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ADAUTO E HUMBERTO BEZERRA, 90 ANOS – Jornal O Estado

A vida é longa se é plena (Longa est vita, si plena est) – Sêneca, filósofo romano, 4 a.C -65 d.C.
No tempo em que (José) Adauto e (Francisco) Humberto Bezerra nasceram, a medicina não discutia sobre gemealidade, visigóticos ou univitelinos, tampouco havia reprodução assistida.
A natureza corria seu curso quando, em uma quinta-feira, 3 de junho de 1926, Juazeiro recebeu os saudáveis gêmeos, filhos de José Bezerra de Menezes e Maria Amélia Rodrigues Bezerra. Um pouco além, no Crato, surgia o “Caldeirão dos Jesuítas”.
Juazeiro era cidade pequena – emancipada em 1911 pelo prestígio e luta de Cícero Romão Batista e de Floro Bartolomeu. – com apenas 15 anos e pouco mais que arruamentos de casas (“cada casa, uma oficina, cada oficina, um oratório”) com praça, feira, igreja e fé, muita fé.
Padre Cícero misturava religião com política. Já havia sido, por duas vezes, vice-governador do Ceará, e prefeito por 15 anos da cidade que criara do nada Ele saíra do Crato, 1m 1872, para formar uma urbe cujo principal desiderato era a fé. Sua área física definitiva ficou em 249km². A proximidade com outros núcleos populacionais poderia asfixiá-la. Entretanto, a cidade foi crescendo, tal como Adauto e Humberto.
A família de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva, fugida das polícias e milícias de todo o Nordeste, fincara, com apoio do Pe. Cícero, casa em Juazeiro desde 1923 e ali permaneceria até 1926. Pretendia se unir ao “Batalhão Patriótico” comandado por Luiz Carlos Prestes, o que não aconteceu.
Os Bezerra de Menezes foram o primeiro pilar empresarial da cidade, em contraponto com a face religiosa implantada por Cícero. Adauto e Humberto de lá saíra e concluíram os cursos na Academia Militar das Agulhas Negras, em 1949.
Esse ano abre o horizonte dos dois irmãos que, juntos, trafegaram, como oficiais, pelas casernas, sem nunca esquecer o pastoreio da área empresarial, criada por seu pai, a partir do algodão e da sua tecelagem, tampouco deixar de lado a política, entranhada à família que, pouco a pouco, assenhoreava-se das lides locais após o falecimento de Cícero Romão Batista, em 1934.
Agora, neste 2016, pode-se dizer que os gêmeos José e Francisco, Adauto e Humberto, os irmãos Bezerra, os coronéis, são dois cearenses distinguidos nos diversos caminhos que trilharam nas áreas militar, política e empresarial.
Este artigo não é elegia, mas registro histórico feito por quem não é íntimo dos dois irmãos, nunca os acompanhou politicamente e sequer obteve préstimos em suas atividades como banqueiros.
Faço-o por cidadania e pela certeza de que suas múltiplas atuações no Ceará resultam vitoriosas, e com longo curso.
Agora, nonagenários, não param de empreender, por eles mesmos ou por seus sucessores, mas não conseguem viver sem se enfronhar na seara política, mesmo sob a figura de conselheiros de muitos nestes tempos de incertezas.
Políticos deram, de forma objetiva, as suas contribuições para o crescimento da “Joazeiro” natal e do Ceará, como parlamentares e dirigentes do executivo estadual.
Foram sempre o que são, não mudaram de rumo, mas, para surpresa de muitos, negociaram, há poucos anos, o seu banco com um grupo empresarial comunista da China. Isso mesmo, a China, de Mao Tsé Tung no poder, em 1949, depois decaído, e, agora, como a segunda potência econômica do planeta.
São as artimanhas deste mundo complexo, em que comunistas possuem empresas e já sentaram praça no Brasil, onde se tentacularam em áreas singulares, como bancos privados. Negócio é negócio. Ideologia é fundamento.
Hoje, sexta-feira, 3 de junho de 2016, com largueza e vitalidade, os irmãos Adauto e Humberto, baobás familiares, acolhem amigos e a sociedade cearense para, juntos, brindarem a sua entrada na gaudiosa senda de nonagenários produtivos e antenados. Parabéns.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/06/2016

