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SEDEX PARA DILMA – Diário do Nordeste

Antes de sua primeira eleição, participei de encontro em que você expunha a postulação. Sua fala não foi boa. Acreditava ser o seu sistema nervoso. Muitos tiraram fotos com você.
Fiquei longe: será ela preparada? Sabia, por leitura, da sua participação ativa em movimentos e aparelhos. Sabia até que ficara amiga, quando presa, da cearense Rita Sipahy, irmã do Aytan, meu colega de escola.
A Rita, advogada, e o Aytan, médico em São Paulo, nunca foram do mal. Assim, concluí, por inferência: você era alguém que, jovem, acreditava em mudar o Brasil. Depois, todos sabem, foi eleita e reeleita. O País parou. O seu partido, o PT, surgiu como algo novo. Carta de princípios, austeridade, intelligentsia, fim do patrimonialismo etc. Quimeras. Agora, começo de 2016, dou sugestões. Não tenha medo de impeachment. Aja para acabar com todos os “malfeitos”. Afinal, quanto custa aos empresários o sistema “S” e as centrais sindicais para os empregados? Para quê?
Por que a Caixa, a Petrobras, o Banco do Brasil, o BNB e outros órgãos queimam bilhões em patrocínios “culturais e esportivos” questionáveis? Por que o BNDES empresta a quem não precisa e a outros países? Acabe com o aparato em suas viagens. Você era simples, volte a ser. Mordomia vicia.
Quem é pobre, poupa. O Brasil é pobre. Sem esgotos: zika. Diminua o número de ministérios para 17, o total de prédios do Niemeyer.
Pare os jatinhos. Feche o cofre. Seja clara. Demita. Divulgue. O povo e o Congresso a apoiarão. Fique certa. Fale menos, trabalhe mais. Mire-­se na Angela Merkel.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/2016

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DOIS FILMES QUE RECOMENDO – Jornal O Estado

“Na vida real, a maioria dos atores de cinema é uma decepção”. Marlene Dietrich, atriz.
Sou “cinemeiro” inveterado. Na telona dos cinemas e na tevê do meu quarto. Nunca fiz curso de cinema, mas pertenci ao “Clube de Cinema”, na sede da Associação Cearense de Imprensa, ali na Floriano Peixoto com Perboyre e Silva. Darci Costa, meu professor de inglês no Ibeu, era o dirigente. Havia conversas e debates. Eu, muito jovem, ouvia. Curioso, comecei a fazer sofríveis resenhas de filmes aos 15 anos. Estão em diários que, qualquer dia, reencontrarei.
Depois, já adulto e consolidando a vida, resolvi montar, com dificuldade, os Cinemas Benfica. São quatro salas, bem equipadas e que seguem a “grade” das distribuidoras que mandam. Não há lucro para os cinemas. Os percentuais brutos para as distribuidoras são de 40%, 50% e 60%, dependendo dos critérios que elas mesmas impõem. Além disso, paga-se o ISS, os empregados, os altos custos de energia elétrica e o Ecad, entre outros. Há excessos de meias-entradas e gratuidades. Quando um projetor para, temos de chamar técnicos do Rio ou São Paulo, por avião, remuneração e diárias. É duro.
Por outro lado, já ajudei na produção de alguns curtas, mas nada de tão significativo. Deixo um recado aqui: pretendo fazer, em breve, uma exibição de curtas cearenses. Quem quiser participar, pode entrar em contato. Faça-o pelo e-mail que está no cabeçalho da coluna.
Na verdade, este artigo, além do nariz de cera explicativo, é para dizer de dois filmes que vi recentemente. O primeiro, em reprise. Não me arrependi.
Trata-se de “Gênio Indomável”, de 1997, direção de Gus Van Saint. O então jovem ator Matt Damon, no papel de Will Hunting, membro de turma encrenqueira e sem futuro, descobre-se gênio ao resolver problema de alta matemática, exposto em lousa em corredor do Massachusetts Institute of Technology- MIT. Will era simples prestador de serviços na área de limpeza. O filme vai em crescendo do qual fazem parte Robin Williams, como um psiquiatra viúvo e desencantado, e Stellan Skarsgärd, como notável professor de matemática, detentor do prêmio “Fields”, uma espécie de “Oscar” da área.
Não vou dar detalhes, mas me chamou atenção o desencanto de Robin Williams que, na vida real, se concretizou. No geral, o filme mostra que alguém superdotado pode, sem fazer esforço, se destacar e achar isso natural. Há outro fato, esse no campo afetivo. O encontro do rapaz pobre, encrenqueiro e superdotado com uma herdeira rica e preparada estudante da Harvard University. O filme vale a pena.
O outro filme é de 2011. “Intocáveis” é francês. Nada a ver com o seu homônimo americano, com Robert de Niro. É filme sério-alegre, realizado por Olivier Nakache, que também produz o argumento. Embora seja comédia dramática, consegue, de forma alegre, mostrar a relação crescente entre um irreverente e improvisado “cuidador senegalês”, (Osmar Sy), e um rico e sofisticado tetraplégico francês, interpretado por François Cluzet. Mesmo sendo feito em 2011, deixa claro os guetos em que os imigrantes pobres vivem. Esse fato, além do
Estado Islâmico, estão na raiz dos ataques ao semanário Charlie Hebdo e, posteriormente, nos atentados em Paris. Chama a atenção que o filme é baseado em fatos reais, contado em livro por Philippe Pozzo di Borgo. Foi o filme francês mais rentável em bilheteria e recebeu muitas premiações.
Com estas duas indicações, renovo a esperança de que o polo de cinema do Ceará ultrapasse, não por rivalidade, mas por conteúdo, o já consolidado em Pernambuco.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2016.

