Sem categoria

ENFIM, SEX

O título é “Enfim, sex” mesmo. Explico no final.
Foi há muito tempo, no meio da Segunda Guerra que minha mãe resolveu mostrar minha cara ao mundo. Com a festa do meu primeiro aniversário pronta, sendo o primeiro filho, o primeiro neto, o Brasil resolveu complicar: justo no dia decretou guerra às potências do Eixo. Resumo da opereta: a festinha teve como música de fundo o noticiário de um rádio a válvula em que o Presidente Vargas dizia ao povo brasileiro que não deixaria Hitler tomar conta do mundo. Hitler não deve ter dormido e meu pai, no albor dos seus 21 anos, tremia de medo de ser escolhido “voluntário”. Terminada a guerra houve o famoso julgamento de Nuremberg, enquanto isso eu me perdi no centro da cidade, mas soube dizer o meu nome e onde morava.
Prepararam outra festa para mim: a da Primeira Comunhão. Pois não é que a Seleção Brasileira resolveu perder o Campeonato Mundial de Futebol em pleno Maracanã, enquanto aprendia a dizer o ato de contrição e usava um terno de casimira azul com as calças curtas.
Tive meus 15 minutos de glória ao conversar com muita gente importante por aí, mas sempre é bom lembrar a síndrome do cavalo de Napoleão. Quem ficou na história foi o francês e não o cavalo que o conduzia.
Formei-me em pleno alvorecer da Revolução e casei à época do Ato Institucional nº 05. Daí para cá muita coisa aconteceu, o tempo passou ligeiro, mas não o suficiente para me levar muito a sério, do trabalho árduo e sem trégua. Se a vida nos é dada de graça, não há razão para siso. Rio quieto, com medo que pensem que sou doido. Vá lá que eu seja mais ou menos normal, pois acredito ter senso de integridade, fiz muita bobagem e, hoje, como o título de uma velha seção da revista “Seleções”, rio, pois rir é o melhor remédio, Chorei também, lágrimas divididas ou solitárias. . Tive e tenho problemas. Enfim, lágrimas lubrificam. As cicatrizes pensam as feridas, respiro fundo, o oxigênio brota, irrigo sonhos e faço sempre pactos com a esperança.
Bati pernas, muitas vezes, pelo mundo afora, mas sou daqui e aceito críticas, paciência. Procuro ter consciência dos meus erros, purgo minhas culpas e, às vezes, a dor é grande. Tenho medos, mas nunca fugi da luta. Faço força para ser congruente, ponderando palavras e atitudes, o que não é fácil. Quando não dá para segurar, digo o que sinto. Sou amigo, sem efusividades. Não gosto de puxar saco e oba oba. Amei e amo, tenho laços e engodos, sou passado e presente, caminho meus passos arrevesados de canhoto em um mundo destro e, às vezes, tropeço, literalmente. Levanto a cabeça e sigo em frente, sempre consciente das minhas limitações, desimportância e finitude. Tenho bem lembrado um provérbio mexicano: “Pegue o que quiser, disse Deus, mas pague por isso”. Paguei e devo ainda, com a consciência do muito a agradecer.
Mas falei que explicaria o sex. Uma amiga me disse certa vez: gastei muito para fazer plástica, ficar bonita e só encontrei sex. Eu disse que bom, você encontrou um homem sexy. Não, você não entendeu nada, ela respondeu, só encontro homem sex, sexagenário. Pois é, a contragosto meu e alegria, afinal, de amigos, alguns da onça, passo a fazer parte dessa categoria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2001.