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JOGOS DE PODER – Jornal O Estado

“Se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”. Abraham Lincoln
Em 2014, o Brasil mostrou-se ao mundo com estádios novos e alguns reformados. Vias de acessos remodeladas e algumas novas. Tudo deveria seguir os cadernos de encargos e as regras da – FIFA – Federação Internacional de Futebol Association.
A palavra association é para dizer, no jargão inglês, tratar-se de esporte coletivo jogado com a bola no pé, diferente do futebol americano. Este possui outras regras, a bola por ser conduzida com a mão e há outras medidas de campo. Nos Estados Unidos o nosso futebol é chamado de soccer.
A FIFA tem sede na Suíça, onde quase não se pratica futebol. Serviu, durante grande parte do século 20 e os primeiros 15 anos do 21, para enriquecer dirigentes, assessores e presidentes de confederações continentais e nacionais, espalhadas mundo afora. A FIFA orgulhava-se de afirmar possuir mais membros que a Organização das Nações Unidas-ONU.
Mexe daqui, mexe dali, pouco a pouco, foram sendo aclaradas as múltiplas falcatruas e arranjos que essas entidades do futebol faziam seu “Road show”, que mudam de país a cada quatro anos e envolvem longas conversas com governantes e precisam mostrar exuberância, mesmo o caos estando por perto.
Governantes usam campeonatos continentais e mundiais de futebol para propagandear os seus países perante o público externo e, em critérios internos, distribuir obras para empresas amigas. A África do Sul é só um exemplo.
Em outras palavras, as Copas do Mundo servem para projetos de poder. Agora, neste mundo novo, não o de Aldous Huxley, com a descoberta de liames tão óbvios a alguns, mostrou-se a face crua da FIFA com bilhões de dólares desviados. Há casos absurdos, ao redor do mundo, de estádios suntuosos em cidades de pequeno porte que sequer possuem efetiva liga de futebol.
Se mudarmos o nome da FIFA para o do COI – Comitê Olímpico Internacional, veremos quase o mesmo enredo, apenas com atores diferentes. O Brasil, novamente, entrou nessa ficção e impôs o Rio de Janeiro como a sede das Olimpíadas de 2016, agora em agosto. Segundo a última pesquisa Datafolha: 50% da população é contra a realização e 63% acreditam em mais danos que alegrias ao Brasil.
A Casa da Moeda, em desvio de finalidade, foi a bafejada produtora das medalhas, com tecnologia, desenhos, metais, adornos, fitas e caixas pagos pelos contribuintes brasileiros. Na confusa política brasileira acontecerá o ineditismo de termos dois presidentes da República e dois governadores do Rio, um interino e outro, licenciado.
Uma candidatura à presidência pode surgir do êxito dos eventos. Certamente, tal como no período da Copa de 2014, haverá um acordo de cavalheiros entre as facções delituosas, que avultam nas margens de quem chega ou vai para o Aeroporto do Galeão, para não comprometer a interinidade do governo estadual, a quem compete em primeira instância, cuidar da Segurança Pública.
Em setembro, se tudo correr bem, os atletas do Brasil portarão algumas premiações em ouro, prata e bronze, mas estaremos, com certeza, no cômputo geral de medalhas, muito aquém do grosso dos países europeus e de alguns asiáticos. Quiçá, Cuba não nos ultrapasse.
Com os bilhões de reais gastos na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas 2016, o Brasil poderia sair dos 48% de esgotos sanitários para mais próximo dos 100% que nos tornariam livres da Zica, da Chicungunha, da Dengue e das demais doenças endêmicas.
Agosto não tem bom recall na recente história política brasileira. Alguns chefes de Estado poderão não vir ao Rio por recomendações de suas diplomacias. Afinal, a quem se apresentarão e trocarão as formalidades de praxe?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/07/2016.

