Sem categoria

Pedro Nava por Monique Le Moing – JORNAL O ESTADO

“Que somos nós!? Pronomes pessoais”. Mário de Andrade
Gosto de ler biografias. Agora, li “A Solidão Povoada” uma biografia sobre Pedro Nava, escrita, em 1996, em português, pela acadêmica francesa Monique Le Moing, para a sua tese de doutoramento.
Pedro Nava, mineiro de Juiz de Fora, era filho de Diva Mariana Jaguaribe, “moça de recursos”, e do médico cearense José Nava, membro da Padaria Espiritual, movimento fortalezense do fim do século 19.
Nava nasceu, em 1903, e viu seu pai morrer logo em 1911. A a sua primeira grande perda. Foi criado pela mãe Diva e pelos tios Alice e Antônio Sales, poeta e também padeiro espiritual. Formou-se em medicina em Belo Horizonte e, em seguida, clinicou no oeste paulista. Aos 30 anos voltou ao Rio de Janeiro, onde havia concluído o ensino médio no Colégio Pedro II. Em 1942 casou-se com Nieta Penido. Com ela conviveu até a sua morte em 1984. Não tiveram descendentes.
Paralelo à sua vida como médico- dirigia clínica de reumatologia e era professor da Faculdade de Medicina no Rio – participava de papos com intelectuais tais como, os “sabadoyles”, na casa de Plínio Doyle. Da roda faziam parte, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Afonso Arino de Melo Franco e Joaquim Inojosa. Porém, Nava só começou a escrever literatura aos 70 anos.
O livro em análise é um trabalho sério de pesquisa, com a vantagem de ter sido escrito por uma não brasileira, o que pressupõe a isenção de Monique. Ela já havia – em sua tese de mestrado – dado a lume “O ciúme na obra de Machado de Assis e de Allain Robbe-Grillet: Dom Casmurro e La Jalouisie”, orientada pelo professor Silviano Santiago.
Monique justifica o caminho que tomou na biografia: “Uma polêmica agitava então os meios intelectuais do Rio quanto ao fim de Pedro Nava: suicídio? Assassinato? Dizia-se que frequentava certos meios homossexuais do Rio de Janeiro e ninguém acreditava que ele fosse capaz de ter uma vida dupla, que tinha sido objeto de uma chantagem qualquer e compelido a um gesto de desespero. Meu interesse por seus escritos, incrementado pelo mistério que de repente envolvia a sua morte, assim como a recente descoberta dos arquivos, decidiram a orientação do meu trabalho”.
Ao meu olhar, bastaria Monique pesquisar a estreita ligação – e correspondência – de Pedro Nava com Mário de Andrade, nos anos 1920, para dar uma pista de sua preferência sexual. Foi Pedro Nava o autor das ilustrações do famoso livro “Macunaíma, um herói sem nenhum caráter”, de Mário de Andrade.
Sobre Mário, agora foi aclarada e publicizada, se bem que de todos sabida, a sua homossexualidade. Monique, diga-se, foi, igualmente, a tradutora para o francês do livro de Mário de Andrade, “O Turista Aprendiz”, em que ele tenta compreender o Brasil, lapidar sua formação, narrar as suas peripécias, tirar fotografias, o que fez em duas viagens etnográficas ao norte e nordeste do Brasil, entre 1927 e 1929. Foi entre essas duas viagens que Andrade resolveu publicar “Macunaíma”, sua obra capital, em 1928.
Em ensaio da colunista Adriana Küchler, da revista sociocultural paulista “Serafina”, na Folha-SP, há uma declaração, talvez nova, sobre “Macunaíma”. Carlos Augusto Kalil, curador da Casa Mário de Andrade, diz que Mário quase copiou a obra “Vom Roraima zum Orinoco”, do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. E tem mais, na “bricolagem” usa trechos de Couto de Magalhães e até de Capistrano de Abreu.
Vou ficando por aqui, mas antes quero dizer que “A Solidão Povoada” é sólido em informações bem trabalhadas por Monique que, inclusive agregou ao texto o nome de todas as obras publicadas por Nava, incluindo poemas, trabalhos científicos e literários, memórias, prefácios, discursos, conferências, entrevistas, obras inéditas, correspondências – ativa e passiva – e, por fim, artigos escritos sobre o médico/escritor, dentre eles, o do cearense Edigar de Alencar que o refere como “Um líder de inteligência nordestina”, por ele ter raízes cearenses.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2015.

