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CIDADES, O COMPORTAMENTO DA POPULAÇÃO E SISTEMAS DE CONTROLE – Jornal O Estado

“As cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e medos”. Ítalo Calvino, esc. italiano, sec. XX.
Quase todas as pessoas têm orgulho das cidades onde moram. É importante que isso aconteça, mas é essencial que esse orgulho se transforme em gestos de civilidade. Há sempre reclamações sobre as vias, praças, os parques e as áreas de lazer, mas pouco se fala do mau uso desses equipamentos públicos por parte da população. Qualquer evento coletivo deixa um rastro de sujeira que nos torna céticos em relação aos que dele participaram. Não falo da sujeira gerada pelos ambulantes, tampouco a ação “seletiva” dos catadores, mas as dos que saem de suas casas portando comidas e bebidas ou, os dos que, embora não as levando, as compram e descartam no meio ambiente, sem ter sequer a preocupação de procurar uma lixeira próxima ou levar os resíduos em uma simples sacola. No trânsito, a situação se agrava pelo estresse, aos carros em locais proibidos, aos cones e os serviços de “valetes”, ao uso excessivo de buzinas e ao ultrapassar desafiante dos motociclistas. As cidades estão sempre em obras, e isso é importante considerar. Elas tentam se ajustar ao crescimento da população.
As cidades médias e grandes chegaram a um patamar problemático. O documento da ONU: “World Urbanization Prospect: The 2001 Revision” relata que a população mundial aumentou, no século 20, 1,65 bilhões de pessoas. Em 2011 a população mundial atingiu sete bilhões de pessoas e não vai parar de crescer. O Brasil possui, hoje, 39 cidades com mais de 500 mil habitantes, 23 cidades estão entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, há 14 outras que estão entre 1 e 5 milhões, 1 na faixa entre 5 a 10 milhões e São Paulo ultrapassa dos 10 milhões de habitantes. Isso é problema.
O depoimento do diretor de Soluções de Governo, Saúde e Educação da Oracle, Fernando Faria, feito a Paulo Brito, do jornal Valor, é ponderado: “Atualmente, não adianta, por exemplo, a gente construir um hospital se não embarcar nele as tecnologias necessárias”. O seu alerta vale também para rodovias e portos. Diz Faria: “sem inteligência se compararam a um duto que não tenha sistema de controle”. É preciso deixar claro que a Oracle é uma multinacional que vende sistemas inteligentes, mas isso não invalida a observação.
Do lado do Governo, o depoimento de Alexandre Cabral, diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento, concedido também a Paulo Brito- Valor, assevera que as cidades “são construções sócio-técnicas, como definiu o geógrafo Milton Santos, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: devemos ter a ‘smart prefeitura’, o ‘smart-hospital’ – ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna esse desafio mais interessante”.
Esta digressão parece coincidir com o proposto pelo prefeito Roberto Cláudio ao apresentar o PAITT – Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito para Fortaleza. Recrutou especialistas com boas formações acadêmicas, a consultoria da empresa McKinsey e espera resultados até o fim deste 2014. No site da McKinsey, filial do Brasil, está escrito: “Somos uma consultoria que assessora as principais empresas, governos e organizações sem fins lucrativos, em questões de estratégia, organização, operações e tecnologia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2014

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SISTEMA “S” E O HOJE – Diário do Nordeste

A estrutura sindical é resultado dos períodos ditatorial e democrático de Vargas, ampliada na Constituição de 1988. Hoje, outros tempos, permanece onerosa no país perdido entre o passadismo erradio e um futuro incerto. Não se fala apenas em sindicatos. Escrevem mal sobre parte de federações e confederações de trabalhadores e patrões. Os “S” seriam focos de: dominação, desperdício, compadrio com o poder, premiações anuais interesseiras, pesquisas direcionadas e abrigos de “ex-tudo”. Há exceções, é claro.
Existem denúncias públicas. Exemplo: o uso explícito da máquina de poderosa federação sudestina para alavancar candidatura a governador de Estado. O país “S” gera lobistas/atravessadores, assessores, vereadores, deputados e senadores; é luta pelo poder, sem coerência institucional ou ideológica. Os bilhões de reais anuais das contribuições sindicais de empregados e patrões são, apenas em parte, investidos em treinamentos e formação de força de trabalho. Cita-se que há, quase sempre, pagamento adicional para a obtenção de vagas nos cursos nos “S”. Cofres cheios. Há estrutura mastodôntica, empregos “vitalícios”, prédios suntuosos, viagens gratuitas pelo Brasil e exterior. Eleições com cargos disputados, (des) acordos entre facções. Se o que lê parecer grave, veja só um exemplo: os jornais Valor e Folha de SP, 27.02.2014, publicam nota paga pelo SENAC-RJ contra o presidente da Confederação do Comércio, há quase 40 anos no poder.
Autofagia exposta. É hora de as mídias, o TCU, o MPF e o Congresso Nacional reverem essas capitanias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/03/2014.

