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O BÁSICO DE FORTALEZA PARA ESTRANGEIROS – Jornal O Estado

Seja bem-vindo a esta cidade. Ela nasceu junto à “Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção”, defronte ao prédio do novo Mercado Central. Nesse mercado você encontra produtos regionais, feitos à mão, comidas típicas locais, roupas leves de algodão, entre muitos outros artigos, inclusive ervas miraculosas que prometem vigor e longa vida.
Saindo do mercado, no sentido sul, a cerca de 200 metros encontrará a Catedral, templo católico. Seja agnóstico ou crente, dê uma parada, refrigere-se e olhe os bonitos vitrais. Pare alguns minutos pensando na graça de estar em terra estranha, mas acolhedora.
Ao sair, você terá três alternativas: 1. Visitar o centro da cidade, logo a seguir. Se tiver GPS ou smartphone facilitará um pouco, coloque “Praça do Ferreira” e, em poucos minutos, se deparará com um quadrilátero simpático, arborizado, cercado de lojas comerciais, um grande cinema(São Luiz) em reforma, vendedores ambulantes, engraxates e aposentados discutindo política, futebol e vida alheia.
A 100 metros dali – na Rua do Rosário, 01, fica localizada a Academia Cearense de Letras, fundada em 1894, a mais antiga entidade cultural do Brasil. Ela funciona no Palácio da Luz, feito de tijolos, tal como a Igreja do Rosário – erguida por escravos- a seu lado.
Defronte há um logradouro conhecido como Praça dos Leões, por conta de esculturas em bronze dos reis dos animais. Em um dos bancos da praça existe uma escultura da escritora Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.
A opção 2: Se você gosta de arte e cultura vá da Catedral direto ao “Centro Dragão do Mar”, distante cerca de 500 metros, no sentido leste. O Dragão é um equipamento público com 15 anos de fundado, em homenagem ao jangadeiro “Chico da Matilde”, depois “Dragão do Mar”. Ele se negou a transportar, em sua tosca embarcação, escravos dos navios negreiros – que ficavam ao largo – para a Praia de Iracema, então Praia do Peixe. Por tal fato, o Ceará, capital Fortaleza, foi o primeiro Estado a abolir a escravatura no Brasil.
O Dragão é local acolhedor, possui exposição permanente sobre a vida do sertanejo, galeria, teatro, escolas de artes, cafés, cinemas e observatório lunar. Há alguns restaurantes no entorno. Em geral, só funcionam à noite, quando há festas para todos os públicos e gostos, nos arredores.
A opção 3 é o Theatro José de Alencar, com estrutura em ferro fundido vindo pronta da Escócia, no começo do século 20. O homenageado, escritor José de Alencar, nasceu no Ceará e foi o introdutor do indianismo na literatura brasileira, da qual é um dos expoentes. O teatro é belo, merece visita, e fica na praça que tem o seu nome e a sua estátua. Como se fora um mercado persa ou turco, na praça a céu aberto centenas de ambulantes vendem artesanatos, travesseiros, móveis, comidas e o que mais se puder imaginar, além de singelas cópias de marcas famosas a preços populares. Comprar ou não é com você.
Este artigo não é um itinerário: para isso existem Roteiros da Cidade, operadoras e guias especializados. É apenas um leve ensaio sobre o que, ao meu olhar, possa interessar a estrangeiros no Centro e na orla de Fortaleza, nesses tempos de Copa do Mundo de Futebol.
Não sei onde você ficará hospedado, mas, certamente, irão falar da Avenida Beira Mar. Ela é a via principal da orla marítima desse mínimo pedaço do Atlântico Sul. As águas do mar são cálidas e esverdeadas. A orla é dividida em partes. Uma começa a Oeste, na Barra do Rio Ceará, outro presumível local de fundação de Fortaleza, e segue sentido Leste, passando pelo Pirambu, adensado bairro popular, até chegar ao Hotel Marina Park, local onde algumas seleções de países ficarão hospedadas durante os jogos em Fortaleza.
Outra parte começa na Praia de Iracema, perto do Dragão do Mar, relembro. A Praia de Iracema vai do Poço da Draga até o fim da Avenida Historiador Raimundo Girão. Por lá funciona, às segundas-feiras, o “Pirata”, um bar-restaurante popular que atrai turistas com suas festas de forró, um dos ritmos do Nordeste. Vá em frente, sentido Leste, e estará chegando ao local do Fan Fest da Copa. Visite-o.
Em seguida, verá milhares de pessoas andando, uma profusão de bares e barracas do lado da praia e, do outro, bonitos edifícios construídos, a maioria, a partir das décadas de 70/80 do século 20, com destaque para os projetos dos arquitetos José e Francisco Hissa, e Luiz Fiúza. Todas as noites são montadas barracas para uma grande feira de artesanato e que tais, bem perto do Náutico, clube social pintado de verde.
Passado o Porto do Mucuripe, começa a renovada Praia do Futuro que gerou barracas-parques imensas, para todos os gostos e bolsos. Há, nessas barracas, cadeiras com guarda-sol, garçons ligeiros para servir peixes, crustáceos, bebidas de todos os tipos e uma profusão de ambulantes vendendo tudo o que você procura ou não.
Tinha intenção de traduzir este texto para o espanhol, inglês e alemão, mas alguém, seja gerente de hotel ou pousada, recepcionista, taxista, guia ou amigo, pode, se achar que vale a pena, recortá-lo e traduzir para você. Divirta-se, proteja-se do sol.
Há muito mais a ver em Fortaleza do que narrei. Não sou guia turístico, apenas quis facilitar e dizer da minha alegria em dar-lhe boas vindas: Bem-vindo, Bienvenido, Welcome e Willkommen.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/06/2014

