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A FLOR AMERICANA

Eu vi na pré-estreia numa última sessão de uma noite de sexta-feira. Fiquei chocado e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Passei a indicar, no dia seguinte, para amigos de um grupo que frequento aos sábados.
Bonito e doloroso. Meigo e cruel. Sensível e lancinante. Doce fel. Tedioso e eletrizante. Agora, passada três semanas e quando já entrou em cartaz regular, me permito falar sobre “beleza americana”, um filme dirigida por um jovem inglês, 34 anos, descendência portuguesa, chamado Sam Mendes. O seu filme conseguiu impactar e mexer com a cabeça de milhões de pessoa.
Quem acompanha a história da sociedade americana neste último quartel do século XX sabe do orgulho dos estadunidenses em proclamar e exportar o “american way of life”. A alta classe media americana é a baluarte e condutora de todo o processo comportamental e de mídia do “grande irmão”do norte. Lá, como aqui, a alta classe média traduz padrões de referências e vive de um sonho que se baseia na família estruturada, no status social e no consumo. Pois bem, o “beleza americano”trata disso com a sensibilidade de uma batuda de maestro, a sutileza de um misturi de um cirurgião, o ponta pé de um carateca e um soco de um lutador peso pesado de boxe.
A voz em “off”, no início do filme, do ator Kevin Spacey, soa lenta e modorrenta como o subúrbio em que se desenrola o filme. O personagem Laster Burnaham diz que vai morrer e que ainda não sabe disso. Ora, todos sabemos que vamos morrer, apenas não queremos pensar nisso. Ele, contudo, fala em morte próxima.
O filme passa a derrubar o primeiro ícone da sociedade americana: a idéia de que o automóvel feito em Detroit ou outras cidades dos Estados Unidos é o melhor do mundo e toda família deve tê-lo. Os dois carros do casal são um japonês Camry da Toyota e uma mini-van Mercedes Benz alemã.
O segundo ícone desmistificado é a propaganda americana com seus apelos ao consumo: Spacey/Levin trabalha há 14 anos em uma agência de publicidade e ao sentir que vai ser despedido relata todos os “podres”dos dirigentes e o embuste que é o seu emprego. Sua Mulher(Annete Bening) é o exemplo da corretora de imóveis padrão que ensaia as conversas para clientes e tenta vender gato por lebre.
O casal é uma farsa, pois o marido e a mulher estão distanciado física e mentalmente, tornando claro que nada resistiu ao tempo e que um sofá de “chintz” de 4.000 dólares é mais importante que a tentativa de reaproximação, possivelmente salvadora.
A juventude da escola secundária é mostrado sem rodeios: consumo e tráfico de maconha, fantasias eródicas, líderes de torcida e distância de pensamento, comunicação e identidade com os pais.
Daria para falar mais, muito mais, especialmente da paulada que dá nas forças armadas americanas ao criar um coronel reformado dos fuzileiros navais, sua moral, a submissão e alheamento de sua mulher e seus desejos(dele) inconfessáveis.
Mais não digo, para não tirar o prazer de quem não assistiu a esse intrigante filme que luta por oito “Oscars”. A quem já viu, peço que reflita e veja que as coisas por cá, embora sejam diferentes, não são muitas. Afinal, nós temos a mania de copiar e os Estados Unidos são a nossa maior referência, para o bem e o mal. Ia esquecendo: O título do artigo refere-se à flor (Americana Beauty) que dá nome ao filme: é linda, mas não tem cheiro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/03/2000.

