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ESCOLARIZAR A SELEÇÃO

Parece que os brasileiros com razoável nível de conhecimento não confiam muito na capacidade de Felipe Scolari. Suas entrevistas às estações de televisão demonstram, salvo erro da maioria, como é tosco o técnico da seleção brasileira de futebol. Quando jogador era defensor, daqueles que a bola passa e o adversário fica. Dizem que Felipe Scolari tem curso de educação física. Se o tiver, deve ter sido um desses muitos que pululam por aí afora e que não merecem comentários.
Já vai longe o tempo em que um técnico em qualquer área esportiva era um mero entregador de camisas. Os técnicos modernos, além de conhecerem a sua profissão, devem ser proativos, motivadores, líderes com características de ousadia e intuição da exigência de novos conceitos para modificar velhas abordagens, de tal modo a aproveitar o potencial de cada atleta. E, para usar uma palavra da moda, precisam entender de planejamento estratégico.
Basta ver o comercial de um refrigerante em que Felipe Scolari atua como garoto-propaganda para sentir que, apesar de todos os ensaios e recursos publicitários, o nosso selecionador fica de sofrível a medíocre. Não precisa ser filólogo para saber que os aumentativos usados nos prenomes são, via de regra, resultantes de dois fatos: ou a pessoa é gorda ou é considerada bronca, desajeitada, debochada etc. O nosso Felipe é Felipão e não é gordo.
A futrica da convocação ou não, de Romário demonstra à saciedade o nível do futebol brasileiro atual. Romário ainda é um grande jogador, mas está com 36 anos e leva uma vida extracampo que todos conhecem. Apesar disso, é objeto de pesquisas, pedidos de políticos e destemperos verbais do treinador. Ora, se um país deseja que a sua seleção de futebol seja campeã não deve – e nem pode – depender de qualquer jogador e sim de uma equipe homogênea, mas a cada jogo a escalação muda e um empate com Portugal é saudado como positivo.
Espero que estas minhas observações, feitas 40 dias antes do início da Copa, estejam erradas e que a seleção brasileira de futebol saía da Ásia como campeã, mas desafio a qualquer leitor para dizer agora, pelo menos, o nome de sete jogadores que considera titulares. Escreva e confira depois. Desafio também que digam os nomes dos clubes e os países em que esses jogadores atuam. Hoje, mais que nunca, o futebol está contaminado por interesses de empresas multinacionais sem pátria ou emoção e de muitas pessoas que vivem do futebol sem saber nada dele.
Vou torcer pela seleção, é claro. Mas não acredito que haja tempo de escolarizar esta seleção, de torná-la crível. Acordarei pela madrugada, gritarei, xingarei, mas, em sã consciência, não faço fé. Aceitam apostas?

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/04/2002.

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VIOLÊNCIA AO VIVO

Estava dirigindo meu carro em estreita rua da cidade, com veículos estacionados em paralelo, enquanto um jovem, conduzindo uma pick-up preta incrementada, ia à minha frente. De repente, freou bruscamente. Já desceu de punhos cerrados e saiu batendo em dois homens, bêbados e completamente fora da realidade, andavam abraçados no meio da via, atrapalhando o já conturbado trânsito.
Em questão de segundos, vi um festival de pancadaria. O jovem motorista, de camiseta cavada e tatuado em um dos braços, sentiu-se incomodado com os bêbados que, mais para lá do que para cá, tiveram a audácia de, nos seus andares cambaleantes, encostarem-se na reluzente camioneta.
Sentado estava, sentado fiquei a observar. Atônito, descobri que o vidro do para-brisa do meu carro parecia uma tela de cinema com um filme violento em versão local. A agressão do jovem motorista não ficou só nas pancadas desferidas. Quando os dois bêbados tentaram, de forma atabalhoada e até cômica, reagir, como se também atletas fossem, o rapaz tatuado correu, abriu a porta de sua camioneta e de lá retirou uma arma com a qual passou a ameaçar os “perigosos” bêbados. Felizmente, não houve tiros, pois muita gente foi juntando até que apareceram uns pedindo calma e levando os bêbados, já cheios de hematomas, para longe.
Buzinei, olhei para o agressor e, por gestos, falei que o seu carro – atravessado e de porta aberta – estava atrapalhando o trânsito. Olhou firme para mim e, talvez por minha calma, resolveu sair e me dar passagem. Tudo isso ocorreu nesta semana. Durou uns dez a quinze minutos, em pleno cair da noite na Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, área turística da cidade.
Não apareceu nenhum policial, civil ou militar, tampouco os guardas azuis da autarquia do Trânsito, a AMC. Alguns turistas estrangeiros, apreensivos, ficaram longe e olhavam desconfiados. Talvez imaginassem também estar assistindo uma filmagem com cenas de violência, mas não havia nenhuma câmera em ação. Era apenas a realidade de mais um início de noite na Praia de Iracema, com seus pontos de venda de drogas, suas prostitutas nas esquinas e onde alguns bares são meros antros de pedofilia.
Não adianta construir hotéis, planejar um monumental centro de feiras e convenções, se não se cuida do básico, a segurança pública, sem a qual nada disso vale nada. Quem escapar da violência, verá.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/04/2002.

