“O azar não existe. Deus não joga dados”.
Albert Einstein
Será que há meses aziagos? Agosto, derivado de Augusto, o de Roma. Ao ser promovido a cônsul por suas vitórias nas guerras românicas, resolveu ter também um mês seu, de 31 dias, igual a julho, em homenagem a Júlio César. Saindo dessa história, a qual não testemunhei, juro, pergunto se agosto será o culpado por tudo o que acontece de mau conosco! No Brasil há o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, o acidente fatal com Juscelino Kubitschek, a morte de Miguel Arraes e, agora, a de seu neto,Eduardo Campos.
Primeiro vamos lembrar que Antonio Houaiss, dicionarista e, quando vivo, presidente honorário do Partido Socialista Brasileiro-PSB, exato o de Eduardo Campos, falaria algo assim sobre o acidente: acontecimento fortuito, geralmente lamentável. Depois, refiro que o atual presidente do PSB, o cearense Roberto Amaral, era amigo dileto de Houaiss. Se for inesperado, alguma coisa de errada aconteceu, mas nada a ver com o azar que se apropria, como desculpa, do acidente.
Agora, caso a caso: Vargas estava pressionado por Carlos Lacerda e se sentia isolado pelos militares em que confiava. O Palácio do Catete era e é próximo do povo e ele ouvia os comentários, murmúrios e aceitava a defesa a contragosto de seu chefe de segurança, Gregório Fortunato. Gregório era acusado de tramar o ataque da Rua Toneleros, Rio, em que matou o major Vaz,da Aeronáutica, e Lacerda saiu ferido no pé.
Lacerda fez disso um troféu no Congresso Nacional, então na Cinelândia, para dinamitar o já cansado Vargas. Lembre-se que Vargas vinha desde 1930, quando não acatou a vitória, nas urnas, de Júlio Prestes, sob a acusação de fraude e, decidido, dá um golpe de Estado e, com ajuda de militares, destrona o presidente Washington Luiz, em 14 de outubro de 1930, estabelece o fim da República Velha. Em seguida, gere o País a seu modo até 1945. Voltou, eleito, em 1951, mas trazia o peso de sua história pessoal, sofria forte oposição da União Democrática Nacional-UDN, liderada por Lacerda, e os militares não mais o protegiam. Acuado, talvez depressivo, suicidou-se na manhã de 24 de agosto de1954.
Jânio Quadros havia sido eleito presidente em campanha exótica, usando uma vassoura como símbolo para varrer a sujeira da política.Não obteve maioria do Congresso, havia condecorado Ernesto “Che” Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, e isto piorou a sua imagem, face a cara feia dos militares e os ouvidos não moucos dos Estados Unidos. Além disso, creem alguns historiadores que Quadros estava bebendo mais que o normal. Tentou, com a carta de renúncia de 25 de agosto de 1961, testar a sua popularidade e se deu mal. João Goulart, o vice-presidente, que visitava a China de Mao Tsé Tung, teve que aceitar o parlamentarismo e Tancredo Neves como primeiro-ministro, para assumir a presidência da República. O resto se sabe.
Juscelino Kubitschek não era tão fagueiro como queria demonstrar ser. Tinha amuo e amor ínvio. Não deglutira bem a sua cassação e fora constrangido a fazer, em 1966, a “aliança” com Carlos Lacerda, João Goulart e Luiz Carlos Prestes. Juntos, lançam o Manifesto da “Frente Ampla” que, logo em seguida, foi impedida pelos militares de se articular. Só Adolph Bloch, na imprensa brasileira, dava guarida a JK. Estava quase isolado. Vinha, no seu carro, de São Paulo para o Rio. Há controvérsias sobre o acidente, mas chovia e a carreta de cargas na outra pista não teve culpa se o Opala de JK atravessou o canteiro central e, na contramão, foi colhido de frente. Ele e o seu motorista Geraldo Ribeiro morreram no acidente. Aventou-se, à época que o Opala teria sido atingido, na traseira, por um ônibus da Viação Cometa, então de propriedade de João Havelange, mas nada restou provado. Era 22 de agosto de 1976.
O cearense Miguel Arraes era fumante inveterado e morreu como deputado federal, aos 88 anos, em 13 de agosto de 2005, após 59 dias de UTI, depois de governar, por três vezes, o Estado de Pernambuco. Vida longa, exílio de verdade, morte sentida, mas previsível para esse político pragmático e, quiçá, socialista utópico, talvez da Escola de Saint Simon e Fourier.
Agora, acontece a morte de Eduardo Campos, no mesmo dia 13, em acidente de avião, nove anos depois. Coincidência?!. Nada está ainda esclarecido, pois o inquérito apenas foi aberto pela Aeronáutica, acolitada pela Polícia Federal que não descarta nenhuma hipótese. A Cessna Aircraft está enviando peritos, pois foi o primeiro acidente com mortes em aviões do modelo 560 XL-Citation. O que terá acontecido? Cansaço erro da tripulação? Mau tempo? Defeito no avião por ausência de manutenção? Múltipla utilização (19 voos em 12 dias), cruzando o Brasil em todas as direções, com vários pousos e decolagem no mesmo dia? Pilotos privados são iguais a todos nós, têm insônia, sofrem o estresse da profissão e ainda a responsabilidade de conduzir um atarefado candidato a presidência da República. O tempo responderá.
Agora,você ainda vai continuar a culpar o mês de agosto, também porque um avião da Malasya Airlines, com 294 pessoas, foi derrubado por um míssil terra-ar fabricado na Rússia, em plena Crimeia, ex-Ucrânia, em meio a uma guerra não de todo aclarada?
Calma, não acredite em maldições, bruxas e azar, mas procure ver cada acontecimento em sua conjuntura específica. Creio na absolvição do mês de agosto, o mês em que vim ao mundo, exato no dia de hoje.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/08/2014