Sem categoria

DOIS PRÁ LÁ, DOIS PRÁ CÁ

Não, não é a música de João Bosco e Aldir Blanc maravilhosamente cantada por Elis Regina. São os números 2002. Não entendo – e nem quero aprender – nada de numerologia, mas acho esses números equilibrados, bonitos de olhar e escrever. O 2 da esquerda pode ser eu e você. Os dois zeros parecem dizer nada. O 2 da direita pode ser o balanceamento da equação do bem viver entre nós (o 2 da esquerda) com o outro 2, eles.
Pode ser que este novo ano que está chegando depois de amanhã venha com mais equilíbrio. A soma dos números é quatro, quantidade ideal para uma mesa de conversação, troca de ideias, resolver diferenças, assumir culpas, perdoar e ajudar. Quatro também é um bom número para viajar de carro por este mundo afora. A energia gerada e trocada serve de fermento a entendimentos multipessoais, dois a dois, como se estivéssemos despreocupadamente jogando biriba com os pés descalços, a roupa folgada e o coração aberto às brincadeiras, sem deixar de prestar atenção ao jogo, o sentido figurado da própria vida.
2002 assemelha-se a um par de cisnes, patos silvestres ou garças alçando voo em formação. Vai ser fácil de escrever em cartas, cartões, bilhetes e cheques. Pode ser bobagem o que estou escrevendo, mas levar a vida e os seus números muito a sério não deixa também de ser uma bobagem. Afinal, estamos aqui de graça e por tal razão devemos agradecer a Deus chegarmos a este novo ano, que não tem nenhum 1, número que imperou quantitativa e soberanamente durante o século passado, ainda tão perto, mas já tão longe, parafraseando Richard Bach. Quem sabe se o século passado não tenha sido o do individualismo, justo por causa de tanto um, repetidos ano a ano.
Alguém poderá me dizer: mas este ano de 2001 já é do novo século e a humanidade sofreu tanto com ele. Não terei dúvida em responder: talvez tenha sido porque o 1 ainda era o rescaldo do individualismo do século passado. Agora só teremos um 1 em 2010 e ele, certamente ficará imprensado entre os dois zeros, sem poder dar vez ao egoísmo individualista.
Fim de ano é para isso. Conversar miolo de pote, comer muito, inventar história como esta e desejar a todos vocês, os que conheço e os não, votos de um 2002 em que eu, você e eles – os outros – vivamos em paz, com saúde, alegria e amor. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2001.

Sem categoria

CURTINDO O NATAL?

Ainda não arrastei asa para as festas de Natal. Ando meio cabreiro, arredio a muitas dessas comemorações que enchem os estômagos, mas deixam a mente vazia. Vejo as confraternizações como uma coisa boa, mas a palavra “frater” que dizer irmão, vá onde estão os seus irmãos, seja os de sangue ou os de coração, mas não exagere em demonstrações de sentimentos que não nutre.
Há tanta gente se abraçando, mas se tivéssemos um medidor de afeto, um “afetômetro”, talvez as pessoas fossem mais cuidadosas com as demonstrações não avalizadas por sentimentos. Fingir faz criar rugas, provoca halitose, altera a pressão, causa enxaqueca e aumenta os radicais livres, dizem os naturebas.
É claro que não se deve ser ranzinza, muito menos agora. Mas sem essa de falar o que não sente para pessoas que não tem nada a ver com você. Seja cordial, como sabe ser o brasileiro. Mas não fique meloso, derramado, se o seu coração pede recato. Bons modos e educação são uma coisa, babação é outra. Guarde-se para quem realmente gosta, os que conhecem você, sabem de seus defeitos, carências, limitações, mas o aceitam sem reservas o ano todo.
Para esses vale tudo: cartões feitos à mão, aquele CD, um livro legal que saiu ou uma lembrancinha que mostre a sua atenção. Escolha o que realmente imagina possa interessá-lo. Se ele faz coleção de tampa de cervejas, por exemplo, vá atrás das raras. Se ela só aceita roupa íntima de uma marca especial, procure. Mas, se ela quiser apenas o seu amor ou a sua amizade, melhor ainda, sobrará para comemorarem juntos em um self-service, na festa da família, na igreja, na churrascaria, dividindo um frango, ou no requintado restaurante que você passa o ano todo planejando levá-la e não teve coragem. A hora é essa.
Pelo amor de Deus, não beba em demasia para não virar aquela pessoa chata que muito fala, nada diz, nos enche de perdigotos e amassa a nossa roupa. Pode até beber, ficar alegre, mas sem essa de perder a classe, de “dizer aquelas verdades” que ninguém está disposto a ouvir, muito menos agora. Não conte mais piadas do Bush ou do Bin Laden. Não fale em economia, política, CPI, FHC, dinheiro, não xingue no trânsito. Isso já encheu o ano todo. Tenha imaginação, seja “light” como diz a turma jovem e fique “maneiro”, sem querer resolver os problemas do mundo. Acredite que esta época é mágica para as crianças e renove as suas próprias esperanças. Quando as festas terminarem, aí sim é hora de você cuidar de manter o emprego, não deixar que a empresa vá para o brejo, fazer regime, pagar as contas, mas, por enquanto, é jogar conversa fora ao lado dos que você realmente gosta e, tenho certeza, há pessoas que o adoram, seja você quem for ou onde estiver. Pense em um Natal feliz. Pensou? Então curta, a vida é breve.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2001.

