“Os que não conseguem relembrar o passado estão condenados a repeti-los”. George Santayana (1863-1952), filósofo americano.
Caro Leitor: tenha paciência com o texto. Vá até ao final. Leia devagar. Começo: Fiódor Dostoiévski (1821-1881), grande escritor russo, autor de “Crime e Castigo”, publicado em 1866, romance geralmente apresentado em dois volumes, fala de sentimentos de personagens atormentados, daí ter sido o seu autor considerado “o homem do subsolo”, objeto de estudo de Freud.
No primeiro volume, tradução de Rosário Fusco, pag. 345, Raskólnikov, personagem central, é abordado sobre artigo por ele publicado na “Palavra Periódica”. Nele fala sobre a natureza do crime. É dito que os homens são divididos em “ordinários e extraordinários”.
“Os homens ordinários devem viver na obediência e não têm o direito de transgredir a lei, uma vez que são ordinários. Os indivíduos extraordinários, por sua vez, têm o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela única razão de serem extraordinários”.
Como surgem dúvidas, Raskólnikov, o autor, resolve explicar: “Não foi propriamente assim que me exprimi – começou num tom simples e modesto. – Aliás, confesso-lhe que o senhor reproduziu o meu pensamento bem de perto. Pensando bem, reproduziu-o exatamente. A única diferença é que eu não insinuo como o senhor dá a entender que aos homens extraordinários seja permitido cometer todas as espécies de crimes. Parece-me que um artigo nesse sentido não poderia ser jamais publicado. Eu somente insinuei que o homem extraordinário tem o direito, não o direito legal, mas o direito moral de permitir à sua consciência saltar certos obstáculos e, isso, somente no caso em que exige a realização de sua ideia benfeitora, para toda a humanidade”.
Volto e pergunto: por acaso há alguma semelhança no passado e presente do Brasil entre pessoas que se consideraram extraordinárias e acreditaram que, em nome de uma causa, poderiam fazer o que quisessem?
Ele continua: “Na maioria dos casos, esses homens reclamam, sob as mais diversas fórmulas, a destruição da ordem estabelecida em proveito de um mundo melhor. Mas, se for preciso, para fazerem triunfar as suas ideias, eles passam sobre cadáveres, atravessam mares de sangue. Dentro deles, a sua consciência permite-lhes fazê-lo em função naturalmente da importância da sua ideia”.
Pausa para mim: há similar na história da pátria amada?
Sigo com ele, páginas adiante: “Uma coisa é certa: é que a repartição dos indivíduos nas categorias e subdivisões da espécie humana deve ser estritamente determinada por alguma lei da natureza. Essa lei é-nos, bem entendido, desconhecida ainda até a hora presente, mas acredito que ela exista e nos possa ser revelada um dia. A enorme massa dos indivíduos do rebanho, como dissemos, não vive na face da terra senão para fazer aparecer, finalmente, no mundo, depois de uma série de longos esforços, de misteriosos cruzamentos de povos e de raças, um homem que entre mil possua a sua independência, e um sobre dez mil, sobre cem mil, à medida que o grau de independência se eleva”.
Eu, de novo: teríamos nós, ao longo da nossa história, encontrados esses homens extraordinários? Teriam eles, se realmente encontrados, o direito – em nome de uma ideia – de cometer toda a sorte de crimes, com ou sem sangue? Talvez seja preciso que voltemos a reestudar a História do Brasil, desde o comércio internacional de escravos ao tempo da colonização portuguesa, depois transformada em vice-reino – fugindo de Napoleão Bonaparte e seu exército – com a “proteção” da Inglaterra; Rediscutir como aconteceu a independência do Brasil. Vale dizer que o nosso D. Pedro I, com o seu grito do Ipiranga, pouco depois, foi aclamado rei de Portugal, nominado D. Pedro IV. Há uma estátua dele no Rossio, em Lisboa.
Depois, deveremos olhar a Proclamação da República, com todas as suas nuances e as influências verdadeiras, escoimadas nos livros em que as nossas crianças e nossos jovens devem acreditar. Pense nisso.
Será que a Guerra do Paraguai (a tal Tríplice Aliança) não foi uma mera artimanha da protetora Inglaterra? Quem puder, pesquise e veja se estou exagerando.
