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DONA MARGARIDA

Dona Margarida, minha mãe, tinha vinte e dois anos quando, como primogênito, nasci. Era uma mulher jovem, bonita e arrumada. Os retratos não mentem e ela está aí aos 80 anos para quem quiser ver. Vai a pé para a hidroginástica, não aceita palpite de filho em sua vida e dá pitaco na de todos. É mulher de missa e comunhão quase diárias e, aos domingos, quando tomo café com ela, assiste a todas as missas e pregações pela TV.
Filha de uma família de muitos irmãos, perdeu o pai no início da juventude e, poucos anos após, foi-se consolar nos braços do meu pai, com quem viveu longos cinqüenta anos e teve nove filhos, “todos com formação universitária e donos dos seus próprios narizes”, segundo ela.
Ao ficar viúva, mesmo chorando muito, passou a morar só na mesma casa onde cultiva um jardim com plantas de muitas espécies e, anualmente, muda a cor da fachada e dos muros, com opções tão modernas e avançadas que lembram o pop e o high-teck .As suas decorações de Natal misturam lâmpadas multicores, guirlandas, papais noéis, e um arremedo de lapinha com anjos, santos e, óbvio, o menino Jesus.
Sem medo, independente financeiramente e com uma clareza de raciocínio bem própria das pessoas que lutaram muito – pois ajudou sua mãe a criar os seus irmãos –, é, ainda hoje, líder de todos eles e foi mulher tranqüila de um homem irrequieto, inteligente e charmoso. Cuida dos seus afazeres como mulher valente que sempre foi e continua sendo, vai ao Banco do Brasil, pois só confia em banco oficial.
Todo pano, novo ou velho, que chega a suas mãos é transformado em lençóis, calções e calcinhas, que distribui, segundo seus critérios, a pessoas necessitadas. Doa umas cestas básicas, ponderando a sua justiça social do jeito que lhe convém.
Com filhas espalhadas pelo Brasil(Piauí) e mundo(Alemanha e Estados Unidos), fez-se viajante e destemida. Uma vez, perdeu-se na Alemanha, mas não se fez de vítima e encarou o fato com naturalidade. É louca por comprar bugigangas e quase nunca deixa passar uma liquidação. Usa uma filha como motorista, sem lhe dar tréguas e, caso não tenha outra alternativa, toma um ônibus ou um táxi sem problemas. Reclama de não ter aprendido a dirigir na época certa, pois “não precisaria de ninguém”.
Ultimamente, ela tem brigado comigo. Diz que vou pouco à casa dela e, nos domingos, após o café, leio jornal. Ela não aceita isso. Devo dar toda a atenção a ela e às estórias que conta: da família, as tiradas do jornal que lê diariamente e das notícias que uma televisão, ligada o dia todo, lhe transmite. Quando lhe digo que, por sua causa, ganhei o apelido de “João Mamãe”, ela fala, meio abusada, “você já foi João Mamãe!”
Às noras, ela diz que não aceita reclamações, pois uma mulher deve saber com quem vai casar. Seus cinco filhos são homens, o que na linguagem direta dela, significa gente com possibilidade de errar. Dos genros, ela só tem elogios, pois, segundo ela, as suas quatro filhas são mulheres “tementes a Deus, direitas, trabalhadoras, capazes e mereceram os maridos com quem casaram”.
Hoje, certamente cercada por filhos, netos e bisnetos, não deixará de dar “carão” aos que não fizerem o que gosta ou aprova mas, ao mesmo tempo, dará boas risadas com o que achar alegre ou engraçado. Receberá presentes e, certamente, entre meio encabulada e curiosa, dirá: “precisava não”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/05/2000.