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CARTA PARA VOCÊ, JOVEM, NESTE COMEÇO DE 2016 – Jornal O Estado

“Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos idosos, um passado muito breve.” Schopenhauer (1788-1860)
Sei existir lenda de que o jovem de hoje não lê jornais. Meia verdade. Talvez o leia pouco em papel, mas os jornais têm as suas mídias sociais, e tudo fica lá, de forma permanente nos sítios, blogs, face e nas nuvens. Não há mais jornal de ontem. Há escrito não lido, ainda. Este artigo é reproduzido em blogs com qualidade. Essa certeza me faz ciente de que é preciso contar sempre com o jovem para tudo o que é novo.
O ano de 2016 está tinindo de novo. É hora de acabar com essa onda sadomasoquista de não acreditar no Brasil e falar: o jovem não tem futuro. O jovem tem futuro, sim. Desde que se prepare, estude e cumpra as etapas da vida. Ela cobra a cada dia. O maternal – ou a creche ou a casa de parentes- é o primeiro passo para a criança de hoje, com pais lutando para lhe dar melhores condições de vida. Depois, vem a escola, seja pública ou privada. Encare-a como necessária, como uma ginástica para a sua mente. As mentes precisam de informações. Elas, pouco a pouco, se transformam em conhecimento.
E aí chega o Enem, o Exame Nacional de Ensino Médio, nivelando a todos e os desafiando a sair do quadrado existencial onde os hormônios da juventude impõem arritmias, de formas distintas. Nós, os que fizemos vestibulares, tínhamos as mesmas apreensões, mas os que não brincam com as letras, com a memória e com os números, passam.
Não precisa ser gênio; basta não ser dispersivo, anotar o importante e ouvir, sempre. Repare, nós não tínhamos essa ferramenta fabulosa, o computador. Você a tem. E não só isso, sabe usá-la de forma rápida e eficaz.
Nessa fase da vida, é natural fazer parte de uma turma, de um grupo. Mas, não tenha medo de ser careta. Procure saber dos costumes de cada um, dos vícios surgindo do nada e dos convites mais inusitados. A opção é sua, não importa zoarem contra você. Os maiores amigos são seus pais. Não influi, por acaso, se estão separados. Eles amam a você, independente de o casamento deles não haver dado certo. A vida não é estrada reta, possui curvas sinuosas, outras mais suaves, há atoleiros. Use a sua cabeça, uma espécie de tração 4X4 ou off-road.
Esta carta não é autoajuda. É apenas uma maneira de dizer que já passei por essas etapas. Ouvi irrisões, bati de frente com boquirrotos, recusei bebidas – além do meu limite – e fiz tudo do meu jeito. Estou aqui para dizer que não tenha medo do ano de 2016. Nós é que fazemos o ano, a partir do que somos e do que desejamos atingir. Não se poupe, dê duro.
A vida não é vitrine de loja atraente. A vida é o caminho que se traça sem alardes, com estudo, com coragem e fé em nós mesmos. Você não precisa ser validado por ninguém. Crie o seu estilo.
Os pais ficam velhos, mas nem sempre são caretas, acredite. Eles são psicólogos diplomados pela dureza do existir. Eles sempre serão os seus melhores amigos, mesmo quando dizem um não. Pare, pense, e a resposta vem lá de dentro. Pode ser o contrário do desejado, mas use bem o recado da sua razão.
Vou ficando por aqui e desejo a você, jovem desconhecido: trace rumos próprios e os persiga como se estivesse participando de uma maratona. A vida é uma longa maratona. Ajuste os cadarços. Feliz 2016.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/01/2016

