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SOBRE AMIZADES – Diário do Nordeste

Muito já foi dito sobre amizade. Poemas, crônicas, ensaios, romances e estudos sociais têm percorrido as nuanças do que realmente significa a palavra amizade. A socióloga americana Jan Yager, autora do livro “When Friendship Hurts” (Quando a amizade machuca), citada por Ana Paula de Oliveira, em “Equilíbrio”, caderno da Folha de São Paulo, abril de 2004, refere: “Ter um mau amigo pode fazer alguém duvidar de si mesmo, de suas próprias habilidades. Em casos extremos, pode também colocar ambos em situação de risco”.
Ela indica tipos de não bons hábitos de amizade. Praticam-nos o que: não cumpre o apalavrado; usa a relação para exigir algo; espalha o que ouviu em segredo; foge do seu normal por álcool ou drogas; mente para encobrir falhas de caráter; fala pelos cotovelos com curiosos; usa a amizade para obter benefícios; inveja o que outro tenha, seja o que for; acha-se melhor; só vê defeitos; vive de baixo-astral; agride por palavras ou atos; alega não ser estimado; depende e aborrece o outro até para viver; o falso aconselhador; ser íntimo; passa a plagiar o outro; quer dominar a relação; sufocar por atenções.
Estendi-me. Creio que o resumo vale para todos. Os de muitos ou os de poucos amigos. A complexidade das relações humanas fica banalizada em telefonemas diários, redes sociais e difusão de estórias.
O repasse pela internet de textos dúbios – e o que mais se possa imaginar – obriga-nos a refletir sobre como somos para o outro, e como os outros nos veem ou tentam nos usar.
Amigos são aquelas pessoas sem adjetivações.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2015.

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ELEIÇÃO ACADÊMICA, AS CRÍTICAS E O PRESENTE – Jornal O Estado

No próximo dia 10 deste fevereiro, a Academia Cearense de Letras, a mais antiga das academias brasileiras, realizará sessão eleitoral para preencher a vaga aberta com a perda do grande poeta, ensaísta, professor e cidadão Artur Eduardo Benevides. São quatro os candidatos.
Esta introdução serve apenas para analisar artigo de Mário Sérgio Conti, jornalista e escritor, sob o título “Conformismo e coonestação”, publicado em 28 de novembro de 2014, em que critica a Academia Brasileira de Letras, a maior e a mais bem aquinhoada em nomes e prendas.
Ele começa dizendo: “A desimportância da Academia Brasileira de Letras emudeceria até Lobão (refere-se ao cantor, grifo meu). Ninguém liga para ela, exceto os 40 autoproclamados imortais. Que eles desfrutem em sossego do privilégio de se fantasiarem de fardão pela eternidade afora”
Uma primeira observação: por que Mário Sergio Conti não emudeceu. Se ninguém liga para ela, qual o sentido e a razão de seu artigo tão candente?
Ele argui, em seguida: “A Academia é um clube cujos sócios, em graus variados de senectude, se reúnem para tomar chá e trocar dois dedos de prosa acerca de seus sublimes antecessores”. Não precisa ter lido Freud, Jung ou Melanie Klein, para ver réstias de ressentimento explícito em cada frase do articulista.
Ele continua: “É perda de tempo criticar a Academia. Não importa que ela sobreviva à sombra do Estado. Que jamais tenha emitido um sussurro contra a censura e os outros paus-de-arara na vida cultural”. E aduz: Que cultive a mediocridade literária (Nélida Pinõn, Murilo Melo Filho etc.) e a bajulação de poderosos (Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel etc.). Ninguém liga”.
Claro que alguém liga. Ele próprio, Conti, está ligando e dando cavaco. Qual a razão desse seu artigo grave?
Mais lá na frente, passo para evitar detalhes menores, ele se contradiz, ao afirmar: “A Academia só deixa de ser inócua quando nela entra um poeta de verdade. Isso é chato porque as más companhias têm influência e a instituição os diminui individualmente: todos os ratos são pardos no Petit Trianon” (nome da sede da ABL).
Ele está falando do poeta Ferreira Gullar e acrescenta texto do próprio vate maranhense: “A Academia já fez tudo para eu entrar lá, e eu digo: não. Jamais entrarei para a Academia… Como eu não tenho cabeça acadêmica, como não é a minha, não vou entrar lá”.
Parêntesis meu: Ferreira Gullar entrou na ABL em dezembro do ano passado.
Sem esquecer que havia elogiado Gullar (poeta de verdade, ele disse), mais a frente, muda de ideia e o ataca: “Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus poemas são às vezes discursivos ou demagógicos; o credo stalinista o fez tropeçar; seus versos perderam voltagem com a passagem do tempo”. Em seguida, elogia: “O resultado final, porém, é largamente positivo. Pelo que sua poesia tem de inventividade formal e insubmissão”.
Como se vê, há um “morde e assopra” no escrito de Mário Sérgio Conti sobre a entrada na ABL de Ferreira Gullar, o autor, entre outros, do “Poema Sujo”.
Como afirmou Tchekhov, escritor russo: “De inveja fica-se estrábico”. Por outro lado, está claro que as academias brasileiras, sejam de letras, ciências e artes, precisam repensar seus desígnios. Mudar e evoluir, ter a coragem de ajustar-se ao tempo em que vivem, às mudanças definitivas dos processos anacrônicos de escolhas de novos candidatos (por que não um debate entre os candidatos? por que não uma prova de conteúdo?), dos seus modelos de gestão em que só o presidente faz tudo. Isto não é desrespeitar a tradição, mas ter coerência com o tempo em que se vive.
Sem menosprezar a tradição e os costumes, incorporar o que há de saudável e lógico nestes tempos em que antigo passa a ser tudo aquilo substituído pela voragem da inovação. A senectude, a que se refere Conti, não é a idade dos componentes, mas a permanência de métodos e ações que já não mais fazem sentido e pouco produzem resultados efetivos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/02/2015

