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FORTALEZA – 2040 – Diário do Nordeste

As cidades, desde o século passado, perderam o bucolismo e passaram a ser apenas os lugares onde moramos, cada um a seu modo. Por mais que planejadores urbanos tenham procurado ordenar as ocupações, elas fugiram aos controles e, hoje, estão eivadas de problemas.
Fortaleza, na metade do século passado, possuía 250 mil habitantes. Quase não havia saneamento básico, a pavimentação se restringia às vias principais: pedra tosca, paralelepípedo e, poucas com asfalto. Hoje, predomina o asfalto por onde trafegam quase um milhão de veículos, entre coletivos, caminhões, táxis, autos públicos e particulares, carroças de catadores e as motos a fazerem balés suicidas em meio a tudo isso.
Neste 2014, surge o “Fortaleza 2040”. Eudoro Santana, pres. Do Iplanfor, enumera: 1. “Como está Fortaleza”? – o diagnóstico da situação atual, tendências, ameaças e oportunidades que venham a surgir2. Qual a Fortaleza desejada? O futuro almejado (o sonho) 3. Quais os principais desafios para conquistarmos a Fortaleza desejada? 4. O que fazer e como fazer para chegar lá? 5. O que fazer e como garantir para que o plano “Fortaleza 2040” seja executado? Assim, todos nós, estamos sendo desafiados a contribuir com o nosso quinhão de civilidade e, dentro das possibilidades de cada um, lutar com ideias e atos concretos para que as desigualdades diminuam.
Sem retórica, é preciso uma concertação de esforços para trocar o assistencialismo por viva participação dos que têm mais e devem ajudar na construção desse Plano que se imagina coletivo e acessível. Compartilhe o “Fortaleza-2040”.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2014.

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ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS – NOVA AOS 120 ANOS – Jornal O Estado

Na lua nova de ontem, 28 de agosto de 2014, no Palácio da Luz, a Academia Cearense de Letras realizou solenidade pela passagem dos seus 120 de existência. É fácil saber que as academias tiveram origem na Grécia antiga, sob a égide de Platão, quatro séculos antes de Cristo. Vinte e três séculos depois, seguindo os moldes da Academia Francesa, um grupo de literatos cearenses, em 15 de agosto de 1894, fundou a Academia Cearense, então a única no Brasil.
Este fato, por si só, é um acontecimento, pois tirou da então capital metrópole, Rio de Janeiro, a primazia da tessitura e da formatação de uma entidade pioneira voltada, unicamente, ao culto das letras, em todas as suas formas. Orgulhem-se, pois, todos os cearenses por termos fundado a primeira academia de letras do Brasil, apenas cinco anos depois de proclamada a República.
A Academia Cearense de Letras é composta de 40 membros, patroneados por nomes ilustres da nossa cultura, eleitos em processos abertos, a partir de edital publicado com as regras de saber exigidas para o ingresso. O eleito deverá ter mais de 21 votos no primeiro escrutínio. Não alcançado esse número, haverá uma nova eleição entre os dois mais votados. Em seguida, cumprido o prazo legal, é marcada a solenidade de posse.
O atual quadro acadêmico é composto dos seguintes membros: Ângela Gutiérrez, Artur Eduardo Benevides, Beatriz Alcântara, Carlos Augusto Viana, Carlos D’Alge, César Asfor Rocha, César Barros Leal, Cid Sabóia de Carvalho, Dimas Macedo, Ednilo Soárez, Eduardo Diatahy B. de Menezes, Ernando Uchôa Lima, F. S. Nascimento, Francisco Sadoc de Araújo, Genuíno Sales, Giselda Medeiros, Horácio Dídimo, João Soares Neto, José Augusto Bezerra, José Batista de Lima, José Murilo de C. Martins, José Telles da Silva, Juarez Leitão, Linhares Filho, Luciano Maia, Lúcio Alcântara, Manfredo Tomás Ramos, Lourdinha Leite Barbosa, Marly Vasconcelos, Mauro Benevides, Napoleão Maia, Noemi Elisa Aderaldo, Paulo Bonavides, Pedro Henrique Saraiva Leão, Pedro Paulo Montenegro, Regine Limaverde, Sânzio de Azevedo, Teoberto Landim, Ubiratan Aguiar e Virgílio Maia.
Ouvimos de alguns acadêmicos suas impressões sobre o transcurso dos 120 anos da ACL, cujo, Presidente de honra é o poeta Artur Eduardo Benevides. O bibliófilo José Augusto Bezerra, atual presidente, asseverou: “a Academia Cearense de Letras é a maior grife intelectual do Ceará para todo o Brasil”. Por sua vez, Pedro Henrique Saraiva Leão afirma ser a ACL “prova evidente do pioneirismo cearense no campo literário. Foi uma honra tê-la presidido”.
Para Giselda Medeiros “a comemoração dos 120 anos da ACL é o evento maior de 2014 dentro da cultura cearense”. Para Eduardo Diatahy “é um espanto estar existindo no meio da parafernália de uma cultura de espetáculo; aludo a uma instituição que visa a produção literária e preservar o seu acervo”. Já Horácio Dídimo refere que “a ACL foi o coroamento da minha formação literária, e deu a oportunidade de ver nos colegas acadêmicos a evolução da cultura cearense”.
Cid Carvalho, enfático, diz: “Além de ser a mais antiga Academia é, igualmente, a de mais longo brilho na história literária brasileira”. Ubiratan Aguiar pondera: “A vanguarda do Ceará não se fez mostrar somente pela libertação dos escravos. Mas, e principalmente, na cultura, com a criação de uma Academia local”.
Por fim, resta-me lembrar da memória de todos os acadêmicos que nos precederam nesse sonho de tornar perpétuo o conhecimento e o desenvolvimento da literatura, em todas as formas e todos os gêneros. Estamos atentos ao progresso dos costumes e das letras, mas guardamos nas nossas almas a curiosidade e o viço da descoberta que aflora em cada página em branco, escrita ou virtual, com a qual nos deparamos a cada dia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/08/2014.

