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CEARÁ E FORTALEZA UNIDOS? – Jornal O Estado

Agora, retomamos o caminho do sonho e o começamos por nosso Estado com a perspectiva de subida nos rankings de série na tão controvertida Confederação Brasileira de Futebol. Tivemos a coragem de, pela terceira vez, trazer, logo após a hecatombe, o “Ceará” e o “Fortaleza” para uma exposição pacífica.
O símbolo da exposição é uma pomba com uma asa tricolor e outra preta e branca. Cada um dos dois querendo mostrar-se mais. Melhor para todos. O hoje dito centenário Ceará Sporting Clube e o Fortaleza Esporte Clube, os maiores e mais antigos rivais – desde o tempo da bola de pito – no campo do Prado, no Presidente Vargas e no Castelão, estão agora juntos até domingo, dia 27. Das 10 às 22 horas. A entrada é gratuita.
Pedimos às duas diretorias que mostrassem as suas origens, suas glórias, suas camisas, suas taças, suas fotos e as cronologias de suas histórias que, quer queiram ou não, correm paralelas e têm efeito sinergético. O Vovô só cresce em rendas se Leão estiver bem das pernas. E vice-versa. O Ceará trouxe o atleta Magno Alves com bola autografada. O Fortaleza lançou o livro “Fortaleza, História, Tradição e Glória”, editado pelo Armazém da Cultura, de Airton de Farias e Vagner de Farias. Houve chutes a gol. É festa. Quem quiser vir olhar, chegue alegre, prazenteiro, curioso e vá comparando os dois clubes. Não precisa alardear o que a sua mente armazenou, mas cumprimente a pessoa que está ao lado, mesmo que as cores da sua camisa sejam distintas da dela.
O que estamos fazendo, pós-Copa do Mundo, é comemorar o Dia do Torcedor Brasileiro, acontecido no 19 passado. Mostramos ao mundo, ao vivo nos estádios e por todas as mídias, como é saber torcer, cantar, rir e chorar, com amor próprio. Agora, estamos rejuntando os cacos e fazendo juras com os deuses do futebol. Eles estão, por ora, no continente europeu, mas vão voltar, tenho certeza.
É hora de trazer cada torcedor para a nossa realidade. O planeta não acabou, os dias continuam com 24 horas e a alegria permanece na face de quem é acostumado a driblar as dificuldades da vida e a fazer gol a cada mês. Ceará e Fortaleza precisam subir de série. Torçamos para que aconteça neste ano. Vibre por seu clube, mas respeite o adversário. Assine o livro de presenças e, se quiser, deixe as suas impressões. Obrigado pela presença. Você é importante para nós. O futebol não é guerra. É um acontecimento esportivo, sem necessidade de tanta pompa e circunstância em que um perde, outro ganha para zoar os da diferente turma nos bares e botecos, nos locais de trabalho, nas famílias e até nos templos. Lembrem-se que o papa Francisco, com ligação direta com Deus, o máximo que conseguiu foi um segundo lugar para a Argentina.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/07/2014

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MENINOS E O “EL NIÑO” – Diário do Nordeste