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DOUTOR RODRIGO – Diário do Nordeste

Prédio velho da Faculdade de Direito da UFC. Agora, seria a sessão de defesa de doutorado do mestre Rodrigo Uchôa Paula, presidida pela professora Denise Lucena Cavalcante. Examinadores: professores Roberto Martins Rodrigues, Martônio Mont´Alverne, Hugo de Brito Machado Segundo e André Studart. Ouvi, com atenção e respeito, a explanação cônscia, rica, brilhante e contundente do examinando Rodrigo.
Ele, jovem trintão, possui profundo conhecimento da ciência do direito, além do obrigatório Constitucional, auxiliado por memória privilegiada e pensamentos próprios. Foi revolvendo os pactos dos poderes institucionais surgidos pós­Revolução Francesa. Passeava por bibliografia multilíngue que não o inibia e manejava bem o seu trabalho com mais de 200 laudas. Ora era filósofo, ora jurista, permeando a ontologia e a epistemologia, sem esquecer ­se de apontar algo inusitado para merecer o grau de doutor. E o fez com o respaldo de pensadores de pátrias e formações distintas.
A ideia nova, já consagrada em outros países, seria o imperativo de criação de um Tribunal Constitucional no Brasil, posto que, para Rodrigo, o STF “por não ser a instituição mais adequada” nestes tempos de “judicialização da política”, impõe mudanças. Sabatinado pelos 5 examinadores, Rodrigo se houve com saber, provocando risos da banca pela incisiva defesa de sua tese. De lá saiu Doutor em Direito Público. Com mérito. Ao sair, recordei ali ter passado quase 7 anos. Parte, em inconcluso doutorado. Gizela Nunes, colega, Paulo Bonavides e Roberto Martins Rodrigues, professores, sabem da história. Não há registro. “Tempus fugit”.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2016.

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ESCREVER É FÁCIL? Diário do Nordeste

Dia desses li artigo escrito por um Ph.D. O artigo deveria ter o dobro de palavras deste. Além de Ph.D., o autor coordena curso de ensino superior, de alta credibilidade no Brasil.
O tema, não importa. O fato é que, essa palavra ora escrita, repetia-­se por mais de 40 vezes no texto.
Acredito haver sido a exaustão de outras tarefas ­ e até o descuido com a revisão ­ a causa de tantos “que” no texto. Apesar disso, o texto passou a mensagem ao leitor.
Fiquei em dúvida, mas resolvi passar um e-mail relatando o fato. Não me respondeu. Pode não ter recebido.
Pode imaginar ser “inveja” o meu relato. Aproveito para citar definição apropriada de inveja, a do escritor Zuenir Ventura.
“Inveja é não querer que o outro tenha”. Não seria o caso. Apenas o alertei. Qualquer leitor pode alertar-­me de erros, omissões e equívocos. Claro, os cometo.
Não tenho a pretensão de escrever certo, mas o desejo de passar aos leitores a análise de fatos ou ideias, a razão de ser deste espaço semanal, neste prestigioso jornal Diário do Nordeste.
O compositor e cantor Chico Buarque, em uma de suas composições, escreveu “num país”. Ele mesmo falou ser opção estilística.
Assim, neste tempo de “likes” e de internet aberta para qualquer um dizer isso e aquilo, não é fácil seguir a regra culta da tão rica e complexa língua portuguesa.
Termino com uma ‘pérola’ do Paulo Coelho: “Ame como a chuva fina. Que cai em silêncio, quase sem fazer notar, mas é capaz de transbordar rios”. E é?

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2016.

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PORTUGUESES SILENCIAM A MARSELHESA (GRAFIA CORRETA) – Jornal O Estado

