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PENSANDO 2015 – Diário do Nordeste

É época de pensar e até de fazer conjeturas. De parar e refletir no que fez e, sobretudo, deixou de fazer. Por mais que estejamos alegres, tristes ou absorvidos com problemas, chega um instante em que ponderamos e nos perguntamos: e aí o que ficou de positivo? Você imagina que vai tentar fazer a coisa certa, errar menos que nos anos anteriores, será tolerante, mandará as fofocas para aquele lugar, cuidará da saúde, estimulará o corpo, mas fica algo no ar.
A memória reacende com facilidade e isso, às vezes, incomoda. Neste tempo, o viver diário dá o tom da música interior. E essa música, com certeza, tem compasso lento, como se fora uma valsa de Strauss que a maioria conhece, mas não recorda o nome. A evocação não se constitui saudosismo; é como se precisássemos de refrigério para o dia a dia que se assemelha a um “rap”. Você, eu, os que não confessam e os que não sabem, estamos tontos diante de um mundo que mudou sem nos pedir licença e ficou conturbado e violento. Dizem os filósofos que o medo e a esperança andam juntos. Assim, a vida é gangorra. Gente importante como o ex-premier da Inglaterra Tony Blair revelou em livro de memória que tomava uísque puro, gim tônica e vinho para aguentar o rojão do trabalho.
Aqui no Brasil, somos ainda otimistas, a presidente Dilma afirmou, antes das eleições: “eu acho que tem hora que exageram um pouco comigo… mas eu sou uma pessoa que convive perfeitamente com a crítica”. Aguardemos.
Em tempo: Chegou o 2015, mas o 2014 levou o saltimbanco Mário Gomes, cara e voz da nossa contracultura.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2015.

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UM ESCRITO RASANTE: DE 1945 A 2015 – Jornal O Estado

“Aquela vida que é bela, não é a vida que se conhece, mas a que não se conhece; não a vida passada, mas a futura. Com o novo ano, o destino começará a tratar bem a vós, a mim e a todos os outros, e a vida feliz se iniciará. Não é verdade?” Giacomo Leopardi (1798-1837), ensaísta italiano.
Quando a Segunda Guerra (1939-1945) acabou os que dirigiam o Mundo de então acreditavam que deveria ser criada uma nova ordem. Estabeleceram reparações e, entre outras decisões dividiram a Alemanha em duas. Só a queda do muro de Berlim, em 1989, e o definhamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas- URSS, depois da Perestroika de Gorbachev, foi que a Guerra Fria terminou.
Essa nova ordem, discutida, avaliada e considerada, seria a ação firme da emergente Organização das Nações Unidas- ONU, constituída em 24 de outubro desse mesmo 1945. Três anos depois, cercada de muita discussão, foi realizada uma sessão especial da ONU, no dia 10 de dezembro de 1948, para emitir uma resolução sobre os direitos da humanidade.
Esse documento é uma das peças mais bonitas produzidas pela inteligência moderna. Basta citar o seu artigo primeiro: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade”.
De lá para cá já tivemos dezenas de guerras e conflitos e nada de fraternidade. Quem não sabe das guerras da Coreia e do Vietnã? Das guerrilhas na América Latina? Da questão, sem fim, entre Israel e Palestina? Das guerras internas que mudaram o mapa da Europa? Das invasões do Afeganistão e do Iraque. Das lutas envolvendo ditaduras e etnias na África e a disseminação da aids e o ebola de forma cruel. E, mais recentemente, das guerras provocadas pelo islamismo exacerbado com o surgimento do “Estado Islâmico” e o ainda vivo Al Qaeda.
São tantas as guerras que não vale a pena contá-las. É claro que a ONU tem procurado resolver, de forma pacífica, os conflitos, mas a sua autoridade maior, o secretário geral (alguém lembra o nome do atual?) é apenas um burocrata bem pago e qualificado, sem autoridade perante os Estados litigantes. Os países fundadores da ONU – e os outros – não se respeitam.
A propósito, o nome do secretário geral é Ban Kim Moon. Ora, como cobrar então que exista igualdade, segurança, liberdade e dignidade se a ONU tornou-se uma entidade que privilegia os detentores do comando do Conselho de Segurança e alguns poucos mais?
Há, ainda, bilhões de pessoas que vivem em situações miseráveis. Quase dois bilhões vivem em condições desumanas, com parca alimentação, sem saneamento, instrução e lhes falta qualificações exigidas pela industrialização e a mecanização da agricultura.
Em dezembro último, Barack Obama dribla a opinião publicada e resolve reatar relações com Cuba. Isolada que foi há 53 anos por um embargo que só poderá ser extinto pelo Congresso dos Estados Unidos. Um detalhe: a maioria, nas duas casas, é republicana, conservadora e adversária do ocupante, até janeiro de 2016, da Casa Branca. Ao mesmo tempo, Obama legalizou a maioria dos latinos “indocumentados”, mas que possuam filhos nascidos no país criado por George Washington e Abraham Lincoln. Seria um xeque-mate político e um reforço para a postulante Hillary Clinton?
Por fim, vamos saudar o ano novo e desejar a todos, nesta sexta-feira, 02 de janeiro de 2015, que o Brasil supere as suas dificuldades estruturais e que os temores de uma nova retração mundial não nos atinja. Afinal, se Deus é brasileiro, como deixou o time do “San Lorenzo” ganhar a taça Libertadores da América?
É preciso que o papa Francisco pare de fazer milagres em vida e Deus volte a se lembrar dos 200 milhões de brasileiros, a maioria cristãos, sendo que uma boa parte paga dízimo para viver melhor e mais feliz. Em 2014, não tivemos nenhum milagre, mas muitos pesadelos. 2015 é a bola da vez. Viva.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/01/2015.

