“Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta é preciso recontar.” André Gide, escritor francês, Nobel de Literatura, sec. 20.
Comecei a trabalhar aos 14 anos. Meu pai havia assumido a vereança em Fortaleza e, entusiasmado, delegou a mim a oportunidade de gerir os negócios dele. Fi-lo(obrigado, Jânio Quadros) por anos. Comprei carros à prestação e os coloquei para render. Com as rendas, pagava o que devia. Ainda estudante, colega de Marcelo Duque, comprei lotes à prestação do “Sítio Carrapicho”, outros do Joãozinho Gentil e do Zezito Tavares. Terras me atraiam. Herança portuguesa?
Na primeira viagem ao Rio, resolvi levar sandálias para vender. Procurei um fabricante na Rua Saldanha Marinho e disse que seria tudo em consignação, termo que expliquei com paciência, e pagaria na volta. O que cumpri. Entrei no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva – CPOR, na arma de Infantaria, com curso aos finais de semana e nas férias, com duração de dois anos. Depois, servi em São Luiz do Maranhão, como oficial, por três meses. Enquanto isso, fazia duas faculdades, uma pela manhã, outra à noite. Um dia, meu pai me diz: “vou ser candidato a deputado” . Respondi: não voto no senhor e ainda farei campanha contra . Política não tem nada a ver com o senhor. Ele acordou e foi cuidar do que era seu. Nunca pedi dinheiro emprestado a bancos e tampouco solicitei aval, nem a meu pai.
Antes mesmo de concluir o curso de Administração, resolvi abrir uma empresa da área. Tudo era novo nesse ramo. Aluguei um sobrado na Rua Sólon Pinheiro, 316, e passei a planejar e a dar aulas no que seria hoje um curso breve de gerenciamento. O ex-secretário de estado, e hoje empresário Raimundo Viana, foi um ilustre aluno. Comandei, junto com Ary Bezerra Leite, grande pesquisa sobre transportes em que precisei contar com todo o efetivo da então Escola Industrial do Ceará. Convenci o então diretor, Roberto Barreto, que seria proveitoso para os alunos ter essa prática. E assim o fiz. Mudei para o Ed. Jalcy, da Guilherme Rocha, no sexto andar.
Aí Fernando Távora Filho me convida para ser gerente da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações, Cocesp. Entrei firme, exigente e apertei tudo o que poderia fazer em uma empresa pública. Devolvi presentes. Transformamos a Cocesp na Companhia Cearense de Saneamento – Cocesa, embrião da atual Cagece. Construímos a mesma sede que ainda está lá perto do velho Aeroporto Pinto Martins
Danilo de Abreu Pereira Marques, colega de turma que frequentava o Naútico, apresenta-me ao engenheiro Elano Paula, irmão do Chico Anísio, e dono da Incosa, Indústria e Comércio S.A., empresa de engenharia na Rua Meton de Alencar com Senador Pompeu, que planejava ingressar na área de habitação. Por minha auto confessada curiosidade de leitura, era sabedor – até hoje não sei a razão dessa bisbilhotice – do conteúdo de todos os livros verdes que continham a legislação básica do Banco Nacional da Habitação- BNH. Elano me desafiava a resolver o credenciamento da Incosa como Iniciadora, nomenclatura dada às empresas que podiam operar com o Sistema Financeiro da Habitação. Fui ao Rio, resolvi tudo e despedi-me da Cocesa. Sequer recebi o FGTS. O advogado Alberto Rola sabe disso.
Em seguida, Elano Paula conhece o jovem, comunicativo e brilhante engenheiro civil Walder Ary, já professor da Escola de Engenharia da UFC, e, juntos, constituem a Master Engenharia que, tempos depois, passaria a ser Master-Incosa. E eu no meio desse turbilhão de ideias que surgiam e deram origem à Domus-Associação de Poupança e Empréstimo, da qual fui fundador e até presidente do Conselho de Orientação; a Modulus – APE, em São Luiz, e tantas outras empresas correlatas e afins surgiam ou se agregavam. Foi assim com os então capitães do exército João Batista Fujita e Crisanto Ferreira de Almeida, que já trabalhavam com engenharia no Batalhão de Cratéus e desistiram da caserna. Associaram-se ao engenheiro civil Cleuton Monteiro e a Construtora Estrela apareceu no cenário do “boom” de casas populares. Até o Deusmar Queiroz engajou-se para dirigir a Pax- Corretora de Valores, então de Bernardo Bichucher, e, logo em seguida, comprou a dita cuja e foi o maior adquirente de ações do que se chamava arts. 34/18, de empresas financiadas pela Sudene. As farmácias “Pague Menos” vieram depois.