Sou João, igual a meu avô paterno, Soares. Esse nome vem de longe. Desde o século 12. Começou com outro João Soares, esse de Pávia, nome de rio e lugarejo ao norte de Portugal. Esse João Soares foi poeta/trovador, considerado, por muitos, como o precursor da literatura galego-portuguesa. Poderia, tal meus irmãos, ter sido Caminha, ou, como meus avós maternos, Saraiva e Monteiro. Em verdade, digo, o que importa não é o nome, nem a sua origem. O que dá sentido aos nomes é o alvitre das nossas vidas, hoje. Não o dos ancestrais.
Esse parágrafo acima é para falar da descendência portuguesa, tão humilhada nos últimos tempos, pela migração como alívio para o pequeno país ibérico que, no século 16, tornou-se o grande descobridor, dono de novas terras e de novos caminhos para o mundo que saía da Idade Média.
No começo do século 20, tais quais nordestinos, portugueses passaram a migrar em busca de novas oportunidades. A França foi um desses destinos. Depois, nos anos 1940 e 1960, novas correntes migratórias inundaram os países tidos como ricos na Europa Central. Entre eles, a França.
Hoje, moram em França 600 mil portugueses genuínos, quase todos ocupando funções subalternas como porteiros, pedreiros e empregados de hotel. Esses velhos ou quase velhos, 600 mil têm famílias, e delas surgiram filhos de portugueses que, juntos com os ascendentes, devem somar mais de um milhão de pessoas. Entre elas, há importantes figuras políticas, empresários bem-sucedidos e cientistas renomados.
Domingo passado, no Estádio da França, em Saint Denis, completamente lotado, entre os 75 mil espectadores havia um bom espaço povoado por portugueses, vindos de todas as partes da Europa. Decidia-se a Eurocopa, um bilionário campeonato de futebol com transmissão simultânea para dezenas de países.
Portugal vinha de campanha nutrida de empates, vitória apenas em prorrogação, e era candidato a vice, pois a valorosa equipe gaulesa, com todo o apoio dos seus torcedores, inclusive a presença de François Hollande, Presidente da República. A França cantava de galo, o símbolo aposto em suas camisas azuis. Entoavam alto a Marselhesa, o seu hino de louvor à pátria.
Era noite de domingo, 10 de julho de 2016. Despontavam, nas duas seleções, descendentes de emigrados de antigas colônias africanas. Pois foi um desses, Eder, o herói da partida, homônimo do nosso boxeador Éder Jofre, exato aos 11 minutos, na segunda etapa da prorrogação, quem pôs a França em “Knockout”. Ele entrou, saído do banco de reservas, para a glória, essa volúvel palavra e sensação que atrai vaidades. Poderiam ser outros, pois, repito, em ambas as seleções pululavam filhos de africanos.
O fato é: Portugal venceu. O futebol prega peças, iguala os diferentes em átimos de talento, lampejos de força e de descortino. Assim, de fora da área, saiu o golo, na versão lusa, que daria o primeiro grande título internacional a Portugal. A França já fora bafejada, vezes sem conta, pela volúvel glória.
A Família Real portuguesa, em 1808, com medo da França e de Napoleão fugiu para o Brasil. Agora, neste 2016, de forma pacata, mas varonil, Portugal demonstra, em Paris, de forma esportiva, a vez dos pequenos.
Para o Senhor dos destinos, Cristiano Ronaldo foi liberado do jogo, ao se contundir. Bastavam os demais, não tão famosos, mas briosos. Como diz estrofe do Hino Português: “Levantai hoje de novo/ o esplendor de Portugal”.
Nota: Este artigo foi publicado no dia de ontem, quinta, 14 de julho de 2016, edição em papel do “Público”, de Lisboa, um dos mais bem referidos e lidos jornais de Portugal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/07/2016.

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TRISTE BRASIL – Diário do Nordeste

O Brasil possui, hoje, quase 12 milhões de desempregados. Se erro houver, não me culpem. Escrevo o que leio e ouço. De cada dez desempregados, um entra em depressão. Entre os sem emprego, 1,2 milhão estão abisonhados, desiludidos e sujeitos aos efeitos dessa doença danosa.
Este País é um paradoxo. A soma dos desvios já sabidos, apenas neste século, nos colocaria, se bem utilizados, em outro patamar. Aqui ao lado, Peru e Chile mostram como deve um país passar de exótico a lógico.
O economista e filósofo mineiro Eduardo Gianetti derivou da análise economicista para, em reclusões filosóficas, procurar entender o País. O seu último livro, “Trópicos Utópicos”, pode não ser novidade, mas releitura contextualizada.
O belga Claude Lévi­Strauss, em 1934 foi professor pioneiro de sociologia da novel USP. Anos depois, em 1955, o seu livro “Tristes Tópicos” narra viagens ao interior do Brasil e sua vivência com índios. Vai além, ao estudar o Islamismo em cáusticas lições escritas. O mau humor seria por não haver chegado ao “Collège de France”.
Agora, mudam­-se tristes para utópicos, na análise de Gianetti: “Ao juízo da fria métrica ocidental, o Brasil, se não chega a ser um malogro, não passa de um país medíocre: nossa contribuição à história da ciência e da tecnologia modernas -­ assim como à filosofia e às humanidades -­ resume-se a uma dispensável nota de rodapé”.
Considero séria e pessimista a fleuma das conclusões dele. Mesmo assim, creio neste País, que se vê logrado por, entre outras razões, não separar o público do privado. Feito isso, decolaremos.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2016