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O OSCAR-14, A ESCRAVIDÃO DE TODOS. A LIBERTAÇÃO NA REBELDIA – Jornal O Estado

“O cinema não tem fronteiras,
nem limites. É um fluxo constante
de sonhos”. Orson Welles, ator e diretor americano (1915-1985).
Escrevo sobre o Oscar-14 com a (des)responsabilidade de cinemeiro. Cinemeiro é aquele que vai ao cinema com olhar mais atento, ouvido aguçado, mas não possui a cultura focada do crítico de cinema. É descompromissado, mas é olhar sutil, diferente, e se enleva em ver filme em tela grande, sem papo com acompanhante, e fazendo “psiu” quando há barulho na sala. Pois bem, vi alguns dos indicados e após ficar intrigado com a súbita e breve aparição do Brad Pitt (nas cenas da construção de um pavilhão agregado à Casa Grande) nos “12”, procurei entender. Ele é o produtor de “12 Anos de Escravidão”, baseado em livro autobiográfico de Solomon Northup, publicado em 1853. Chiwetel Ejiofor, britânico, filho de pais nigerianos, poderia ter ganhado o Oscar de melhor ator, mas seria demais para a vetusta Academia. O meu preferido era Bruce Dern, ator de Nebraska. Esse filme é lindo em conteúdo e eloquente na ausência do recurso moderno das cores. Preto e branco, legítimo.
Fez-se a abertura e um inglês, negro, Steve McQueen (nome homônimo de um velho ator americano de filmes de farwest), diretor de “12”, ganhou o Oscar de melhor diretor. Além disso, a atriz coadjuvante, Lupita Nyong’o, de nacionalidade queniana, mas naturalizada mexicana, ganhou o prêmio de sua categoria. Por outro lado, a relação de amor-ódio da Califórnia e dos EEUU com o México decidiu premiar “Gravidade” – com sete indicações – como o melhor filme e o Oscar foi para o diretor mexicano Alfonso Cuarón. Outro mexicano, Emmanuel Lubezki, ganhou o Oscar de fotografia.
O Brasil, entretanto, teve um prêmio de consolação. A mulher de Matthew McConaughey, prêmio de Melhor Ator, por “Clube de Compras Dallas”, é a modelo brasileira Camila Alves. Fato instigante: um repórter, pós-premiação, perguntou à Camila como era Matthew em casa. Ela, súbito, respondeu: “Quem é esse cara (referindo-se à interpretação dele) romântico, podemos trazê-lo para casa só um pouquinho?”. Eles têm três filhos e são casados, de verdade.
Sabe-se que os EEUU, especialmente, a quase metade republicana, ainda não absorveu o mundo sem fronteira de cor e religião. Os Wasp (White, branco, anglo-saxon(ão) e protestant(e)) já deixam de ser a maioria da “terra dos bravos” e resistem em aceitar Obama. Além de negro, foi sido eleito, por ser culto, desenvolto, articulado, e reeleito. Michelle, sua mulher, com seu ar blasé, na Casa Branca, não foi submissa, como deveriam ser as escravas retratadas no “12”. Ressalve-se que Lupita, ganhadora de melhor atriz coadjuvante, não aceitava ser a “negra preferida” para saciar os desejos de seu amo branco. Foi essa revolta encenada que a fez ganhadora. Com méritos. Acrescentando-se que no seu discurso de agradecimento ela mostrou cultura e desembaraço, forjado na mistura de sua origem africana, a opção pela cidadania mexicana e a formação acadêmica nos EEUU.
Hoje, fala-se muito em igualdade, cotas raciais –contra e a favor – e os frutos dos movimentos libertários eclodem em todo o mundo. Não apenas no orbe ocidental – que pensamos ser o centro do planeta. Em todos os demais continentes há insatisfeitos, seja por questões de fé, raça, ideologia, gênero e cultura.
O mundo dos “sabidos” precisa absorver o que o século 21 vem, atabalhoadamente, mostrando: há outras faces e fases emergindo e não se pode mais pedir que “eles”, os outros, fiquem no seu lugar. “Eles” fazem parte do nós e hão que surgir pequenos e grandes estrondos para, depois, reinar a paz entre os homens. Enquanto isso, se briga por fronteiras, migração/imigração, cobiça, tênues e já vagas noções de ideologias que vieram do iluminismo, do século 19 e percorreram grande parte do último.
Voltando à “sétima arte”: é bom que neste 2014 os membros do “establishment” tenham acenado para povos, histórias e países diferentes. Esse ponta-pé começou, mambembe, em 1914, quando Charles Chaplin com suas metáforas no cinema mundo, apareceu em “Making a Living”, traduzido no Brasil como “Carlitos Repórter”. Sobre Chaplin falarei depois.
Resumindo e concluindo, sair de casa e ir a um cinema de tela grande, é forma lúcida de conviver com as diferenças, com a loucura dos enredos, aprender alguma coisa que sirva para entender que nenhum de nós é tão importante que não possa ser confundido como escravo, independente da cor de nossa pele. Só há uma fórmula para isso não acontecer: conhecimento, preparo e rebeldia consciente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/03/2014.

