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TEMOS MEDO

Aproprio-me do trecho inicial de “A Casa”. Da escritora Natércia Campos: “Fui feita com esmero, contaram os ventos, antes que eu mesmo dessa verdade tomasse tento”. Hoje, as casas feitas com esmero estão sendo abandonadas e demolidas, tudo em nome do medo e em busca da segurança perdida.
Fui, como a maioria das pessoas, criado em uma casa. As casas tinham jardins e quintais, mas não possuíam grades, alarmes, câmeras, cercas elétricas e vigias. Eram, simplesmente, casas.
Hoje, quase todos fogem de casas. Minha mãe ainda resiste. Mora, cercada de plantas, em uma casa toda gradeada, trancada e encadeada. Tem medo, mas gosta de mexer em jardim, criar um pequeno e inofensivo cão e colher umas poucas frutas de seu quintal. Já sofreu pequenos furtos, mas ainda não foi vitimada por violências comuns às grandes cidades. Ela resiste e nós, seus filhos, temos medo.
Temos medo, não por paranoia, mas pela violência e consciência da degradação urbana a que somos submetidos por nossas ações predadoras e por omissões de cidadania. As grandes cidades brasileiras estão mostrando a face crua do desaparelhamento policial, do descompasso da distribuição de renda e do desemprego oriundo de uma economia que não tem mais sua sustentação no trabalho. Por outro lado, a “delinquência romântica” cedeu lugar aos assaltos planejados, aos sequestros e a uma corrupção tão forte que cria a sua própria teia de autossustentação.
Em “Morte e vida de grandes cidades”, Jane Jacobs (Ed. Martins Fontes) diz que: “É inútil tentar esquivar-se da questão da insegurança urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como pátios internos ou áreas de recreação cercadas. Por definição, mais uma vez, as ruas da cidade devem ocupar-se de boa parte da incumbência de lidar com desconhecidos, já que é por elas que eles transitam”.
Um dos males das grandes cidades é que nós não estamos acostumados a lidar com desconhecidos. Fomos todos acostumados a saber quem são as pessoas que encontramos no trabalho, no lazer e nas ruas. Hoje, isso é impossível. Vá a um cinema, teatro, igreja, loja ou restaurante e verificará como tem gente desconhecida. O desconhecido nos mete medo.
Jane Jacobs, por outro lado, critica os urbanistas que advogavam a recuperação de áreas urbanas com a construção de apartamentos ou conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda. Segundo ela, “tornaram-se núcleos de delinquência, vandalismo e desesperança social generalizada, piores do que os cortiços que pretendiam substituir.” Seria a institucionalização de uma apartação social garantidora da ordem urbana?
Creio que a insegurança pública é bem mais profunda e é fácil – e simplista – culpar somente o poder público. Ela, a insegurança, nos deve remeter à discussão urgente do nosso descomprometimento social. Não é o ato de pagar impostos que nos exime de uma responsabilidade solidária. Temos medo sim, da insegurança e da violência, mas nos constrange dizer que temos mais medo de uma sociedade alienada que está medindo seu poderio pelo gasto com segurança privada quando não percebe o caos social gerado por sua indiferença.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2001.