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O INSONDÁVEL – Diário do Nordeste

O que a morte, esta ceifadora, nos mostra a cada vez que nos deparamos com os seus desígnios? Que somos apenas partículas de um cosmo imenso no qual não temos poder ou ingerência significativa. Não colhemos o que plantamos. Plantamos o possível para nós, mas a colheita depende de inúmeros outros fatores imponderáveis. Cada vida é uma proposta de esperança. Baruch Spinoza, filósofo holandês, já no século 17 nos dizia: “Não há esperança sem medo, nem medo sem esperança”. Plauto, comediógrafo latino, séculos antes de Cristo nascer, repetia: “O que não se espera acontece com mais frequência do que o que se espera”. É o insondável a que me refiro no título.
A pessoa humana, entretanto, por mais preparo e empenho que tenha de acertar o viver, vai para o dia seguinte às cegas. E esse dia seguinte é o hoje, o agora, aquilo que está acontecendo ou será o vir-a-ser do amanhã? Cada dia tem a sua luz, o seu vento e o tal do insondável sempre à espreita. Eles incidem de modo e forma distinta sobre os viventes. A fé nos ensina regras básicas de comportamento, mas estamos dispostos a cumpri-las? Assim, vai-se indo no barco do existir com dois remos, a esperança e a incerteza, até que a morte, alcunhada de tantos nomes, nos alcance do jeito que quer e na hora dela.
Nada de fatalismo, acredite, mas mesmo remando com aprumo, sabendo o azimute, usando o GPS possível, tomando precauções e seguindo um plano predeterminado, o casco do barco da vida pode bater em uma pedra invisível. E, parodiando o poeta, há sempre pedras no caminho.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/08/2014.

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AGOSTO A GOSTO – Jornal O Estado