Sem categoria

OS SERMÕES DO TELLES

Acabo de ler “Sermões de Pradaria”, poemas de José Telles, doído homem maduro, acostumado, por ofício, a abolir a dor alheia. Telles, médico e poeta, é, provavelmente, maior do que ele imagina ser como ente literário. Não sou de louvações. Dizem, até, que minha essência natural também se faz presente na parcimônia de elogios. Quem sabe.
Não gozo da intimidade de Teles. Trafegamos apenas entre copos, gente amostrada e trêfega de emoções em tardes volúveis e incertas de sábados. Como se aqueles momentos pudessem dar o perfil de cada um. Doce e falsa ilusão.
Telles revela ter amizades placentares e isso deve ser bebido em virtuais taças amnióticas. É preciso sempre ter cuidado com os cordões umbilicais que transcendem as placentas. Cortar é, paradoxalmente, muitas vezes, atar e dar nova vida à vida.
O poeta escancara louvor a algumas mulheres – maravilhosas, segundo ele – com a admiração do pôr do sol. Se fosse psicanalista diria que Bitupitá, onde Telles nasceu, fica do lado onde o sol se põe e essas mulheres são, talvez, mulheres de não-bitupitá ou a negação inconsciente do regaço primal. Sei lá. Quem sabe, as mulheres de Bitupitá não são, em sua singeleza, maravilhas verdadeiras? Conheceram o Telles desnudo, sem sobretudo e cachecol, e o aceitam assim.
Creio que a poesia de Teles o autoriza também como anestesiologista, pois fornece o substrato humanista tão importante no trato com a alma do paciente. Mário Quintana, já maduro, disse algo muito profundo: “cada verso é uma pergunta do poeta”. Telles é, portanto, um homem de muitas perguntas, profundas, nada cutâneas.
“No meio dos meus amigos, ninguém percebe que meu sorriso é alheio”. Discordo. Os verdadeiros amigos, dito placentares, sim, sabem dos nossos choros antes das lágrimas. Dividem as alegrias e desenganos, conhecem nossa alma. Jacques Derrida sentencia cruelmente: “quando os amigos se multiplicam, a amizade desaparece”. Fico no meio termo, entre a placenta e Derrida.
“Ah! Esse pedaço de tarde sem mistério é dono da minha angústia e sócio dessas lágrimas e o meu raciocínio é a face trágica da espera”. Lindo, mas o poeta imagina ser o único condômino da dor. Alguns, pensam até ser o síndico da angústia e das lágrimas. O poeta vê a dor sem o recurso anestésico dos comuns. E os comuns veem os poetas como a propagação desmesurada da aflição instantânea e deveras passageira.
“Em compensação, meu corpo dorme e cansa quando começa a dança louca dos meus sonhos”. É isso aí. Na idade do pôr do sol, o cansaço já não é mais um adicto, é companhia impregnada, servindo para estabelecer modos aos nossos loucos sonhos e tornar-nos aptos ao real.
“E num galope aberto canso meus momentos a caminho das estrelas. Viajo nas caravelas do medo ou nas fúrias das marés, dentro dos quartos de luas e dos segredos do mundo”. Poderia ter sido escrito por um poeta consagrado. E cá fico eu, espião amador da arte alheia, deixando apenas o pulsar da emoção compartilhada, cúmplice sentido.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2001.

