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O PRÓXIMO DOMINGO

No próximo domingo poderá chover ou fazer sol. Depende de onde você esteja. No próximo domingo poderá haver alegria ou tristeza, depende do que você fizer e desejar alcançar. No próximo domingo haverá esperanças ou choro. Esperanças para uns, outros chorarão.
É assim com todos os dias. O próximo domingo não será diferente. Os dias são semelhantes. Nós é que fazemos a diferença. E você saberá fazer a diferença?
Nós temos a mania de reclamar dos outros. De dizer que a culpa é sempre do outro, mas será que fazemos bem a nossa parte? Será que somos honestos conosco mesmo? Ou estamos tão acostumados a fingir que, nas horas difíceis, não sabemos ser nós mesmos, aquele que imaginamos correto, bom e confiável?
Se for honesto com você mesmo, com a sua história de vida, o seu sentimento de civismo, o seu senso de justiça, certamente o próximo domingo será um dia feliz.
Não será um dia feliz se você utilizar o domingo próximo para destilar ódio e pensar em mera vingança. Será apenas um dia de cão, pois não há como se ter paz com sentimentos pouco nobres.
Ainda há uma semana pela frente. Descubra-se. Revele a você mesmo o que o incomoda e procure as suas próprias respostas. Esqueça tudo o que ouviu dos outros, ouça apenas a sua razão. A razão não tem ódios ou paixões. Ela tem discernimento.
Utilize o domingo próximo para dar as suas respostas. Serão seis respostas silenciosas. Sem medo ou ódio, elas terão a capacidade de reverberação maior do que você pensa. Olhe-se no espelho e diga, em voz alta, o que vai fazer no próximo domingo. Ouça a resposta com os seus olhos. Faça isso só, a única testemunha deverá ser a sua consciência.
Você é mais importante do que imagina. Só quem pode sonhar os seus sonhos é você e não há melhor forma de transformar os sonhos em realidade que o uso de sua capacidade de julgamento. Tire um tempo para pensar. Pense em tudo o que está acontecendo e em tudo o que poderá acontecer. Você tem seis armas. É o seu exército, mas não seja um terrorista ou um franco-atirador. Use-as como o faria para defender a sua família. É bom não esquecermos que o domingo, segundo nos ensinaram, é o dia do Senhor e ele deseja que todos sejamos irmãos, uma família.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/09/2002.

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VIAGEM COLORIDA EM PRETO E BRANCO

Recentemente, fiz uma viagem sentado numa cadeira em meio a coisas de ontem. Em duas horas, o tempo de uma sessão de cinema, passeei entre os anos de 38, que antecederam à 2a Guerra Mundial, e o de 63, o que precedeu a Revolução de 64. Mas, fora a contextualização, o que vi foi uma história de amor, simples e bonita. Vi partes de Fortaleza tão aquietada e dolente. A praia de Iracema, com ruas estreitas, sem máculas, e uma lagoa, também de Iracema, mas lá na Messejana provinciana e, então, distante. Vi as cercanias da cidade, serras nativas sem doenças, um navio, o seu tombadilho com cadeiras longas de madeiras, numa viagem mostrando frações de uma natureza rica, com sua graça escancarada e ainda não aviltada.
Vi mais do que isso. Vi o nascer de uma família que, de tão simples, se dignificou. Uma mãe, desmodelada para os dias de hoje, fazia, a bico de pena, singelas e belas ilustrações, acompanhadas de palavras que diziam do momento captado pelo obturador. Vi textos apaixonados de uma mulher. E os de um homem que se transmudava em papai Noel para enlevar a companheira de uma tropa em formação. Vi uma menina nascendo, crescendo, fazendo careta, rindo, sempre pronta e bem cuidada como para ir a uma festa. E era sempre festa, pois eles estavam em comunhão e essa é a maior de todas as festas. Vi outra menina nascendo, formando uma dupla faceira, brejeira e lampeira. E aí veio o príncipe para formar o trio ou o quinteto enamorado da casa no final da ruela da praia.
Vi famílias se ajuntando, compartilhando parentesco e amizade. E, como se fora um conto de fadas, uma menina se fez moça, de amigas se acercou e virou princesa por um dia eternizado. Não deixei de notar a argamassa dessa união consolidada numa casa que ficava bem do outro lado da cidade, perto de uma igreja onde havia remédio para as suas almas. Vi mais, muito mais, entre esmaecidas páginas de álbuns, com cartolinas antigas e papéis de seda clara, que se tornaram de cor sépia, meras fotos em preto e branco, mas coloridas pela essência de vida que transmitem e pelo calor virtuoso e virtual que perpassa as mãos de quem, atento, as perceba com os olhos de sonho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/09/2002.