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QUE NAÇÃO É ESTA? – Diário do Nordeste

Que País é este a decretar feriados inócuos? Faz Copa do Mundo. Ganha derrota inesquecível. Enterra bilhões em estádios com baixo ou nenhum uso, alguns já apresentando defeitos estruturais?
Que nação é esta que não faz uma devassa geral? Só os presos no Paraná cometeram delitos? Quantas empresas e órgãos públicos, em todos os níveis, terão situação igual ou pior que a dos investigados?
Que País é este em que empresas investigadas são sócias do próprio governo em projetos aqui e lá fora? Que nação é esta em que se espera o desdobramento judicial para nomear escalões de governo? Que nação é esta a criar o crédito consignado, a título de ajudar pobres? Na verdade, favorece a bancos gulosos que cobram taxas/juros além do definido e prejudicam aposentados e servidores.
Que País é este em que candidato é (re) eleito para ter direito a foro privilegiado e não ser julgado? Que nação é esta em que juros de contas não pagas em cartões de crédito mensal são superiores aos rendimentos anuais da poupança?
Que País é este a engendrar a contratação de médicos, por convênios internacionais, como se eles participassem de cooperativa e fossem meras commodities? Por que não pagar aos contratados? Eles pagam impostos? Que nação é esta em que só se descobre que vão faltar água e energia por conta das mídias, das torneiras e dos apagões?
Que País é este em que dois presidentes prometem, em lançamentos oficiais, refinaria para o Estado do Ceará – que investiu R$ 650 milhões para obras de infraestrutura- e, por conta de desmandos outros, resolvem cancelá-la?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2015

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O PADRE HENRI, A VIAGEM A PÉ ENTRE PARIS E ROMA E OS POBRES – Jornal O Estado