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JOHN GAY, WEILL, BRECHT E A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS – Jornal O Estado

“O ritmo tem algo mágico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence”. J.W. Goethe(1749-1832), em Máximas e reflexões, XIII, 6.
Esta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de música já ouvida, por mim, tantas vezes. De tão ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobiá-la. Ela ficou na minha cabeça e decidi revolver um pouco mais de sua história, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das inúmeras quantidades de intérpretes que, através dela, fizeram sucesso.
“The Beggar´s Opera” (A ópera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto épico, revolucionário, conta a miséria e a situação crítica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de então. Para se livrar de questões, a Itália foi usada como o pretenso local da ópera.
Damos um pulo ao começo do século 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda não famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alemães. Eles transformam a obra de Gay, na “Die Dreigroschenoper” ou “Ópera dos três vinténs”.
A letra de Brecht produz um anti-herói, Mackie Messer, vilão consagrado, bígamo, charmoso, metido com polícia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro país. Elege a Londres de então, com misérias, igualmente, como pano de fundo para contar as injustiças sociais decorrentes da implantada Revolução Industrial.
A canção “Mackie Messer” virou “Mack, the Knife” ou Mack, o facão ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do século passado, pelos americanos. Tantas foram as traduções do original, quanto os intérpretes, a partir de Louis Armstrong, na versão de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, até o Michael Bublé ousou cantá-la do seu jeito e modo. O sucesso, como peça, nos Estados Unidos, em New York, começou fora da Broadway, mas virou enxame.
Depois do acontecimento vieram outras adaptações para mais de 18 línguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como “Ópera do Malandro”, que teve êxito como música, peça e filme. A história, lógico, é apoderada e abrasileirada na música “Malandro”, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da criação de Weill e Brecht. Chico age com liberdade poética. Contextualiza a sua história no Brasil pré-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente.
Os leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recordação de música com quase 100 anos de composta, podem procurar – facilmente encontrarão – as muitas versões de “Mack, the Knife”, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, também entoaram a versão brasileira de “Mack, the Knife”.
Glória, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na ópera original de Gay os vieses sociais, políticos e revolucionários. No compasso lento emerge, de soslaio, uma história sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer versão.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2016.

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PERDAS SENTIDAS – YOLANDA QUEIROZ, IVENS DIAS BRANCO – Jornal O Estado