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MILHÕES DE JOVENS – Diário do Nordeste

Há 10 a 12 milhões de pessoas entre 20 e 45 anos disputando, por ano, vagas de concursos públicos – municipal, estadual e federal – no Brasil.Existe até uma Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac). Segundo a Anpac, são gastos 50 bilhõespor ano entre inscrições, cursos, livros, apostilas, preparação e viagens ida e volta – pelo Brasil afora para chegarnos locais dos concursos. Existemempresas afazer preparações presenciais epela internet.
Os candidatos usam as mídias para interagir e responder as questões dos cursinhos ou cursões, dependendo da expectativa e do nível de suas aspirações.O site “Aprova Concurso”,por seu diretor Bruno Branco, declarou aEdiane Tiago (“Valor”, F4,30. 05. 2014), que “quem opta pelo curso online tem disciplina e quer apoio diferenciado”.
Criou-se no Brasil a cultura de que o emprego público é uma opção razoável para quem aspira estabilidade e segurança. Os empregos privados, por conta da concorrência, são difíceis e voláteis. O saber e a habilidade de fazer precisam de aprimoramento constante e cobram desempenho que, acreditam muitosdos que se preparam para concursos, não será exigido naárea pública.
Hoje, quase toda família tem alguém participando desses certames decididos não só pelo conhecimento, mas pelacapacidade de aceitar a pressão psicológica imposta por seu grupo familiar, pordisputas com colegas epor esperançosos parceiros. Por fim,em quais órgãos públicos serão alocados esses milhões de esperançosos? Há outrosmilhões de terceirizados nesses lugares. E aí?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/06/2014

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PENSAR NÃO TEM FRONTEIRAS NO ‘’PAPO BENFICA” – Jornal O Estado