“O azar não existe. Deus não joga dados”.
Albert Einstein
Será que há meses aziagos? Agosto, derivado de Augusto, o de Roma. Ao ser promovido a cônsul por suas vitórias nas guerras românicas, resolveu ter também um mês seu, de 31 dias, igual a julho, em homenagem a Júlio César. Saindo dessa história, a qual não testemunhei, juro, pergunto se agosto será o culpado por tudo o que acontece de mau conosco! No Brasil há o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, o acidente fatal com Juscelino Kubitschek, a morte de Miguel Arraes e, agora, a de seu neto,Eduardo Campos.
Primeiro vamos lembrar que Antonio Houaiss, dicionarista e, quando vivo, presidente honorário do Partido Socialista Brasileiro-PSB, exato o de Eduardo Campos, falaria algo assim sobre o acidente: acontecimento fortuito, geralmente lamentável. Depois, refiro que o atual presidente do PSB, o cearense Roberto Amaral, era amigo dileto de Houaiss. Se for inesperado, alguma coisa de errada aconteceu, mas nada a ver com o azar que se apropria, como desculpa, do acidente.
Agora, caso a caso: Vargas estava pressionado por Carlos Lacerda e se sentia isolado pelos militares em que confiava. O Palácio do Catete era e é próximo do povo e ele ouvia os comentários, murmúrios e aceitava a defesa a contragosto de seu chefe de segurança, Gregório Fortunato. Gregório era acusado de tramar o ataque da Rua Toneleros, Rio, em que matou o major Vaz,da Aeronáutica, e Lacerda saiu ferido no pé.
Lacerda fez disso um troféu no Congresso Nacional, então na Cinelândia, para dinamitar o já cansado Vargas. Lembre-se que Vargas vinha desde 1930, quando não acatou a vitória, nas urnas, de Júlio Prestes, sob a acusação de fraude e, decidido, dá um golpe de Estado e, com ajuda de militares, destrona o presidente Washington Luiz, em 14 de outubro de 1930, estabelece o fim da República Velha. Em seguida, gere o País a seu modo até 1945. Voltou, eleito, em 1951, mas trazia o peso de sua história pessoal, sofria forte oposição da União Democrática Nacional-UDN, liderada por Lacerda, e os militares não mais o protegiam. Acuado, talvez depressivo, suicidou-se na manhã de 24 de agosto de1954.
Jânio Quadros havia sido eleito presidente em campanha exótica, usando uma vassoura como símbolo para varrer a sujeira da política.Não obteve maioria do Congresso, havia condecorado Ernesto “Che” Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, e isto piorou a sua imagem, face a cara feia dos militares e os ouvidos não moucos dos Estados Unidos. Além disso, creem alguns historiadores que Quadros estava bebendo mais que o normal. Tentou, com a carta de renúncia de 25 de agosto de 1961, testar a sua popularidade e se deu mal. João Goulart, o vice-presidente, que visitava a China de Mao Tsé Tung, teve que aceitar o parlamentarismo e Tancredo Neves como primeiro-ministro, para assumir a presidência da República. O resto se sabe.
Juscelino Kubitschek não era tão fagueiro como queria demonstrar ser. Tinha amuo e amor ínvio. Não deglutira bem a sua cassação e fora constrangido a fazer, em 1966, a “aliança” com Carlos Lacerda, João Goulart e Luiz Carlos Prestes. Juntos, lançam o Manifesto da “Frente Ampla” que, logo em seguida, foi impedida pelos militares de se articular. Só Adolph Bloch, na imprensa brasileira, dava guarida a JK. Estava quase isolado. Vinha, no seu carro, de São Paulo para o Rio. Há controvérsias sobre o acidente, mas chovia e a carreta de cargas na outra pista não teve culpa se o Opala de JK atravessou o canteiro central e, na contramão, foi colhido de frente. Ele e o seu motorista Geraldo Ribeiro morreram no acidente. Aventou-se, à época que o Opala teria sido atingido, na traseira, por um ônibus da Viação Cometa, então de propriedade de João Havelange, mas nada restou provado. Era 22 de agosto de 1976.
O cearense Miguel Arraes era fumante inveterado e morreu como deputado federal, aos 88 anos, em 13 de agosto de 2005, após 59 dias de UTI, depois de governar, por três vezes, o Estado de Pernambuco. Vida longa, exílio de verdade, morte sentida, mas previsível para esse político pragmático e, quiçá, socialista utópico, talvez da Escola de Saint Simon e Fourier.
Agora, acontece a morte de Eduardo Campos, no mesmo dia 13, em acidente de avião, nove anos depois. Coincidência?!. Nada está ainda esclarecido, pois o inquérito apenas foi aberto pela Aeronáutica, acolitada pela Polícia Federal que não descarta nenhuma hipótese. A Cessna Aircraft está enviando peritos, pois foi o primeiro acidente com mortes em aviões do modelo 560 XL-Citation. O que terá acontecido? Cansaço erro da tripulação? Mau tempo? Defeito no avião por ausência de manutenção? Múltipla utilização (19 voos em 12 dias), cruzando o Brasil em todas as direções, com vários pousos e decolagem no mesmo dia? Pilotos privados são iguais a todos nós, têm insônia, sofrem o estresse da profissão e ainda a responsabilidade de conduzir um atarefado candidato a presidência da República. O tempo responderá.
Agora,você ainda vai continuar a culpar o mês de agosto, também porque um avião da Malasya Airlines, com 294 pessoas, foi derrubado por um míssil terra-ar fabricado na Rússia, em plena Crimeia, ex-Ucrânia, em meio a uma guerra não de todo aclarada?
Calma, não acredite em maldições, bruxas e azar, mas procure ver cada acontecimento em sua conjuntura específica. Creio na absolvição do mês de agosto, o mês em que vim ao mundo, exato no dia de hoje.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/08/2014