Sem categoria

A MORTE

Leio – e me aproprio de citações – um ensaio feito sobre a morte, por Janaina Fidalgo (caderno “Equilíbrio”, da Folha de São Paulo). Lembro que uma pessoa amiga dizia ser eu chegado a um enterro. Mera gozação ou erro de perspectiva. Não tenho prazer algum em ir a enterro, muito pelo contrário. Mas, se alguma pessoa ligada a mim morre, acho um dever ir ao enterro. Não sou de fingir sentimentos, dar aqueles abraços, mas compareço e me comporto com atenção e respeito.
Ao longo da vida, quer queiramos ou não, sentimos a morte rondar por perto. Ora é um parente próximo, um amigo querido ou uma pessoa notória que a mídia se encarrega de enfocar, com detalhes sobre sua vida e morte. No fundo, parece que ficamos felizes por continuarmos vivos quando alguém morre.
Não estamos falando em tempo de catástrofes e guerras, quando a banalização da morte mostra a iniquidade dos homens. Falamos da morte no varejo, uma a uma, e aos fins de semana, por conta dos sinistros ocorridos no atacado com acidentes e choques de veículos, pegas de jovens e crimes. Se ninguém próximo é atingido, apenas passamos os olhos pelo jornal ou, bocejando, vemos a notícia na televisão. É assim que o mundo gira, a indiferença está arraigada em nossa civilização hedonista e egoísta.
E isso é, talvez, o que nos mantém vivos e relativamente saudáveis. Já Albert Camus, escritor francês, dizia que “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”. Falava assim para lembrar a nossa condição de mortal, pois queremos esconder a morte, escamoteá-la do nosso viver. Segundo o antropólogo Acácio Almeida Santos, a propagação de funerárias, onde os velórios são realizados, são recursos “de afastamento, ao colocar a morte para fora de casa…. para fingir que ela não existe.” Se um parente de alguém morre em um hospital ou em um desastre, e o seu corpo é velado fora de casa, a família fica aliviada mais rápida, pois finge ou disfarça a realidade.
A psicóloga Maria Helena Pereira Franco advoga a ideia de que, em nosso dia a dia, as perdas ( relações cortadas, desemprego, não passar em concurso etc) deveriam ser entendidas como uma forma de preparação, pois “trabalhar com essa experiência negativa, que causa dor, traz crescimento e é uma maneira de entender o cotidiano, de tocar a vida e avaliar o que é e como enfrentar a morte”.
Gláucia Rezende Tavares, fundadora do grupo “Apoio a Perdas Irreparáveis”, mostra, sem paranóia ou morbidez, como devemos conviver com a inexorabilidade de morrer. Para ela: “O melhor preparo para a morte é viver bem a vida. É como calibrar o farol do carro. Curto para não cair nos buracos e longo para ver as curvas. Lide com a vida no dia-a-dia, mas saiba que existe essa projeção (a morte) para o futuro”. Por outro lado, Ariano Suassuna, do alto dos seus 74 anos, diz – e eu ouvi – que não vai morrer e tem mais é que se preocupar em viver. E você?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2001