Há um programa no Brasil, similar a tantos outros existentes nas Américas e na Europa, para ficar apenas no Ocidente. Ele pretende discutir temas considerados teóricos para, entre outros, pessoas técnicas, empresários consagrados ou em ascensão, profissionais liberais, via de regra, não pertencentes aos meios acadêmicos.
O nome do programa é “Fronteiras do Pensamento”. Ele já tem oito anos de duração, tem uma grande empresa como patrocinadora, convida expoentes do conhecimento do mundo em várias áreas, mas cobra pela inscrição e participação um valor alto para os padrões brasileiros. As palestras aconteciam, de princípio, em São Paulo, depois Porto Alegre e chegou a Salvador.
Sou fã da estrutura metodológica, da diversidade de pensamentos/linguagem e da estratégia que permite, além da exposição, “estudo de caso” e debate decorrente do exposto pelo palestrante. Nota-se parece haver quase uma convicção sobre o vazio dos discursos políticos. Segundo um dos convidados deste 2014, o professor de filosofia política Michel Sandel, da Universidade de Harvard, o vazio se dicotomiza de duas formas: 1. A política tecnocrata não motiva a maioria das pessoas; e, 2. O grito passional que parece ultrapassado sem qualquer escuta de quem tem formação.
Além disso, a corrupção existe, o papel do capital é questionado socialmente por todos, e o mercado perdeu referências e ainda não se ajustou aos tempos da ausência de liquidez e dos baixos produtos internos brutos-PIB nesta segunda década do Século 21.
Em contrapartida, de forma modesta, sem grandes pretensões, estruturamos, no ano passado, um projeto gratuito, o “Papo Benfica”, em parceira com o “Clube do Saber” e o “Rapadura Cultural”, com periodicidade mensal – um sábado por mês, às 10 horas, na sala 03 dos Cinemas Benfica -, a reunir músicos, professores e palestrantes com densidade de conhecimento, didática na exposição e ideias para discussão, sem dogmatismo ou qualquer forma de proselitismo.
A entrada é franca, sem qualquer exigência de posição social ou escolaridade. Qualquer pessoa presente pode intervir nas apresentações, com os diferenciais de música ao vivo, de trechos de filmes e sempre com mais de um expositor.
Já foram discutidos – com êxito, bom público e nomes relevantes de músicos e palestrantes – os seguintes temas: A Seca, implicações socioeconômicas. Movimentos Sociais no Nordeste. Revoluções na América Latina. O Dia Internacional da Mulher, enfoque histórico-social e filosófico destacando lutas, conquistas e relevância na sociedade. Enem 2014/15-O que é e como se faz. Dicas de grandes Mestres. A musicalidade de Chico Buarque, um dos mais citados nas provas dos vestibulares.
Amanhã, sábado, você está convidado a participar, sem pagar nada, do “Papo Benfica” que, repito, começa às 10 horas, na sala 3 dos Cinemas Benfica (2º. Piso, Av. Carapinima, 2200) tendo como tema “Música e futebol no país do Tatu-Bola”. Análise e participação do Brasil nas copas do Mundo e na quase chegante Copa de 2014. Sob a mediação do prof. Freire Neto e as participações especiais do historiador Airton de Farias, do jornalista Edilson Alves e do compositor musical Tião Simpatia. Vai ser bom e alegre. Vá. Há uma poltrona esperando por você. O ambiente é refrigerado e acolhedor. Experimente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/06/2014.

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RODA DO MUNDO – Diário do Nordeste

O papa Francisco encosta a cabeça no muro a separar Belém de Jerusalém e deixa envelope nas cavidades do Muro das Lamentações, lá onde mulheres e homens são separadas. Ele visitou a Igreja da Natividade, celebrou missa no Santo Sepulcro, lugar que acho meio lúgubre, onde cristãos acreditam haver sido o túmulo de Jesus. Como? O lugar pertencia a seu amigo abastado José de Arimateia, que apenas o cedeu por magnanimidade. Se ressuscitou como adorar o lugar esvaziado pelo milagre?
O importante é que Francisco conseguiu marcar uma reunião, no Vaticano, 6 de junho próximo, entre palestinos e judeus. Terá a presença de Shimon Peres, presidente de Israel e de Mahmoud Abbas, do “Estado Palestino”, na dita por Francisco. Detalhe Netanyahu é o primeiro ministro e o cargo de Peres é protocolar. Vale?
Lá por perto, no Egito, última segunda feira, 26, previa-se a eleição presidencial de Abdel Fattan Al-Sisi. Resumo, o governo voltaria a ser militar, pois Abdel foi um dos dirigentes do grupo que derrubou Mahammed Mursi, em julho do ano passado. Será o fim da guerra civil?
Obama, domingo passado, 25, baixou no Afeganistão e falou para os 33 mil americanos ali aquartelados que “o fim responsável” da guerra de quase 13 anos está próximo.
Para alegrar os militares, levou Brad Paisley, cantor sertanejo. Em 2015 a tropa vai partir e ficará um contingente para assegurar que os ganhos obtidos serão protegidos.
Hamid Karzai, presidente afegão, recusou-se a dialogar com Obama. Putin sonha com a nova Grande Rússia. E aí?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/06/2014