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O PARADOXO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O DESEMPREGO – Jornal O Estado

Enquanto o Brasil se debate com o desemprego de 12 milhões de pessoas, Cingapura, uma ilha-Estado, na Ásia, utiliza robôs para driblar a falta de mão de obra. Lá, dizem, estrangeiros pobres não são bem-vindos.
A notícia é do Financial Times, de Londres(via Valor), em reportagem de Jeevan Vasagar. Ele escreve: “São muitos os que temem os avanços rápidos da inteligência artificial na Europa e nos Estados Unidos, em meio aos alertas de cientistas sobre o desemprego em massa. Em Cingapura, contudo, onde as restrições à mão de obra estrangeira deixam muitas empresas em dificuldades para encontrar pessoal, as corporações de serviços encontram cada vez mais soluções automatizadas para contornar a falta de trabalhadores”.
O progresso da robótica nos deixa boquiabertos. No começo do século 20 Henry Ford criou a linha de produção em série para produzir carros da mesma marca e da mesma cor, preta. Eram homens nessa linha de montagem. Lembram de “Carlitos” no filme “Tempos Modernos”?
Hoje, depois do uso científico do silício, do chip, do computador que, juntos com o homem, formam a tecnologia da inteligência artificial, há um paradoxo a ser resolvido. A Organização das Nações Unidas-ONU e a Organização Internacional do Trabalho-OIT acreditavam e afirmavam: em 2030 não haverá mais desempregados no mundo. Quimera.
Com a já quase certa troca de milhares de motoristas por robôs para pilotar grandes caminhões transportadores nos Estados Unidos, haverá greves e afins nos próximos anos. Digamos, na próxima década. Pelo que sabemos os sindicatos dos motoristas de caminhões de carga de lá não vão deixar barato essa situação.
Hoje, 2016, há 156 milhões de indivíduos que vivem entre a extrema pobreza (menos de US$ 1,90 por dia/ pessoa) ou de pobreza moderada (de US$ 1,90 a US$ 3,10 por dia/pessoa). Na África do Norte, o nível de desemprego chega a 30%. Nos países emergentes, grupo onde o Brasil está incluído, há falta de emprego para 13,6% da população.
Nos países desenvolvidos, incluindo Estados Unidos e Europa, há uma taxa de 14,5% de desemprego que tende a aumentar por conta da imigração via Mar Mediterrâneo sem parar de crescer. Apesar das milhares de mortes nas travessias em balsas e navios sucateados, alugados a mercenários.
Em 2015, 248 mil robôs foram vendidos, segundo informações da Federação Internacional de Robótica. Assim, se de um lado cresce o desemprego, do outro surgem soluções como o robô humanoide Pepper, produzido pela SoftBanks Robotics.
Pelo que se vê, o desemprego e a indústria robótica crescem em linhas paralelas. Como se sabe, as linhas paralelas só se encontram no infinito. Enquanto isso não acontece, o mundo vive a perplexidade desse descompasso entre o progresso inevitável e o atraso não reduzido ao redor do mundo. E então?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/09/2016.

