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FLUXO E CONTRAMÃO – Diário do Nordeste

Todos sabemos que Fortaleza está procurando mudar o seu sistema viário urbano, criando, entre outros, viadutos, passagens de nível e binários onde há tráfego excessivo de coletivos, autos e motocicletas. A cidade só começou a ter viadutos na administração Juraci Magalhães.
Fortaleza não teve a ventura de formular bons planos de desenvolvimento urbano.
Desde o de Silva Paulet, em 1818, com a planta em xadrez da Villa de Fortaleza, passando pelo de Saboya Ribeiro em 1947. Depois, vieram os planos diretores de 1962, 1972, 1992 e 2009. Nada de significativo alterou ou inovou.
Deu-se aos semáforos a função de regular o tráfego. Não se levou em conta- tampouco se mudou – a forma de implantação da cidade e de seus loteamentos, quase todos ortogonais. Agora, neste 2014, já perto de um milhão de veículos, há tentativa de desfazer o nó górdio gerado.
Já escrevi, em análise anterior, que, pelo menos, as margens justafluviais do Rio Maranguapinho e Ceará deveriam servir para construir vias paralelas de escoamento de coletivos e caminhões pesados. As hoje usadas não possuem caixas suficientes para dar vazão ao volume de veículos, em qualquer sentido de direção.
Além dos desvios, ordenados, com sinalizações e fiscalizações, devem ser coibidas as diversas contramãos usadas como pontos de fuga da confusão nas horas do “rush”. Um exemplo: a estreita rua Princesa Isabel, sentido sul-norte, quase todas as noites é invadida por alguns ônibus urbanos e metropolitanos na contramão, sentido norte-sul. Prevenir é cogente.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/10/2014

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SÉRGIO E ALBERT(O) – Jornal O Estado

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Albert Einstein, cientista alemão
Sérgio, um velho amigo meu, liga eufórico: você sabia que o Alberto é do time? – Que time?, pergunto eu. Sérgio ri, e diz eufórico: o Alberto era dos bons. Eu pergunto: que Alberto? – Ora, ora, me diz ele: o Albert(o) Einstein, o cientista, o da lei da relatividade, o alemão-judeu que se mandou para os Estados Unidos quando o nazismo começou.
Sérgio, eu não estou entendendo o que o Albert Einstein tem a ver com o time que você fala. Que time é esse? Ele não se faz de rogado: – é o time dos homens danados, assim como eu, que namoram muito, casam sempre e têm amantes. Pois não é que descobriram agora que o Albert ou Alberto, como quer o Sérgio – ele teima em ser íntimo: além de casado duas vezes, teve dez amantes, tudo comprovado em cartas cujos teores foram divulgados há algum tempo por jornais e televisões de todo o mundo. Na realidade, eu tinha lido o assunto apenas por cima mas, depois que o Sérgio me telefonou, resolvi pesquisar e vi que, verdadeiramente, Einstein entre um e outro estudo não dispensava uma visita a amantes e, como intelectual que era, trocava cartas com elas. Está tudo nas 3.500 páginas dos arquivos doados por Einstein à Universidade Hebraica, em Jerusalém, Israel.
A descoberta só ocorreu em 2006 porque havia uma cláusula testamentária de que as cartas dele só seriam abertas, vinte anos após a morte de sua enteada e confidente, Margot Einstein, ocorrida em 08 de julho de 1986. Esse fato, a descoberta, foi apenas a da décima amante, pois nove já estavam identificadas e catalogadas. Apareceu a Ethel, que foi se juntar a Margareth, Estella, Betty e duas Tonis, entre outras. Como se vê já faz oito anos que as cartas foram deslacradas e divulgadas. Para o Sérgio não importa que o fato tenha acontecido em 2006. A alegria dele é incontida, pois só agora soube das “estrepolias” do Albert(o).
Assim, vi que o folgado do Sérgio tinha razão. O Einstein fazia parte do seu time e, certamente, achava que tudo no amor seria atinente, só não o tempo que era absoluto e sobrava para ele. Em época de poucos e precários telefones, as cartas, que não mentem jamais, teriam sido usadas para a marcação de encontros e de seus relatos prazerosos.
Esses ditos eventos, além de causar profunda satisfação ao Sérgio, demonstraram, segundo ele, que os cientistas não só lidam com abstrações, física, química e fórmulas matemáticas, mas cuidaram de encontrar respostas para as suas próprias situações nas andropausas matrimoniais e as “outras”. Cientistas, para o Serjão, são pessoas falíveis que podem aditivar as paixões, lícitas, ocultas ou escancaradas. Um adicional que lhes dê o enlevo suficiente para manter uma relação firme e até descobertas que fazem bem à humanidade.
Como disse o feliz Sérgio, em outro telefonema: -graças a outros cientistas, na área da farmacologia, estou em plena forma e sempre altivo. Falou bem de alguns medicamentos e disse que há genéricos em qualquer farmácia. E ainda alvitrou: será que o Albert(o)já não havia descoberto isso na sua época.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/10/2014.