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D. MARGARIDA: CIDADÃ, MULHER, MÃE E MESTRA – Jornal O Estado

Imagine Fortaleza no começo dos anos quarenta. 180.000 habitantes, pacata e brejeira apesar da guerra que se iniciara no mundo e só terminaria em 1945. Havia festa na cidade. No adro de uma igreja, novena e singela quermesse aproximaram, pelas artes sutis do encontro, dois jovens bem apessoados. Olharam-se de forma extremada. Esqueceram os demais. Ali começava, sem que soubessem, uma história que eclodiria em muitas outras vidas. Ele, recém-fugido – a pé- do Seminário de Canindé, dos Capuchinhos Alemães de São Francisco, seu onomástico. Ela trabalhava no laboratório do Dionísio Torres, seu padrinho de batismo, onde se fazia perfumes. De certo, ela cheirava bem. Enlaçaram-se com a coragem e a garra dos que, nada tendo, dispõem-se a selar pactos de amor e luta. Pois foi assim. Ele, Francisco Bezerra de Oliveira, ainda sem profissão definida, disse ao pai que iria casar e pediu sua bênção. O pai, João Soares de Oliveira, atônito, teve que aceitar a decisão do quase menino que iria desposar a jovem Margarida. Casaram-se e, para amansar o desencanto do pai, prometeram que dariam ao primeiro filho, se homem, o seu nome. E aí nasce João Soares Neto, o primeiro filho desse casal destemido.
Hoje, neste 25 de fevereiro de 2014, morreu Margarida Caminha de Oliveira, a jovem que tornou-se mulher, mãe, avó e bisavó. Meu pai faleceu, de infarto, em 21 de novembro de 1991. Daí para cá, ela reinava soberana nos jardins e na casa da família, curtindo – pelo resto da vida – o casamento que durou 51 anos. E dessa união nasceram João, José, Francisco, Maria Célia, Maria Simone, Liduína, Luiza Helena, Ricardo e Pedro Henrique. Todos estudaram em escolas privadas, alcançaram formação universitária, viraram independentes, têm famílias constituídas com filhos, e filhos dos filhos, netos e bisnetos de d. Margarida. Ela nunca deixou de impor limites a todos, puxar as orelhas de cada um, nos tempos e ocasiões devidas. Não era “melosa”, tinha um jeito sincero de abrir sua alma e não queria depender de ninguém. Apenas da d. Zilmar, servidora e amiga, com quem conviveu por décadas.
Agora, ela é saudade, a lembrança entranhada de ensinamentos e sabedoria. Certa vez, em aniversário dela, já viúva, pediram que desse a primeira fatia de bolo a quem mais amasse. Virou as costas, faca em punho e, minutos depois, eis que aparece com várias partes do bolo em um grande prato, servindo a todos. Postura retilínea, sobranceira e digna no seu modo cristão e simples de viver. Leitora atenta de jornais, rejubilava-se por não precisar, financeiramente, de nenhum filho para viver. Havia amealhado para o futuro, este que sempre chega.
Nesta hora, meio confuso, ainda sentindo o calor de suas mãos no corpo inerte ao meu lado, rendo homenagens à sua dignidade, inteireza, liderança aquietada, caridade, religiosidade provada e sentida. As lições que recebemos deram asas para que nos tornássemos cidadãos do mundo, sem medo de atravessar fronteiras rumo ao desconhecido. Seu sangue corre em veias por outros países.
Mais não digo, pois o que escrevo talvez só interesse a mim e à nossa família, mas sintetizo na frase de F. von Schelegel, escritor alemão, o meu olhar sobre d. Margarida, em seus 94 anos de vida: “Apenas em torno de uma mulher que ama pode formar-se uma família”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/02/2014.