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O SER, O TER E O PARECER

Contardo Calligaris é um psicanalista italiano que já morou no Brasil e hoje vive entre os Estados Unidos, a Europa e o nosso país. Leitor de almas e escritor sofisticado, comparece às quintas-feiras na Folha de São Paulo. Na semana passada abordou a “crise do mercado ou a crise do sujeito?”, uma crônica-ensaio que me levou a utilizar o finito espaço-tempo usado para devaneios em direção a caminhos sem saber exatamente as saídas. Daí, por exemplo, ter questionado três aspectos da vida: o ser, o ter e o parecer.
O ser é a base. É onde ficam o país, o estado, a cidade, o bairro, a casa em que nasceu, o tipo de família que lhe trouxe ao mundo, com raça, origem e categoria social e formou a sua educação, seja doméstica, formal pela escola, professores e colegas, informal ou social e no que o espelho e a sua consciência revelam e se aceita com ou sem questionamentos.
O ter é aquilo que se agregou a você, sejam bens materiais ou a bagagens cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita positivos para a sua existência. O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu é, sendo.
O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que não são e viver o que não têm. É o mundo da aparência, do supérfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, é aceita não por sua qualidade intrínseca, mas por ostentar uma marca de alta significação para a imagem de quem usa. Um relógio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir uma posição social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é movediço.
A sociedade e, por mais que não queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízos de valor falsos ou verdadeiros. É aquilo que pode ser fabricado com “marketing pessoal “e o sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensa o vazio de não poder ficar consigo mesmo e gostar disso. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam à cata do que se chama de validação. A validação é acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. Não pesa, para o validado, a referência própria, aquilo que a sua essência profunda diz, mas o que lhe é soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito.
Esse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da própria consciência. Mas, descubro ter começado um assunto que não cabe em crônica. Bem apropriado seria em ensaio ou tese para os quais, infelizmente, faltam-me engenho, densidade e tempo. Como disse Chamfort: “há tolices bem vestidas como há tolos bem vestidos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2002.

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DEZEMBRO, MÊS COMPLICADO

Dezembro é um mês complicado. É o mês dos presentes e dos ausentes. Especialmente, destes. É o mês do balanço pessoal, dos planos, dos acertos com a nossa cabeça, do que não parece encaixar e fica ali martelando, mesmo que mandemos embora. É a tal da consciência nos cobrando, dizendo das falhas, das omissões e semeando dúvidas irrigadas por nossa tão falada e natural incompetência de ser feliz.
Fazer o quê? Não se pode ser múltiplo, embora nossa unicidade seja complexa, dê sinais tão díspares e nos tornem perplexos. O ideal seria o bem-estar geral, a paz coletiva, mas nosso egoísmo exige exclusividade e não se pode – e nem se deve – querer tudo. E aí é preciso optar. A opção é, sempre, que nos transforma no que somos, naquilo que nos é essencial e não aceita a farsa, o engodo, a alegria de encomenda, a efemeridade do gozo, mas a consistência do compartilhamento espontâneo, da identidade em meio às nossas diferenças. Somos todos seres em busca, em eterno desejo do encontro. De estabelecer liames, de ter laços atados a trocar energia de forma sutil, olho no olho, brilhando na certeza do encontro visual, tátil e interior. Seria o amor com paz.
Ocorre que a paz não é um fim. Ela pode ser a resposta encontrada aos nossos embates verdadeiros com a negação das aparências e conveniências. Mas viver não é só ter paz, é ter forma e arte para administrar conflitos e a compaixão de ver o outro em nós mesmos.
Falei ser dezembro e este mês nos obriga, repito, a analisar atitudes e a dar um espaço mais significativo para nosso eu interior, aquele que não sufocamos com as aparências e nem, tampouco, aplacamos as suas críticas e desejos, pois conhecedor profundo de nossas limitações e natureza. Sim, é tempo de presentes, mas não só os dos pacotes bem cuidados, mas, prioritariamente, daqueles entes queridos que formam o nosso melífico mundo. A esses, quem sejam ou onde estejam, cumpre amá-los, não como promessa vã, mas perdoando e pedindo desculpas, sedimentando comportamentos positivos, atitudes e tentando sempre estar afinados, pois a vida não é só euforia, tampouco tristeza, mas sintonia. Viver é ter consciência disso e estar sempre pleno de esperanças, sabendo que perder, ganhar, perdoar, amar, conviver e compartilhar são a nossa essência básica. O restante, como diria a Amanda, do alto dos seus quatro anos, é bobeira.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2002.