Desde a Proclamação da República, houve tanta confusão no Brasil que não sei como chegamos ao século 21. Repare um pouco, lembre-se de todos os ex-presidentes, os eleitos, os impostos e os gerados (Floriano Peixoto,1892, e José Sarney,1985). Aprazerem-se em procurar saber um pouco mais de cada episódio.
Dostoiévski foi citado por mim, como condão ou reflexão, para que todos saibam fazer a distinção entre os homens comuns e os extraordinários que nos trouxeram até aqui. Cada um tire as suas próprias conclusões. Afinal, não há crime sem castigo da história. E no romance. Pelo menos. Obrigado.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/03/2015.
INCERTEZAS – Diário do Nordeste
Escrevo antes de 13 de março de 2015. Estamos em tempo das delações premiadas, dos acordos de leniência, da abertura oficial das investigações da Operação Lava-Jato, dos pronunciamentos desequilibrados de alguns e à espera de manifestações dirigidas ou espontâneas. Há incertezas no País.
Não se deve ficar alegre. O Brasil tem mais o que fazer. Estamos nauseados. Há denúncias e revelações que alimentam os noticiários de todas as mídias. É um mal-estar nacional, não digerido. Não importa de que lado você esteja e tampouco do lado que imagine que os outros estão. Incertezas rebentam.
Que poderemos nós, os que já votamos tantas vezes, reclamar dos jovens desnorteados? Que país estão recebendo? Eles arriscam entender a diferença entre o que é ensinado nas escolas, o que é ouvido nas ruas, o que é falado nas famílias e o que se propaga em novas linguagens midiáticas formando núcleos distintos de pensamentos.
Que exemplos amanhamos e quais frutos podem surgir de nossa história recente, tantas vezes maculada? O mundo de hoje é complexo. Não há gênio isolado que o entenda. Precisaríamos de uma concertação nacional, mas como chegar a ela, se só há embate? A rebeldia incontida dos jovens possui como fermento a emoção, o inconformismo, o raciocínio lógico (por que tem que ser assim?) dos ainda à margem da vida real.
Vida cheia de estultices, manipuladores, dissimuladores e de pérvios caminhos trilhados por uns. Tudo isso, junto e misturado, só produz avisos ruins. Nada fica elucidado. As ruas murmuram.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/03/2015.
TRÁFICO DE INFLUÊNCIA – Jornal O Estado
Como se retrocedesse na cápsula do tempo neste 2015 tão complicado – e ainda estamos em março – desembarco no ano de 1868, cem anos antes do revolucionário 1968, “O Ano que não terminou”, seguindo livro homônimo de Zuenir Ventura (foto) e outros escritos por franceses.
Chego e encontro José Martiniano de Alencar Júnior, no Rio. Famoso, nosso escritor maior, político importante, faz, afirmo, tráfico de influência. Olhei e vi a carta de 18 de fevereiro de 1868, do autor de “Iracema” para Machado de Assis.
A carta vai resumida, em etapas. Começa assim: “Ilmo.Sr. Machado de Assis. Recebi, ontem, a visita de um poeta. O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração, não do resto”.
Como se vê, José de Alencar, que era político, tal como o pai, lembro, enxergava a dicotomia. Havia dois brasis. Um: o que se sente; do coração. Outro, o do resto. Assim, a coisa vem de longe.
Voltemos à carta, a do Brasil do sentir. Alencar continua: “O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a São Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos: a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê. A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?”
Agora, Alencar fala das referências do logo futuro poeta condoreiro: “O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices das tribunas brasileiras. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpora o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio”.
Alencar elogia Joaquim Maria Machado de Assis, a quem a carta é dirigida, lembre. Diz o tísico, míope e brilhante filho de padre: “Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano… Seu melhor título, porém é outro. O senhor foi o único dos modernos escritores que se dedicou à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica… Do senhor, pois, do primeiro crítico literário brasileiro, confio a brilhante vocação que se revelou com tanto vigor”.
E conclui: “Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente, à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento”.
Machado de Assis respondeu no dia 28, do mesmo mês de fevereiro: “Exmo. Sr. – É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V.Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter melhor intróito na vida literária. Abre os seus primeiros cantos, obtêm o aplauso de um mestre”.