“O melhor dos bens é o que não se possui”. Machado de Assis
O padre redentorista Henri Le Bousicard (foto), francês, 94 anos, há seis anos mora em Fortaleza, de favor. Ele ainda tem um aperto de mão forte, anda com os seus pés de caminhante e, vez por outra, fala. A voz cansada com poucas palavras talvez demonstre a carência de sinapses que a idade permite. Seu olhar azul é significativo e nos passa a ideia de que ele gosta do próximo, quem quer que seja.
Ao chegar aqui, juntou papelões e montou um barraco entre os mais pobres da zona oeste. Ali viveu e espalhou o seu jeito forte de ser, liderando movimentos sociais em favor de miseráveis.
Fui ver à casa que ora o abriga lá na Barra do Ceará, onde é assistido por amigos que acreditaram em seu projeto há 22 anos, quando de sua primeira visita ao Ceará, e aqui fundaram, entre outros, o Emaús Vila Velha.
O movimento Emaús pretende ser defensor de pessoas em condições de miséria e risco. Sua renda provém de dádivas de papelões, roupas, móveis e objetos sem mais serventia para os doadores. Com a renda, operam.
O que importa neste espaço é dizer que a história do padre Henri foi contada em prosa no livro “Aos 75 anos Paris – Roma 1500 km a Pé”, editado em português, em 2009. O livro é gostoso de ler por sua inteireza. Alguém resolve ir a Roma, saindo da Praça Notre-Dame, Paris, no dia 15 de junho de 1995. Ao fim e ao cabo de 97 dias, de sol e chuva, perdas de caminho e retomadas, chega a seu destino.
Na entrada do livro, como se fora a sua senha, a chave de abertura ou a soleira da porta, ele diz: “A todos os excluídos da mesa da vida/ A todos os marginalizados pela sociedade/Aos homens da rua, aos deserdados pela sorte/Aos desempregados, aos condenados à morte/Aos sem pão, aos sem casa, aos sem abrigo/A todos aqueles que vivem na angústia do desespero/ Ao meu irmão ‘Dédé La Pipe’ que, um dia,/ no metrô, teve de gritar para um jovem ao lado: Chega para lá seu grande egoísta, pois estás ocupando o lugar de dois”.
Levava duas mudas de roupas e teve a sorte de contar com um voluntário e destemido companheiro, um jovem alemão, com a metade de sua idade, com quem andava, conversava, discutia e até brigava. A ideia dele era entregar ao papa de então livros de Bernard Häring, entre eles, “Livres e Fiéis em Cristo”. Sequer, mesmo tentando, não falou com o papa João Paulo II. A burocracia da Igreja o barrou. Contentou-se em deixar no suntuoso Vaticano uma carta e os livros já referidos. Triste, rezou nas catacumbas romanas como um peregrino da fé, não alguém em busca de fama e refletores. Cumprira o seu desígnio.
No livro, já quase em seu final, ele reflete sobre a sua odisseia: “Gostaria de dizer a todos Redentoristas que sejam céticos em relação à minha marcha. Não perdi meu tempo, percorrendo 1500 km a pé. Tenho impressão, quando me lembro de tantos encontros de reflexão durante a viagem, que foram três meses de autêntica missão. Foi, com certeza, uma ação insólita. Mas, quando participei em Portugal num retiro de Redentoristas, animado por um antigo conselheiro geral dos padres do Espírito Santo, fiquei admirado de ouvir o pregador dizer que a vocação dos religiosos implicava em atos excessivos. Fiquei repleto até o fundo do meu ser. Certamente que atos excessivos em amor”.
Ele abandonou o conforto e a segurança de um convento francês para assumir uma postura de missionário e o fez, não só em seu país de origem – onde, em 1972, na cidade de Charenton, funda a primeira “Comunidade de Emaús- Liberdade –, mas ao viajar ao redor do mundo. Aos 52 anos passa a pregar, a agir e a fazer o bem em países tão distintos como Portugal, Brasil, Haiti, Benin, Irlanda do Norte, Alemanha, Checoslováquia, Polônia, Cabo Verde, Madagascar, Romênia, Iraque, Camarões, Congo e Mali.
Ao escolher Fortaleza para o seu destino final, ele parece interrogar: “E os outros? Tendes pensado nos que mais sofrem? A miséria não é uma fatalidade. Causada pela cobiça dos homens, ela tem de ser solucionada por eles. Apenas temos de nos empenhar na luta contra as suas causas…”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/01/2015.

