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A CASA E A RUA – Diário do Nordeste

Nós, os animais que falam e pensam, vivemos em casas e nas ruas. Óbvio. O não óbvio é a forma como experimentamos hoje a noção de casa e rua. A casa era ambiente prazeroso, lugar de enlevo e reunião da família. Passou a ser casamata, fortificação a nos guardar do perigo. Elas precisam de fechaduras duplas ou triplas, grades, alarme, cercas elétricas interfone/vídeo.
Não pensem ser isso privilégio da classe média para cima. Não o é. Em qualquer cidade brasileira, pequena, média ou grande, há um sentimento de medo geral e nos trancamos. Pobres, medianos e ricos. Liga-se a TV. Jorra a anunciação dos roubos, assassinatos, estupros e assaltos praticados no dia anterior e até no mesmo dia.
Essa busca de audiênciacruenta domina os horários do começo das noites na maioria das emissoras de televisão. As de rádio têm a obrigação de chegar rápido no local do crime ou da perversão. Há uma lógica nefanda na concepção da grade de programação aflitiva das emissoras de rádio e TV. É uma síndrome deletéria a unir parte de policiais à um préstito da imprensa na divulgação do infortúnio ou de fatos escabrosos. Se estiver errado, por favor, aceito contestações. Escrevam para o jornal: relatem meus equívocos e falsas interpretações.
Ao colocarmos o pé na rua, somos apoderados de um receio a nos tornar inquietos e até descorteses com o outro. Desconfiamos do diferente. Se ele não fizer parte do estereótipo intuído como nosso padrão de referência social, é ameaça. Ainda estamos na rua. O que dizer dos ônibus, dos prédios, dos carros e do trânsito?

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/01/2014.

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DE PASSAPORTES, COMPRAS, CULTURA E ART – Jornal O Estado

“Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados”. Miguel de Cervantes, escritor espanhol.
O passaporte verde nos identificava nos aeroportos além mar. Os guardas aduaneiros, independente da língua que falavam, sempre nos olhavam com ar maroto, como se fossemos alguém singular, exótico e vindo de um país “do outro lado do mundo”, o Brasil. Após as perguntas de praxe (quanto tempo vai ficar, negócios ou turismo, hotel etc.) carimbavam o passaporte e, se simpáticos, davam um sorriso. Outros, nem isso.
Há algum tempo mudaram os nossos passaportes para a cor azul, com o nome MERCOSUL – qual seria a função desse pomposo nome? Imitar a União Europeia? Imagine. Continuaram a manter a validade em cinco anos quando há vistos com dez anos em curso. Assim, ao viajarmos, precisamos, algumas vezes, levar dois passaportes. Nesses passaportes há duas fotos distintas de uma mesma pessoa, sem retoques, clicadas no órgão emissor, a Polícia Federal. O tempo, esse nada amistoso amigo das faces, nos mostra como éramos, em tempo preterido e, como somos, em época mais recente. Há diferenças, sutis ou não, e os guardas alfandegários nos pedem para tirar os óculos, mirar uma micro-câmera e, por seus trejeitos, parecem conjeturar, se as duas fotos são da mesma pessoa. Enfim, nos dão crédito e entramos, felizes, no dito primeiro mundo.
Não importa o lugar que vamos, nós levamos o nosso jeito de ser, um pouco maquiado por verniz leve e de fácil corrosão. Agora, neste janeiro, é tempo de férias e as colunas sociais ficam cheias de notícias dos que vão e dos que chegam. Os que chegam celebram as vindas com fotos com sobretudos e cachecóis e sempre com alguma imagem ao fundo a identificar o país visitado. E como muitos vão a Miami e a Nova Iorque, voltam abarrotados de compras. Os brasileiros compraram bilhões de dólares em 2013. Verdade. Cada brasileiro tem direito a 32 quilos de bagagem, afora as mochilas, as sacolas, as bolsas das mulheres, os excessos pagos e as sofridas compras de última hora nos “free-shops” entregues às portas do avião, causando transtorno no embarque dos outros não compradores.
A propósito, muita gente fala mal de Miami sem conhecê-la, na verdade. Faz uma barafunda em “malls” e “outlets” ou o circuito dos restaurantes, bares e hotéis onde os brasileiros se mostram uns aos outros. Miami é hoje uma cidade com vida cultural intensa, shows de artistas renomados e a arte é contemplada com museus de qualidade bem superior a muitos do Brasil. Quem quiser saber de cultura e arte tem várias opções. Não sou agente de viagem e nem escrevo livros ou artigos citando pontos turísticos.
Os museus e centros de arte de Nova Iorque não precisam ser nominados, pois constam dos roteiros turísticos e servem para fotos de suas fachadas externas. Eles, na sua maioria, cobram ingressos. Em Miami, com a devida vênia e sem rabugice, há lugares de arte e cultura. Experimentem na próxima viagem: Moca – Museu de Arte Contemporânea; o Wolfsonian, na Florida International University; o consagrado Bass Museu; e o novo PAMM -Pérez Art Museu Miami. Todos merecem uma visita que custa cerca de vinte reais. Em tempo, o Art Basel é gratuito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2014.

