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BILHETES TROCADOS – Diário do Nordeste

Hoje é uma troca de bilhetes. O meu foi a lápis no nascimento da “Ferrugem”, filha sardenta. Hoje, mãe de três lindas filhas. Ela emoldura o final.
02.07.1973 – Esta carta é a sua apresentação ao mundo que a recebeu neste julho das férias, do sol, dos ventos do Ceará de 1973. Carta patética de um pai para uma filha recém nascida. Sua mãe deu-lhe a luz e eu, o mundo que é todo seu. Seu para poder explorá-lo, amá-lo e gozá-lo. Seu sem reservas, sem peias, sem medo. Não lhe prometo tradições. Sou como sou. Homem com defeitos. Homem que nasceu para viver com liberdade. Que nasceu para lutar e conseguir. Para se alegrar com suas vitórias e esconder os desencantos.
Não lhe prometo riquezas; prometo muito trabalho. Não lhe prometo riquezas. Prometo muito trabalho. Não lhe prometo glórias; prometo muita luta. Não lhe prometo felicidades; prometo amor, por toda a vida. Quem me dera pudesse lhe dar tudo. Tudo não será possível. Vou ter que lhe negar. Vou ter que ser pai. Pai como sinônimo de amigo. Liberal, atualizado, risonho.
Sisudo, se for preciso. Prometo ir vendo o mundo mudar. Na mudança, ir guiando-a. Guiando de leve, sem força, com ternura. Já fiz as minhas promessas. Lutarei para cumpri-las. Não lhe peço nada em troca. Você já é muito para mim.
02.07.2013 – Pai, obrigada pelo mundo! Tenho explorado, amado e gozado o melhor que posso. O mundo mudou muito, mas acredito que o princípio para viver e ser feliz continua o mesmo: amar e ser amado. Hoje me sinto amada e sinto um amor enorme por você. Ferrugem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2013

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AMIGO FALANTE – Jornal O Estado

“Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar serviço a quem me lê semanalmente”. L.Felipe Pondé
Sempre gostei de conversar com gente mais velha. É costume. Fui sempre amigo dos amigos do meu pai. Ouvia-os e, vez por outra, dava um palpite, uma opinião. Um deles, o saudoso Dorian Sampaio, colocou-me no mundo das discussões de assuntos sérios e dos nem tanto. Agora, recebo e-mails de amigo sobre o que está acontecendo no Brasil. O contorno dele: engenheiro, professor universitário, festejado, lido e viajado. Hoje, aposentado e apoquentado.
Ele escreve com desenvoltura e tem até perfil no Facebook. Acompanhou todas as manobras do MPL- Movimento Passe Livre e até postou algumas micromensagens. Agora, me vem com uma tese que diz acalentar a algum tempo e pede que eu a torne pública. Refutei: escreva para os jornais. Ele respondeu: cortam tudo nas cartas dos leitores e não dão espaço para desconhecidos. E insiste em dizer o que pensa. Vamos lá. Vou tentar sintetizar: ele não faz fé em economistas, mesmo os que, como ele, têm pós-graduação.
E, incisivo, pergunta: “qual foi o economista do mundo que previu a crise de 2008? Todos ficaram procurando desculpas e foram pegos de calças curtas. Depois, começaram a explicar o que não previram”. Detona Delfim Netto, André Lara Rezende, Paul Singer, Aloisio Mercadante, todos os ex-presidentes do Banco Central – que viraram empresários financeiros – e nem livra, sequer, os prêmios nobéis de economia.
Todos, segundo ele, queriam ser engenheiros, não passaram no vestibular e acabaram economistas. Peço para se acalmar. Ele escreve: estou revoltado com tudo. Arenga com o uso dos aviões da FAB e diz um nome feio. Mudo de assunto. Dou um tempo. Novo dia: leio e-mail: “E os cientistas sociais?” Até o Fernando Henrique entrou na conversa.
Afirma que “FHC anda namorando uma moça de menos de 40 e está se lixando para nós. Os cientistas políticos foram todos ludibriados com o engodo que se armou no Brasil já faz anos”. Pergunto se conhece ou lê Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia. Diz que sim, mas não fiquei bem certo. Mas, segundo ele, “todos os analistas políticos e sociais erraram feio ao não prever que o Brasil era uma bolha”. E manda brasa: “como o BNDES, banco do governo, pode ser sócio e emprestar dez bilhões ao Eike Batista? Como esse banco aposta muito no Friboi? Cada um que cuide de sua empresa, o governo teria que formar gente como eu, prepará-las para a vida. É hora de acabar com o embuste que é o SUS e o sistema hospitalar público”.
Dei um trégua, mas joguei uma isca no e-mail de retorno, dias depois: como é que você entrou no Facebook, pois os tais manifestantes são jovens e têm idade de serem seus netos? . Agora, ele vem com a tese de que Lula, ao voltar da África, dirá que tudo isso é culpa da elite burguesa que não tem o que fazer e está requentando o mensalão, desestabilizando a Dilma e pegando corda do “Estadão” e da Folha de SP.
Paro por aqui. Vocês concluam. Mandei uma cópia para ele.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/07/2013.