Devo dizer, tal como José de Alencar, a carta de Machado é longa. Cada um rasga-seda maior. Poupo-o de páginas e vou direto ao final da missiva quando, após considerações críticas, Machado aduz que o jovem poeta Antônio Frederico de Castro Alves ainda não está pronto: “ A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar seus arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas. O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra?…
Lembro ao leitor que o recomendado Castro Alves escreveu a sua obra capital “Navio Negreiro” no ano seguinte, 1869, e morreu, tuberculoso, em 1871, aos 24 anos. Alencar desde cedo enfrentou a tuberculose e se quedou em 1877, aos 46. Machado de Assis, com todas as mazelas advindas da epilepsia, varou o século e se foi aos 69, em 1908.
Volto ao 2015. Chove. Ouço barulhos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/03/2015.
A NETA E A FACULDADE – Diário do Nordeste
Minha neta mais velha passou no Enem e escolheu Arquitetura. O que um avô analógico poderá dizer?
Primeiro, parabéns. Depois, curta os trotes “cara pintada”. Vi a foto.
Em seguida, descubra o mundo universitário. Ele nos dá saber, mas cobra atitude com colegas de todas as tribos.
Deixa a porta aberta para a formação da nossa identidade.
Use o prenome. A ambiência é típica da sua geração, a chamada “Z”, entre os 13 e 20 anos.
Alguns parecem “nerds”, focados em celulares, PCs e tabletes; outros se enturmam, fumam e tal, tocam instrumentos e gostam de baladas.
Há os movidos por patriotismo recente a pensar o Brasil com olhos críticos. E há os que querem apenas estudar, formar-se e trabalhar. Escolha.
Como você gosta de ler, lembro: a Arquitetura brasileira passou pelo barroco, rococó e neoclássico e assim chegou ao século 20. Pelo que sei, Lúcio Costa é o maior arquiteto desse século. Aliado ao francês Le Corbusier, deu nova face ao Centro do Rio ao conceber o prédio do Ministério da Educação com altos pilares para visão e deslumbre dos cariocas dos anos 40.
Depois, de novo, Lúcio Costa, na década de 50, agora urbanista, projeta o plano piloto de Brasília, cujos prédios são de Oscar Niemeyer Soares, outro grande arquiteto.
Fico nestes dois. Há muitos. Sua mãe ao ler este texto poderá dizer que me meto. Gostaria de me meter mais, estar mais perto e acompanhar o futuro dos netos, como coadjuvante. Apenas ver o (en) caminhar de vocês no Brasil do amanhã. Hoje é o seu dia e o de todas as mulheres. Beijos.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/03/2015.
O CINTO, O CONTRATEMPO E SINTO MUITO – Jornal O Estado
O telefone tocou. Era uma filha. Iria deixá-la no aeroporto. Mãe recente, mora fora daqui e viera matar as saudades. Marcamos a hora. O carro tinha um assento para bebê no banco traseiro. Fomos eu e a filha, no banco da frente. No traseiro, a neta e a babá. Saímos ouvindo música, mas logo adiante havia uma batida no cruzamento de duas ruas. Dois carros enganchados e uma moto caída. Rapaz ao chão, mas com pequenos ferimentos.
Contornei o problema e lá vamos nós. É noite, céu escuro, bom tráfego e chegamos ao aeroporto. Estávamos no horário. O marido iria esperá-la. Tiramos a bagagem, mas o assento para bebê resolveu criar caso. Ele, como manda a lei, estava afixado nos cintos de segurança do banco traseiro. A filha, acostumada a montá-lo e a retirá-lo, encontrou dificuldade. Uma alça cismou de não sair do engate.
Depois, fui eu, crente. Resolveria em um minuto. O tempo passando. Acendi as luzes internas, liguei o pisca-alerta – estava na entrada do aeroporto. Sou canhoto e meio desengonçado, tentei, virei e mexi, comecei a suar e nada da alça sair.
Foi então que tive a brilhante ideia. Vá, filha, faça o despacho que eu resolvo aqui. Ela argumenta que o assento seria preciso e que, além disso, deveria ser envelopado com plástico, pois a companhia aérea não permite que vá na cabine. Vai para o porão, em meio a malas, encomendas e animais de estimação grunhindo.