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COLÉGIO DE IDEIAS

A nova diretoria do Centro Industrial do Ceará é formada por gente bem jovem, a maioria na faixa dos 30 anos. Muitos deles são oriundos da Associação dos Jovens Empresários, pegaram gosto pelo debate e têm uma sede muito grande de conhecimento e engajamento social.
Essa consciência é fruto da constatação óbvia de que as mudanças do mundo globalizado são irreversíveis e necessitam ser entendidas em sua essência, a fim de que o medo e a apreensão sejam transformados em oportunidades.
Dessa forma, essa nova diretoria do CIC tem procurado ser a mais plural possível, convidando políticos, conferencistas e debatedores dos mais diferentes matizes ideológicos, recebendo-os sem preconceito e com vontade de agregar valores.
Paralelamente, sistematizou o que já havia sido iniciado na gestão passada, qual seja um ciclo de estudos para aprimorar a base de saber de seus integrantes, através de aulas que lhes são ministradas semanalmente, em um período de seis meses. Mas, o que há de novo nessa história é que essas aulas, ministradas por professores- doutores, são abertas a quaisquer pessoas interessadas, convidadas ou não.
Na realidade, o que o pessoal do CIC está fazendo é, lato senso, uma espécie de curso de pós-graduação enfocado no saber, dando ênfase à Política, aos fundamentos da Sociologia, à Sociologia da Globalização, à Macroeconomia, à Ética e à Ciência e Tecnologia. São duas horas de aula e debates às noites das quartas-feiras no 5º andar do prédio da Fiec. A esse curso deu o nome de Colégio de Ideias, numa alusão ao espírito do “college” e a um congraçamento de ideias abstratas e práticas.
Esse trabalho é coordenado por um professor-doutor que, além de ministrar aulas, assiste às demais aulas, observa e interage, se for o caso.
Como forma de preparação dos participantes é distribuído, previamente, material didático, extraído de livros com textos específicos para estudo e análise, após o que são ministradas as aulas com discussão no final. Esse processo permite uma avaliação semanal do que está sendo ensinado e aprendido. A partir dessas avaliações são feitos ajustamentos que tornam consequente o aprendizado.
Seria bom se, pessoas ciosas de sua responsabilidade social e interessadas em aumentar ou reciclar o seu nível de saber, desejassem, pelo menos, conhecer o que está sendo ensinado e aprendido, repito, – de oito às dez das noites de quartas feiras – no CIC.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/05/2000.

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ELIÁN, VINTE E UM ANOS

Creio que muita gente já esteja cansada com essa história do menino cubano Elián, salvo pela Guarda Costeira americana, após a mãe ter morrido na travessia marítima Cuba para Miami. Essas viagens-aventuras são uma constante há 40 anos e sofrem tripla repressão: do mar do Caribe que não gosta de embarcações frágeis; do governo cubano, que não quer fugas; e do governo americano, que não aceita mais imigrantes.
A mídia encarregou-se de transformar o episódio em audiência e logo parentes (exilados em Miami), não tão próximos (tios-avós) arvoraram-se em guardiães e fecharam questão pela permanência de Elián nos Estados Unidos. Ano eleitoral naquele país, mais um ano na provecta gestão de Fidel Castro e o problema estava criado. Fidel mandou o pai de Elián buscar o menino. Foi aí que a Secretária de Justiça, Janet Reno, disse o óbvio, o pátrio-poder pertence ao pai de Elián e, fez isso transformar-se em realidade com o uso de força. Tudo isso já se conhece, o que não se sabe é o que vou imaginar agora, dando uma de futurólogo, deixando claro que todos os futurólogos que conhecemos erraram muito. Vamos a quatro hipóteses, sempre considerando que estamos no ano 2015 quando Elián completa 21 anos. Claro que é apenas imaginação. Ao Elián desejo um futuro de paz, saúde, prosperidade e longevidade.
Hipótese 01 – Elián fica em Miami, pois seu pai morre de botulismo ao comer um frango cubano. Volta para os tios-avós e matricula-se em uma escola pública. Deixa de ser notícia e, entediado, por ser considerado um estranho em sua escola, mete-se com drogas aos 14 anos, engorda 30 quilos ao ser internado em uma clínica de desintoxicação, abandona os estudos, vai morar com uma imigrante curda, após ser expulso pelos tios-avós, trabalha em uma boate latina como cozinheiro e está na iminência de perder seu visto de permanência por porte de arma branca, uma faca de cozinha que, segundo ele, pretendia amolar em casa.
Hipótese 02 – Elián volta gripado com o pai para Cuba em barulhento e velho avião Tupolev russo. Vai direto para um comício em que Fidel Castro o levanta nos braços como troféu e, mesmo espirrando, ouve três horas de discurso. Desmaia e é levado a um hospital onde são diagnosticadas pneumonia e otite. Recebe alta em duas semanas, surdo de um ouvido. A primeira coisa que deseja comer, ao sair à rua, é um BigMac e leva um bruto carão da assistente social que o acompanha. Estudou agrimensura. Hoje, anos após a morte de Fidel Castro, está trabalhando em Matanzas como técnico agrícola e já é pai de Elián Júnior. Tem um sonho recorrente: Lembra de um vídeo que viu aos seis anos em que um rato (Mickey) leva vantagem sobre um gato.
Hipótese 03 – Uma associação de exilados cubanos nos Estados Unidos requer – e consegue – seja feito um exame de DNA em Elián e em seu pai. Resultado: Elián não é filho do pai. O governo americano procura a família de sua mãe, mas há um complicador. A mãe não pode ser dada como morta, pois ninguém é considerado morto sem um corpo para comprovar. Dessa forma, a Justiça americana determina que Elián fique em custódia em um abrigo para crianças órfãs, cresce estudando em uma escola pública e, aos 21 anos, pretende ser mórmom.
Hipótese 04 – Seu pai pede asilo político nos Estados Unidos. Elián aprende a jogar basquetebol, consegue destacar-se em esportes na universidade, foi contratado pelo time do Giants e ganha 50.000 dólares por mês. Antes de cada jogo repete, em espanhol, para os companheiros atônitos: “Patria o Muerte”. Sempre que pode visita Janet Reno, que mora em um asilo para velhos em Maryland onde se diverte fazendo crochê e comendo os chocolates que Elián lhe leva.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/04/2000.