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O ITA E O CEARÁ – Diário do Nordeste

Não estou falando do velho “Ita”, navio de cabotagem a cruzar o Brasil nos tempos dos nossos avôs. Levava, além de cargas, passageiros refinados, migrantes do/ou para o norte ou para o sul, assim considerado, a partir do Rio. Alegro-me em falar de outro ITA, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, padrão de referência de ensino superior no Brasil, desde o último quarto do século passado. O ITA foi fundado em 1950, em São José dos Campos, SP, por um cearense ilustre, o Marechal-do Ar Casemiro Montenegro Filho, tendo como referência o MIT (Massachussets Institute of Technology).
Já no século passado, moradores desta taba, resolveram demonstrar ao Brasil que não somos meros cabeças-chatas ou “baianos”, como os do sudeste se referem, pejorativamente, aos nascidos da Bahia para cá. E os jovens daqui fizeram de tal forma e ordem geométrica que são hoje os campeões de todos os três últimos vestibulares. O que isso prova? Que somos inteligentes e capazes, se bem instruídos. Mas há ainda muito a fazer no ensino e aprendizagem de nossas escolas públicas e privadas.
Essa vaidade dos cearenses deve ser compartida por todos, não apenas pelos 71 aprovados, seus pais e as escolas que os instruíram. Ela, ao mesmo tempo, deve servir de reflexão para as famílias e os filhos vestibulandos de que o sucesso só acontece, legalmente, aos que se resignam a estudar, a ler o mundo e a obedecer a uma rotina profícua.
Caro Rafael, neto da Natércia e filho do Rodrigo, seja o portador dos meus parabéns aos outros 70. Vivam todos o futuro real, com sonhos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/01/2014

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MÉDICOS, FARMACÊUTICAS E VIAGENS – Jornal O Estado