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O AMOR CURA?

Em uma cidade qualquer deste mundo morava um homem muito solitário. Até aí nada de novo ou surpreendente, pois em todas as cidades há pessoas, homens e mulheres, muito solitárias. Mas esse se imaginava muito mais solitário, de verdade. E a sua solidão era tão forte que, ele próprio, ao olhar no seu rachado, manchado e quase opaco espelho, falava a si próprio: – como vai? E ele próprio respondia: vou só.
Não tinha amigos, colegas, conhecidos, adversários, confidentes, amores, ex-amores ou parentes. Morava só, no fim de uma rua esburacada, num casebre velho que nem chave tinha, bastava uma tramela por dentro e um pano que servia de calço ao sair pela única porta. Herdara de uma tia-avó que morrera tísica, o único parente que lhe restara, pois a mãe faleceu no seu parto e nunca conheceu o pai. Herdara era maneira de dizer, pois nem a tia, tampouco ele, tinha qualquer documento de propriedade. Também ninguém se importava com isso.
Era biscateiro. Pintava ruim, as torneiras consertadas logo voltavam a vazar, os pregos pregados saiam tortos, as paredes rebocadas nunca ficavam lisas e, um dia, ao se meter a eletricista, levou um choque, caiu da escada e daí levado a um hospital público com politraumatismo. Ficou em coma e ao acordar não se lembrava sequer do nome do hospital onde estava. Sabia ser grande, fracas luzes, cheirando a urina e a éter, ouvindo dia e noite choros, gemidos e gritos, e as pessoas de branco o tratando apenas como o prontuário 35 da enfermaria 07.
Engessaram braços, tronco e pernas. Enfaixaram a cabeça. Ninguém dizia seu nome, não falavam com ele. Apenas aplicavam injeções, faziam curativos, abriam sua boca e colocam pílulas com um pouco de água. Todo engessado criara escaras nas costas. Ele sabia que ia morrer, até porque a vida não o interessava mais.
Gemia baixo até quando sentiu que uma auxiliar de enfermagem o tratava com muito carinho. Não sabia nada de amor, mas notou que ela ficava mais tempo que as outras ao lado dele. Limpava-o, penteava seu cabelo, brincava com ele, mas pouco se falavam. Os olhos eram os mensageiros. Ela aparecia pela manhã e ficava até o fim da tarde. Às vezes, pela madrugada. Tirava turnos de colegas, o cobria de atenções e sempre arranjava uma comidinha extra. Ele foi dando atenção à vida. Viu-se pedindo a Deus para ficar bom.
Um ano depois, estava sarado, com pequenas sequelas e uma carteira de aposentado na mão rendendo um salário mínimo mensal. Olhou para a auxiliar de enfermagem, a sua, ao sair do hospital e criou coragem para perguntar: quer morar comigo? Ela respondeu: não. Você é que vai morar comigo. E saiu protegendo o seu ainda lento andar. O dia estava claro e as nuvens brincavam nos céus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/07/2002.