Sem categoria

ACL E O PALÁCIO DA LUZ – Diário do Nordeste

Construído no fim do século XVIII, o Palácio da Luz, localizado na Rua do Rosário, ao lado da Praça General Tibúrcio, passa por mínima reforma interna que se fazia necessária.
Há algum tempo, grupo formado por José Augusto Bezerra, Ubiratan Aguiar, Regina Fiuza e, entre outros, este escriba, resolveu enfrentar obstáculos e retomou projeto paralisado de restauro da sofrida estrutura física e do parco mobiliário. Na presidência de Bezerra, a Academia Cearense de Letras conseguiu reunir parte da bancada federal cearense e mostrar a real situação física do pouco aquinhoado Palácio da Luz, ex-sede de governos, domicílio da mais antiga entidade literária do Brasil, fundada que foi em 1894.
Alguns deputados vendo a penúria das instalações e o risco de desabamento de sua coberta, se comprometeram a ajudar com parte dos recursos de suas emendas parlamentares. Outros deslembraram. Após isso, diligentes e com paciências de monges, Bezerra e Ubiratan andaram por “Ceca e Meca” em Brasília. A ACL só conseguiu guarida aqui com o Banco do Nordeste.
Agora, a ACL já reabriu a biblioteca, renovada e climatizada. Depois de entraves, o auditório passa por ampliação, em face do uso constante – e gratuito – por mais de uma dezena de entidades que têm naquele espaço o local de suas reuniões. No segundo semestre as obras estarão concluídas. A ACL voltará a ser aberta para visitações públicas, a usar o seu auditório e a cumprir a sua programação cultural, inclusive com seminário literário dirigido por Angela Gutiérrez.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/06/2015.