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CRAJUBAR-2014 – Jornal O Estado

Estive, em decorrência de compromissos socais, pela segunda vez, neste 2014, no Cariri. A aproximação do avião mostra verdes vales cercados pela Chapada do Araripe (foto) que se ergue como uma natural barreira protetora tal como as cidadelas antigas. Como se sabe o Cariri separa geograficamente o Ceará de parte de Pernambuco, da Paraíba e do Piaui. O aeroporto regional Orlando Bezerra, em Juazeiro, possui pista adequada de pouso para aviões comerciais e a estação de passageiros cumpre o seu objetivo essencial.
A chapada difere, em muito, da caatinga e da orla litorânea cearense. Há história política e até conflitos armados vividos no seu povoamento e na institucionalização daquela grande área distante quase cem léguas de Fortaleza. Hoje, ela cresce com implantação recente da Universidade Regional do Cariri e outras entidades com cursos superiores pulsando o saber e ajudando a formatar o crescimento às margens das rodovias estaduais e federais com a implantação de indústrias, comércios de varejo, atacado e novas obras públicas estaduais nas áreas de infraestrutura viária, saúde, educação e segurança. As administrações municipais devem estar atentas à formação e a sedimentação de favelas e lutar pelo incremento de novas indústrias e a dinamização do programa “Minha Casa, Minha Vida”.
Na verdade, há, formalmente, uma região metropolitana do Cariri definida em 2009, além do Crato, Juazeiro e Barbalha, integram-na os municípios de Caririaçu, Farias Brito, Jardim, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. Na prática, a resolução ainda precisa ter mais aprofundamento e escopo mais claro a redundar em mais benefícios e melhoramentos que os já atingidos.
Arquitetos definem por conurbação o fenômeno da urbanização de cidades vizinhas a formar um só aglomerado. Seria exagero dizer que Crato, Juazeiro e Barbalha são xifópagas, mas há uma junção espontânea que tende a adensar os seus vazios. Mais temerário ainda seria afirmar que os demais municípios formam um corpo uno. Há singularidades e, neste pequeno relato, detenho-me a comentar, sem preocupações maiores, apenas algumas observações aligeiradas – sujeita a erros e omissões – sobre os municípios pilares: Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.
Crato mostra-se senhorial e altaneira em sua zona central e apresenta grandes residências nos caminhos dos geossítios. Embevecida, quiçá, com o papel de cedente da área física da vizinha Juazeiro do Norte, fundada pelo cratense Cícero Romão Batista, padre, político e demiurgo. O Crato pode ser mais do que é, isso fica claro ao visitante inquisidor e atento. É preciso algo que sacuda a cidadania em defesa do futuro próximo.
Juazeiro do Norte apresenta crescimento visível e já despontam – para o bem e para cobranças futuras de infraestrutura urbana – em seus céus altos edifícios multifamiliares à semelhança da arquitetura ora em voga na capital. Eles se misturam ao casario de singelos traços adornados por mosaicos e azulejos, sem esquecer das grades que imaginam oferecer segurança a seus ocupantes. A figura ícone do Padre Cícero é usada a exaustão como elemento de atração de romeiros de todo o Nordeste. Montou-se uma estrutura física que realça a crença popular e oportuniza o uso como fonte de receita o ano inteiro.
Barbalha, ao meu olhar, permanece intocada na plasticidade orgânica de tijolo, telha e tinta. Fiquei feliz ao ligar para Edilmar Norões e perguntar: “aonde estou”? Claro que não poderia adivinhar. Disse-lhe estar defronte à praça da igreja de Santo Antônio, que ele frequentava quando criança. No sábado morno, populares dançavam embalados por um forró pé de serra.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/05/2014

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A INVASÃO DA PRIVACIDADE PÓS WEB – Jornal O Estado