A morte, independente da crença, do agnosticismo ou do ateísmo das pessoas é ainda, para não fugir ao lugar comum, mistério. Pensadores, não os mais recentes, debruçaram-se sobre o fim da vida. Cito dois para mostrar o impacto quando alguém está próximo do fim ou quando se disserta sobre a morte.
Sêneca, sempre citado, foi coevo de Cristo. Ele, em “Cartas a Lucílio”, afirma: “Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte”.
Em contraponto, o escritor francês L-F. Céline, morto em 1961, destoa: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento”. Mas faz ressalvas, logo em seguida: “Outras começam a morrer e a se ocupar da morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”.
Recentemente, no curto espaço de uma semana, perdemos duas pessoas que viveram até o último momento. Yolanda Vidal Queiroz e Francisco Ivens Sá Dias Branco foram combatentes ao longo de suas vidas.
D. Yolanda, em 1982, perdeu o marido, o empresário Edson Queiroz, de forma abrupta. Abatida, mas não desistente, apegou-se à fé que possuía e, em pouco tempo, com a parceria da família e o seu primogênito Airton José Vidal Queiroz, a lhe dar força e o ombro, tomou jeito e gosto para a sua nova, longa, árdua e vitoriosa caminhada.
D. Yolanda comandava o Grupo Edson Queiroz-GEQ que tem como joia da coroa a Universidade de Fortaleza. Afora a Unifor, a partir do escritório do seu pranteado marido, transformado em relicário, D. Yolanda dirigia um complexo empresarial que se dá ao luxo de ser fechado. Sem espaço para IPO ou abertura de capital. Ela sabia o que acontecia, em âmbito nacional, nas suas áreas tentaculares de comunicação, distribuição de gás, fábrica de eletrodomésticos e forte presença agropecuária.
O GEQ representa hoje a doçura e a tenacidade de D. Yolanda aliada à meticulosa alma profissional e sensibilidade do filho Airton compor o mundo pelas versões multiformes do paisagismo e da arte espraiada na Unifor. A par disso, emergem a energia e as possibilidades da terceira gestão.
Na missa de 7º. Dia de D. Yolanda, a neta Joana falou: “Minha avó sempre foi o centro de nossa família e ainda vamos ter que aprender a viver sem sua referência fisicamente conosco”.
Ivens, desde cedo, foi companheiro de seu pai, o panificador português Manuel Dias Branco, vitorioso no interior do Ceará e de lá para Fortaleza. Já industrial de sucesso, Manuel, com saudade da terra mãe, transfere ao jovem Ivens, em 1953, o comando de uma emergente indústria.
A partir daí, a desenvoltura foi a práxis da M. Dias Branco e da Idibra que, ano após ano, cresciam e mereciam o reconhecimento da sociedade do Ceará e do Brasil. A citação de Ivens entre os bilionários brasileiros na lista anual da revista “Forbes” não é uma contraprestação de favor, mas reconhecimento que se consolidara em pouco mais de 60 anos de sua gestão, sempre espartana.
Para os que não sabem, Ivens era viajor e leitor qualificado, curioso, com olhar de “insider” empresarial ao identificar, implantar e equilibrar em sua balança empresarial atividades distintas, como empreendimentos imobiliários, fábrica de cimento e moinho de trigo, ao seu “core business” de líder nacional na área de massas e biscoitos.
Sempre ligado à família, já na terceira geração, lutou como fazem os fortes surpreendidos por doenças graves. A discrição, o arrojo e a organização eram as suas características basilares, aliadas ao bem fazer aos seus colaboradores acometidos por males do bolso, do corpo ou da alma. Suas empresas, consolidadas, continuam fortes e antenadas sob o olhar capaz do predefinido sucessor, Ivens Jr., coadjuvado pela família.
Ambos, Yolanda e Ivens, profissionalizaram as diversas empresas que compõem os seus distintos grupos. Tiveram o discernimento de, no tempo devido, auscultar familiares, diretores e consultores externos para dar formatação e continuidade aos complexos meandros de suas organizações que compõem a dura vida empresarial brasileira. Filhos e netos cresceram vendo exemplos, a forma mais próxima da verdade de educar e de dar sentido ao que se faz por destino, amor e coragem.
Às famílias Queiroz e Dias Branco, o meu pesar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/07/2016.

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REVISITA À PESSOA – Diário do Nordeste

Os que fizeram a universidade nos anos 1960/1970 elegeram Fernando Pessoa (1888­1935)como o poeta a ser lido e estudado. Ele e os seus heterônimos. Preciso dizer que optei por Bernardo Soares: “sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças”. A colega Maria Luiza Rodrigues e eu passávamos horas lendo a edição, em papel bíblia, do esquivo poeta lusitano.
Pessoa, após a morte do pai, acompanhou a mãe que emigrou ­ e casou, novamente ­para a África do Sul, na cidade de Durban. Em África, Pessoa fez o curso secundário e aprendeu o inglês que usou como tradutor e publicitário, já em Lisboa. Em julho de 2015, os filhos do pesquisador inglês Hubert Jennings, morto em 1992, resolveram o que fazer com o espólio cultural do pai, especialista em Pessoa, com pesquisas “in loco” dos arquivos do vate, antes de terem ido parar na Biblioteca Nacional Portuguesa.
O acervo de Jennings foi doado à Brown University, nos Estados Unidos. A Brown concentra estudos sobre literatura portuguesa e publica a Revista “Pessoa Plural”. Entre os arquivos, foi encontrado o livro inédito de Pessoa “The Poet of Many Faces”, em inglês.
Soube por Maurício Meireles, FSP, C3, agora em 16 de janeiro. São destacados como “pessoanos” o argentino Patrício Ferrari, o brasileiro Carlos Pittela­Leite, o mexicano Octavio Paz e o italiano Antonio Tabucchi.
Para mim, “A Tabacaria” e o “Livro do Desassossego” são o cume de Pessoa que, exangue, disse, em inglês: I know not what tomorrow will bring (Eu não sei o que amanhã trará).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/2016.