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ESTUDANTES DO CE – Diário do Nordeste

Está provado que os estudantes podem ser um diferencial no futuro do Ceará. Os resultados, por exemplo, dos exames vestibulares do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) mostram, há anos, que os jovens locais, quando estimulados por suas famílias e frequentando turmas de bom nível, podem superar a média dos demais concorrentes de outros Estados.
Essa clara manifestação da eficácia do ensino direcionado a um objetivo nos dá orgulho e comprova que a educação é a porta mais fácil para o desenvolvimento social. O Estado do Ceará e as prefeituras municipais devem investir pesado em educação e minimizar a promoção de shows alienantes e de conteúdo musical discutível.
A aproximação do Carnaval e a quase intervenção do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) demonstrando a não prioridade de festejos carnavalescos revela a irresignação de muitos prefeitos. Há um estado de estiagem em curso e nada justifica a liberalidade do poder público quando não cumpre os seus papeis básicos institucionais. Voltando ao primeiro parágrafo, só cego não vê que os municípios perdem a oportunidade de fomentar escolas de qualidade que os fariam apresentar melhores indicadores sociais. Se cada município financiar, pelo menos, uma turma de estudantes diferenciados em aprendizagem, estaremos construindo o futuro pela educação. Esse fato óbvio pode não propiciar a pirotecnia vazia que se esfumaça quando a realidade mostra a face crua do desalento de jovens cooptados pelo mercado de drogas e o aceno fácil da marginalidade. Leu ministro Cid Gomes?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/01/2015

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OS TELEFONES, EU E A NUVEM – Jornal O Estado

“Não disse para o meu celular que estou quase desistindo dele”. A.d.
O telefone na casa dos meus pais apareceu quando eu era meninote. Depois, fomos para o novíssimo bairro de Fátima. Área quase virgem, areias brancas e um parco riacho. Calçamento de pedra tosca, ruas sem árvores. Entre os bairros Joaquim Távora e José Bonifácio. Pois bem, assentamo-nos na Rua Monsenhor Otávio de Castro, casa nova, comprada por meu pai, em estilo dito “funcional”, seja lá o que isso fosse. Sem telefone.
Acredito que o projetista havia visto o filme francês, “Meu Tio”- Mon Uncle – de Jacques Tati, um desengonçado e alto diretor e ator francês, que “deformava” a criação de um sobrinho, filho de sua irmã, dona de uma casa aparatosa, cheia de modernidades. A irmã e mãe era casada com “bem sucedido” marido que, além da casa, comprara emergentes equipamentos domésticos.
A ideia mal copiada era uma laje de concreto não linear – sem telhado, pois impermeabilizada – sobre a área da varanda e um dispositivo mecânico que baixava e subia a porta horizontal da garagem em forma de alçapão. O tal dispositivo era uma caixa cheia de concreto, como contrapeso, roldanas guiadas por cabos de aço que o acionavam.
Depois de muita luta, meu pai conseguiu puxar uma linha – e muitos postes – da Rua Conselheiro Tristão, quase na Rua Antônio Pompeu. Sob palmas, o “5127” tilintou e pudemos falar com parentes e amigos. Ele, afixado em um suporte de madeira na parede, tinha cor preta e era feito de um antepassado do plástico, galalite. Ficava na sala de jantar, perto do janelão envidraçado com suportes para abrir e fechar, como se fosse veneziana.
Posteriormente, quando completei 18 anos, já com dinheiro poupado, sabe Deus como, resolvi fazer um quarto só para mim no amplo quintal. Contratei o “Dico”, diminutivo de Raimundo, um faz tudo, para construí-lo com o meu “projeto”. Uma água só e telhas vãs em linhas, caibros e ripas de madeiras comprados aos poucos. Esse quarto, pintado a cal, em seguida, foi enriquecido com um ar-condicionado de segunda mão, marca “Feeders”. Faltava o telefone só para mim, pois não consegui fazer a extensão. Era “longe”. Ainda não havia lido o livro “Longe é um país que não existe”, de Fernão Capelo Gaivota. Passa-se o tempo e alcanço a proeza de colocar uma linha independente da casa dos meus pais.
O colega de vestibular de direito e jornalista, Francisco Newton Quezado Cavalcante, depois Lúcio Brasileiro e, em seguida, Paco, até me fez uma visita, quiçá para conferir como eu vivia. Deve ter sido aí que ele intuiu que eu era “um rapaz de futuro”, pois havia livros e máquina de escrever sobre o birô.
O acesso ao quarto era independente, na lateral direita da casa. Fazia limite com fundos de residências na Rua Saldanha Marinho, onde moravam as famílias do Sr. Pascoal, dono da fábrica “Lord”, de temperos; Dona Mariinha Furtado, avó da Vânia que viera de Baturité para estudar em Fortaleza; e o Sr. Pinheiro, funcionário do Banco do Brasil que só tinha uma agência, na Praça Waldemar Falcão, ao lado do velho Mercado. Corto o tempo. Chegamos ao hoje, muitos lustros ou décadas depois. Tenho um “smartphone”, o telefone sabido. Mas não sou “geek” ou “nerd”, os adictos da tecnologia.
Por conta desse telefone sabido, sou achado – ou não – por amigos e familiares. Explico: há muito tempo, tenho a deficiência de perder livros, carteira, telefone, pasta, pacotes etc. Não é coisa ainda do alemão “Alzheimer”, garanto. É esquecimento mesmo, por conta de afazeres mais importantes.
Algumas vezes sou procurado e não acessado. Ligam direto: a recepcionista demora a atender na central, pela quantidade de chamadas que recebe. A secretária, quase tão avoada quanto eu, igualmente tarda a ouvir as chamadas. A culpa, então, é só minha: o “desaparecido”. Acresça-se que me esqueço de dar carga no dito cujo, o que não parece crível para alguns.
Hoje, leio no Wall Street Journal, análise de Eric J. Topol, médico cardiologista e consultor do Google, sobre os tais telefones espertos. Eles passarão a ter novas funções com ferramentas e programas que permitirão, acredite, diagnosticar uma infecção de ouvido (talvez provocada pelo próprio), medir batimentos cardíacos – alterados pela desconfiança em não atendê-lo – e até um aplicativo a monitorar nossa saúde mental (os “caras” sabem que ficamos fulos quando nos perguntam: onde estava que não atendeu?).
Assim, teremos “avatares” que adiarão a visita ao médico, esse que, via de regra, não nos atende bem na consulta, pois o seu celular toca e atrapalha. Ele pede desculpa, conversa um pouco, e meio sem graça, diz: era a mulher perguntando a que horas chegaria para jantar.
Enfim, adeus privacidade, pois até as coceiras poderão ser fotografadas e, por ”download” (baixar), ver um programa a processar a imagem. Um algoritmo dedicado fará a leitura técnica e apontará o diagnóstico. Lembrei-me de Flash Gordon, nas séries de ficção científica, já então protagonizada por Steve Holland.
Sei não, mas o falecido Alexander Graham Bell, inventor da companhia telefônica, não ousaria pensar nessas extravagâncias para o primevo e simplório aparelho que servia apenas de comunicação entre empresas e vizinhos próximos. Loucura total do futurismo, hoje está tudo arquivado na nuvem. Olho para o firmamento: qual delas?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2015.