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O CEARÁ E A FÉ NO ANO DO BEM DE 2016 – Jornal O Estado

O Ceará começa o ano de 2016 com dois trunfos na área sagrada ou religiosa. O primeiro é Cícero Romão Batista, padre e político, nascido no Crato, agora reabilitado pela Igreja de Roma. A vida do Padre Cícero possui várias versões e foi objeto de ensaios, livros, teses acadêmicas, cordéis e publicações apócrifas.
A decisão aconteceu no final de 2015, após muita espera e perorações de religiosos, de leigos e de políticos, com múltiplas pressões e viagens ao Vaticano. Francisco, latino, na qualidade de Papa, sancionou, afinal, a pública reabilitação do Padre Cícero, o demiurgo dos cariris nordestinos.
O segundo trunfo veio de ato anterior: em 7 de abril de 2015, depois de ouvidas as entrâncias competentes, a Santa Sé considerou D. Hélder Pessoa Câmara, cearense de Fortaleza, como “Servo de Deus”. Esse é passo decisivo para o processo de canonização de postulante. Pernambuco adonou-se do processo e, através de seu arcebispado, apresta-se para, em pouco tempo, fazer provas de milagres – dois, pelo menos – necessários à santificação.
Engajado em movimentos sociais, D. Hélder Câmara, em vida, havia sido indicado por quatro vezes para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Em paralelo, o governo do regime militar teria trabalhado em contrário, usando vias diplomáticas para vetar o nome dele.
Em Fortaleza, cidade natal de D. Hélder, talvez no próprio Seminário da Prainha, onde perto morava, e ali foi ordenado em 1931, aos 22 anos, poder-se-ia criar um museu – aberto ao público – mostrando o trajeto da sua vida. Evoluiu de adepto do positivismo e de Plínio Salgado para postura consagradora quando, na condição de bispo, aos 43 anos, e arcebispo do Rio de Janeiro, comandou cruzada cívico-religiosa em favor de moradia para os pobres e, especialmente, como mentor da criação da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a hoje respeitada CNBB.
Em janeiro de 1964 foi nomeado Arcebispo de Olinda e Recife. Dizia-se, à época, que Pernambuco tinha a sorte de possuir dois grandes cearenses a seu serviço: o governador Miguel Arraes e D. Hélder Câmara. Veio o movimento de abril de 64, e Hélder teve postura defensora dos direitos humanos e denunciadora, no caso da morte de um padre, seu auxiliar.
Acresça-se a esses trunfos as tradicionais romarias a Canindé, em homenagem a São Francisco, no final de setembro e no começo de outubro. Visão religiosa à parte, bem que o Ceará poderia consolidar-se como centro místico de visitação permanente, posto que há a tendência natural dos que demandam a Juazeiro do Norte e a Canindé. Quixadá conta, igualmente, com as romarias para Maria, Rainha do Sertão, incentivadas por D. Adélio, hoje bispo resignatário.
Estes breves relatos, alinhavados e de todos conhecidos, servem como lembrete ao Estado do Ceará e ao governador Camilo Santana, originário do Cariri, para a importância a ser dada à disseminação da fé não só pelos romeiros e peregrinos, mas, igualmente, para a real difusão de roteiros, caminhos e eventos que aproximem os turistas, inclusive os não religiosos, desses fatos da História do Ceará.
Assim, poderá o Ceará apropriar-se da sua história religiosa, do trabalho de todos e da fé dos sertanejos – essa força do povo a enfrentar a tragédia das secas e alguns desmandos políticos e empresariais – oferecendo o contraponto ao que é exibido por sistema nacional de televisão, a ansiar provar que “nada melhorou” 85 anos depois do relatado em “O Quinze”, romance de Rachel de Queiroz, de 1930.
A todos, acreditem no ano do bem de 2016.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2016.