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VINTE ANOS SEM ELE

Ontem fez 20 anos. Fortaleza amanheceu estarrecida com o acidente do avião da Vasp na serra de Pacatuba. Naquela oportunidade, publiquei, neste mesmo DN, o artigo que ora tomo a liberdade de reproduzir.
“É difícil entender certas coisas. A morte, por exemplo. É cruel admitir a nossa dimensão diante dos fatos. Quem não está abalado e, guardadas as proporções, um pouco morto com o desastre de ontem?
Senti, com a minha incapacidade de mudar os fatos consumados o drama pungente de tantas famílias hoje esfaceladas. É triste reconhecer que a mão do destino atingiu, de uma só vez, tantas pessoas que, na sua maioria, tinham o único objetivo de trabalhar e produzir. Desse binômio, trabalho e produção, fizeram sua crença e sobre ele montaram suas empresas, tais quais templos contra o subdesenvolvimento.
Imagino a alegria dos que voltavam da Fenit, alguns pela primeira vez. Extasiados pelo sucesso do que produziram, jamais poderiam admitir que seus compromissos não iriam tão longe. Desses jovens empresários, forjados na camaradagem e na disputa que, ao mesmo tempo, os unia e separava, fica a lembrança de que, de forma espontânea, estavam dando uma contribuição valiosa e decisiva para o futuro do Ceará.
Cada um deles, na dimensão de seu universo, estava se sentindo um Edson Queiroz e o destino trouxe exatamente esse mesmo Edson Queiroz para paraninfá-los em sua última viagem.
Sobre Edson Queiroz não se pode falar sem passionalidade, sem que se invoque tudo o que ele fez. O que dizer de um vitorioso? O que dizer de um obstinado? O que dizer de um líder? O que dizer de um fanático do progresso? O que dizer de um idealista prático? Se é que se pode ser idealista e prático ao mesmo tempo.
De nossa parte, fica a lembrança de um homem quase sisudo, com risos largos quando descontraído, um homem nervoso como todos os que têm uma dimensão maior do universo e um trabalho com 10.000 companheiros que o tinham como comandante.
O engraçado ou paradoxal é que ele morreu como viveu: em um avião de classe econômica, aproveitando a noite para ter mais disponibilidade de tempo para o trabalho, voltando para a sua terra querida, em alta velocidade e, mesmo sem o querer, como a estrela maior desse acontecimento”.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2002.

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APRENDENDO A DESAPRENDER

Estudo administração há muitos anos e tive sempre o cuidado de andar pelo mundo, de olhos bem abertos, para ver o que ensinavam e praticavam por aí afora. Li livros, revistas, teses e artigos. Participei de cursos, congressos, seminários, debates, mesas-redondas e jornadas. Escrevi ensaios, artigos, dirigi empresas e elaborei planos e projetos. Hoje, vejo sem medo, que é preciso desaprender quase tudo o que aprendi. As mudanças na área de gestão foram muito grandes e a velocidade da informação mexeu com todos os paradigmas válidos até quase o final do século passado.
Para citar um exemplo, Maurício Góis, publicou em fevereiro deste ano, no Venda Mais, on line, uma série de maneiras novas de pensar, chamadas de mudanças, que precisam ser entendidas e seguidas para que se tenha a capacidade de sobreviver no trabalho ou na direção de uma equipe ou empresa. Hoje, sabe-se que o trabalho não é mais emprego, no sentido de segurança. Você hoje está empregável. Amanhã, sabe Deus.
Por outro lado, o profissional, qualquer que seja o nível, não deve ser um mero subalterno, mas um colaborador, alguém que critica e interage, pois deve ter a cabeça arejada, grau razoável de sociabilidade e ter, vá lá, a tal da inteligência emocional, entendendo o que é dito e, principalmente, o não verbalizado por palavras, mas atitudes. É preciso fugir das ideias velhas e procurar novas, sempre. Pesquise, invente, descubra oportunidades e faça as coisas certas, repasse os seus conhecimentos para o maior número de pessoas e veja o mundo como se fosse a antiga idéia de país.
O talento, a informação, o conhecimento e a responsabilidade social são o capital que darão qualidade ao seu desempenho e longevidade à sua vida como trabalhador ou chefe. Não esqueça nunca que você está fazendo alguma coisa para alguém. Esse alguém é o cliente. E cliente é para ser bem tratado e não enrolado ou enganado. Se o seu serviço não presta o cliente não volta. Daí é preciso que todos os integrantes da micro à grande empresa, isto é, da birosca da esquina à grande indústria, melhorem a qualidade dos serviços, modificando processos sempre, e persevere na avaliações de desempenhos. Se você não ajuda com afinco a sua empresa, ela vai para o brejo e o seu emprego para o espaço.
Não acredite em chefes ou patrões bonzinhos. Acredite em pessoas justas que cobrem eficácia e estejam dispostas a ajudá-lo a aprimorar os seus conhecimentos seja em cursos, videoconferências, viagens ou lazer e artes. Não acredite que o tempo resolve tudo. Você é que vai passando, o tempo é o tempo, nada mais. Atualize-se, pois a cada dia mais gente está querendo o seu lugar ou montando uma empresa parecida com a sua.
O uso que fará de seu tempo é que mostrará a eficácia do seu talento, capacidade e energia despendidos. Não esqueça nunca de viver em paz com você mesmo e lembre-se de que pensar sempre é, talvez, a grande diferença. Afinal, como é óbvio, o dia tem a mesma duração para todas as pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2002.