Quem, brasileiro, não há remoído sobre o que nos aconteceu nos últimos dias? Quem não foi abordado sobre palpites, legados e, pouco a pouco, viu a euforia coletiva, quase histeria, e o “imprevisto” desapontamento, arquivar o bom humor e fazer-se crítico de tudo e de todos?
Desafio a qualquer brasileiro, salvo os cronistas esportivos, para citar todos os clubes onde atuam no exterior os atletas da seleção. De heróis a meninos chorões atarantados, não veem mais a bola como objeto lúdico, mas como afirmação de elevados salários, premiações e privilégios. Extra pauta: houve até o caso patético de seleção africana querendo receber, em “dinheiro”, o acertado. Um jato chega e a sanha se extingue.
O endeusamento de Neymar Jr., ilustrando a existência do Neymar, o pai, seu empresário, passa do censo comum. O seu namoro com jovem artista de televisão vira conto de fadas com fofocas. Por outro lado, não li qual seria o valor da premiação de cada atleta.
Além disso, como mercadoria (ou commodities, na linguagem econômica), eles vivem numa bolsa de valores, oscilando em múltiplos contratos por desempenhos. A ida de Neymar para o jogo, no banco, contra a Holanda não seria apenas para solidarizar-se com os companheiros, mas, quiçá, sugerir que não participava do colapso.
A seleção não conseguiu sequer jogar no “novo” Maracanã, onde a honra perdida em 1950 seria lavada e todos sairiam alegres para este fim de ano, com o “El Niño” a ameaçar com estiagem em 2015 no Nordeste, cem anos depois da seca que colocou a jovem Rachel de Queiroz na literatura brasileira.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2014.

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PROTAGONISMO, HOJE – Jornal O Estado

O Brasil assumiu, desde o início deste século, uma posição de protagonista. Palavra de origem latina (proto: primeiro, principal; agonista: lutador, competidor) que, em linhas gerais, significa ser o dono do seu próprio destino, não se deixar levar a reboque de outrem. Na cinematografia é o ator principal. Na vida real, há muitos protagonistas, sejam pessoas, empresas, governantes, países, grupo de países e blocos econômicos. O que se viu no governo Lula foi uma ação intensiva de divulgação do Brasil, e o jeito sem cerimônia do então presidente da República de viajar, intensamente, ao redor do mundo, para dizer que estávamos preparados para a luta ingente de ser considerado um novo protagonista no concerto das nações.
Segunda-feira, passada, lua cheia, em cenário armado, no interior do Parque do Cocó, um país inovou ao se mostrar protagonista, não apenas com a presença, em Fortaleza, de Xi Jimping, nome ocidentalizado do líder atual da República da China, que veio para o 6º Encontro do Brics, entidade ainda não institucionalizada que, como sabem, reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, países de culturas díspares e que veem a necessidade de formar um bloco multilateral para, em sinergia, propiciar aumento das suas relações de negócios e firmarem posição como protagonistas da história do século 21. De início sedimentam acordo para a criação de um banco de desenvolvimento.
Não é sobre o Brics que desejo falar,mas da forma singular como a China vem se mostrando ao ocidente, além da expansão da sua indústria e da consequente exportação, mas através da divulgação de sua cultura ancestral e contemporânea, na arte e na música. A China trouxe uma orquestra da província de Zhe Jiang, na sua costa Leste, composta de 78 integrantes com um “Concerto de Sinfonia”, e escolheu repertório diversificado para o grande público que ali compareceu de forma descontraída, sentando-se no gramado, ouvindo de forma respeitosa o que, grande parte, talvez nem entendesse.
Ao fim e ao cabo de mais de uma hora de concerto, seguindo um programa preestabelecido que incluía músicas chinesas, romenas e alemãs, com destaque para a composição do 4º andamento da Quarta Sinfonia do russo Tchaikovsky, a orquestra foi ovacionada de pé. O maestro Iu Hai, sempre sorridente, retomou a batuta e foi em frente, com músicas extra pauta, inclusive brasileiras, para alegria de crianças que, soltas, rolavam no declive verde sob os olhos complacentes de seus pais.
Essa celebração faz parte do 40º aniversário das relações diplomáticas entre China e Brasil, e se repetiu, na noite de ontem, em Brasília. Como se vê, de forma diferente, os chineses adaptaram a política de boa vizinhança praticada pelos EEUU no curso da 2ª Guerra Mundial e no pós-guerra, com uma diferença: a distância imensa que nos separa desse novo protagonista que se espalha pelo mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/07/2014.