Sem categoria

MACHADO DE ASSIS, DE RABUGENTO A COMPASSIVO – Jornal O Estado

“Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e ao corpo. As melhores digestões de minha vida são as de jantares em que sou brindado”. Machado de Assis
Na posse do romancista Antônio Torres, em sessão solene na Academia Brasileira de Letras – ABL deparei-me com o diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet, de fardão. Do meu jeito irreverente, disse: ”Estarei cumprimentando o acadêmico ou a lei? ” Explico, Rouanet foi o mentor da lei de renúncia fiscal, à época do governo Collor. Sem perder a fleuma, que em anos de Itamaraty lhe foi incutida, respondeu: ”Com os dois”. Rimos.
Agora, Rouanet como Coordenador- Irene Moutinho e Silvia Eleutério, como pesquisadoras -, deu a lume o quinto volume da correspondência de Machado de Assis – 1905-1908, edição da própria ABL, objeto de ensaio-reportagem de Luís Antônio Giron, no caderno Eu&Fim de Semana, jornal Valor.
Pode-se depreender do lido que a ideia é retirar de Machado (1839-1908) a pecha de rabugento ou casmurro. Seria ele “O Dom Casmurro”. E isso é feito com maestria ao se trazer ao hoje trechos de correspondências passivas, cartas recebidas, e ativas, as que escrevia.
A eleição de José da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, por Machado, logo em 1898, mostra que este queria dar à ABL uma dimensão simpática e compassiva de “instrumento de política externa”, ao olhar de Rouanet.
Não é supérfluo repetir que Machado sofria de epilepsia- que ele chamava de vertigem-, de lapsos de memória, de depressão e, ao final da vida, de câncer intestinal. Apesar disso tudo, conseguiu ao longo dos seus 69 anos, escrever nove romances, cinco livros de poemas, nove peças de teatro, duas centenas de contos e cerca de 600 crônicas.
É apropriado lembrar que não havia computador, não se socorria do Google, tampouco ele era bafejado pela sorte que tenho ao consultar o que Giron escreveu. Era ele, o seu cabedal linguístico e a sua imaginação. Machado, antes de qualquer publicação, mostrava seus textos à sua mulher, a portuguesa Carolina Novais (1835-1904) e, por carta, ao irmão dela, o cunhado, Miguel de Novais.
A propósito, Roaunet informa a Giron: “espero viver para pôr a mão nessas cartas. Imagine o tempo que essas cartas levavam do Brasil a Portugal e vice-versa”. Os três autores deixam claro que a falsa impressão de “casmurro” cai por terra na leitura da correspondência, mostrando as suas fragilidades e humanidade. Todos sabem que Machado foi amigo chegado de José de Alencar (1829-1877) tendo, inclusive, o escolhido como patrono da sua cadeira na ABL. E essa amizade, após a morte do autor de Iracema, transferiu-se para o poeta Mário de Alencar, filho deste. Tanto é verdade que Mário, aos 36 anos, já integrava a ABL. Machado e Mário tinham também em comum a epilepsia.
Parece-me que a ideia central dessa obra, agora editada pela Academia, além da publicação de cartas trocadas com autores como Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Oliveira Lima, Mário de Alencar e outros, é desmitificar a decantada casmurrice e quiçá isolamento de Machado, motivado por seus males físicos, mas fazê-lo emergir como Aires, personagem leve e central do seu último livro, Memorial de Aires.
Machado ficou viúvo de Carolina em 1904. Após período depressivo, voltou a escrever e a receber cartas dos amigos. Uma dessas cartas, escrita por José Veríssimo, em 18 de julho de 1908, meses antes da morte de Machado, colabora com a ideia de Rouanet de que o mito do dom Casmurro é substituído pelo leve e apaixonado personagem Aires.
Um trecho de Veríssimo, citado por Giron, diz: “Você já nos tinha acostumado às suas deliciosas figuras de mulher, mas creia-me, excedeu-se em dona Carmo. Ah! Como é verdadeira que a grande arte não dispensa a colaboração do coração”.
Depreende-se, repito, Aires seria o próprio Machado e dona Carmo não seria outra senão a pranteada Carolina. Por fim, louvo essa pesquisa literária e histórica de Roaunet, Moutinho e Eleutério, tão bem sumariada por Giron. Machado vive e gosta que falem sobre a sua pessoa. Reveja a epígrafe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2015.

Sem categoria

O TAXISTA E EU – Diário do Nordeste

Vez por outra, cansado de dirigir nesse trânsito maluco, acomodo-me ao lado de um taxista e puxo conversa. Esta semana, sem querer, descobri que um taxista, dono do próprio táxi, que começa às cinco da manhã e trabalha até quatro da tarde. Fatura, em média, cinco mil por mês. Disse-me que gostava muito do “Tirulipa”, filho do Tiririca, deputado federal e palhaço de profissão.
Afirmou que o Tirulipa parodiava uma música sertaneja do Luan Santana, a quem fui apresentado naquele instante, com versão não cabível de transcrição neste espaço. Fez questão de cantar com os gestuais nada inocentes do filho do palhaço – e deputado – e, agora, macaqueador de cantores.
Disse-me ainda o condutor que a sua casa, própria, possuía garagem para dois carros, pois a mulher fez fisioterapia, possui emprego de meio expediente e atende a clientes particulares. Daí ter dado um “Celta” zero para ela. Estimou, sem rodeios, que ganhava mais do que ela. Entretanto, pensava em desistir da profissão, pois estava com sobrepeso e sabia de colegas acometidos por pressão alta, AVC e até infarto, sem falar nos riscos do trânsito e os assaltos.
Obedecia aos semáforos e os seus táxis, este e os passados, nunca bateram. Por tal razão, conseguia bom preço de revenda. Seu sonho: vender a vaga mais o carro para comprar caminhão/guindaste que ”renderia bem mais”.
Bastaria fazer cartões de visitas, contatos com cooperativas e ficar em casa ouvindo Luan e que tais, a espera de chamadas. Argumentei que em toda atividade há muita concorrência. Ele: “se tivesse medo não moraria no Brasil”. Concordei. Boa sorte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/06/2015

