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CÔNSULES EM AÇÃO – Diário do Nordeste

Ontem à noite, a Sociedade Consular do Ceará-SCC, recomeçou novo biênio de gestão sob a presidência segura de Ednilton Gomes de Soárez com a posse dos demais diretores: Raimundo Viana, C.Maurício Duran, J.M. Zannochi e Fernanda Jensen. A seguir a introdução oficial do novo cônsul honorário do Chile, o ínclito Ednilo Soarez que já participou de reunião em Salvador com os cônsules daquele país andino no Brasil.
A solenidade foi coroada com a apresentação do espetáculo “Sagrada”, uma fantasia sobre a sustentabilidade do planeta Terra. Os bailarinos, os figurinos, a coreografia e a musicalidade são da Edisca, essa benquista entidade criada e dirigida por Dora Andrade que acolhe jovens carentes e os transforma em artistas e cidadãos.
Compõem a atual SCC os seguintes cônsules: Annette de Castro, Holanda; Beat Suhner, Suíça; C.Maurício Dominguez, Colômbia; Dieter Gerding, Alemanha; Ednilo Soárez, Chile; Ednilton Soárez, Finlândia; Reinhilde Lima, Áustria; Fernanda Jensen, França; Francisco Brandão, Portugal; Janos Fuzesi, Hungria; João Soares, México; Airton Teixeira, Belize; J.M.Zanocchi, Uruguai; Luciano Maia, Romênia; Marcos de Castro, Noruega e Suécia; Raimundo Viana, Rep. Tcheca; Roberto Misici, Itália; Sergio Bayas, Equador; e Zsofia Sales, Hungria.
Nunca é demais repetir que os cônsules são acreditados pelos países que representam – de quem recebem diretrizes – e pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil que os credencia. Todos exercem suas atividades de forma permanente e voluntária nas jurisdições que lhes são confiadas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/08/2015

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A INVASÃO DO “ENXAME” DOS EX-COLONIZADOS – Jornal O Estado

Enquanto nós, brasileiros, acreditamos estar no pior dos mundos, é preciso abrir os olhos para o que está ocorrendo por aí. A Europa, constituída por países que têm nas suas histórias a adjetivação pejorativa de colonizadores, sofre, desde 2011, com a migração constante de africanos e árabes.
Há oito dias, exato em 30 de julho, o Premiê da Inglaterra, David Cameron, disse o seguinte: “Há um enxame de pessoas vindo pelo Mediterrâneo em busca de uma vida melhor, porque o Reino Unido tem bons empregos, a economia está crescendo, mas precisamos proteger nossas fronteiras”. E arrematou: “Devemos proteger as fronteiras para ter certeza de que os turistas britânicos poderão ir para as suas férias”. É verão na Europa. Seu pronunciamento não foi bem recebido por alguns. O Eurotúnel agora é foco de ataques.
Um pouquinho de história. Quando a escravatura foi abolida, na primeira metade do século XIX, os europeus, que detiveram o comércio de seres humanos, resolveram repensar o que inventar para que as riquezas continuassem a fluir e a nutrir o progresso em curso face à revolução industrial, levariam
Houve, em setembro de 1884, o “startup” – palavra da moda atual – de uma grande reunião na Alemanha que viria a ser conhecida como “Conferência de Berlim”. Desse conclave, encerrado em fevereiro de 1885, participaram, além do país sede, Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Áustria/Hungria, Dinamarca, Itália, Espanha, Portugal e os Estados Unidos, o único não europeu.
Esses países dividiram a África segundo os seus interesses próprios, desrespeitando etnias, crenças e geografias. Atinaram que, além de mão-de-obra barata, teriam os virgens subsolos africanos para extrair as riquezas minerais possíveis. Do ouro ao ferro, do chumbo ao diamante. Admite-se que 90% do território da África foi dominado até grande parte do século passado. Encerrada a dominação colonial – e mesmo na sua constância – começa o êxodo e o desejo dos ex-colonizados de habitarem os melhores ares dos países que os dominaram de forma não muito gentil.
Não muito diferente do que aconteceu na África, quase a mesma constelação de países, a partir dos grandes descobrimentos, com a chegada do português Vasco da Gama à Ásia, invadiu o sudeste asiático e o Oriente Médio. Sem precisar de Conferência, houve o que se convencionou chamar de “Partilha da Ásia”.
Foi o “enxame” da voracidade europeia de expansão comercial e a introdução, por exemplo, de “plantations” para o cultivo de arroz, pelos franceses; da seringueira, pela Grã Bretanha; e da cana-de-açúcar pelos holandeses.
O continente asiático, depois do fim da dominação europeia, tendo a China, o Japão e a Índia como referências, está em notável ritmo de crescimento. O mesmo, entretanto, não acontece com o Oriente Médio, onde cristãos e muçulmanos, especialmente os xiitas, os curdos e os sunitas, parecem ter despertado após as invasões do Afeganistão, da Síria e do Iraque, e do recente acordo com o Irã para a não fabricação de armas nucleares. Há muitos lados em luta, desde o surgimento e a posterior morte de Osama Bin-Laden. Estima-se que existam hoje cerca de quatro milhões de refugiados no Oriente Médio.
Por tudo isso, muitos jovens árabes saíram e continuarão a tentar sair de seus países, ou do que resta deles. O caminho natural da fuga, a pé ou por veículo, passa, entre outros, pela Turquia. Os turcos já prometem construir um alto muro que impeça ou dificulte a invasão de seu território, uma das rotas para o norte da Europa. Por outro meio, o mar Mediterrâneo é o cemitério e o estuário dos africanos que fogem de problemas similares e têm morrido, aos milhares, nas travessias em velhos navios mercantes, cargueiros e até batelões improvisados.
Há campos para atendimentos a refugiados, em especial na Itália e na França, trens e veículos sofrem ataques. Tudo leva a desdobramentos que ainda não sabemos onde irão parar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/08/2015