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JUCA FONTENELLE, VIÇOSALIANAS – Jornal O Estado

“A felicidade do escritor é o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, é o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento”.
Thomas Mann, escrito
alemão, 1875-1955.
Tenho uma pilha de livros, mais ou menos ordenada, para leitura e posteriores comentários. Entre esses figurava a pendência, não da leitura já feita, mas de um simples escólio, sobre a atividade literária de Juca Fontenelle, cidadão, chefe de família e professor na cidade de Viçosa, terra de Clóvis Beviláqua, na benfazeja Serra Grande. Sobre “Viçosalianas” muito já foi dito, mas destaco o que o advogado José Feliciano de Carvalho, admirador e primo do criador, escreveu na Apresentação do livro: “ …considerando o profundo apreço que sempre tive à moral e ao intelecto do encomiado autor, que foi inesquecível professor e, por isso, responsável pela minha formação cultural, nos primeiros tempos de minha vida. Neste comenos, atentei para a acuidade do autor, tanto histórica como estilística, nas crônicas e nos discursos que compunham a obra, ressaltando a pureza da linguagem e o domínio do idioma”.
Feliciano de Carvalho, por sua personalidade e bagagem cultural, tem estofo para fazer juízo de valor sobre a obra de Juca Fontenelle. Mas, nas orelhas da publicação editada pela Expressão Gráfica, 2010, há manifestações outras que endossam as palavras do apresentador. Na crônica “Quatro de Março”, Juca Fontenelle mostra, de sobejo, conhecimento da sua cidade, da história do Ceará e narra com maestria o acontecido, para os tempos de hoje, no longínquo 1935: “Foi algo tão inusitado na história de Viçosa, que passou a ser denominado simplesmente de ‘quatro de março”. E, quando se referia a isso, havia duas hipóteses, realizando-se fatalmente uma das duas, senão ambas: Uns fechavam o cenho, num ato de mal disfarçado desagrado, enquanto outros apenas dissimulavam um sorriso sarcástico. Antes que a poeira do tempo encubra tudo, vamos registrar neste livreto, um resumo dos acontecimentos desse dia. Na pacatez de Viçosa de então, corria tranquilo o Ano da Graça de 1935. Nem tão tranquilo assim, se considerarmos que era um ano eleitoral. Era então o que se costuma chamar de paz dos pântanos, isto é, pacífica é apenas a superfície, porque abaixo dela qualquer coisa, há um oceano de agitação”.
Bastaria o trecho acima para se notar a narrativa escorreita da escrita de Juca Fontenelle, mas faço questão de quase completar o fato: “Salvo engano, governava o Estado do Ceará, o Interventor Federal Felipe Moreira Lima, Oficial do Exército nomeado pelo ditador Getúlio Vargas em sucessão ao dr. Fernandes Távora, que renunciara, ante a avalanche de paixões demonstrada por correligionários que na Oposição não haviam manifestado tamanha voracidade por cargos e posições (algo como o que ocorre hoje, não é coincidência alguma…)”.
Poderia ir mais longe para destrinchar a história, que fica inconclusa, mas já deu para o leitor perceber o atilado descortino do escritor e o seu conhecimento da realidade factual de um tempo pouco lembrado pelos historiadores locais. Outro ponto que me alegrou foi a tentativa de dar ao leitor comum a oportunidade de conhecer a etimologia de algumas palavras não tão usuais na linguagem coloquial do povo. Além disso, deliciei-me com o “Dialeto Viçosaliano” em que destrincha o palavreado coloquial da terra com deformações de forma, própria dos poucos iniciados no vernáculo como alguns que Juca Fontenelle encontrou em sua longa e profícua vida. Escrever é uma arte e isso fica demonstrado nos escritos que compõem essa obra póstuma. Tomo de Pedro Nava a frase: “A memória dos que envelhecem é o elemento básico na construção da tradição familiar”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/08/2014.