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BRICS, AMANHÃ – Diário do Nordeste

Amanhã, em Fortaleza, acontece encontro dos países do acrônimo BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Será, quiçá, um novo 14 de julho na história. Em 1789, com a queda da Bastilha, houve o fim da monarquia francesa e a ascensão do Iluminismo. Agora, os cinco países, partem da vontade de encontrar respostas para problemas, interesses (criação de um banco) e oportunidades comuns. Têm estágios díspares de crescimento.
A Índia, 1,2 bilhão de gentes. É forte em tecnologia da informação, as cidades se modernizam e há um polo cinematográfico, o “Bollywood”. Porém, subsistem atividades escravocratas: 1,3 milhão são catadoras de excrementos humanos. Limpam buracos no chão e o que 178 mil trens espalham pelo País.
A China que conheço tem inúmeras avenidas paulistas, mega indústrias, e milhares de favelas planas, similares às nossas. É a segunda economia mundial e precisa alimentar 1,3 bilhão. Parte do povo, pela idade ou carências estruturais, destoa da febre de crescimento que hoje resplandece. E não para.
A Rússia de Putin deseja uma nova URSS com etnias e línguas distintas. Foi fulgente nas viagens espaciais e dura na Guerra Fria. Hoje, obstinada, desafia o ocidente, fornece gás e petróleo para a China e a Coreia do Norte. Dá mostras de voluntarismo sem ideologia clara.
A África do Sul, órfã de Mandela, livre de colonizadores, ensaia progresso, mas não se consolidou politicamente e tampouco diminuiu a pobreza, fruto do Apartheid. Cresce industrialmente.
O Brasil é o anfitrião.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/07/2014.

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O TEMPO – DE 1958 A 2014, NA MINHA VERSÃO – Jornal O Estado