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O ESTADO – 80 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Caso você nunca tenha entrado em uma redação de jornal, não sabe o que está perdendo. Hoje está tudo mais tranquilo, com o suave bater das teclas dos computadores, as reuniões de pauta e o bulício do fechamento da edição. Foi-se o tempo da composição a chumbo quente. Vieram as linotipos, os computadores, esses destruidores do ontem, pois precisam sempre do amanhã, diferente do hoje.
Em 1936, uma agremiação política, o Partido Social Democrático-PSD, teve a audácia de fundar, em Fortaleza, mais um jornal e deu a ele o nome pomposo de “O Estado”. Fortaleza, com 136 mil habitantes, possuía vários Jornais: Correio do Ceará, fundado em 1915; O Nordeste, em 1922; Gazeta de Notícias, em 1927; e O Povo, em 1928.
O PSD escolheu um jovem advogado, José Martins Rodrigues, para dirigi-lo e assim começa a história do “O Estado”, em 24 de setembro de 1936. Agora, 80 anos depois, “O Estado-Ce” comemora o octogésimo aniversário. Percalços, muitos. Basta dizer que em 1937, como todos sabem, o Brasil entrou no “Estado Novo”, regime político ditatorial, e dele só sairia em 1945
A história do “O Estado” está sendo escrita pelo jornalista e professor Luiz Sérgio Santos, daí não precisar discorrer sobre todas as vitórias e as barreiras deste jornal que chega às bancas e às mãos dos assinantes todas as manhãs, de segunda a sexta-feira.
Os 80 anos, amanhã completados, devem ser motivo de alegria para os que cultuam a democracia, a informação e a liberdade, objetivos maiores deste compacto periódico a cada dia. Ele traz o essencial do acontecido no Ceará, no Brasil e no Mundo, originado não só pelas agências de notícias e o captado pela Internet. Além do jornal impresso, “O Estado” possui blog e televisão, via Youtube.
Há que se destacar a argúcia de seus articulistas explorando os eixos sobre os quais passeiam as grandezas, as sutilezas e as vilezas humanas, sem sensacionalismo e com ponderabilidade. A ascensão de Ricardo Palhano à direção do jornal, acolitado pela família, aconteceu desde a morte de Venelouis Xavier Pereira, em 1966.
Procurei alguém com densidade jornalística e conhecimento das entranhas do Jornal para falar sobre “O Estado”. A escolha recaiu na pessoa do articulista Macário Batista, esse jornalista globe-trotter a temperar os seus textos diários com a argúcia de veterano, a leveza do humor, e a determinação de “foca” que sai atrás daquilo que, algumas vezes, sequer sabe definir ou mensurar.
Macário diz: “Os sonhos nunca duraram tanto. Lá atrás, no tempo, quando os intelectuais-políticos, gente que sabia ler e escrever, criou O Estado, sonhavam com uma imprensa livre, com um lugar pra disseminar ideias, um canto pra repousar o ideário libertário do Ceará. 80 anos do Jornal O Estado, no meu juízo, passando por todos os instantes porque passam instituições feitas de sonhos e desejos é uma realidade madura, generosa, verdadeira, una no seu todo. Estou lá, faz coisa de 25 anos. Humildemente incluo meu nome nesses 80, crente na seriedade dos propósitos dos que deram sequência ao trabalho do saudoso Venelouis Xavier Pereira. O jornal ganhou o rosto da juventude, o gestual meigo da presidente Wanda Palhano e a coragem nunca perdida de seguir a verdade e a legitimidade das instituições democráticas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/09/2016.

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A BOLSA E O CHANEL – Jornal O Estado