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FLIP E FLUPP – Diário do Nordeste

O Brasil está rediscutindo tudo. Não me refiro apenas às manifestações em curso, mas à cultura que hoje se faz no País. Gilberto Gil, em plena Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip-2013, falou sobre a conquista da Copa das Confederações: “O lugar para onde os jogadores correram para abraçar a torcida não tinha matiz racial brasileira, era esbranquiçada”.
Elementar, meu caro Gil. Pense nos preços dos ingressos. Ora, dizer isso em Paraty, cidade histórica fluminense, entre o Rio e São Paulo, em encontro rico, na primeira semana deste julho, sob o clima ameno do inverno, financiado por banco e em evidente empobrecimento…
Parte dos convidados não compareceu e faltou até tema para discussão. Improvisaram com a indignação dos jovens. Será que Gil foi para lá de graça? Não sei. Já fui à Flip e talvez não vote. Nada de especial, tendas, os “bichos grilos” de sempre, cariocas e paulistas “descolados” e artistas de moletons, todos rindo nas fotos, conversa fiada, editoras faturando e até um pouco de cultura, em suas várias formas.
Vai daí que a Flip provocou, no ano passado, a criação de uma sucursal nas favelas (lembram da Daslu e da Daspu?) do Rio. Pois bem, neste 2013, a Festa Literária das UPP- a FLUPP das favelas pacificadas pela polícia aconteceu nesta semana, na Penha, zona norte, quando autores estrangeiros vindos da Flip debateram, de graça, com o povo e até com intelectuais de vários matizes. Não soube de Gil por lá. Teria a oportunidade de trocar a verba pelo verbo, em área violenta e pobre, ainda em batalha e sem polícia pacificadora.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/07/2013

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CLAUDIO BENEVIDES PAMPLONA, O ASTRÔNOMO – Jornal O Estado