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OS ALBUQUERQUES E TANTOS OUTROS, PELO BISTURI HISTÓRICO DE CANDIDO PINHEIRO – Soares Neto – Jornal O Estado

“Este mundo da história certamente foi feito pelos homens; ele traz dentro de si o mistério da mente humana, e é feito à sua imagem e semelhança. Se alguém refletir a respeito de tal fato, certamente provará espanto, considerando que todos os filósofos esforçaram-se para obter a ciência deste mundo natural…” Gianbattista Vico, filósofo italiano, do tempo de Borges da Fonseca.
No dia 28 de julho de 2013 recebi um presente valioso. Um exemplar, em capa dura, com 656 páginas, impresso em papel pólen, usando a tipia American Garamond 12/15, tamanho 23cm x 31cm, com esmerado acabamento gráfico. Tratava-se do primeiro volume – de um total proposto de dez-da genealogia, biografia e história da família “Albuquerque. A herança de Jerônimo, o Torto”. Jerônimo, patriarca de 36 filhos documentados. Essa familiação foi o start up, o ponto fora da curva que caiu no microscópio histórico de alguém com muito que fazer, Cândido Pinheiro Koren de Lima. Ele é médico oncologista e empresário, que foi do zero ao Zenith.
A façanha de Cândido Pinheiro causou-me impacto e deixou provado que o conhecimento é de quem, com fundamentos, dele se apropria, através de estudo percuciente, a partir de informações encadeadas que germinam. Não é o conhecimento dos que apenas se imaginam letrados. É preciso pô-lo à prova e isso ele o fez com a mistura de povos diferentes: muçulmanos, índios, judeus e os portugueses, tido como brancos. Trouxe tudo à tona, de forma judiciosa, destacando esquemas.
A oncologia cirúrgica, especialidade primeira de Cândido Pinheiro, pode ter sido a matriz de seu método investigativo. Ele foi e é um investigante. Seja ao elaborar protocolos cirúrgicos; ao identificar mercado de trabalho médico para, repito, sair do zero ao Zenith. Na maturidade existencial descobriu-se genealogista, com paciência, lucidez e método; insumos básicos para mirar o seu monóculo na nau “Nobiliarquia Pernambucana”, obra capitaneada por Borges da Fonseca no século 18, e ser um remador fundista para extrair em anais, pesquisas, viagens, visitas e estudos a raiz ontológica de seu livro.
Este espaço não me dá suporte para adiantar mais sobre o livro ora enfocado. Deixo claro, de plano, que não sou crítico literário. Mas estas balizas alinhavadas pediam para ser escritas com mais proficiência. Fi-lo como pude, tal um Jânio Quadros atarantado diante da profundidade que Cândido Pinheiro alcançou com uma sonda de diamante imagética. Quem quiser conhecer a obra procure uma boa livraria e faça bom proveito. Como bem o disse Miguel de Unamuno, escritor espanhol do século passado: “ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/02/2014.