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ABSURDOS EXPOSTOS – Diário do Nordeste

Tento, mas não consigo desligar-me dos absurdos do horário eleitoral. Há candidatos a deputado estadual/federal que não têm a menor ideia da atividade parlamentar. Prometem o que é competência exclusiva do Poder Executivo e utilizam, de forma despudorada, nomes ou alcunhas exóticas para que o eleitor, ao votar, lembre-se dele.
Eleição não é teatro. Você, caro eleitor, sabe quais as funções de um deputado, seja estadual ou federal? Deputado é alguém – eleito pelo povo- incumbido de legislar, alterar ou revogar leis, propor emendas e fiscalizar os atos do poder executivo. Leia, veja a análise que, todos os anos, as mídias sérias fazem dos que atuam na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e na Câmara Federal.
Ser deputado não é ser despachante de luxo, tampouco porta-voz das prefeituras onde é votado. Na prática, os prefeitos – ou os opositores, derrotados – são cabos eleitorais dos candidatos à reeleição ou dos que aparecem por lá pela primeira vez e, sem história pessoal no lugar ou na região, saem com votação surpreendente.
Como? Muitos falam das emendas parlamentares e dos seus destinos, alguns tortuosos. Outros se valem de (ONGs), organizações não governamentais. Algumas dessas ONGs, institutos e fundações, paradoxalmente, vivem da prodigalidade de verbas públicas.
Não é de estranhar que, há poucos dias do pleito, muitos ainda não saibam em quem votar. Há descrença crescente que só poderá findar se cada eleitor tiver o cuidado de bem escolher cada candidato.
Não jogue fora os seus votos nas eleições.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/09/2014

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ARTUR EDUARDO BENEVIDES, POR ELE MESMO – Jornal O Estado