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SARAMINDA E SARNEY

Saraminda, o novo livro de José Sarney, prova que ele não é bem normal. É preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a criação de um realismo fantástico (“Você não está morta? Aqui todos morrem e vivem”.) com uma latinidade tão clamada pelo mexicano Carlos Fuentes e que o escritor brasileiro, via de regra, não costuma exercer.
Falar de comida (“Um brochete de rabo de jacaré, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois”), moda (“O vestido tinha a saia comprida, de pregas que caíam da cintura e eram acompanhados pelas dobras até a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas também rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas além da cintura, ladeadas por duas fileiras de botões cobertos de cetim e pequenos bordados”) e de uma guerra que não houve entre o Brasil e a França pelo território do Amapá (“acabo de saber que a França perdeu estas terras que agora são do Brasil. Foi uma decisão da Suíça. Amanhã, só vai haver uma bandeira, a do Brasil”).
Saraminda sugere que José Sarney não é político comportado, pois expõe, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo (“Nela o sangue bretão, judeu, índio, banto misturou-se ao longo dos séculos, concentrou-se nos olhos, afinou os lábios, alongou-lhe o pescoço, deu-lhe sorte e sedução”), a faceirice ( “Eu quero que você tenha alegria e felicidade. Prazer de coisa de amor de gente que se junta… Quero que você receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli”), as falas (” Seu Cleto, me trate com respeito. Não sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha”) dessa mulher tão simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela Sônia Braga dos áureos tempos.
Saraminda induz que José Sarney não é rico. Se o fosse não descreveria com tanta paixão a avidez dos garimpeiros, a cobiça (“O garimpo é de uma solidão imensa. Quando a gente olha, parece que não é no mundo. O ouro não tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele está”) e a luxúria (“tive vontade de beijar, beijar com força, ficar deitado nele, mas me controlei, não dei modos para não verem onde estava minha bestitude”) que o ouro ( “Não achei que fosse ouro, de tão feia, e pude então compreender que a beleza do ouro está nos homens”.) exerce sobre a razão e o imaginário de pessoas rudes com estéticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses.
Saraminda revela que Sarney não é romancista. É um espécime novo, um poemancista com imagens (“Na casa de sombras, era o remoer da lembrança que alimentava os fantasmas”) e figuras (“Era um brinquedo muito triste esse jogo de gostar”) dignas, quem sabe, de um Jorge Luís Borges.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2001.

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O APOSENTADO E A SENADORA

A era do pecado explícito americano terminou ontem. Hoje recomeça o moralismo rico, branco, anglo-saxão e protestante. Terminou a fase do tocador de saxofone. Meio desafinado talvez, mas com as bochechas cheias de ar que se transformavam em foxes e blues sincopados que muito têm a ver com os negros e a mãe África, berço gerador de parte da musicalidade que tomou conta dos microfones de Nova Orleans, Menphis e da Nova Iorque de tantos ritmos e melodias e se espalhou pelo mundo.
A era dos charutos cubanos pitados escondidos desaparece em meio à fumaça do tempo. O que talvez se verá na era de moralismo emergente será a fumaça do bom juízo. E o rapaz, apesar de ter sido um grande advogado e da posição que ocupava, não conseguiu se livrar de grandes questões judiciais que ainda ameaçam ser reativadas. É o ônus de sua vitalidade. Nascendo pobre em uma pequena cidade chamada Esperança (Hope), acabou dando no que deu.
A era dos olhares cúpidos chegou ao fim. O homem que, mesmo conduzindo a maior economia do mundo, não deixava de fixar olhares em rabos de saia e andou se metendo com muitas mulheres, embora sabendo da fera que tinha – e tem – ao lado. Fera adormecida que hoje é senadora e pode passar a rugir.
Ele é hoje um aposentado de luxo aos 54 anos. Sai do Distrito de Colúmbia e vai morar em um subúrbio luxuoso de Nova Iorque. A partir de agora e pelo resto da vida, como pagamento do que fez nos últimos oito anos, ganhará bem. Cerca de 25 mil reais por mês, mas tem contas a acertar com advogados que o defenderam por honorários milionários. Talvez por causa de tais dívidas aceite receber um adiantamento de 5 milhões de dólares por sua biografia. Já disse que não usará de escritor-fantasma e mostrará o que a moral americana tem olhos para ler sem arregalá-los mais do que deve.
Esse hoje aposentado – ainda com muito gás, diga-se de passagem – cometeu muitos erros, apoiou governantes que se tornaram corruptos, aumentou o protecionismo, deixou de ajudar nações pobres que deveriam ter sido mais assistidas, lançou mísseis sobre alvos civis, tentou celebrar pazes entre povos sem êxito, mas teve o mérito de reconhecer erros e, por incrível que pareça, propiciou a criação de 22 milhões de novos empregos e fez voltar a autoestima de um povo que não comprava mais nem os carros nacionais.Não foi, nem é e nunca será um anjo, mas desmitificou o salão oval da Casa Branca, tornando-o um lugar comum, com o pecado trabalhando ao lado. É um homem do Século XX, que parece ter sido, para alguns, apenas o século dos erros, comuns a todos os mortais pecadores, sem o que não necessitaríamos de perdão da divindade superior.
AGRADECIMENTO: Durante anos escrevi, uma vez por semana, neste espaço. Peço desculpas aos leitores pelas crônicas que não agradaram. Afinal, foram algumas centenas. Resolvi, por decisão pessoal, dar um tempo e deixar de escrever com regularidade. Poderei voltar a fazê-lo sem a obrigação semanal. Aos raros e caros leitores e aos que fazem o DN, muito obrigado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/01/2001.