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IDEIAS: REFUNDAR O BRASIL – Diário do Nordeste

Mexeram demais com o Brasil. A maioria perdeu a fé no que está aí e no que pode vir. A ainda jovem democracia brasileira mereceria uma refundação. Como seria? Um pacto social com regras definidas por representantes de todas as áreas do conhecimento, dos políticos com mandatos, do empresariado, dos trabalhadores e da sociedade, incluindo as minorias.
Utopia? É preciso ousar e sairmos do charco. Todas as pesquisas, as acreditadas e as nem tanto, mostram o impasse a que chegamos, a sociedade. Como diz o vulgo:
precisamos de um freio de arrumação. Remendos não resolverão. A administração do Brasil, nesta crise, não pode prescindir de pacto orgânico, liderado, quem sabe, pela cúpula dos três poderes.
Ora, direis, há neles frutas podres. Serão expurgadas, naturalmente, pela conjunção e a vontade do povo.
A indústria nacional, que deveria ser o carro chefe do nosso desenvolvimento, teve uma variação negativa da produção, até o 3º trimestre de 2015 ­ em relação ao mesmo período do ano de 2014. É alarmante: ­11%, a fonte é da Unido, órgão da ONU, compilada pelo Iedi ­ Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. É bom lembrar que a indústria é a área mais beneficiada pelo BNDES. O Brasil está na última classificação nessa área.
Somado ao caos político, isso demonstra o imperativo de uma concertação nacional, que não pode tardar. Este mero artigo pode não ser o condão a deflagrar o processo, mas a democracia não é apenas arte e manha. “Ela não corre, mas chega segura ao destino”, Goethe. Feliz 2016.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/2016

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O SENHOR PRESIDENTE – Jornal O Estado