Sem categoria

PARA PENSAR O CEARÁ – Jornal O Estado

O governador Camilo Santana deseja reunir os ex-governadores do Ceará. É medida de bom senso e demonstra que os saberes de pessoas como Cid Gomes, Lúcio Alcântara, Tasso Jereissati, Ciro Gomes, Gonzaga Mota e Adauto Bezerra não podem/ devem ficar deslembrados no momento de crise que o Ceará e o Brasil atravessam.
Cada um dos citados tem história pessoal como chefe do Poder Executivo e deve oferecer contribuições significativas nas áreas mais afetadas e as sucessivas secas. São todos cientes da falsa promessa da refinaria “Premium” e do estratagema montado pela FIFA, por ocasião da promessa que foi a Copa do Mundo do ano passado, de triste memória, que nos deixou encargos a solver e obras ainda pendentes.
A atitude de Camilo Santana, deve partir da premissa de que somos um Estado pobre, com máquina administrativa pesada, cara e de baixa resposta de gestão. Acredito que, serenados os óbices das diferenças naturais dos seres humanos e as desavenças de partidos e alianças políticas, há muito que agregar.
Esses ex-governadores, além das relações com diferentes administrações federais, tiveram convivência com secretários de áreas fundamentais, como saúde, educação, fazenda, desenvolvimento agrário e econômico, combate às secas e planejamento para ficar apenas nas ações e carências mais visíveis.
O orçamento do Ceará para 2015 prevê uma arrecadação de 23,6 bilhões de reais, o que corresponde a 1,91 % do orçamento da União, que chega a 1,235 trilhão. Ora, se somos menos de 2% da renda ou da receita bruta nacional, entre 27 Estados, é porque não atingimos o patamar de desenvolvimento que se esperava desde a primeira administração do governador Virgílio Távora, quando a energia da Chesf chegou a Fortaleza e acreditou-se, através de um Plano de Metas Governamentais- Plameg, que sairíamos do patamar baixo em que nos encontrávamos como ente federativo.
O Ceará é ainda carente de infraestrutura básica que possa atrair grandes projetos. Há deficiências indesculpáveis – a causar doenças- de saneamento básico, de habitações populares, de estradas para escoamento da produção, de indústrias estruturantes e de turismo não predatório.
Dessa análise superficial, emerge a certeza de que há urgência em reunir a inteligência cearense para dar um fim ao que se tomou, durante muito tempo, como conformação e destino de ser pobre e subdesenvolvido. Não como fogueira da vaidade, mas para fumar, mesmo que em termos, o cachimbo da paz necessária.
Os ex-governantes têm experiência comprovada e cabedal para dar, ao aberto e ainda iniciante governo Camilo Santana, suporte de ideias e de atos consequentes que nos façam sair dessa desfavorável posição do Ceará no ranking brasileiro.
O Ceará gastou com desapropriações, projetos, terraplenagem e propaganda intensiva um valor significativo, talvez algo como dois bilhões de reais, e nada recebeu, afora promessas em sucessivas pedras fundamentais da tal refinaria que, na verdade, parece nunca ter sido objeto de compromisso formal da Petrobras, tal a forma fria com que os dois últimos ex-presidentes da empresa tratavam do assunto, quando questionados aqui, na Assembleia Legislativa, em Brasília e no Rio, onde fica sua sede.
Em dezembro de 2014, exato nos dias 2, 3 e 4, pouco antes de assumirem, Camilo Santana e Izolda Cela planejaram e realizaram Seminário, com conteúdo e didática, para elaborar propostas a um plano de governo. Esse documento foi enfeixado no livro “Os 7 Cearás – propostas para o plano de governo”. Na capa amarela desse opúsculo, encimando o seu nome, há sete palavras, sem vírgulas entre elas: “Conhecimento Democrático Pacífico Saudável Acolhedor Oportunidade Sustentável”.
Camilo Santana tomou-o como compromisso básico e formal, com uma visão participativa de 1.300 pessoas entre técnicos, professores, acadêmicos, políticos e outros profissionais experientes reunidos no Centro de Eventos do Ceará, entre os quais cito, não por falta de merecimento dos demais, Eudoro Santana, Élcio Batista, Joaquim Cartaxo e Roberto Cláudio Bezerra.
O Ceará deve ser muito maior do que as divergências pessoais/partidárias de seus representantes no Congresso Nacional, as marcações de posições dos que ficaram na oposição e a defesa dos que integram a situação na Assembleia Legislativa. O momento brasileiro pede reflexão e ação dos que podem modificar o ‘status quo’ que emperra o nosso desenvolvimento sustentável. Os deputados federais e os senadores Pimentel, Eunício e Tasso devem ouvir, opinar e ajudar.
A atitude de Camilo Santana não parece jogo de cena, mas gesto voluntário para um concerto dos que, de formas antagônicas ou não complementares, são corresponsáveis pela gestão do Ceará. É preciso acreditar e agir.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/06/2015