Sem categoria

APRENDIZ DE PAI

Fazemos exames para passar a cada ano no colégio, servir ao Exército, entrar na universidade, ter a carteira de motorista, arranjar emprego e tantos outros mais. Para fazer esses exames, nós nos preparamos, estudamos, perguntamos, pesquisamos.
E ninguém faz nenhum tipo de curso ou exame para ser pai, uma das mais importantes funções ou tarefas de nossa vida. Mesmo que se leia alguns livros, somos totalmente despreparados ao iniciar nossa “carreira” de pai.
De repente, se sai de uma maternidade com uma criaturinha nos braços enrolada em panos. Vamos procurando entender seus sinais e movimentos. Entre fraldas e cueiros faz xixi a toda hora, chora quando está com fome ou dor e não fala nada. O pai, esse ser periférico, fica desesperado e tenta conviver com o novo, sem saber direito como proceder. A mãe leva nove meses de vantagem, e são, ela e a criatura, naturalmente, íntimos. Pois bem, o pai vai errando e tentando aprender. Antigamente, existiam as avós, as tias, as velhas e fiéis agregadas das famílias para ajudar, mas a vida mudou e hoje instituiu-se a familiar nuclear e cada um cuida de si.
Depois de muito leite, pediatra, vacinas, papinha, mingau e conversa ta-ti-bi-tate, a criaturinha passa a engatinhar e se meter nos locais mais esquisitos da casa. É um pulo para começar a andar. Com um jeito de bêbado em fim de festa, lá vem a criaturinha rindo até que bate a cabeça na mesa mais próxima. E correndo se vai ao médico que, para completar, nos chama de leigo ou, simplesmente pai, como se isso fosse sinônimo de ignorante.
Afinal, chega o dia da primeira aula no maternal e lá se está a criaturinha com um aparato de farda, pasta, merendeira mais parecendo um escoteiro indo acampar. Há choro na despedida e se fica com o coração batendo acelerado.
Vem a escola de verdade, a seguir, e tome acordar cedo para ajudar a criaturinha a se levantar, vestir a farda, não esquecer do dever de casa, dos livros, do dinheirinho para o lanche e dos pagamentos extras que a escola sempre cobra.
A criatura cresceu, começa a ficar adulta, já tem uma turma de amigos, tranca-se no quarto, coloca o som nas alturas e não quer mais papo com o coroa do pai. Só fala por monossílabos e diz que o pai não entende nada. E é verdade. Então, chega – para quem ainda pode – o tempo de mandar a criatura fazer um desses programas de intercâmbio no exterior e o besteirol começa com as informações dos pais que já mandaram antes, o enxoval e a partida triunfal, rumo à fama e um álbum de fotografia. De repente, um cara que nunca vimos mais gordo, passa a ser “o pai americano” de nossa criatura. Ora, ora. Retorna da viagem, quase sempre, com uns quilinhos a mais, um inglês para demonstração aos amigos e novos cds com música de cantores pops.
Vem o vestibular e a família se transforma. É um clima de guerra. Aulas a toda hora, livros espalhados, choros fora de hora, nervosismo, até que o jornal publica a relação e se a criatura foi aprovada, sobe à condição de herói familiar, digna de todas as atenções e recompensas. A mãe ajuda na cobrança.
A criatura é gente e, como tal, namora, fica, rola, ama, odeia, paquera e ai não se sabe como agir. Hoje, já não se conhece mais o pai ou a mãe da nova companhia da nossa criatura, pois o mundo mudou. O José é José, a Maria é Maria, sem sobrenomes. E, olhar atento, tentando sondar, conversa-se com a outra criatura filha do outro pai, pisando em ovos para não causar melindres.
Uma bela noite, depois de tantos preparativos e crises, a nossa criatura vai casar. É o ciclo natural. Antes de colocar a gravata, olhamos no espelho uma lágrima que cai furtiva misturando sentimentos, trazendo recordações e invocando graças. Tão nova, já casando, é assim que o mundo gira. E o pai, em meio a convidados, é um aprendiz nesse acontecimento gerador, com a graça de Deus, de novas criaturas.
E algumas mães ao lerem este artigo poderão dizer, com razão: estes pais são uns filhos da mãe. Pois é, ainda não aprendemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2001.