Comecei a me entender como gente no final dos anos 50. Em 1958, nos “gélidos campos da Suécia”, pleno verão europeu, a seleção de futebol do país Brasil ganhou a Copa. Fui até à Praça do Ferreira, então centro da cidade. Alegria geral. Nos dias seguintes, estudo e trabalho normais. Elvis Presley passou batido na minha vida. Claro que entrei os anos 60 sabendo da juventude transviada e sequer, cogitei comprar um disco de Roberto Carlos, Erasmo e Chico Buarque, este último, excelente letrista e péssimo cantor. Vi filmes de Marlon Brando, James Dean, e teatro com Cacilda Becker e Bibi Ferreira. Boris Pasternak, russo, ganha o Nobel de Literatura e Parsifal Barroso é eleito governador do Ceará. Há seca no Nordeste.
Estamos em 62, a seleção, novamente, representa o Brasil e volta bicampeã no inverno chileno, não detectado pelos locutores esportivos, ao pé dos Andes. Todos vibram e Maluf, ainda hoje na política, dá um carro a cada herói, com dinheiro público. A televisão brasileira é ainda comandada pelos Diários Associados. Inebrio-me com Fernando Pessoa, admiro a “nouvelle vague” e o casamento aberto dos existencialistas Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir.
Começo a escrever no Correio do Ceará a coluna “Informes Acadêmicos”. Após plebiscito, surge o parlamentarismo. Tancredo Neves, como primeiro ministro, para suavizar João Goulart, o presidente que os militares não aceitavam. A política universitária elege-me deputado do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, da Faculdade de Direito da UFC, ao aderir ao sistema vigente. O Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes – UNE, viaja pelo Brasil e eu participo do Congresso Nacional dos Estudantes, em Petrópolis, Hotel Quitandinha. Recepciono, acidentalmente, Augusto Frederico Schmidt, que chegou em um Aero-Willys preto, para dar palestra. O Congresso vira bagunça com pó de mico em todos os cantos e até tiros acontecem. John Steinbeck, americano, recebe o Nobel de Literatura. Virgílio Távora é eleito governador. “A União pelo Ceará” conseguiu unir adversários políticos.
Pulo para 1970, regime militar. O cônsul japonês Nobio Otkindo é sequestrado e trocado por cinco presos políticos. Tempos de chumbo. No final de junho, toda a então Confederação Brasileira de Desportos, o sonolento técnico Vicente Feola e os atletas chegam a Brasília, vindos do México, comandados por Pelé, Garrincha, filho de alagoanos, e os demais. Juntos com o general Ernesto Garrastazu Médici, erguem a Taça de Campeão. O Brasil ia para o 3º título de futebol e os que não estivessem satisfeitos optavam em deixar o país. Já formado, com firma recém-montada, sofro com a perda, em acidente de carro, do que viria a ser – e não foi – o meu único filho homem. Caixão de anjo sob o braço vou deixá-lo no São João Batista, enquanto o país entrava no que viria a ser o milagre brasileiro. Houve outro sequestro de diplomata e Raul Seixas, acolitado por Paulo Coelho- que ainda não havia descoberto a sua verve literária-, Gilberto Gil, Caetano e Gal Costa embalavam, com metáforas, o sonho dos amantes da “cannabis sativa”. O escritor Alexander Soljenítsin, dissidente russo, ganha o prêmio Nobel de Literatura e diz algo como: “tudo o que acontece é porque os homens não acreditam em Deus”.
Aí chega 1994. Já tenho quatro filhas, os negócios ganham corpo e continuo a ser um teimoso “outsider”. Misturo trabalho com a escrita semanal em jornal, enquanto o mineiro Itamar Franco, em face do impedimento de Fernando Collor, governa o Brasil e prepara o Plano Real, com a ajuda de Ciro Gomes. Após 24 anos, surge a quarta estrela na camisa da seleção de futebol, com o excelente desempenho de Romário, hoje deputado federal, e em disputa para a senatória do Rio de Janeiro. No Ceará, Tasso Jereissati é eleito governador. O ainda hoje desconhecido, pelo menos para mim, o escritor japonês Kenzaburo Oe, ganha o prêmio Nobel de Literatura.
Chego a 2002. Coreia do Sul e Japão se unem, no continente asiático, para patrocinar a Copa do Mundo que foi vencida pelo Brasil com destaque para Ronaldo, que já havia sido Ronaldinho, passou a Fenômeno e hoje mora bem em Londres como Ronaldo Nazário. Era a quinta estrela, a taça e a tropa chegam a Brasília e ali foi levantada por Cafu, o capitão do time, ao lado de Fernando Henrique Cardoso, o presidente da República. Em seguida, veio a eleição e o líder sindicalista e candidato do Partido dos Trabalhadores Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente. Já tenho três netas e me reinvento como mercador, para potencializar, desde 1999, um centro comercial no então esvaziado bairro do Benfica. Já escrevi três livros, pertenço à Academia Fortalezense de Letras e continuo na faina da escrita semanal para o Diário do Nordeste. Lúcio Alcântara é eleito governador do Ceará e o escritor Imre Kertz, húngaro, recebe a láurea do Nobel de Literatura.
Ia escrever sobre 2014, mas este relato se torna longo, uma cefaleia me incomoda e o jornal cobra a matéria. Ponto Final.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/07/2014.

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HOJE, HOY, SEXTA-FEIRA, VIERNES, VÊNUS E A FAVELA – Jornal O Estado

