Sem categoria

OS BRICS E O CEARÁ – Diário do Nordeste

Representantes do governo brasileiro e embaixadores dos outros BRICS- Rússia, Índia, China e África do Sul- estiveram reunidos na Universidade de Fortaleza, terça passada, para reunião preliminar ao Encontro dos presidentes dos citados países que acontecerá em Fortaleza nos dias 15 e 16 de julho próximo. Esse evento justifica, por si só, o planejamento e a implantação do Centro de Eventos do Ceará, palco definido para receber os dignitários e membros das comitivas que incluem de diplomatas a empresários internacionais.
Quando presidente da Sociedade Consular do Ceará, em audiência com o governador Cid Gomes, solicitei a indicação do Assessor para Assuntos Internacionais. Ele optou pelo advogado Hélio Leitão, que tem procurado dar sentido ao seu trabalho. Ano passado, compartilhei sugestões em reunião com representantes do Ministério das Relações Exteriores- Itamaraty para o evento dos BRICS.
Pude constatar a complexidade das tarefas que, entre outras, envolve esquema de segurança especial. Aprovaram o Centro de Eventos, mas fizeram ponderações de outras naturezas.
Esse batismo do Centro de Eventos deverá servir como referência para que outros encontros internacionais aconteçam e coloquem o Ceará na rede mundial de feiras e eventos para discussões de negócios, de indústrias, de artes e cultura e até de entretenimentos, nessa ordem.
É tempo de aliar à cabeça festiva do cearense a desejáveis concertos multilaterais que mostrem antes a nossa inteligência e a carência de parcerias claras e condignas para a superação de nossas limitações estruturais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/05/2014