Não se preocupe, eu, o pai metido a resolvedor, disse. Lá se foi ela fazer o despacho. Nada da alça soltar. O tempo correndo. Um rapaz em farda de serviço prontificou-se a ajudar. Pimpão, destravaria o engate. Foram mais dez minutos. Aí, desisti. Iria cortar o cinto, mas não sabia como fazê-lo. Afinal, na própria empresa de embalagens consegui um estilete e o repassei para o rapaz prestimoso, com a ordem de cortar o cinto do carro.
Ele atordoou-se, e, como só soube depois, cortou, por engano, o cinto do assento para bebê. Agora, era embalá-lo, pois não desconhecia o cinto cortado, lembre. Tudo foi embalado, fita gomada e um aquecedor acesso soltando vapor para extrair o ar do pacote. Só tinha uma nota de R$ 100,00 e esperei pelo troco de R$ 55,00. Meio desajeitado, peguei o pacote e fui ao despacho.
A filha, paciente, esperava por mim. Deu certo. Subimos de elevador, despedi-me da filha, da neta, e da babá, uma senhora que já cuidou, interestadualmente, de mais de 21 crianças. Isso eu soube antes de chegar ao aeroporto. Distribui beijos e tomei o caminho de casa. A filha ligaria ao chegar. Era noite, não tão cedo mais.
Tomei banho e fui ler a revista “Veja”. Só notícias ruins. Larguei. Peguei o livro de ensaio “Amigos Escritos”, de Sueli Tomazini Barros Cassal, sobre as cartas trocadas entre Monteiro Lobato – um dos meus autores favoritos – e o escritor Godofredo Rangel.
Lobato era escritor, editor e empresário. Foi quem primeiro levantou a ideia de furar poço para descobrir petróleo. E assim o fez, alardeando por carta ao presidente Vargas na imprensa a sua audácia. Era tempo de ditadura. Os do Palácio do Catete, aborrecidos com uma carta de Lobato e a pressão da imprensa para começar a exploração de petróleo, o processaram e, em seguida, prenderam Monteiro Lobato. Era 1941.
O telefone toca. Era a filha. Haviam chegado. Tudo estava bem, mas ao desembrulhar o assento do bebê, faltava o tal cinto. Mal dormi. Amanhece, examino o carro e encontro o dito cinto, cortado. Incontinenti, sai à procura de maleiro. Parei no primeiro: Oficina das Malas. O dono, Macedo, senhor simpático, conversador, cearense, morara em São Paulo, com sucesso no seu negócio nos jardins. Preferiu voltar. Ele conversando. Eu esperando.
Entrega o cinto, costurado e recosturado. Trocamos gentilezas. Fiz bilhete e mandei o teimoso do cinto pela ECT/Sedex. No comprovante, observação: a encomenda poderia demorar em face da greve dos caminhoneiros. Brasil,zil, zil. Ligo para a filha: o cinto estava a caminho. Se consegui trazer você até aqui e contar este caso banal de pai e avô meio sem jeito, sinto muito.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/03/2015.
JAZZ & BLUES – Diário do Nordeste
Menino, tentei estudar piano. A professora Maria Helena Cabral ajudou. Sou canhoto. Em seguida, parti para o violão, mas havia que inverter cordas e fazer sinapses, pois estaria tocando ao contrário. Resumo: não trago habilidades manuais relevantes. Desisti. Ficou apenas o enlevo pela boa música.
Jovem, passei final de semana, em Lenox, Massachussets, quando vi o festival anual de música clássica e contemporânea Tanglewood. Fui de ônibus. Descobri, alegre, que o maestro cearense Eleazar de Carvalho seria um dos regentes das muitas orquestras.
Agora, maduro, quando raro passo por Nova Iorque, procuro tempo para ir à “Juilliard School”. Em audições públicas, grandes mestres lapidam expoentes de diversos países. É lugar certo para cantores e músicos que desejam aprimorar teoria e habilidades com os instrumentos que usam.
O dito serve para, quiçá, chancelar o grau de profissionalismo da apresentação em Fortaleza, sexta-feira passada (20), do Festival de Jazz&blues.
Ricardo Bacelar, pianista e regente, unificou equipe madura e soube, com leveza, manter a plateia acesa em todo o desenrolar do show, sem fazer concessões no admirável repertório de Standards.
Sala cheia. 1.500 ouvidos atilados pelo comando firme e sutil de Bacelar que, como “bandleader”, explanou o programa e ensejou a cada músico mostrar a sua expertise. Nightgale.