Artur Eduardo Benevides, poeta, professor e “Príncipe dos Poetas Cearenses”, morreu no último domingo, 21 de setembro de 2014. Era o presidente de Honra das academias Cearense e Fortalezense de Letras. Seu corpo foi velado, desde a noite do falecimento, no salão principal do Palácio da Luz. A missa de corpo presente foi celebrada na manhã de segunda-feira, de forma lírica, didática e sentida pelo acadêmico monsenhor Manfredo Ramos.
O Presidente da ACL, José Augusto Bezerra, com postura reverencial, disse da imensurável perda sofrida pela literatura cearense e, especialmente, pela Academia Cearense de Letras, da qual Artur foi acadêmico (cadeira 40) e presidente por uma dúzia de anos. Mauro Benevides, acadêmico e sobrinho, fez o seu panegírico. Adequado, encadeado e circunspecto.
Hoje, nesta sexta-feira, cedo este espaço hebdomadário ao próprio Artur Eduardo Benevides, não sem antes citar Homero, poeta grego (séc VIII-VV a.V), na Odisseia:
“Para todos os homens sobre a terra, os cantores/são dignos de honra e respeito, pois a Musa/ensinou-lhes os cantos; ela ama os cantores”.
Artur Eduardo cita Homero, em solilóquio, na orelha da antologia “Milênios de Poesia (E Prosa)”, organizada por Antônio Pompeu de Araújo, em 2003, onde anota:
“A poesia vive e reina por colher e guardar em seus ritmos e formas o segredo da beleza. Pelo menos é o que procuram fazer os poetas, em todos os pontos do mundo, de Homero e Salomão aos atuais. Ao contrário do que tanto pensam, no Brasil, o gênero não decaiu, nos dias que correm. Os grandes nomes das gerações de 22 e 30 já se foram e não há muitos, com a mesma atitude, a apontar agora. Se perdeu um pouco em qualidade, a quantidade avulta, em todas as regiões do País. E há excelente poetas no pastoreio das palavras e metáforas, procurando manter a tradição cultural. Poesia é gênero difícil. É a arte em que poucos adquirem a glória e muitos ficam a lutar para obter melhores resultados, o que, aliás, sempre ocorreu. Ela exige, antes de mais nada, talento, que é uma cousa pessoal e intransferível, sem a qual nada se produz que mereça aplausos. Remando, o mais das vezes, contra a maré dos leitores, prosseguem os poetas, grandes e pequenos, em seu trabalho criador, lançando livros e mantendo acesa a pira sagrada que encanta o espírito.”
Saio do ensaísta Artur Eduardo Benevides e remeto o leitor para a sua última obra poética, lançada em 2004, “Cantares de Outono ou os Navios Regressando às Ilhas”, com este definitivo poema:
“De repente/tudo se faz urgente. Meu tempo (irresgatável) morre./A última esperança me socorre./E a poesia/É a única forma de sabedoria./ Onde, contudo, nos aguardarão/as uvas do Paraíso e da Canção?/Tendo em mim o azul das valsas dos coretos/ou os queixumes finais de lívidos sonetos./Sou o que sobrou. Fui./ O verso, em êxtase, flui/. E sei, quanto menos navegar,/ mais terei as súplicas do mar”.
Resquiescat in Pace.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/09/2014

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DONO DO VOTO – Diário do Nordeste

Sabemos votar? Um indicador negativo é a pouca consideração das mídias com os políticos profissionais. Eles, segundo analistas sérios, vivem a desviar – com falsa propaganda – a nossa real escolha. Medite sobre o significado do voto. Nestas eleições de 2014 elegeremos deputado estadual; federal; senador; governador e seu vice; e presidente da República, com vice. Teremos, então, que escolher cinco vezes. São cinco chances. Que elas não sejam estragadas por brincadeira ou porque alguém nos, parece simpático e sabe pedir. Devemos nos permitir pensar, e decidir. Escolha os melhores.
O Instituto Datafolha elencou uma série de variáveis a serem consideradas nos votos para governador e presidente, das quais destacamos dois aspectos. Primeiro – econômico: ideia de crescimento efetivo, relações difusas do candidato com empresas privadas, obras paralisadas ou atrasadas, carência de saneamento básico, reformulação das leis trabalhistas, programas/bolsas sociais e altos e múltiplos impostos.
Segundo -comportamental: histórico de vida, crença, posição face às drogas e abortos, diminuição ou não da idade penal, punição da criminalidade, funções novas para sindicatos e afins, redução da pobreza, pressão da migração sobre as grandes cidades e, sem dúvida, aumento do saneamento básico, aceitação das minorias, sejam de raça ou de gênero.
Portanto, não devemos nos sentir aliciados, mas induzidos por nossa resolução soberana. Não vote por obrigação, ódio ou paixão. Vote consciente. Raciocine. O voto é secreto. E só seu. O Brasil agradece. Voto é flecha. Acerte.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/09/2014