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LIVROS E LEITORES – Diário do Nordeste

No livro “O Falecido Mattia Pascal”, de Luigi Pirandello, Nobel de Literatura em 1934, há fato ainda comum hoje em dia. Alguém morre, conta Pirandello. Foi o Monsenhor Boccamazza. Deixa o legado de livros para o município em que vivia. O município não deu à mínima “e deixou os livros empilhados, durante muitos e muitos anos, num amplo e úmido depósito, de onde, os tirou – podem imaginar em que estado – para guardá-los na igrejinha, fora de mão, de Santa Maria Liberal, dessagrada não sei por qual motivo”.
Essa constatação é fácil de constatar em sebos, quando livros, sequer lidos, alguns com dedicatórias amáveis, são encontrados aos montes. Os que escrevem devem ter a consciência de que esse pode ser o destino de alguns dos seus livros, mesmo que hajam gastado tempo para a sua elaboração, revisão, edição e, se for o caso, lançamentos com pouco ou muito público.
Há pessoas que declaram aos autores haver gostado muito dos seus livros, mas, na realidade, os folhearam vagamente. Reza a lenda que certo autor, desiludido, no seu último livro, a altura da centésima página, resolveu escrever um desaforo ao leitor com palavras de baixo calão.
Depois, sempre que encontrava algum dos prováveis leitores desse dito livro, perguntava: leu o livro? foi até ao fim? gostou? Os elogios eram sempre fartos, a comprovar mentiras, pois nenhum se referiu à trapaça que ele armara na página 100. Portanto, escuse-se de fazer questionamentos. Deixe que o leitor expresse a sua versão. Não fique triste, pior foi o caso do Monsenhor Boccamazza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/08/2015

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FAMÍLIA GUINLE: DO ARMARINHO À DINASTIA – Jornal O Estado