“Em uma sociedade com base no conhecimento, por definição é necessário que você seja estudante a vida toda”. Tom Peters, americano, engenheiro e escritor.
Há quanto tempo você não escreve uma carta? Esta pergunta não terá resposta positiva de muita gente. Escrever carta em papel pautado, colocá-la em envelope, endereçá-la e postar nos Correios foi, por muitos anos, a forma preferida de comunicação entre pessoas, empresas comerciais e até entre vários níveis de governo. Hoje, o mundo(world) está sendo conectado pela web. A palavra inglesa web significa rede ou teia. O conjunto de três w ou WWW (World Wide Web) corresponde, na internet, à rede ou a sua teia através do mundo. Assim, a maioria das pessoas, especialmente as nascidas depois do ano 81 do século passado, a tal geração Y, está sempre interligada e sabe algo de tecnologia da informação (TI). Os batizados bem antes, tal como eu, vão errando e procurando espaço nesse mundo meio assustador. Exemplo: toda questão formulada ao Google fica acumulada para formar o seu perfil de usuário. Para sempre.
Teia lembra aranha que pode ter veneno. Logo nos vem à mente a forma, quiçá geométrica, como esse aracnídeo urde os seus campos de atração e ataca. Sabe-se, grosso modo, existir quatro tipos de teias: a de capturas (a prender insetos), a de cópula (à espera do macho fecundador), a de refúgio (para descansar) e a de muda (para se alterar).
A palavra teia parece perfeita para essa face exuberante da informática e das comunicações atuais. Todos somos captados. Alguns entram em redes de afeto, ciência, conhecimento, negócios ou de lubricidade. Outros vagueiam para descansar de sua vida real, e há falseadores de identidade, procurando ser o que não são ou a liberar veneno e maquinação errática mundo afora.O crítico literário John Freeman estabeleceu algumas cautelas para usar a teia mundial. Em 2009 ele escreveu o livro The Tyranny of E-mails (A tirania dos E-mails) e aconselha o uso ponderado do computador, do celular etc. Recomenda, nada antes do café da manhã. Ao acordar, a mente está livre e não é razoável importuná-la com o volume de informações da “teia”. A invasão começa ao ligar o computador ou o celular.
Freeman esteve ano passado no Brasil para falar na 16ª. Bienal Internacional do Livro do Rio e, ao mesmo tempo, lançar dois livros, já traduzidos em português: Como Ler um Escritor e Granta 11 – Os melhores Jovens Escritores Britânicos. Segundo o jornalista Francisco Quinteiro Pires, Freeman mora agora em Nova Iorque, escreve um livro de poesias e leciona na Columbia University. Está “over”.
Essa digressão ao falar de John Freeman mostra como fomos pegos por teias a mudar a direção do pensamento, da fala e da escrita. Somos, vez por outra, desviados por e-mails importunos. Ainda hoje, por exemplo, convoquei a secretária e um jovem melhor em informática do que eu – o que não é nenhuma vantagem – para me dar um mínimo de trégua em face das dezenas de spams (e-mails invasores dos nossos endereços) recebidos a cada dia.
A captura de e-mails traz várias formas de acesso aos usuários comuns. Uma delas, talvez a mais simples, decorre dos nossos próprios e-mails escritos, enviados ou repassados. Por exemplo: se pretendo viajar, passo um e-mail para um agente de viagens. A partir desse e-mail começo a receber tudo sobre viagens. Cuidado, portanto, com os assuntos e os conteúdos dos seus e-mails: eles ficarão zanzando e você receberá o não pedido, por conta da conexão automática apreendida pelas milhares de empresas captadoras e vendedoras de mídias eletrônicas.
As palavras sobre os “hackers”, especialistas em invasão de sistemas de segurança. Eles formam uma grande comunidade internacional, de tamanho ainda não bem mensurado. O Brasil parece ser um dos centros mundiais de maior número de hackers. Eles, quase sempre jovens, ocupam o tempo em desenvolver fórmulas e algoritmos que já desnudaram, entre outros, os códigos de segurança da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, e até da Presidência da República do Brasil. Alguns, depois de descobertos, são até contratados para ajudar a manter sistemas de segurança de bancos, multinacionais, governos e assemelhados.
Assim, estamos condenados a viver na certeza da espionagem. Como esse mundo da web não tem mais volta, e tampouco fronteira, vamos expondo – querendo ou não – os nossos desejos, medos, sonhos, mazelas, metas e vidas privadas. Que jeito?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2014.