A cereja do bolo, após intervalo, foi a apresentação excelente da cantora portuguesa Jacinta, perita cantante de jazz, blues e de sua filha natural, a bossa nova. Um primor de voz. Bravo.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/03/2015
ESPERANÇAS 2015 – Diário do Nordeste
Os indicadores econômicos de aparatosas agências internacionais de classificação de risco mostram um profundo grau de desconfiança com os níveis de governo do Brasil. Como não faço muita fé em suas isenções e análises, tenho esperanças renovadas para 2015. Os economistas, independente das escolas de pensamento que seguem, propalam alta do desemprego e da inflação, mas eles, quase sempre, só acertam o presente, quando passado. Por que não viram a crise de 2008? Só veem depois do incêndio. São péssimos em prognósticos, daí a esperança.
A esperança que nutro não se apoia em governos, tampouco nas empresas que, de repente, sabem fazer tudo, desde que os contratos sejam generosos e bem aditados. A minha esperança se baseia na coragem do brasileiro comum, esse que não vive das benesses concedidas aos que estão ao lado do poder, qualquer que seja o governante.
Apesar de tudo, 59% do povo ainda acredita que o Brasil é ótimo ou bom para viver. Esse povo não usa passaporte, anda de ônibus/moto/metrô, sofre para manter-se vivo, seja por falta de casa, de saneamento, de segurança, de ensino e de tudo o mais.
Essa carência de confiança entranhada na mídia não é percebida, graças a Deus, pelos que não captam notícias catastróficas, pois passaram a desconfiar da astúcia. Eles se acostumaram à vida fenícia de ambulantes, de microempresários e de independentes prestadores de serviços, sem sindicatos.
Tenho esperanças por saber que 74% de todos nós ainda temos orgulho do Brasil. Nada nos demove dessa fé. Fé que também é minha.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/02/2015.
O CINZA, A GRÉCIA E O COLORIDO BESTIAL DO BRASIL – Jornal O Estado
“Para se saber como um povo está sendo governado, conheça a sua música”. – Confúcio
Passei os dias do carnaval meio hibernando. Saí apenas para confirmar o que já intuíra em face dos comentários lidos em várias origens. O filme “Cinquenta tons de cinza” é fraco. Tal como o livro que não li, deve interessar apenas aos que ainda não percorreram as estradas da vida, da leitura e da filmografia. Parece meio inverossímil que a autora E. L. James tenha conseguido vender um milhão de exemplares. A propaganda, repetida, pode fazer milagres, especialmente quando escudada no conjunto de mídias que cria o “desejo” de ver o diferente e o “proibido”. O que se salva é a fotografia, esforço estético da diretora Sam Taylor-Wood.
Como esperado, a maioria do público era jovem, especialmente mocinhas, pois a indicação permite aos maiores de 16 anos “desvendar” as tendências sado do personagem central. Até nisso houve esperteza na classificação. Por outro lado, a personagem feminina, jovem semiliberada, ainda virgem é filha de mãe vaidosa. Já no quarto casamento, a mãe reside longe e dá breves telefonemas de ofício, sem afeto.
A personagem mora com uma colega mais “escolada” e, como é natural pelos hormônios latentes, cai no conto de fadas do jovem empresário rico, bem apessoado, enigmático, misógino, cercado de secretárias sensuais e com fissura psicanalítica. Foi adotado aos quatro anos.
Gastei duzentas palavras com a baboseira acima e disserto agora sobre a velha/nova Grécia e o seu atual governo populista/socialista, apoiado por partido de direita. A Ática patina na sua cor simbólica azul em face de corrupção endêmica que permeia a máquina burocrática e a (in) decisão de ouvir e seguir as regras impostas pelo centralismo europeu.
Angela Merkel, sem nunca sorrir, comanda processo de austeridade que ou redime ou fará sucumbir a ideia da Comunidade Europeia que dita normas e afasta os tentáculos de um Putin sedento por anexações – a Ucrânia seria apenas o começo -para fazer renascer a mãe Rússia, cheia de problemas estruturais, mas motivada pelo voluntarismo de seu dirigente.