As famílias Benevides e Pamplona integram a coletividade cearense há séculos. Têm muitos ramos. Entrelaçados com outros da terra, já ofereceram contribuições definitivas para as suas inserções no livro da história local. Políticos, profissionais liberais, cantores, administradores públicos, professores universitários, intelectuais e artistas plásticos. Não é preciso nominá-los, basta pesquisar pouco para encontrá-los nas ações que deram forma ao Estado do Ceará, tal como hoje o é.
Filho de Carlos Pamplona e Miriam Benevides, Cláudio Benevides Pamplona nasceu em Fortaleza, cidade brejeira da década de quarenta, cheia de fícus-benjamim, centrada na Praça do Ferreira, em meio a “blackouts” nos areais brancos onde as famílias de então faziam florescer aglomerados ou bairros, em quadriláteros, iluminação bruxuleante, sem saneamento básico, consumindo água da “Pirocaia”, transportada em carroças puxadas por jumentos.
Fortaleza era ocupada, desde o Pici (“Post of Command”) até os areais da Praia da Iracema, por forças americanas do norte que faziam dela uma base militar de jovens pilotos – com o suprimento de uma intendência cheia das cobiçadas sodas Coca-Cola e dos cigarros “Camel” e ”Lucky Strike”. Vieram para “flertar”com as moçoilas locais, atravessar o oceano Atlântico e alcançar o teatro de operações da Segunda Guerra na Europa, um dos seus fulcros.
Cláudio começou a estudar já na época da redemocratização brasileira, após a Guerra e a queda da ditadura de Vargas, e, descobriu-se talentoso em desenho (lado Pamplona) e canto orfeônico (lado Benevides). Mas formou-se em direito, já nos anos ditos de chumbo, quando o país estava imerso no regime militar. Bacharel em Direito, barítono, como muitos dos seus primos Benevides, cabeça apenas polvilhada de ciências sociais, deu uma guinada em seu destino e optou por dissentir do que se esperava dele.
Não seria advogado. Viu-se encantado com o mundo silencioso dos astros. Fez-se, apesar disso, professor da Universidade Estadual do Ceará, pois se casara e tinha obrigações a cumprir com o filho Carlos Neto que colocara no mundo. Mas seu lado perquiridor, inquieto e sagaz o fazia olhar mais para o firmamento que para o chão onde pisava. Não pesquisava divindades ou respostas para as aflições humanas, existenciais ou climáticas de nossa região. Olhava, com a ajuda de lentes telescópicas, bem mais alto e procurava, como se fora quase um Carl Sagan, aquilo que foge ao olho comum.
Foi, pouco a pouco, embrenhando-se nas nuvens sem fim da Astronomia, ciência natural que tenta desvendar, constatar ou renegar corpos celestes. Munido de telescópios, livros, desenhos e de uma busca desenfreada para o conhecimento da Astrofísica, coligindo nebulosas, aglomerados de estrelas, planetas e galáxias fez-se cientista.
Criou o seu próprio observatório a que deu o nome de Herschel-Einstein. Ajudou a fundar a Sociedade Cearense de Astronomia e até a NASA (National Air Space Administration) dele coletou informações sobre o universo azul que nos envolve a todos. Nesse seu mundo, fez a imersão com o escafandro da curiosidade e a luneta do sereno-intrigado, a procurar respostas certeiras para dar sentido à sua vida peculiar e inaudita.
Não queria ser diletante, mas observador integrado a uma comunidade científico-especuladora internacional que pode até parecer, aos olhos dos leigos, uma grei de esquisitos, pois não liga para as picuinhas dos homens comuns, os que brigam por pão, pedaços de terra, reconhecimento ou riqueza sem ter a mínima noção da grandeza do universo em expansão e movimento. Somos todos tão mínimos, micros, nanos e o Cláudio sabia disso e ele, mesmo sem o querer, se fez grande pela contribuição ao seu mundo que deu até se finar, no primeiro dia deste julho, aos 70 anos.
Releio Sir Issac Newton, cientista inglês, do século 18, citado por Brewster, in “Memoirs of Newton”, para entender e descrever o que se passa na cabeça de um cientista: “Não sei como pareço aos olhos do mundo, mas eu mesmo me vejo como um pobre menino que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha mais lisa vez por outra, ou uma concha mais bonita que de costume, enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante de mim”.
Cláudio, a seu tempo, buscava o grande oceano, que é o firmamento, e as pedrinhas, que são os seus corpos celestes. Suas cinzas evolaram e se misturaram ao cosmos. Sua ascensão ao insondável foi cercada por manchas solares, meteoros, cometas e estrelas. Esses corpos celestes foram os seus querubins.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/07/2013.

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BALADA DE FOGO – Diário do Nordeste

