“As cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e medos”. Ítalo Calvino, esc. italiano, sec. XX.
Quase todas as pessoas têm orgulho das cidades onde moram. É importante que isso aconteça, mas é essencial que esse orgulho se transforme em gestos de civilidade. Há sempre reclamações sobre as vias, praças, os parques e as áreas de lazer, mas pouco se fala do mau uso desses equipamentos públicos por parte da população. Qualquer evento coletivo deixa um rastro de sujeira que nos torna céticos em relação aos que dele participaram. Não falo da sujeira gerada pelos ambulantes, tampouco a ação “seletiva” dos catadores, mas as dos que saem de suas casas portando comidas e bebidas ou, os dos que, embora não as levando, as compram e descartam no meio ambiente, sem ter sequer a preocupação de procurar uma lixeira próxima ou levar os resíduos em uma simples sacola. No trânsito, a situação se agrava pelo estresse, aos carros em locais proibidos, aos cones e os serviços de “valetes”, ao uso excessivo de buzinas e ao ultrapassar desafiante dos motociclistas. As cidades estão sempre em obras, e isso é importante considerar. Elas tentam se ajustar ao crescimento da população.
As cidades médias e grandes chegaram a um patamar problemático. O documento da ONU: “World Urbanization Prospect: The 2001 Revision” relata que a população mundial aumentou, no século 20, 1,65 bilhões de pessoas. Em 2011 a população mundial atingiu sete bilhões de pessoas e não vai parar de crescer. O Brasil possui, hoje, 39 cidades com mais de 500 mil habitantes, 23 cidades estão entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, há 14 outras que estão entre 1 e 5 milhões, 1 na faixa entre 5 a 10 milhões e São Paulo ultrapassa dos 10 milhões de habitantes. Isso é problema.
O depoimento do diretor de Soluções de Governo, Saúde e Educação da Oracle, Fernando Faria, feito a Paulo Brito, do jornal Valor, é ponderado: “Atualmente, não adianta, por exemplo, a gente construir um hospital se não embarcar nele as tecnologias necessárias”. O seu alerta vale também para rodovias e portos. Diz Faria: “sem inteligência se compararam a um duto que não tenha sistema de controle”. É preciso deixar claro que a Oracle é uma multinacional que vende sistemas inteligentes, mas isso não invalida a observação.
Do lado do Governo, o depoimento de Alexandre Cabral, diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento, concedido também a Paulo Brito- Valor, assevera que as cidades “são construções sócio-técnicas, como definiu o geógrafo Milton Santos, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: devemos ter a ‘smart prefeitura’, o ‘smart-hospital’ – ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna esse desafio mais interessante”.
Esta digressão parece coincidir com o proposto pelo prefeito Roberto Cláudio ao apresentar o PAITT – Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito para Fortaleza. Recrutou especialistas com boas formações acadêmicas, a consultoria da empresa McKinsey e espera resultados até o fim deste 2014. No site da McKinsey, filial do Brasil, está escrito: “Somos uma consultoria que assessora as principais empresas, governos e organizações sem fins lucrativos, em questões de estratégia, organização, operações e tecnologia”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2014
