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CONSELHO PEDIDO E, TALVEZ, NÃO ATENDIDO – Jornal O Estado

Alguém acredita que eu possa dar conselho? Não estou seguro. A pessoa que me pede está perto de 30 anos, fez um bom curso superior e ainda não conseguiu trabalho que o animasse a enfrentar o mundo real. Resolveu, por sua conta e risco, virar “concurseiro”. Perguntei: qual a área? Tudo o que aparecer.
Não sei se é por aí. Cada um deve saber das suas habilidades e suas capacidades. Participar de um concurso é acreditar em duas variáveis: seus conhecimentos e o seu comportamento quando das provas. Sem falar nos concorrentes.
Sei que os cursinhos ou “cursões” dão dicas para driblar o estresse, mas cada um convive com seus grilos, seus medos e suas idiossincrasias, que se manifestam independente de suas vontades.
Os concursos são uma espécie ampliada do ENEM com alto nível de generalizações e complexidades, múltiplas matérias. Eles dispersam o foco de qualquer profissional. Assim, quanto mais tempo passar como concurseiro, menor será a sua chance de conseguir um emprego na área em que se formou com razoável índice de rendimento acadêmico.
Há um instante em que você deve perguntar para o espelho: o que estou fazendo? Marcando passo ou fugindo das entrevistas de emprego com várias fases. Por outro lado, sabe-se que muitas pessoas da sua faixa de idade são adictas (viciadas) em redes sociais e em “rodinhas” presenciais que tomam tempo dos estudos.
Ainda não falei da vida pessoal, das cobranças dos pais, dos namorados ou parceiros. Dia desses, encontrei, em restaurante, pessoa que havia conseguido passar – e ser chamada – em um bom concurso e estava exultante. Tinha razão. Cumprira o prometido a ele mesmo.
Uma pergunta direta e talvez incorreta: você acredita nos seus conhecimentos ou está frequentando aulas sem motivação? Não basta a presença física. É preciso aquela vontade incomum, a que faz um velocista terminar uma corrida mesmo que os músculos estejam fatigados. No seu caso, entretanto, não são músculos, mas neurônios, sinapses e a capacidade de memória para transformar as informações em conhecimento, sem o qual não vencerá os focados somente nesse objetivo.
A vida adulta não é o prolongamento da juventude. Ela é o portal das cobranças que vão existir ao longo de todo o seu percurso. Estou quase terminando e não sei se ajudei a você ou não.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/04/2016.

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CARTA(IN) DEFINIDA – Jornal O Estado

Com cartas brancas, senhor cônsul solta Pombos de papel. Erico Veríssimo
Talvez existam algumas coisas a dizer a você. Vejo o meu computador cercado de papéis, livros lidos e não lidos. Não quero falar do que todos proferem. Estou sentado na ponta de uma cadeira, ao contrário do que deveria fazer. Dizem os ortopedistas, os fisioterapeutas e os demais entendidos que essa não é boa postura corporal. Deixa para lá, estou errado. E daí?
Todos estamos envelhecendo. Até a minha neta mais nova fica menos nova a cada dia. Divisei uma foto e não me vi nela. Onde estão os cabelos? O castanho deles? Rarearam e sequer pediram licença. Olho à esquerda e diviso a impressora que nunca uso. Ela é nova ou seminova, pois faz algum tempo que a comprei. Usei-a muito pouco. Vai ficar igual ao meu DVD acoplado à TV. Envelheceu, sem uso.
À minha frente há uma parede repleta de livros. Nela encontro uma “História Universal” de Cesare Cantu, edição de 1965. São alguns volumes com arabescos nos dorsos das capas duras e com letras douradas. Foi caindo em desuso, pois hoje tudo é geométrico, tridimensional e descartável. Está no Google. Para quê História Universal?
Na prateleira acima, vejo “O Rabino”, de Noah Gordon. Na capa há um Menorah aceso com oito velas. Noah escreveu outros livros, entre ele “O Físico”. Folheio “O Rabino” e vejo alguns trechos grifados a lápis (tenho esse e outros defeitos), mas não os reproduzo aqui. Nada de sionismo. Preguiça, apenas.
Ao lado dele, na desorganização absoluta das minhas prateleiras, encontro John Updike em “Uma Outra Vida”. Será que não basta uma? São contos, todavia, e narram sobre mudanças de vida, de países, novos desejos e novos amantes: novas perspectivas de uma vida ‘depois da vida’ para os homens e mulheres destas histórias, mais perto da velhice que da juventude”. Papo furado, gente perto da velhice quer saber do colesterol, do diabetes, da enxaqueca, como anda a pressão medida por essas máquinas compradas em farmácia. Pague Menos, por certo. Ouviu Deusmar?
Agora me dei conta de que ia escrever uma carta, mas paro para desligar a televisão que faz um dueto entre desgraças e novelas manjadas, mesmo que aparentemente intrincadas. Tudo fica ao sabor das pesquisas. Se alguém não interpretou bem, tira-o do contexto flexível do enredo.
Ainda bem que o controle remoto resolve o meu – e o seu – problema. Decido dar por encerrado este artigo, sem a tal carta, sem falar de crise, sem imigrantes, sem terrorismo, sem promessas disso e daquilo. Cá para nós, parece que estou mesmo é sem assunto. Será? Desculpe, se concluir que sim.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/04/2016.