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ROSEBUD E A JANGADA

Quem conhece a filmografia de Orson Welles sabe que o criador de “Cidadão Kane” era um ser estranho, mercê de toda a sua genialidade. Revi, nestes dias, Cidadão Kane e, em seguida, li o livro “Orson Welles no Ceará”, do crítico de cinema Firmino Holanda.Com maestria, Holanda narra a filmagem não concluída de “It’s all true” (É tudo verdade) e, especialmente, descreve, como agradável cronista, a ambiência da época. O livro é bom no começo, meio e fim.
O filme Cidadão Kane, para os que ainda não ouviram falar sobre ele ou não tiveram a ventura de assisti-lo, trata, em rápidas pinceladas, da história de um menino pobre que, ao receber uma inesperada herança, sai da província, estuda, cresce e vira um magnata da imprensa, casa, tem uma amante, tenta a carreira política, sofre chantagem e cai em desgraça. Durante as suas filmagens, Orson Welles, que tinha como referência a vida do empresário jornalístico William Randolph Hearst, monta um jogo psicológico forte e, por conta disso, padeceu deste todas as formas de restrições, ameaças e bloqueios, só concluindo-as graças à tenacidade que os seus 24 anos lhe conferia. Foi acusado até de comunista, por atacar um ícone do capitalismo americano e mostrar a sua decadência. Era 1941, os Estados Unidos entrava na II ª Guerra Mundial e o patriotismo americano, como acontece em épocas de crise, estava exacerbado.
Talvez para provar não ser comunista, Orson Welles, fazendo parte da “política da boa vizinhança” encetada pelos Estados Unidos, veio filmar no Brasil no ano seguinte, 1942, o que seria o filme não concluído, “Tudo é verdade”. Filmou o carnaval de 42 no Rio de Janeiro e veio ao Ceará, motivado por uma reportagem da revista “Time” sobre a aventura de quatro jangadeiros cearenses que viajaram mar afora, sem bússola e sem mapa, de Fortaleza ao Rio de Janeiro. Welles desceu no campo de pouso do Alto da Balança, hospedou-se no Excelsior Hotel, enturmou-se no Jangada Clube, um bucólico bangalô na Praia de Iracema à beira mar, onde parte da elite de Fortaleza se encontrava, e reuniu os heróis do mar para ouvir a narrativa de sua epopeia.
Conviveu com ricos, mas tomou-se de amores pelos pescadores que, àquela época, aportavam suas jangadas na Praia de Iracema, especialmente Manoel Jacaré, o líder do grupo do raid destemido. Manoel e os seus companheiros voltaram ao Rio para, com Welles, filmarem a chegada triunfal (já acontecida) à antiga capital da República. Um barco – com os equipamentos e o pessoal de filmagem – puxava a jangada. O cabo soltou-se, a jangada virou e Manoel Jacaré desapareceu para sempre na baía da Guanabara.
Volto ao Cidadão Kane para falar de um pequeno trenó que o personagem principal, quando criança, usava para deslizar no gelo e cujo nome, Rosebud, é uma espécie de enigma até o final do filme. Agora, uma ideai me ocorreu: seria a jangada uma espécie de trenó dos mares a fazer uma ligação no imaginário de Welles? Ou o mastro que teria batido na cabeça de Manoel Jacaré seria a antevisão da marca da maldade de Welles?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/03/2002.