Sem categoria

1º DE MAIO – O TRABALHO COMO FONTE E SENTIDO DE VIDA – Jornal O Estado

“Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta é preciso recontar.” André Gide, escritor francês, Nobel de Literatura, sec. 20.
Comecei a trabalhar aos 14 anos. Meu pai havia assumido a vereança em Fortaleza e, entusiasmado, delegou a mim a oportunidade de gerir os negócios dele. Fi-lo(obrigado, Jânio Quadros) por anos. Comprei carros à prestação e os coloquei para render. Com as rendas, pagava o que devia. Ainda estudante, colega de Marcelo Duque, comprei lotes à prestação do “Sítio Carrapicho”, outros do Joãozinho Gentil e do Zezito Tavares. Terras me atraiam. Herança portuguesa?
Na primeira viagem ao Rio, resolvi levar sandálias para vender. Procurei um fabricante na Rua Saldanha Marinho e disse que seria tudo em consignação, termo que expliquei com paciência, e pagaria na volta. O que cumpri. Entrei no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva – CPOR, na arma de Infantaria, com curso aos finais de semana e nas férias, com duração de dois anos. Depois, servi em São Luiz do Maranhão, como oficial, por três meses. Enquanto isso, fazia duas faculdades, uma pela manhã, outra à noite. Um dia, meu pai me diz: “vou ser candidato a deputado” . Respondi: não voto no senhor e ainda farei campanha contra . Política não tem nada a ver com o senhor. Ele acordou e foi cuidar do que era seu. Nunca pedi dinheiro emprestado a bancos e tampouco solicitei aval, nem a meu pai.
Antes mesmo de concluir o curso de Administração, resolvi abrir uma empresa da área. Tudo era novo nesse ramo. Aluguei um sobrado na Rua Sólon Pinheiro, 316, e passei a planejar e a dar aulas no que seria hoje um curso breve de gerenciamento. O ex-secretário de estado, e hoje empresário Raimundo Viana, foi um ilustre aluno. Comandei, junto com Ary Bezerra Leite, grande pesquisa sobre transportes em que precisei contar com todo o efetivo da então Escola Industrial do Ceará. Convenci o então diretor, Roberto Barreto, que seria proveitoso para os alunos ter essa prática. E assim o fiz. Mudei para o Ed. Jalcy, da Guilherme Rocha, no sexto andar.
Aí Fernando Távora Filho me convida para ser gerente da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações, Cocesp. Entrei firme, exigente e apertei tudo o que poderia fazer em uma empresa pública. Devolvi presentes. Transformamos a Cocesp na Companhia Cearense de Saneamento – Cocesa, embrião da atual Cagece. Construímos a mesma sede que ainda está lá perto do velho Aeroporto Pinto Martins
Danilo de Abreu Pereira Marques, colega de turma que frequentava o Naútico, apresenta-me ao engenheiro Elano Paula, irmão do Chico Anísio, e dono da Incosa, Indústria e Comércio S.A., empresa de engenharia na Rua Meton de Alencar com Senador Pompeu, que planejava ingressar na área de habitação. Por minha auto confessada curiosidade de leitura, era sabedor – até hoje não sei a razão dessa bisbilhotice – do conteúdo de todos os livros verdes que continham a legislação básica do Banco Nacional da Habitação- BNH. Elano me desafiava a resolver o credenciamento da Incosa como Iniciadora, nomenclatura dada às empresas que podiam operar com o Sistema Financeiro da Habitação. Fui ao Rio, resolvi tudo e despedi-me da Cocesa. Sequer recebi o FGTS. O advogado Alberto Rola sabe disso.
Em seguida, Elano Paula conhece o jovem, comunicativo e brilhante engenheiro civil Walder Ary, já professor da Escola de Engenharia da UFC, e, juntos, constituem a Master Engenharia que, tempos depois, passaria a ser Master-Incosa. E eu no meio desse turbilhão de ideias que surgiam e deram origem à Domus-Associação de Poupança e Empréstimo, da qual fui fundador e até presidente do Conselho de Orientação; a Modulus – APE, em São Luiz, e tantas outras empresas correlatas e afins surgiam ou se agregavam. Foi assim com os então capitães do exército João Batista Fujita e Crisanto Ferreira de Almeida, que já trabalhavam com engenharia no Batalhão de Cratéus e desistiram da caserna. Associaram-se ao engenheiro civil Cleuton Monteiro e a Construtora Estrela apareceu no cenário do “boom” de casas populares. Até o Deusmar Queiroz engajou-se para dirigir a Pax- Corretora de Valores, então de Bernardo Bichucher, e, logo em seguida, comprou a dita cuja e foi o maior adquirente de ações do que se chamava arts. 34/18, de empresas financiadas pela Sudene. As farmácias “Pague Menos” vieram depois.
Era 1969, e por conta de tanto o que fazer, resolvemos, o Nisabro Fujita, o Danilo Marques e eu, fundar a Planos Técnicos do Brasil Ltda que aproveitaria nossa expertise em gestão, planos e projetos. A Planos prestaria serviços a todos e a quem quisesse, como pioneira, na área de planejamento habitacional. Nesse mesmo tempo eu era diretor administrativo da Indústria Plástica do Ceará – IPLAC, empresa que estava hibernada e a ressuscitamos, com a ajuda do Inácio Farias e do Walter Monte. Casei em maio. Dava aulas noturnas na Escola de Administração do Ceará. E, por conta de atuação em congresso -Curitiba – da área virei diretor da Associação Brasileira de Entidades de Crédito e Poupança – Abecip, no Rio.Era energia a todo vapor e viagens em profusão.
Em 1973, fiz uma reflexão e chamei os dois sócios para conversar. Queria me desligar do grupo. Razões pessoais. Comuniquei ao Elano. Ele respondeu: “eu já esperava isso”. O Danilo ficou com o Elano e o Walder. Permanecemos eu e o Nisabro Fujita. Compramos a Cenpla – Construção, Engenharia e Planejamento Ltda e o Nisabro foi construir, mas sem pedir dinheiro ao BNH, fazíamos o possível com o pouco que tínhamos. Dois anos depois, em uma segunda-feira, chamei o Nisabro para dialogar e disse-lhe que desejava me colocar à prova como pessoa, sendo dono do meu próprio destino, sem sócios. Encerramos a sociedade sem problemas. O Nisabro ficou com a Cenpla e eu com a Planos.
Todo este relato, que nada tem de importante, ocorre-me neste feriado do Dia do Trabalho para dizer como a faina acelerada foi decisiva para mim. Acredite, esse batente, por inédito, puxava muito pela minha criatividade, obrigava-me a ler, dialogar com pessoas diversas, viajar pelo mundo afora com a família a ver o novo e o diferente. Prova disso foi, entre outras, a minha ideia de planejar o Cemitério Parque da Paz, depois vendido a grupo de São Paulo.
Para não cansar mais o amigo leitor, afirmo e dou fé que nunca perdi o viés de alargar o meu conhecimento, através de cursos, seminários, feiras, congressos, concursos técnicos e intelectuais que ganhei em disputas renhidas. Em paralelo, ao meu juízo, nunca deixei de ser pai dedicado. Nunca parei de escrever em jornais, de ter a audácia de escrever livros e de participar de forma efetiva de atividades culturais, de responsabilidade social e de arte.
Hoje, vivo no 14º. ano de um século que veio implodir os processos e formas de quase tudo que se fazia. Tive que me atrever a engatinhar no vasto mundo da Tecnologia da Informação-TI.
Continuo a mourejar com a mesma energia, atitude, impetuosidade e independência. Erro aqui, acerto acolá, sem esquecer que tive sérios prejuízos ao ajudar e até fazer parcerias com pessoas e empresas – não citadas aqui – com falso caráter e comportamento aético. Lições da vida. Esses exemplos vieram comprovar que eu deveria sempre trabalhar com a minha equipe técnica, capaz, confiável e dedicada, mas nunca me associar a terceiros. Bastavam os meus defeitos. Um colega de faculdade e amigo verdadeiro, quase irmão, Ananias Josino Lobo, meticuloso, ponderado e capaz, sempre esteve ao meu lado como contraponto e censor. Até que se finou, enquanto eu andava pelo México. Hoje, tenho pessoas de nível e responsabilidade a meu lado. E estou sempre atrás de talentos. Quem quiser, pode indicar.
Como me torno longo e ainda teria muito a contar, dou os parabéns aos que começam cedo a estudar e a pensar no trabalho, seja ele qual for, sem ter medo de enfrentar o novo, metendo a cara nos livros e, agora, bem mais fácil, no louva-a-deus mundo da Internet, céu e inferno de todos os viventes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/05/2014.