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DIA DO JORNALISTA – Jornal O Estado

“O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter”. Jornalista Cláudio Abramo (1923-1987)
Caldas Aulete, o dicionarista, morreu em 1878, mas o seu léxico continua vivo, através do Conselho Editorial dos Dicionários Caldas Aulete. A edição que consulto é a de 2004. Jornalismo é a “atividade profissional de levantamento, apuração e transmissão de notícias e comentários através de diversos meios de comunicação”.
Hoje, 7 de abril de 2016, é o Dia do Jornalista. Ele faz muito mais que levantamentos, apurar fatos e transmitir notícias e comentários para os múltiplos meios de comunicação que proliferaram com o avanço tecnológico, especialmente a Web ou Internet. Ele integra jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, blogs, site e tudo o mais cabível nestes tempos de hoje.
Este jornal “O Estado”, fundado em 24 de setembro de 1936, por José Martins Rodrigues, é dirigido hoje por Ricardo Augusto Palhano Xavier, sucessor de Wenelouis Xavier Pereira, seu pai. Entretanto, Ricardo não o faz sozinho. Além de sua mãe, Wanda Palhano, Soraya Palhano, diretora financeira, Solange Palhano, diretora institucional, e Rebeca Férrer Xavier Guimarães de Andrade, cuida do marketing.
Afora os citados acima há o editor geral, Carlos Alberto Alencar, e a sua equipe de repórteres setoriais, articulistas, colunistas, fotógrafos, técnicos em informática e o pessoal da distribuição. Saibam todos que o jornal O Estado, além de um blog, possui um canal de televisão que pode ser sintonizado no You Tube.
Correndo o risco de esquecer algumas pessoas, a quem, desde já, peço desculpas, cito: Macário Batista, Fernando Maia, Rubens Frota, Solange Palhano, Luiz Carlos Martins, Flávio Torres, Fernando Calmon, Antônio Viana, Marcos Saraiva, Lauriberto Braga, Iratuã Freitas, Daniel Negreiros, José Nilton Jr, Carlos Chagas e Cláudio Humberto.
O jornalismo cearense tem a sua gênese nas atitudes libertárias do Padre Mororó que, em 1823, ousou enfrentar o Império e foi um dos integrantes da Confederação do Equador. Como resultado, foi condenado à forca. Entretanto, ninguém aceitou ser o algoz de tão distinta figura. Mudou-se a pena para fuzilamento e alguns bacamartes o mataram no atual Passeio Público, com justa razão denominada de Praça dos Mártires.
Este aligeirado artigo não pode deixar de citar os nomes dos pilares: João Brígido, Demócrito Rocha, Jáder de Carvalho, Paulo Sarasate, Creuza Rocha, Albaniza Sarasate, Perboyre e Silva, Edson Queiroz e Demócrito Dummar.
Qualquer lista é sempre incompleta, mas não há como deixar de referir poucos dos muitos que já se foram, tais como Blanchard Girão, Dedé de Castro, Dorian Sampaio, Geraldo Nobre, J.C. Alencar Araripe, José Raymundo Costa, Ivonete Maia, Lustosa da Costa e Edilmar Norões.
Por fim, na sua tenacidade octogenária, Adísia Sá, referência do passado e do presente, presidente que é da Associação Cearense de Imprensa. Destaco, por sua luta classista, Samira Castro, atual presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará. A todos, os nossos parabéns.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/04/2016.

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BÊ, A BÁ DO AUTISMO – Jornal O Estado