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MÉDICOS E (IM)PACIENTES

Há quase 400 anos William Shakespeare se valia do personagem Helena, na peça “Bem está o que bem acaba”, para dizer no primeiro ato: “Às vezes está em nós a medicina que em vão ao céu pedimos”. Nós, não médicos, muitas vezes pensamos que o médico é um ser milagroso. Paradoxalmente, alguns médicos se deixam levar por essa mesma ideia. Todos estão errados.
As relações entre pacientes e médicos não são relações comuns, pois plasmadas, de um lado, por dependência e, não raro, um ar de enfado, mesmo disfarçado por boas maneiras, do outro. Muitas respostas pedidas não podem ser dadas, mesmo após uma anamnese (o relato dos padecimentos, segundo Miguel Torga, médico e escritor português) bem-feita ou uma bateria de exames laboratoriais ou de imagem. Há muito de não explicado, até pelos médicos que cuidam das mentes das pessoas. O médico não é apenas um elemento importante na engrenagem das respostas dadas pelo nosso corpo às dores, sejam elas reais ou imaginárias. Ele é o fio condutor do processo.
É provável estar com Platão a resposta: “O maior erro dos médicos é tentar curar o corpo sem procurar curar a alma. Entretanto, corpo e alma são um e não podem ser tratados separadamente. “Um médico e escritor, Moacyr Scliar, parece concordar com Platão quando diz no livro “A Paixão Transformada”: “A situação mudou por várias razões: em primeiro lugar, o médico perdeu a posição aristocrática que muitas vezes o caracterizava no passado. Depois, a medicina foi adquirindo um caráter mais técnico, pouco compatível com a expressão humanista”.
O outro lado da história é quando se fala em qualidade de vida dos médicos. É lúcido concluir necessitar o médico de um mínimo de condições de vida para ser uma pessoa razoavelmente feliz e, conseqüentemente, ter gosto pelo que faz. Por ter alguns amigos médicos posso me permitir fazer estar observações. Sei como são responsáveis, trabalhadores, estressados, ganhando relativamente pouco, tão carentes de afeto quanto seus pacientes, mas têm, por ofício, de tomar decisões rápidas que podem salvar ou não vidas ou não. Essa rotina não os robotiza, mas pode lhes dar aquele ar de enfado já referido.
Pode ser até exagero ou inadequada a expressão enfado. Melhor seria, quem sasbe, incômodo, pela quase real incapacidade de estabelecer um diálogo racional com o paciente. Enquanto o médico procura em seus alfarrábios mentais e na farmacologia o cutelo para ceifar a doença, o paciente – e sua família – quer respostas, sejam mágicas ou milagrosas.
Talvez pudesse ser inferido, com relativa margem de erro, que os médicos ao não se sensibilizarem com os dramas dos doentes possam, em contrapartida, maximizar os seus e de familiares, tornando-se frágeis para resistir às suas próprias dores.
A reportagem sensacionalista da revista Veja da semana passada sobre o uso de álcool e drogas por médicos, reflete um percentual significativo. o mesmo escrito sobre médicos pode ser dito de jornalistas, políticos, empresários etc. Por outro lado, a atual situação social-econômico-financeira dos profissionais da medicina parece ser crítica, mas não sei da existência de pesquisas e estudos sobre tal fato e, especialmente, a respeito da saúde física e mental dos médicos. Se há, gostaria de conhecer. Não existindo, é tempo de fazer. Poderiam ser úteis aos conselhos regionais de medicina e aos sindicatos dos médicos. Forneceriam elementos para reflexões e reivindicações importantes para o exercício digno dessa profissão que alia ciência e arte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2000.