Faz alguns anos que ouço sobre amigos médicos que viajam pagos por empresas farmacêuticas. O processo de catequização tem ainda outras muitas formas não republicanas. Deixemo-las para lá. A nata dos convidados é composta dos grandes prescritores de remédios, dos pesquisadores de renome e dos que se consideram referências na sociedade. Há, entre eles, os que acreditam estar fazendo – ou colaborando – pesquisas cientificas para determinadas curas e o mitigamento das dores de seus pacientes.
O médico é um profissional com quociente de inteligência acima da média e não deve cometer o auto-engano de se acreditar útil a um grande laboratório em pesquisa de drogas para um fim específico. As multinacionais a controlar os medicamentos do mundo são insensíveis às dores humanas e têm o seu próprio corpo científico. O doente é a sua presa. Como deixá-lo sem dor, sem a dependência ou a crença de que um remédio o ajudará?
Neste século 21, entre tantas questões, descobriu-se o evidente: faltam médicos no Brasil. Na realidade, não faltam médicos no Brasil litorâneo, no Brasil asfaltado, no Brasil com aeroportos internacionais. Faltam médicos para o Brasil cru dos subúrbios e do interior, o Brasil sem esgoto, o Brasil com endemias, o país real com parcos postos de saúde e muitas ambulâncias. No Brasil de hoje em que alguns prefeitos são ilusionistas, pois ocluem os olhos dos cidadãos incautos para a realidade da miséria continuada e a falta de assistência médica. Faltam médicos, especialmente nos grotões. Em alguns deles, médicos se transformam em políticos e tudo prossegue na mesma.
Mas falava de viagens pagas a médicos em congressos, estudos, mesas redondas, seminários e afins no mundo afora. Ano passado, em Nevada, LV, havia um desses eventos no hotel em que estava hospedado. Ao passar e olhar curioso para um amontoado de pessoas vi recepcionistas entregando pastas e mimos, em um coquetel.
Agora, vejo na imprensa brasileira e na internacional analistas revoltados com os que mistificam esses vieses das farmacêuticas. Apenas comento o que leio, não sei de nomes, mas seria bom que as faculdades de medicina, os professores doutores, médicos renomados, associações de classe e a ANVISA examinassem o assunto e fossem mais explícitos sobre o que acontece nesse mundo tão rico. Em 18 de dezembro passado, o British Medical Journal mostrou, através do médico Sidney Wolfe, fundador e conselheiro sênior do Grupo de Pesquisa em Saúde Pública Cidadã, que há “uma patológica falta de integridade corporativa em muitas farmacêuticas”. Há crimes e violações às legislações.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/01/2014

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VÃ FILOSOFIA E O DOCE PAÍS – Jornal O Estado