Hoje, sexta-feira, 04 de julho, é feriado nos EEUU. A América para hoje. Os americanos, além de bandeiras hasteadas pela Independência deles, estarão de olho no jogo entre o Brasil e a Colômbia. Especialmente, os 40 milhões de latinos que vivem da Flórida à Califórnia. Lembre-se que foi o genovês Cristóvão Colombo o descobridor de parte das terras hoje chamadas de Estados Unidos da América do Norte. Colombo originou Colômbia. Entretanto, Gisele Bündchen, brasileira longilínea, mora por lá, é casada com um jogador de futebol americano, não o nosso “soccer”, mas torce pelo Brasil com suas roupas estilosas. Shaquira, cantora colombiana que se mandou para fazer a América, também é ídolo por lá, mas encantou-se por um jogador espanhol que anda de mau humor. “Mala suerte”.
O fato é: hoje é sexta-feira que, segundo Nelson Rodrigues, “é o dia em que a virtude prevarica”. Então, esperemos o entardecer, hora em que Vênus, a deusa do amor e da beleza dirá por quem torcerá. A nossa sexta-feira é “viernes”, em espanhol, homenageando Vênus, mas é também dia de Afrodite, na mitologia grega, deusa do afeto e da formosura. E como os brasileiros e as brasileiras, como dizia Sarney, se acham bonitos e formosos, vamos ver se Afrodite nos vê com bons olhos. Recordo que Luís de Camões, no “Os Lusíadas” mostra Vênus como a grande apoiadora dos heróis portugueses. Vasco da Gama à frente. E Vênus tinha a ajuda de Marte, o deus da Guerra. Ora, nós somos descendentes, entre outros, de portugueses. Não há como Vênus e Marte não estarem do nosso lado.
Nas famosas mídias sociais, que chamo de antissociais, há uma musiquinha feita agora pelos conterrâneos de Gabriel García Márquez, que morreu em uma quinta, em que cantam ser hoje “o dia da morte de Neymar”, referindo-se a vitória deles no nosso Castelão. Voltando aos Lusíadas, há o canto dedicado ao “Velho do Restelo”. Nele, são chamados de vaidosos aqueles que, por cobiça ou ânsia de glória, se lançam em aventuras ultramarinas. Não seria o caso simbolista da “da morte de Neymar”?
Nós não queremos que ninguém morra. Que todos saiam felizes, inclusive Neymar e James Rodriguez, sem falar em Felipão, com sua cara de dono de churrascaria do interior dos pampas. Até a psicóloga Regina Brandão, com sobrancelhas arqueadas por algum aditivo químico, foi chamada para falar com os meninos-chorões que ganham milhões e deveriam ser mais corajosos. Ela, Regina, disse (FSP, 02.07. D11): “A psicologia do esporte tem a sua metodologia científica, não é autoajuda, com palestrinhas antes dos jogos. Há toda uma contextualização dos atletas, do grupo, do momento, que é levada em conta”. Será que os jogadores sabem o que é “contextualização” e vão seguir a sua “metodologia científica”, em meio às caneladas do jogo? Talvez um cantor de pagode ou samba de raiz desse mais energia.
Agora, em Fortaleza, do grande hotel em que estão hospedados, os jogadores poderão olhar pelas janelas envidraçadas e ver uma favela pequena, com meninos vadios, em um dos poucos morrinhos da cidade. O “Morro do Ouro” está engalanado com as cores verde-amarela e é provável que levem os atletas a pensar e a lembrar dos seus sonhos de crianças humildes. Recado para todos, do Júlio César ao Hulk, passando por Neymar: não se deixem embalar pelo luxo do centro de treinamento de Teresópolis, a empáfia ensinada por agenciadores, o orgulho e a segregação imposta pela segurança em aviões especiais e ônibus de vidros escurecidos, com seguranças em zig-zig. Vocês são povo. Pisem o chão da realidade. O povo luta, enfrenta obstáculos e, quase sempre, vence. Vocês sabem disso. Mostrem quem são. Com certificado de origem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2014

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O IDOSO NO BRASIL – Diário do Nordeste