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GUERRAS: 100 ANOS – Diário do Nordeste

Alinhavos: foi em 1º de agosto de 1914 a eclosão a 1ª Grande Guerra. Luta dos impérios alemão, francês, inglês, russo, austro-húngaro com a participação da Itália. A luta foi corpo a corpo, milhões de cadáveres insepultos e o fim da “Liga das Nações”. Mal refeitos, eclode a 2ª Guerra, em 1939. Aliados Inglaterra, EEUU, URSS e mais parceiros levaram seis anos, milhões de mortos, para dizimar a argúcia de Hitler só confirmada no lançamento das bombas atômicas em Nagasaki e Hiroshima. Churchill, em 27.02.1944, escreve para Josef Stalin: “Eu considero a 2ª Guerra como a guerra dos 30 anos contra os alemães”. E se Hitler tivesse ganhado? Vale pensar?
Emerge a ONU-Organização das Nações Unidas. Vitoriosos formulam nova geopolítica na Europa. Eclode a Guerra Fria até 1991, com o fim da URSS e da disputa espacial.
Nesse intervalo, houve as guerras da Coreia, do Vietnã, a invasão do Afeganistão pela Rússia, Irã e Iraque, para citar as maiores. Falta dizer das Américas com a quase invasão de Cuba pelos EEUU (1962), barrada pelos soviéticos. Proliferaram guerrilhas e eclode a ascensão militar no Brasil, na Argentina e no Chile, até meados de 1980.
Agora, agosto de 2014, pulula a eterna disputa entre palestinos e judeus; há indefinição ocidental sobre a invasão da Ucrânia e os dois jatos civis da Malásia. Damo-nos conta de que a Terra é tela exposta, podendo ser atingida por mísseis, frutos da tecnologia da informação. Enquanto isso, o Brasil prepara as Olimpíadas de 2016 e faz eleições. Quem vencerá: a mídia ou o voto?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/08/2014

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O DESENCANTO DOS JOVENS E O MUNDO DE HOJE – Jornal O Estado

“Raramente a verdade é pura, e nunca é simples”.
Oscar Wilde, escritor
inglês, 1854-1900
A edição publicada neste ano de 2014 da pesquisa “Empresa dos Sonhos dos Jovens” realizada pela Cia. de Talentos, em parceria com a NextView People, abrangeu 52 mil jovens brasileiros, com idade entre 17 e 26 anos, todos com formação em andamento. A eles foi perguntado, entre outras coisas, quais os líderes que mais admiravam no Brasil e no mundo.
O que chamou a atenção nessa enquete foi a reação negativa: 54% dos jovens responderam que não admiravam nenhuma figura pública ou empresarial. Aqui e lá fora. A maioria, portanto, não tinha – ou não enxergava – em quem se espelhar. Não viam referências positivas nas figuras que estão aí a liderar o país, os grandes negócios e o mundo que se contorce para que não corram conflitos mundiais, pois há a propagação malfazeja no Oriente Médio, com a perene disputa entre judeus e palestinos, alimentada por vendedores de armamentos de última geração.
Ao mesmo tempo, a Rússia assume, hoje, posição voluntariosa e firme pelo esforço na anexação de países – ou regiões – que deixaram de fazer parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a antiga URSS, desfeita no começo dos anos 1990. E o faz lastreada por suas reservas de petróleo e gás necessárias à Europa, à China e à Coreia do Norte. Ainda, até agora, não se falou em ideologia. O sentido da luta é hegemonia, poder, estratégia e visibilidade internacional. Além disso, há a não resposta sobre o desaparecimento de um avião comercial e, logo em seguida, o ataque por míssil terra-ar de outro avião, ambos da Malasya Airlines. Afinal, para que servem os satélites que nos vigiam a todos? Há mistério e desencanto que, certamente, influíram nas não respostas dos jovens.
O que isso quer dizer? Várias coisas. A primeira é o desencanto com as figuras centrais da política nacional, da gestão de negócios públicos aos privados. A segunda, é que faltam exemplos de boas práticas e condutas. 28.060 disseram não admiram nenhum líder. A palavra líder pressupõe alguém com características de credibilidade, entre elas, honestidade, consequência no dizer e fazer, exemplo e caráter.
No âmbito mundial, o mesmo pode ser referido dos líderes que hoje têm um aparato de segurança que os torna prisioneiros de seus próprios subordinados e os faz distantes dos que os elegeram, no caso das democracias. No caso das não democracias o que importa, no momento, é o desempenho econômico, o poderio e a propaganda daí decorrente. Posso, sou.
Não vou enumerar os nomes dos líderes que foram escolhidos pelos 46% (25.920) que optaram por opinar. E não o faço em respeito aos que, maioria (54%), reflete o desencanto da nossa juventude com uma sociedade de valores destorcidos e mutantes. A vida precisa ter um significado, uma função social e não o amontoado de escândalos, crimes por questões banais, a proliferação do uso das drogas, a banalização do sucesso mensurado pelas roupas, acessórios, veículos, casas espetaculares e viagens propagadas em alguns veículos da mídia que se especializaram em ser apenas caixas de ressonâncias de uma sociedade perdida pela ausência de valores essenciais.
É claro que cada um pode fazer o que lhe convier com o que tem, mas nada impede, entretanto, inferir que a ostentação de alguns seja apenas um tapume no vazio de suas existências ou, por outro, a euforia da conquista a que se propuseram ao longo de suas vidas. Não há como julgar o íntimo de ninguém, mas fica claro que se é preciso validação – pela exposição exagerada ao olhar do outro – daquilo que se vive, algo não está dentro dos conformes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/08/2014.

