, pois, na sua condição de psicanalista, costuma escrever artigos e ensaios para revistas especializadas
Vejam o que Thaís Oliveira nos diz sobre o comportamento de Pimenta: “A ligação que mantinha com ela, graças à sua idade, lhe dava uma espécie de garantia contra a idéia de envelhecimento e portanto de morte. A origem narcísica do desespero de Pimenta pode ser enquadrada no que foi designado pelo psicanalista Heinz Kohut como “fúria narcísica”. Essa reação pode ocorrer quando uma pessoa, ferida em sua vaidade patológica – e aqui não importa o seu grau de cultura e experiência – é tomada por uma agressividade descontrolada que anula praticamente sua racionalidade. Nesse estado, ela age tomada por grande impulsividade, com o intuito de punir o responsável pela sua dor, pela perda de seu equilíbrio.”
Thais, finalmente, vai ao crime: “ao rejeitar Pimenta, privou-o da impressão de ser ainda um homem jovem, poderoso , viril e, portanto, protegido da morte. Ao invés de entrar em depressão ou sentir tristeza com a perda da namorada, o jornalista a puniu como ‘responsável’ pela ‘fúria narcísica’ que lhe foi imposta, invertendo a situação e fazendo com que ela, que era de fato jovem, viesse a morrer… Sandra, sem saber, pôs um ponto final à situação de efeito “mágico” que sustentava a vida emocional de Pimenta e que o ajudava a negar todas as perdas que sofremos no processo de perda da juventude”.
Para mim, a análise da psicanalista Thais Oliveira é um um bom subsídio aos que não entendem que o amor pode matar. E não se contenta em matar só a pessoa, o “criminoso-abandonado” transcende a dor da sua perda ao procurar sepultar/aniquilar, post-mortem, igualmente, o caráter, a família, a dignidade, enfim, os valores da abandonadora-morta.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2000.