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ADAM SMITH, O AUTOINTERESSE, A SIMPATIA, DAVOS E A DESIGUALDADE – Jornal O Estado

A Escócia, parte do Reino Unido, é país bonito, frio e com um inglês bem peculiar, falado pela gente culta, tomando uísque ou cerveja, e até pelos comuns mortais. No século 18, não existia energia elétrica, as estradas – ou caminhos – enlameavam quando das chuvas e petrificavam de gelo nos invernos.
A parca calefação era preocupação individual, e sequer havia sido inventada a máquina de escrever. As folhas de papéis, as canetas, os tinteiros e os mata-borrões, afora os livros próprios e os de bibliotecas públicas, eram os únicos recursos de que se serviam os escritores de então.
O escritor múltiplo Adam Smith, filósofo e cientista político, nasceu por lá nesse tempo e, mesmo assim, neste século 21, ainda é referência para ser negado ou elogiado. Não há como negar que ele foi estudioso e queria deixar obras que mostrassem a sua preocupação com a humanidade.
Sua obra capital, publicada em 1776, “Uma Investigação Sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações” ou, simplesmente, “A Riqueza das Nações”, é considerada a referência basilar do regime capitalista. Essa obra, uma maçaroca de cinco partes, deveria ser conhecida melhor pelos economistas ortodoxos, heterodoxos, econometristas e outros que tais. “Conhecida” é distinto de “folheada”.
No meu pensar, Smith possui obra que considero mais importante para os humanos, espécie da qual os econonistas fazem parte. “A Teoria dos Sentimentos Morais” foi escrito em 1859 e trata da moralidade humana que, segundo ele, depende da relação de simpatia entre um indivíduo e o restante da sociedade. Ele faz distinção entre simpatia e “autointeresse”, que tomo a liberdade de traduzir como ganância.
Essa digressão histórica como Adam Smith poderia ser estendida a Karl Marx e a Friedrich Engels, mas é apenas caminho para se chegar nesse janeiro de 2016.
Esta semana, na cidade de Davos, Suíça, reuniram-se a burocracia financeira, governos biliardários e supostas cabeças pensantes do mundo, no Fórum Econômico Mundial. Reúnem-se e se desentendem cada vez mais, pois falta a “simpatia” de que falava Smith. Sairão de lá e nenhum país relevante mudará uma vírgula da sua estratégia. Os outros, que vão lá fazer número, voltam fazendo declarações à imprensa que, cá para nós, acha interessante visitar essa pequena e rica cidade suíça em pleno inverno.
Toda a mídia noticiou, na semana passada, que uma organização não governamental, com sede no Reino Unido, a Oxfam, afirmou que, neste ano de 2016: “62 pessoas possuem tanto (capital) quanto a metade mais pobre de população mundial”.
A Oxfam acredita ainda que o patrimônio acumulado por 1% das pessoas mais ricas do mundo superará, em 2016, o dos 99% restantes. Entrei no site da Oxfam e descobri que ela tem ramificações em 94 países e possui como objetivo a luta pela extinção da pobreza e tornar consciente que cada pessoa deve lutar por seus direitos. Algo assim.
Não sei como foram feitas as contas, se os dados são confiáveis, mas não há como não enxergar a existência de uma grande parcela mundial pobre, para não dizer miserável. Essas 62 pessoas, até o final deste ano, poderão ser donas de 50% de todos os recursos do mundo. Como já foi dito na reunião do ano passado, na mesma Davos, há uma explosão de desigualdade que entrava o duelo contra a pobreza mundial. “A escala da desigualdade é chocante”, afirmou a diretora executiva geral da Oxfam Winnie Byanyima. Descobriram a pólvora. As armas estão no Oriente Médio.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2016