Era 1969, e por conta de tanto o que fazer, resolvemos, o Nisabro Fujita, o Danilo Marques e eu, fundar a Planos Técnicos do Brasil Ltda que aproveitaria nossa expertise em gestão, planos e projetos. A Planos prestaria serviços a todos e a quem quisesse, como pioneira, na área de planejamento habitacional. Nesse mesmo tempo eu era diretor administrativo da Indústria Plástica do Ceará – IPLAC, empresa que estava hibernada e a ressuscitamos, com a ajuda do Inácio Farias e do Walter Monte. Casei em maio. Dava aulas noturnas na Escola de Administração do Ceará. E, por conta de atuação em congresso -Curitiba – da área virei diretor da Associação Brasileira de Entidades de Crédito e Poupança – Abecip, no Rio.Era energia a todo vapor e viagens em profusão.
Em 1973, fiz uma reflexão e chamei os dois sócios para conversar. Queria me desligar do grupo. Razões pessoais. Comuniquei ao Elano. Ele respondeu: “eu já esperava isso”. O Danilo ficou com o Elano e o Walder. Permanecemos eu e o Nisabro Fujita. Compramos a Cenpla – Construção, Engenharia e Planejamento Ltda e o Nisabro foi construir, mas sem pedir dinheiro ao BNH, fazíamos o possível com o pouco que tínhamos. Dois anos depois, em uma segunda-feira, chamei o Nisabro para dialogar e disse-lhe que desejava me colocar à prova como pessoa, sendo dono do meu próprio destino, sem sócios. Encerramos a sociedade sem problemas. O Nisabro ficou com a Cenpla e eu com a Planos.
Todo este relato, que nada tem de importante, ocorre-me neste feriado do Dia do Trabalho para dizer como a faina acelerada foi decisiva para mim. Acredite, esse batente, por inédito, puxava muito pela minha criatividade, obrigava-me a ler, dialogar com pessoas diversas, viajar pelo mundo afora com a família a ver o novo e o diferente. Prova disso foi, entre outras, a minha ideia de planejar o Cemitério Parque da Paz, depois vendido a grupo de São Paulo.
Para não cansar mais o amigo leitor, afirmo e dou fé que nunca perdi o viés de alargar o meu conhecimento, através de cursos, seminários, feiras, congressos, concursos técnicos e intelectuais que ganhei em disputas renhidas. Em paralelo, ao meu juízo, nunca deixei de ser pai dedicado. Nunca parei de escrever em jornais, de ter a audácia de escrever livros e de participar de forma efetiva de atividades culturais, de responsabilidade social e de arte.
Hoje, vivo no 14º. ano de um século que veio implodir os processos e formas de quase tudo que se fazia. Tive que me atrever a engatinhar no vasto mundo da Tecnologia da Informação-TI.
Continuo a mourejar com a mesma energia, atitude, impetuosidade e independência. Erro aqui, acerto acolá, sem esquecer que tive sérios prejuízos ao ajudar e até fazer parcerias com pessoas e empresas – não citadas aqui – com falso caráter e comportamento aético. Lições da vida. Esses exemplos vieram comprovar que eu deveria sempre trabalhar com a minha equipe técnica, capaz, confiável e dedicada, mas nunca me associar a terceiros. Bastavam os meus defeitos. Um colega de faculdade e amigo verdadeiro, quase irmão, Ananias Josino Lobo, meticuloso, ponderado e capaz, sempre esteve ao meu lado como contraponto e censor. Até que se finou, enquanto eu andava pelo México. Hoje, tenho pessoas de nível e responsabilidade a meu lado. E estou sempre atrás de talentos. Quem quiser, pode indicar.
Como me torno longo e ainda teria muito a contar, dou os parabéns aos que começam cedo a estudar e a pensar no trabalho, seja ele qual for, sem ter medo de enfrentar o novo, metendo a cara nos livros e, agora, bem mais fácil, no louva-a-deus mundo da Internet, céu e inferno de todos os viventes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/05/2014.