“Se você deseja, não lhe fará mal”. Máxima dos Guinle
Clayton Lima, da Livraria Smile, deu-me um exemplar do livro “Os Guinle – A História de uma Dinastia”, obra do historiador e professor Clóvis Bulcão. “Os Guinle” foi elaborado com cuidado, lançado em junho pela “Intrínseca”. Começa com frase de Nelson Rodrigues: “Quando desaparece um Guinle, morre um pouco do nosso passado”.
Em seguida há a genealogia da família, descendente de imigrantes franceses, iniciada com Eduardo Palassim Guinle e Guilhermina Coutinho Guinle e vai até a sua quinta geração. Há uma cronologia, a partir de 1840, mas, na verdade, o ponto de partida é o nascimento de Eduardo Guinle, em 1846.
No mundo dos negócios a vida começa em 1871, com a abertura de um armarinho, no antigo centro do Rio de Janeiro, quando os sócios Eduardo Guinle e Cândido Gaffrée fundaram o “Aux Tuileries” que vendia um pouco de muitas coisas.
Eduardo e Guilhermina, casados em 1878, tiveram os filhos Eduardo, Guilherme, Carlos, Arnaldo, Octávio, Celina e Heloísa. Uma das características da família foi morar bem, cultivar relacionamentos com governantes, e dar aos filhos boa instrução, inclusive, com governanta estrangeira, oportunidade de aprenderem línguas e obter graus de ensino superior.
O ponto de inflexão da ascensão de Eduardo, o patriarca, e de seu sócio Cândido Gaffrée, foi a disputa da licitação para operar e ampliar o Porto de Santos. O fato aconteceu em 1888, depois de duro embate. Já em 1892 era inaugurado o novo porto com 260 metros de caís construído pela sociedade.
Daí para frente há a entrada na área elétrica, concorrendo com a Light, poderosa empresa canadense. Esse novo ramo de atividade também foi decisivo para o crescimento da engrenagem empresarial e social dos Guinle.
Por outro lado, em 1902, surge o Fluminense Football Clube, do qual os Guinle viraram sócios. O Fluminense, ainda hoje, leva o nome de “pó de arroz”, por ter sido fundado por pessoas de bom nível social. Os Guinle tiveram influência na construção do estádio do clube onde foi disputado a decisão do campeonato Sul-americano de 1918, quando o Brasil venceu o Uruguai.
Eduardo, o patriarca, morre em 1912. Em 1914, seu filho Octávio – que procurava entrar no “jet-set” americano- é preso em Nova Iorque por suposto ataque físico à americana Monica Borden, com quem, depois de um acordo em que desembolsa 50 mil dólares da época, resolve casar. Esse casamento, como era de se esperar, durou apenas dois anos.
Com a urbanização do Rio de Janeiro e a inauguração da nova Avenida Central (hoje, Rio Branco) seguindo os passos da modernização da Paris de Haussmann, a família funda uma hotelaria. Em 1918, e surge o Hotel Palace, no Centro.
Copacabana era o futuro do Rio e a família comprou as terras que pode e, em uma delas, resolve construir o hotel Copacabana Palace, inaugurado em 1923. “O Copa” sempre foi a obra mais visível da família, embora o grosso da fortuna da dinastia esteja ligada aos 92 anos de controle ininterrupto do Porto de Santos.
Saindo da cronologia, para não atrapalhar a quem desejar ler o livro, um fato peculiar chamou-me a atenção. O regente cearense Eleazar de Carvalho foi beneficiado com uma bolsa de estudos. Arnaldo, filho de Eduardo, que assumira, em 1941, a presidência do Conselho da Orquestra Sinfônica Brasileira-OSM. Eleazar foi para a Berkshire Music Centre, em Massachussets, e recebia- da OSM- duzentos dólares- que valiam muito – a cada mês.
Dou por terminado este relato, mas sem esquecer que o perigeu dos Guinle acontece, em 2004, com a morte do “playboy” Jorginho Guinle, que foi o “must” na propaganda do Copacabana Palace. O Copa foi vendido a grupo estrangeiro em 1989. A aura continua.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/07/2015

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O BRASIL DO REAL OU O BRASIL REAL – Jornal O Estado