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PROUST: A BUSCA DO TEMPO E A ERA DO INSTANTE – Jornal O Estado

“Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!” – Bertold Brecht (1898-1956), escritor alemão.
O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) foi sempre mais comentado que lido. Consideravam-no, à sua época, diletante e presunçoso. Antes da chegada do século XXI, exato no ano 2000, citada pelo jornalista brasileiro Francisco Quinteiro Pires, surge a resenha “Marcel Proust: A Life”, escrita por William C. Carter, professor da Universidade Yale, EEUU. Nessa história consta que o jornal francês “Le Temps”, em novembro de 1913, entrevistou Proust sobre a sua obra ‘’No Caminho de Swan”. Em resposta, Proust teria dito: “Minha obra está dominada pela distinção entre a memória voluntária e a memória involuntária”. Segundo ele, a voluntária “é uma memória da inteligência e dos olhos”. Por outro lado, a involuntária pretende ser o objetivo da preocupação, pois foge à razão e possui “a marca da autenticidade”.
Carter, o resenhador, acrescenta que Proust cresceu em mundo sem energia elétrica, telefone ou automóvel, mas “até 1910 ele testemunhou a invenção da energia elétrica, do telefone, do automóvel, do cinema, do avião e do metrô de Paris”. Um choque. A esse conjunto de invenções, Proust chamou de “era da velocidade”.
Agora, 2014, estamos vivendo uma era em que as múltiplas faces da Internet, por suas ditas mídias sociais, falam a verdade e/ou propagam mentiras, ilações, opiniões desencontradas, dados, filmetes e imagens que são repetidos “ad nauseam”. É difícil para muitos fazer a distinção entre a realidade, o mito e as inserções com objetivo de fantasiar, louvar ou denegrir. Vencem, nesse páreo, os que forem mais enfáticos, tiverem mais seguidores ou propagadores do que seja verdade, mentira, criação ou mera especulação. O que escrevi acima se lastreia – em parte – em observações do jornalista Quinteiro Pires, hoje, residente nos EEUU, para o “Eu&Cultura”.
Para ele: “Pensadores contemporâneos começaram a questionar, entre os efeitos de uma personalidade construída em sites como Facebook, Twitter e Instagram, estaria uma suposta ameaça à espontaneidade das relações humanas”. Dessa forma, as pessoas passariam a agir como “personas”, livres para criarem uma identidade que as projetam para os outros como dessemelhantes de suas próprias naturezas e viveriam em um mundo paralelo ao mundo real que rejeitam, pretendem esquecer, desprezam ou que as angustiam.
Nestes tempos que nos aproximam das eleições de 05 de outubro, é bom ficar atento ao que o controverso Marcel Proust classificou como os dois tipos de memórias que usamos para formar um juízo de valor: a voluntária (a da Inteligência) e a involuntária, a que foge da razão.
Não vivemos mais na “era da velocidade”, mas, ao meu pensar, na “era do instante”, aquela a se sobrepor, segundo a segundo, nas diversas mídias sociais e plataformas, aos fatos anteriores e a (des) focar o que pode ser passado como plausível e aceito pelos que não fazem da inteligência e da razão os seus guias. Refletir dá trabalho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/09/2014

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BIOTECNOLOGIA ISB2014 – Diário do Nordeste