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NO REINO DO FAZ DE CONTA

Bem que nós todos deveríamos estar felizes. Ontem foi o dia das comemorações dos 500 anos do Brasil e, nós os colonizados, agradecemos, rejubilados, aos colonizadores que dizimaram grande parte dos nossos índios(eram 8,5 milhões à época do descobrimento), levaram nossas riquezas minerais para a metrópole portuguesa e, ainda segundo pesquisa feita na própria pátria-mãe, Portugal, eles não são tão apaixonados por nós quanto imaginamos. Daí muita gente não ver razão de tanta festa.
Por outro lado, no tempo em que eu tinha muita fé, hoje, Domingo da Ressurreição, seria um dia para renovar minhas esperanças, especialmente nos seres humanos. Hoje, já não tenho a fé de antigamente, e quando as coisas e a realidade ficam meio confusas e as contas não fecham por conta de auditores que fazem (de conta) que têm alma e veem no erro humano a oportunidade de ajustes (de conta), é hora de dar um passeio no mundo da fantasia e lacrar o cofre do dissabor. Sem medo de viver o sonho, mesmo que fugaz, vai-se ao reino do faz de conta.
Era uma vez um reinado cheio de sol e de gente. O sol parecia torrar o juízo do povo e, talvez por causa disso, uns se compraziam em azucrinar o juízo dos outros. Não havia pessoa que escapasse. Todos tinham defeitos e contas a acertar e, para os poucos que não tinham, inventavam.
Um dia cheio de sol, o que era natural no reino, amanheceu e muita gente foi trabalhar e andar, como de costume. Formavam empresas, grupos, conversavam, riam e brincavam enquanto trabalhavam e andavam. E eis que um súdito possuidor de muitas contas em seu colar, resolveu brincar com uma súdita com menos contas em seu(dela) colar. Era costume no reino que só as pessoas de colares parecidos poderiam ter intimidades. Precisavam ser parecidos em quantidade e na forma das contas. Havia contas para todos os gostos, e isso é que era levado em conta. Cada qual segundo as suas contas, era a espécie de regra social do reinado.
Um belo dia ou noite, ainda não se sabe bem e talvez não se saiba nunca, começaram a fazer contas e era conta que não acabava mais. Até se imaginou que conta não contava. Mas contava. O povo não deixava de contar e nem fazia de conta que não estava contando. E os dois, segundo uma versão, mesmo sem querer, foram se preocupando com as contas que haviam se entrelaçado, mas fizerem de conta que nada havia contado. Mas há outras versões, é o que se conta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/04/2000.