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INTELIGENTE

Às vezes me acho meio burro. Não adiantou nada ter feito alguns testes de Q. I. e saído feliz com os resultados. Não valeu ter alisado, por muitos anos, carteiras escolares. A certeza da minha burrice parece ser procedente. Não é conversa fiada. Ela se baseia na constatação de que não tenho capacidade para entender determinadas coisas neste nosso querido Brasil. Cinco exemplos.
Primeiro: Leio estarrecido que o governo já emprestou R$ 2,4 bilhões às empresas de telecomunicações privatizadas. E não fica só nisso, vai emprestar – ou já o fez – mais R$ 7 bilhões. O total arrecado com as vendas foi de R$ 22 bilhões. Se emprestar 9,4 bilhões, os grupos compradores terão recebido 42% do total da compra. Ora, se o governo vendeu para se livrar de um problema (?), como financiar, se todo o santo dia pede dinheiro emprestado aos bancos?
Segundo: Qualquer pessoa medianamente esclarecida sabe que os bancos têm no governo a sua maior fonte de receita: segura, não discute preço e sempre quer mais. Se o governo não tem dinheiro, reclama com o novo mínimo de R$ 180, como é tão liberal em facilitar a vida de grandes empresas que fizeram cadastros, disputaram licitações em que se diziam fortes financeiramente e estavam capacitadas a assumir o controle das empresas privatizadas? Além disso, o valor pago como ágio na ocasião das compras das teles poderá ser abatido do imposto de renda a pagar.
Terceiro: Alguns membros do Governo eram dirigentes de bancos e de empresas internacionais com salários mensais superiores, afora despesas pagas, lucros e gratificações anuais, em média, a 20.000 dólares ou 40 mil reais. Por patriotismo, passam a trabalhar no governo com um teto de 11 mil reais. Usam ternos e complementos importados, viajam para o exterior com regularidade e alguns mantêm dupla residência. Aqui e fora do país.
Quarto: É simples saber que um hospital não pode sobreviver com os valores que o Sistema Unificado de Saúde (SUS) paga. O governo continua fazendo de conta que está pagando correto, os hospitais dão um jeito para sobreviver – enquanto muitos pacientes morrem – com os atrasos, preços defasados e os médicos obrigados a ser ubíquos. Enquanto isso, os remédios custam, às vezes, no Brasil mais do que nos países – do Primeiro Mundo – sedes dos laboratórios. Por outro lado, umas farmácias dão 25% de desconto e outras dizem que, em nome da ética, não podem dar desconto algum. Dá para entender?
Quinto: As eleições municipais passaram. Quase todos os municípios brasileiros referem estar falidos, com dívidas maiores que suas capacidades de pagamento. Os prefeitos eleitos ou ré já se dizem injustiçados pela imprensa, desgastados com o funcionalismo, pressionados pelos credores, alguns são investigados por Cpis, cobrados pelas famílias e com um estresse enorme. Nem por isso, a grande maioria deixou de se (re)candidatar, sofrer, gastar muito dinheiro, comer maioneses, discursar em palanques, abraçar crianças, cantar o hino nacional de mãos dadas com familiares e correligionários que, em breve, poderão se tornar adversários. Dá para ser inteligente?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/01/2001.