Sem categoria

LIÇÕES NÃO APRENDIDAS

No dia 14 de agosto deste ano, menos de 30 dias antes dos atentados aos Estados Unidos, o diplomata Sérgio Danese, autor do livro “Diplomacia Presidencial”, publicou, no Jornal “O Estado de São Paulo”, o artigo “As lições dos 13 dias de outubro”, baseado no filme americano “Treze Dias”, dirigido e estrelado por Kevin Costner.
O filme conta a crise dos mísseis entre os Estados Unidos e Cuba em 1962. Danese faz referência especial às lições que poderiam ter sido tiradas dessa crise, ocorrida no Governo John Kennedy, entre os dias 16 a 28 de outubro de 1962. Embora seja a ótica americana da crise, há um aspecto didático para reflexão dos governos que sucederam a Kennedy. Ninguém refletiu.
Que lições seriam essas?: 1) Confie, mas verifique; 2) quem decide deve ouvir opiniões conflitantes; 3) nunca negocie por medo, mas nunca tenha medo de negociar; 4) em muitas ocasiões em que tudo parece exigir pressa, vale a frase de Taleyrand: “é urgente esperar”; 5) quando estiver negociando, estabeleça quais os seus objetivos reais e não procure ganhos adicionais; 6) calce sempre os sapatos do seu adversário para saber como ele observa você; 7) nunca acue um adversário e sempre dê oportunidade dele salvar sua pele; 8) as decisões têm que ser legítimas e não amparadas pela força ou artifício político; 9) as recomendações para usar a força têm que pesar as suas consequências e implicações futuras; 10) a ameaça de uso da força nunca pode ser um blefe ou retórica; 11) “nenhuma ação se toma contra um adversário poderoso no vácuo”, já dizia Bob Kennedy; 12)não tente comprometer publicamente o seu adversário, nem negociar com ele pela mídia, sem antes convencê-lo privadamente; 13) “há vitórias que não se comemoram (Rio Branco).”
Essas lições, por nós adaptadas e ora repassadas, servem para todos nós, governados e governantes. Provavelmente, os atuais governantes não têm tempo para ver filmes. Não seria perda de tempo se vissem filmes, ouvissem músicas, lessem livros, conversassem com gente comum e não se restringissem às cerimônias previamente organizadas e ao que ouvem de seus áulicos e assessores. A distância do mundo real torna-os insensíveis. Este século – ou década? – parece que veio para nos mostrar isso.
Embora fora do contexto, é bom lembrar a alienação de Maria Antonieta ao ser informada em Versailles – na eclosão da Revolução Francesa – de que faltava pão para o povo. Na sua ignorância, que lhe valeu a cabeça na guilhotina, disse: por quê não servem brioches?
Quantas marias antonietas teremos hoje?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2001.

Sem categoria

BARBAS DE MOLHO

Uma boa parte da minha vida gastei andando pelo mundo. Já vi fausto e miséria. No primeiro, segundo, terceiro e quarto mundos, pois sociólogos e afins têm manias de qualificar e classificar pessoas, países, religiões, comportamentos etc.
Já escrevi – e publiquei – sobre os desatinos da humanidade e quem quiser é só reler o que disse muitas vezes. São centenas de artigos. Falo de pessoas, de lugares, do que me alegra e aflige no mundo. Nada de muito profundo, pois para isso existem os filósofos. Mas, dizia que já vi muita coisa.
Vou citar alguns exemplos: estive no Oriente Médio. Conclui e concluo, sem medo, que ninguém vai resolver a questão entre judeus e árabes com conversas de gabinete. É uma guerra cruenta, de áreas tão próximas como bairros de uma mesma cidade. Ao mesmo tempo, já há uma miscigenação entre árabes e judeus formando uma juventude atônita, filhos que são de uns e outros. A posição francamente favorável dos Estados Unidos a Israel é tão clara e visível que pode ter gerado ódios sem limites. Certos ou errados, os palestinos sentem-se violentados e clamam pó um Estado.
Fui ao Extremo Oriente e sei que a divisão artificial entre a China e Twain não tem nada a ver com a sua cultura milenar. São irmãos, divididos apenas por ideologias e interesses estranhos. Alguém precisa fazer algo para unir ideias, famílias e sentimentos, isto sem falar no Vietnã, Laos e Cambodja. São mais de um bilhão de pessoas e nós, do lado de cá, fazendo piadas sobre os dois pauzinhos.
Tenho falado da fome da África, da miséria que ali transforma crianças esquálidas em futuras estatísticas de mortalidade infantil, das doenças endêmicas, da Aids que ataca a quase todos indiscriminadamente e da corrupção de governantes que são manipulados por multinacionais ou pelos países líderes. A tudo vemos com indiferença nos telejornais, nas revistas e jornais que vemos, ouvimos e lemos todos os dias, enquanto fazemos regimes para não engordar. O que separa a África da Europa é apenas o estreito de Gibraltar.
A Europa, desde a da década de 50, vem sendo invadida por imigrantes em busca da sobrevivência. São tratados, até hoje, como pessoas de segunda e terceira classes, alimentando ódios imensos. Um exemplo: a Alemanha só reconhece como alemão alguém que tenha, pelo menos, pai ou mãe alemã. Milhares de turcos nascidos na Alemanha são estrangeiros no próprio país onde nasceram.
Deixei as américas para o final. Há dois países muito ricos: Canadá e Estados Unidos. Alguns poucos remediados e o restante, muito pobres. A produção e exportação de cocaína, as guerrilhas, a prostituição e a imigração desenfreada para os Estados Unidos são frutos da indiferença e da gestão de alguns políticos despreparados, populistas, desonestos e respaldados.
Ninguém deverá mais ignorar o pobre, quer more longe ou ao lado. Um dia ele poderá se rebelar. O fanatismo não é só decorrente de questões religiosas, mas, quem sabe, fruto do desespero de vozes que nunca foram ouvidas por uma elite surda. Querem um exemplo? leiam a página A23 do jornal Folha de São Paulo, do dia 18 de fevereiro deste ano, em que os países árabes condenam ação (bombardeio sobre Bagdá no dia 16.02.2001) dos EUA e do Reino Unido e prometem retaliar. Não acreditaram. Deu no que deu.