“Toda a história é história contemporânea”. Benedetto Croce, filósofo italiano.
Cinco de agosto de 1963. Em Washington, Distrito de Columbia, capital dos Estados Unidos, era manhã clara. Um grupo de jovens líderes brasileiros achegava-se a um dos portões laterais da grande casa de número 1.200, da Avenida Pensilvânia. Éramos universitários – os moços de paletó e gravata, as meninas bem prontas – menos de 60. Todos na faixa dos vinte anos, de diversas partes do Brasil, especialmente do Sul e do Sudeste.
Havíamos sido escolhidos em concurso nacional, presencial, por vários examinadores, com múltiplos enfoques, incluindo conhecimentos gerais e quociente de geopolítica. Entre eles, um psicólogo de origem alemã que a tudo assistia com caderno e lápis a mão.
A viagem internacional foi feita em avião da Pan American Airways. Aterrissamos em Nova Iorque, no grande aeroporto que, à época, era o Idlewild e viria a ser JFK. As portas automáticas se abriram e eu via – ou imaginava ver – mais carros que Fortaleza possuía.
De ônibus e fomos levados para a Columbia University, na direção oeste, à altura da rua 115, na Morningside Heights, perto da Igreja de São João, o Divino. A Columbia é privada, data do século 18, e é uma das maiores universidades dos Estados Unidos. Faz parte da Ivy League, fechadíssimo grupo de oito universidades de alto nível dos EEUU. As outras, são: Harvard, Princeton, Yale, Pensilvânia, Cornell, Dartmouth e Brown.
A partir da Columbia começou a minha alfabetização – ainda não concluída – sobre a cidade de Nova Iorque, usando o seu metrô ou os ônibus especiais que nos levavam para ver museus, bibliotecas, teatros e parques.
De Nova Iorque para Massachussets, especialmente a Harvard University, que muitos pensam ficar em Boston, mas, na realidade, se localiza em Cambridge. A Harvard é igualmente privada, famosa, celeiro de presidentes americanos e remonta ao século 17. Os edifícios que a compõem não são monumentais, têm poucos pavimentos, revestidos de tijolos. O paisagismo que a envolve, com frondosas árvores e amplos gramados, é intercalado com jardins com flores multicores.
Pois foi lá em um dos seus alojamentos, onde depositei a minha escassa bagagem e, em seguida, participei, em tempo integral, do “Life and Institutions in the United States”, com diferentes docentes e conferencistas, sob a coordenação do Professor Henry Kissinger.
Mas, o que tratei no início deste artigo foi a chegada em Washington e a visita marcada com o presidente John Fitzgerald Kennedy. Ele estava no meio do seu segundo ano de mandato. Ninguém intuía que o seu filho Patrick, prestes a nascer, morreria logo em 09 de agosto, com apenas dois dias, e que JFK seria assassinado em 22 de novembro, em Dallas, no Texas. Os fatos todos imaginam saber, mas há ainda nacos de desconfiança para renitentes historiadores.
Você já deve ter visto onde os presidentes americanos recebem seus colegas de outros países. Pois foi lá naqueles jardins, em meio a colunas que fomos acolhidos e esperamos a chegada do filho mais importante de Joseph Kennedy, descendente de irlandeses, grande empresário, ex-embaixador americano no Reino Unido e financiador do Partido Democrata.
Na expectativa de sua chegada, surgiu a premência de urinar. Esgueirei-me e entrei na primeira porta disponível. Deveria, em algum lugar, haver um sanitário, logo encontrado. Aliviado, voltava aos jardins, quando vi, a pouca distância, John Kennedy que cumprimentava, de longe, um dos grupos em excursões diárias por áreas limitadas da Casa Branca.
Disse para alguns colegas já ter divisado o Presidente. Descrevi a sua roupa: terno azul-marinho, camisa branca e estreita gravata vermelha. Em minutos assoma John Kennedy, tal como o descrevera. Havia feito 46 anos em 29 de maio. Sorridente, entre outros papos, perguntou: “quantos futuros candidatos a presidente do Brasil há entre vocês”? Nenhum, respondo agora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/02/2016.

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A MULHER E O POETA – Jornal O Estado

“Apenas em torno de uma mulher que ama pode surgir uma família”.
F.Von Schlegel
Esta semana fui ver a fábrica comandada por uma mulher de fibra e talento. Fica no lado oeste da Praça Presidente F. D. Roosevelt, no Jardim América. Roosevelt, como se sabe, foi presidente dos Estados Unidos até quase o final da Segunda Guerra. A ele foi prestada essa homenagem pela cidade. Aqui, no Pici, por acordo entre o oscilante mando de Vargas e a América do Norte, foi montada base de apoio– por ser próximo da África e da Europa – na travessia pelo céus do Atlântico Sul e reabastecimento das tropas contra os integrantes do Eixo, composto por Alemanha e Itália. Isto sem falar do Japão, pois situado no outro lado do mundo, a Ásia.
Essa digressão singela é apenas para dizer da alegria ao ver a coroação do esforço de Maria Soares Leitão, mulher, amiga e confidente de Juarez Leitão. Juarez teve livrarias, foi vereador e professor reconhecido de História Geral. Por fim, o casal montou uma fábrica de fardamentos profissionais e escolares. Na verdade, “montou” é licença poética. À frente de tudo está essa mulher destemida, bem vestida, no albor da sua maturidade e amor visível por aquilo que sabe fazer.
É encanto ver a sala de demonstração ou, como falam os anglicistas, o “show room”. Centenas de modelos com pluralidade de cores e estilos. Cada peça, seja camisa, calça, jaleco, paletó, avental, macacão e outros que tais, tem corte perfeito, costuras retas e curvas com esmero. Tudo contém o toque pessoal da estilista em que Maria Leitão se tornou. E é.
Ela traduz, em palavras adequadas, traçados, talhes, costuras e pespontos com sensibilidade e alegria. Quiçá o convívio com o inquieto bardo inoculou-se em seus gestos. Por trás de suas dioptrias emolduradas por óculos, ela vai dissertando sobre o fardamento escolar e a roupa profissional. As fardas exibem a imagem e o cuidado que empresas têm, respectivamente, com seus alunos e colaboradores.
Não sem razão, Maria Leitão é hoje empresária de sucesso para a dimensão que definiu. Parece artesania mecanizada com costureiras em filas simétricas, sob claras luzes a produzir beleza a influir no amor próprio daquelas pessoas que as vestirão.
Ainda não falei com o Juarez sobre as impressões que ora estão sendo escritas na pressa semanal de entregar o texto ao jornal. Agora, entendo, as confissões – não as de Santo Agostinho – que o poeta, professor, biógrafo e contador de “causos” me fez ao ter o seu coração renovado por bisturis, pontes e pontos. Era a consagração do liame que o atava, sem sufocar, à companheira de décadas concebendo família equilibrada e o aceitava, com ou sem versos, seus horários peculiares de sono e vigília. Maria cuida até dos sucos e da goma para as tapiocas publicitadas por infiltrado em convescotes do Juarez com amigos palradores.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/02/2016