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ARIANO E NATÉRCIA – Diário do Nordeste

Depois que o jornalista Alexandrino Rocha, secretário de imprensa do primeiro governo de Miguel Arraes, sentiu o ar da liberdade, após cinco prisões pelo governo militar, resolveu voltar ao batente e o fez na sucursal da revista “Manchete”, da Bloch Editores, em Recife. Trabalhava com Fernando Luiz da Câmara Cascudo, Editor.
Juntos, Alexandrino e Fernando, resolveram criar a “Carta Econômica do Nordeste”, boletim com periodicidade semanal do acontecido no desenvolvimento da região. Escolheram-me para ser o correspondente local desse boletim, pois, à época, eu mantinha coluna sobre “Administração&Negócios”, no Correio do Ceará.
Esta introdução serve para narrar que a revista acabou anos depois e Fernando foi morar em Moçambique e lá escreveu, em 1979, o livro “Moçambique – Terra dos Traídos”. Lembro que Fernando era filho de Luiz da Câmara Cascudo, historiador, etnógrafo, folclorista, antropólogo, ensaísta e a maior figura da cultura regional, uma das fontes de inspiração de Ariano Suassuna. Para, em seguida, dar cursoà carreira gloriosa sobre a qual todos já falaram.
Umanoite, Natércia Campos, pediu-me que fôssemos ao Theatro José de Alencar ouvir palestra do Ariano. O cumprimentamos, sentamos na primeira fila. Ele com a camisa vermelha, calça e casaco pretos. Aula. Esqueci-me, todavia, de contar a ela o ora relatado a vocês logo acima. Natércia, em 2001,organizou o livro “Alpendres de Acauã”, do seu amigo Osvaldo Lamartine, seguidor de Cascudo, com aval de Virgílio Maia e Côca Torquato, discípulos de Ariano.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2014

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A INVEJA, MAIS UMA VERSÃO E ALGUNS PALPITES – Jornal O Estado