Sem categoria

MISTURA DE SONHOS, GENTE E CONCRETO

Ao receber a comunicação do jornalista Luiz Fernando Levy, diretor-presidente da Gazeta Mercantil, de que havia sido escolhido para integrar o seleto grupo representado pelo Fórum de Líderes Empresariais Brasileiros da Gazeta Mercantil, fiquei a um só tempo alegre e preocupado. Alegre, por ter sido um dos três escolhidos, em meio a tantos nomes no segmento de shopping centers espalhados por este país, e, preocupado, por saber da responsabilidade social que essa honraria envolve e me compromete a tentar seguir as diretrizes do empresário Luiz Fernando Furlan, presidente do Fórum e do Conselho de Administração da Sadia S/A.
Desculpem, mas preciso falar um pouco a meu respeito para, quem sabe, justificar a escolha feita pela Gazeta Mercantil. Não é vanglória, é um retrato em sépia de um menino comum que quis ser gente. Toda a minha vida tem sido de bênçãos. Nasci filho de um casal simples, que soube, em meio às dificuldades, criar nove filhos. Sendo o mais velho, misturei, desde cedo, estudo, trabalho e atividades públicas ou de classe. Fiz política estudantil, sem medo, participando de passeatas, congressos, seminários, e cheguei a ser vice-presidente da entidade nacional que congregava estudantes de administração.
Na vida profissional, que já se faz longa, participei, como dirigente e conselheiro, da Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, presidi um Rotary Club, fui Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE); Administrador Notável, escolhido pelo CRA-CE e, hoje, sou diretor e conselheiro de várias entidades de classe e Cônsul Honorário do México no Ceará. Viajei pelo mundo afora com olhar ávido. Inventei-me empresário. Planejei e presto serviços na área ambiental.
Misturei sonhos, gente e concreto e fiz brotar edifícios. Coordenei dezenas de projetos e planos técnicos no Nordeste. Adoro Fortaleza, cidade que me concedeu a sua maior comenda. Leio muito, como curioso que sou, e escrevo desde jovem. Publiquei um livro de crônicas e um de contos. Há anos, escrevo, no Diário do Nordeste, de Fortaleza. Sou especialista em generalidades. Meu foco é a vida.
Isso, de alguma forma, foi dando a mim um sentido do mundo. Tudo sendo feito aos poucos, sem procurar atalhos, pois precisava ter confiança em mim mesmo; senso de humor para rir dos meus erros; um pouco de inteligência para apreender as mudanças; buscar e dar apoio à minha família; sensibilidade para captar nuanças; modelar a auto-estima; traçar objetivos, deixar fluir a imaginação, sem perder o desejo por novos desafios; criar coragem para superar meus medos e dúvidas; ser solidário, respeitando a privacidade do outro, viver Mateus 6: 1-6; motivar-me para ter determinação e não fraquejar e, finalmente, não perder meu senso de integridade.
Esses traços não me fizeram um grande empresário, mas me tornaram ousado para, por exemplo, na área específica de shopping centers, planejar, construir e administrar um centro de compras numa região da cidade de Fortaleza que precisava de uma revitalização urbana e de uma agitação social e cultural que mexesse com os brios de seus integrantes.
Usei, na prática, o que faço na minha vida: negócios, socialização discreta e a busca permanente do conhecimento. Com pouco mais de um ano, o Shopping Benfica polariza atividades de 140 lojistas e é um marco de cultura, além de ter recebido o prêmio padrão qualidade Master Imobiliário, ano 2000, como Shopping revelação, outorgado pelo Sindicato das Empresas de Compra e Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi).
À sua equipe de gestão, aos lojistas e aos clientes cabem a honraria que me foi distinguida. A mim, certamente, o compromisso de tentar aumentar, na convivência com os grandes nomes que integram o Fórum, a consciência social, materializando-a em ações.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2001.