“Brincar é condição fundamental para ser sério”. Arquimedes, filósofo, matemático e inventor grego, sec.3 A.C.
Vez em quando me descubro ignorante. Sem ciência, conhecimento parvo e mal distribuído nos meus escritos. Não precisa ninguém falar mal de mim. Eu mesmo cuido disso. Ao estudar filosofia pura, na matéria Introdução à Ciência do Direito, dei-me bem, mas tudo chegava de roldão em uma mente jovem ocupada por outros interesses. Agora, décadas passadas, deparo-me com um ensaio didático e profundo de César Benjamim sobre Edmund Husserl. Explico.
César Benjamin é um cientista político, editor e jornalista, nascido uma década depois da minha. Filiou-se e desligou-se do PT e do PSOL. Isso mostra o seu engajamento e a capacidade de não aceitar no não mais acreditado, na visão dele. Nesse ensaio “A essência das coisas” ele analisa a posição filosófica de Edmund Husserl, amadurecida no princípio do século 20. Ele pretendeu uma forma nova de ver a filosofia: a fenomenologia “buscou um conhecimento cuja validade não dependesse da psicologia, dos fatos empíricos, da espécie humana e nem mesmo da existência do mundo”.
Vejam onde estou me metendo. Segundo Benjamin: “Husserl viu que para ‘alcançar as coisas’ precisamos partir de uma intuição na qual elas se revelem diretamente à consciência, sem distorções. Tal intuição precisa cumprir duas condições: a) ser independente de um ‘eu’ particular; b) não se ater a fatos contingentes, mas buscar verdades universais, revelando suas conexões necessárias”. Ora, amigo leitor, se tiver alguma dúvida, releia este parágrafo. Não parece simples entender, mesmo com o didatismo de Benjamin.
Falo agora um pouco de Husserl, matemático e filósofo alemão de origem judaica, falecido em 1938, um pouco antes do início da Segunda Guerra mundial deflagrada por Adolf Hitler. Imagine, só de passagem, se vencida pelo nazismo, teria mudado a face da segunda metade do último século. Foi preciso meio mundo se aliar para derrotá-lo, depois de seis anos de desvarios e estragos por toda a Europa, África e Japão. Como o mundo seria hoje se tivesse acontecido o contrário?
Aprendi pouco, em filosofia. Aliás, quase não sei nada. Mas ficou sedimentada a ideia de não existir verdade absoluta. Na Teoria do Conhecimento, que me foi ensinada pelo sábio professor Eribaldo Costa, tudo era relativo. Era a Ontognosiologia. Para Husserl, a fenomenologia pregava a verdade absoluta. Rendo-me a Benjamin quando, analisando o livro “A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia”, em tradução de Diogo Falcão Férrer, cita o próprio autor, Husserl: “A exclusividade com que na segunda metade do século 19, a visão de mundo do homem moderno se deixou determinar pelas ciências positivas e com que se deixou deslumbrar pela ‘prosperidade’ que decorria daí significou o afastamento dos problemas decisivos para a humanidade. Meras ciências de fato criam meros homens de fato”.
Esses “homens de fato” são os doutrinadores de hoje em suas pregações, convicções e ações políticas, sem sequer uma verdade relativa. São também os messiânicos criadores de versões novas do cristianismo pentecostal, do fundamentalismo islâmico e empresários megalomaníacos do mundo disputando o estrelato e o “ranking” em revistas, blogs e sites. Eles os expõem como chefes de conglomerados em onde tudo é possível. Até algum pode ser honesto.
A leitura deste texto não é uma linha azul, mas é uma reflexão, simples ou simplória, feita no começo no “ano épico” de 2014 para o Brasil. Nele poderemos – ou não – ganhar uma Copa do Mundo de Futebol e decidir quem escolheremos para presidir este país localizado do lado norte do mundo ocidental e mais longe ainda do oriental. Este país a viver, sem astrolábio, bússola ou google em busca do seu norte magnético ou do seu significado e significante. Um país a não competir no mundo das letras e das ciências.
Contenta-se em exportar mercadorias e uns poucos bens manufaturados e se vê, até hoje, órfão de uma digna premiação internacional tal como, por exemplo, o Nobel. Olhamos para a vizinhança da América do Sul e vemos premiados. Por que será assim? Será por não sermos verdadeiros e nos fingimos alegres em meio a uma espécie de guerrilha urbana a nos acossar todos os dias com a face mais cruel da juventude sem rumo? Entretanto, fiquemos alegres, Fernanda Montenegro, a Fernandona, 84, ganhou um “Emmy” por sua interpretação no telefilme “Doce de mãe”. Doce país.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/01/2014

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VELHO-NO-NOVO-ANO – Diário do Nordeste

Luciano Pamplona, professor universitário e engenheiro estrutural, se diz confesso leitor deste nano espaço. E ele cobra: “escreve mais fácil, do jeito que minha mãe gosta de ler”. As nossas mães têm a mesma idade, 94 anos. A longevidade dos que nasceram no século 20 ainda é fato extraordinário. Daqui a algum tempo o mundo passará por um novo “boom”, o da compra de fraldas geriátricas.
Esta é a primeira coluna do ano e falo de velhice. Pois é. Segundo a EFE, agência de notícias, o Japão venderá, neste 2014, mais fraldas geriátricas que as infantis. O crescimento, nos últimos cinco anos, foi de 38%. No Império do sol nascente, que visitei em belo outono, a vida média é de 83 anos. O que se deduz dessa informação? A senectude vem acompanhada de sequelas que inibem a qualidade de vida dos que rompem essa média.
Aqui no Brasil a média de vida (73) é 10 anos abaixo. As famílias precisam ficar atentas para os seus idosos que, se vivos permanecerem, carecerão de cuidados e assistência médica não paliativa. Tenho cinco sobrinhos na área médica e a eles já recomendei, o que reforço agora: foquem na geriatria, esse sub-ramo da clínica geral.
Imaginem os idosos que precisam do SUS com as suas intermináveis filas para meras marcações de consultas. Aos idosos escasseia o tempo nas vidas que lhes restam. Com dificuldades de locomoção em transportes públicos, eles quase sempre dependem da boa vontade de parentes. Ora direis, mas o que é a velhice? Ela começa quando você quer enganar a si próprio, dizendo: Nunca me senti tão jovem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/01/2014