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BRASIL, EM TEMPOS DE TEMER – Jornal O Estado

O presidente Temer fala, se não me equivoco, com o jargão dos professores, ainda usando paletó e gravata, dos anos 50/60 do Largo de São Francisco, da Faculdade de Direito da USP. Ele, persistindo assim, não conseguirá se comunicar com o povo brasileiro. Parece que a sua concentração em Direito Constitucional não favorece o contato ansioso – e duro – com a imprensa sempre querendo saber o que a autoridade não deseja tornar público.
Todo governo deve possuir porta-voz loquaz, comunicativo e cativante. O governo Temer não tem essa pessoa. Poderia, quem sabe, até tentar Gaudêncio Torquato? Além disso, é preciso uma espécie de equipe de retaguarda formada por ministros e assessores, que pode discordar, com argumentos, do governante. Essa retaguarda deveria fazer o trabalho pesado, de triagem, de ajustes e de enfrentamentos. O presidente Temer está aparecendo demais na televisão, sem que alguns assuntos sejam relevantes para uma coletiva de um Chefe de Estado.
Outro ponto fundamental é a escolha de ministros, mesmo sendo um “governo de coalização”. Os candidatos a esses cargos precisam ser desnudados antes da escolha. Mal comparando, seria, como se dizia no passado, saber a sua “folha corrida na polícia”. Depois, sendo mais moderno, verificar os simples SPC e Serasa. A penúltima etapa seria obter cópia da declaração na Receita Federal, certidões fiscais, cíveis e criminais dele e de seu cônjuge. Sendo atual ou informatizado, procurar olhar nas famosas e infamantes redes sociais, o que a pessoa diz de si própria, a sua conversa com os seus “seguidores”. É claro que há que se olhar a outra versão, a dos “perseguidores”. A vida pública possui essa dicotomia: uns amam, outros odeiam.
Antes de qualquer futuro ministro falar com o presidente deveria ser sabatinado pela equipe de retaguarda. Nessa sabatina avaliar-se-ia (créditos ao presidente) a capacidade de comunicação do candidato, algum conhecimento da área onde vai atuar e o grau de empatia com a equipe. Se esses mínimos cuidados tivessem sido feitos não haveria tanto atropelo. Sei disso, por experiência própria. Desconfie de aparências e lero-lero.
Seis ministros em seis meses já caíram. Em cada queda, uma pequena, média ou grande crise. Governo não pode ficar se explicando. Precisa agir rápido, antecipar-se aos fatos. Não está acontecendo isso e a imprensa, sempre vigilante, destrói as informações toscas recebidas.
Torço pelo Brasil e não acho prudente esse clima de novo “impeachment”. O Brasil precisa ficar de olho ao que está acontecendo no mundo. Estamos vivendo era perigosa. Trump é ainda incógnita. Hillary ameaça pedir recontagem de votos. O Oriente Médio recebe armas de todos os lados, inclusive, as compradas do Brasil. A Europa dá guinada para a direita e a Inglaterra tenta se isolar. A China se espraia pelo mundo real.
Não podemos praticar autofagia, somos os que elegem, os que pagam impostos e os que sonegam. Os que aplaudem e os que xingam. Há baderna incitada. A hora é de exame. Resolver as pendências, sem tanta retórica, sem compadrio partidário e sem demonizar a Justiça. Ainda bem que “há juízes em Berlim”. Como disse, nesta semana, a Ministra Cármen Lúcia: “Juiz sem independência não é juiz. É carimbador de despachos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/02/2016