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A MISSA, E OS 500 ANOS

Para quem não sabe, sou Caminha pelo lado materno e Soares pelo paterno. E o que isso tem a ver com os 500 anos do Brasil? Nada ou alguma coisa. Alguma coisa, se considerarmos que o celebrante da primeira missa no Brasil foi Frei Henrique Soares, de Coimbra, e o escrivão da frota, o homem da célebre carta inaugural, Pero Vaz de Caminha. Logo, também sou culpado, pelos dois lados, por tudo o que vem acontecendo nesta pátria amada, salve, salve, desde que um dos dois (ou os dois, não se saberá nunca), junto com o restante da tripulação das 13 caravelas, andaram se metendo com as nativas e deu nessa zoeira que é a raça brasileira, misturada depois com as fortes e bonitas negras vindas da África.
Tinha que acabar em samba, em futebol (dizem até que os índios antecederam os ingleses na criação do futebol, chutando caveiras e cocos no meio de seus jogos tribais), no rebolado das mulheres (para se livrarem dos beliscões e açoites) e no banzo (tristeza) que muita gente ainda tem e nem prozac resolve.
Este país comemora os seus 500 anos em meio a uma onda de denúncias, investigações e um jornalismo sensacionalista, comandado, em razoável parte, por empresas que têm concessões vencidas ou questionadas e algumas devem milhões ao governo e sempre servem aos dirigentes de plantão, independente de regime, partidos ou atestados de honestidade. Acrescente-se que são hábeis em desviar focos, direcionando a atenção do povo para o que agrada a quem lhe interessa. Enquanto os dirigentes mandam, eles elogiam, escamoteiam, defendem, afagam e cortejam. Na hora em que farejam a estrela caindo são os primeiros a fazer uma espécie de lobotomia e o passado é apagado, como se o povo não tivesse memória.
Quando se comemora os 500 anos constata-se estarrecido – só para citar um exemplo- que o governo já emprestou R$ 2,4 bilhões às empresas de telecomunicações privatizadas. E não fica só nisso; pode emprestar mais R$ 7 bilhões em breve. O total das vendas foi de R$ 22 bilhões. Se emprestar 9,4 bilhões, os grupos compradores terão recebido 42% do total licitado. Ora, se o governo vendeu para se livrar de problemas (?), como ajudar, se todo santo dia pede dinheiro emprestado aos bancos? Além disso, o valor pago como ágio (condição básica para vencer a licitação) ,na ocasião das compras das teles, poderá ser abatido do imposto de renda a pagar.
Faz parte ainda da festa entender que os bancos têm no governo a maior fonte de receita: segura, não discute preço e sempre quer mais. Se o governo não tem dinheiro, reclama que não pode aumentar o mínimo para R$ 180, como é que é tão (neo)liberal em facilitar a vida das grandes empresas que compraram as teles, disputando licitações em que se diziam fortes, financeiramente, e estavam capacitadas a assumir o controle das empresas privatizadas, pagando o ágio que, agora, descontam do imposto de renda?.
Faz mal não, a culpa é minha e dos meus ascendentes portugueses.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/04/2000.

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MICROCONTOS A PEDIDOS

Alguns benevolentes leitores me pedem – e eu atendo – para publicar mais microcontos, Para os que ainda não leram, explico. Os microcontos: são curtíssimos, ilógicos, tem começo e fim. Espero que agradem:
MC 01
Viu o monstro. Não teve medo. Era sua imagem refletida no espelho.
MC 02
Recebera um beijo, não sabia de quem. Estava no necrotério. Ficou.
MC 03
Na suite principal do Kremlin viu um vulto barbado (seria Marx?) deitado a seu lado e sentiu um calafrio. Uma alma? Não poderia ser, comunista não acredita nisso.
MC 04
Policial e bandido estavam mortos. De mãos dadas, um segurando o revólver do outro.
MC 05
Ajeitou a gravata, entrou solene e foi preso. Estava nu.
MC 06
Acordara do sonho. Tivera a mulher desejada em seus braços. Virou para o lado e sua companheira roncava.
MC 07
Feriadão. Preguiça muita e mulher pouca. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos à CUT, estamos em greve.
MC 08
Copenhague, outono, fim de tarde. Saiu do Tívoli Park à pé rumo ao centro. Não viu a jovem na bicicleta. Hoje, manca um pouco, mas é um adepto do ciclismo.
MC 09
Reprovada até ontem. Hoje, a aluna provocante passara na prova. Que prova.
MC 10
Quanto mais orava, mais pecava. Pedia a Deus coragem mas continuava com aquela pessoa que não lhe dizia nada. Seus corpos estavam nus e sós.
MC 11
Enxugou-se na toalha rala do motel e cantarolou. Estava feliz. Sua mulher descobrira agora que ele era impotente também fora de casa.
MC 12
Vontade incontida de chorar. As lágrimas saiam aos borbotões. Qual a razão? Não sabia. Saiu do velório e recebeu pêsames pela morte do marido.
MC 13
No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele.
MC 14
O Juiz leu a sentença e deu um telefonema. Queria almoçar com a ré, que recusou.
MC 15
O gerente do banco foi solícito. Cheque especial na mão, comprou a passagem que a libertaria. Fez um bilhete agradecendo ao gerente e devolveu os cheques não usados.
MC 16
Tinha consciência de suas limitações e isso lhe machucava. Abriu o sorriso e continuou a fingir.
MC 17
A mulher ligou para a polícia, tirou um cigarro do bolso dele, acendeu, deu uma longa tragada até formar cinza e despejou sobre o corpo do seu homem, morto. Cansara de apanhar.
MC 18
Tirou a barba postiça com cuidado e a roupa vermelha de papai noel. Dormiu e sonhou chorando pedindo um presente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/04/2000.