Sem categoria

JOVEM NÃO PARE – Diário do Nordeste

31% dos alunos matriculados em cursos de ensino superior privado participam hoje do Programa Universidade para Todos (Prouni) e do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), programas do governo federal. Somados, representam 1,6 milhão de estudantes do total de 5,34 milhões em salas de aula de universidades e faculdades particulares.
Esses dados fazem parte do último Censo da Educação Superior do Ministério da Educação. Os alunos, ou seus fiadores, pagarão juros de 3,4% ao ano, inferiores à inflação anual, na Caixa e no Banco do Brasil, após carência de 18 meses, e prazo equivalente ao tempo do curso multiplicado por três e mais um ano. Dessa forma, não há como os reais estudantes, aqueles que pretendem entrar no seletivo mercado profissional a exigir ensino superior, não usarem esses meios que lhes dão a oportunidade de escolher uma boa universidade para cursar. Entretanto, há muita gente que se perde pelo caminho ao optar pelo mais fácil. A vida, essa que vivemos, mostra que o fácil perde a significação e é expurgado sem hora e data marcada. Encarar o que é mais sério dá forças para alcançarmos melhores resultados pessoais. Exemplo: imagine se alguém ficar perdido, com medo de enfrentar vestibulares, não saberá o que significa a liberdade de ser dono do seu próprio destino. Hoje, há no Brasil 38 milhões de pessoas que emperraram no fim do ensino médio. É preciso que repensem sobre essa decisão. Ela não leva a lugar nenhum.
Se conhecer alguém desse universo, incentive-o a retomar os estudos. Estudar é a base do viver do mundo em mutação.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2014.