Não dormira bem, apesar do velho Valium, seu companheiro há anos. Acordara cedo e sentira o absorvente higiênico embebido. Foi ao banheiro, uma ducha quente demorada, penteou os fartos cabelos ruivos, cuidou da maquiagem como a marca Esther Laudée oferecia e mirou seu corpo no grande espelho embaçado pelo vapor. Passou a manga felpuda do roupão Gucci e gostou do refletido. Era uma moça bonita.
Largara tudo em Chicago e recomeçara a vida em Nova Iorque, a cidade que lhe dera aquele pequeno, mas valioso loft, em Tribeca. Solitária. Escolhia os seus homens. Transavam, dava um beijo de despedidas, tomava o seu Vallium e deitava solitária na larga cama entre lençóis de seda e fofos travesseiros, abraçando-os em posição fetal.
Abriu o armário e encontrou apenas um absorvente. Passaria na drugstore no subsolo do seu trabalho, na Torre Norte, e compraria uma caixa. Ligou a cafeteira, colocou duas fatias de pão integral na torradeira e tomou o suco de tomate junto com o cotidiano Prozac. Sentou quieta e bebeu cada gole do café encorpado. Mordiscou, distraidamente, a torrada sem geleia para não engordar, escovou os alvos dentes e pincelou os lábios com o novo lançamento de batom.
Escolheu um vestido negro de botões cinza-escuro como uma túnica chinesa. Era adequado para aquele setembro ainda quente. Mudou os pertences para a bolsa Louis Vuitton combinando com os confortáveis e altos sapatos a fazer do seu trajeto diário uma passarela imaginária.
Havia tempo ainda. Desceu ao subsolo, escolheu um pequeno pacote do absorvente higiênico, colocou-o na cestinha e viu na gôndola próxima um vidro de Chanel nº 5. Era a velha tentação. Olhou para os lados e não teve dúvida em colocá-lo na bolsa. O calafrio criava o clima. Era um misto de medo, desafio e prazer. Já discutira isso dezenas de vezes com o seu analista. O desejo furtivo de roubar nada tinha a ver com necessidade, era um impulso incontrolável. Não importava o nome de cleptomania. Nunca fora apanhada. Cuidadosa, olhava sempre para os lados e fugia das câmeras.
Dirigiu-se a um dos caixas, apresentou o absorvente e o cartão de crédito. Não vira o segurança a seguir tudo de longe. Polidamente, mas incisivo, solicitou acompanhá-lo à cabine especial. Mesa branca, cortina de veludo negro e luz forte. O segurança pediu para colocar todos os pertences de sua bolsa sobre a mesa.
Ela relutou, mas parecia sentir um estranho prazer em ser apanhada. Em meio a seus pertences, lá estava o vidro de Chanel nº 5, ainda com a tarjeta magnética. O segurança tocou a campainha, ao tempo em que ecoavam imensos e prolongados estrondos. Uma viga de aço o atingiu mortalmente, grandes blocos de pedra caíram em meio à poeira, formando um escudo protetor para ela, enquanto a fragrância do Chanel nº 5 evolava pelo chão, misturando-se ao sangue da fronte do segurança.
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Explicação: o conto acima integra o meu livro “Sobre a Gênese e o Caos”. O reproduzo pela passagem dos 15 anos dos atentados em 11 de setembro de 2001.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/09/2016.

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ATITUDES – Jornal O Estado

Todos, no Brasil, resolveram cobrar o outro. Cobram tudo. Desde fraternidade expansiva, como se a maledicência e o uso indevido das confidências não fossem uma fraqueza do ser humano.
Falam de gestos, querendo significar atitudes, posturas, comportamento. O gesto conhecido, com testemunhas e datas marcadas, não deve ser o que mais representa e importa. Parece-nos que a exposição, a divulgação e o conhecimento reduzem os gestos a uma mera pantomima.
O que deve importar a cada um não é esperar gestos dos amigos, é descobrir – cada um a seu modo – a maneira de engrandecer a relação ou dignificá-la por paradoxal que pareça, até com o silêncio.
A prestação de contas de cada pessoa é com a sua consciência, a sua crença ou os seus valores. Não acrescenta muito dizer, deixar que se saiba ou transparecer o que se faz ou deixar de fazer em benefício do próximo.
Truísmos? Talvez. O fato é que a sociedade e as pessoas próximas nos veem não como somos, mas como imaginam que somos. Cada um vê o próximo a partir de seus próprios valores e do grau maior ou menor de empatia, simpatia ou antipatia que nutre.
Os grupos, as famílias, os companheiros de trabalho e os partidos políticos devem procurar uma nova equação para o relacionamento, não aferindo as reações do próximo com meros atos contrários aos nossos sentimentos, interesses e desejos, mas com manifestações de liberdade, de independência e do exercício do direito de viver.
É claro que tudo isso passa por uma peneira, que é a própria interação, a afinidade, a benquerença, a forma de pensar e o amor.
O filósofo Emmanuel Kant, na sua obra “Crítica da Razão Pura” faz a distinção entre coisas e pessoas. Segundo Kant, o que diferencia coisas de pessoas é o valor. O valor das coisas é extrínseco, atribuído a elas por terceiros e se chama preço. O valor das pessoas é intrínseco, faz parte delas, não é atribuído por ninguém, e é o que se pode chamar de dignidade. Assim, atitudes não devem ser classificadas como produtos para que nosso “preço”, perante terceiros, seja aumentado.
Atitudes não são meras representações ou dispêndios financeiros. Vêm lá do fundo, onde moram ou devem morar o que cada um tem de mais caro. Cada um deveria lembrar o que disse certa vez Abraham Lincoln: “Faço o melhor que sei, o melhor que posso, e o faço até o final. Se ao fim de tudo deu certo, o que dizem contra mim não importa. Se o fim resulta num erro total, dez anjos sussurrando em meus ouvidos que eu esteja certo não farão a menor diferença”. Pois é.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/09/2016.