“O Brasil não é para principiantes”, frase atribuída a Tom Jobim.
No Brasil, há coisas estranhas, dignas de serem analisadas pela sociedade psicanalítica nacional. Houve tempo em que carros mostravam o adesivo: “Brasil, ame-o ou deixe-o». Depois, veio a luta pelas diretas e o País se veste de verde e amarelo. Tancredo vai eleito, por via indireta, e há verdadeiro carnaval. Aí, Tancredo adoece, morre, e o País se desmancha em lágrimas. Cada pessoa parecia ter perdido um pai ou um conselheiro.
Surge o presidente Samey e repete, no discurso de posse, uma frase de Tancredo: “É proibido gastar”. E começa a gastar. Gasta tanto que só há uma solução: o Plano Cruzado. “Cada brasileiro ou brasileira deverá ser um fiscal do Presidente”, disse, e o povo aceitou. Nunca houve tanta delação quanto logo após a decretação do Plano Cruzado. A Sunab e a Polícia Federal ficaram encarregadas das reclamações e de trotes, dos fuxicos e das perseguições de pessoas que não gostavam de outras e, aproveitando a ocasião, haja denúncias.
Sarney enxuga as lágrimas do povo brasileiro e passa a ser o nosso novo herói. Todo bom herói que se preza tem o seu fiel escudeiro, o Dilson Funaro. Menos de um ano se passou e Sarney perdeu o seu trono na paixão coletiva. Depois, o lbope disse ao Sarney que o caso de amor estava acabando juntamente com a nossa paciência. Ele resolveu arregaçar as mangas de seu jaquetão clássico, pentear os bigodes e a cabeleira e costurar o “pacto social”, que não aconteceu.
Após Sarney veio o Collor, com a aceitação total da mídia e da maioria dos eleitores que não souberam ver a intranquilidade no seu olhar e no gestual. Deu no que deu. E aí veio o Itamar com o seu temperamento ciclotímico e a ideia de ressuscitar o velho Fusca. Apesar disso, quase no final do governo Itamar, Ciro Gomes e economistas de peso bolaram o Plano Real, do qual se apropriou o novo Ministro da Fazenda, FHC, e daí para a eleição foi um passeio. FHC vai reeleito, a custa de barganhas.
Em meio a procelas e ajustes, o Plano Real se mantém há 21 anos e o povo, cheio de promessas, permitiu a aprovação da reeleição, deixando para depois as reformas fiscal, administrativa e previdenciária. Temos tempo. O brasileiro estava alegre, até frango comia.
Saiu FHC, entrou Lula, o metalúrgico do ABC, falando a linguagem que a maioria do povo queria ouvir. Os empresários torceram os narizes. Em seguida, houve a aproximação que virou amizade. Lula vai reeleito, viaja pelo mundo, propaga um Brasil crescente, resolvido, cheio de orgulho e zera as contas com o FMI.
Elege Dilma Rousseff, oriunda do Brizolismo, economista, descasada, mineira aclimatada no Rio Grande do Sul e ex-guerrilheira. Emerge o sonho da mulher descrito, entre outras, por Simone de Beauvoir, Rosa de Luxemburgo e Bertha Lutz. As mulheres vibram e Dilma vai eleita com discurso imprevisível. Passam-se quatro anos, o mundo perde o gás econômico, mas, Dilma vai reeleita por estreita margem. O país entra em 2015 nitidamente dividido, começa o segundo mandato. Empreiteiros, cambistas, ex-diretores da Petrobrás e integrantes de diversos partidos, são chamados à ordem por um juiz com sobrenome parecido com Thomas Morus-o filósofo da utopia-, que principia a deslindar a enorme teia como no “O Labirinto” de Jorge Luis Borges. Mas, e o Minotauro?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/07/2015

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O PAPA E A FOICE – Diário do Nordeste