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SALÃO DE BELEZA

Acordo com a unha do dedão do pé esquerdo quebrada, um pouco de sangue e o estrago feito. A saída foi procurar onde dar um jeito naquilo. Alguém me diz que os salões de beleza não costumam, talvez por falta de freguesia, abrir às segundas pela manhã. Felizmente, uma alma caridosa me indica um que abriria às 8:00 horas e lá se fui eu com o meu dedão do pé inchado.
Salão moderno, piso de granito, luzes, espelhos em profusão, ar condicionado e tudo já funcionando àquela hora da manhã. Pedirão meu nome, dei João. Pediram o sobrenome e falei o Soares. Abriram uma nota de serviço e entreguei o meu pé a umas dessas moças do subúrbio distante, mas que estava ali com alegria nos olhos, equilibrando o corpo não tão pequeno em uma cadeirinha minúscula. Não me sinto bem colocando o pé no colo de alguém como se fora um paxá. Era o jeito.
A gerente me entregou uma revista. Fiquei feliz, não era “Caras”. Era “Dinheiro”, talvez tenha sido o meu jeito circunspecto. Os olhos estavam livres. Vi ser o único homem do local. Procurei me concentrar na revista, mas de vez em quando passeava os olhos pelo salão espelhado e via quase tudo em dose dupla.
Eram muitas as mulheres cuidando da beleza. De todas as idades. Umas pintavam os cabelos, outras tinham máscaras na face, algumas ficavam embaixo do secador e poucas já estavam nos arremates finais, o penteado, ou a maquiagem, ou ambos. Uma jovem não largava o celular, colocou o que soube ser “papelotes” e parecia o “Arc”, aquele marciano da “Veja” que acha estranho as coisas por aqui. Eu também.
Dizem que ser mulher e ficar calada é impossível. Imaginem em um salão de beleza. Elas falam, gesticulam, andam, tomam cafezinho, fumam e agora com a praga do celular aí que a coisa complica. Uma senhora discutia a nova cor dos cabelos a potes, revistas e, mesmo sem ouvir o diálogo, parece-me pretender sair parecida com Catherine Deneuve ou a Sharon Stone.
Tinha até gente conhecida. Uma amiga da minha faixa de idade, recém separada, veio falar comigo com o cabelo já feito e disse do amor novo surgido em meio a uma solenidade. Estava feliz e parecia fazer fé nessa nova relação amorosa com alguém também separado. E lá se foi ela com a sua esperança para o sol do dia. Toda nos trinques, naturalmente.
Depois de cortes, mertiolate, unguentos, água quente e mãos competentes sai de lá com o pé bem melhor. Saí, mas voltei. Esquecera o celular e ao voltar, vi que novas mulheres estavam chegando e saindo com aquele jeito de ser tão especial que transforma a vaidade de um pecado capital em uma necessidade básica no comportamento feminino.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/02/2000.

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ANA E MERYL

Eu não sou chegado a novelas, mas não posso ignorar o sucesso de Ana Paula Arósio, uma jovem de 21 anos que, de repente, começou a aparecer na mídia e passou a ser considerada uma das mulheres brasileiras mais bonitas do século.
O sucesso leva, muitas vezes, a faturamentos extras em publicidade, fotos, desfiles. festas e merchandising. De repente, a Ana em questão ficou “rica” e passou a ser o xodó do Brasil como já tantas outras foram.
Esse exemplo pode dar a falsa ideia de que é fácil atingir o sucesso. Basta uma cara e um corpo bonitos, um pouco de talento e muita sorte. Não é bem assim. A sorte pode até ajudar, mas ela tem muitos a quem atender e é extremamente volúvel.
Ninguém tem bola de cristal para saber do futuro, mas há uma receita quase certa para o sucesso em qualquer área da atividade humana: competência, persistência, responsabilidade e profissionalismo. Quantos atores e atrizes já se acharam o máximo e hoje, passados poucos anos, se contentam em fazer papéis secundários em novelas e filmes com salários que mal dão para dividir um apartamento de sala e quarto.
Há uma artista americana por quem tenho a maior admiração: Meryl Streep. Não é bonita, não tem esse charme todo, mas é uma atriz competente, responsável e altamente profissional. E isso não foi construído em um conto de fadas, ela se preparou. Estudou no Vassar College (uma faculdade charmosa que conheço para mulheres) e, após isso, fez o mestrado em dramaturgia na Universidade de Yale. Resumindo: criou uma bagagem intelectual e foi à luta com os cabelos tingidos de louro, seu nariz fora dos padrões estéticos e se fez protagonista em 1978 do filme “O franco atirador”.
Passados mais de 20 anos e quase 30 filmes depois (quem não lembra, por exemplo, de Kramer vs. Kramer, A Escolha de Sofia e Os Dálmatas), ela continua dando o mesmo duro da época em que caçava trabalho. Com 47 anos, ela já ganhou dois Oscars e um Emmy.
Não se pode comparar as trajetórias de Ana Paula Arósio e Meryl Streep. Uma está no orgasmo da glória inicial e a outra sedimenta a sua saga de formiga como se fora uma trabalhadora intelectual e não um objeto do desejo.
O que pretendo passar para alguns poucos jovens leitores é que o talento é importante em qualquer profissão. Uma boa aparência ajuda bastante, a sorte pode fazer diferença, mas sem base intelectual, sem profissionalismo e a essência do conhecimento, ninguém chega a lugar nenhum.No máximo, ficará olhando para a efêmera glória que se esvai como se fora um comprimido efervescente. Como já disse alguém: “uma rosa não pode nascer de uma cebola”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2000.