Até bem pouco tempo não havia baladas. Havia perigo, mas a cidade nos entranhava. Não nos estranhava. Havia festa e bebidas, mas ninguém nos obrigava a beber. Maconha era a pior droga. Os que a fumavam eram “rabos de burro”, só cresciam para baixo. Hoje, as baladas aturdidas principiam nas horas em que os pais estão a dormir. Pode parece estranho, mas vivemos em outro orbe. Este cobra a muleta do aditivo, seja álcool, cheiro, injeção, fumo ou cachimbo. Ele pede a exposição colorida da tatuagem no corpo ou piercings na face. Quem não entra na roda é careta. Sofre o “bullying” pelo qual quase todos passamos, mas não sofríamos porque sequer havia sido avaliado.
Agora, há danos em tudo, há sequelas em filhos que os pais cometem por amor, falta de saber e não existir cursos para pais. Somos todos aprendizes da vida em comum a produzir amor, união, ódio, indiferença ou descaso. Os jovens querem e devem ser livres para crescer e aprender. São resolutos e alguns entram em baladas de fogo sem limites para nada. Esta introdução é apenas para dizer que estou, como todos, abalado com as 234 mortes. Até agora.
A propósito, li uma bela crônica, escrita por quem viveu em Santa Maria, RS. O jornalista Marcello Canellas, seu autor, a conclui assim: “Como posso adormecer, se mal despertei para o mundo? Como posso abdicar, se não brinquei o suficiente, não amei o bastante, deixei incompleto o edifício da minha história? Eu não choro só por mim, e nem meu pranto cai sozinho. Minha cidade é hoje o Brasil em luto, Minha juventude perdida é o meu país, perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/02/2013.

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BANCOS, CLIENTES E GANÂNCIA – Jornal O Estado

Estória velha: Um índio entra em um banco e pede mil reais emprestados. O gerente pergunta: o que você me dá em garantia? Minha canoa e o remo. Fecham o negócio. Quando o índio ia saindo com o dinheiro, o gerente fala: você deveria deixar o dinheiro aqui, é mais seguro. O índio, na sua sabedoria tabajara, indaga: e o que você me dá em troca? A nossa confiança, boa, boa, boa.
O poeta americano Robert Frost bem define um banco: “é um lugar onde emprestam um guarda-chuva quando há bom tempo e, pedem-no de volta quando começa a chover.” Os bancos, inclusive os brasileiros, deixaram, faz tempo, de ter a função básica de prestar bons serviços a seus clientes. Alguns quebraram, houve fusões com agigantamento de poucos, surgiram os transnacionais. Há já relativo tempo figuram nas páginas policiais. Por trás dos mensalões havia banco com doações e empréstimos de mentirinha. Nas eleições sempre há doações de bancos. Quais as razões?
Hoje, os bancos são apenas estruturas montadas organicamente sob as bênçãos do dinheiro do governo e do povo, para manipular o cliente com formas inimagináveis. Primeiro, todos clientes são suspeitos. Ninguém entra em banco sem passar por triagem. Como a segurança pública não funciona, todos são filmados, nivelados a marginais e alguns chegam a sofrer constrangimentos. Ao adentrar o paraíso, surgem filas, desinformações e o quase descaso no atendimento provocado pela automação e pelos baixos salários que pagam a bancários e estagiários que se restringem a fazer o mínimo necessário. Entretanto, como os bancos são dos que mais gastam com publicidade encantatória, há pouca crítica na mídia. Quando há.
O Banco Central diz que controla as elevadas e automáticas taxas de serviços que cobram por quaisquer misteres solicitados ou não. Acresça-se o alvitre de gerentes, peritos em vender seguros, planos de previdência privada, consignados, cartões de crédito e débitos, capitalização, planos de saúde, fundos com taxas elevadas e outros mais. Suas corretoras de valores ganham em qualquer transação, quer o cliente lucre ou perca.
Quase todos os bancários recebem metas de produtividade e, se não as cumprirem, rua. Quem quiser ler sobre reclamações e ação contra bancos acesse os jornais, sites e blogs dos sindicatos da categoria ou converse com ex-bancários. Vale a pena ainda consultar os décors, os prótons, o Ministério Público e a Justiça. São milhares de demandas e ações em curso. Asdrúbal, velho aposentado ranheta, diz sempre nas reuniões de família: Vocês conhecem algum banqueiro que tenha morrido de coração? E conclui, pimpão. Eles nunca usam o coração.
Para concluir, Erich Fromm, escritor americano do século passado que falava sobre amor e vida, dizia que “a ganância é uma cova sem fundo que esvazia a pessoa em esforço infinito, sem nunca alcançar a satisfação.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/02/2013

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PARTIDOS E CARGOS – Diário do Nordeste