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A CORÉIA JÁ GANHOU

Amanheci o dia de ontem vendo a prorrogação do jogo entre a Espanha e a Coréia do Sul. Não discuto os erros do juiz egípcio. O concreto é que a Coréia do Sul saiu classificada e vai disputar uma das semifinais da Copa do Mundo de Futebol. Como não sou cronista esportivo, o que me veio à mente ao ver aquele mar de camisas vermelhas no estádio foi o espírito do povo coreano. Estive na Coréia e no Japão e, observando atentamente, pude ver como são diferentes essas duas civilizações.
“Japonês e coreano é tudo igual”, dizemos nós. Puro engano. O Japão é imperial, cauteloso, cerimonioso e de cultura milenar. A Coréia é revolucionária, rebelde, descontraída, obstinada e ainda guarda a mágoa da dominação, por séculos, do Japão. Qualquer enciclopédia mostra isso. Dê uma olhada.
Na segunda metade do Século XX a Coréia foi dividida em duas e teve uma luta fratricida que ainda hoje perdura. A “Guerra da Coréia” ocorreu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A Coréia foi dividida em duas. Os Estados Unidos colocaram seu tacão na Coréia do Sul e os comunistas na Coréia do Norte.
A Coréia do Norte ainda vive em situação adversa e as tentativas de união, embora lentas, prosseguem. Mas, o que vai destacar aqui é o espírito do povo da Coréia do Sul. E, certamente, é esse espírito, a tal da autoestima, o grande vencedor dessa competição particular travada entre a Coréia do Sul e o Japão. A Coréia do Sul não perdoa as humilhações sofridas dos dominadores japoneses. Houve um tempo em que os coreanos eram apenas mão-de-obra barata, quase escrava, para o Japão.
Depois da Constituição de 1980 a Coréia tomou, literalmente, um chá de dignidade e resolveu crescer, sempre com o objetivo de suplantar o Japão. O que, na verdade, ainda hoje está longe de acontecer.
Mas, sediou, com sucesso, as Olimpíadas de Seul em 1998 e a sua capital é bonita e alegre. Fez fincapé e não aceitou que o Japão fizesse sozinho a Copa de Futebol deste ano de 2002. Lutou e é co-anfitriã.
A primeira vez no mundo em que uma copa é disputada em dois países.
Em qualquer cidade da Coréia do Sul as pessoas riem nas ruas, recebem bem os turistas e todos, especialmente os jovens, têm uma meta: suplantar o Japão. Ontem, no futebol, a Coréia do Sul lavou a sua honra. Está entre as quatro melhores seleções de futebol do mundo e o Japão, desclassificado. Essa é a copa particular já vencida, mas, obstinada, quem sabe, vai lutar por mais, como é de sua índole.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/06/2002.