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CARTA AO MESTRE JOÃO CAPISTRANO DE ABREU: DE 1916 A 2016 – Jornal O Estado

O historiador cearense João Capistrano de Abreu foi referência – e é – no Brasil e até no exterior. Sisudo, língua solta para falar a verdade, amigos conservados, pleno de problemas de saúde, apertos familiares e refundador da História e da Historiografia do Brasil. Gênio.
Sou desde há muito, leitor de Capistrano e de suas famosas cartas. Por exemplo: em 16 de agosto de 1916, saindo do sério, ele escreve à família Assis Brasil: “O grande acontecimento deste aldeão é o foot-ball. O Brasil só tem pela frente o Uruguai. Vencerá? Há para isto um estimulante forte. Um Guinle, creio que Arnaldo, cabo das sociedades desportivas, disseram-me, tomará para si a dívida de mil contos de um empréstimo feito no Banco do Brasil, se o triunfo nos assegurar o campeonato sul-americano. Nunca assisti a uma partida, não posso fazer ideia de como é, e os termos técnicos soam-me aos ouvidos como a mais atravessada das gírias; mas, enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contará com minhas simpatias incondicionais o jogo do foot-ball” (vol.3, pg.70,MEC).
Como você sabe, Mestre Capistrano, o Brasil perdeu. O vencedor foi o Uruguai. O que me levou a essa citação foi a sua parte final: “…enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contará com as minhas simpatias…”.
Caro Mestre Capistrano, essa mania de socorros federais é uma praga e uma das causas destes problemas vivenciados, exato um século depois de sua carta de 1916.
O Brasil tem jogado dinheiro fora, desde o Império e todas as repúblicas (velha, nova etc.). Está pleno de dívidas e de incertezas. O país, por suas empresas, patrocina times de futebol e de tantos esportes. Seria cediço descrever.
Estamos entrando no sexto ano de seca no seu e no meu Ceará. Enquanto isso, o Brasil desmanchou estádios prontos e em funcionamento, tornando-os novos de novo. Para se adequar aos “padrões” da Fifa, a empresa multinacional a fazer eventos mundo afora metida em encrenca com polícias internacionais. Tal qual 1916, o Brasil, perdeu a Copa.
Depois, outros devaneios, aí no Rio de Janeiro, terra escolhida por você para morar a maior parte de sua vida. No começo do século XX, lembra você, mexeram com o centro do Rio.
Era necessário seguir as modernidades de Paris e de Washington, cidades desconhecidas, por ter optado nunca sair do Brasil. Sabe, aquela região Central do Brasil, Candelária e Avenida Rio Branco, Passeio Público, ficou bonita. A propósito, Mestre Capistrano, lembra-se da Praça Mauá? Caís da atracação do Navio Guará que o levou ao Rio, por recomendação de José de Alencar. Era dia nublado e os seus olhos míopes, embaçados. Recorda?
Limpe, agora, as grossas lentes de seus óculos e, se o seu espírito puder se transportar, veja: quase tudo foi derrubado e surgiu um “Museu do Amanhã”, pomposo, caríssimo e sequer registra a sua presença naqueles pagos. Mas não ficou só nisso, mexeram na área da Marinha, hoje um grande bulevar.
Criaram arenas e vilas novas. Para quê? Uma Olimpíada com jogos neste 2016, tal como na Grécia antiga, como sabe. Pois bem, o Rio de Janeiro ficou tão bonito quanto endividado. Não há dinheiro para pagar os milhares de funcionários públicos. E, como em 1916, Brasil não brilhou como devia.
Estou terminando, não sem dar notícia do hoje. O Presidente atual é Michel Temer, 75 anos, paulista, filho de libaneses, advogado e político, desde sempre. Discursa e fala como tribuno, usando colocações pronominais. Está em sufoco grande. Se houvesse espaço, diria mais coisas. Hoje, peço apenas que o nosso país tome tento e supere as dificuldades. 2017 está na soleira.
Ia esquecendo, sua Columinjuba possui uma academia de letras. Fui convidado e lá palestrei sobre o João mais admirável de Maranguape.
O Ceará está melhor que o país. Aguarda, ansioso, a transposição das águas do Rio São Francisco, obra atrasada. Tais como as da sua época.
Respeito e admiração.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/12/2016.