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A MULHER SOBE

Anteontem foi o Dia Internacional da Mulher, como todos já sabem. Foram prestadas homenagens naturais e muita coisa foi dita e escrita. Nesse dia 08, por dever de ofício, acompanhei Cecília Soto, embaixadora do México no Brasil. Cecília não é diferente da maioria das mulheres da geração que nasceu nos anos 50. Órfã de mãe, estudou em colégio católico, formou-se em jornalismo, casou com um biólogo – que não era o preferido por seu pai -, teve um casal de filhos e, contestadora, ingressou na política, por conta de suas opiniões firmes nos artigos que escrevia em muitos jornais mexicanos.
Elegeu-se deputada estadual e, posteriormente, deputada federal. Fugindo dos grandes partidos de seu país, PRI e PAN, filiou-se a um pequeno, o Partido do Trabalho – uma espécie de PT deles, com coloração esquerdista – e teve a ousadia de se candidatar à presidência da República do México. Sem recursos financeiros e não dispondo do apoio da grande mídia, conseguiu uma consagradora votação, mas não foi eleita.
Voltou ao jornalismo, sendo seus artigos de opinião republicados por dezenas de jornais em vários estados mexicanos. Na última eleição presidencial criticou os candidatos em debates, programas de rádio, televisão e em seus artigos deixava claro suas opiniões sobre o que entendia ser o melhor para o seu país. Ganhou Vicente Fox, a quem criticara, derrubando a dinastia do PRI que comandou o país por mais de 70 anos, prometendo mudanças fortes na estrutura de poder.
Cecília Soto foi surpreendida por um convite que nunca imaginou receber. Jorge Castañeda, ministro das Relações Exteriores, em nome do presidente Fox, a convocava para ser a embaixadora do México no Brasil, considerado o maior posto diplomático em toda a América Latina. Pensou e aceitou com o objetivo de aproximar os dois países tão parecidos, mas ainda distantes em relações de negócios.
Hoje, com a desenvoltura de uma diplomata de carreira, Cecília Soto trafega em meio a dirigentes de organismos internacionais, ministros e chefes de estado. Em Fortaleza, para a assembleia anual dos governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, conseguiu conciliar a sua agenda oficial com contatos com a imprensa, da qual nunca se desligou, e passar mensagens positivas em reunião com mulheres das mais diversas profissões. Uma jovem senhora acercou-se dela e perguntou qual o segredo de tanta energia. Ela não teve dúvida em responder em meio ao riso que a caracteriza: fazer cada coisa no tempo devido, com amor e acreditar que o trabalho é uma forma de mostrar a cada mulher o seu valor.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/03/2002.

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LUA DA MEL

Procurei descobrir a origem da expressão lua-de-mel e encontrei quatro versões. Todas muitas antigas, as duas primeiras meras lendas. Na antiga Germânia, Alemanha de hoje, os noivos casavam à época da lua-nova e levavam uma mistura de água e mel para beber ao luar em busca da felicidade. A segunda: no tempo em que as jovens eram capturadas, muitas vezes contra sua vontade, os raptores escondiam-nas por um mês, de uma lua-cheia a outra lua-cheia, para apaixoná-las, ou convencê-las a casar e, para isso, davam-lhes uma bebida afrodisíaca à base de mel que, segundo a lenda, surtia bom efeito. A terceira, deve-se a um costume dos romanos que untavam com mel a soleira das portas dos noivos. E a quarta, entre os povos orientais, os noivos recebiam mel e vinho e depois se retiravam, permanecendo longe do povoado por certo tempo, o equivalente a uma lua, que poderia significar uma semana ou um mês.
Não é preciso conhecer a origem da expressão vinda do latim (luna, lua e melle, mel), nem o tratado sobre as abelhas, a melissografia, para saber ser o mel tirado do néctar das flores, e guardado em favos ou alvéolos, para servir de alimento às suas larvas ou às pessoas. E também que designa, desde tempos imemoriais, as primeiras semanas seguintes ao casamento.
Anteontem foi lua cheia. Fase em que esse astro feminino está visível, claro, belo e pleno de luz. Saí de onde estava e, por momentos, fiquei só, ao relento, olhando para a distante lua, a me fazer perguntas sem encontrar respostas. Era plenilúnio. O terceiro dia de lua cheia quando ela refletia o esplendor de sua luminosidade naquela noite entre preces, risos, cânticos, choros, cumprimentos, abraços, votos, luzes, flashes, músicas, comidas e bebidas, De vez em quando uma nuvem branca, outra mais espessa, encobria a fosforescência da regente das marés e das mentes. Soprava um vento e eu absorvia o ar como fonte de energia, pois a emoção dava um sacolejo na alma fazendo o corpo responder por reflexo. Mas, como a volubilidade da própria lua, isso também passou.
Anteontem, para quem não se lembra, foi primeiro de março. Sessenta dias desde que o ano começou e, como se sabe, o ano é o pai de todos os meses e dias. Segundo um calendário-folhinha, editado em Petrópolis, era o Dia da Oração da Mulher. Sou pouco de ave-marias e pais-nossos. Mesmo assim, por mais alinhavada que fosse, brotou lá de dentro uma oração em meio a sentimentos vários. Nessa mesma folhinha, um pensamento de Madame de Staël: “quando sozinhos, vigiemos nossos pensamentos; em família, nosso gênio; em público, nossa língua”. Pois é.
Voltei a olhar a lua e ela não estava entre os astros distraída. Batia firme, bisbilhoteira, espreitava tudo, teimava em pratear as flores. Independente das cores, mostrava sua face inteira, arredondada, como a dizer que o mundo gira e nos leva de roldão, sem que o presente seja sempre a linha reta ligada ao passado e tampouco o futuro a mera e única esperança do hoje. Quis fazer mais uma pergunta e eis que uma nuvem a cobriu, por certo a esquivando de mim.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/03/2002.