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ADAUTO E HUMBERTO – Diário do Nordeste

A maturidade chega quando as pessoas acreditam ter percorrido caminhos que as levaram ao gozo do presente ou aplainaram todas as diferenças do passado, por sabê-las inúteis. Creio que os gêmeos univitelinos, Adauto e Humberto Bezerra alcançaram este patamar. Não o digo por convivência, pois deles não sou íntimo. Tampouco como contrapresta-ção por favores que nunca pedi. Eles fizeram parte da época dos “coronéis”, militares de carreira que foram. Engajados, no princípio, na política de Juazeiro do Norte, depois no parlamento ou no executivo, como governador e vice. Hoje, acolhem amigos para rodas de conversa.
Eles, quando banqueiros, nunca receberam minha visita para a solicitação de empréstimo, pois nunca devi a ninguém, refratário que sou a qualquer galanteio por interesse. Por que então este artigo? O distanciamento permite-me dizer da admiração pela irmandade que nutrem, sentida e exposta. Na octogenária casa da vida, eles sabem que nasceram de uma só placenta e vivem a relação que todos os irmãos deveriam ou gostariam de ter.
Foram bem sucedidos nos campos militar, político e empresarial. Cumprem tempo sabático benfazejo, calejados e gentis, garantidos e simples, com memórias no passado e antenados no presente. O porto afetivo que construíram lhes dá a convicção de que, a partir de cada algodoeiro que plantaram ou beneficiaram, de cada tostão poupado em Juazeiro, transformaram um banco local em estadual, nacional e, por fim, chinês e comunista. Paradoxo? A vida é como ela quer. Nada houve que os separasse. Esta é a maior virtude dos dois.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2015