O Estado brasileiro quer regular tudo e acaba não cuidando de muita coisa. Os políticos são essencialmente práticos e não acreditam em teorias. Dane-se a reforma política tão falada e nunca implementada. Querem saber, objetivamente, onde estão verbas, obras, empregos, viagens e visibilidade para eles. Os dos executivos até tentam estabelecer planos, padrões, referências e limites a essa busca sem fim de benefícios e pressões de algumas empresas, sempre ao lado dos governos, quaisquer que sejam.
Imaginem, agora, o quanto estão sendo pressionados os novos prefeitos. Eles precisam de maioria nas câmaras municipais e isso só acontecerá se os vereadores ficarem ledos. Têm pleitos sempre maiores que a capacidade das urbes de absorvê-los. Uma legislação política esdrúxula permitiu a criação 30 partidos e seus dirigentes sabem o que pedir.
Pedem cargos no primeiro escalão, comissionados sem exigir formação e experiência, exceto alguns, e a profusão de vagas “terceirizadas”, sem seleção, mão-de-obra locada a empresas amistosas. Todos devem ter ficha limpa, lembrem-se.
Ninguém sabe, ao certo, quantos são os terceirizados nas 5.570 prefeituras brasileiras, sejam pequenas ou a da cidade de São Paulo. Os políticos têm tudo mapeado e inibem as tentativas sérias da imprensa e dos gestores para formar equipes eficazes. A sociedade, a que paga tudo, deve ter informações em nome da transparência com relatórios, infográficos e números. Cada Prefeito deve dizer como foi recebida a cidade e o que pretende, a partir da realidade, executar. Esclareça até março. Aguardamos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2013

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LINCOLN – O filme e a Virtude JORNAL O ESTADO

A história ou estória sempre é contada pelos vencedores. Os derrotados estão mortos, desaparecidos ou não têm espaço para contá-la. Vi o festejado filme “Lincoln” dirigido por Steven Spielberg, a partir de poucos capítulos do livro “Team of Rivals – The Political Genius of Abraham Lincoln, algo como Jogo de Rivais – A Genial política de Abraham Lincoln”.
Spielberg está rico se dá ao luxo de bem escolher e dirigir. Ele desejava se acostar a D.W. Grifith(Abraham Lincoln) e a John Ford com (A Mocidade de Lincoln), grandes diretores e recriadores, cada um a seu jeito, de vários aspectos da vida do menino pobre até a sua chegada à presidência, mas assassinado no começo do segundo mandato.
O Lincoln de Spielberg não conta a história de sua vida de 56 anos (1809-65). É apenas um breve recorte da sua atuação como estadista. Este “Lincoln” mostra, repito, um viés pouco notado na sua biografia. Abraham, como o profeta onomástico, guerreia para unir os americanos. A história é um intricado jogo de interesses entre os partidos Republicano ( o de Lincoln) e os Democratas, visando a aprovação da 13a. emenda à Constituição americana. Lincoln queria – e conseguiu – a abolição da escravatura e precisava jogar pesado para obter votos adversários na Câmara de Representantes. Assim, na verdade, houve distribuição de dinheiro e de cargos para os resistentes aos argumentos de Lincoln. Ao final, cederam. Tudo isso é mostrado, mas encoberto pela virtude/moral/ética calvinista: A pátria acima de tudo.
Esse filme receberá prêmios e poderia ser visto por todos. Especialmente, jornalistas, políticos, advogados, cientistas políticos, magistrados, inclusive os membros do Supremo Tribunal Federal e, certamente, pelos apenados do 1º. mensalão.
Houve uma manobra abjeta, mas ela tinha um objetivo nobre. A pergunta filosófica é: Os fins justificam os meios?. J.B. Butler, filósofo inglês do século 18 deve ter sido lido por Lincoln. Ele assevera: “A virtude, enquanto tal, considera consideráveis vantagens aos virtuosos”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2013.