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FOTOJORNALISMO – Diário do Nordeste

O Ceará foi e é berço de excelentes fotojornalistas. Destacam­se os que mourejam agora nos jornais e nas revistas locais. Devemos lembrar que, em passado não remoto, Luciano Carneiro foi um grande fotógrafo, inclusive de guerra. Outro nome de destaque é Luiz Carlos Barreto. Ele começou a sua vida com uma máquina a tiracolo e soube, pouco a pouco, ir mudando à cinegrafia. A Galeria BenficArte está apresentando desde 6ª­feira, dia 2/8, a exposição “Olhares do Fotojornalismo Cearense”.
Ainda bem que os nossos fotojornalistas não vivem em países conflituosos. A foto de jornal não pode ser casual, descuidada ou atemporal. Ela deve ser ligada a uma história narrada, seja na área social, econômica, política, na policial e em situações limites, como atentados, guerras e afins. Ela deve resplandecer sobre a notícia, sem ofuscá­la, tratando de incitar o leitor a ler o texto que a acompanha. Nesta Exposição estão presentes os seguintes fotojornalistas: Bruno Macedo, Deivyson Teixeira, Edimar Soares, Érica Fonseca, Evilázio Bezerra, Fabiane de Paula, Fábio Lima, Felipe Abud, Genilson Lima, Kiko Silva, Levi Fonseca, Lex Costa, Marcos Campos, Rodrigo Carvalho, Tatiana Fontes, Thiago Gaspar e Tuno Vieira.
Escolhemos, em comum acordo com o Sindicato dos Jornalistas do Ceará, homenagear os fotojornalistas Levi Fonseca, Marcos Campos e Stênio Saraiva. A todos, a Galeria BenficArte dá boas vindas e os mostra tal como quiseram ser vistos, com audácia e arte. Ao público, recomendamos uma visita à exposição com atenção aos detalhes. São eles que importam, na fotografia e na vida.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2016.

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ATITUDES COBRADAS – Jornal O Estado

Todos, no Brasil, resolveram cobrar o outro. Cobram fraternidade expansiva, como se a maledicência e o uso indevido das confidências não fossem uma fraqueza do ser humano.
Falo de gestos, querendo significar atitudes, posturas, comportamento. O gesto conhecido, com testemunhas e datas marcadas, não deve ser o que mais representa e importa. Parece-nos que a exposição, a divulgação e o conhecimento reduzem os gestos a uma mera pantomima. O que deve importar a cada um não é esperar gestos dos amigos, é descobrir – cada um a seu modo – a maneira de enriquecer a relação ou dignificá-la por paradoxal que pareça, até com o silêncio.
A prestação de contas de cada pessoa é com a sua consciência, a sua crença ou os seus valores. Não acrescenta muito deixar que se saiba ou transparecer o que se faz em benefício do próximo.
Truísmos? Talvez. O fato é que a sociedade e as pessoas próximas nos veem não como somos, mas como imaginam que somos. Cada um refere o próximo a partir de seus próprios valores e do grau maior ou menor de empatia, simpatia ou antipatia que nutre.
Os grupos, as famílias, os companheiros de trabalho e os partidos políticos devem procurar uma nova equação para o relacionamento, não aferindo as reações do próximo com meros atos contrários aos nossos sentimentos, interesses e desejos, mas com manifestações de liberdade, de independência e do exercício do direito de viver.
É claro que tudo isso passa por uma peneira, que é a própria interação, a afinidade, a benquerença, a forma de pensar e o amor.
O filósofo Emmanuel Kant, na sua obra “Crítica da Razão Pura” faz a distinção entre coisas e pessoas. Segundo ele, o que diferencia coisas de pessoas é o valor. O valor das coisas é extrínseco, atribuído a elas por terceiros e se chama preço. O valor das pessoas é intrínseco, faz parte delas, não é atribuído por ninguém e é o que se pode chamar de dignidade. Assim, é que atitudes não devem ser classificadas como produtos para que nosso “preço” perante terceiros seja aumentado.
Atitudes não são meras representações ou dispêndios financeiros. Vêm lá do fundo, onde moram ou devem morar o que cada um tem de mais caro. Cada um careceria lembrar o que disse certa vez Abraham Lincoln: “Faço o melhor que sei, o melhor que posso, e o faço até o final. Se ao fim de tudo deu certo, o que dizem contra mim não importa. Se o fim resulta num erro total, dez anjos sussurrando em meus ouvidos que eu esteja certo não farão a menor diferença”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/09/2016.