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TODOS OU QUASE

Cheguei cedo e tive tempo de trocar algumas palavras com ele. Leve, adocicado pelo tempo, retemperado pelas dores da vida e com o olhar de vaga mundo que se auto exilou para ter o distanciamento crítico. E voltar ou quase.
Respondi às suas gentilezas e prometi-lhe uma encomenda para a Rua Mons. Bruno. Educado, levantou-se e trocou aquele abraço caloroso que só os que acreditam na sua masculinidade podem dar em ouro homem.
O lugar era quase o mesmo do passado, tingido de verde na esperança de novas glórias como se as festas e farras pudessem ter “revivals”. Postei-me equidistante e pude acompanhar a nuvem de gente que chegava. Uns por pura, franca e duradoura amizade, outros por supina vaidade e ainda uns outros que estão sempre, aconteçam o que acontecer.
Via-se de tudo, desde o jornalista com e sem jornal, ao político com e sem mandato, o empresário com e sem empresa, os que contam e os não, os que pensam, os que registram, os que fofocam, os colunáveis, os emergentes de todas as castas e quase todos pouco ligavam quanto tempo esperariam pelo autógrafo absolutamente personalizado e carinhoso.
O tempo passava e como manda quem pode, fez-se uma mesa solene e muitos se postaram atentos e, por minutos, se quedaram mudos. Basta dizer do carinho de quem o apresentou, amigo sem jaça, mosqueteiro de tantas andanças e esclarecedor de detalhes vívidos de um passado que se fez presente e tão dourado como a cor da camisa daquele que falava com a simplicidade de quem conta o que sabe, do jeito que sabe, gostem ou não.
Foi aí que me veio à memória que eu e o autor festejado, fomos sempre quase. Éramos meros João e Antônio, simples netos ou netos simples. Quase companheiros de jornalismo em eras de 60, quase colegas da mesma faculdade, quase ensinamos juntos e quase fomos bons amigos. E nessa condição de quase é que estou aqui para dizer quase nada. Direi apenas que minha memória visual penetrou na sala da Vila Angelita e se permitiu criar asas: vi chegar à redação e pegar um paletó emprestado para ir à Assembleia. Tomar um avião para Cuba, dar prego no meio de uma estrada, transformar sonhos de uma mera jangada em frota de desejos, mudar para Brasília, desfazer-se de parte do passado – como se isso fora possível – e tornar-se alado para pousar agora com asas cansadas por tantas estranjas e encher de luzes as coisas que remexem a memória e azucrinam o coração, pois dão aquela arritmia que nos impele a escrever sem a preocupação do memorialista, mas dos que ainda imaginam ter o direito de falar. Pois como bem disse a citada Susan Cheever: “O passado é um lugar perigoso”. Ou quase…

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/02/2000.