Pouca gente se dá conta do Vaticano ser um Estado. Por ser Estado, possui estrutura bem maior que a Igreja Católica necessitaria. Bergoglio, ao assumir o papado sob o nome de Francisco, viu-se cercado da burocracia imensa, histórias e estórias cabeludas que passaram, quase incólumes, nos dois papados que o antecederam.
Sua ascendência italiana, embora argentino, facilitou o convívio com o “establisment” que manuseia todos os cordões, inclusive a distribuição de cargos nas áreas de gestão administrativa e financeira; no tribunal a julgar desde desvio de dízimos, de fé, aos nebulosos envolvimentos em pedofilia; nas promoções de padres a monsenhores e a bispos, de bispos a arcebispos, de arcebispos a cardeais; e aos cobiçados cargos diplomáticos de núncios apostólicos, embaixadores nos países com os quais o Vaticano mantém relações.
A recente visita ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai é parte desse esforço de manter a fé cristã em países que estão, no todo ou parte, com a síndrome bolivariana deflagrada por Hugo Chávez, sob a inspiração stalinista da Cuba dos irmãos Castro. Chávez, nos tempos áureos dos preços do petróleo, foi benfeitor generoso da então asfixiada economia castrista.
Agora, retomadas as relações com o fim do embargo americano, Cuba não terá tanta seiva para exportar a ideologia da “pátria ou morte”. Assim, Francisco aproxima-se desse grande reduto católico que é a América Latina, sob pena de perder mais espaço para os pentecostais, os sincretismos e o bolivarismo. É a política da cruz contra a foice e os “diabinhos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/07/2015.

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O QUE SE FALA NO GOOGLE SOBRE O BRASIL? – Jornal O Estado

“No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Tom Jobim
A Folha de São Paulo resolveu pedir ao Google informações sobre as buscas dos seus internautas acerca do Brasil. O Google aquiesceu e informou, mais ou menos, o seguinte: os próprios portugueses ao usar o sistema Google fazem, em busca mais recorrente, a seguinte pergunta: quem descobriu o Brasil? A outra pergunta deles é: quem colonizou o Brasil? É verdade, não é brincadeira. Coisas da pátria-mãe.
Sobre o assunto, Patrícia Campo Mello, jornalista, informa: “Para mapear a imagem do Brasil no Mundo, o Google levantou, a pedido da Folha, o que os cidadãos de alguns países buscam em seu site sobre o País desde 2004. Afora os resultados no mínimo curiosos sobre os portugueses, o levantamento mostra que o Brasil começa a se livrar dos clichês ‘samba, futebol e carnaval’”.
Mas, descobriu-se que é no nosso país que os norte-americanos pensam em certos tipos de cirurgia plástica e estética, tais como “Brazil butt lift” (cirurgia para aumentar o traseiro) e “brazilian wax” (depilação dos pelos pubianos). Enganam-se ao pensar que por aqui há sementes nativas que teriam o poder do emagrecimento nos locais certos. Por outro lado, a pesquisa, citada, mostra que ainda há perguntas, tais como: onde fica o Brasil? em que país fica o Brasil? que língua é falada no Brasil?
Recorro à Patrícia: “A ignorância também permeia as buscas mais frequentes dos internautas do Iraque como: “Qual é o idioma”, “Onde fica?” e “Qual é a capital?”. Mas o sexo não sai do imaginário dos iraquianos (muçulmanos, diga-se) quando pensam no Brasil. O termo mais procurado por eles é ‘praias de nudismo, seguido de ‘sexo’ e ‘mulheres sexy do Brasil”.
Aqui ao lado, na Argentina, os “hermanos” procuram saber de novelas e a que tem mais entrada no Google é “Avenida Brasil”, da TV Globo, que só foi retransmitida para lá em 2014.
Fortaleza está entre as cidades mais procuradas, ao lado de Natal, Bonito – no Mato Grosso do Sul-, Itapema, em Santa Catarina e Torres, nos pampas gaúchos.
Por outro lado, além das perguntas bobas ou primárias há algo um pouco mais profundo e isso vem dos franceses que procuraram saber “quais as particularidades da presidente Dilma?”, “o Brasil produz para alimentar sua população ou para vender?” e “por que chamam o Brasil de fazenda do mundo?”.
Como se vê, o nosso País ainda é um ilustre desconhecido e isso nos entristece, pois acreditamos ser a sétima ou oitava economia do mundo e nem os da nossa pátria-mãe sabem quem somos. Tantas foram as viagens presidenciais pelo mundo afora, nestes últimos 20 anos, que imaginávamos um “recall” mais alvissareiro.
Entretanto, algo nos alegra. O nível dos perguntadores é de ordem tão primária que há esperança de que, pelo menos, entre populações mais instruídas, tais como: jornalistas, acadêmicos e intelectuais – os que ainda leem livros e possuem uma visão mais cosmopolita- possa realmente haver informações mais qualificadas.
Saber, por exemplo, que se atribui a Pedro Álvares Cabral o nosso descobrimento; que somos um país continental de 200 milhões de habitantes; que falamos a língua portuguesa e que fomos colonizados por Portugal.
Hoje, temos uma democracia turbulenta, a nossa presidente é uma mulher, Dilma Vana Rousseff, filha de imigrante e estamos nos preparando para sediar as Olimpíadas de 2016, na cidade do Rio de Janeiro, patrimônio da humanidade.
Ainda produzimos samba, especialmente em favelas pacificadas; tentamos, com o “coach” Dunga, voltar à hegemonia no futebol; os carnavais do Rio e de São Paulo são patrocinados por contraventores em parceria com multinacional de cerveja e mostrados via televisão. O ator Rodrigo Santoro é brasileiro e o nosso maior cantor é Roberto Carlos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/07/2015