Em 2008 fui convidado pelo Professor José Osvaldo Carioca a acompanhá-lo à China, para um Congresso de Biotecnologia que coincidia com o fim das Olímpiadas. Relutei. Já havia ido à Ásia. A curiosidade venceu. Voamos 32 horas até Dalian, cidade de seis milhões no interior sino. Seria lá o Simpósio Internacional de Biotecnologia em belo centro de convenções. Ao meio do conclave, o professor Carioca, no seu jeito particular, disse: Vou levar este simpósio para o Brasil – e tornou clara a sua intenção para o “Board”.
Agora, de hoje ao dia 19, Fortaleza recebe o 16º Simpósio Internacional de Biotecnologia, promovido pela IUPAC- International Union of Pure and Applied Technology. Esse evento teve o seu início em Kioto, Japão, 1972. Depois, a cada quatro anos em continentes distintos. A partir de 2008 passou a ser bienal pela importância da temática e interesses da Academia e da Indústria, que se beneficiam pela troca de conhecimentos.
Ao simpósio em Dalian na China, já referido, compareceram dois laureados com o Prêmio Nobel. A escolha de Fortaleza se deu em face do reconhecimento aos saberes do Professor Osvaldo Carioca, único brasileiro a compor a Federação Europeia de Biotecnologia. O objetivo do encontro será promover a inovação e negócios com biodiversidade, proporcionando maior competitividade em relação à posição atual do Brasil, centrada na exportação de commodities. O fulcro será “Biotecnologia para o desenvolvimento da economia verde”. O Professor Carioca será o “Chairman” do 16th IBS, a completar seu périplo ao redor do mundo.