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VAMOS BRINCAR SÉRIO? – Jornal O Estado

Sejam bem-vindos à primeira sexta-feira do ano. Aproveite essa sobra de feriadão e brinque um pouco com você mesmo. Não sou muito didático, mas vou tentar comunicar-me com você com algumas perguntas meio marotas. Relaxe e preste atenção: 1. Se você dividir 30 por ½ e adicionar 10, qual será o resultado; 2. Quantos pares de meia tem uma dúzia?; 3. Um fazendeiro possuía 17 ovelhas. Todas morreram, menos 9. Com quantas ele ficou?;4. Existe 7 de setembro nos Estados Unidos?; 5.Alguns meses têm 31 dias, quantos têm 28?; 6. A religião católica permite que você se case com a irmã de sua viúva?;7. Se uma cesta tem 3 maçãs e você tira 2, com quantas fica?;8. Um médico receitou 3 pílulas. Elas devem ser tomadas a cada meia hora. Quanto tempo dura o tratamento?; 9. Quantos animais de cada sexo, Moisés levou para a Arca?; 10. Você participa de uma corrida e ultrapassou o segundo. Em que lugar você fica?
Procure responder cada pergunta com atenção. Pense. Pensar, antes de dar qualquer resposta, sempre é bom. Não se apresse. Responda uma de cada vez. Se precisar, pegue um papel e um lápis. Agora, você vai fazer um trato comigo. Vou dar a resposta certa a cada pergunta, mas não leia, a partir desta frase.
Volte a ler apenas quando tiver respondido. Caso olhe, estará desacreditando de sua inteligência e comprometerá a sua consciência e/ou ética pessoal. As respostas certas virão a seguir aos números.
1= 70; 2= uma dúzia nunca varia; 3. Fica com 9, as que não morreram. 4. Lá como aqui tem todos os dias do ano; 5 = são 12, pois todos os meses têm 28 dias ou mais; 6 = Se é viúva, você já morreu. Morto não casa; 7 = ficou com as duas que tirou; 8 = 1 hora, só começa a contar após a primeira pílula; 9 = nenhum. A Arca era de Noé, não de Moisés; 10 = No segundo, você não ultrapassou o primeiro.
Parabéns se acertou todas ou a maioria. Se você pescou alguma resposta, lembre-se: a vida não tem repeteco, tudo é naquele instante e ninguém lhe passará pesca quando estiver em dificuldade. Faça o que sabe e será mais afortunado.
A propósito, feliz Ano Novo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/01/2014

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REVENDO O ANO E FAZENDO FÉ EM 2016 – Jornal O Estado