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O NOSSO FUTURO

Quem se dá ao trabalho de ler jornais, revistas e ver televisão deve estar apavorado de tanto ouvir, de um lado, notícia de concordatas e falências de tradicionais empresas. Do outro, a cada dia acontecem aquisições de empresas e bancos nacionais por empresas estrangeiras e, nos noticiários internacionais, são mostradas megafusões de conglomerados industriais e de serviços. Até clubes tradicionais de futebol como Corinthians, Flamengo e Vasco estão atrelados a contratos que os tornam joguetes e fontes de lucro.
Nós, enquanto pessoas, somos absolutamente frágeis e não sabemos aonde, nem como e quando essa estória de globalização vai parar. Todos os ramos de atividade estão sob os olhos de lince de equipes de empresas que identificam oportunidades, têm acesso a crédito com juros baixos, conversam tranquilamente com ministros e presidentes de república (especialmente os do hemisfério sul) e têm poderes para aniquilar os que não se rederem às suas propostas, sejam decentes e indecentes.
As empresas brasileiras, especialmente as de pequeno e médio porte, estão absolutamente desprotegidas e sem defensores à altura de seus problemas. Ora, se até grandes bancos e empresas brasileiras já foram vendidos ou estão sendo pressionados a fazê-lo, o que acontecerá com quem não faz parte dos círculos de poder que manipulam e tecem as teias dessa nova economia sem pátria e movida unicamente por interesses?
O que dizer aos jovens que viram suas famílias trabalhar anos e anos e, de repente, veem tudo indo para o espaço pela falta de crédito, pela incapacidade de oferecer preços competitivos em face da concorrência desleal ou pela substituição de hábitos de consumo que alijam seus produtos ou serviços?
Esse retrato pungente e assustador me faz lembrar uma frase do escritor russo Leon Tolstoi, bem no princípio do século XX: “O homem só pode melhorar uma coisa, a única que está em seu poder: ele próprio. Mas, para melhorar a si mesmo, é necessário que cada um reconheça que não é bom; e isto é a última coisa que o homem admite e quer”.
Pois esta é a hora de admitir que não somos bons e temos de melhorar, crescer como gente e, paralelamente a isso, espantar a nossa ignorância e tratar de aperfeiçoar os nossos níveis de informação e conhecimento, sob pena de nos vermos absolutamente engolfados nesse turbilhão que não tem tempo previsto de parar.
É prudente ter medo, é lógico ter receios, mas é preciso que cada pessoa ou empresa não sucumba às primeiras águas. É hora de aprender a nadar contra a correnteza, repetir o fenômeno da piracema a descobrir as nascentes dos novos rios que nunca pararão de correr, até porque não se passa duas vezes pelo mesmo rio, segundo Heráclito.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2000.

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CASADO E SEPARADO

Fiquem tranquilos. Vocês não conhecem. É gente distante. Pessoas amigas gastam seus e-mails para me falar da incoerência de estarem casadas e viverem separadas. Paradoxal? Não. Absolutamente verdadeiro.
Eu sempre tento responder o que me perguntam, mas não tenho certeza de colaborar. Às vezes, posso até atrapalhar. Correndo esse risco, sempre é bom discutir as razões, mesmo me faltando à ferramenta terapêutica para apontar soluções. Afinal, como dizem os profissionais que vivem de cuidar das almas e das mentes dos outros, as soluções estão dentro de nós. O difícil é manter um casal pensando como “nós”.
Acredito que os casais não podem procurar respostas isoladas para seus problemas. É preciso admitir, para começo de conversa, que os dois devem voltar a conversar, sem medo de estar invadindo o espaço do outro. Pelo contrário, o respeito ao espaço do outro pode dar origem ao distanciamento, um dos alavancadores da solidão entre casais. É claro que cada um deve, nestes tempos bicudos, procurar viver a sua vida. Isso não invalida que se comuniquem, falem de suas alegrais, fraquezas, desejos e sonhos. Briguem, até.
Os olhos podem até demonstrar começar com raiva e terminar com ternura, brilhar ao ver o outro. Sem brilho no olho não há amor e é preciso usar um colírio para manter e lubrificar o olho atento: o toque físico, o erotismo, o companheirismo e a ternura. Ainda não somos virtuais, somos gente de carne e osso, com odores precisando ser sentidos, corpos necessitando de afagos e ouvidos desejando não a censura, mas o papo descontraído, as pernas cruzadas, a cumplicidade e aquela arenga puxando o lençol podendo acabar em um simples abraço ou algo mais quente.
As estatísticas, sempre elas, demonstram o óbvio. Casais jovens se tocam mais, chegam a perto de 40 toques mútuos por dia. Os casais mais velhos se preocupam em tocar a vida, o controle remoto, órgãos eletrônicos e, passando a discípulos de Onã, descobrirem o seu próprio corpo. Está errado. A saída pode estar em andarem mais juntos, descobrirem que não são tão chatos quanto imaginam e não usarem somente as suas reservas de boa convivência na presença de estranhos. Sejam menos exigentes com o outro. Afinal, todos temos os nossos defeitos e, defeito repetido, vira mania e mania incomoda o outro.
O homem vai, pouco a pouco, perdendo a sua capacidade de conquistar ou manter a conquista da própria mulher. É a acomodação que deve ser rompida pela mulher com os seus enlevos, coragem e iniciativa. Não estou falando só dos casais que possam eventualmente ter uma aventura extra, mas do que perderam o apetite pelo outro pela falta de diálogo, pela ignorância de admitir que só o outro é que envelhece e se afasta para um mundo seu, quase autista. É preciso diálogo e deixar a conversa superficial de filhos, trabalho e dinheiro, para o que sinto, o que me falta, onde você poderia me ajudar etc. É indispensável deixar brotar os sentimentos, adivinhar pensamentos e assassinar a rotina. Saiam só, sem amigos e conversem sem medo, sem acusações, recriminações e fantasiem o erotismo que, por certo ainda existe e tornem-no prático, sempre.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/01/2000.