João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2014

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11 DE SETEMBRO, 13 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Ontem, 11 de setembro. Há 13 anos aconteceram os ataques aos EEUU. À época, escrevi o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Na parte do Caos, criei 11 contos breves. Agora, neste 2014, há novas ameaças de toda natureza no cadinho da área que abriga países como Iraque, Irã, Afeganistão, Síria e outros. Isto sem falar na questão Russa e Ucrânia. Tudo conspira contra a paz. A União Europeia e os EEUU se reúnem. Daí, resolvi mostrar, de forma aleatória, dois(retirar um dos 3) dos contos escritos. Vejam:
A FESTA DO SACRIFÍCIO -Tárik nasceu em Jalalabad no Afeganistão, quase fronteira com o Paquistão. Criou-se dentro da fé islâmica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a União Soviética e a mãe resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de vesícula e foi removido para Cabul, capital do seu país. Cicatrizado, viu-se em meio a multidões que andavam em grupos pelas ruas destroçadas. Tomara consciência de que eram vencedores da guerra contra os soviéticos, mas só via miséria. Era o mês do Ramadã, a época sagrada em que se comemorava a primeira revelação de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Naquele dia, seria a terceira vez que orava e pedira iluminação. O que fazer de sua vida vazia? Voltar para Jalalabad? Ficar em Cabul?
Orou com esperança e teve a sensação de que uma fé mais forte tomava conta de seu corpo esguio de adolescente. Olhou a multidão que se formara defronte à mesquita e para lá se dirigiu. Um homem alto, bem mais alto que os demais, de feições graves, arma a tiracolo, falava manso para pessoas extasiadas. Dizia que Allah, o único Deus, pedia a todos os muçulmanos que se unissem para acabar com a fome e a injustiça de Satã. Terminada a oração o homem alto foi seguido por dezenas de pessoas que tomaram um caminhão. Sem saber como e nem porque correu a tempo de subir na carroceria cheia de pessoas armadas, mas tranqüilas. O caminhão deixou Cabul e dirigiu-se às montanhas. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento que era encoberto por grandes pedras e árvores ressequidas. Todos desceram e foi aí que notaram sua presença. Era um estranho e um estranho muito jovem em meio àqueles homens obstinados. Foi detido e levado à presença do homem alto. Este ouviu a sua história, deu-lhe um Alcorão surrado de presente e perguntou se seria, a partir daquele dia, submisso a Deus. Tárik respondeu que sim, a sua vida teria um sentido. Tudo era novo para ele.
O homem alto deu-lhe muitos livros para ler e cobrava. Fazia perguntas e testava. Tárik foi descobrindo, fascinado, a glória da informação e do conhecimento. Anos mais tarde, o homem alto lhe disse: é preciso que você leve a força de Allah para lugares profanos. Vá, misture-se a eles, mas nunca perca a sua fé. Irmãos o acolherão. Aprenda a língua dos ímpios e tente viver como um deles. De tempos em tempos, nós manteremos contato. Agora, Tárik estava ali naquele aeroporto, de barba raspada, calça, camiseta e uma prosaica mochila aonde levava o velho Alcorão e quatro agulhas de tricô enfiadas num novelo de linha. Aprendera a manuseá-las de uma forma diferente. Com um ar descuidado repousou a mochila na máquina de raio-x e a recebeu com indiferença no outro lado da esteira. Não olhava para os lados, mas não estava só. Tinham todos os mesmos pares de tênis, novos, pretos com cadarços vermelhos. Esta era a senha. O avião taxiava e ele sabia que, em breve, participaria da “Eid al adha”, a festa do sacrifício, e receberia o perdão divino. Era preciso que fizesse. O homem alto assim o determinara.
O GRANDE DIA – Nascera negro, pobre e paralítico. É bem verdade que não era mais paralítico, mas ainda tinha sequelas de uma poliomielite. Sua mãe, por mera ignorância, não o imunizara com a vacina salvadora. Também, desculpava-se ele, sua mãe dedicou o resto da vida a protegê-lo, a prepará-lo para o mundo que ela não entendia e achava cruel. Fora abandonada pelo marido, um plantador de amendoim dos arredores de Atlanta, na Geórgia, que a trocara por uma loura oxigenada do Texas e se mandara para Sausalito. Perdera seu homem, mas não a vida. Seu trabalho, noite e dia, como atendente de um hospital público, deu-lhe sustento, uma pequena casa na região sul da cidade, onde os negros viviam e procriavam muito.