Sem categoria

A NOVA SÃO PAULO

Estou em São Paulo. Meus ouvidos não convivem bem com o tom monocórdio da música baiana que rola aí neste final de semana. Por mais boa vontade que demonstre, não encontro sentido para tanto barulho em uma festa que não tem nada a ver com nossa cultura, incomoda o trânsito, compromete a higiene, causa transtorno a moradores, transformando as frentes de seus prédios em barricadas e é pobre como manifestação popular. O pior é que, quando voltar, ainda estarão armados os camarotes onde pessoas desfilaram suas vaidades. O desarme tem a velocidade inversamente proporcional à da montagem e depende do destino itinerante desse circo. E os canteiros ficam servindo de depósitos, enquanto os operários armam suas redes nas árvores e caminhões gigantescos atrapalham o trânsito.
Como sou curioso, estou conhecendo essa região nova que fica para os lados de Santo Amaro, uma avenida com o nome pomposo de Nações Unidas, por abrigar multinacionais e pretensões de ser uma espécie de Av. Paulista do século XXI. Sou um estranho em São Paulo pela falta de um mar que dê referência. Já vim dezenas de vezes e nada de saber direito onde ficam os lugares aonde tenho de ir. Em alguns bairros ainda me mexo, noutros fico igual a cego em tiroteio. Poucas vezes atrevi-me a dirigir em São Paulo.
O trânsito é lento, agora que as peruas clandestinas perderam o medo de competir com os ônibus e táxis. Em toda esquina tem vendedor ambulante e flanelinha. A maioria com cara de nordestino e se abriga deste frio de fim de julho com agasalhos velhos. Jovens com pouca esperança, mas com risos nos lábios e as mãos cheias de quinquilharias para vender a motoristas amedrontados – com os vidros dos carros fechados – enquanto o sinal, que é conhecido aqui como farol, fica vermelho. São os “baianos” daqui, o nosso produto de exportação mais conhecido e discriminado, fruto de uma região que conviveu de forma passiva com políticos salvadores de uma pátria especial, a deles, e esqueceu dos incautos eleitores, até que a miséria os enxote para as cidades grandes e, muitas vezes, à delinquência.
Mas, falava que estava me sentindo estranho e é verdade. Há hotel com campo de golfe, passo por um centro de convenções bonito e moderno e vejo o nome: Credicard Hall. Mas, ali perto, tem uma favela que se multiplica a cada dia. Acho que é um subproduto da nova globalização que nos impele a aceitar, goela abaixo, o que a mídia e as grandes empresas impõem com seu poder e tentáculos. Somos todos marionetes nesse jogo em que a regra é não ter regra e isso fica patente aqui em São Paulo, uma cidade dividida em guetos e amedrontada pelo paradoxo de sua pujança e pela miséria avizinhada e visível. Paro um pouco para pensar e concluo o óbvio: as grandes cidades brasileiras não são diferentes de São Paulo. Fortaleza está tão desumana quanto. A única diferença é que os estrangeiros ainda estão chegando por aí e vindo, parece, com vontade de ficar. São recebidos com festa, têm direito a financiamentos, gostam do sol, do mar, da mão de obra barata, mas não têm sonhos, têm metas.
Vou procurar o José Simão, talvez, como diz ele, seja preciso um colírio alucinógeno para não ver e sentir como será o futuro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2001.