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O BRASIL AINDA É ASSIM – Jornal O Estado

“Mude, mas mude devagar, porque a direção é mais importante do que a velocidade”. Clarice Lispector
Não há segredo: os entes públicos são os maiores anunciantes da imprensa no Brasil. Alguns jornais, emissoras de rádio e televisão, sites e blogs, querem posar de isentos e ditadores do bem e do mal. Estão longe disso. Há extravasamento de paixões, de interesses subliminares, de queixas e principalmente, da necessidade de vender espaço, tempo publicitário ou projetos especiais. Como se diz no meio, a imprensa vive do Departamento Comercial. Tudo é fonte de receita.
Apesar disso, alguns órgãos, quase sempre, convivem com dívidas, multas e impostos em aberto. Como solucionador dos problemas, sempre aparece alguém “bem-intencionado” a procurar fórmulas, parcelamentos das dívidas, deixar prescrever atuações e assemelhados. Dar um jeito, enfim.
Pequeno detalhe: todos os anos, jornais, revistas e cadernos especiais, após a colheita do Departamento Comercial, realizam certames premiadores. As festas são opíparas, com cerimoniais longos e enfadonhos. Em poucos desses casos os premiados até pagam as festas. São os prestadores ou recebedores de favores, os engendradores de soluções aparentemente legais em situações complexas. Atraem-se pelo poder, seja ele qual for. Os agraciados até acreditam nos 15 minutos de fama referido por Andy Warhol.
Ainda há os que se descobrem recentes ‘amigos de infância’, colegas e parentes dos poderosos, dos adventícios, dos novos ricos, dos usuários de incentivos fiscais e favorecidos por juros camaradas em bancos oficiais. Dos que recebem isenções disso e daquilo. Louvam, pela frente, os políticos de todas as greis e os encastelados em Associações e Instituições de classe a bradar “ações propositivas”, meras borbulhas. Algumas dessas entidades são plenas de gente encalhada na vida, mas bem remunerada e a fazer quase nada.
O pacto nacional tão falado não pode excluir uns e privilegiar outros. Um pacto é exercício de cidadania, não é explicitação de interesses escusos acobertados por pátina de seriedade. Eu, você, nós todos, somos coniventes com tal estado de coisas. Vestimos paletós e batemos palmas para uns e outros. Chega!
Quinhentos e dezesseis anos após a nossa descoberta acidental por Pedro Álvares Cabral ainda brincamos de fazer e emendar Constituições. A moda agora é editar PECs – Proposta de Emenda Constitucional. Há PECs para todos os gostos e afinidades. À Constituição de 1988 já se agregaram cerca de 100 PECs, algumas casuísticas.
Enquanto formos bisonhos e não tivermos a coragem de denunciar as patacoadas diuturnas, em todas as esferas do poder e do mundo real, o Brasil não se manterá sequer entre os países dos BRICs. Infelizmente, nossos tijolos são feitos de argamassas não consistentes e logo se desfazem. É pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/10/2016.