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VIAGEM PELO SÉCULO XX

Nasci no ventre da Segunda Guerra Mundial. Começava a redemocratização brasileira e aprendia a escrever com a mão canhota. No suicídio de Vargas ainda vestia calças curtas, mas lembro do espanto geral, do feriado forçado e da crise gerada. Com a eleição de Juscelino, em 1956, o Brasil foi recuperando a autoestima até que um porre e/ ou a loucura de Jânio, em agosto de 1962, fez surgir a “Cadeia da Legalidade” pedindo a posse de João Goulart, que passeava na China, às nossas custas.
Em julho de 1963, por um desses acidentes da vida, presenciei a luta por direitos civis na marcha dos negros sobre Washington, sentindo de perto – e ao vivo – a energia contagiante de John Kennedy. No dia 01 de abril de 1964 amanhecemos sem saber de nada e, logo após, euforia de um lado e medo espalhado no meio universitário, tão idealista quanto desinformado. Em outubro de 1965 vi, em Roma, o funcionamento do Concílio Vaticano II e pude participar, graças a um parente bispo, de uma bênção apostólica de Paulo VI.
Em julho de 1969 estava no Rio grudado em uma televisão vendo Neil Armstrong andar na lua. Presenciei no Maracanã, nas eliminatórias da Copa de 70, ao jogo Brasil 1 X Paraguai 0, em que aconteceu o seu recorde de público, quase 200 mil pessoas. Em setembro de 1973 participava de um congresso em Lima quando derrubaram Allende. Não tive dúvidas, fui à Santiago do Chile ver os estragos feitos à democracia e ao Palácio presidencial.
Com um grupo de amigos, me aventurei a tomar, em Estocolmo, um trem superlotado para ver o fenômeno do sol da meia-noite em Narvik, no Círculo Polar Ártico. Foi impressionante ver um dia com 24 horas de duração sem resquícios de noite. Quando Nixon foi defenestrado, em 1974, da Casa Branca veio parar com os costados em Paris onde, por coincidência e com a presença do José Rangel, ficamos em um café do Champs Elisée. Mais uma vez, em 1989, me protegia do frio outono alemão na casa de uma irmã quando caiu o Muro de Berlim, em meio a comemorações improvisadas mostrando o outro lado e o portão de Brandemburg, que já conhecera, não sem antes ser revistado por policiais orientais e farejado por cães treinados.
Tive que ir a Hong Konk exato em 1994, ano em que ela se despedia da Coroa Inglesa e a festa do Dragão mostrava a cultura, a ascendência e a vizinhança da China do outro lado das montanhas. Era visível o mal-estar dos ingleses de Hong Kong com a perda – mesmo bem negociada – de um de seus mais rentáveis negócios.
Passei uma semana em Israel em meio à Intifada e pude sentir que, pelo menos para mim, não adianta alguém pensar em solução negociada para a luta entre árabes e judeus. Tenho uma teoria meio absurda sobre a solução desse conflito. Ela se baseia na miscigenação das raças, pela proximidade e o jogo de sedução e medo que os rebeldes árabes exercem sobre as mulheres de Israel e, igualmente, o despudorado assédio dos soldados israelenses sobre as jovens dos territórios ocupados. Os filhos dessa zorra poderão gerar a paz.
Do que vi no Século XX, para mim tão rico e contraditório, é o que cumpre destacar pois contextualizado, correndo o risco de parecer cabotino, mas o silêncio sobre esses fatos poderia ser, mesmo agora, um deslize maior. Corro o risco, mas viver é correr riscos, como já se sabe.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/01/2001.

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O NATAL E A FOME

Fala-se em Natal sem fome. Pensa-se que um, dois ou cem quilos de alimentos aplacam nossa consciência. Cuida-se que um cartão de Natal nos redime dos esquecimentos do ano todo. Pensa-se tanta coisa nesta época. E até se pensa que só agora é preciso pensar mais nos outros. Entender, por fim, que a vida é uma sucessão de elos nos tornando brutos ou gente. Tenta-se usar um spray que espalhe pelo ar a fragrância da fraternidade e, ao mesmo tempo, estanque a dor de tanta gente querida. Gente que está aqui lutando para viver, em meio às apreensões e dúvidas do dia a vir.
A fome não se aplaca com meros quilos de alimentos de segunda. A fome só acabará com atitudes de primeira. Menos melodrama e mais consciência. Menos espetáculo e mais ação. Vivemos num mundo em que se gasta mais na mídia para se dizer que se construiu uma creche que o valor da própria creche. É preciso dar um fim ao mundo do faz-de-conta e viver num mundo em que o outro é quem conta. Não importa o que vai ao ar ou fica escrito, importa o que faço pelo outro, sem que ninguém veja ou saiba. Sem o estardalhaço da fraternidade religiosa ou midiática. É dentro de nós que a fome de aparecer tem que começar a acabar. Tirar das entranhas dos nossos sentimentos as respostas ao bem-querer verdadeiro, em que o outro não seja apenas alguém que vejo, mas com quem interajo, troco sonhos e busco soluções para nossa vida e a dos outros.
Há, certamente, gente a quem amamos, mas é preciso que se tenha a coragem de dizer isso a ele ou a ela. Olha, eu o(a) amo. Vamos nos inteirar, deixarmos de ser meros pedaços de nós mesmos e formar vidas inteiras. Quando tivermos a coragem de amar de verdade, sem peias, aí o mundo vai ficar com menos fome. Não importa quem seja você, nem quão bom se ache. Há muito a melhorar. E isso não é pieguice de época de Natal. É um sacolejo que devemos fazer sempre em nossas vidas. A fome não é só produto da injustiça social. Ela é a cara da nossa indiferença pessoal, desse individualismo que nos isola até dos mais próximos. Prometa a você: vou dizer a alguém que ele – ou ela – é importante para mim. Não importa que ele – ou ela – não lhe dê ouvidos. Insista, invada a sua privacidade e achegue-se. Achegue-se, abanque-se, troque energia, chore, ria dos erros cometidos. Perdoe. Perdoe-se. A vida é assim mesmo, complicada. Descomplique-se, pois. Apresse-se, a fome só se aplaca se você se der. Mexa-se. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/12/2002.