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“JE SUIS CHARLIE”, A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O DIREITO DAS MINORIAS – Jornal O Estado

A primeira vez em que, ainda universitário, estive na França, foi no meio da década de 60. Fiquei hospedado, em Paris, no Hotel de La République, onde, por acaso, estava a simpática seleção soviética de futebol. Fiquei encantado com o país, mas notava – como me advertira o franco-cearense Gérard Boris – que o francês é, quase sempre, resmungão e não se afinava muito com os que não são de lá. O ano de 1968 ainda não havia acontecido.
Nesse mesmo tempo, percorri quase todo o interior desse belo país a bordo de ônibus. Um dia, uma amiga foi acometida de mal intestinal e o veículo parou em posto de combustível. Foi-nos dito que só dariam direito ao uso do banheiro se houvesse abastecimento. Enquanto a discussão acontecia, falei para a amiga resolver o seu problema. O gerente saiu soltando palavrões, mas o objetivo fora atingido.
De outra feita, já neste século, passei um “Réveillon” por lá. Estava defronte à Torre Eiffel, era frio. O que mais se via eram fogos de artifício, imigrantes africanos e árabes. Poucos ocidentais e orientais. Táxis não apareciam. Os metrôs – nesse dia eram gratuitos – estavam apinhados. As margens do Rio Sena pareciam uma lixeira, garrafas, papelões e latas boiavam em sua superfície. A solução foi aceitar, por preço exorbitante, o uso de carro particular, dirigido por alguém de origem arábica. Ele justificou: só há um dia deste em cada ano.
Esta introdução é pessoal, episódica, rasa, e refere que o francês nato não tem muita paciência com turistas (são mais de 75 milhões por ano, dez vezes o que o Brasil recebe no mesmo período). Ao mesmo tempo, dizer dessa mudança na origem das pessoas em grandes eventos de confraternização. Os nativos permaneciam em casa, os de fora pululavam nas avenidas e parques.
É preciso não esquecer que a França, tal como outros países europeus, exerceu o colonialismo na África, Ásia e no Oriente Médio. O fim dessa invasão ocorreu apenas no começo da segunda metade do século passado. São muitas as ex-colônias.
O fato é que os nativos desses países francofônicos se acharam com o direito de procurar melhor condição de trabalho na antiga metrópole. A par disso, as 30 ditaduras que contaminam o Oriente Médio, berço do islamismo, promoveram o surgimento de grupos tais como o Hamas, Taliban, Estado Islâmico, Jihad, Al Qaeda, Hizbollah e Boko Haram.
Alguns desses grupos reivindicam a autoria de atentados, tais como o acontecido à revista “Charlie Hebdo” que, se autointitulava “journal irresponsable”. Cá para nós, o Hebdo abusou do direito de atacar a figura sagrada – para os muçulmanos – do profeta Maomé. Usava humor, sátira e até deboche. Desde 2011, a revista estava com apoio policial, face entreveros e ameaças recebidos.
O repúdio natural e a comoção são reflexos da estupefação da maioria dos franceses e europeus. Entretanto, os dois irmãos encapuzados e autores do atentado – e mortos no dia seguinte – eram franceses de nascimento, mas filhos de muçulmanos. Uma primeira questão a se levantar: embora franceses, eles foram ou não integrados aos costumes da pátria do dístico “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”?
Quem saiu lucrando com o episódio foi a direita francesa que, comandada por Marine Le Pen, culpou todos os seis milhões de muçulmanos que moram na França e tirou dividendos políticos para a próxima eleição presidencial. A imigração em massa de “diferentes” aconteceu conforme já referi acima e, ainda, por ser o país de De Gaulle, famoso por abrigar dissidentes de ideologias de todo o mundo. Desde a Revolução Francesa, o discurso era esse.
Os dois autores do ataque, repito, eram franceses de nascimento. Aqui no Brasil não se costuma distinguir religião/credo ou a origem étnica das pessoas que assumem a cidadania brasileira. Na Europa, não é bem assim. Basta lembrar, por exemplo, a fricção permanente entre naturais da Alemanha e os turcos, que são grande parte da mão de obra local.
Particularmente, creio que a humanidade deve aproveitar o episódio para reavaliar a homilia sobre a liberdade de expressão. Ela deve ser soberana ou ter limites? Sociólogos creem que ela não é um direito fundamental absoluto. É notório que grupos minoritários de todos os matizes têm sofrido discriminações e assassínios ao redor da Terra por conta de suas raças e crenças.
Não está longe o tempo em que a Ku Klux Kan, composta por ultraconservadores dos Estados Unidos, matava negros e incendiava as suas casas. O mesmo acontecia na África do Sul até a libertação de Nelson Mandela e o fim do “apartheid”.
Deixo, então, com Mandela, a conclusão: “Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/01/2015.