João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2001.

Sem categoria

CARTA PARA BIN E BUSH

Pode ser uma ideia meio sem pé nem cabeça, mas foi a que me ocorreu no momento. Escrever uma só carta para vocês dois. Vai pela imprensa, pois de um nem o endereço eu sei, aliás, tem muita gente querendo saber para ganhar 25 milhões de dólares. Do outro, embora saiba do endereço, creio que não lhe chegaria às mãos.
Vocês nasceram ricos, de pais importantes, mas falam em nome do povo e não se conhecem. Sei da inimizade violenta surgida e da argumentação de cada um. Foram, cada a um a seu modo e tempo, ficando intransigentes desde a consumação dos atos insanos, irresponsáveis e abomináveis do dia 11 de setembro passado.
Ouvi, há poucos dias, um ministro do Afeganistão dizer que não há provas contra você, Bin Laden. Ora, se você não é culpado, defenda-se. Use a ONU e a imprensa internacional como escudos. Mostre as suas razões. Se você é um homem de fé, não há porque se esconder. Allah, seu único Deus, certamente, o protegerá. Marque uma entrevista exclusiva com algum jornalista internacional famoso ou desafie o Bush para um debate.
Apareça e diga que os árabes, palestinos ou afins, passageiros dos aviões causadores dos sinistros, não eram seus seguidores. Prove isso. Diga também que os palestinos mortos no World Trade Center não faziam parte do seu grupo, o que será fácil.
Ouça o que Bush tem a dizer. Não precisa ser cara a cara. A mídia eletrônica pode produzir milagres em uma teleconferência, mesmo com a distância real e ideológica entre vocês. Eclodirá um grande mediador e as grandes de TV pagarão milhões de dólares que poderão ser destinados aos pobres. Haverá tradução simultânea e a humanidade poderá ouvir verdades, versões ou fatos.
Certamente, caro Presidente Bush, o senhor dirá, novamente, que não tem nada contra os palestinos. Transforme isso em atitudes, “permitindo” o surgimento do Estado Palestino. Faça mais, ouça o que o Bin tem a dizer. Depois, tome a atitude correta.
As famílias dos 6.500 mortos têm o direito de saber os nomes dos articuladores de tão hedionda tragédia. Os criminosos devem ser punidos, está na Bíblia e no Alcorão. Seria bom que vocês dessem uma lida em algumas de suas passagens. Sugiro que o Bin dê uma olhada na Bíblia e o Bush no Alcorão.
Deem uma chance à paz, não custar tentar. Parem de pensar só em guerra. Tem gente interessada nos negócios decorrentes de uma guerra, usam a honra como pretexto. Os bilhões de dólares poderiam ou poderão servir para acabar com a fome endêmica na África, acelerar pesquisas sobre doenças, hoje incuráveis, e gerar emprego e renda em todo o mundo, inclusive no Afeganistão.
Insensatez tem limite. Um novo dia 11 vem por aí e será bom que não seja o grande dia da vingança. Transformem esse próximo 11 no dia da verdadeira justiça, mas identificando, julgando e condenando os culpados. Só os culpados, ouviram?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/10/2001.