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AS TRÊS BEBIDAS

Era a primeira vez em que essas três mulheres estavam reunidas. E foi à noite, na mesa de um bar, em meio à rua, ouvindo os passantes e até os ruídos de um camelô imitando gatos num saco. Somavam anos, enganos e desenganos, mas se mostravam educadas e gentis, embora, como já disse alguém: mulher é sempre muito severa ao julgar uma semelhante.
Sem que combinassem, sorviam bebidas diferentes. Uma, a mais velha, a observadora, ficava com o gosto amargo do Campari, como se estivesse sentada em uma pizza italiana. A outra, a risonha, deliciava-se com o calor da tequila transformada em Marguerita numa imaginária bodega mexicana. A terceira, a sonhadora, foi buscar nas terras altas da Escócia o seu néctar e, como se num pub londrino estivesse, bebia goles do seu uísque.
O Campari poderia ser apenas uma bebida, mas também retratar uma trajetória, mostrando como nada havia sido doce e ameno. O amargor da bebida parecia ser a confirmação da luta já tão larga em tempo e que ainda não quedara suave, pois ora navegava em meio a procelas, sem que fosse barcaça ou timoneira.
A Marguerita talvez simbolizasse a sexualidade forte, aguçada pelo sal da borda da taça. Só que não se vive na borda e aí o agave da tequila mostrava a crueza da aguardente, sem refino e sem sofismas.
O Uísque é uma bebida longa que vai entorpecendo as dores, aguçando os sentidos e tentando repor a alma em seu devido canto, mesmo que o pranto já não brote pelos olhos, mas umedeça o coração.
E a conversou tomou o rumo dos descompromissos. A mais velha usou de sua argúcia para dizer verdades, misturando verve com a crueza da realidade, sem perder o senso de humor que se fazia vário.
A da marguerita apenas intervia, como uma moderadora de diálogos, a espicaçar, fustigar e plantar revelações na boca de cada interlocutora.
A terceira, despia-se de suas mágoas e mostrava a inquietude guardada com cautela, mas transbordante em gestos e amuos.
A carne crua do salmão era o único elo entre elas. Um elo tenro que, pouco a pouco, desaparecia entre pequenas e literais garfadas, só acompanhadas do pão torrado que já perdera suas características e propriedades. Mas, era noite leve e tudo se dizia sem medo, sem reparar que, em mesa contígua, pessoas estranhas a tudo ouvissem. Importava não, eram as dores do mundo que as tornavam semelhantes, embora, quem sabe, pouco tivessem em comum.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/05/2002.

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O SILÊNCIO NA MESA

Estávamos, os mesmos de sempre, almoçando na sexta-feira passada, quando o telefone tocou e fomos informados da morte de Tancredo Carvalho. A conta já havia sido pedida e não existia mais ambiente para conversa. Faltava ânimo, sobravam silêncio e tristeza em homens que já estão aprendendo a perder amigos. Não se disse mais palavra. Cada um saiu à sua maneira, pois, apesar da gravidade da doença, ainda contávamos com a esperança.
Tancredo era um velho amigo desde os tempos de juventude que se tornou jornalista por seus próprios méritos. Ainda adolescente fez jornalismo esportivo. Adulto, abraçou o jornalismo político com fé e descortino. Colunista, passou a editor político consagrado, transmudando-se em editor chefe, dando conta do recado, sempre com profissionalismo, mas com a afabilidade e a bonomia que o caracterizavam.
Convidado por César Cals, foi seu porta-voz no Governo do Ceará, permanecendo amigo de seus amigos, mas sabendo sempre distinguir o público, do privado. Ao ser escolhido Ministro de Minas e Energia, César Cals o convidou, mais uma vez, para assessorá-lo. Com simplicidade, dignificou o seu cargo, sendo sempre o conselheiro arguto, discreto e leal, acompanhando-o pelo mundo afora, cuidando com zelo da imagem de um ministro que tinha contra si o fato de ser nordestino, em meio a um mar de interesses.
Voltando ao jornalismo, reviu-se editor-chefe, até que foi chamado a implantar e dirigir, com equilíbrio, uma emissora de televisão onde fez brilhar o seu espírito alegre e vivaz criando tipos e personagens que hoje fazem escola. Ao mesmo tempo em que cuidava de sua atividade profissional era sempre o eterno namorado de sua mulher e cuidadoso pai de filhos que estão aí adultos e bem-criados, tendo como exemplo a parcimônia de um homem honrado que conhecia e vivia dentro de seus limites.
Há anos, muitos anos, éramos amigos de convivência semanal integrando um grande grupo, além de um regular almoço às sextas-feiras.
Pois foi justo numa sexta-feira que Tancredo nos deu uma lição, expirando na hora em que acabávamos de almoçar, como se nos mostrasse, sem alardes, que seu tempo estava cumprido e alertava para a nossa desimportância.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/05/2002.