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CAPIM ALTO – Diário do Nordeste

Quando você for às compras lembre-se como o dinheiro chegou às suas mãos. Se foi dado por alguém, que reabastece sempre, não tenha dó. Mande brasa. Se for suado, contado e fruto do seu trabalho, vá com calma. Procure fazer uma lista do que realmente precisa. O impulso é, muitas vezes, maior que a razão. Grife não produz, terceiriza e cola etiquetas.
Agora, quando for comprar comida, frutas e verduras veja se não está dentro de uma multinacional atrás de nome brasileiro. Acontece assim, um português/árabe/judeu/nordestino, chega à cidade grande e monta uma mercearia. Trabalha de sol a sol. O negócio prospera, o dono aumenta a área e, tempo depois, vira mercadinho, supermercado e loja de departamentos. O mourejador cansado infarta. Morre no hospital luxuoso. Filhos choram. Uns menos que outros. Passa o luto. Herdeiros fundam uma sociedade anônima e resolvem abrir o capital. Há anúncios, reportagem em TVs e os netos chegam à festa em carrões e cabelos vaselinados. O barco vai singrando e as famílias aumentam. Há filhos, noras, genros, netos, mulheres e maridos dos netos, uns com ciúmes dos outros. Brigam e ficam distantes. Uma assembleia geral extraordinária é convocada para ouvir proposta de grupo estrangeiro.
A cobiça aumenta e, após discusões, ouve-se a firma de consultoria contratada por hora. Ela diz: é hora de vender. Os “estranjas” assumem o controle e vocês recebem ações e uma parte em dinheiro. Exultam. O português/árabe/judeu/nordestino revira no túmulo que está com capim alto e as luminárias enferrujadas.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2015

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MÁRIO GOMES MORREU? – Jornal O Estado