Sem categoria

DRAMAS PARA GOVERNANTES

José veio do interior e mora em uma favela. A duras penas, por ser analfabeto, conseguiu um emprego na área da construção civil. Com dificuldades, luta para manter a mulher e quatro filhos, um deles com desnutrição crônica. Saía de casa ao raiar do dia e ia de bicicleta para o trabalho. Trocava os vales transportes por comida, mas anda triste e preocupado, pois já foi assaltado duas vezes ao sair do caixa eletrônico onde a firma em que trabalha, por segurança, deposita o seu salário mensal. Na última vez, além do salário, roubaram sua bicicleta. E o que é pior: ouviu do mestre de obras que a construtora está falindo porque não vende os apartamentos e não recolhe o FGTS há quatro meses. Se ficar desempregado, o que vai fazer?
Raimundo é policial e separado. Dá 30% do que recebe à ex-mulher e hoje vive com uma prima que era mãe solteira com dois filhos. Comprou uma casinha financiada cujas prestações estão atrasadas há seis meses. Recebeu uma notificação para pagar o atrasado em dez dias ou será despejado. Sai para o trabalho com um revólver na cintura e mil problemas na cabeça. Não sabe como sair dessa situação e não vê como proteger os cidadãos (palavra que aprendeu em um curso de relações humanas), o que tem que fazer por dever de ofício, pois se sente totalmente desprotegido e triste. Há horas que dá vontade de “fazer uma besteira com o revólver”.
Marcos entrou no banco como contínuo. Estudava à noite e terminou, com a ajuda da família, um curso superior que lhe deu direito à progressão no trabalho até chegar, depois de muitos anos, ao cargo de gerente de agência. Foi uma alegria, chamou os amigos e tomaram cerveja até o raiar do dia. Mudou de casa, comprou um carro de consórcio e matriculou os filhos em uma escola pública perto de onde mora. Sua mulher faz doces e salgados para ajudar a renda familiar. Há alguns meses, Marcos recebeu um telefonema de sua mulher: ou ele dava o que tinha no cofre do banco ou ela e os três filhos seriam mortos por dois bandidos que invadiram a sua casa. O comparsa estava defronte ao caixa 3 de paletó e gravata amarela. Pensou e entregou os 45 mil – que arrecadou nos caixas, assinando guias de retirada – ao bandido que saiu rindo e em passo normal. Hoje, tenta se livrar de um processo como autor intelectual do assalto e foi sumariamente afastado da gerência.
Sérgio é sócio de uma empresa. Começou a trabalhar desde menino. Poupava quase tudo que ganhava. Era diligente, inteligente e não media esforços em descobrir alternativas para vencer na vida. Fez do trabalho a sua meta e conseguiu, já maduro, um nível de renda acima da média. Nunca badalou em festas, não frequenta clubes e, quando muito, vai a um restaurante do bairro com a família nos fins-de-semana. Recentemente, após demitir um empregado por justa causa recebeu uma carta anônima ameaçando-o de sequestro. Não queria fazer ligação dos fatos, mas foi aconselhado por precaução a levar a carta anônima à Polícia. Carta anônima não é prova, disseram. Perguntaram se queria fazer uma representação contra o ex-empregado. Pensou duas vezes e disse não. Hoje é um homem amedrontado, pois não sabe quem o quer atingir. Carta anônima não é prova é uma frase que fica martelando em sua cabeça. Conversou com a mulher e os filhos para terem cuidado, mas anda sem ânimo, infeliz e começou a tomar antidepressivos. A mulher reza e chora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2001.

Sem categoria

MOREIRA REDIVIVO

Quando leio o endeusamento de alguns críticos literários do leste e do sul a Rubem Fonseca sobre “Secreções, Excreções e Desatinos”, tenho saudade de Moreira Campos. Fico, igualmente, desapontado ao ver que na seleção feita por Ítalo Moriconi, integrante do Instituto de Letras da UERJ, para “Os cem melhores contos brasileiros”, não consta nenhum de Moreira Campos. Não importa que não tenha embasamento teórico para desancar ou elogiar alguém. Mas, seria a banalização da violência e a estética dos dejetos orgânicos o produto requintado de Fonseca?
Retorno ao dia 12 de junho de 1995, quando em que publiquei neste Diário do Nordeste o artigo “Moreira Campos e o Silêncio”. Nele, respondia a Carlos Emílio Correia Lima que, indignado, reclamava do silêncio da crítica literária brasileira ao registro da morte de Moreira Campos. Eis um trecho do que escrevi à época: “Não bastam o nosso ufanismo e a consciência de que se cometem injustiças contra nossos autores. É preciso muito mais. É importante que saiam de seus casulos, de suas trincheiras e batalhem no campo minado que é o mercado editorial”.
Tenho a mesma opinião sobre o assunto. Os culpados, quem sabe, sejamos nós, leitores e autores cearenses, que acendemos um pseudo holofote em terra que se pretende da Luz, mas sofre, a terra, há muito de um apagão auto crítico, pela vaidade provinciana e pelo medo de enfrentar o rito de passagem que é o de procurar ser alguém fora do útero do Ceará. Por essas razões, Natércia Campos, Carlos D’Alge e nós, resolvemos reunir, conhecedores da obra de Moreira Campos, carente de mais divulgação. Descontadas as vaidades de alguns poucos, eclodiu, um alerta e um chamamento a quantos se fecham em suas igrejinhas e convescotes, aos ecos dos próprios escritos e vozes aliadas a um gestual estudado, para uma abertura que contemple até o paradoxo e a humildade de se discutir literatura dentro dos limites de Cine-Teatro Benfica. Acontece que esse cine-teatro foi fincado no mesmo chão em que Moreira Campos mourejou seus escritos. Seria, quem sabe, uma estrutura geológico-literária única a fazer brotar centros de conhecimento. A casa de Moreira Campos foi inundada por estudantes, desejosos de ser alguém. Quem sabe, um novo Moreira Campos.
Isso tudo não me faz cair no exagero de dizer que Moreira Campos seria um Hemingway brasileiro, mas me atrevo a afirmar que ele deve estar no podium, sem medo de ultrapassar, entre outros, os mitos Dalton Trevisan e Rubem Fonseca.
Vou buscar em Hélio Pólvora a gênese do crescimento de Moreira Campos, em que identifica sinais de Graciliano Ramos em Vidas Marginais, de 1949. Mas, é o mesmo Hélio Pólvora quem solta o rastilho da libertação literária de Moreira Campos, na arte de sintetizar o núcleo ficcional. Segundo ele, o Mestre Moreira Campos, poderia manter como divisa de sua arte a observação de Gorki a Thekhov: “também sei que você é um homem a quem basta uma palavra a fim de criar uma imagem, uma frase para armar um conto – um conto maravilhoso que desce às profundezas e significados da vida, tal como uma perfuradora que penetra na terra”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/07/2001.