A psicanalista Anna Veronica Mautner, em artigo publicado semana passada na Folha, sob o nome “Inveja, um pecado capital” diz: ‘Hoje a inveja funciona quase como um motor da ação.’ “Por que não tenho? Não tenho por que não quero o suficiente, com a força necessária”. E fala mais: “Quem inveja é porque quer o que não tem. Por que uns e outros, não? O mundo é assim.”
Você, caro(a) leitor(a) como se sente? A inveja passa longe de você? Vivemos em um mundo em que os valores das pessoas podem deixar crer que são os bens que elas possuem que as fazem invejadas. Se forem esses os seus únicos valores, pobres delas, mesmo que muito tenham e alardeiem para deixar bem claro quem são no mundo da aparência ou do interesse. O pintor Salvador Dali, no auge da fama, por ele próprio estimulada, com sua vida tão surreal quanto suas pinturas, ousou dizer: “O termômetro do sucesso é apenas a inveja dos descontentes”. Ele parecia ter ouvido o que falava o escritor Oscar Wilde, tão sofrido com sua vida pessoal exposta e julgada: “O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades”.
Mautner insiste: “E por que será que falamos tão pouco da inveja quando ela ocupa tanto espaço na nossa vida? Uma resposta plausível é que a gente prefere não pensar na nossa relação com os pecados que cometemos frequentemente”. Estranho que uma psicanalista fale de pecado como sentimento de culpa por algo que desejamos e não temos. Eu substituiria a palavra pecado por erro ou falha de caráter. O pecado pressupõe a crença em uma divindade maior que absolve ou culpa. Enfim, julga. O erro faz parte da humanidade e é, algumas vezes, desenho do aprendizado. Erro porque sou humano, e essa foi a forma que encontrei para aprender e não para invejar o outro.
Moderna, Anna fala que “a tecnologia parece atender a vontade infinita que temos de ser invejados. Estou em uma festa, em um restaurante e espalho isso para o meu mundo virtual. Basta ser meu amigo no Facebook para eu alcançá-lo”. Será que estaremos felizes apenas por mostrar as nossas companhias, os lugares que frequentamos, a estética das mesas de que participamos?
Creio que admitir que alguém tenha inveja de outro a partir de registro fotográfico ou de uma gravação amadora é presunção egoísta e de efeito relâmpago. Apaga-se o flash, desliga-se a câmera e o ambiente charmoso fica a espera do olho do outro, daquele que não está a participar do festim que tornou alguém exposto de forma infantil e nada sutil.
Ariano Suassuna, no jeito peculiar dele, fala sobre a morte – como o fim da inveja – no “Auto da Compadecida” e mostra que invejosos e invejados morrem. Leiam-no: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo que é vivo, morre”.
A própria Bíblia dá muita atenção ao tema inveja. Dois exemplos. Gálatas 5:26: “Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros”. Por sua vez, em Tiago 3:15 está dito: “Mas se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica”.
Nessa história ou estória de inveja é preciso saber a quantas anda a autoestima das pessoas. Essa que oscila como os mares e as fases da lua e não nos assegura que o olho do outro fique de acordo com o que a nossa vaidade quer que ele enxergue, perceba, veja e, enfim, inveje. Mas, se alguém precisa da inveja do outro para se afirmar como um ser maior, estará, a cada passo, diminuindo a sua estatura como refém do olhar de outrem, muitas vezes perdido em suas próprias angústias e incapaz de, sequer, notar o outro. Alguém que não seja ele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/08/2014

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O MÍSSIL E O MHI 17 – Diário do Nordeste

A derrubada do voo MHI17, da Malasya Airlines, por míssil terra-ar, semana passada, levou-me a pensar quando e como a União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas – URSS, pujante na guerra fria com os EEUU, deixou de ser a grande dona de imenso território da Eurásia. No segundo semestre de 1991, Michail Gorbatchev e Boris Yeltsin empreenderam luta violenta pelo poder. Tudo está no livro “Boris Yeltsin – Biografia Política”, escrito por Vladimir Solovyon e Elena Klepikova, escritores russos residentes nos Estados Unidos. A versão em português é da Rocco, 1993.
Encontrei o livro em meio à bagunça das minhas estantes. A capa tem a foto de Yeltsin com a mão direita sobre a esquerda (seria um sinal?) e o seu olhar triste emoldura a cabeleira branca. Em 3 de maio de 1991, o Pravda, jornal soviético, colocava Yeltsin como o principal opositor de Gorbatchev. Os acontecimentos de 19 a 21 de agosto de 1991 foram até o fim do ano, decretavam o fim da URSS e o surgimento da Rússia. Perestroika e Glasnot.
Reli o livro e não vi nome de Vladimir Putin, atual dirigente da Rússia e confrontador da Ucrânia, nação tornada independente. Com a nova Rússia abrolhou uma economia de mercado com rápidas fortunas. Hoje, com o risco de sanções dos EEUU e Europa, bilionários russos estão temerosos com a posição de Putin na Ucrânia. A Rússia vive o dilema da alta popularidade (87%) de Putin com a anexação da Crimeia. Volto ao voo MH17 e me pergunto o que justifica o disparo desse míssil. O que fizeram as 298 pessoas para serem alvos de tanta estupidez? No que isso vai dar?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/07/2014