Eu vi na pré-estreia numa última sessão de uma noite de sexta-feira. Fiquei chocado e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Passei a indicar, no dia seguinte, para amigos de um grupo que frequento aos sábados.
Bonito e doloroso. Meigo e cruel. Sensível e lancinante. Doce fel. Tedioso e eletrizante. Agora, passada três semanas e quando já entrou em cartaz regular, me permito falar sobre “beleza americana”, um filme dirigida por um jovem inglês, 34 anos, descendência portuguesa, chamado Sam Mendes. O seu filme conseguiu impactar e mexer com a cabeça de milhões de pessoa.
Quem acompanha a história da sociedade americana neste último quartel do século XX sabe do orgulho dos estadunidenses em proclamar e exportar o “american way of life”. A alta classe media americana é a baluarte e condutora de todo o processo comportamental e de mídia do “grande irmão”do norte. Lá, como aqui, a alta classe média traduz padrões de referências e vive de um sonho que se baseia na família estruturada, no status social e no consumo. Pois bem, o “beleza americano”trata disso com a sensibilidade de uma batuda de maestro, a sutileza de um misturi de um cirurgião, o ponta pé de um carateca e um soco de um lutador peso pesado de boxe.
A voz em “off”, no início do filme, do ator Kevin Spacey, soa lenta e modorrenta como o subúrbio em que se desenrola o filme. O personagem Laster Burnaham diz que vai morrer e que ainda não sabe disso. Ora, todos sabemos que vamos morrer, apenas não queremos pensar nisso. Ele, contudo, fala em morte próxima.
O filme passa a derrubar o primeiro ícone da sociedade americana: a idéia de que o automóvel feito em Detroit ou outras cidades dos Estados Unidos é o melhor do mundo e toda família deve tê-lo. Os dois carros do casal são um japonês Camry da Toyota e uma mini-van Mercedes Benz alemã.
O segundo ícone desmistificado é a propaganda americana com seus apelos ao consumo: Spacey/Levin trabalha há 14 anos em uma agência de publicidade e ao sentir que vai ser despedido relata todos os “podres”dos dirigentes e o embuste que é o seu emprego. Sua Mulher(Annete Bening) é o exemplo da corretora de imóveis padrão que ensaia as conversas para clientes e tenta vender gato por lebre.
O casal é uma farsa, pois o marido e a mulher estão distanciado física e mentalmente, tornando claro que nada resistiu ao tempo e que um sofá de “chintz” de 4.000 dólares é mais importante que a tentativa de reaproximação, possivelmente salvadora.
A juventude da escola secundária é mostrado sem rodeios: consumo e tráfico de maconha, fantasias eródicas, líderes de torcida e distância de pensamento, comunicação e identidade com os pais.
Daria para falar mais, muito mais, especialmente da paulada que dá nas forças armadas americanas ao criar um coronel reformado dos fuzileiros navais, sua moral, a submissão e alheamento de sua mulher e seus desejos(dele) inconfessáveis.
Mais não digo, para não tirar o prazer de quem não assistiu a esse intrigante filme que luta por oito “Oscars”. A quem já viu, peço que reflita e veja que as coisas por cá, embora sejam diferentes, não são muitas. Afinal, nós temos a mania de copiar e os Estados Unidos são a nossa maior referência, para o bem e o mal. Ia esquecendo: O título do artigo refere-se à flor (Americana Beauty) que dá nome ao filme: é linda, mas não tem cheiro.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/03/2000.