Pessoa amiga liga e diz ter descoberto que um descendente é autista. A família ficou desolada. Há cinco anos procurava respostas sobre a não interação, a não comunicação e o comportamento da criança. Foram a muitos lugares e médicos. Agora, veio o diagnóstico.
Tentei falar que a própria criança autista não se vê deficiente. Cada um deles vive o mundo da forma que a sua configuração genética determinou. Quem pode aferir o pequeno ou largo mundo que transita nas sinapses de cada um?
Procurei, como leigo, ler sobre o assunto e parece não existir um pensamento uniforme na ciência médica sobre o tema. Do que li – e se soube ler – genes podem estar comprometidos, bem como há fatores exógenos como poluição, complicações durante a gravidez, infecções causadas por vírus, contaminação por mercúrio e outros.
Segundo o CDC, Center of Disease Control and Prevent, dos Estados Unidos, com dados de 2006, nasce uma criança autista para cada 110 partos. A incidência maior seria para o sexo masculino (1 para cada 70) que poderia ser acometido do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Há, na internet, uma revista sobre o assunto: “Autismo – Informação Gerando Ação”. Descobri também que na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais há gente comprometida com o estudo. Recolho e repasso o nome do médico Walter Camargos Junior, cujo e-mail está explícito: waltercamargos@uiavip.com.br
Há um questionário de triagem, decerto conhecido por pais dessas crianças, mas, por via das dúvidas, o cito. Ele consta de 23 itens que devem ser observados.
Em face dessas constatações, cada uma com a singularidade que apresenta, decidi apoiar a realização de exposição que vai transcorrer por todo o mês de abril. Será de responsabilidade da instituição benemerente PINTANDO O SETE AZUL, ainda sem sede definitiva, fundada em 2015, assistindo a mais de 100 famílias, seus professores e alunos.
Essa exposição constará de 32 fotos de portadores, palestras, vídeo com imagens de mais de 100 crianças e pessoas associadas, tudo ao som de músicas apropriadas. Esclarecimentos poderão ser prestados no local da exposição, Av. Carapinima, 2200, Benfica, Fortaleza, primeiro piso. É gratuita e aberta ao público.
Hoje, sexta-feira, 1º. de abril, às 19 horas, haverá a solenidade de abertura no local indicado. Amanhã, sábado, às 10 horas, haverá palestra do autista Nelson Marra, que é ídolo de muitos e veio, do Rio de Janeiro, especialmente para o evento. A Exposição funcionará no horário de 10 da manhã às 22 horas. Nos domingos, das 15 às 21 horas.
Este artigo resulta da consciência do problema e é um compromisso que devemos assumir com o próximo, independente da forma da comunicação atingível, do mesmo modo, com o mesmo carinho e com o respeito que devotamos a todas as pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/04/2016

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AO LEITOR. QUE LEITOR? – Jornal O Estado

“Leitor, coautor do texto.” – Ledo Ivo
Quem escreve não pode ser escravo de um leitor que desconhece. Ora, isso é simplificar a coisa. Ao escrever não se pode ir atirando a esmo. Há que ter foco. Ao escrever em jornal a pessoa tem menos de 24 horas para captar e interessar o leitor. No dia seguinte, o jornal é descartável. Razão pela qual vou disponibilizando no meu ‘www’ ou nos dos amigos.
Procuro, portanto, escrever para quem não está apenas interessado no cotidiano. Tento, a cada semana, ir mudando de rumo. A única coisa permanente é a minha forma de contar. Isso é o que se chama estilo.
Para se ter estilo, seja bom ou não, é preciso mourejar com as letras, saber das vírgulas, dos pontos, das interjeições e não exclamar muito. Ser o mais natural possível. Se consigo, é outra coisa.
Hoje, o leitor se depara com muitas opções que o confundem ou o atraem. No mundo digital há muito de enganação. Promete-se uma coisa e, em seguida, o usuário cai em armadilhas que o levam a caminhos não imaginados. A curiosidade, na Internet, é uma faca de dois gumes, leva a novos conhecimentos/informações ou a simples engodo.
Há discussões acadêmicas sobre a natureza da crônica ou do artigo. Como diz Humberto Werneck: “Se não é aguda, é crônica.” Seriam eles alvitres literários? Trato um pouco de assuntos ligados ao cotidiano, a vidas das pessoas e os fatos que vão montando o nosso dia, desde as matinas até o arrebol. Matinas e arrebol foram apostas apenas como adereço.
Não é básico que o texto seja sempre ligado ao cotidiano, ao coloquial ou ao real. Ele pode ir, além disso. Divagar para que o leitor possa experienciar algo inusitado, como está sendo a tessitura deste escrito. O meu compromisso é trazer o leitor até o ponto final, mesmo sabendo que o ponto final é imaginário. Depois dele, cabe ao leitor maquinar o que se seguiria não tivesse o ponto existido.
O escritor deve aceitar como tema até uma pena que cai da asa de um pavão e isso nos levaria, por exemplo, ao Pavão Misterioso, do cantor e compositor Ednardo.
Eu não sigo cânones, vou lendo os dedos sobre o teclado e o que sai, muitas vezes, é o inesperado e não aquilo que, de princípio, gostaria de escrever. Como dizia Clarice Lispector: “Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me lê é por conta própria e auto risco”.
Se me tolherem a liberdade, se me pautarem, não serei eu, pois a liberdade é a minha característica. Sem ela, com certeza, ficaria aprisionado pelo assunto imposto, suas regras, seu número de palavras, a que não desejo me submeter, mesmo que a criatividade, como a de hoje, não seja o desiderato. Se não me encontro ou se me perco, resta a salvação e o arbítrio deste ponto final.

