“Aprender a dominar é fácil, mas governar é difícil”. Goethe, em Máximas e Reflexões.
Possuo amigos e parentes que vivem na Alemanha. Conheço a terra de Goethe desde quando era dividida. Vi os dois lados. Em 09 de novembro de 1989, dia da queda do muro de Berlim, estava lá, em férias, na casa da minha irmã Luísa Helena. Ela, socióloga, mora lá há quase 30 trinta anos. Seu marido Mini é médico e as filhas Júlia e Isabella, minha afilhada, seguiram a carreira do pai.
Recebi da Luísa, sexta-feira, 04, parte de texto publicado pela revista New Yorker, complementado por comentários dela: “Em 1991, o fotógrafo Herlinde Koelbl começou uma série chamada ‘Traços do Poder’ onde retratava políticos alemães e observava como mudavam ao longo de uma década. Koelbl conta que homens como o ex-chanceler Gerhard Schöder ou o ex-ministro das relações exteriores Joschka Fischer pareciam cada vez mais tomados pela vaidade, enquanto Angela Merkel, com seus modos desajeitados, não passava nenhuma ideia de vaidade, mas de um poder crescente que vinha de dentro.
A vaidade é subjetiva enquanto a ausência desta é objetiva, daí que Merkel é tão eficiente, enquanto outros políticos parecem se perder nas liturgias e rapapés do poder. Essa normalidade é vista em outros países – ainda que exista a vaidade, que é de cada pessoa-como no caso de deputados suecos que moram em uma espécie de república tal qual a de estudantes e lavam e passam a própria roupa.
Certa vez, vi uma reportagem de um jornal britânico analisando uma foto do primeiro-ministro David Cameron lavando a louça da cozinha. A reportagem não se espantava com isso, já que Tony Blair fazia o mesmo e Margareth Thatcher cozinhava para o marido.
Angela Merkel mora no mesmo apartamento de sempre, e a única mudança que houve em relação ao seu tempo, fora do poder, é a presença de um guarda na porta do prédio. Ela e o marido compram entradas para assistir ópera com o próprio cartão de crédito e entram no teatro junto com todos, sem nenhum esquema especial.
Daí partimos para o Brasil, onde governantes possuem jatinhos, helicópteros, ajudantes de ordem e comitivas com batedores de moto que param o trânsito para que eles passem. Pessoas que vivem em palácios, como se fossem alguma corte real. Empregadas, arrumadeiras, garçons, equipes de cozinheiros, serviço de quarto, motoristas, inúmeros seguranças, esquemas especiais para sair ou entrar de algum lugar.
Essa é a diferença: a normalidade do poder, a noção que um servidor público é apenas um servidor público, seja um escriturário ou o presidente/primeiro ministro da Nação. Eles continuam sendo homens e mulheres, maridos e esposas, pagadores de impostos, trabalhadores e cidadãos. Cidadania é isso.”
Não por coincidência, Angela Merkel acaba de sair na capa da revista “Time” como a governante mais importante do mundo ocidental. Ela foi eleita, ontem, 11 de dezembro de 2015, a “Chancellor of a Free World”. A relevância da escolha faz sentido. Merkel viveu e estudou na antiga Alemanha Oriental. Desde 2005 é a Chanceler alemã e lidera, com naturalidade, energia, discrição e competência.
Merkel, além do trabalho que faz como governante do seu país, cuida ainda de questões atuais mais complexas, tais como o “default” da Grécia, os problemas (in) comuns da União Europeia, a proteção aos refugiados islâmicos e, ao mesmo tempo, o combate ao terrorismo. Governar é apenas isso.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/12/2015.