Sem categoria

O DESENHO DA LUANA

Luana tem quatro anos. É uma menina muito inteligente, um pouco tímida e observadora. No dia do ato terrorista nos Estados Unidos ela viu alguns noticiários de televisão. Foi para o quarto, apanhou um papel, lápis coloridos e desenhou uma grande torre. Cada espaço ou andar era representado por uma cor diferente. Colidindo com a torre pintou um simulacro de avião bojudo. Lá no pé da página vagões coloridos formavam um trem. Sua mãe pediu que ela assinasse o desenho. Ela recusou. Outros tentaram, sem êxito. Pode ter sido a tal da timidez, mas, por outro lado, talvez ela quisesse dizer que não legitimava o que vira e registrara, agregada à sua imaginação, no papel. É provável que o trem seja o comboio em que todos estamos metidos sem saber qual o destino.
Este fato me veio à mente, após ter conversado com alguns amigos que estão apreensivos com perguntas de filhos e netos. As perguntas mais repetidas: O que é uma guerra? Vai haver guerra? Guerra contra quem?
Os brasileiros vivos, na sua maioria, não sabem o que é uma guerra. A última participação brasileira em guerras foi de 1944 a1945, anos finais da Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, salvo o episódio da guerrilha do Araguaia, as nossas armas estão virgens de guerras, embora quentes de assaltos, sequestros, assassinatos e afins.
Como explicar, então, o que não entendemos. As guerras que conhecemos são as dos filmes americanos e as últimas, a partir da Guerra do Golfo, já televisionadas ao vivo. Somos, na verdade, expectadores passivos da brutalidade do mundo. Passivos em todos os sentidos: não participamos, tampouco nos indignamos, pois tiramos os olhos das atrocidades expostas nos jornais, revistas, televisão e fitamos a comida nas salas de refeições sem mudança de apetite.
Estamos pasmos. Sem saber explicar nada e mais ainda por não termos a coragem de assumir que todos somos culpados. Não adianta apenas culpar uma etnia, país ou grupos de fanáticos. Eles são produtos da nossa indiferença. Da desigualdade que plantamos com a nossa ambição desmedida, em busca de status que não leva a nada, da morte da comiseração e do amor ao próximo. Somos, quase todos, centrados em nossos umbigos e não vemos um palmo adiante dos nossos narizes. O mundo tem mais de 6 bilhões de pessoas. Metade vive em miséria quase absoluta. A outra metade pouco se dá conta disso e nada faz para tornar o mundo menos injusto. Fome, doença, desemprego e desengano não são problemas dos outros. São mísseis que atingem ou atingirão os indiferentes.
Cada um pode e talvez deva travar uma guerra íntima, sem testemunhas, a não ser a sua própria consciência, para descobrir o quanto estamos perdidos e errados. Antes de fazermos acertos de conta com os nossos algozes, temos que apascentar as nossas consciências, perdidas que estão pela ausência de valores essenciais. Nessa hora, quem sabe, o trem de nossas vidas possa ter um bom destino.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2001.

Sem categoria

A GÊNESE DO CAOS

Se eu pudesse puxar o leitor através do tempo, bem que o puxaria de volta ao princípio dos anos 60 e mostraria a exuberância dos Estados Unidos e de seu jovem Presidente John Kennedy. Veríamos, em seguida, sua morte inexplicada até hoje, a do seu irmão Robert, a do suposto matador Lee Oswald e a do matador do suposto matador, Jack Rubin.
O tempo voou, passamos o ano de 1984, emblemático pelo conteúdo catastrófico do livro homônimo de George Orwell. Os computadores saíram de sua pré-história para as loucuras visionárias de Artur Eduardo Benevides, um poeta que, sem saber, estava se transformando no cavaleiro do Apocalipse cibernético ao escrever o conto futurista “A revolta do computador”.
Hoje, alguém bem-dotado de inteligência, pode furar o bloqueio de sistemas de defesas de instituições financeiras, países, organismos internacionais, empresas e fazer misérias com a humanidade. Para que isso não acontecesse precisaria que, do outro lado, existissem pessoas igualmente inteligentes, com elevado senso de justiça e humanitarismo, tivessem o poder de estabelecer limites barrando as pretensões de países e grupos econômicos que já não sabem mais fazer distinção entre 100 ou 200 bilhões de dólares. São meros números que retratam o poder, nada mais que isso, pois desprovidos de significado maior por não gerarem empregos, mitigarem a fome, eliminarem doenças e tampouco diminuírem as desigualdades tão vis do mundo.
Parece que os quocientes de inteligência dos líderes da humanidade são, na verdade, menores que dos “hackers” e dos terroristas, desafiadores da ordem estabelecida, sem compromissos de ordem ética ou pretensões de justiça. Agem por desatino ou mera vingança. O que aconteceu ontem nos Estados Unidos ainda não pode ser entendido em toda sua profundidade. Forçoso é, entretanto, associar essa loucura inominável ao desespero de minorias que não acreditam mais em saídas para a humanidade. A conferência de Durban, na África do Sul, que pretendia ser um libelo contra o racismo e a discriminação passada e atual, foi esvaziada pelo poder dos mais fortes que tudo querem e nada dão em troca.
A hegemonia dos Estados Unidos pode ter gerado em países ou etnias de índole terrorista o estopim desses atos tão brutais quanto insanos. É muito cedo para saber os desdobramentos de tão graves acontecimentos, mas ainda não é tarde para revermos os valores da sociedade, especialmente de suas elites dirigentes, encasteladas em um mundo em que as pessoas são meros eleitores, consumidores ou excluídos, esquecendo-se que os ressentimentos e as humilhações sofridas podem ter fomentado essa malta de terroristas que hoje, graças à evolução da informática, quebra sistema de defesas e provoca o caos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2001.