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COMPARTILHANDO

Preenchi um formulário há algum tempo em que a Amana-Key e a Personal, empresas de consultoria, me indagavam se gostaria de participar de um encontro nacional de estratégia de país e, concomitantemente, de um sobre gestão compartilhada. Tempos depois, recebi a confirmação de minha participação.
Entre curioso e desconfiado fui lá conferir. Hoje, depois de tantos cursos, seminários, palestras e encontros, ando meio ressabiado com conversa mole e palavras da moda como cenário, facilitação, paradigma, globalização, milênio, virtual etc. Confesso que ainda não as absorvi de todo. A curiosidade, no meu caso, é sempre maior que a desconfiança e isso mostrou que a minha intuição havia acertado, apesar de tantos erros passados.
Gente de bom nível de todo o país, mais da área pública que da privada, se reuniu e tentou, durante três dias, demonstrar o óbvio: é preciso aprender a compartilhar. É tão óbvio que precisa ser dito a exaustão, pois a maioria das pessoas é, como eu também, desconfiada e precisa se convencer do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.
A despeito da pieguice do encontro ter se iniciado e encerrado com o “Hino Nacional” e das pessoas se dado as mãos fazendo uma corrente, havia pureza, boa vontade e honestidade na maioria dos presentes. Esses elementos perduraram em todo o transcorrer do encontro, especialmente em depoimentos significativos de integrantes de organizações não governamentais e de gestores de projetos de desenvolvimento sustentável.
Para os que não têm obrigação de saber o que significa “estratégia de país” eu diria que são caminhos diferentes dos que estão sendo trilhados pela maioria dos governantes. Partem de um raciocínio estratégico em que se minimiza o empirismo, o imediatismo e se tenta descobrir maneiras de fazer acontecer e de encontrar alternativas e soluções que permitam a sustentabilidade das futuras gerações em convivência pacífica com o meio ambiente.
Acrescente-se a tudo isso que há gente capaz envolvida na condução e coordenação desse processo. Faltam a difusão na mídia, o comprometimento de políticos e de grande parte da sociedade organizada, ainda alheia a essa nova onda. Hoje, mais do que nunca, vivemos em ondas.
Esses encontros tendem a proliferar e ganhar corpo. São o fio de um novelo condutor que poderá tecer uma teia em todo o país, sem partidos e interesses menores. Criticam, analisam, mas não visam a derrubada de ninguém. Querem correção de rumo, enquanto há tempo. São, como se depreende de um documento entregue, tais plantadores que vão jogando sementes de idéias para fora, às vezes até desconexas, sem sentido e que germinam, transformando-se em conhecimento, procurando encontrar respostas para os problemas brasileiros.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2000.