No Brasil, a pessoa com mais de 60 anos é idosa. Hoje, 12,6% da população é idosa, segundo recente Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD). São 25 milhões de pessoas. Sinal que estamos vivendo mais.
Entretanto, o idoso brasileiro vem aturando desatenções e violências: 37,1% sofrem por negligência do Estado e/ou da família; 27,6% reclamam de violência psicológica; 21,3% padecem de abuso financeiro; e 13,6% passam por violência física. Messias era aposentado. Seu enteado o obrigou, depois de surras, a assinar procuração para que ele recebesse a sua minguada pensão do INSS. Eu interferi. Sofreu até morrer. A polícia não gosta de briga de família. Se pobre, então…
O Estatuto do Idoso sugere a proteção do Estado, mas a família é a maior geradora de abusos psicológicos e físicos. Os especialistas sabem que o Disque 100 – para denúncias – é usado, mas muitos têm medo de dar o nome com medo de represálias de parentes.
Por outro lado, os tais créditos consignados, criados para beneficiar idosos a juros baixos, foram abertos apenas para alguns bancos que se empanturraram de dinheiro.
Depois, mudou. Mas quase nenhum banco respeita o limite de juros a 2,1% ao mês. Há a “obrigação” de taxas e seguros desnecessários, pois são vinculados às fontes pagadoras, sem risco. Assim, os idosos iletrados viram presas fáceis, e muitos são induzidos por familiares a fazer mais empréstimos, em bancos diferentes.
Os bancos não conferem o endividamento anterior. E haja confusão. Leram, Aécio, Dilma e Eduardo?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/06/2014

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FIM DE JUNHO, FOUCAULT, 13 DE JULHO E ELEIÇÕES – Jornal O Estado

Neste junho já quase entregue a julho, que dirá, no dia 13, quem será o país campeão no mundo do futebol, ecoa em mim a análise de Vladimir Safatle, professor de filosofia da Universidade de São Paulo, esquerdista assumido, no artigo “A era da suspeita” (Folha, 24.06.2014). Ele escreveu, entre outros, o livro “A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu nome”, em 2012.
Todos nós, os que escrevem, os que leem, os que não abrem um livro, os que governam, os governados e os candidatos, estamos sob suspeita eterna. Para Safatle, Michel Foucault – filósofo francês morto há 30 anos- “conseguiu produzir dois feitos notáveis: complexificar nossa compreensão a respeito dos mecanismos de funcionamento do poder, e injetar uma desconfiança profunda a respeito do pretenso realismo de conceitos e práticas científicas, em especial no campo das ciências humanas e das práticas clínicas”.
Mais à frente, Safatle escreve: “Foi Foucault quem mostrou, de maneira mais sistemática, que nada entendemos do poder enquanto o pensarmos a partir da temática da dominação das vontades, ou seja, o exercício do poder como sobreposição de uma vontade a outra”.
Além do futebol e de Foucault, há um jogo mais complexo sendo tentado nos campos experimentados da política nua e crua que vai decidir, em outubro, quem dirigirá o Brasil nos próximos quatro anos. Estarão Dilma, Aécio e Eduardo fazendo coligações em função do bem do Estado ou pela mera necessidade de manter/atingir o poder?
Essa, embora não dita, parece ser a tal suspeita, da era em que vivemos. Safatle, talvez de forma reducionista, conclui, a partir de Foucault, que “dessa forma, nasce uma experiência filosófica na qual epistemologia, ética e teoria social caminham de forma compacta”.
Sei não, mas penso que os sensores dos faros políticos de Lula; os do pragmatismo de sobrevivência do PMDB; os dos “sonháticos” de Marina Silva associada, forçosamente, ao experimentalismo de Eduardo Campos; os da ressuscitação tancredista- o Presidente que foi, sem ser – café-com-leite de Aécio Neves, não são uma experiência filosófica, mas a prática política consagrada, quiçá uma “teoria social”, que refinou, talvez até de forma inconsciente, o pensamento de Maquiavel, passou longe de Foucault e está associado a todas as formas concebíveis de marketing político, sem a basilar preocupação com a filosofia, a epistemologia e a ética.
Concordo com a suspeita, mas não sei qual a saída filosófica ou até psicanalítica, seja ela lacaniana, luliana, renaniana, sarneyana, pezaniana, alckiminiana, dilmiana, aeciana, eduardiana ou até malufiana. A “práxis” política brasileira faz o ministro Gilberto Carvalho dialogar com membros dos “black blocs” sem que a mídia soubesse, e só depois, ser o fato revelado pelo próprio Carvalho ao dizer que tudo deu em nada.
O que virá a ser a partir de 14 de julho, a troca da torcida – ufanista ou desapontada – pela militância genuína, engajada, condicionada ou remunerada? Estamos no limiar de uma verdade esportiva que sairá dos campos com dimensões fixas, jogadores afinados, técnicos atentos, cenários ricos, programação dogmática, lucros auferidos, segurança máxima e públicos de etnias, posturas, desejos e danças diferentes.
No dia 14 de julho, uma segunda-feira que tentará ser não uma queda da Bastilha à brasileira, mas o ponto dentro da curva, o caminho do Oiapoque ao Chuí, do bolsa-família aos jardins paulistas, levando-nos a somar tudo o já ganho e festejado nos últimos vinte anos, ao que nos falta, desde sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2014