PERSONALIDADES
Ilona Szabó
Hoje damos destaque em nossa capa para a cientista política Ilona Szabó. Nascida em Nova Friburgo no Rio de Janeiro, Ilona Szabó de Carvalho, é uma referência quando o assunto é pensar no próximo e em um futuro sustentável, ela trata e discute assuntos polêmicos com uma visão mais ampla. Fundou em 2011 o Instituto Igarapé, que produz pesquisas pioneiras, novas tecnologias e influencia políticas públicas em segurança, justiça e desenvolvimento. É hoje um dos principais think tanks do Sul Global e trabalha em parceria com governos, iniciativa privada e sociedade civil para criar soluções baseadas em dados para problemas complexos.Ilona possue larga experiência em liderança de redes globais para alavancar reformas positivas. Foi coordenadora executiva do secretariado da Comissão Global de Políticas sobre Drogas entre 2011 e 2016. Anteriormente, ela coordenou o secretariado da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia.
Durante seu mandato nas duas comissões, foi responsável por auxiliar a definição de estratégias globais junto a ex-presidentes nacionais, intelectuais públicos, líderes empresariais e mundiais, incluindo o ex-Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Com mestrado em Estudos de Conflito e Paz pela Universidade de Uppsala, na Suécia, é especialista em Desenvolvimento Internacional pela Universidade de Oslo e bacharel em Relações Internacionais. Também participou de diversos cursos executivos, como Lideranças Transformadoras na Said Business School, da Universidade de Oxford, e Gestão de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) no Colégio de Defesa Nacional Sueco, em Estocolmo.Foi nomeada Jovem Líder Global do Fórum Econômico Mundial e Líder Responsável da Fundação BMW. Faz parte da Rede de Empreendedores Cívicos da RAPS e lançou diversas redes de experts, incluindo Pense Livre e a Rede de Transformação Pública. Ilona é descendente de húngaros. É mãe de Yasmim Zoe, nascida em 2014, e é casada com o economista e acadêmico canadense e também co-fundador do Instituto Igarapé, Robert Muggah.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/09/2017.

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AS GRAVAÇÕES, AS DELAÇÕES E O FUTURO INCERTO – Jornal O Estado

“De delação em delação, nunca vai acabar a confusão.” Ouvido em boteco.
Estamos quase no fim de setembro e continua como não poderia deixar de ser, o estardalhaço da imprensa, da televisão e da Internet sobre o grupo J&S/JBS e correlatos. A melhor reportagem, ao meu talante, foi a publicada no dia 07 de julho de 2017, no Caderno Eu&Fim de Semana, do Jornal Valor.
O Caderno Eu&Fim de Semana é publicado às sextas-feiras e mistura economia, gestão, finanças, política, cinema, entrevistas, reportagem e cultura. Confesso, ao meu olhar, a parte mais interessante é a de Cultura. Entanto, quero chamar a atenção de todos para a reportagem de capa “A Saga da JBS”. Ela pode ser vista nas redes sociais ou no site do Jornal “Valor”.
É trabalho de fôlego escrito pelos jornalistas Luiz Henrique Mendes, Vanessa Adachi, Fernando Torres e Francisco Góes. Além deles, colaboraram Fernando Lopes, Stella Fontes e Fábio Murakava. São 10 páginas escritas em letras de tipo pequeno.
Deveria o Jornal “Valor” transformar essa reportagem, depois de aprofundada em livro. Um senão é citar fontes sem nomes. Invocam motivo de segurança, mas empobrecem a reportagem. No livro, quem sabe, poderiam ir mais a fundo e identificar algumas fontes, se elas não tiverem medo de sofrer represálias.
A história começa no interior de Goiás, em 1953. José Batista Sobrinho – JBS, conhecido por Zé Mineiro, cria a “Casa de Carnes Mineira”, em Anápolis, com entregas a domicílio. Anápolis é próxima de onde seria fundada Brasília. Poucos anos depois, surgia JK – Juscelino Kubistchek de Oliveira, empossado presidente em 1956, no Rio de Janeiro, capital do país.
JK havia sido prefeito interventor de Belo Horizonte de 1940 a 1946 e fez, entre outras obras, a bela barragem da Pampulha, juntando Niemeyer (arquitetura), Burle Marx (jardins) e Portinari (painéis). O slogan “50 anos em cinco” era o mote para a identificação do local, até invocando São João Bosco (teria apontado o local entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul). Brasília surgia da prancheta de Lúcio Costa. Os edifícios são de Niemeyer.
As obras começaram e Zé Mineiro passou a ser fornecedor de carnes para centenas de empregados das empreiteiras. A construção de Brasília é matéria prescrita e cabe noutra narrativa.
Voltemos ao eixo. O crescimento da Friboi foi exponencial. Cresceu e cresceu. Expandiu-se em outras áreas e criou base multinacional. O foco desse relato é apenas dar destaque à delação premiada, depois da gravação sub-reptícia, às horas tantas da noite, no Jaburu, nome esquisito de Palácio. Igualmente, nova gravação faz furor. Dessa vez, inclui um diretor. Intencional ou não, acabou em prisões. O resultado é o estado caótico da política, com a segunda denúncia contra Temer pela Procuradoria Geral da República. Agora, de dirigente nova.
Por outro lado, a economia melhora desde julho. A Bolsa de Valores sobe. Ressalte-se a desenvoltura e otimismo do ministro da Fazenda, Henrique Meireles. Ele era, até bem pouco, presidente do Conselho da JBS. Vá entender o Brasil. Eu não consigo, embora tente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/09/2017.