Sem categoria

PRECONCEITO, RIVALIDADE E REALIDADE CULTURAL – Jornal O Estado

“É prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas, do modo mais simples”. Ralph W. Emerson, ensaísta americano, sec. 19
Duas escritoras cearenses sofreram, recentemente, árduas apreciações em resenhas feitas por críticos da Folha de São Paulo. Uma é renomada, premiada, tem densidade e sabe escolher os temas de seus livros, que fogem do trivial, do enredo que se convencionou usar para produzir um “best seller”. Ela não faz concessão, pesquisa caminhos não fáceis de recontar histórias e esmiuçar a produção/vida de escritores para um público mais exclusivo. É o seu jeito.
A outra, mais jovem, já ganhou o prêmio “Jabuti”, por obra que pretende dar alternativas às crianças que acham densas as estórias infantis de Monteiro Lobato. Agora, ela “regionalizou” uma história e teve a coragem de falar, de forma solta e até honrada, de iniciação feita em Cuba com Gabriel García Marquez. Pois bem, sofreu críticas sobre o seu enredo e tessitura. Ela deve perseverar.
As duas não mereciam esse preconceito. Mesmo apresentadas por editoras seletivas – e de porte – sofreram por não participar do círculo concêntrico dos que pretendem ter a primazia de ditar “quem é quem” na escrita neste Brasil de tão parcos leitores. As grandes livrarias brasileiras, depois da injeção de capital pelo lançamento de ações na Bolsa de Valores, vendem mais autoajuda, CDs e revistas que livros de verdade.
Sabem os escritores de fato que a literatura é defesa às contundências do lugar comum, do óbvio que deleita os que não têm vocabulário restrito ou pouca imaginação para mergulhar no escafandro do conhecimento. Por outro lado, esses mesmos críticos do sudeste tecem loas ao refinamento de Cristovão Tezza em “O Professor”. É claro que é um bom livro, mas é fórmula muito em uso na Europa e Estados Unidos. Heliseu, o personagem, revive no dia em que será homenageado por sua carreira de professor e filólogo, a sua existência. Ele repassa a sua história pessoal, as desditas familiares, a morte da mulher, um caso de amor com colega francesa, a distância e brigas com o filho, dúvidas na escolha da gravata e, por fim, a consciência de que a matéria que consumiu a sua vida está em extinção, enquanto emerge a força da linguística. Veste um paletó preto, sem gravata, e sai solitário para o último tributo. A trama urdida tem similar.
É questão de gosto, nada contra Tezza. Ele escreveu como quis e o fez bem, mas porque será que nós, desta banda do Brasil, somos tão discriminados? O governo de Pernambuco – não só o atual –, pelo menos, criou a revista “Continente”, que é editada pela Imprensa Oficial com primor e dá espaço aos nomes mais significativos das letras maurícias. Rachel de Queiroz foi a última cearense na Academia Brasileira de Letras. Com um detalhe: ela morava no Rio, desde sempre.
Talvez seja por tal razão que estejamos ilhados em nossas “igrejinhas” e turmas, sem que se formulem ideias para dar realce aos que merecem. Não há, faz tempo, sintonia fina entre a Secretaria da Cultura e as nossas principais instituições literárias. A opção – e brigas – por editais e a vinda de nomes pouco celebrados parece ser a constante. E, por favor, não remontem o modelo ultrapassado de bienais do livro, amontoado de encalhes de editoras, palestrantes manjados de um “Road show” já carcomido pelo tempo e as visitas guiadas de estudantes de escolas públicas, estranhos no ninho pela deficiência endógena do tema literatura nas grades curriculares.
É hora de desafios. Tirar crianças da frente de joguinhos coloridos e sonoros de um computador ou celular é desafio para todos os que querem ver o Brasil sair do atoleiro da ignorância que nos fere a alma.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/04/2014.