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PARI

A gestação foi longa. Anos. Décadas. Lembro: o “primeiro livro” escrito por mim aos 14 anos. Era um “romance” bobo feito à mão em um caderno “Avante” em que um adolescente se apaixona, nas férias, por uma menina faceira e arisca. E por ai ia. O fato é que, um belo (ou nefasto) dia, o caderno caiu numa piscina, o romancista e o romance se afogaram. Depois, como todo mundo, fiz versos que estão mofados nas gavetas.
Já universitário, passei a escrever em jornal com coluna diária assinada. A primeira fase foi sobre “informes acadêmicos” em que narrava o acontecido na vida universitária. Posteriormente, escrevi durante anos sobre “administração e negócios” e fui correspondente de uma revista semanal de economia. Tive até a audácia de, por breves tempos, coproduzir com o Hélio Mota um programa semanal de TV, “Fortaleza, preto e branco”, em que a cidade era passada a limpo, sem apelações.
Na universidade fiz trabalhos, monografias e teses, mas a vida me jogou em outros rumos e, já como planejador, dirigi a elaboração de muitos planos e projetos. Tinha de escrever, é claro, mas não era a escrita solta, descomprometida do escrevinhador que ama o papel em branco para colocar o que sente, sem peias.
Um dia, faz muito tempo, me permiti voltar a escrever em jornal e o fazia de forma esporádica. Ora um jornal, ora outro. De repente, me fixei nesta página dois do DN e cá estou eu espremido pelo editor Bilas há mais de trezentos domingos.
Toda essa lenga-lenga é para dizer aos meus parcos leitores que reuni no ano passado, em livro, algumas das crônicas aqui publicadas. Procurei as que fossem mais leves. Pedi a Saulo Neiva, Professor Doutor de Literatura Brasileira, hoje docente da Université Blaise-Pascal, na França, que lesse o “boneco do livro” e, se gostasse, fizesse o prefácio. Ele fez o prefácio. E o livro foi parido com o prosaico título de “Sobre a vida e o amor”. O livro é como o título, simples, raso e tenta apenas mostrar uma face minha pouco visível. Como disse Guimarães Rosa, em Tutaméia: “o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”.
Não fiz noite de autógrafos, por achar que há uma saturação indevida desse evento. Preferi presentear a alguns amigos e livrarias o estão vendendo. Finalmente, foi Machado de Assis, no livro Dom Casmurro (XCII), quem falou: “O resto deste capítulo é só para dizer que, se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2000.

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O BRAZUCA E O ANO NOVO

Há muita informação no mundo e as notícias – ou fofocas – correm céleres. Quando não saem nas televisões e jornais locais ou nacionais, os de fora mostram sem dó, nem piedade. Acho que foi por tal razão que, de repente, um brazuca me liga e pergunta se não soube da história do FHC no Forte de Copacabana, no Posto Seis no Rio de Janeiro.
Segundo ele, auto banido do Brasil, a festa a que o nosso presidente compareceu parecia um” baile da Ilha Fiscal” com tendas, champanha francesa, uísque escocês, vinhos de várias origens, acepipes e iguarias de todas as espécies.
Havia castas: 100 muitos amigos, 200 menos amigos e 200 militares, em espaços separados. Pois não foi que o vento moleque de Copacabana resolveu acabar com a festa, derrubar tendas, apagar a luz e colocar em alerta os seguranças que fizeram o que sabem: dar pancada em fotógrafos e jornalistas.
A grande imprensa não deu detalhes, mas não teve como esconder tudo. A coisa esteve feia e o nosso presidente viu o ano nascer no escuro, cercado por seguranças, sem telefone funcionando (o que é paradoxal) e ouvindo a truculência a poucos metros. E o que é pior é que tudo era pago pela Embratel, uma empresa nossa que virou transnacional. Nos Estados Unidos seria caso de cadeia, bradava ele. E desligou a ligação.
Sei que o nosso brazuca, ou brasileiro desterrado, pode ter complexos, arengas pessoais ou exagerado, mas já é tempo dos que são empregados por nós para dirigir a coisa pública, por tempo determinado, começarem a pensar e agir de outra forma. Afinal, empregado tem que prestar contas do que faz, sob pena de perder o emprego.
Neste ano dos três zeros é tempo de reflexão para que, nas próximas eleições, os zeros passem a ser nota. Os brasileiros já estão recuperando a sua memória e, por certo, saberão exercitá-la no próximo pleito municipal e, em 2002, escolherão deputados, senadores, governadores e um presidente que tenham compromissos com os novos tempos que estão surgindo e uma postura pública mais coerente com a nossa realidade.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2000.