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SETEMBRO AMARELO. ATENÇÃO E CUIDADOS – Jornal O Estado

“A vida só se dá
para quem se deu.”
Vinícius de Moraes
Alguns jovens, por seus comportamentos, sofrem em escolas, colégios e até em cursos superiores, o nominado “bullying”, tornando-os dissonantes da maioria dos grupos a que pertencem.
Somatizam essas dores, na maioria das vezes não compartilhadas com a família e amigos, se os tem. Hoje, com o uso abusivo da Internet, há uma intoxicação de informações de má qualidade e de duvidoso sentido ético. Quem se conhece, na verdade?
Fique claro, não só os jovens merecem atenção e cuidados. Todos somos seres carentes, precisamos viver em grupos e descobrirmos os nossos conflitos. Muitos conflitos e aflições são comuns aos outros. Converse, escute e aja. A vida é dom valioso.
Por estas e outras razões, estou apoiando e participando, neste mês de setembro, de campanha de assunto tido como tabu e complexo para muitas pessoas e a maioria das famílias: a conscientização sobre a prevenção ao suicídio.
Juntos, nessa empreitada, estão o Instituto Bia Dote, o Programa de Apoio à Vida – PRAVIDA (997387244-Talita) do Ambulatório de Saúde Mental do Hospital Walter Cantídio da UFC (Rua Capitão Francisco Pedro, 1290, Porangabussu, Fortaleza), o Centro de Valorização da Vida (atendimento gratuito pelo fone 141) e o Shopping Benfica, local aonde acontecem os vários eventos, a partir de um grande Laço Amarelo simbólico. As pessoas deixam mensagens, em “post-it” – de apoio à prevenção ao suicídio. O laço está pleno de mensagens.
A par disso, desde o dia 08, ocorre o Ciclo de palestras “Males da Modernidade”, sendo o primeiro tema “Suicídio – conhecer para prevenir”. Na segunda, dia 11, foi realizada sessão especial com o filme “As vantagens de ser invencível”.
Hoje, 15, às 15 horas, será discutido o tema “Como superar e vencer a timidez”. Já no dia 22, próxima sexta, também às 15 horas, será discutido o tema “Elos conflituosos entre pais e filhos”. O encerramento do ciclo será no dia 29, outra sexta-feira, mesmo horário, com “Mentes e Manias”.
Como se vê, há um largo espectro de palestras sobre assuntos que circundam a prevenção ao suicídio. Além disso, segunda-feira, 11, houve atendimento psicológico com o Centro de Valorização da Vida-CVV, durante nove horas seguidas.
As estatísticas informam. Há 12 mil suicídios por ano no Brasil ou mil em cada mês. O Ceará está no 5º lugar em mortes autoinfligidas e Fortaleza é a 3ª capital com maior número de óbitos por esse viés.
Então, o que fazer? Não admitir serem consideradas tolices os reclamos repetidos de jovens e de pessoas outras acometidas por doenças sociais leves ou graves. Há ainda os casos de desempregados e aposentados.
Alguns se consideram peso para as suas famílias. É preciso conversar e, principalmente, ouvir e aceitar as queixas, sejam reais ou imaginárias.
Sabe-se ser preciso um conjunto de razões, que vão se somando, para induzir qualquer pessoa à tentativa de suicídio. Por tal fato, não se deve subestimar o comportamento estranho de filhos, cônjuges, parentes e amigos que, repetidamente, se queixam.
Precisamos apresentar caminhos e não apenas criticá-los. Procurar ajuda de psicólogos, psiquiatras, psicanalistas é uma medida necessária. O CVV atende de forma gratuita e alguns hospitais públicos, também.
Viver é um edifício construído peça a peça, com diversos tijolos, argamassas e telhas, carregados por nós. Há sempre questionamentos, incertezas e fases de desânimo. Não deixe ninguém do seu conhecimento se isolar. Essa pessoa deve procurar amigos ou ajuda médica. Vale a pena viver.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/09/2017.