Sem categoria

O QUE É HUB? – Diário do Nordeste

A palavra “hub” (riubi) significa fulcro, centro, convergência de linha aérea etc. No hub que a Latam, fusão da Lam e da Tam, planeja implantar no Nordeste estão disputando Fortaleza, Natal e Recife.
Vendo o mapa mundi fácil é ver que essas cidades são às mais próximas da ponta da Europa e do sul dos Estados Unidos, sem falar nos países da América Central ao meio. As três cidades foram centros de apoio americano, um hub, na 2ª. guerra mundial.
Agora, a luta é outra. A Latam quer obter vantagens fiscais, entre outros, combustível com menos impostos e um complexo aeroportuário de qualidade para passageiros, carga e logística na cidade que virará ponto de concentração de suas aeronaves.
Acresça-se a isso que essa mesma Latam disputa, em Portugal, a compra da Tap, empresa de aviação estatal deficitária.
Fortaleza não tem sido aquinhoada nos últimos doze anos com nada significativo do governo federal. Sequer montadoras de veículos que optaram por Pernambuco e Bahia.
Esses dois estados têm, além dessas, portos e complexos industriais pesados, inclusive siderúrgicas. Tantas as promessas de Lula e Dilma em vários lançamentos da siderurgia que não saiu da desapropriação, da terraplenagem e de prejuízos para o Ceará. O Ceará, nas três eleições presidenciais, optou de forma maciça por Lula e Dilma. O retorno: apenas o “Minha casa, minha vida “e as “bolsas”.
O hub será iniciativa privada, mas não há como deslembrar do saldo devedor moral- e financeiro – do governo em face da siderúrgica. A novela que nos machucou muito, tantos foram os atores envolvidos. O povo, espectador, ficou na saudade. Que venha o hub.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/06/2015