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ALDEOTA, 20 ANOS DEPOIS

Há exatos 20 anos um grupo de jovens empresários e profissionais liberais, a maioria já rotarianos, decidiu fundar um novo clube de Rotary. Imaginavam que poderiam fazer algo diferente e tinham gás para isso. Procuraram o saudoso Cláudio Martins, o guru rotário de então, e esse deu total apoio e sinal verde. Foi a tramitação mais rápida, até então, de toda a história do Rotary. Em questão de dias o “International Board” aprovou a criação do Rotary Club de Foraleza – Aldeota.
Para quem não sabe o que é Rotary eu diria que a ideia partiu, em 1905, de um advogado americano chamado Paul Percy Harris que, sentindo-se isolado em Chicago, resolveu juntar um grupo de pessoas de profissões diferentes para a troca de informações e ter algumas metas sociais, éticas e filantrópicas. Essas pessoas reuniam-se em locais diversos por sistema rotativo, daí a palavra “rotary”.
A ideia de Paul Harrys tornou-se grande, mais do que ele pensava e difundiu-se pelo mundo afora dando um destaque especial ao que se tornou o maior clube de serviço do mundo, com 1,2 milhões de asssociados e 27 mil unidades. Para ser rotariano você tem que responder a uma prova quádrupla: é a verdade?, é justo?, criará boa vontade e amizade? e será benéfico para todos?
Anteontem o Rotary-Aldeota comemorou os seus primeiros vinte anos de existência e, se me lembro bem, logo após sua fundação, teve o crédito da ideia e da participação na execução da campanha de geração de recursos e doação de mil cadeiras de rodas a deficientes físicos. Igualmente, conseguiu, nos seus primeiros anos, um número razoável de palestrantes de excelente nível e ter frequência 100% .
Àquela época foi produzido um documento com o título: ” Um novo Rotary – da ideia à realidade”, que dizia, em um dos trechos, o seguinte: “O poder de um clube de serviço reside no esforço, na capacidade e na ação conjunta de seus membros em favor de um objetivo comum, de modo a assegurar a sua presença no espaço social. Por conseguinte, a importância de um clube não deve ser medida em função de anos de existência e do número de associados mas, e principalmente, pelo papel que desempenha , no efeito-demonstração que exerce na comunidade a que serve, na autoridade que reflete no círculo social da área em que está inscrito e da rede de sociabilidade que gera”.
Há muito deixei o Rotary-Aldeota, mas lembro bem dos ex-companheiros e da camaradagem entre a maioria. Sei que há novos membros, inclusive mulheres, ideia que advoguei à época. Tenho a convicção de que os atuais dirigentes do Aldeota estão reenergizando o clube e preparando-o para entrar na idade adulta dentro da coerência, confiança e continuidade, indispensáveis ao cumprimento da visão atual do Rotary. Parabéns.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/03/2000.

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PESSOA MARAVILHOSA

Depois que algumas pessoas descobrem o nosso e-mail somos bombardeados com estorinhas, fábulas, contos, mensagens, pedidos, pesquisas, correntes, cartoons etc. Isso faz parte da aldeia global em que nós, índios incultos, estamos ainda engatinhando, sem saber onde isso tudo vai dar.
Um desses textos, de autoria de Olavo de Carvalho, extraído do livro “O Imbecil Coletivo”, mostra o que o cada um deve fazer para ser “politicamente correto”. Pessoas mal comportadas como eu, sem a sabedoria para falar o que os outros desejam ouvir ou calar diante de asneiras ou poltrices, precisam conhecer, pelo menos, um capítulo que trata de “como se tornar uma pessoa maravilhosa”.
O sonho de todo mundo é ser feliz, se mostrar culto, inteligente, agradável, suave e socialmente aceito. Pois bem, ai vão algumas normas de conduta e frases chaves que adaptei a serem usadas nos coquetéis, nos bate papos, nas conversas com intelectuais etc. Conheço gente, por exemplo, que não lê livros e pergunta com um ar pseudo-interessado: “qual o livro que você está lendo?”. Não é para esse tipo de pessoa que estou escrevendo. Estou escrevendo para os que ainda não sabem fingir e dizem o que pensam. Aproveite, a sociedade gosta de gente leve, agradável e falsamente cordial.
01. Não fale dos outros. Fale apenas do que já estão queimados tipo: Collor, Maluf, Quércia, George Soros, Bill Gates e aquele direitista austríaco, Haider. Os demais devem ser tratados como “pessoas maravilhosas”, “um ser humano muito especial” etc
02. Procure não entrar em disputas verbais. Caso entre, não tente provar que suas convicções são verdadeiras. Saia-se com a frase “não há verdades absolutas”.
03. As idéias conservadoras ou conhecidas como tais devem ser tratadas como “preconceitos”. O uso da palavra preconceito poderá ser muito útil e é vaga.
04. Trate de saber o que o grupo ao qual você está inserido pensa e não martele contra. Seja suave nos seus juízos de valor. Contemporize.
05. O socialite adora posar de socialista. Veja, por exemplo, com simpatia os movimentos dos sem terra, o PT e o “Greenpeace” (grinpice).
06. Em matéria de sexo concorde com a maioria, sem ter medo de passar a imagem de avançado, de quebrador de regras. Fale em sexo seguro e diga que o governo deveria destinar mais verba para as campanhas e tratamento da Aids.
07. Em manifestações sociais trate de expressar os sentimentos coletivos, mas não esqueça de se mostrar um pouco herético, não-conformista e um quê de excluído.
08. Não fale que é católico, protestante, espírita etc. Fale em duendes, anjos, manifestações afro, new age, Lair Ribeiro, Paulo Coelho, Santiago de Compostella, ficar zen etc.
09. Em papos literários é preciso mostrar um ar atento quando citarem alguma obra. Diga, com um jeito blasé, que “ela rompe com as convenções do gênero”. Não significa nada, mas agrada.
10. Demonstre saúde, bem-estar e prosperidade para ser uma pessoa maravilhosa.
Boa sorte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2000.