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UNIFOR E ELEAZAR – Diário do Nordeste

Neste mês de julho você deve ir, levar a família e amigos para ver e ouvir o Festival Eleazar de Carvalho no campus da Universidade de Fortaleza – Unifor. Uma universidade é muito que uma instituição de ensino e pesquisa. É claro que suas faculdades e escolas devem habilitar profissionais, aprofundar conhecimentos humanísticos, científicos e tecnológicos, mas não pode esquecer as artes, em suas múltiplas manifestações.
Agora, no agradável e sombreado campus da Unifor, há rebuliço de jovens e maduros que estudam, admiram ou pretendem aprender ao participar do 17º. Festival Eleazar de Carvalho, de música erudita. Eleazar de Carvalho, não é demasiado repetir, foi um grande músico e maestro cearense com dimensão internacional. Ele começou, acidentalmente, a sua vida musical na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, ali no Jacarecanga. Depois, ensandecido pelo ouvido 100%, teve que desenvolver suas habilidades em múltiplas formações que o elevaram ao status maior da regência.
Tive a sorte de vê-lo regendo em festival em Tanglewood, Mass., grande centro musical que, como aqui na Unifor, reúne celebridades e iniciantes para devaneio das múltiplas plateias cultas e leigas, como eu. Após aquele fim de semana, houve outros ensejos de vê-lo e até de trocar dois dedos de prosa com Eleazar de Carvalho. Sônia Muniz, sua viúva, descobriu em Airton Queiroz, chanceler da Unifor, um guardião silente, profícuo e indispensável para tornar durável o sonho de formação de novos profissionais e amantes da música clássica.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/07/2015

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OS LIBANESES DO CEARÁ – Jornal O Estado