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EXPERIÊNCIA COMO PRESIDENTE – Jornal O Estado

“As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele.” Carlos Drummond de Andrade
Fui, há alguns anos, presidente de uma Academia de Letras, cujo nome não vem ao caso. Intrigado, publiquei, recentemente, um livro de 138 páginas. O nome é direto ao ponto: “Experiência como Presidente” (ISBN 978-85-923210-0-0). Retrato, inclusive, com fotos, os dois anos da gestão com todos os detalhes legais, culturais, sociais. Necessários e talvez alguns supérfluos.
Uma entidade de letras ou similar deve incentivar os seus membros a publicar livros e a frequentá-la. Para isso, criei selo editorial específico e, durante esses dois anos alguns livros foram lançados por consócios, participamos de duas Bienal de Livros e procuramos estimular a criação de Academias estudantis, em conjunto com a Secult e alguns colégios. Tivemos êxito. A cada ano, fizemos uma “Semana Cultural Viajando nos Livros” e uma Exposição de Livros Raros, ambos com a participação de dezenas de colégios públicos e privados. Públicos acima de mil pessoas.
Realizamos festas natalinas e no aniversário da Academia. Sem dinheiro alheio. Idealizamos e criamos, com a ajuda de Regina Fiúza, de Murilo Martins e de Pedro Henrique Saraiva Leão, grupo para planejar e dar o “startup” no restauro do Palácio da Luz. Depois, concretizada por José Augusto Bezerra.
A par disso, consultados os colegas e pedir-lhes colaboração para a confecção de novo Estatuto, mourejei solitário na minha gávea. Produzi documento que, através de assembleia geral convocada, foi lido e relido, pois distribuídas cópias.
Na Assembleia, em 16 de junho de 2010, o Estatuto, levado à discussão, foi aprovado por unanimidade. Possui 37 artigos. Neles, estão claros os direitos e obrigações. Além do Estatuto, submeti aos pares um Regimento Interno com 22 artigos, igualmente aprovado na sobredita Assembleia.
Três colegas faleceram nesses dois anos e foram devidamente pranteados. Após o período do luto oficial, significaram eleitos novos membros, sendo recomposto o quadro social.
Criamos boletim mensal eletrônico e blog para noticiar os eventos, mas poucos acessos aconteceram, mercê da carência de interesse de alguns por esse mundo esquisito e definitivo da Internet.
O boletim possuía conteúdo definido: palavra do presidente, acontecimentos do mês e do seguinte, pensamento de autor ilustre e a prestação de contas do mês anterior.
A entidade foi homenageada com placa de prata, em sessão solene, na Câmara Municipal de Fortaleza-CMF, em outubro de 2009, por iniciativa do vereador Paulo Facó. Apresentamos ao presidente da CMF, Salmito Filho, a intenção de participar do “Pacto por Fortaleza, a cidade que queremos para 2020.”
Com a Secretaria da Cultura do Ceará, parceira da gestão, sem que a ela fossem exorados recursos, criamos a ideia do “Anuário da Cultura”, aprovado pelo secretário Auto Filho. O belo Anuário saiu em 2010. Os secretários da cultura e os presidentes que nos sucederam não o levaram avante. Pena.
Fizemos publicar um número da revista da entidade, com colaboração de acadêmicos. Distribuímos, gratuitamente, broches(bottons) e carteiras de identidade social. As reuniões foram descrevidas pelo secretário Eduardo Fontes. Culminamos com a eleição de nova diretoria, sem esquecer de deixar a tesouraria com caixa positivo de R$ 13.750,51. Referimos que nessa gestão não solicitamos quaisquer ajudas financeiras a pessoas ou instituições privadas ou órgãos públicos. Não homenageamos nenhuma pessoa, empresa ou entidade, pública ou privada. Foi assim.
Pergunta final: Por que pessoas concorrem a eleição, às vezes duras, em Academias de Letras ou similares e, logo em seguida, após a desejada assunção, sessão de posse e coquetel, deixam de frequentá-la?
Alguns, sentem-se até incomodados com a cobrança da mensalidade devida e necessária para a precária manutenção dessas entidades. Esse é um drama comum e atual de quase todas e pode servir de base para discussões e providências que urgem.
PERSONALIDADES
Rogéria
Essa semana o Brasil se entristeceu com a notícia da partida da atriz Rogéria, símbolo da luta contra o preconceito em nosso país. Rogéria na realidade nasceu Astolfo Barroso Pinto, na cidade de Cantagalo, interior do Rio de Janeiro. Ela sempre dizia: “Em Cantagalo, nasceu a maior bicha do Brasil – no caso, eu – e o maior macho do Brasil, Euclides da Cunha”. Desde sua infância tinha consciência da homossexualidade e na adolescência virou transformista e assumiu uma carreira de maquiadora. Antes disso, foi figura assídua no auditório da Rádio Nacional, particularmente nos programas estrelados pela cantora Emilinha Borba e de quem era fã incondicional. Ao vencer um concurso de fantasias no carnaval de 1964, tentaram renomeá-la de Astolfo, “que fazia demais a ‘linha executivo’”, para Rogério, que levou o público a gritos de “Rogéria”, inspirando o nome artístico dela.
Ela começou sua carreira como maquiadora da TV Rio, e ao conviver com inúmeros atores célebres teve o que descreveu como equivalente de uma estadia no Actors Studio, sendo estimulada a interpretar. Sua estreia ocorreu em 29 de maio de 1964, em um notório reduto gay de Copacabana, a Galeria Alaska. Figura frequente no cinema brasileiro, participou também como jurada em vários programas de auditório nas últimas décadas, de Chacrinha a Gilberto Barros e também Luciano Huck. Rogéria foi coreógrafa da comissão de frente da Escola de Samba São Clemente, representando Maria, a louca, num enredo que tratava dos 200 anos da vinda da família real ao Brasil. Em sua passagem, foi recebida com carinho pelo público. Em 2016, lançou sua biografia Rogéria – Uma mulher e mais um pouco, de Marcio Paschoal. Um de seus últimos trabalhos foi sua participação no filme de Leandra Leal Divinas Divas. Em 13 de julho de 2017, a atriz foi internada devido a uma infecção generalizada, permanecendo por duas semanas em uma clínica em Laranjeiras, na zona sul do Rio. Em 8 de agosto, Rogéria foi novamente internada no Hospital Unimed Barra, na Zona Oeste do Rio, devido a um quadro de infecção urinária e em 25 de agosto foi transferida da Unidade de Tratamento Intensivo do hospital para o quarto. No entanto, seu quadro clínico se agravou após uma crise convulsiva, seguida de um choque séptico, causa de sua morte no último dia 4.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/09/2017.