Sem categoria

CRACK E O BRASIL – Diário do Nordeste

Falar de “crack” não é assunto agradável. Acontece que o Brasil está perdendo boa parte de sua juventude para as drogas. O “crack” é uma delas e, certamente, das mais perigosas. O verbo inglês “to crack” significa quebrar. Daí o nome da droga, pois surgem pequenos barulhos -ou quebras – quando os cristais são queimados. Seria uma espécie de pipocar. O “crack” brotou nos anos 80 nos Estados Unidos e seu uso, inicialmente, atendeu as classes mais pobres que não podiam consumir cocaína. Ele é produzido de forma simples, a partir da mistura da pasta impura da cocaína, bicarbonato de sódio e água, como elemento agregador para formar a “pedra”. Os especialistas dizem que o crack – depois de queimado e aspirado em cachimbos, latas de bebidas furadas e afins- atinge o sistema nervoso central em dez segundos. Daí o sentimento imediato de euforia que dura, no máximo, dez minutos. Após a euforia, vêm a depressão e crises de paranoia, induzindo o usuário a voltar a tomar. Cria-se o círculo vicioso e, rápido, a dependência se instala. Ao ser inalado ou fumado, o crack aumenta a temperatura do corpo e pode, inclusive, ocasionar AVC- acidente vascular cerebral, destruição de neurônios e degeneração da massa muscular, pois inibe a fome e causa insônia. É comum que o já viciado se torne violento com familiares e passe a praticar furtos e delitos para conseguir comprar a droga que “repõe a sua energia”. O Brasil tem milhares de dependentes. Em qualquer cidade se vê, em todos os cantos, a fortuita brasa vermelha que é consumida por grupos de jovens formando uma espécie de círculo. A cidade de São Paulo tem a “Cracolândia”. Lá, dia e noite, comercializa-se essa e outras drogas. Agora, o prefeito Gilberto Kassab, tenta apelar para a prisão dos viciados que não aceitam o tratamento com abstinência. Falta, dizem juristas, amparo legal, pois isso cerceia o direito de ir e vir, assegurado pela Constituição. Em Fortaleza, de janeiro a maio deste ano, foram realizadas 1.611 operações de apreensão de crack, com um crescimento, em relação ao ano anterior, de quase 50%. Você está atento ao problema? Conhece algum usuário de crack? Faça a sua parte.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/06/2001.

Sem categoria

ANALISTA OU MÉDICO?