Sem categoria

TORRES NA ABL – Diário do Nordeste

Estive no Rio, na Casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras-ABL. Era a posse do renomado escritor brasileiro, nascido na Bahia, Antônio Torres, na noite da última quarta-feira. Cerimônia de gala.
Para alguns, pode parecer anacronismo o trajo, o fardão e o ritual solene da iniciação de novo componente daquele sodalício que reúne 40 dos mais expressivos cultores da cultura, da literatura e da inteligência brasileira. Ali se amanhã a linguagem culta, carente no Brasil.
Antônio Torres chegou lá com o embornal pleno de obras, a lucidez do jornalista que se exercitou na publicidade e, em especial, pela escritura judiciosa de cronista diário e ficcionista em apogeu.
O jeito simples de viver, quase franciscano, acolitado pela maturidade existencial, é a certeza de que honrará e resplenderá na ABL
Ele ocupará a cadeira de Machado de Assis com renome e glória por seu cabedal literário, que se iniciou com “Um cão uivando para a lua”, passou por “Essa Terra”, “O Cachorro e o Lobo” e não terminará tão cedo. Torres obteve o reconhecimento do governo da França ao lhe conceder o título de “Chevalier des Arts et de Letres”; “Hors concours”.
Aqui, da União Brasileira de Escritores; e os prêmios nacionais “Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro; e o “Machado de Assis”, da própria Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra, já em 2000.
Antônio Torres já visitou o “Clube do Bode”, é amigo de escritores cearenses e, para mim, foi uma honra representar a Academia Cearense de Letras naquela solenidade fulgente.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2014

Sem categoria

UM RIO DE RECORDAÇÕES – Jornal O Estado

“O tempo não existe. Só existe o passar do tempo”. Millôr Fernandes nasceu e morreu no Rio.
Estou no Rio de Janeiro, esta cidade que descobri na juventude e a ela me afeiçoei. Cheguei ao “Santos Dumont” e não havia ninguém esperando. O telegrama atrasara e a tia não estava lá. Táxi, mala na mão, fui ter ao Hotel Mem de Sá, Lapa, por indicação do motorista. Defronte, o Instituto Médico Legal, com o som das sirenes das camionetas chegando e saindo, me causava medo. Era noite e tudo me parecia estranho. Olhei, tomei as referências da localização do hotel e me aventurei pelas vizinhanças. Não sabia que estava em área perigosa, e o novo, tal como ainda hoje, me fascinava. Vi os arcos da Lapa, moças da noite, circulei e recolhi-me. Porta calçada por um móvel.
Depois, dei com a tia e fui me empanturrando das belezas, das cores e dos cheiros do Rio, essa cidade de tantas faces e de faceiras mulheres, em toda a sua grandeza, desde os confins das zonas norte e oeste, para onde me levavam a curiosidade, os ônibus e os trens, a partir da Central do Brasil, na Av. Presidente Vargas. Copacabana era mais brejeira; a Av. Atlântica não havia sido alargada e o bondinho do Pão de Açúcar ganhou mais um passageiro. Meus olhos eram binóculos perscrutadores da mata, do mar e da enseada de Botafogo. Desci e de pé, na Praia Vermelha, sai deambulando pela avenida sombreada que mostrava, de um lado, os prédios de diversos cursos da antiga Universidade do Brasil e, do outro, a opulência do Iate Clube do Rio de Janeiro.
Era a primeira vez. Foram tantas, depois. Cheguei, já profissional, até a cogitar morar por lá nos anos 1970; tive sala, trabalhava, mas o umbigo e a família me chamavam de volta. Fazia do trajeto Fortaleza – Rio uma constante ponte aérea. Eu me embrenhava pelas avenidas Rio Branco e Pres.Wilson, ruas 1o. de Março e México e outras mais, no centro, para provar que sabia estudar e fazer r planos e projetos. Vaidade boba. Assim foi. Assim não é mais.
Hoje, décadas depois, ainda resta sentimento de pertença, essa liga invisível e indizível, que me faz andar por sua orla, ver os castelos feitos de areia e a estátua de Carlos Drummond de Andrade (“Não há vivos, há os que morreram e os que esperam a vez”). Certa vez, encontrei um grupo de contracultura “Ratos di Versos” e aí me quedei a ouvir poesias, divagações filosóficas e o pulsar da ingenuidade dos que ainda acreditam que a cultura pode transformar o mundo. No posto Seis, onde sempre me quedo, vejo aposentados jogando damas e gamão, enquanto alguns raros pescadores fundeiam seus barcos aos pés da Fortaleza militar que separa Copacabana de Ipanema.
E me repito ao falar que tantas vezes vi Oscar Niemeyer – que não usava o Soares do seu pai, embora assim registrado – descer do carro Dodge que o trazia, na esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica, para dar algumas passadas, com seu blazer marinho, sapatos com saltos mais altos que o normal – sem atentar que era grande não em estatura, mas por sua obra universal – e chegar ao seu escritório na cobertura de um velho prédio com varandas em semi-círculo, a metros dali.
Faço-me passadista, e isso não fica bem para quem imagina ter muito ainda o que fazer e, não sei por que, vem a lembrança da morte do José Wilker, na madrugada do sábado passado, esse artista completo que a cidade de Juazeiro do Padre Cícero presenteou ao Brasil. A mim, não vidente de novelas, Wilker causava-me bem quando, em canais não tão comerciais, fazia críticas de filmes com aquela voz performática que dele se apoderou. Pois é, sexta passada, fazia planos para o aniversário da filha no dia seguinte. Dormiu e a nefanda o levou. Ela desfaz planos, sorrateira e enigmática.
Agora, estou aqui neste Rio de todos os meses, entrando em botecos, misturando-me ao povo, essa gente que faz essa cidade de tantas caras e almas sofridas ainda conseguir ser alegre e acolhedora, mesmo que a violência não conceda a liberdade para sermos mais abertos, simples e comunicativos. A violência e a nefanda estão soltas, não só nesta terra em que o governador atende pelo nome estranho de “Pezão”, mas em todas as partes deste Brasil ainda varonil, mas nem tanto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/04/2014