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FAZER CULTURA E A CAIXA-PRETA DO MinC – Jornal O Estado

A jornalista Luísa Bustamante assina matéria sob o título “A Caixa-Preta da Cultura”, na edição de “Veja”, de 30 de agosto passado. Ela refere que a Lei Rouanet, já com 26 anos de editada, foi responsável pela liberação de recursos para 50.000 projetos culturais, artísticos e correlatos.
Durante 90 dias a Veja procurou, através do Portal da Transparência, abrir a caixa-preta dos beneficiários de incentivos/recursos em 2.400 projetos que possuem não conformidades e pendências não resolvidas.
Bustamante refere: nos 26 anos, foram liberados cerca de 16 bilhões de reais. Uma média 615 milhões de reais por ano. Verificou também: 18.000 prestações de conta não tiveram nenhum tipo de exame por parte do Ministério da Cultura.
A Cultura é o patinho feio dos ministérios e a ela quase nada é reservado. Há muitas controvérsias sobre o período de 2003 a 2015, era Lula – Dilma. Há críticas sobre o aparelhamento do MinC para petistas e artistas de “esquerda”. Aparelhar é, em outras palavras, reservar um determinado órgão para uso quase exclusivo do partido, da coligação ou da ideologia vigente no curso desses 13 anos.
Deixemos a discussão acima para os órgãos fiscalizadores do MinC. Na gestão Temer já teve quatro ministros. Até agora. A saber: Marcelo Calero (saiu por ter sido abordado por Geddel Vieira Lima, então colega de ministério, para liberar projeto de edifício acima da altura permitida pelo IPHAN –Instituto de Patrimônio Histórico Nacional).
O segundo foi o Presidente do PPS, Roberto Freire. Ao sair, disse: “A decisão de sair é política de partido. Todos achavam que deveria sair. Não volto atrás”. O terceiro ministro, interino, João Batista de Andrade, não teve tempo de fazer nada. O quarto é Sérgio Sá Leitão. Já trabalhou no MinC, nas gestões Lula/Dilma como chefe de gabinete do ministro Gilberto Gil, diretor da Ancine e Secretário de Cultura do Rio de Janeiro.
caos não desapareceu nos escalões superiores, intermediários e inferiores do MinC. Leitão tem medo de ser frito. O MinC não está diferente do Brasil. Cheio de problemas, sofre assédio (palavra da moda) de bons, razoáveis e medíocres artistas, atores, intelectuais, cineastas acostumados a verbas amigas em shows/livros/filmes pelo Brasil afora.
Agora, a contenção imposta pela penúria dos cofres públicos, saqueados de forma vil por maus brasileiros, deveria incluir a proibição da Caixa, BNB, BNDES, Banco do Brasil e similares de patrocinarem tudo, a torto e a direito. Deveriam parar, por tempo determinado, com propagandas nas diversas mídias: dos blogs aos grandes órgãos de comunicação.
Alguém precisa dizer a todos: os cofres estão vazios e as chaves foram perdidas em meio a tormentas financeiras no Brasil, desde o começo do século XXI. Chega de bravatas e de compadrio.

