“Não disse para o meu celular que estou quase desistindo dele”. A.d.
O telefone na casa dos meus pais apareceu quando eu era meninote. Depois, fomos para o novíssimo bairro de Fátima. Área quase virgem, areias brancas e um parco riacho. Calçamento de pedra tosca, ruas sem árvores. Entre os bairros Joaquim Távora e José Bonifácio. Pois bem, assentamo-nos na Rua Monsenhor Otávio de Castro, casa nova, comprada por meu pai, em estilo dito “funcional”, seja lá o que isso fosse. Sem telefone.
Acredito que o projetista havia visto o filme francês, “Meu Tio”- Mon Uncle – de Jacques Tati, um desengonçado e alto diretor e ator francês, que “deformava” a criação de um sobrinho, filho de sua irmã, dona de uma casa aparatosa, cheia de modernidades. A irmã e mãe era casada com “bem sucedido” marido que, além da casa, comprara emergentes equipamentos domésticos.
A ideia mal copiada era uma laje de concreto não linear – sem telhado, pois impermeabilizada – sobre a área da varanda e um dispositivo mecânico que baixava e subia a porta horizontal da garagem em forma de alçapão. O tal dispositivo era uma caixa cheia de concreto, como contrapeso, roldanas guiadas por cabos de aço que o acionavam.
Depois de muita luta, meu pai conseguiu puxar uma linha – e muitos postes – da Rua Conselheiro Tristão, quase na Rua Antônio Pompeu. Sob palmas, o “5127” tilintou e pudemos falar com parentes e amigos. Ele, afixado em um suporte de madeira na parede, tinha cor preta e era feito de um antepassado do plástico, galalite. Ficava na sala de jantar, perto do janelão envidraçado com suportes para abrir e fechar, como se fosse veneziana.
Posteriormente, quando completei 18 anos, já com dinheiro poupado, sabe Deus como, resolvi fazer um quarto só para mim no amplo quintal. Contratei o “Dico”, diminutivo de Raimundo, um faz tudo, para construí-lo com o meu “projeto”. Uma água só e telhas vãs em linhas, caibros e ripas de madeiras comprados aos poucos. Esse quarto, pintado a cal, em seguida, foi enriquecido com um ar-condicionado de segunda mão, marca “Feeders”. Faltava o telefone só para mim, pois não consegui fazer a extensão. Era “longe”. Ainda não havia lido o livro “Longe é um país que não existe”, de Fernão Capelo Gaivota. Passa-se o tempo e alcanço a proeza de colocar uma linha independente da casa dos meus pais.
O colega de vestibular de direito e jornalista, Francisco Newton Quezado Cavalcante, depois Lúcio Brasileiro e, em seguida, Paco, até me fez uma visita, quiçá para conferir como eu vivia. Deve ter sido aí que ele intuiu que eu era “um rapaz de futuro”, pois havia livros e máquina de escrever sobre o birô.
O acesso ao quarto era independente, na lateral direita da casa. Fazia limite com fundos de residências na Rua Saldanha Marinho, onde moravam as famílias do Sr. Pascoal, dono da fábrica “Lord”, de temperos; Dona Mariinha Furtado, avó da Vânia que viera de Baturité para estudar em Fortaleza; e o Sr. Pinheiro, funcionário do Banco do Brasil que só tinha uma agência, na Praça Waldemar Falcão, ao lado do velho Mercado. Corto o tempo. Chegamos ao hoje, muitos lustros ou décadas depois. Tenho um “smartphone”, o telefone sabido. Mas não sou “geek” ou “nerd”, os adictos da tecnologia.
Por conta desse telefone sabido, sou achado – ou não – por amigos e familiares. Explico: há muito tempo, tenho a deficiência de perder livros, carteira, telefone, pasta, pacotes etc. Não é coisa ainda do alemão “Alzheimer”, garanto. É esquecimento mesmo, por conta de afazeres mais importantes.
Algumas vezes sou procurado e não acessado. Ligam direto: a recepcionista demora a atender na central, pela quantidade de chamadas que recebe. A secretária, quase tão avoada quanto eu, igualmente tarda a ouvir as chamadas. A culpa, então, é só minha: o “desaparecido”. Acresça-se que me esqueço de dar carga no dito cujo, o que não parece crível para alguns.
Hoje, leio no Wall Street Journal, análise de Eric J. Topol, médico cardiologista e consultor do Google, sobre os tais telefones espertos. Eles passarão a ter novas funções com ferramentas e programas que permitirão, acredite, diagnosticar uma infecção de ouvido (talvez provocada pelo próprio), medir batimentos cardíacos – alterados pela desconfiança em não atendê-lo – e até um aplicativo a monitorar nossa saúde mental (os “caras” sabem que ficamos fulos quando nos perguntam: onde estava que não atendeu?).
Assim, teremos “avatares” que adiarão a visita ao médico, esse que, via de regra, não nos atende bem na consulta, pois o seu celular toca e atrapalha. Ele pede desculpa, conversa um pouco, e meio sem graça, diz: era a mulher perguntando a que horas chegaria para jantar.
Enfim, adeus privacidade, pois até as coceiras poderão ser fotografadas e, por ”download” (baixar), ver um programa a processar a imagem. Um algoritmo dedicado fará a leitura técnica e apontará o diagnóstico. Lembrei-me de Flash Gordon, nas séries de ficção científica, já então protagonizada por Steve Holland.
Sei não, mas o falecido Alexander Graham Bell, inventor da companhia telefônica, não ousaria pensar nessas extravagâncias para o primevo e simplório aparelho que servia apenas de comunicação entre empresas e vizinhos próximos. Loucura total do futurismo, hoje está tudo arquivado na nuvem. Olho para o firmamento: qual delas?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2015.