Estamos no Natal, antevéspera da festa pagã do fim de ano. Agradeço a todos os leitores desta coluna. Mais ainda aos que a leram na íntegra, o ano inteiro. Ela foi pensada para ser além de artigo de opinião. A coluna não é pautada por interesses. Procuro escrever da única forma aprendida: clara e sem floreios linguísticos.
Direto ao ponto, pois o parnasianismo, mesmo quando efervescente, não combinava com jornal, esse efêmero veículo de fatos, fotos e textos a morrer e a renascer a cada 24 horas.
Vivemos tempos duros neste 2015. Quem mora em cidade grande – e não viaja ao interior – não faz ideia de como o Estado lutou para não acontecerem êxodos como os do século passado. A jovem população do sertão substituiu a alimária por motos compradas pelo crediário. A moto é diferencial, símbolo a se somar ao celular e oferecer a seus usuários o sentimento de liberdade e, ao mesmo tempo, a opção de estar conectado. Não se sabe ainda qual a influência do celular na melhora da capacidade cognitiva dos com poucas letras. As motos fazem vítimas a cada dia. Falta disciplina a seus guiadores.
O Brasil atravessa mais uma crise. Explicitada pela acurácia de um jovem nascido no interior do Paraná, celeiro de imigrantes e de brasileiros de todos os matizes. Sérgio Moro foi, sem dúvida, a figura mais acreditada neste país em que alguns políticos das duas casas do Congresso Nacional fazem o contraponto.
Louve-se a conjunção do Ministério Público, da Justiça e da Polícia Federal, nas investigações e consequentes prisões de pessoas por malversação do dinheiro público, em operações divulgadas pelos órgãos de comunicação com acesso aos fatos, suas análises e as consequentes delações a mostrar ramificações de estarrecer.
Alguns dizem ser preciso medida emergencial para dar ordem ao País e caminhar de forma diversa do feito até hoje. Na verdade, precisamos de uma concertação ainda não aclarada, mas necessária ao desenvolvimento econômico, com sério enfoque na inclusão social e na validação do regime democrático, em forma menos capenga do hoje praticado.
O “Impeachment” não é panaceia, mas – se couber – dispositivo existente na Constituição. Há normas de como fazê-lo. Precisamos de novas lideranças. Não as que evocam guias do passado, como mero exercício de retórica. A perda da confiança geral é prova da necessidade de eliminar ou reinventar instituições tuteladoras e ricas, muitas delas do ciclo Vargas, generoso e paternalista ao criá-las por decreto-lei ou leis baseados no nacional socialismo italiano de Benito Mussolini.
As grandes mídias nacionais não podem dar guinadas ao sabor de interesses. Precisam acordar. Não há consenso político espontâneo, mas em decorrência de coalizões necessárias, aclaradas e consequentes. Agradeço, de verdade, aos leitores deste espaço. Escrevi 52 colunas, com a média de 500 palavras, cada. Tentei levantar questões gerais e agora me dou conta de que, no total, foram 26.000 palavras. Palavras e opiniões publicadas não podem ser mudadas, passam a ser patrimônio do seu tempo. Desejo a todos um Feliz Natal e, acreditem, faço fé em 2016. Resolvi chamá-lo de “O Ano do Bem”. Devemos fazer a nossa parte para isso acontecer. Felicidades e obrigado.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/12/2015.

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CEARENSES SÃO INTELIGENTES E PODEM BRILHAR – Jornal O Estado