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CARROS E “RECALLS” – Diário do Nordeste

No mundo, cada país a seu modo, há leis reguladoras das relações entre fabricantes e compradores de veículos. A propaganda das fábricas, distribuidoras e revendedoras alardeia as qualidades, os diferenciais e os prêmios conquistados. As garantias aumentaram de um para dois, três e cinco anos.
Há uma marca que promete seis anos, se o Brasil vencer a Copa. Por outro lado, as associações de defesas de consumidores, fortes em alguns países, têm provado que os carros, independente da sua qualificação como popular, médio, luxo ou superluxo apresentam, sim, defeitos, e resolveram denunciar os fatos. Há perdas de vidas por defeitos de fábrica. Questões avultam.
Na realidade, faz muito tempo que não mais existe o fabricante integral, como fazia a Ford, no começo do século 20, quando Henry Ford criou a linha de montagem. Trocaram o nome para montadoras, pois recebem componentes (peças e acessórios) de empresas satélites, que podem ou não estar no país onde o carro é produzido. O fato é que quase nenhuma marca ou modelo de veículo tem saído ilesos nos múltiplos e frequentes recalls.
Os recalls são, por lei, individualizados e chamados os compradores originais do veículo. Além da notificação, as montadoras são obrigadas a publicar nas mídias: modelos, números dos chassis e o ano de fabricação da marca, pois o veículo pode ter novo dono. O serviço é gratuito.
Independente da marca/modelo do seu carrão ou carrinho, não custa ficar atento e ler os “recalls” nos sites das montadoras. Zele por seus direitos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2014.

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TORCER “FORTALEZA” – Diário do Nordeste

Torcer é mais que gostar. É amar, admirar, alegrar-se, sair do sério, sofrer e reclamar. É ser ingênuo. Faz quatro anos que os torcedores do “Fortaleza” dão mostras do amor desmedido a esse clube que não há correspondido aos milhares de pessoas que o acompanham de forma silenciosa ou ruidosa em todas as disputas. O fato é: quando estamos bem pertinho da chegada, há tropeços de última hora e até o tempo das prorrogações tem agido contra os nossos desígnios. Quatro anos seguidos sem ganhar campeonato e na terceira divisão do futebol brasileiro? Tenham dó. Em futebol, como na vida, não há desculpas ou explicações; há resultados ou fracassos. Não tenho nada contra as últimas administrações. Elas vivem o futebol real, esse das manhas e artimanhas; da mescla falaciosa de jogadores trintões com atletas locais. Sou a favor da formação com a maioria de jovens daqui, ainda não maculados pela troca sazonal de camisas dos “rodados”.
Não tenho soluções, mas há limite para a paciência dos torcedores. Não adianta estar na ponta em campeonato, perder na penúltima partida e dar a vantagem do empate ao adversário. Parar na terceira divisão? Ganhar do Águia é glória? Repensem o “Fortaleza”. Futebol não é um circo mambembe. Creiam na origem inglesa: foco, direção e a “associação” de pé para pé até o gol adversário. Nós, os torcedores, sabemos que é duro, mas está passando da hora de ajustar o que falta. Há jogadores cearenses até na Europa, sem passagem pelos clubes locais. Seremos cegos?
Quanto aos “rodados”, são aves de arribação, sem ninho em Fortaleza.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/05/2014

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FERIADO E VARGAS – Diário do Nordeste