“O Líbano ergueu-se diante de mim com seus cimos nevados, seu aspecto severo, como convém a essa sentinela da Terra Santa”. D.Pedro II ,novembro de1876
Conta a história que o século 19 não foi muito prazenteiro com os libaneses, especialmente os que obedeciam a ritos cristãos e estavam encravados em áreas montanhosas do norte do Líbano, onde os recursos naturais eram parcos e a vida se tornava difícil. Zahle era um desses lugares. O País vivia sob a força do império turco-otomano.
O destino que pretendiam os primeiros imigrantes, muitos dos que vieram para o Brasil, era a América, não a do Sul, onde aportaram, mas a do Norte, para a qual não tinham visto de entrada. Os passaportes eram turcos, face a dominação.
Consta que a visita ao Líbano, em novembro de 1876, do Imperador D. Pedro II, também facilitou o processo migratório que teve como destino principal o Estado de São Paulo. Alguns desses, em diáspora já interna, vieram ter à Amazônia, seduzidos pelo ciclo da borracha. Outros, por razões diversas, chegaram ao Nordeste e ao Ceará.
A revista paulista Carta do Líbano, dirigida pelo jornalista Fouad Mitri Naime, em edição deste ano, mas não datada, publicou número especial sobre a imigração libanesa no interior e na capital do Ceará.
Nesse número são contadas histórias dos troncos dos imigrantes das famílias libanesas que, desde o final do século 19, aportaram na Praia de Iracema, então Praia do Peixe, antigo porto ou trapiche de Fortaleza.
Os primeiros imigrantes libaneses cumpriram etapas honradas de adaptação às cidades do interior e na capital. Primeiro como mascates. Depois como varejistas, logo em seguida no atacado e daí para a indústria. Eram valorosos e aqui tiveram boa acolhida, provinciana que era a maioria das gentes locais.
No Ceará, a partir de 1888, com a chegada de Demétrio Dibe, natural de Tripoli, estado litorâneo ao Norte do Líbano, deu-se a benfazeja “invasão” de emigrados libaneses que aqui, com toda a energia e esperança, fincaram raízes profundas que hoje dignificam e muito significaram para o nosso desenvolvimento.
Segundo César Aziz Ary, engenheiro e professor da Universidade Federal do Ceará, em parceria com o advogado, empresário e ex-cônsul honorário do Líbano do Ceará, Samir Jereissati, foi realizado um levantamento que identificou a existência de mais de 100 sobrenomes libaneses aqui sedimentados.
A saber: Abdalla, Abbas, Aboud, Acário, Abu-Marrul, Allan, Arsênio, Ary ( Al Kary), Asfour(Asfor), Assad, Assef, Auad, Azin, Al-Hauch, Bachá, Belem, Barha(Braga), Baquit, Bardawil, Barguil, Bayde, Bassila, Bittar, Boutala, Bouaiz, Braide, Brandan, Buhmara, Busgaib,Carrah, Carate, Cateb, Catrib, Chaib,Chehab, Daher, Demes, Dibe,Dieb,, Duailibe, Dummar, Elias, Farah, Feres, Fecury, Gazelli,Hachem, Haddad,Hamdan, Hagge, Havache, Hissa, Hakimmi, Hellal, Hiluy, Hosn, Ibrahim, Irucus (Roque), Jereissati, Jorge, Kalil, Kayatt, Karam, Kalume, Karbage, Kassuf, Koury, Kham,Kubrusly, Lazar, Lobo (Dib), Lopes (Lubus), Lattif, Mahamud, Mansur, Midauar, Mustafá, Mutran, Najar, Namem, Nasser, Nazar, Nedef, Nógimo, Okka, Otoch, Rachid, Rabay, Rassi, Romcy(Homsi) Rouquez (Roque), Safadi, Said, Salem, Salomão, Sarquis, Saker, Sater, Simão, Skeff, Sleiman, Tahim, Tajra, Tauil, Tebet, Turbay, Zahlut e Zarur.
Hoje, entranhados com sobrenomes de origem portuguesa e de outras nacionalidades, são parte importante da sociedade cearense, sem os quais a nossa história seria, sem dúvida, bem distinta e mais pobre.
É cantado e consabido o arrojo, o destemor e a energia dos que, por muitas razões, saem de sua pátria e, enfrentando obstáculos linguísticos e culturais, conseguem, em pouco mais de cem anos, formar uma descendência tão ilustre quanto as dos filhos, netos, bisnetos e já tetranetos de imigrantes libaneses no Ceará.
Em qualquer área do conhecimento humanístico, cientifico e tecnológico, e em múltiplos ramos de negócios e na política, avultam nomes libaneses originais ou já adaptados por questões fonéticas. Hoje, sem dúvida, grande parte do produto interno bruto cearense tem origem nas poupanças consolidadas e transformadas em forças motrizes do nosso desenvolvimento social.
Este artigo não é louvação, mas dever de um não libanês para com tantos patriarcas imigrantes que, do nada, conseguiram estruturar famílias e consolidar patrimônios em terra tão adusta como o Ceará.
A edição especial da Carta do Líbano e o livro As famílias libanesas no Ceará, de César Aziz Ary ao meu olhar, deveriam ser distribuídos em bibliotecas e escolas públicas cearenses, ao mesmo tempo que, digitalizadas, deveriam constituir sites e blogs que difundissem e perpetuassem as histórias das muitas famílias hoje amalgamadas com ascendências locais, pois muitas gerações já se cristalizaram na sociedade local. Shukran.
Ponte dos Ingleses ou Ponte Metálica
A Ponte dos Ingleses, também chamada de Ponte Metálica, está localizada na Praia de Iracema, Fortaleza, Ceará, Brasil. Foi um projeto de melhoramento da estrutura portuária de Fortaleza. A construção do viaduto Lucas Bicalho foi iniciada em 24 de setembro de 1921, pela empresa inglesa Norton Griffts Co., para servir de porto da cidade de Fortaleza, em substituição da antiga Ponte Metálica (ponte ao lado, próxima da Avenida Almirante Tamandaré). No entanto, nunca funcionou como porto. O viaduto integrava o ante-projeto de um porto-ilha proposto pelo engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, e desenvolvido pelo engenheiro Lucas Bicalho. As obras foram iniciadas em 1921, durante o governo do presidente Epitácio Pessoa, e foram suspensas no governo de Artur Bernardes, no qual permaneceu inconclusa. Em 1994, foi aprovado um projeto de recuperação da ponte através da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. A ponte foi recuperada e urbanizada para o uso público, além de ter recebido uma armação de madeira sobre parte do viaduto, projeto dos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon, também responsáveis pelo projeto arquitetônico do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Atualmente, a Ponte dos Ingleses conta também com um Núcleo de Proteção dos Golfinhos e uma Torre de Observação de Cetáceos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2015