Sem categoria

PARA TENTAR COMPREENDER O BRASIL – Jornal O Estado

“O tambor faz um grande barulho, mas é vazio por dentro”. Barão de Itararé
As boas notícias desapareceram das mídias brasileiras. Quem quiser ouvir, ler e ver o mal que falam de nosso País é simples: basta ligar o rádio, seja AM ou FM. Sintonizar a televisão, fora as estatais e as dos Poderes Legislativo e Judiciário, as demais espinafram o nosso País de todas as formas e maneiras. As mídias sociais têm de tudo. Até luz sobre “apagão”.
O que o Brasil, a terra brasileira, fez de errado? Aqui há praias e rios em profusão, não há abalos sísmicos e tampouco o tempo nos incomoda, pois os nascidos da Amazônia aos Pampas não padecem do calor da artificial Dubai, da inclemência que este ano assolou a Índia, dos terremotos na Ásia. Nada do frio da Sibéria. Neve? Só para fotos, em raros momentos.
O problema não é o Brasil. O problema é o Estado brasileiro destruído por pessoas que foram eleitas por nós, os eleitores. Não me refiro apenas aos desmandos dos últimos doze anos do Governo Federal, mas a coisa vem de longe. O poder atrai zangões.
O tão estudado Vargas, além da ditadura, foi um dos predadores e, o seu trabalhismo, copiado da Itália ainda fascista, que vige em pleno ano 15 do século 21, é um teatro do absurdo, puro Eugène Ionesco.
Depois de Vargas, vieram Café Filho, Jânio Quadros e João Goulart, fracos, dissimulados e sem nenhuma capacidade de gestão sobre seus subordinados. Apenas seguiam a onda “das ruas” e dos que sempre repassam notícias privilegiadas, escondem a verdade, rondam ministérios, cargos públicos e adoram sinecuras.
A revolução ou ditadura, como é dicotomicamente alcunhado o período que foi de abril de 1964 e perdurou por 24 anos, é ainda um mistério pouco desvendado. O tempo do “ Ame-o ou Deixe-o” provocou uma cisão entre brasileiros. Ainda hoje há discussões, nas comissões da verdade em todos estados brasileiros, sobre torturas, duplos agentes e o financiamento de alguns empresários às ações e torturas do Doi-Codi de São Paulo, espraiado Brasil afora. Há, ademais, o espectro fechado das polícias e dos quartéis. Governos atuais estão arcando com aposentadorias de gente, que exilado ou não, pouco trabalhou.
Fernando Henrique Cardoso é citado como um exemplo emblemático dos aposentados jovens, mas, além dele, há milhares que recebem por trabalhos que não executaram ou por torturas, umas comprovados, outras, nem tanto.
Ao que parece, segundo a historiografia contemporânea, não existem fatos concretos sobre enriquecimento ilícito dos generais presidentes. Alardeia-se, o contrário. Ao morrer Mário Andreazza, amigos e parentes fizeram uma “vaquinha” para as muitas despesas que envolvem doença e sepultamento.
Para não me alongar muito, passo batido por Collor, Itamar, Sarney e FHC. Detenho-me apenas, nos últimos 12 anos e na emergência de um partido político novo, amado por operários e o povo, e que teve a coragem de lançar um metalúrgico, jovem, mas, tal como FHC, aposentado aos 42 anos, à presidência. Lula, de intuitiva inteligência privilegiada e capacidade encantatória, suportou derrotas seguidas, até ganhar a presidência da República, para alegria das classes desassistidas e de grande parte da inteligência brasileira.
Não ouso, neste pequeno espaço, dissertar sobre os seus oito anos de governo, tampouco me alio às revistas e os jornalões que o condenaram a priori e hoje divulgam a suposta riqueza de seus familiares. O Brasil cresceu, mas o que houve, de fato, foi a elevação peculiar por muito tempo do preço mundial das commodities, produtos agrícolas e minerais. A maioria, pela crescente China. O mundo vive em ciclos.
Aí veio o suposto Brasil eufórico, acreditando-se parceiro dos que estavam e ainda permanecem no tal primeiro mundo, jargão econômico que refere à boa distribuição de renda e a um hipotético estado de Bem Estar Social. Depois, veio a queda.
Hoje, há quase cinco anos com Dilma, a sucessora, egressa do PDT de Brizola, e formatada por Lula, o Brasil está, como, desde quase sempre, em crise. A diferença é que o mundo tornou-se menor e tudo repercute de forma descontrolada. Agora, os preços das tais commodities estão muito baixos e, nas relações de troca, somos perdedores.
Não comungo com os que só falam dos governos e não expressam essa indignação nas múltiplas ocasiões do voto. O voto é o único sinal de igualdade dos brasileiros. A nossa ancestralidade não nos permite, como existe na Grã-Bretanha, a dualidade entre comuns e lordes. Somos quase todos, frutos da mestiçagem ou da forte imigração na virada do século 20.
Os escândalos que se sucederam na história brasileira, desde colônia, são alvitres da promiscuidade entre o governo e uma máquina de sangrar que foi crescendo e tornou-se gigante, infiltrada por capilaridade, afagos, viagens, doações lícitas ou não. Essas máquinas de sangrar são maiores e mais danosas que todos os PCCs juntos. O resto é balela.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/06/2015