Cansei de feriados. Na forma como eles estão brotando no Brasil, causam enfado e quebram o ritmo de trabalho. De repente, quinta parece segunda, e no dia seguinte é sexta véspera de fim de semana. A preguiça, onipresente segundo Mário de Andrade, em “Macunaíma”, vai justificando o letargo. E, por conta disso, um ar de pasmaceira invade o nosso olhar ao contemplar faixas de algodãozinho com palavras de ordem pintadas. As expressões são as mesmas. “Estamos em greve”. Um pano matizado forma sombra adicional às árvores a abrigar grevistas que reivindicam melhores salários e condições de trabalho. Tudo o que todos querem. Imagine se todos resolverem fazer greve ao mesmo tempo? E as greves geram discussões e reacendem voluntarismos que parece nada ter mais a ver com sistema de idéias do século passado.
Feriado. Fui ver o filme “Getúlio”. Estranhei como pessoas conhecedoras da linguagem gauchesca também detectaram a ausência do pronome “tu”, usual nas falas de Vargas, interpretado por Tony Ramos. O “tu”, como o empregavam Brizola e Érico Veríssimo e ainda o faz o Pedro Simon, para ficar em alguns. Tony/Getúlio sequer sorve chimarrão e a pluralidade de personagens, políticos, familiares e militares complicam o desenvolvimento do filme.
Parte da trama urdida contra Carlos Lacerda, um “ato de fidelidade” maquinado por Gregório Fortunado, o faz tudo dos Vargas. O filme é arrastado, apesar do cuidado histórico nas cenas no Palácio do Catete, da explicação preliminar do protagonista e das fotos/dos créditos, ao final. Feriado dá nisso.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2014

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OS ARTISTAS PLÁSTICOS E 0S 8 DE MAIO – Jornal O Estado

“Artista, tua grandeza está na vibração total com que te entrega às tuas obras e na decepção e quase desespero com que medes a distância infinita entre o teu sonho desmesurado e a realidade que consideras inexpressiva”. D. Helder Câmara (1909-1999), em “Mil razões para Viver”.
Maio, exceto para os brasileiros que moram no Nordeste, é tempo de Primavera, a estação das flores e dos frutos. Nos séculos passados, era a temporada de aprendizes, de diletantes e de artistas pintarem “naturezas mortas”. Entretanto, não foi por tal razão que o 8 de Maio passou a ser o Dia do Artista Plástico. A história é outra: um brasileiro, paulista de Itu, José Ferraz de Almeida Júnior, nascido em 8 de maio de 1850, despontou, desde cedo, como grande pintor, com formação na Academia Imperial de Artes Plásticas, no Rio, capital do Império. Ferraz de Almeida ganhou viagens de estudo à Europa e voltou consagrado. Esta é a razão.
Neste Maio de 2014, a Galeria BenficArte, a única galeria particular do Ceará -aberta todos os dias – com visitações gratuitas, reacende a chama da arte com a 4a edição anual dos “ Os Oito de Maio”, evento que congrega escultores e pintores já formados, e outros em formação.
Neste ano, mais uma vez, mostramos artistas formados pelo curso de Desenho e Pintura da Divisão de Pós-graduação da Universidade de Fortaleza. A Unifor, como se sabe, foi convertida em centro de artes pelo descortino do chanceler Airton Queiroz. Oito alunos ali formados estão na difícil vida de artistas plásticos. São eles: Aurélia Alencar, Dias Brasil, Eliete Barreto, Grazy Loureiro, Maíra Ortins, Mona Cellani, Sônia Cavalcante e Vera Grandez.
Igualmente, estamos lançando oito jovens estudantes de arte da mesma Unifor: Anderson Ixtlan, Boemia, Caroline de Reverie, Felipe Selva, Larissa Pinheiro, Robson (Aerorobin), Rodrigo e Rosa Leite. Por fim, neste ano de 2014, os “Os Oito de Maio” homenageiam a pintora Nice Firmeza, falecida em 2013. Nice, ensinava pintura no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, – somos um dos seus mantenedores -, por via do projeto musical “Eduque Bem- Artes” Nice terá pinturas do nosso acervo e de Gilmar de Carvalho, fotografias dos fotógrafos Gentil Barreira, Francisco de Souza e Marcelo Brasileiro. Esperamos que o olhar do público se fixe nas obras – sejam pintura ou escultura – ora expostas e delas capte a capacidade de abstrair-se do real para entrar no sensível e belo mundo das artes plásticas.
*João Soares Neto não
é crítico de arte.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/05/2014.