PERSONALIDADES
Michael Jackson
O maior ícone da música pop mundial, se vivo estivesse teria completado no último dia 29, 59 anos. Michael Joseph Jackson, nasceu em Gary, no Estado da Indiana nos EUA. Era o sétimo de nove filhos de Joseph e Katherine Jackson. A família inteira – incluindo os irmãos mais velhos, Rebbie, Jackie, Tito, Jermaine, LaToya e Marlon, e os mais novos, Randy e Janet – viveram juntos em uma pequena casa de dois quartos, e o pai sustentava a casa a duras penas trabalhando em uma usina siderúrgica. Por vontade da mãe, mas contra o desejo do pai, as crianças tornaram-se Testemunhas de Jeová e passaram a praticar a evangelização de porta em porta. De acordo com as regras rígidas do pai, elas eram mantidas trancadas em casa enquanto ele trabalhava até tarde da noite. Entretanto, escapavam frequentemente para as casas dos vizinhos, onde cantavam e faziam música. Os irmãos mais velhos mexiam na guitarra do pai Joseph sem sua permissão enquanto ele estava trabalhando.
Até que um dia Joseph tomou consciência do talento de seus filhos e resolveu ganhar dinheiro com isso, e assim sair de Gary e ir para a Califórnia, para mais tarde serem contratados pela Motown. Assim surgiu os The Jackson 5. Na Motown, Michael e seus irmãos gravaram vários álbuns, o que lhes rendeu fama mundial. Com apenas treze anos, Michael, através dos Jackson 5, havia colocado quatro canções no topo das paradas. Ele iniciou sua carreira solo quando ainda estava na Motown, momento em que lançou 04 álbuns, todos fizeram sucesso mundialmente. Michael Jackson foi o o maior artista de todos os tempos, segundo o Guinness Book por ter vendido incríveis 1,5 bilhões de gravações em toda a sua carreira e se manter nos charts musicais desde 1969. Um dos poucos artistas a entrar duas vezes ao Rock And Roll Hall of Fame, seus outros prêmios incluem vários recordes certificados pelo Guinness World Records, incluindo “O maior artista de todos os tempos” e um para Thriller como o álbum mundialmente mais vendido de todos os tempos – 36 Grammys e 41 canções a chegar ao topo das paradas como cantor solo – e vendas que superam as 350 milhões de unidades mundialmente, Jackson recebeu centenas de prêmios, que fizeram dele o artista mais premiado da história da música popular. Alguns empresários da Sony já registram a incrível marca de mais de 750 milhões de álbuns vendidos à nível mundial, ultrapassando artistas consagrados como The Beatles e Elvis Presley deixando um marco histórico no mundo da música popular. Sua vida, constantemente nos jornais, somada a sua carreira de sucesso como popstar fez dele parte da história da cultura popular mundial. Nos últimos anos, foi citado como “a pessoa mais famosa e conhecida do mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/09/2017.

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O DURO ENCONTRO COM A REALIDADE – Jornal o Estado

“O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer”.
Cacá Diegues
Conheço pessoas inteligentes, lidas, capazes, independentes e até bem-sucedidas, mas, apesar disso, não tiveram a coragem de marcar o encontro com a realidade. Vivem de deslumbramento. São infelizes. Esse encontro real é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro.
Não importa seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, rico ou pobre, hétero ou gay, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo quando alguém ou circunstâncias forçam esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências. Elas nada cobrem e despem até o nu por natureza.
Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. É aquele compromisso definitivo consigo mesmo, referido por Goethe. A partir desse encontro – Goethe diz – começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você. Ele não aconteceria se esse compromisso não existisse.
Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda sem os quais pessoa nenhuma poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo poderá ser alcançado. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia.
Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome e a digital no que você diz e faz conscientemente, assumir o encontro com o destino.
E o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Você e a sua alma são uma coisa só. Uma não existe sem a outra. Como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores. Agora, todos o são. Até os insanos.
A hora do encontro é tempo de cataclismo, e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama (será mesmo drama?), de debochar do seu ensimesmamento (muitos se acham especiais, mas vão morrer) e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade. Ela o levaria irreversivelmente, salvo melhor juízo, para a solidão. Todos estão sujeitos a ela, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro, essa hora do encontro nos mete medo.
É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita acontecer um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, quando tudo ficará claro e nada turvará os seus olhos. Passará a ser o colírio a mostrar o brilho da sua vida. Mas não almeje muito. Balzac dizia: “A glória é um veneno que se deve tomar em pequenas doses.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/10/2017.