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FREUD, TORRE EIFFEL E O MUSEU DO AMANHÃ – Jornal O Estado

Já disse e repito. Minhas leituras são desorganizadas. Leio muito. De tudo, razão pela qual não sou profundo em nada. Esta semana, por exemplo, estava a ler o livro “Megalomania de Freud”, escrito por Israel Rosenfield e publicado, em português, pela Companhia das Letras.
Disserta sobre um livro, “Manuscrito”, atribuído a Freud. Explico: Uma neta de Freud, Bernadette Schilder, o apresenta após a morte dele. Ela era, na verdade, neta de Adelaide, amante por longo tempo de Freud. Da relação de Freud com Adelaide nascera Emma, mãe de Bernadette.
Dito isto, vamos ao que interessa. Em meio à leitura há uma referência de encontros entre Sigmund Freud e o arquiteto Maurice Koechlin, nascido na Alsácia, naturalizado suíço. Desses encontros, descubro que Koechlin foi um dos autores do projeto da “Torre Eiffel”.
Koechlin trabalhava nos “Estabelecimentos Eiffel”, empresa especializada em grandes projetos, na Europa e nos EEUU, de estruturas metálicas, tais como pontes, canais, monumentos etc. Nessa época (1885), a França preparava a “Exposição Internacional de Paris” quando seriam comemorados os 100 anos da “Queda da Bastilha” ou “Revolução Francesa”. Seria, mal cotejando, como os preparativos do Rio de Janeiro para sediar as Olímpiadas de 2016.
Gustave Eiffel era empresário altamente relacionado com o governo. Este procurava uma ideia para fincar como marco da Exposição. Foi aí que Koechlin e outro empregado de Eiffel, o engenheiro Émile Nouguier, sugeriam ao patrão que examinasse a ideia da construção de uma torre no jardim no centro de Paris.
Eiffel topou. Após um jantar sugeriu “que poderia explorar melhor a ideia deles por conta própria, propôs comprar os direitos exclusivos à patente, tanto na França como no resto do mundo. Pagaria, a cada um deles, um por cento de toda a renda auferida pela construção (pág.127)”. Houve um concurso para a criação do símbolo. O prazo para a apresentação do projeto foi de duas semanas. Eiffel ganhou. Óbvio.
A “Tour” foi erguida com honra e glória para Eiffel. Esse era um dos “grilos” de Koechlin e, em razão dele, 40 anos depois, foi parar nas mãos de Freud – ambos idosos – pois ganhara apenas “uma esmola”. Nesse “Manuscrito” surge a expressão “auto-engano”.
Koechlin não se conformava, pois além da Torre de Paris, Eiffel, engrandecido, entrara na licitação para a construção do Canal do Panamá, da qual depois fora alijado sob suspeitas, sendo, inclusive, preso. Depois, solto.
Notaram alguma analogia entre a Torre Eiffel e o “Museu do Amanhã”, no Rio de Janeiro? Ambos são estruturas metálicas belas, suntuosas, expostas à visitação pública.
O problema de Koechlin era a desilusão ou “auto-engano”. Passo a palavra a Freud (pág.126): “A moralidade é evidentemente, irrelevante para nossas estruturas sociais e para a nossa estabilidade mental. É nossa paralisia, e não nossa culpa, que caracteriza nossa relação com a autoridade; e essa mesma paralisia é o único desafio moral e psicológico que podemos oferecer àqueles que roubaram o que, por direito, consideramos nosso”.
Qualquer semelhança não é mera coincidência. Se me entendem.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/12/2016.