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GARAPA DO CEARÁ – Diário do Nordeste

A morte do documentarista Eduardo Coutinho é tragédia que poderia ter sido por ele filmada. O assassino é o próprio filho que, tresloucado, esfaqueou pai e mãe.
Os documentaristas, quase sempre, procuram o surreal e a filma com fingido ou natural distanciamento. Li as palavras de Fernando Meirelles, Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos sobre o grande documentarista que se foi de forma brutal. O fato de ter acontecido no Rio, bairro da Lagoa, no próprio apartamento, mostra que o infortúnio não é privilégio do Ceará. Senti a ausência da fala de José Padilha, o diretor festejado do novo “Robocop”.
Padilha começou documentarista, fez ” Ônibus 174″ e outros. Explico-me: com ajuda federal, através da Caixa, Petrobras, Ancine e do próprio Governo do Ceará, Padilha escreveu o roteiro, junto com Felipe Lacerda, e dirigiu, em 2009, o documentário “Garapa” com foco em três histórias de famílias miseráveis da capital e do interior cearense.
O “sociologismo” usado, a descrição da “verdade”, a filmografia em preto e branco e a fala- ensaiada – de pessoas inocentes para dizer de suas fomes, não engrandecem Padilha.O ufanismo com a sua internacionalização não o redime de usar recursos públicos para filmar a miséria e querer alertar que o “Bolsa Família” não resolve a fome.
É importante, neste 2014, ficar claro o uso continuado dos humildes para a fama de alguns jornais, cineastas, fotógrafos e políticos. Iludem e dissimulam. São cruéis ao mostrar desgraças alheias. São piores que as ralas garapas. Reles beneficiários das “revelações”.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2014

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ÁFRICA DELA, ÁFRICA DELE, ÁFRICA NOSSA – Jornal O Estado

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. Nelson Mandela
A partir de hoje e até o dia 23 deste fevereiro, a Galeria BenficArte (Av. Carapinima, 2200- 2o. piso) apresenta a Exposição: “África Dela, África Dele, África Nossa”, homenagem a Nelson Mandela e a todos os africanos, especialmente aos que, hoje, trabalham e estudam em Fortaleza e em Redenção, cidade que abriga a Unilab – Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro- Brasileira que tem por missão integrar os povos africanos com a cultura brasileira.
O continente africano, sabe-se, é hoje composto de 54 países, sendo 48 continentais e 6 insulares. A colonização é uma longa história que não cabe aqui. Mas é preciso dizer que quase todos os países europeus usaram aquela parte do mundo como predadores. Somente no século passado, mormente após a 2a. Grande Guerra, começaram as lutas para a libertação do jugo a que estavam agrilhoados. Hoje, há um novo avanço colonialista por parte da Índia e da China. George Soros, investidor internacional, comenta que “Índia e China estão em vias de repetir os erros que as potências coloniais cometeram. Há ironia no fato de os velhos colonizadores purgarem seus erros passados, tentando corrigi-los, e os novos colonizadores repetirem aqueles erros”.
Nessa exposição estarão revelados15 desenhos em crayon feitos por Tily Murtala, filho da Guiné-Bissau, estudante de arquitetura na Fanor, já com outras mostras realizadas. O foco de Murtala é a vida de Mandela, em todas as suas distintas fases e faces. O Mandela jovem, o revolucionário, o prisioneiro, o pacifista, o aglutinador, o presidente da África do Sul e o homem respeitado por todo o continente africano e o mundo.
Existirá interatividade com os visitantes. Cada um poderá manifestar-se em painel próprio sobre o preconceito racial e, assistir amanhã, sábado, às 9:00 horas, o filme “Quem Foi Mandela”, seguido de debate com o palestrante João Paulo Pinto Có. Após o filme haverá degustação de comidas típicas africanas. Durante todo o tempo da exposição haverá venda de artesanato e vestuário de diferentes países da África. Você é bem-vindo; a África está aqui. Aproveite.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/02/2014

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O IPTU DE CADA ANO E DE CADA UM DE NÓS – Jornal O Estado