A palavra psicossomática é pré-freudiana. Foi utilizada pela primeira vez por Helmhotz, em 1818. Ora, se já há quase dois séculos se conhece esse vocábulo, por qual razão não há um consenso sobre o que realmente significa?
Sendo simplista, bastaria darmos uma olhada no Dicionário do Aurélio: “Psicossomático (De psic.(o)+ somático. Adj.1. Pertencente ou relativo, simultaneamente aos domínios orgânico e psíquico. 2.Diz-se das perturbações ou lesões orgânicas produzidas por influências psíquicas (emoções, desejos, medo etc).” A úlcera gástrica é, por exemplo, muitas vezes, uma lesão psicossomática. Seria simples.
Ocorre que nada na vida é simples, por sermos complexos, apesar de singulares, e isso nos leva a entender, na nossa visão de eternos e curiosos estudantes, que muitos já tentaram conceituá-la, defini-la, metodizá-la, mas como há correntes que pensam de uma forma e outras que se lhe opõem, ficamos tateando para descobrir a verdadeira essência dos conceitos psicossomáticos.
Permitimo-nos, pois, dizer que a psicanálise teve – e tem – uma contribuição muito grande a oferecer na área do tratamento psicossomático, a partir da sua ação como método terapêutico das neuroses, da investigação da personalidade, com resultados que propiciaram melhorar os acompanhamentos psicológicos, do uso da psicologia em função do inconsciente (o que enseja interpretar sintomas físicos) e, finalmente, do estudo das relações de objeto, cuja forma transferência-contransferência tem mostrado soluções para as questões entre paciente e analista.
Poder-se-ia dizer que tudo isso seria, em sentido amplo, o conceito de psicossomática. Ou não seria?
Abram Eksterman, in Medicina Psicossomática no Brasil, considera que ela é “uma nova visão da Patologia e da Terapêutica, tornando possível o axioma antropológico do objetivo médico”. Vê-se, aí uma condição restritiva, já que só o médico teria esse objetivo. Por qual razão, indagam os outros psicanalistas?
Muitos profissionais não médicos, que a cada dia aumentam, questionam essa restrição e dizem ser preciso não confundir psicanalista com psiquiatra. A psicanálise, como todos sabem, é um método terapêutico que mexe com o inconsciente para curar desordens nervosas ou neuroses. A psiquiatria cuida das doenças mentais em geral.
Afirmam os não médicos que o psicanalista tem um foco único e o psiquiatra seria um generalista das doenças mentais. Um amigo psiquiatra que prefere ser chamado de psicoterapeuta, rebate e diz que psicanalista não cura, apenas identifica o mal ou males. Segundo ele, a interação bio-psico-social é quem resolve, de verdade.
Por outro, os psicanalistas não médicos acreditam ter formação e competência para cuidar das neuroses, inclusive de médicos, sem precisar de drogas, mas usando a ciência, arte e a técnica que aprenderam.
Brigas à parte, é preciso que cada paciente e a sua família saibam exatamente o que procuram e quem encontram, pois como se diz “de médico e de louco, todos temos um pouco”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/06/2001.

Sem categoria

RABUGICE OU MATURIDADE?

Enquanto escrevo esta crônica estou ouvindo Carmina Burana. Para o meu ouvido leigo são sons ininteligíveis, mas o crescendo melódico me agrada e dá uma sensação de que as pessoas, especialmente os artistas, são bem maiores que a mediocridade reinante em grande parte das rodas.
Há pessoas que não crescem. Até estudam, alguns viajam, frequentam, podem até amealhar, mas são de uma pequenez facilmente desnudada em gestos, em demonstrações pueris e pelo entorno de suas vidas. Imagino se deve encher o saco ser-se vazio, não ter a capacidade de privar do isolamento, do silêncio prazeroso, do livro degustado palavra a palavra, da música enternecedora, da bebida sem culpa e sem vício e do conversar sobre fatos e não sobre fotos ou fofocas.
Faz tempo, muito tempo, que perdi a ilusão da unanimidade. Faz tempo, bastante tempo, em que admitia ser capaz de ter muitos amigos, Hoje, quero-me privando de poucos e privado dos muitos que frequentam ou bordejam os acontecimentos, pela simples incapacidade de não poderem ficar a sós com os seus ais.
Para esses, é preciso sair de casa, aparecer, ser visto, rir para desconhecidos ou fotógrafos, colecionar recentes amigos de infância e cortejar poderosos. Não importa se compram ou não quadros, leiam livros ou não, sejam distantes do falecido ilustre ou dos patrocinadores da festa badalada. O que conta é a presença a qualquer acontecimento. É dizer: eu fui, eu vi, eu estava lá, como se alguém se importasse com isso.
Pode ser casmurrice, rabugice e chatice. Vá lá que seja, mas não me compraz a alegria encomendada, gente disfarçando suas (in)diferenças em postura de conveniências, conversas inconsequentes em que, por exemplo, autores tipo Paulo Coelho são citados como arautos da sabedoria e pessoas são bajuladas, como se fossem senhoras do mundanismo, pelo capacidade de registrar o vazio de puxa-saquismos explícitos ou disfarçados.
Não vou modificar o mundo, sei disso. Ninguém pode, todavia, conduzir-me ao bloco dos que aceitam tudo isso como natural. É ruim ver a falsidade como característica da personalidade e a maledicência como divertimento. Recuso-me a participar do que não me agrada. Tenho pouco tempo para concessões e devo respeito a mim mesmo, com quem convivo 24 horas por dia. Não me queiram mal por falar o que sinto, sinto muito, mas sentiria muito mais se, para agradar, me visse rindo do que não gosto, convivendo com quem não prezo, aceitando convites impessoais, batendo palmas sem vontade.
Tudo isso pode ser rabugice, repito. Mas, quem sabe, possa até ser um privilégio da maturidade, em que nos aceitamos como somos e nos permitimos cometer erros, inclusive este, de dizer o que se pensa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2001.