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RESILIÊNCIA – Diário do Nordeste

Os que aportaram neste século 21, com a formação acadêmica e profissional da segunda metade do passado 20, estão meio sem chão neste tempo em que o romantismo e o pós-modernismo sucumbem ao politicamente correto, ao patrulhamento do modo de pensar, do escrever e do agir.
Estão perplexos em meio às desavenças entre os pentecostais e os defensores da liberdade do pensar e da união homoafetiva. Todos veem o “default” da esquerda glamorosa no poder pelo poder com a repentina mudança de hábitos e atitudes. Deu no que está dando e dará, se der.
Estão ainda tontos com a leitura de “O Capital no Século XXI”, do economista gaulês Thomas Piketty. O piquete, desculpe o trocadilho, armado na pracinha defronte ao touro que identifica Wall Street, foi virando ondas surreais de um novo capitalismo neste ocidente da Terra.
Enquanto isso, os sunitas, com armamentos, instalações e equipamentos deixados pelos americanos ao sair do Iraque, criaram o Estado Islâmico-EI e abriram cruéis guerrilhas contra xiitas no poder e até turistas. O EI, dizem, parece receber dinheiro e apoio de parte de alguns donos do petróleo jorrante no golfo pérsico. A Turquia constrói muro contra imigrantes. Putin resmunga. A Grécia fraqueja com dívidas de bancos privados, assumidas pelo Estado. O Euro segue incólume?
Neste clima de desaceleração, os que vêm do 20, mesmo perplexos, não têm medo, pois passaram por tamanhas maluquices e patriotadas que um pouco mais de sofrimento não os abala. São resilientes. Imaginam que, mais além, voltará o estado natural. Será?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2015