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LEGADO E EDUCAÇÃO – Diário do Nordeste

A mídia brasileira tem cobrado o legado ao se referir a projetos de infraestrutura nas cidades. A palavra não parece apropriada, pois originária do latim (legatus) com o significado de alguém, o Legado, nomeado pela classe senatorial (legatária) para um posto oficial. Em sentido geral, seria o equivalente a general ou chefe de uma urbe. Como quer a mídia, poder-se-ia dizer que o Império Romano deixou vários legados, especialmente o cultural, imaterial que seja.
Essa palavra da moda é, na realidade, a disposição feita por alguém em testamento. Fulano lega, por escrito, para benefício de Sicrano. Ela é usada para os que atuam na área do direito das sucessões.
Todavia, o maior legado – no sentido da mídia – que qualquer governante pode deixar é chegar perto de zero em analfabetismo. Só 15% dos estudantes são de escolas particulares, 85% frequentam escolas públicas. Há 3,6 milhões de jovens entre 4 e 17 anos que não estudam. A qualidade de parte da escola pública é baixa e muitos a cursam apenas por conta da alimentação recebida.
Segundo o Inep, 1,5 milhões de jovens abandonaram os estudos em 2011. Após a Copa, virão as eleições com os prévios planos dos candidatos a governadores e à Presidência da República.
O Brasil precisa cuidar de múltiplas e complexas questões, mas sem aprendizado eficaz não se pode exercer a cidadania plena e diminuir a desigualdade. O maior legado será apagar a triste mancha da carência e da qualidade da educação. Não há país desenvolvido com iletrados. Educar alguém é torná-lo apto a discernir.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2014

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HOJE, SEXTA-FEIRA, às 17 HORAS, NÃO DEIXE DE CONHECER O TATU- BOLA (o verdadeiro) – Jornal O Estado