Sem categoria

JOVENS DO BRASIL – Diário do Nordeste

Há, no Brasil, 29 milhões de jovens, entre 15 e 24 anos. Os dados são do IBGE, de 2012. Desse total só 40% havia concluído o ensino fundamental; 27% o curso básico, e 10% faziam o superior.
A primeira questão a ser levantada é sobre a qualidade do ensino, em todos os níveis, e a pressa do Ministério da Educação em mostrar números que façam o Brasil aparecer melhor no “ranking” de países com perspectivas para os jovens no mercado de trabalho.
Entrevisto jovens a procura de oportunidades de ocupação. É, quase sempre, uma lástima o conteúdo de pequeno texto, de punho próprio, falando das razões pelas quais mereceria tal chance.
Não há o menor cuidado em conteúdo e forma. Essa constatação dá pena, pois diz da baixa qualificação recebida nas escolas e faculdades que frequentaram. Desses 24 milhões de jovens, mais de 15 milhões moram no norte e no nordeste.
A matriz de tudo está na pobreza endógena não erradicada. Causa espanto em face da crescente necessidade de recursos humanos qualificados. Acresça-se a evasão escolar, pois: “além disso, 630 mil jovens não chegaram a completar um ano de estudo, ou seja, nem mesmo a primeira série”, conforme o professor Laércio Menezes Filho, titular da cátedra IFB e coordenador do Insper, no “Valor”.
Neste 2014 teremos eleições e o resultado já nos parece turvo. Por quê?Dia desses, recebi vídeo com perguntas simples, primárias até, a pessoas adultas e eleitoras. As respostas dão pena pela inconsequência, ingenuidade e a falta de qualquer juízo de valor. Como ter fé?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2014.