Sem categoria

DR. SYLVIO LEAL FILHO – Diário do Nordeste

Anos 1980. Renovação rotária. Por Cláudio Martins, surgia o Rotary Aldeota e a imposição de dirigi-lo. Unimos bons companheiros. Um deles, Sylvio Leal Filho, oftalmologista, chegara da França com curso de pós-graduação. Sylvio, camisa social e gravata, vinha direto de sua faina médica para as reuniões semanais.
Tempos depois, problema ocular com uma filha minha. Escolhi-o. Cioso da amizade e do risco cirúrgico, quase abdicou. Insisti e, ele, com ciência e zelo, resolveu o caso.
O saudoso Régis Jucá recebia em Guaramiranga, sexta feira da paixão. Chovia. Ao sair, carro atolado. Marcos César Ferreira Gomes, amigo evanescido, apontou o primeiro veículo disponível. Era crepúsculo e a água a castigar os cansados limpadores do zurzido veículo que eu dirigia. Lusco-fusco. Curva, uma cabeça de ponte. Um amigo, ao lado, foi ter ao para-brisa. Não se usava cinto de segurança.
O grão senhor Tibúrcio Frota, dono do sítio frontal, cedeu-me camioneta. Sabedor de que o Sylvio estava em casa da sua família, ali perto das palmeiras imperiais, a ele apelei. Largou o descanso e desceu conosco para a sala de cirurgia da São Raimundo. Fez o preciso, explicando a todos as razões do ato.
Agora, décadas depois, narro o fato para dizer da sua presteza em deixar o repouso, da sua responsabilidade médica, sem honorário. Estive no velório e, agora, realço apenas alguns dos muitos gestos do Dr. Sylvio Leal Filho, entre eles o de duradouro preceptor na Universidade Federal do Ceará de médicos em formação oftalmológica. Missão altaneira.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/06/2015