“Faça da vida um jogo de futebol: chute as tristezas, drible as dificuldades e marque gols de alegria”. Augusto Branco, pensador brasileiro.
Engajei-me no processo de criação do Dicionário Português-Alemão sobre Futebol por várias razões. Posso elencar algumas delas. A ideia partiu de Ingrid Schwamborn, historiadora, casada com o professor Friedhem Helm Schwamborn, que nos anos 70 como leitor do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) e depois, como diretor da mesma entidade no Rio de Janeiro e em Bonn, sempre apoiou a parceria da Universidade Federal do Ceará com as universidades de Bonn e Colônia. Ele dirigiu ainda a Casa de Cultura Alemã em Fortaleza. Por esse motivo, após viajar por vários países do mundo, o casal escolheu o Brasil e o Ceará como a sua segunda terra. Repartem sentimentos e vidas entre Bonn e Aquiraz.
Ingrid, como ex-professora de línguas românicas, é estudiosa e se engaja, com todo o seu saber, a sua curiosidade e a sua energia teutônica em projetos culturais de grande densidade. Apenas um exemplo: Nesta semana, quarta-feira, 18, ela lançou, nos jardins da Reitoria da UFC-Universidade Federal do Ceará um livro fac-similar da primeira edição de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, com 11 ensaios de colaboradores, fotografias, capas do mesmo livro em outras línguas que demonstram o início do seu interesse pela obra e a amizade gerada com a grande e simples fortalezense, quixadaense e carioca que tornou-se a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras.
Através da mídia, rede Globo, e da Fifa, em setembro de 2012, soube da postura ambientalista de Rodrigo de Castro que, mesmo com esse nome, nasceu em Zurique, Suíça. Ele, com dupla nacionalidade, reside hoje em Fortaleza e, em Crateús-CE, é diretor executivo da Associação da Caatinga. Eu conto como aconteceu: Castro foi à sede da FIFA( Fedération Internationale de Football Association) e apresentou a sua ideia de transformar o Tatu-Bola em símbolo da atual Copa do Mundo. A FIFA, entre três opções, apropriou-se do Tatu como símbolo e a ele deu o nome de “Fuleco”.
Rodrigo Castro divulgou o episódio e a curiosa Ingrid resolveu, de forma intelectual e sutil, encontrá-lo e engajar-se no resgate da verdade e no processo natural de preservação da natureza, especificamente do Tatu-Bola (Talypentes Tricinvtus), através de um pequeno, mas bem elaborado dicionário em parceria com outros estudiosos.
Assim, convidou Hans- Jürgen Fiege, especialista em análise de torcidas organizadas e conhecedor das entranhas do futebol mundial para participar deste projeto ora apresentado a brasileiros e tudescos. Hans é alemão, mas mora em Fortaleza. Ele estimula intercâmbios sadios entre jovens que compõem as torcidas constituídas.
Este escriba, dito João Soares Neto, é o único brasileiro nato a participar desse quarteto. O fiz na condição de escritor, convocado por Ingrid. Ela conhece o trabalho que venho executando, na prática, há quase 15 anos, com ações de cultura, arte e empenho pelo desenvolvimento sustentável, estimulando, apoiando e até patrocinando apresentações de entidades, cursos sobre a preservação da natureza, com distribuição – e plantação – periódica de árvores, instigando o ensino do plantio a crianças, abrindo espaços para debates e em outras atividades que ajudem a melhorar o ambiente e a mantê-lo rico em biodiversidade.
Dito isto, volto ao Dicionário. Ele mostra as expressões mais usadas, nas duas línguas, no mundo do futebol. É curioso, didático e até engraçado. Assim, tenho a honra de, em nome dos autores e organizadores do livro bilíngue (Português-Alemão), “Futebol com Tatu-Bola” e um Dicionário” ou “Fussbal mit Tatu-Bola und einem Wörterbuch”, convidar você para o seu lançamento na tarde de hoje, sexta-feira às 17 horas, deste 20 de junho de 2014, na Galeria BenficArte, na Avenida Carapinima, 2200, seguida de coquetel. Haverá, igualmente, a abertura da Exposição de ações da Associação da Caatinga. Será um prazer receber você
O nosso próximo passo, logo a seguir ao lançamento, será apresentar o Dicionário, ainda hoje, em noite festiva, a milhares de alemães que chegam a Fortaleza para o jogo Alemanha X Gana, amanhã, dia 21, às 16 horas, no Castelão.
Depois de tudo serenado, tencionamos levar o nosso trabalho coletivo à WWF (World Wide Fund for Nature), uma das grandes redes ambientalistas que já se espalha por 130 países. A ideia é dar conhecimento ao italiano Paulo Marco Lambertini, diretor-geral da WWF-Ong, do nosso engajamento pela preservação ambiental que, inclui a vida animal, a luta pelo corte da emissão de CO2 e a preservar áreas oceânicas definidas. O que procuramos fazer não é utopia, sequer vaidade. É ato consciente que precisa repercutir. Palavra a palavra. Pessoa a pessoa. Gota a gota.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/06/2014.