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MINHA HISTÓRIA JORNALÍSTICA (A PEDIDOS) – Jornal O Estado

Recebi, em 1962, do escritor, jornalista e empresário Eduardo Campos, superintendente dos Diários Associados, então maior grupo de comunicação do Brasil, a incumbência de substituir Pedro Henrique Saraiva Leão, titular da coluna diária “Informes Acadêmicos”, no Jornal “Correio do Ceará”. Pedro cumpriria bolsa acadêmica no exterior.
Nesse tempo, o grupo dos Diários Associados no Ceará era composto da pioneira Ceará Rádio Clube (hoje, Rádio Clube-AM), da TV Ceará, canal 2, e os jornais “Unitário”, matutino, e “Correio do Ceará”, vespertino. A coluna “Informes Acadêmicos” durou um ano. Em 1963, comecei a escrever uma nova coluna: “Administração & Negócios” que durou até o ano de 1966. A partir daí, passei a escrever artigos especiais.
Uma pequena digressão: o “Correio do Ceará” fora fundado por Álvaro da Cunha Mendes, em 2 de março de 1915. Nesse ano, ocorreu uma das maiores secas do Ceará, transformando Fortaleza em cidade sitiada, com medo de contaminação trazidas por flagelados do Interior. Criaram-se abrigos (“campos de concentração”, no dizer de Rachel de Queiroz, no romance “O Quinze”, 1930), meros depósitos de gente, nas entradas da Cidade, sendo o principal no então bairro do Alagadiço ou São Gerardo.
Álvaro Mendes pretendia ser independente e, em consequência, face seu destemor, chegou a ser preso no 23º. Batalhão de Caçadores – então localizado no atual Quartel General da 10ª. Região Militar – ao denunciar falcatruas na IFCOS, Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, criada em 1919, depois transformada em DNOCS.
Álvaro era empresário gráfico e manteve o jornal até 1937, quando o transferiu para o emergente grupo dos Diários Associados, comandado pelo paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, inovador da imprensa brasileira, a partir de Pernambuco, depois Rio, São Paulo e, por fim, todo o País. Surgia um grande condomínio de comunicação a incluir jornais, emissoras de rádio, estações de televisão e revistas, entre as quais brilhava “O Cruzeiro”.
Esse condomínio fechado compartia o poder em estados brasileiros, entre outros, com o já citado Eduardo Campos e Paulo Cabral, dirigente e locutor da PRE-9, Ceará Rádio Clube. Esse, em campanha para angariar mantimentos a flagelados da seca de 1950, ficou tão popular que conseguiu ser eleito prefeito de Fortaleza, entre janeiro de 1951 e março de 1955.
Foi, em seguida, eleito deputado estadual, mas o olhar clínico de Chateaubriand o transferiu para Belo Horizonte e, em seguida, ali sedimentou parte da presença dos Diários Associados. Deslocando-se, em seguida, para Brasília, já centro do poder.
Em 1970, em choque com o Governo Militar, a Rede Tupi (o símbolo era um pequeno índio) nome dado por Chateaubriand ao arquipélago de televisões, perdeu a força. Consolidava-se, a partir daí, a hegemonia da Rede Globo, da família Marinho, que fundara o Jornal O Globo, em 1925.
Os jornais “Correio do Ceará” e “O Unitário” funcionavam na Rua Senador Pompeu, no centro da cidade, perto da Tipografia Progresso, em imóvel que ia até a Rua General Sampaio. No nível da entrada, trabalhava a administração dos jornais; em seguida, ficava o espaço da redação, não nos moldes de hoje, mas com ortodoxas máquinas de escrever, não as elétricas, que só vieram depois.
Do meio para o fim do espaço do casarão – que ia da Rua Senador Pompeu à Rua General Sampaio – funcionavam as oficinas. Era o tempo da composição a chumbo nas linotipos (A line of type), máquina criada no final do século 19. Nas oficinas, o calor era escaldante. Pois foi lá que mourejei até o dia 22 de agosto de 1969, quando escrevi o artigo “O 5º. Aniversário do BNH no Ceará”.
Nesse artigo relato: “Na evolução do programa habitacional foi proposta e aceita pelo Governo do Estado a transformação da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações em Companhia Cearense de Saneamento”, atual Cagece. No fecho, destaco: “Este balanço que fazemos à guisa de esclarecimento demonstra que cerca de 80 bilhões de cruzeiros velhos foram carreados pelo Ceará em apenas três anos, provocando um surto animador na economia cearense, isto sem falar no número de moradias entregues para pagamento em longo prazo”. Era o tempo do BNH.
Começava eu, nova fase profissional, deixando o batente diário de jornal e tornando-me colaborador semanal deste Jornal O Estado e do Diário do Nordeste.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/10/2016.