George foi cedo para a escola. Teve a assistência de um pastor luterano que providenciou a prótese que o faria se locomover sem a tosca muleta que o acompanhara por anos. Aplicado, responsável e temente a Deus, dedicou-se a estudar com afinco, varando madrugadas e fazendo a si mesmo a promessa de retribuir, um dia, a dedicação da mãe. Formara-se em economia e, por conta das suas notas A, entrara direto no mestrado de Yale com uma salvadora bolsa de estudos. Continuou a colecionar As e não conteve o choro quando sua mãe, já alquebrada mas vistosa em seu vestido escarlate, entregara o seu prêmio de melhor da turma. Amava seu país, acreditava na ascensão social e já não doía tanto a lembrança dos avós escravos que não conhecera. Ainda não encontrara a mulher de sua vida. Tinha uma boa amiga, descendente de judeus poloneses com quem ouvia músicas de Cole Porter e comia tacos. Nada de sério e na sua ética luterana se culpava das poucas vezes em que, solitário, chegava ao prazer. Um dia, casaria, teria filhos, moraria bem, mas nunca no sul, pois conseguira polir o sotaque arrastado que herdara de sua mãe.
Acreditava nas ideias da democracia, votara em George W. Bush e estava pronto para o milagre americano. Chegara a Nova Iorque há uma semana para uma entrevista de trabalho. Um caçador de talentos o convocara por seu currículo. Comprara uma roupa nova na Saks e se viu no espelho. Óculos de aros finos, cabelos cortados rente que disfarçavam a carapinha, camisa branca, gravata listrada e o novo terno azul com riscas de giz que lhe dava um ar distinto.
Subiu receoso ao elevadíssimo andar daquele prédio tão famoso. Confiava em Deus, no seu talento e na América. Seu entrevistador era só um pouco mais velho que ele e o recebeu com atenção, mas sem calor. Notou que usava um reluzente brilhante solitário no dedo mínimo da mão esquerda. Um dia compraria um mais bonito ainda. Falaram sobre sua vida acadêmica e não disfarçou a alegria quando perguntado sobre George Soros e seu modo de ver o mundo. Saiu contratado. Começaria a trabalhar no dia 11 de setembro, data do aniversário de sua mãe, que sorte.
Hoje era o grande dia. Vestiu a mesma roupa e deixou, bem cedo, o apartamento que alugara no Bronx. Misturou-se a tantas outras pessoas no metrô que liam jornais ou ouviam músicas em seus fones de ouvido. Era um deles, afinal. Chegara aonde se propusera. Telefonaria para a mãe mais tarde. Às 8.40 horas identificou-se na portaria com seu crachá eletrônico e alegrou-se de estar naquele elevador tão grande com gente bem vestida, olhares confiantes e pastas à mão. Descera no andar certo, sentiu a energia do sol radiante, divisou uma barcaça que singrava pachorrenta o Rio Hudson e, atônito, num lampejo, viu o avião.
OS NÚMEROS – Ao ser libertado do campo de concentração de Dachau fez três juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma só palavra de alemão. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os números marcados em seu braço, as atrocidades sofridas.
Esquálido, esgueirou-se por entre os soldados aliados e conseguiu esconder-se em um caminhão carregado de mantimentos. Viu-se, após algum tempo, no porto de Hamburgo. Esperou a noite escura se fazer e, apurando a vista, divisou o grande navio americano ancorado. Cauteloso, mas decidido, aguardou o sentinela abraçar a loura junto ao poste. Subiu com o resto das forças possuídas e descansou sob o bote emborcado no tombadilho.
Agora, era 2001. Conseguira a cidadania americana. Tinha filhos, netos e uma bisneta mestiça que puxara à graça de sua mulher, uma bonita negra do Harlem com quem aprendera os segredos da vida e a falar inglês. Não fizera fortuna, mas seu emprego de mecânico dera o sustento a todos e ainda tinha uma boa reserva no banco.
Hoje, cansado, não deixava de olhar por trás de suas grossas lentes, os números tatuados em seu braço: 9112001. Sabia-os de cor, sonhara com eles tantas vezes e ainda lembrava o dia em que havia sido marcado, como se fora gado.
De repente, um pressentimento estranho veio à sua mente. Aqueles números pareciam estar formando uma data próxima: 11 de setembro de 2001. O que isto significaria? Não poderia ser coisa boa, pois aquelas marcas nunca lhe deram alegria e o obrigaram sempre a usar camisas de mangas longas. No seu quarto de viúvo solitário, pensou à exaustão. Alguma coisa ruim iria acontecer no dia 11 de setembro de 2001, concluiu. Resolveu tudo só: marcou uma reunião de família para a manhã do dia 11 de setembro, todos deveriam comparecer, ainda sabia a força que tinha. Houve resmungos, pois seria uma terça-feira, dia normal de trabalho, mas concordaram com o capricho estranho do velho e querido chefe da família. O que seria?
Chegaram todos. Até o neto prodígio que trabalhava arduamente naquela corretora judia no prédio mais famoso da cidade. Outro neto, bombeiro municipal, chegou fardado trazendo nos braços a bisneta querida. Eram 9.00 horas da manhã e a farta mesa estava disposta no jardim do quintal onde tantos churrascos aconteceram. Parecia a festa do Dia de Ação de Graças, mas não era.
O velho chefe da família olhou para todos com os olhos cheios de lágrimas. Estava alegre por tê-los a seu lado, mas triste, por não saber explicar a razão daquele encontro na velha casa do Harlem. Ria e chorava. Ria e chorava, enquanto lembrava o que intuiu ser uma data fatídica em seu braço.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2014