Aqui no Brasil, tão surreal que se deixa parar por dias, embalado pelos grandes e críticos bonecos das ruas de Olinda e pela cadência dos seus maracatus. Bem diferentes do langor que o cantor e animador Pingo de Fortaleza e o pintor/antropólogo Descartes Gadelha, tentam, como salva-vidas que são, manter abertos no curto circuito da avenida Domingos Olímpio. A dita avenida é esnobada pela maior parte da juventude, das famílias e dos turistas que se espraiam nas areias quentes de todo o litoral cearense, do Icapuí a Camocim, onde o mar é refrescado pelo rio Coreaú.
Mas há, sobretudo, a atração industriada pela “baianidade” repetida, nos tons altos dos seus trios elétricos que atraem a muitos. “Só não vai quem já morreu”. Carlinhos Brown, Gilberto Gil, Ivete Sangalo e, “last but not least”, Cláudia Leite e Daniela Mercury dão as cartas, recauchutam suas faces, suas pernas, cantam e pulam para assegurar que estarão de volta no próximo Carnaval.
No Rio, a convivência entre sambistas de verdade, contraventores disfarçados – que dominam a maioria das pacificadas escolas de todos os grupos-, artistas querendo aparecer, turistas/pagantes que se fantasiam, patrocinadores de camarotes e políticos desavisados fazem a festa pela madrugada. Tudo sob o controle do tempo hegemônico da vênus platinada a determinar horários.
A área de concentração se transforma em “xixizódromo” coletivo, até que o relógio oficial determine o início do desfile cronometrado no estuário sambódromo da Marques de Sapucaí. Ressalte-se, em nome do vero Rio, que resistem com forças e desorganizações calculadas, os blocos/cordões diurnos de ruas e de bairros, com o seu humor carioca em nova fase, cáustico com os políticos, desde os tempos de Pereira Passos, Vargas e, agora, certamente, contemplando os referidos nas quizilas em curso.
São Paulo, em meio à “crise hídrica”, apelido de falta d’água, reverbera seu poder com um também sambódromo e múltiplas escolas, por absoluta falta de imaginação, e mostra que por lá existe samba no pé e gente que, por duas vezes, dá mais de dois milhões de votos ao Tiririca. E, assim, paro por aqui e me recolho na platitude desta terra em que se plantando tudo dá. E como dá.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/02/2015.
CONVERSA OBJETIVA – Diário do Nordeste
A Sociedade Consular do Ceará reuniu-se terça passada com o governador Camilo Santana, na presença de Élcio Batista, chefe de Gabinete. Reunião objetiva, sem salamaleques. A função dos cônsules honorários não se limita a participar de ou realizar convescotes.
A função é aproximar relações comerciais, culturais e de artes dos países representados com os governos e as entidades locais.
Sob a presidência de Ednilton Soárez, cônsul da Dinamarca, compareceram os representantes da Alemanha (Dieter Gerding), Áustria (Reinhilde Elfriede), Belize (Airton Teixeira), França (Fernanda Jensen), Hungria (Janus Fuzeci, pai e filho, e Zsofia Sales), México (João Soares), Portugal (Francisco Brandão), República Tcheca (Raimundo Viana) e Uruguai (José M. Zanocchi).
Cada um dos presentes fez ponderações e sugestões, destacando-se o convite de Portugal para uma visita oficial àquele país do governador.
Discutiu-se a baixa utilização do Porto do Mucuripe na captação de transatlânticos que, no inverno europeu, fazem cruzeiros no verão brasileiro.
O Ceará não está bem inserido nessas rotas. Aventou-se convidar o empresário mexicano Carlos Slim para conhecer e investir no Ceará. Slim é um dos mais consolidados empreendedores mundiais, sendo, no Brasil, controlador da antiga Embratel, entre outros.
Os cônsules aguardam a indicação do novo assessor de Assuntos Internacionais e maior aproximação com as Secretarias de Turismo do Estado e de Fortaleza para, juntos, interagir e gerar oportunidades de negócios para o Ceará.
João Soares Neto,
Escritor e cônsul honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2015
A BANALIDADE DOS ASSALTOS, DAS MORTES E DAS CONTRATAÇÕES NO BRASIL – Jornal O Estado
“Meu filho hoje é só uma estatística dos mortos” – pai de jovem assassinado
Não há família, grupo de amigos, empresa, igreja e assemelhados que não possua integrante atacado ou até morto em assaltos perpetrados por jovens em bicicletas, por adultos com capacete em motos, por balas perdidas, por viciados de toda a espécie e por marginais institucionalizados, pois presos e, logo soltos, em face de excesso de gente nas carceragens e nos presídios.