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CANTO DE AMOR A FORTALEZA

Um dia desses pediram-me para escrever algo sobre a cidade de Fortaleza. Disseram-me que os visitantes, a quem a mensagem era dirigida, não sabiam nada da cidade e seria preciso iniciá-los e orientá-los. Vejam o que escrevi.
Chegue manso, sem alardes, sem pompas. Fortaleza, esta cidade tão altaneira quanto seu nome e tão leve quanto a sua brisa, não combina com paletó e gravata ou vestidos de noite. Ela pede descontração e sorriso. Sinta o sol radiante, a brisa gostosa e o povo singular que alia compromisso com o futuro, sem perder as raízes do seu passado, mas não esquece de viver o hoje.
Como se fosse mágica, Fortaleza têm multifacetadas caras, conforme a hora e o lugar, pois, sendo mulher charmosa, é vaidosa. Mas, em nenhuma face, se vê sinal algum de envelhecimento. Possui corpo vivo, gracioso, radioso e o que mais se sente é o seu pulsar constante beirando e beijando o mar, das margens dos rios Ceará até o Cocó. Suas águas mornas, uma mescla de verde marinho e azul escuro, batem na praia em nuvens dançantes de algodão tal qual movimentos de sístole e diástole.
Faceira, maneirosa, trejeitosa e de contornos indefinidos, vai quase forçá-lo a fotografá-la, mas a emoção pode ser tão grande que o filme chega a velar e perder os múltiplos focos, pois, como se você usasse uma velha máquina fotográfica, aperta o obturador no instante errado.
Não tenha pressa. Dá tempo de ver a antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, a Praça do Ferreira, o Teatro José de Alencar, a Praia de Iracema com o pôr-do-sol da Ponte Metálica e os bares e restaurantes à noite, a Catedral, o Centro Dragão do Mar, os mercados Central e dos Pinhões, a feirinha na Av. Beira Mar, as jangadas do Mucuripe, comer pratos típicos em restaurantes simples e bons ou regalar-se em sofisticados lugares, afinal a conta é sua.
Ande a esmo, fale com qualquer um, todos são gente igual a você, nem melhor, nem pior, só mudam o timbre da voz, o lugar onde moram e a forma como veem o mundo.
Tendo tempo, viaje pelos arredores. Praias para todos os lados e gostos e, por pouco mais ou quase nada, você presenteia seus olhos com dunas e falésias e ouve histórias brejeiras.
Não é pretensão e não se assuste. Você vai se apaixonar por Fortaleza. Ela é assim mesmo, encantadora e perturbadora. Ao voltar à sua cidade poderá sentir suores, o coração bater mais forte e as mãos frias. Não pense em consultar médico. Preocupe não. Você apenas contraiu o vírus de amar Fortaleza. Só existe um remédio: voltar sempre, pois ela pode ser o antídoto para os seus males.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2002.