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A CORNUCÓPIA E O OBOÉ

Na mitologia grega dizia-se que Zeus ou Júpiter tinha o poder de fazer com que um chifre de cabra – a cornucópia -enchesse com tudo o que se desejasse. E a criou em retribuição às ninfas que cuidaram dele, abandonado que fora, em sua infância. Seria o símbolo da abundância. Hoje serve como símbolo de negócios. A par disso, sabe-se que o oboé é um instrumento de sopro surgido há milênios, remontando à China ou à antiga Grécia de onde derivaria do aulo, que também era soprado, tinha palheta simples ou dupla, com um ou dois tubos furados por onde saiam os sons. O oboé é feito de madeira com um tubo ligeiramente cônico e emite, quando soprado, sons que são preciosos em uma orquestra sinfônica.
E qual a relação entre uma cornucópia e um oboé? Nada e tudo.
Nada se os virmos de forma isolada. Uma, a cornucópia, é fruto da antiga civilização grega e passou à história da humanidade sob a forma didática da mitologia. O outro, o oboé, é resultado de trabalho de artesãos que o foram aprimorando por séculos e séculos e hoje tem palheta dupla, três chaves, e é soprado, saindo o som por seis orifícios. Tudo, se admitirmos que, visualmente, os dois têm algo de parecido e que, talvez sem saber, um contador que, por profissão, vê tudo pelo método cartesiano das partidas dobradas quando há ou não abundância ou lucro, os uniu. Uniu mitologia à música e, querendo ou não, passou a fazer artes em meio a números. Paradoxal? Mas o que é a própria vida senão um grande e indecifrável paradoxo?
Pois foi assim que Newton Freitas, ao procurar sedimentar a imagem cultural de seu negócio de valores despeja sobre seus clientes e amigos uma cornucópia de informações sob a forma de dicionários. Já misturou finanças com vinhos e artes. E o faz de forma didática, como se estivesse analisando contas, expressando pensamentos de “auditores culturais”, com a simplicidade capaz de dar aos não iniciados um caminho para a informação básica que, sedimentada, poderá se transformar em conhecimento. E o conhecimento é que gera, por decantação e apuro, a cultura.
É bom que nestes tempos alguém ouse coligir verbetes, os reúna sob a forma de dicionários e os distribua com prodigalidade na esperança de que sirvam para a alegria dos que ainda acreditam que não se vive só de cornucópias ou valores, mas é preciso também ouvir oboés em meio a sinfonias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/11/2002.