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HORA DE AGRADECER

Agora que os anos começados com o numeral um (1900 a 1999) acabaram, não tripudie sobre eles. Eles foram extremamente importantes para toda a humanidade.
Escrevemos em computador com internet ligada e fax, usamos ar condicionado, telefone disponível, circuito de segurança ligado, fechaduras eletrônicas, geladeira, freezer, fogão à gás com acendedor elétrico, micro-ondas, televisão, vídeo cassete, aparelhos de som com CD e carro na garagem. Todas essas coisas fazem parte da vida de muita gente. Nada disso existia no ano 1900.Agradeça.
Varamos céus em aviões de carreira por todos os continentes e isso não poderia acontecer em 1900. Usamos sais minerais e vitaminas de A a Z, e eles foram criados neste século. Não temos medo de varíola, febre amarela, poliomielite, sífilis, tuberculose e outras doenças. A Azt deu um freio na praga da Aids. No século passado as pessoas morriam com 40 anos, em média. Hoje, aos 40 anos, as pessoas estão absolutamente jovens. As cirurgias são feitas com a ajuda de computador e laser, a anestesia não deixa ninguém sentir dor e quase ninguém mais morre. No século passado, apenas 5% dos operados escapavam. A radioterapia e a quimioterapia são sucesso na cura de vários tipos de moléstias.
Há muitos transplantes sendo feitos com êxito e não é raro alguém enxergar com a córnea do outro, um rim novo doado, coração de um morto e muita coisa mais. A angioplastia evitou milhares de mortes de doentes cardíacos que não precisaram ser operados. Um simples cateter desobstruindo. Os corações descompassados usam marcapassos. Agradeça.
Os hospitais psiquiátricos estão acabando graças a novas drogas, o valium ajudou a muita gente, a aspirina aplacou dores, o prozac deu alegria a pessoas tristes e o viagra recuperou a autoestima de muitos homens. Agradeça.
As mulheres estão firmes no mercado de trabalho, só tem filhos quando desejam, não precisam usar o sobrenome do marido, a maioria sabe o que é orgasmo, participam de parlamentos, ministérios, organismos internacionais e vão ganhar ainda mais espaço, pois são capazes e têm sensibilidade. Muitos casais que não podiam conceber filhos usam a fertilização artificial. Agradeça.
É claro que ainda existe guerra, desrespeito ao meio ambiente, miséria, fome, corrupção, desemprego e fanatismo religioso, mas éramos menos dec2 bilhões em 1900 e hoje somos seis bilhões. É muita gente para morar, alimentar, vestir, educar e trabalhar. Isso é tarefa que cabe a quem recebeu tudo o que falei acima. Todos nós somos devedores. É preciso que cada um faça a sua parte. Não espere por governo e nem por milagre. Você é o santo, use as suas forças, qualquer que seja seu tamanho ou intensidade. É tempo de agradecer a Thomas Edison, Henry Ford, Marie Curie, Albert Einstein, Santos Dumont, Paul Ehrlich, Alexander Fleming, Sigmund Freud, Jacques Costeau, JoãoXXIII, Churchill, Charles Chaplin, Yuri Gagarin, Igor Stravinski, John Kennedy, Shere Hite, Gorbachev, Nelson Mandela e, principalmente, a seus descendentes que lutaram para você estar aqui participando desta glória que é estar vivo. Agradeça, por fim, a Deus.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/01/2000.