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BOB FIELDS

Os que foram estudantes universitários na tumultuada década de 60 recordam estas duas palavras: Bob Fields. Era assim que os universitários, na sua maioria, chamavam o embaixador e ministro Roberto Campos. Essa era uma maneira de chamá-lo de entreguista, vendido aos americanos, calhorda, direitista etc. Ainda não se usava o epíteto neoliberal da forma pejorativa como é feita hoje.
Roberto Campos era a imagem do cão, o vendilhão da pátria e outros adjetivos não menos nobres. Pois não é que, por conta de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, conheci o dito cujo, então Embaixador do Brasil em Washington. A embaixada oferecera uma recepção aos bolsistas e o próprio nos recebeu de paletó e sua marca registrada, a camisa social listrada com a abotoadura no colarinho como os americanos e ingleses mais tradicionais usam e, obviamente, a gravata.
Lembro bem. Ele era um homem no esplendor do início da maturidade e se fazia acompanhar de SanThiago Dantas, já acometido e em tratamento do câncer que lhe mataria tempos depois.
Campos e Dantas eram, à época, o que de mais expressivo existia de intelectuais exercendo cargos públicos. San Thiago havia dado uma palestra em um congresso da UNE do qual participara e, acidentalmente, o recebi e com ele travei uma ligeira conversa.
Como gancho, voltando à recepção da embaixada, relembrei tal fato a San Thiago e ele, por delicadeza ou com a bonomia própria dos que estão com a sorte selada, disse relembrar.
Formamos então um pequeno grupo e, receosos do seu decantado encanto pessoal, passamos a ouvir a fala mansa e de timbre característico de Roberto Campos. Ele estava solto e falava com sabedoria e conhecimento que, mesmo os seus adversários, sempre souberam reconhecer. De repente, um colega bolsista, Flávio de Sá Bienrrebach, paulista de bigodes retorcidos que viria a ser deputado federal, começa a falar sobre o “imperialismo americano”. Sem alterar a voz e com o ar de ironia que o caracteriza, Roberto Campos perguntou a que tipo de imperialismo Flávio se referia. Flávio tentou explicar. Campos retomou o fio da conversa e disse que conhecia sete formas diferentes de imperialismo e tome história, informação e conhecimento. Quedei-me mudo e absorto, o Flávio colocou a viola no saco e resolvemos mudar de assunto.
Anos depois, em Londres, fui encontrar uma pessoa que o visitara já na condição de embaixador brasileiro na Inglaterra. Essa pessoa falava de suas gentilezas e do seu fino humor. Campos foi eleito, em seguida, deputado federal e senador, por Mato Grosso e Rio de Janeiro. Ouvi muitas de suas palestras. Apesar de não concordar com suas idéias, gostava de ouvi-lo. Na penúltima delas, quando lançou o livro “A Lanterna de Popa”. Anos depois, o ouvi novamente e senti que ele estava se repetindo, não tinha mais nada de novo a dizer, era apenas um octogenário vivendo de sua fama. Retirei-me da sala, antes de concluída sua palestra.
Agora, aos 82 anos, tenta se recuperar de uma lesão cerebral que uma hipoglicemia fez eclodir. Prefiro lembrar dele como o detestado Bob Fields, a quem nunca reverenciei como político, mas respeitei como intelectual. Algumas frases suas são um primor. Vamos a quatro delas: 1. A burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor. 2. O governo não é uma orquestra afinada. É um forró com muitos zabumbeiros. 3. O camelo é um cavalo planejado por um comitê de economistas, nem por isso é um animal inútil. 4. Os elogios incondicionais que estou recebendo estão transformando esta solenidade em meu obituário.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/03/2000.