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RATZINGER E ROMA – Diário do Nordeste

Era uma vez um menino batizado, crismado, primeira comunhão, missas e, no bolso esquerdo, um terço de madeira. Comungava às primeiras sextas-feiras do mês. Entrou na universidade, convidou um doutor em Teologia para pregar a Páscoa. Empós, encontrou-se com o padre. Viu-o de roupas civis: o que houve? Pedi licença e questiono a minha fé. Deus existe?
Cheguei a Roma no fim do Concílio Vaticano II. Com a ajuda de parente bispo, penetrei no conclave. Sentei-me e escutei. Eles adequavam a Igreja às mudanças. Aboliram o latim e a batina. Os padres, frente aos fiéis, celebrariam a missa no vernáculo de país e mais. Voltei outras vezes a Roma e sempre me espantou a pompa das cerimônias, a riqueza dos museus e a ridícula guarda suíça. João XXIII morre e surge Ratzinger.
Estava a zapear a TV e parei numa estação americana. Ratzinger debatia sobre filosofia e fé. Impressionou-me sua cultura e não me surpreendi com a escolha. Fora lastreada na sua longa história Vaticana, na “Intelligentzia”, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, a julgar questões intricadas, desde a Inquisição.
Ratzinger eleito mostrou-se cauteloso, em meio às intrigas. O Vaticano é uma Monarquia absoluta. Os fiéis não esqueceram João XXIII e em dos primeiros atos dele foi abrir a canonização, logo acontecida. Pedofilia, escândalos financeiros, divisões e intrigas entre a hierarquia. Elas debilitaram sua saúde e culminaram, após a prisão de seu mordomo, com o calculado gesto de renúncia. Sugestão: Vamos unir a Igreja de Roma à Anglicana e abolir o celibato?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2013.

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THOMAZ POMPEU E A ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS – Jornal O Estado

Desde 2000, a UNESCO – entidade da ONU a cuidar da Educação, Ciências Naturais, Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação – consagra o dia 21 de fevereiro como o Dia Internacional da Língua Materna.
Na noite de ontem, exato 21 de fevereiro deste 2013, na imensidão da abóbada celeste ainda não de todo desvendada, pairava no planeta Terra, no hemisfério sul, no Brasil, no Ceará, em Fortaleza, com a lua em quarto crescente, quase um plenilúnio, a Academia Cearense de Letras, reunida para falar sobre Thomaz Pompeu. Cultuou-se a língua e a linguagem.
Aconteceu no Palácio da Luz, centro histórico de Fortaleza, na Rua do Rosário, defronte à Igreja dos Homens negros, asilo de segregados pela escravatura envergonhadora. Igreja essa ressaltada e descrita em tintas nas pinturas e nas músicas em ritmo afro de Descartes Gadelha.
A palavra de Thomaz Pompeu foi lembrada a seus seguidores para exercer “a serenidade de investigadores da verdade”. A propósito, a acadêmica Ângela Gutiérrez já havia louvado em 2009, em discurso ali proferido quando da comemoração dos 105 anos da ACL, as suas múltiplas faces de jornalista, professor, pesquisador de história, geógrafo, educador, administrador público, pensador, homem de letras e empreendedor.
Sobre essa face singular ela refere: “Por que relembrar o empreendedor, o pioneiro, que fundou a primeira fábrica de fiação e tecidos do Norte-Nordeste, atentando para o aproveitamento de nossa vocação algodoeira, que foi sócio majoritário e gerente da primeira Companhia de bondes do Outeiro, que foi fundador e presidente do Banco do Ceará, do Centro Industrial e da Associação Comercial, colaborando para o progresso da terra, na crença de que progresso e ciência deveriam andar de mãos dadas”.
Outros empreendedores já integraram a referida ACL. Os principais: Antonio Martins Filho, o reitor fundador/empreendedor da Universidade Federal do Ceará; o jornalista Eduardo Campos, escritor, condômino dos Diários Associados e industrial; e o seu hoje presidente, o empresário imobiliário e bibliófilo José Augusto Bezerra.
A propósito, o maior bibliófilo – amante e colecionador de livros – brasileiro foi também um empreendedor, José Mindlin, criador da Metal Leve.
Os empreendedores citados confiavam e seus seguidores acreditam, além do arrojo em suas ações, no estudo, na informação, no conhecimento e na cultura, indispensáveis ao Brasil atual, a exigir qualificação para qualquer tarefa ou encargo. A educação e a cultura são chaves insubstituíveis para o futuro. Thomaz Pompeu já sabia disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2013