Quando um país está atrasado por falta de atividade intelectual, é impossível que ele se eleve.
Clóvis Beviláqua.
Sempre que acontecem vestibulares no Instituto Militar de Engenharia-IME, no Instituto Tecnológico de Aeronáutica-ITA e até na USP há um grande número de cearenses aprovados. O mesmo ocorre nos vestibulares de cursos de medicina, hoje avidamente procurados.
Não há dúvida de que a maioria desses jovens faz parte de turmas ditas “especiais” de alguns colégios particulares, mas, vez por outra, aparece alguém de escola pública nas listas que fazem a alegria de famílias pobres. Há pais que, mesmo sem estar no patamar de cima da pirâmide social, pois são pobres ou da classe média, investem na educação dos filhos, priorizando-as em lugar do consumo ou de viagens sem conteúdo cultural.
A cada um desses vitoriosos jovens ainda no pórtico da vida real dou os meus parabéns. Fiquem certos, eles e as suas famílias, que o conhecimento é o diferencial competitivo neste tempo de crise. O saber é dessemelhante da esperteza. Dizia Sócrates, no quinto século antes de Cristo, que “existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”.
A esperteza é uma habilidade maliciosa; malícia, manha e astúcia, segundo o dicionário do Aurélio. Parece que estamos vivendo os estertores dos espertos, aqueles que se apropriam do que lhes convêm, sem medir consequências e tampouco ligar para os direitos alheios.
A era do conhecimento vem seguindo o desenvolvimento tecnológico e a armadura social decorrente. Ela vai mostrar, acreditem, a diferença entre os que fazem o bem e os que fazem bem as suas espertezas. Esses jovens, alguns imberbes, são bálsamo para um Estado pobre, ainda com indicadores de desenvolvimento social aquém do desejado.
Investir em educação qualificada, em remunerar melhor os professores, tornar clara a intenção de aperfeiçoar o ensino fundamental, que deveria ser uma das prioridades de todos os níveis de governo. A entrada para a vida que se abre aos que estudam – e aprendem – com afinco é o investimento em educação e a disseminação da arte e da cultura.
O humor cearense, tão bem representado por Chico Anysio, mostra à exaustão a diferença entre o conhecimento e a esperteza. Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho era um estudioso da alma humana e os seus mais de 200 tipos de personagens refletem a sua capacidade de dissecar –com humor – toda sorte de artes e vícios. O deputado Tiririca, reeleito em São Paulo com mais de um milhão de votos, indagado por um repórter que o queria encurralar, respondeu por que não havia se candidatado no Ceará: “o cearense não é abestado”. Algo assim.
Dou parabéns aos dirigentes desses colégios particulares que nos colocam em panteão diferenciado no cenário dos vestíbulos às escolas mais cobiçadas pela ‘intelligentsia’ dos que se preparam para a vida que chega. Aos poucos, das escolas públicas, que se abeiram ou tentam chegar ao mundo sério e duro do conhecimento, o meu incentivo.
Ofereço, através deste artigo, passagens de ida de avião para os reconhecidamente pobres, aqueles cuja família renda familiar só atinja até dois salários mínimos, e tenham conseguido passar, agora neste final de 2015, no ITA, IME ou na USP (medicina). Este é um compromisso que assumo com os colégios públicos, com os aprovados e com os seus pais. Como disse Patativa do Assaré: “Sou brasileiro, filho do Nordeste. Sou cabra da Peste, sou do Ceará”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/12/2015.

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A AIDS NÃO MORREU – Diário do Nordeste

Festas e férias. É bom lembrar que, segundo os médicos Caio Rosenthal e Mário Scheffer, 30 pessoas morrem de AIDS e 100 novos casos são registrados no Brasil, a cada dia. O país já foi considerado exemplo para o mundo na prevenção e tratamento do HIV, mas houve relaxamento de todos, pacientes, médicos e dos governos. A transferência do tratamento dos infectados para as unidades básicas de saúde foi errada, afiançam os dois citados médicos.
Este artigo revalida e anseia alertar os que continuam a fazer sexo de forma indiscriminada sem preservativos. A “camisinha” não é careta. É defesa para os promíscuos e para quem se aventura fora da parceria fixa. Segundo Rosenthal e Scheffer, o problema é grave: “No ritmo da incompetência, ministro e secretários da Saúde deveriam ser processados a cada novo caso de criança que nasce com HIV, um flagelo perfeitamente eliminável”.
Hoje há distribuição gratuita de preservativos e propagandas pagas pelos governos mostram o perigo e os cuidados. Fica o alerta a todos os que possam ajudar nessa cruzada. Em 1º de dezembro passado, aconteceu o Dia de Combate à AIDS, sem a cobertura espontânea da imprensa, ocupada com controvérsias entre os poderes federais e o protagonismo das operações “Lava-Jato” e “Zelotes”.
Hipócrates, médico grego, nascido 460 A.C, já dizia: “Para males extremos, extremos remédios, levados ao máximo rigor, são os mais válidos”. A cura pode estar próxima, há vacinas em teste. Todos ainda precisam tomar cuidados. E, se infectados, correr para o médico e tomar os retrovirais. Cuidar-se é viver.

João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/12/2015