O Prefeito é pessoa capaz, digna e bem intencionada. Participou, como a maioria dos políticos brasileiros, de uma coligação para ser eleito e conseguiu. Depois disso, para ter maioria na Câmara Municipal, houve que assumir compromissos. Dessa forma, o seu secretariado não é o ideal, mas o possível na lógica da prática política em curso, desde sempre. Pedidos são os seus calos diários.
Por outro lado, algumas famílias e empresas, sentindo que o aumento do IPTU foi alto demais para as suas fontes de renda, pediram-me para escrever algo sobre o assunto. Sabedor de viagem do Prefeito, nestes dias, ao exterior, peço que, se tempo tiver, procure saber como as cidades americanas e as da Europa cobram e prestam conta do equivalente ao nosso IPTU. Fluente em inglês, o Prefeito poderá ver que a maioria das cidades detalha, no boleto do imposto municipal de propriedade, quais os serviços que o seu pagamento contempla na região de quem paga. Entre outros: escola pública, proteção contra incêndio, pavimentação, paisagismo, iluminação, limpeza e transporte escolar.
Na verdade, tudo fica muito claro e cada cidadão tem o direito de saber em que o seu dinheiro está sendo empregado na região onde mora. Nessa viagem ao exterior, entre tantas outras que já fez, quer como estudante de pós-graduação, lazer ou em cumprimento de missão pública, poderá formar um juízo de valor equilibrado. Posso estar errado, mas essa será a primeira vez em que verá cidades estrangeiras com a racionalidade de cientista, olhos e sentimentos de gestor de uma cidade complexa e desafiante como a que administra.
Não gosto de repassar queixas, mas há entidades pedindo publicamente detalhes do cálculo do IPTU. Amigos, acadêmicos, professores e profissionais liberais, dizem “do inchaço no orçamento com prestadores de serviços e veículos terceirizados, centenas de funções gratificadas e dos encastelados perpétuos em cargos comissionados”.
Imagino que o primeiro ano de mandato deve ter sido duro e de aprendizado fundamental. Espera-se que este 2014 contenha um escopo de gestão definido, decisivo e incisivo para os que se sentem apenas como pagadores de impostos. Um amigo, engenheiro e apartidário, fala, em e-mail: “numa cidade que não poupa, pois há excesso de retrabalho por serviços e obras mal feitas, máquina administrativa emperrada que não vê o contribuinte como cliente nem como o pagador do que cada servidor recebe no final de cada mês”.
Se o Prefeito tomar conhecimento do que escrevo, em nome dos que me solicitaram, saiba que o tenho em alta conta e não há nenhuma animosidade, mas perplexidade deles ante “o caos em que grande parte da cidade se tornou nos últimos anos por conivência dos que ‘autorizam’ camelôs em pontos fixos; do centro desfigurado; das multas silenciosas em máquinas afixadas em postes como caça-níqueis, sem educação de trânsito; das parcerias, concessões e permissões não clarificadas”.
Aproveite para ver, sondar, inquirir, Senhor Prefeito, nesse tempo de viagem. Ao voltar, percorra a cidade como se fosse turista, não o quase sempre predador da orla marítima, mas os “nerds” e os destemidos “Rondons” e Villas-Boas que desbravam os bairros distantes e se estarrecem diante da miséria aflorada em cada viela das centenas de favelas.
Gostaria de ter dito tudo isso pessoalmente, mas o tempo é curto e muitos são os seus compromissos. Quem sabe, no próximo ano, tenhamos explicitações claras e visíveis sobre o que foi feito com o IPTU de todos nós. A cidade não é a mera soma das suas partes. Ela é mais que isso. Ela possui sinergia e é, como disse o escritor Ítalo Calvino, feita de desejos e medos. Os desejos estão submergindo no medo e nas desesperanças de muitos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/02/2014

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O PAPA E AS POMBAS – Diário do Nordeste