“E andando no sol que cega,/ sentir com triste espanto/como toda a vida e o seu tormento/que corre continuamente é uma muralha/que em seu topo tem cacos pontiagudos de garrafa”. Eugenio Montale (1896-1981), poeta italiano.
(Paulo) Mário (Ferreira) Gomes morreu no último dia do ano. Foram juntos, ele e o ano. Quem não conheceu Mário Gomes não é bem fortalezense. Tampouco sabe da importância do desvario alegórico dessa figura singular, abusada, que sabia ser poeta e só falava com quem elegia. Não portava identidade e fizera do centro antigo o seu habitat. A sua obra é, inclusive, objeto de tese de mestrado da jornalista Ethel de Paula.
Paletó sobre camisas, calças amarfanhadas e sapatos rotos por andanças. Seria ele exemplar perdido da geração “beat”, como entendeu o e escritor Márcio Catunda? Ou pós-moderno “Carlitos”, o personagem de Chaplin? Creio que ele viveu como quis e se sabia admirável em sua franciscana, mas airosa figura, mesmo que a dorsal, aos 67 anos, não mais o deixasse ereto.
O fato é que o G-1, imaginem, o site da rede Globo, estampou, quase na hora, a sua morte: “ Ceará -… Mário Gomes era conhecido como poeta descomunal e tornou-se popular como transeunte da Praça do Ferreira e no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.”
A exigente Folha de São Paulo, edição desta terça, 06, página C4, registrou: “Mário Ferreira Gomes(1947-2014)- Um poeta das ruas de Fortaleza”, em negrito mesmo, escrito por Andressa Taffarel. Reproduzo duas colunas, mas foram três: “Vez ou outra, Mário Gomes convidava as pessoas para irem a seu escritório na praça do Ferreira, em Fortaleza. Se lhe perguntassem qual era o endereço exato, responderia sem subterfúgios: ‘Na praça’ – às vezes a frase vinha acompanhada de alguma palavra um tanto grosseira, não publicável aqui. O ‘escritório’ nada mais era que um dos bancos do espaço público onde Mário reunia poetas como ele, amigos e interessados em ouvir discussões sobre literatura. Além de sempre falar o que lhe vinha à cabeça, era conhecido por seu desapego aos bens materiais. Até tinha casa em um bairro da capital cearense, mas preferia viver como um andarilho pelo centro, normalmente de paletó e com uma bebida e um charuto ou cigarro nas mãos. Não admitia que lhe dessem esmolas. ‘Não sou pedinte, sou artista’, dizia. Ajuda só aceitava de pessoas próximas…”
Leitor ávido de jornais que não comprava, sabia dos acontecimentos culturais. Era comum vê-lo no calçadão que medeia a Igreja do Rosário e o Palácio da Luz, quando a Academia Cearense de Letras realizava solenidades. Ficava ao largo, como a balbuciar alguns dos seus muitos poemas. Um deles: “Beijei a boca da noite/ e engoli milhões de estrelas./ Fiquei iluminado./Bebi toda a água do oceano./Devorei as florestas/ A humanidade ajoelhou-se a meus pés,/pensando que era juízo final./Apertei com as mãos, a terra/ Derretendo-a/As aves em sua totalidade/Voaram para o além/Os animais caíram do abismo espacial. /Dei uma gargalhada cínica/E fui descansar na primeira nuvem/Em que o sol me olhava/ assustadoramente./Fui dormir o sono da eternidade/ E me acordei mil anos depois/Por trás do universo.”
São tantos seus versos, seus livros e suas idas e seus retornos ataviados por caronas ao Rio e a Salvador. Por fim, Mário quedou-se e se apropriou da praça e do Dragão do Mar. Ia à rua Pereira Filgueiras e à Rua Dom Joaquim, em raros sábados. No dia 31, pela manhã, o artista plástico Tota me visita e fala do estado grave do Mário. Disse que logo passaria pelo IJF. Em seguida, o Raymundo Neto liga e diz: “O Mário morreu”. Era começo da tarde, sol zenital. Chego ao IJF. Encontrei-o já no necrotério gradeado. O cadeado foi aberto por pachorrento e gentil servidor e a corrente tintilou como sino. O Mário estava sobre uma maca, lado direito, envolto em panos brancos e limpos, atados por fitas gomadas. Literalmente, empacotado. Logo ele que amava a liberdade.
Desci ao Serviço Social e encontrei o escritor Raymundo Netto e o artista plástico Tota. Faltava a carteira de identidade para os seus dados oficiais. Exigência legal, mas o capitão da segurança amoleceu quando o Tota mostrou cartolina com fotos do último aniversário do ex-vivo e um livro com a sua foto na capa. Houve surpresa, a irmã chega e mostra o seu plano funerário. Mário não precisava da ajuda de ninguém. Altivo, até depois da morte.
Lembrei-me que o via por aí, quase encurvado, como um arco sem flecha , entre profundas pitadas de cigarro, com passadas em zig-zag a desobedecer a lei da gravidade. Pois foi justo ela, a que chama todos os corpos para o centro da Terra, que o fez cair e passar dois dias no IJF, entre resmungos, desaforo aos médicos e aos enfermeiros e o zelo do amigo Tota.
Manhã do primeiro dia de 2015. Mário de barba escanhoada, paletó com gravata, deitado para sempre no pátio da Biblioteca Pública Dolor Barreira. Ou voltará daqui a 1.000 anos? Algumas coroas, irmã, sobrinha e pouca gente. Alguns falaram, dizendo das artes e travessuras do silente. Lágrimas, risos e, por fim, um Pai Nosso. Ele já descansava na primeira nuvem branca de um céu azul e, me pareceu, que cinzas do seu cigarro caiam sobre o passeio.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/01/2015.