Sem categoria

INDÍCIOS

Neste país em que muitos estão desanimados pela crise estrutural, corrupção, falta de perspectivas profissionais ou existenciais, criou-se um clima de denuncismo, fofocas, suposições, indícios, aliados, ainda bem, a uma ação firme e decidida do Ministério Público. Paralelo a isso surgiu o jornalismo investigativo a mostrar fatos, mas que não deve pré-julgamentos. Cada leitor ou ouvinte fará sua própria leitura. Há transformações e ganhos sociais, pois os poderosos estão sentindo, afinal, que são pessoas semelhantes às outras, sujeitas a responder por seus delitos. Pode ser o começo do fim da impunidade.
É preciso entender, entretanto, que não bastam notícias em um canal de televisão ou em página política, social ou policial para condenar uma pessoa. Faz parte de uma leitura correta dos direitos humanos a ampla defesa a todos.
O direito moderno contempla o acusado, posteriormente absolvido, até com a possibilidade de, em alguns casos, arguir reparação por danos morais causados à sua pessoa, contra quem, levianamente, o tenha incriminado. Todos precisam saber do óbvio, quem julga é a justiça. É elementar saber disso. A sociedade pode pressionar, mas a ela não cabe julgar.
Nós todos somos, algumas vezes, levianos na análise de casos ou de pessoas a quem não conhecemos de perto. Somos alimentados não por fatos, mas por conversas, suposições, interesses, emoções, invejas, fofocas ou indícios. Mas, a propósito, o que é mesmo indício?
Nem tudo que parece, é. Poderia citar muitas frases parecidas com esta. Basta uma para dar o mote necessário ao exame do que seja indício. Quem passou por uma Faculdade de Direito tem a obrigação de saber o que significa a palavra indício.
Ela vem do latim “indicium” e é um sinal, uma referência, um vestígio, uma indicação aparente e provável de que uma coisa ou um fato ou ato deve ser apurado. No Direito Penal, por exemplo, os indícios podem levar à elucidação de um crime.
Não se deve esquecer que uma coisa aparente pode não ter essência ou sustentação que comprovem um fato, servindo apenas como detonador de uma investigação que careça de fundamentação. Às vezes, a emoção natural, pois humana, de quem possa vir a conduzir um inquérito na fase policial e precisa, por dever de ofício, dar satisfação à sociedade e ao ordenamento jurídico, prejudica ou compromete o futuro destino do processo aberto.
O que deve ser provável, isto é, ter provas, é responsabilidade de quem acusa. É elementar, em direito, que “o ônus da prova é do acusador”. Há uma outra tese: ninguém pode ser considerado culpado até que a justiça assim o determine. O que distingue o trabalho do advogado dos outros profissionais é que ele precisa convencer um juiz singular ou um tribunal de que o seu cliente não é culpado ou inocente. Os outros profissionais, quase sempre, se consideram donos da verdade e não sofrem contestação. Por isso o direito é tão bonito, quanto complexo e mal compreendido.
Qualquer estudante de direito aprende, desde cedo, que a riqueza do contraditório, ou seja, duas proposições necessariamente opostas, em que uma nega a outra, é que fornece ao juiz, além dos indícios e provas, os elementos para a sua sentença. Ao Estado, através da Justiça, como guardião da sociedade, cabe a indução e condução de todo o processo até o deslinde final.
Um processo pode ser gerado só por indícios, mas nem todo processo leva à condenação. E, mesmo quando gera uma condenação, há casos, na história, de erros judiciais famosos que tiveram base apenas em indícios fortes e o tempo demonstrou isso. A pena de morte, por exemplo, foi abolida no Brasil por um desses casos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2001.