Sem categoria

ÂNGELA

Acasos acontecem? Justo no instante em que pretendo sair, ocupado e apreensivo, ponho meus olhos (não me liberto do vício de ler até nessas ocasiões) em texto de Jorge Medauar: “tanto entendo um gemido de criança como o soluçar oculto de um avô”. Do mesmo Medauar, como por magia, leio em seguida: “Bem sei que por misteriosos laços, minha vida na tua está contida. E quando me descubro nos teus traços, quero que tudo em mim renasça e viva”.
Deus sabe que foi assim. Entre o banho corrido e a saída para o hospital, eis que me deparo, sem querer, com esses textos do escritor consagrado Jorge Medauar. Não procurei, não pedi, não pesquisei. Eles vieram ter às minhas mãos, exato naquele instante, talvez por uma fada madrinha, acolitada pelo acaso.
Foi precedido e acompanhado pelo eco do que li, que me dirigi, banhado e de olhos brilhando, ao hospital. Como se o mundo não tivesse pressa, fico preso em um engarrafamento e me contento em pensar e orar sem orações, se é que tenho direito, por Alessandra, minha filha primeira, que vai parir pela primeira vez. Seria um parto normal, mas, decorrido o prazo, não houve a dilatação e o tempo urge.
É começo de noite, céu estrelado e corre uma brisa junto ao mar. O engarrafamento persiste. Enquanto os carros buzinam, como se dissessem: “tem alguém com pressa aqui, deixem passar”, lembro do dia 24 de setembro de 1971 quando Alexa veio ao mundo com seus olhos miúdos, feições finas e bonitas, para dar luz à minha vida. Pois hoje, tantos setembros passados, lá vai de novo, Alessandra, colocar mais um pouco de luz em meu caminho.
Saio do engarrafamento (era um carro de resgate de bombeiros) e consigo chegar, a tempo, ao hospital. Quarto repleto: mãe, irmãs, marido com sua família, e amigas. Todos, em um tagarelar nervoso, próprio dessas ocasiões.
Ela, a futura mãe, está tranquila, bonita com seus fartos cabelos soltos e com um sorriso especial, devolve o meu beijo e responde ao meu abraço, como a dizer: vai dar tudo bem. E lá se vai ela de maca acompanhada pelo séquito da afetividade e eu me quedo sozinho no quarto que lhe dará o atestado de mãe. Corro os olhos pelo quarto e sorrio vendo que trouxeram o aparato que conheço tão bem.
Não conto os minutos e, de repente, lá vem Ângela, a neta tão esperada, ainda nas mãos do pediatra. Não me rendo aos carões, e mesmo com a fé que não tenho de todo, faço um sinal da cruz em sua testa. Quero lhe dar as boas vindas a este mundo e palavras não fazem sentido. Um gesto, sim.
Mãe e filha estão nos braços uma da outra. Agora, todos riem, alegres, filmando e fotografando. A anestesia fez sua parte e Alessandra diz: “quero ter todos com cesária”. É uma definição de futuro. E eu, lá dentro do que tenho de mais profundo, misturo graças e sorrisos ao “soluçar oculto de um avô”. Deus te abençoe, Ângela.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2001.