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ABSTRAÇÕES DUPLAS – Diário do Nordeste

Abstração é substantivo feminino, sabe-se. Na arte, a abstração é algo mais complexo, parte, quiçá, da interpretação filosófica de espaçar mentalmente coisas, fatos e representações. O abstracionismo como arte, entretanto, não carece de explicação laica como a que tartamudeei acima. Foi no começo do século 20 quando Kandinsky e Piet Mondrian romperam com os cânones então vigentes e começaram a fazer “garranchos”, traços, curvas, pontos e retas sem que aparecessem figuras, mas clarificassem a densidade das cores ou a inovação do indizível pelos já contaminados com a pintura clássica.
O nariz de cera acima objetiva dizer que há na Unifor uma ampla exposição abstracionista em curso com entrada pela Washington Soares. Muito se falou dela. É bom que mais se diga. Use o seu tempo livre e tente abstrair-se do mundo real que o sufoca. Vá lá, não se paga nada e, se a modéstia permitir, peça ajuda a alguma pessoa treinada para caminhar com você em todo o percurso que medeia a junção de parte dos acervos da Fundação Edson Queiroz e da Coleção Roberto Marinho.
Darei a mão à palmatória se você seguir a recomendação e sair de lá insatisfeito. Duvido. Quando nada, poderá dizer que há mais imaginação difusa do que via antes. Poderá duvidar do seu conceito de arte pictórica, mas, decerto, sairá leve e encorpado para responder as demandas do mundo real que deixou lá fora. A arte, ao meu pensar, consiste na fusão do seu olhar com o objeto admirado. Ela, sem o seu olhar, não existe. Por tal razão, encareço, vá lá e veja.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2014

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O QUE É A PÁTRIA BRASIL? – Jornal O Estado

Depois de amanhã, 7 de Setembro, comemoraremos o Dia da Pátria. O que é a Pátria Brasil? Com certeza, a Pátria não é a realização de uma Copa do Mundo de Futebol que custou bilhões de reais e deu no que deu. Tampouco é a forma caricata e nomes estrambóticos como alguns candidatos a deputados federais e estaduais se apresentam nos atuais programas gratuitos de televisão. Sequer é a partidarização que alguns órgãos de comunicação adotam de forma velada para destruir as imagens de candidatos a governadores e à presidência da República. Tampouco.
A Pátria passa longe disso. Sabe-se, por óbvio, que é a nação em que cada um nasceu. Além disso, é também o albergue dos que, sendo estrangeiros, resolveram optar por sua cidadania, ali residindo, constituindo família, produzindo saberes ou riquezas. O patriotismo é simples, bastar amar e respeitar. O amor e o respeito se manifestam no comportamento cidadão, nas atitudes profissionais, no acatamento às leis, na reverência aos símbolos nacionais (bandeira, brasão e hino), na preservação e no cuidado do uso de suas riquezas naturais no subsolo, na posse racional e útil do domínio territorial, do modo correto de aproveitar açudes, lagoas, rios, transposições, hidrelétricas e da apropriação devida do mar territorial. Além disso, a crença num país melhor, menos desigual e sem preconceitos.
“Brasil, um sonho intenso, um raio vívido de amor a terra desce” é uma parte mínima do escrito por Joaquim Osório Duque Estrada na tessitura do texto do Hino Nacional, musicado, depois, por Francisco Manuel da Silva. Você já sonhou com um Brasil sem complexo de vira-lata? Você tem amor à terra que o abriga, alimenta e dá o seu sustento? Atente para esta outra parte do Hino: “Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso e o teu futuro espelha zssa grandeza”.
O que você está fazendo pelo futuro do País? Ou você já entrou no time dos que acreditam que ele será sempre – como dizia nos anos 1940, Stefan Zeig-o país do futuro? O futuro se faz com o presente de cada um de nós. Depende de nossas atitudes, da educação continuada, da não indiferença pelo que é sério e carece da nossa participação certeira. Eu poderia estar usando esse espaço para platitudes, mas isso não me conforta. Todos poderemos agregar valor ao país que recebemos dos nossos pais ou,se imigrantes, elegemos para morar.
É bom atentar, neste mês pré-eleitoral, para o que já dizia no século passado o jornalista Sérgio Porto, através de seu personagem Stanislaw Ponte Preta: “a prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”. Não deixemos que isso seja a constante. O Brasil tem jeito, sim. Cada voto é uma flecha. É bom que seja certeiro, sensato, correto, judicioso, para não reclamarmos depois.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/09/2014.