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ELAS NÃO FALAM

Para quem não sabe: sou um “cinemeiro”. Gosto de filmes em tela grande e dos que mexem com a nossa cabeça. Gosto de ver além do filme, atento aos detalhes. É um exercício a que me proponho desde a juventude e fico alegre quando por quase duas horas somos, por exemplo, impactados pela dureza e a beleza das danações do Pedro Almodóvar em “Fale com Ela”. Não se pode, por menos que se deseje, dissociar a opção sexual e o amor extremado à mãe de Pedro Amodóvar das situações que cria neste seu novo filme. Benigno é o filho da mãe. Aquele que sacrifica vinte anos de sua vida ao lado de uma mãe que dele exige tudo. Resta-lhe a réstia de uma janela onde a sua utopia de amor é transferida para uma desconhecida inatingível, Alicia. São dois vidros, uma rua e um mar de diferenças. A carteira caída ao chão, apanhada por Benigno e entregue à Alicia, um clássico recurso, não serve para atar os laços pretendidos. E ela se vai por trás do grave portão. Fazer-se analisado pelo pai dela é uma tentativa de aproximação e mostra a sua ambigüidade como ser humano o que o habilitará, paradoxalmente, no futuro, a cuidar de Alicia.
Na outra trama, Lydia e Marco vivem uma relação conflituosa e a toureira destemida tem medo de cobras. O matador de cobras é um homem que chora ao ouvir música e ambos se encontram em seus descaminhos de segunda ronda.
Para unir essas situações díspares surge o hospital “El bosque”, – seria uma alegoria à Bela Adormecida no bosque? – ao qual são levadas, em tempos diferentes, em coma profundo, as duas mulheres do filme, Alicia e Lydia. É nesse cenário em que as relações de dois homens diferentes por suas naturezas – um é enfermeiro-terapeuta e outro é jornalista-escritor – passam a se casar. E o casar aí é a minha mordacidade, pois Almodóvar faz questão de manter um clima de amizade que beira à amor.
E tudo acontece de forma surrealista, mas com uma naturalidade que faz rir e comover. Não importa se o que se conta é verossímil, não importa nada. O que Almodóvar e seus personagens desejam passar é, entre outras coisas, a mensagem que as pessoas só se comunicam quando um fala e o outro, bem o outro é o outro.
Não se discute o final do filme, as razões das músicas cantadas por Caetano, visualmente parecido com a toureira Lydia, e Elis Regina em “off” – quando a toureira é golpeada – mas a sua tessitura intimista, limítrofe de monólogos recheados de sensualidade não compartilhada e a consciência de que é possível amar unilateralmente, mesmo que isso doa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/11/2002.

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BRASILULA

Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja.
A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas tem o pé na miséria. Ou melhor, tem os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências.
Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se acultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimentos de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor.
Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental. Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, aceita-se. Assim é a democracia que, entre outras coisas, tem a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado.
Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre socialismo, neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver, uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres. Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/10/2002.

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VOCÊ É EMPREENDEDOR?

Um dia destes, fui instado a responder o que era ser empreendedor. A resposta poderá, quem sabe, ser útil a jovens, única razão pela qual a repasso tal qual respondi.
Nasci e cresci em Fortaleza. A cidade estava evoluindo com energia e sempre pensei em crescer com ela, pois havia muito a fazer. Foi o que tentei, desde cedo. Cursei Direito e, ao mesmo tempo, integrei a turma pioneira da Escola de Administração do Ceará, fiz política estudantil e tive o privilégio de conhecer Edson Queiroz, empresário cearense precocemente morto em desastre aéreo, a quem ouvia. Isso me fez procurar ser curioso, instigante, trabalhador e saudável. Quis ser e, pouco a pouco, tornei-me o que se chama hoje de empreendedor.
Empreendedor é quem identifica uma oportunidade e, mesmo que temeroso, enfrenta a luta e atinge o objetivo. Minha primeira experiência foi, ainda estudante, comandar uma pesquisa com 300 homens no campo. Em seguida, descobri que pouca gente trabalhava com planejamento e o BNH havia surgido. Era o nicho. Depois, concluí: se posso planejar para os outros, por que não planejar e fazer para mim? Descobri que a melhor maneira seria estudando sempre, a maioria das vezes por mera curiosidade e de forma casuística. Ao mesmo tempo: viajava, lia muito, assistia a todo tipo de palestra, feira, seminário, congresso e cursos e farejava oportunidades. Cuidava disso com muito trabalho, determinação e objetividade.
Nunca me empolguei com incentivos fiscais e deles nunca me utilizei. Sabia desde cedo que credibilidade só se consegue comprando e pagando em dia, nunca devendo a bancos, tentando fazer as coisas certas ou corrigindo os erros, recrutando gente jovem e potencialmente capaz para ajudar a conduzir o barco do trabalho que, mesmo sem se desejar, pega mares revoltos.
Sou um mutante, pois o novo me atrai e a experiência tenta regular o meu passo. Procuro administrar os medos, agir com cautela, mas com decisão. Parto da certeza de que a mudança é uma constante. O que me obriga, reafirmo, a ser mutante e tentar superar as dificuldades que são muitas e imprevisíveis. Procuro ajustar-me às intempéries, a continuar com liquidez, renovando, sempre, pois as nuvens de incertezas brasileira e mundial são visíveis, mas parto da convicção de que descobriremos saídas. Temos que lutar por isso. Todos os meses, e não necessariamente em outubro, somente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/10/2002.