Na manhã do domingo passado, na janela do Vaticano em que costuma aparecer, o Papa Francisco surge de branco, tendo ao lado duas crianças. Um menino de azul e a menina de vermelho. Cada uma das crianças levava, nas conchas das mãos, uma pomba branca. O simbolismo desse gesto pode ter várias interpretações: a libertação, a pureza do branco, o amor de São Francisco pelos animais e os sonhos das crianças sem os pesadelos de outrora com a pedofilia grassada e agora coibida pela Igreja. E outras mais. Livre é o sonhar. O fato é que as crianças cumpriram a sua parte: abriram as mãos e deixaram as pombas voar. Lembro de Raimundo Correia, poeta: “Vai-se a primeira pomba despertada… Vai-se outra mais…”. Logo após alçarem o voo da liberdade, as duas pombas foram caçadas por um corvo e uma gaivota que os levaram pelos bicos. As fotos, como tudo neste mundo do instantâneo, foram parar em jornais e mídias. E ninguém soube do fim dos dois columbiformes. Ao final do papado de papa Bento XVI, houve igual cerimônia e as duas pombas também foram caçadas e atingidas. Assim, nem a austeridade do alemão e a simpatia (atual capa da revista “Rolling Stones”) do argentino deram certo. E “os olhos do Senhor estão em todo lugar”. Prov.15:3. Todos nós, com as nossas ânsias de libertação, somos pequenos para os sinistros corvos e as fingidas gaivotas que nos espreitam nos ares da vida. Fiquemos alertas. Somos bicados pelo governo, pelas angústias da vida, pelas demandas da família, pela violência do dia a dia e nem sentimos os ares. É o “habitat” dos corvos óbvios e das gaivotas dissimuladas.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/02/2014

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A CIDADE, A TECNOLOGIA, O DESRESPEITO OU TUDO JUNTO E MISTURADO – Jornal O Estado

“Nunca espero que um soldado pense” – George Bernard Shaw,escritor irlandês (1856-1950).
Dizia o geógrafo Milton Santos – e quem o complementa é o diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento – queas cidades “são construções sóciotécnicas, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: desejamos ter a smart-prefeitura, o smart-hospital, ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna o desafio mais interessante”. Li este texto no Valor, mas poderia ser em qualquer outro veículo de comunicação.
Existe a boa tecnologia, a tecnologia usada para o bem. E existe a tecnologia usada apenas para punir, multar ou, de forma automática, gerar um boleto, com multa por conta de um atraso de um dia, em face de uma fila imensa que faz idosos passar vexames.
Existem ainda os casos diários de caixas eletrônicos de bancos dinamitados em capitais e cidades do interior, a ocasionar transtornos e prejuízos aos que iriam fazer depósitos/retirada para pagar contas de IPTU, carnês do INSS, água, luz e crediário, e terão que fazê-lo depois da data, com multa. Reclamam eles também – e com razão – das multas aplicadas em semáforos onde os motoristas têm medo de ficar à espera do sinal verde, cercados de estranhos não havendo tráfego que impeça o deslocamento.
Esta semana, por exemplo, um desses jovens impetuosos do trânsito cortou o meu carro pela direita, o que a lei proíbe. Além disso, trancou a via, desceu como um desesperado, ignaro que era, e dirigiu-se a mim. Fechei o vidro e ele deu pancadas. Abri uma fresta e disse que ele nem sabia que cortar pela direita era irregular. Um imbecil. Poderia ter havido mais um crime ou, pelo menos, uma luta corporal. E isso acontece a todo instante.
Um Cônsul honorário, em plena Aldeota, levou um tiro de raspão na boca, teve o seu carro levado (depois encontrado) e passou horas seguidas, na madrugada, para fazer um simples boletim de ocorrência e a identificar os meliantes.
Dia desses, fui abastecer o carro. Ao meu lado, no posto, estava um veículo médio com um grande equipamento de som que tomava todo o bagageiro. Esse som refletia luzes intermitentes e era testado pelo cioso proprietário a se acreditar um DJ (disk jockey) volante. Ele faz parte da grei dos atormentados, dos que não conseguem distinguir barulho de harmonia melódica. Dos que ouvem essas “músicas” em altíssimos decibéis com letras de verso de pé quebrado e sentidos chulos.
Talvez eles tenham como referência, quem sabe, o astro (como era mesmo o nome dele?) da série Velozes e Furiosos, recentemente, falecido em uma colisão em alta velocidade. Ou, quem sabe, são admiradores de ídolos como Justin Bieber, preso ao participar de um “pega”, em Miami, em carro da locadora de Felipe Massa. Bieber dirigia no dobro da velocidade permitida e teria usado álcool e outras drogas.
Voltando ao início da conversa, as cidades não precisam apenas de tecnologia, mas de administrações atentas ao conjunto das suas partes. Este texto coloca “junto e misturado” assuntos distintos que fazem a crônica (policial e social) das cidades, ou vão parar nas colunetas que inventam celebridades ocas, a confundir e infundir modos e modas em jovens ainda incapazes de ajuizar as distinções entre o bem e o mal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/01/2014