Sem categoria

RASCUNHO DE TEXTO E DE VIDA – Jornal O Estado

“Passei metade da minha vida vendendo palavras e, espero, ideias”. Winston Churchill, político e intelectual.
Esta semana, ao organizar o espaço atulhado de livros, escritos, papéis, revistas, jornais, onde, todos os dias leio e escrevo, fiz uma descoberta. Encontrei rascunho de palestra que fiz em 1984, em curso/seminário promovido pelo Instituto Delmiro Gouveia. Falei para professores, administradores, estudantes de administração e outros profissionais.
O texto é mero rascunho aligeirado, com erros de digitação, do que falaria no dia seguinte. Deixei-o tal como o encontrei, cincas e sem correções. Nele, relato um pouco de minha vida pessoal, profissional e intelectual até fins de 1984.
Resolvi, agora, repassá-lo, sem ressalvas, às filhas. Digo-lhes que esse rascunho deve ser entendido como a minha marca registrada de ser. Direto, tal como sempre fui e sou.
Não é texto para divulgação, claro. Mas ficarei feliz se as queridas filhas, e os seus descendentes, tomarem conhecimento do teor, agora ou no futuro. Não acredito que encontrem respostas para as suas vidas pessoais e profissionais. Cada um faz o seu roteiro. O texto, quando muito, dá ideia da minha personalidade e do meu modo de agir. Que pouco mudou, constato.
Passaram-se trinta anos. A vida e o mundo são outros. Pondero, nesse texto há linhas gerais de um projeto de vida, ajustando cada situação ao momento e à realidade de um país que continua a nos surpreender, por tudo o que sabemos, sentimos e vivemos.
Agora, maio de 2015, refiro que sou o saldo de tudo o que nele escrevinhei e, em muitos outros textos que, depois, viraram livros, estes passados a limpo. Mas o rascunho é tal como a minha vida foi, até então. Um ‘making off’ pontilhado de ações e de adversidades que tentei abduzir e superar.
É claro que sofri, mas há alegria em saber que não mudei a essência, não me violentei. Fiz da resposta imediata, sem rodeios, a qualquer desafio ou afronta, referência como identidade
Hoje, acredito, deveria ter pegado mais leve comigo. O trajeto exigia energia, estudo, coerência, trabalho e determinação. Sofri represálias e balelas. Alguns foram sutis; outros, escancarados. Tive que redobrar energias, sem nunca deixar de ser eu mesmo.
Digo, agora, que a essência do que narro no texto, não mudou. O resultado sou eu, o que construí, o que li e estudei, o que escrevi e o que vivi. O rascunho serviu como base da palestra, na qual intercalei improvisos e respostas ao perguntado.
Nada há de importante no texto, tampouco é manual. Mas, essa descoberta, tornou-o significativo para quem andou só, levou tundas e caminhou por estradas de inovação, aqui e mundo afora, de peito aberto.
Nunca fui áulico de quem não acreditava. Caminhei só, sem ajuda, a não ser a que me foi transmitida pela minha família, na convivência e na herança genética, por ciência e por trabalho duro ao qual me engajo como operário. Vi, li e estudei mundo afora, sem usar tutores ou facilitadores.
Cito um exemplo, a honra de, por concurso, participar, na Harvard University, do saber de Henry Kissinger de quem se podia discordar, mas a quem se devia respeitar por sua cultura polimorfa. Ele foi um dos mais importantes atores da política americana e mundial. Ouvi muitos outros. Outras ideias.
Este relato é réstia que surge dessa descoberta circunstancial, ao mexer no que tenho aquietado, esperando apenas que o revolva.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/06/2015.

Sem categoria

NOSSOS VÍRUS – Diário do Nordeste

Plataformas como jornais, mídias sociais e televisões falam de hospitais cheios, em todo o país. Governos estaduais levam, sem razão, a culpa. Amigo comenta ser isso fruto da megalomania política. O SUS seria para todos. Todos quem? Com que dinheiro? Teríamos chegado ao Estado de Bem Estar Social queimando etapas?
Seríamos fortes e nada do acontecido na crise financeira mundial de 2008 iria nos atingir. Agora, em ondas fortes, viajamos no Brasil 2015, ano que não terminou, pois estamos em fins de maio e ainda vai acontecer muita coisa nas duas casas do Congresso que o arquiteto Oscar Niemayer Soares riscou no centro do plano piloto do urbanista Lúcio Costa. A nova ideia é o ‘parla shopping’.
Preferimos falar da dengue e citar, de leve, a tal de “chikungunya”, que significa ficar curvado por conta das dores nas articulações causadas pelo vírus, na língua da Tanzânia, que a exportou para o mundo, a partir de 1952. Sem esquecermo-nos do sarampo e da “Influenza” que precisam de vacinas preventivas a cada ano. A novidade é o “Zica Vírus”, identificado em 1947, em Uganda. É “primo” do “aedes” e pode ser transmitido sexualmente. Eclode o FIFA Vírus.
A dengue é democrática e comum a todos. Mosquitos zunem, sem dó. O Brasil deseja assento no Conselho de Segurança da Organização das Nações (des) Unidas, na sede esplêndida em Nova Iorque, desde 1952, já ampliada com o surgimento de novos países africanos, a exportar gente, pelo desemprego e pela fome, via Mediterrâneo. Não seria prudente cuidar primeiro dos nossos vírus?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/05/2015.