Sem categoria

O TATU-BOLA E O DICIONÁRIO – Jornal O Estado

“A alegria torna o homem sociável, a dor individualiza-o.” Friedrich Hebbel, poeta e dramaturgo alemão(1813-1863). Diários, 1847..
Uma cadeira cedida e eis-me amigo de Ingrid Schwamborn, professora PhD, alemã e apaixonada pelo Brasil. Faz mais de um lustro. Nesse tempo de e-mails trocados e raras conversas não virtuais, já confundimos ideias, discutimos, divergimos e, afinal, parece consolidar-se esse liame intelectual que se alimenta de dissonâncias e uma negociada harmonia.
Neste 2014 ela investe, juntamente com Rodrigo Castro e Hans-Jürgen Fiege na criação um dicionário alemão-brasileiro sobre palavras usadas no cotidiano do futebol.Insere o Tatu-bola como representação simbólica da fauna nacional pela sua similitude com o esférico que já teve o nome de pelota.
O curioso animal, cujo nome tem origem tupi-guarani, foi, em 2012, proposto por Rodrigo Castro, da Associação Caatinga, do Ceará, à Fifa, em Zürich, como mascote para a Copa de 2014. O intuito era chamar atenção a essa espécie em perigo de extinção e protegê-la no seu habitat, a caatinga. Foi aceito.
A bola, hoje feita por multinacionais de equipamentos para o esporte, recebe tantos requintes que, em tempo não muito distante, dirá, através de chips, ao árbitro – que já foi juiz, referree, schiedsrichter e que tais – de suas queixas e dos maus-tratos sofridos quando as garras, das hoje sofisticadas e coloridas chuteiras, a maltratarem.
Fui menino acompanhando meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, duas vezes presidente do Fortaleza Esporte Clube – desde a sede da Rua Júlio César – assim nomeado em homenagem a Fortaleza, uma das doze cidades-sede de jogos da Copa do Mundo. Com meu pai fui a treinos, concentrações e jogos.Tive tristezas, desapontamentos e alegrias. Registro, ainda hoje, o prazer de ter visto o Estádio do Maracanã, com o seu maior público(183.000) de todos os tempos, quando o Brasil venceu o Paraguai por 1X0, nas eliminatórias da Copa de 1970. Hoje, sou conselheiro do mesmo Fortaleza, clube que me faz voltar a ser menino e mexe, acreditem, com as minhas sístoles e diástoles.
Nesse dicionário bilíngue, une-se o português do Brasil – que difere do falado e escrito em Portugal – ao alemão. Cada povo vê e usa de maneira diferente o seu vernáculo. O futebol, palavra e jogo, tem raiz britânica, mas Ingrid, com a lupa de historiadora que é, repercutiu a paixão familiar dos velhos tempos. Era a época em que os passes magistrais de jogadores – players, spieler – do meio campo (half, mittelstümer), para as cabeçadas certeiras de um forward,stümer, hoje atacante, contra goalkeepers, torhüter, que tornaram-se goleiros e arqueiros.
Sabe-se que futebol é uma guerra festiva. O gol é o objetivo, mas, para isso, é preciso fazer várias “blitzen” e desmontar a defesa “inimiga”. Estamos às vésperas da Copa do Mundo de Futebol de 2014. A Fifa, senhora guardiã dos direitos do “football association” ao redor do mundo, impõe regras.
Os 90 minutos de cada jogo disputado pelas 32 seleções foram precedidos de projetos, análises, vistorias, acidentes de trabalho, lutas para comprar ingressos, diversos protocolos e, claro, mídia intensa. O Brasil espera alegria, festa e congraçamento. Que não ocorra o contrário.
Volto ao Dicionário. Desejo que seus futuros usuários façam bom uso das palavras e as empreguem de forma fraterna. Mais cedo do que imaginamos a Copa acabará e, nós, voltaremos às vidas cotidianas. Teremos, entretanto, pronto para consultas, um singular glossário bilíngue que fez de um animal silvestre o seu símbolo. O tatu-bola, quando quer, vira bola. Mas, de repente, se abespinha e deixa de sê-lo. Então, livre, desliza sobre a ravina e procura o seu canto preferido.
Com o dicionário vai emergir o alemão para expressões futebolísticas brasileiras, em ordem alfabética e didática. E, os brasileiros vão entender os xingamentos deles. Até o ministro dos Esportes, Aldo Rabelo, defensor ferrenho da nossa nacionalidade – insistia que a palavra futebol, de origem inglesa, fosse mudada para “ludopédio” – vai escrever sobre o Dicionário Fussball mit Tatu-Bola, ou o “Futebol com Tatu-Bola” que deverá estar pronto antes de junho.
Todos terão acesso, de forma descontraída, às múltiplas faces do mundo do futebol e do conhecimento, esse que nos concede a verdadeira liberdade de criar o que queremos. Aguardem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2014.