Uma reportagem da socióloga e jornalista Fernanda Mena, em dupla página, sob o título “Um inquérito sobre a polícia”, no caderno Ilustríssima, FSP, em oito deste fevereiro, apresenta números assustadores: 54.269 pessoas foram assassinadas no Brasil, em 2013; desse total, 2.212 pessoas foram mortas por policiais civis ou militares, em serviço ou fora dele. Por outro lado, 490 policiais -civis e militares- foram abatidos em confrontos com bandidos ou suspeitos.
Vendo-se o que acontece em países civilizados, nota-se que nenhuma pessoa – nesse mesmo ano de 2013 – foi morta pelas polícias do Reino Unido e do Japão. Quanto aos crimes, observa-se que a taxa de homicídios por 100 mil habitantes nos Estados Unidos é de 4,7. No Brasil ela é quase seis vezes maior: 26,9.
Em pesquisas feitas com policiais civis e militares sobre o baixo desempenho, 95% informaram que ele é originado pela ausência de integração entre as diferentes polícias. Hoje, somente 30% da população confia nas polícias. Afirmam que elas invadem residências sem mandado judicial e prendem pessoas, sem culpa formada, apenas por as considerarem “suspeitas”.
Há no Brasil, comunicadores de emissoras de rádio e de televisão eleitos apenas pelo estardalhaço que fazem em seus programas, deixando nua e crua a delinquência e clamando, em altos brados, por soluções para o caos social. Cresce, ainda, o números de praças e oficiais militares que, líderes em suas corporações, confrontam-nas com governos, pelas limitações orçamentárias, tentativas organizacionais e espaciais (transferências) e os “excessos” das corregedorias que punem seus colegas.
Há os barulhentos que se elegem e reelegem, prometendo ‘acabar com a frouxidão da polícia’ e resolver tudo em um mero passe de mágica. Todos, juntos, compõem o que alguém nomeou de “bancadas da bala”.
Sabe-se que jovens policiais civis e militares procuram fazer novos concursos públicos em outras áreas, e, quando neles passam, deixam suas famílias aliviadas, em razão do estresse em que vivem e das suspeições a que estão sujeitos em casos de confrontos resultando mortos ou feridos.
Saindo da reportagem de Fernanda Mena, procurei a Revista Brasileira de Segurança Pública, ano 5, edição 9, agosto/setembro de 2011, e tive o prazer de ver a análise de Francisco Thiago Rocha Vasconcelos, mestre em sociologia, em 2009, pela Universidade Federal do Ceará, então doutorando da USP. Ele assevera: “O enfoque sociológico sobre a violência deslocado da relação entre o medo do crime e a instauração de distâncias sociais e mudanças nas relações urbanas, passou a se concentrar, então, no modo como as instituições do sistema de justiça criminal intervêm no crescimento da criminalidade urbana violenta, seja por uma participação ativa, na forma de violência ilegal ou pelo viés autoritário e estigmatizante de sua atuação, seja por sua omissão em punir as violações de direitos humanos praticadas por seus agentes ou ainda por sua incapacidade em dar conta dos novos fenômenos criminais”.
Este assunto, complexo e amplo, toma hoje nova dimensão em face da atuação firme e isenta da Polícia Federal em casos de corrupção na Petrobras. Por outro lado, começam a surgir, em muitos Estados, movimentos civis – organizados ou não – clamando pela extensão dessas operações em outros órgãos públicos.
Antes de concluir, uma pergunta: por que até agora não foi regulamentado o parágrafo 7 do art. 144 da Constituição de 1988? Ele diz: “A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos de segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades”. Qual a razão dessa demora de 27 anos?
Finalizo: este artigo, embora analise o Brasil como um todo, pode, quiçá, dar algum subsídio ao Secretário de Segurança do Estado, Delci Teixeira, e, especialmente, à nova e diligente Controladora Geral das Polícias do Ceará, Socorro França. Boa sorte aos dois. É preciso inovar com ações (um só exemplo: viaturas/motos visíveis em pontos estratégicos) que gerem temor aos criminosos reincidentes; desencorajar os que se iniciam nas contravenções acreditando na impunidade e aos não tão jovens, mas que ameaçam as suas comunidades.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/02/2015