Sem categoria

CAFÉ AOS DOMINGOS – Diário do Nordeste

A distância a cumprir era curta. Ligar o carro, auscultar a rua, dobrar à esquerda e, pouco mais além, tomar a direita.
Seguia e parava o carro do lado oblíquo, a procura de sombra. Tocava a campainha, mas as grades, com pontas em flechas, deixavam ver tudo. O “Tico”, pequeno cão meu que foi ficando por lá, latia de rabo eriçado e, súbito, voltava para ela.
A grande mangueira, verdejante, nos recebia e despejava sombra no jardim. Mas havia banco, cadeiras de ferro, profusão de plantas, de palmeiras a samambaias.
Vencida essa entrada, chegava-se na sala onde, na cadeira de balanço, ela lia o DN e recebia a todos, com prazer.
Levantava a vista, recebia o afago e o pedido de bênção. Trocávamos prosas e notícias.
À mesa havia suco de laranja, mamão cortado, pão, tapioca, ovos, queijo, leite e café sem açúcar, única exigência minha. Ela sentava na cabeceira e dava conta de tudo, sem esquecer-se do “Tico”, a seus pés. Todos, filhos, netos e bisnetos, iam chegando e traziam conversas. Ela as aceitava ou não, sem pestanejar. Era o comando. Ano passado, fui a uma feira de numismática e trouxe cédulas de 500 cruzeiros. Dei uma a ela. Olhou: está pensando que sou boba. E riu. Este começo de ano a saúde dela rateava.
Sabíamos que estava indo. Ela entoava jaculatórias e respondia ao Pai Nosso e a “bênção” que eu oferecia, como se padre fosse. Agora, não há mais café aos domingos. Não voltei lá, ainda. Passei ao largo e mirei de esguelha. As folhas da mangueira farfalhavam. Jardim sem margarida. Neblinava. O resto era silêncio e sentimento.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2014

Sem categoria

MENINAS E VACINAS – Diário do Nordeste

Sabemos que a área de saúde atua por campanhas para prevenir despesas públicas com o tratamento de futuras doenças. Desde alguns anos, achou-se necessário distribuir preservativos para jovens o ano inteiro.
Sei que o mundo é livre para quem não sabe ainda o alcance dos seus voos. Os limites são fundamentos passados pela família, pela escola, pela fé ou pela turma da rua, da esquina, do futebol, da roda de samba, do trabalho. E a vida vai. Depois do carnaval neste março de confusão entre a Rússia e a Ucrânia, dos atritos entre alas do PMDB e o Palácio do Planalto, emergiu, na última segunda-feira, a boa campanha de saúde pública para vacinar meninas entre 11 a 13 anos contra o HPV (Papiloma Vírus Humano). O HPV pode causar câncer de colo de útero e outras doenças genitais. É preciso que as famílias entendam que as jovens devem ser vacinadas contra o HPV antes do início das suas vidas sexuais. Isso não significa dizer que a vacina libera a jovem para a vida sexual. Não, nada disso. Serão três doses: uma agora; outra, daqui a seis meses, em agosto; e a última, daqui a cinco anos. Este registro foge ao escopo do que escrevo, mas o faço por saber que, baseado em dados estatísticos, 5.000 mulheres morrerão no Brasil, neste 2014, de câncer de colo de útero e outras 15.000 serão infectadas pelo HPV.
Ao receber as doses da vacina, a jovem cria anticorpos, mas isso não a liberará das prevenções indispensáveis ao longo da vida adulta.
Que pais e filhas se unam e conversem abertamente, antes que as mídias sociais o façam com os equívocos de sempre.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2014.