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CARNAVAL E CUCA

Hoje é domingo de carnaval. Este país imenso está imerso em fantasias e em quimeras e a realidade crua vai chegar, independente da nossa vontade, já na quarta-feira. Nelson Rodrigues falava com a sua rabugice costumeira: “nosso carnaval moderno é uma sucessão de quartas-feiras de cinza.”
É claro que todos devemos ter consciência de que, vez por outra, é preciso dar uma parada. As pessoas, muito mais que as máquinas, precisam de descanso. Mas, o que é descanso para uns pode ser cansaço para outros. E este espaço não serve para dar receitas de bem viver, até porque minha vida também não é lá essas coisas todas.
Dizia que toda pessoa, vez por outra, precisa de uma parada. Mas, como a máquina, essa parada só tem razão se auxiliar o nosso bem-estar. Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que, dirigindo um carro, saiu de sua cidade com a família no dia de ontem, cheio de bagagem, dirige centenas de quilômetros em estradas ruins e movimentadas, vai para um local qualquer onde, via de regra, fica bem menos acomodada que em sua casa, come e bebe mais que o normal, dorme pouco porque vai a festas ou fica a ver os desfiles das escolas de samba. Terça ou quarta tome estrada de novo, e lá se vem mais uma família estressada, apesar dos cinco dias de descanso. Marido e mulher discutindo e meninos reclamando, isto sem falar no trânsito.
Posso estar exagerando, é verdade. A pergunta, porém, persiste: valeu o “descanso”? Cada um pode responder a essa pergunta, mas seria bom imaginarmos porque, por exemplo, os fabricantes de automóveis estabelecem revisões – que são paradas – periódicas. Nessas paradas é feito um exame de todo o veículo. Da mesma forma, deveríamos aproveitar essas paradas que o calendário nos dá. Fazer coisas simples. Dar uma geral em nosso corpo e nossa cuca: como cortar cabelos, examinar as unhas, medir a cinturinha e comparar com o furo do cinturão velho. Abrir a boca, olhar os dentes, tentar fazer aquele exercício que nos foi recomendado e relaxamos. Conversar, brincar com os filhos, rasgar papel velho, andar a pé, separar roupa que não se usa mais, telefonar para alguém distante, ler, escrever ou ver aqueles filmes velhos tipo Casablanca, Cidadão Kane, Tempos Modernos, Cinema Paradiso e outros atuais à sua escolha.
É claro que, para quem gosta, vale a pena dar seus pulinhos, tomar cerveja e se meter no meio do frege. Faça o que gosta, mas tome cuidado para não virar estatística, pois os jornais, as rádios e as televisões ficam de plantão só para dizer dos acidentes fatais, dos comas alcoólicos, das brigas de ruas e de tudo o que foge ao normal. Dê um jeito de esquecer o computador, esse tóxico que causa dependência e não nos deixa desligar. Permita-se andar descalço, ficar alheio, rindo até das bobagens que já fez, e tente segurar, com carinho, a mão de quem você gosta. É tão simples e faz bem à cuca. Caso contrário, previna-se.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2002.

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O VENDAVAL E O VOTO

Todos nós estamos atônitos. O século XXI continua a aprontar. Depois dos atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro do ano passado, a eterna briga entre israelenses e palestinos parece coisa da Idade Média. Enquanto isso os Estados Unidos ameaçam invadir o Iraque com armas nucleares e segundo especialistas em fome a cada 04 segundos uma pessoa morre por absoluta falta de comida no mundo. Os índices de violência, sequestro, estupro, pedofilia e crimes contra a vida aumentam de forma assustadora e os economistas descobriram tardiamente, o que todos desconfiavam, não sabem fazer previsões e continuam falando. Há recessão, desemprego, inadimplência, denúncias de corrupção, falta dinheiro para as empresas girarem seus negócios, o dólar dispara, a credibilidade do Brasil fica comparada à da Nigéria, os funcionários públicos reclamam por aumentos, o governo consolida impostos que se diziam temporários, as fiscalizações exorbitam, os advogados aumentam suas clientelas e a Justiça fica abarrotada de ações.
Por outro lado, cá em entre nós, haverá eleições em outubro e tudo é prometido, além de tudo ser permitido a uma imprensa dita investigativa, a maioria a serviço de interesses, mas que falseia a verdade, julga sem provas e condena, como se tribunal fosse, os que não são de seu agrado. Os marqueteiros, senhores da ilusão e criadores de mitos, exultam pela capacidade de mistificar, de propor o que sabem não ser possível realizar. O que vale é iludir, confundir, difundir e denegrir o outro. É como se fosse um grande festival de ilusionismo misturado com centrais de fofocas e fofoqueiros espalhados por todo o país.
A partir desta semana serão abertas as caixas de pandora com os programas eleitorais gratuitos nas emissoras de rádio e televisão. Todos terão soluções, serão simpáticos, mostrarão suas famílias, brincarão com crianças, abraçarão velhos, dirão que são melhores que os adversários e justificarão alianças.
Vejam com os seus próprios olhos e escutem com as suas ouças. Julguem pelas histórias de vida de cada um, esqueçam os gestos teatrais, os cenários, as falas melífluas de locutores e os ares de bonzinhos. Você não perde tempo em ouvir e ver, desde que descubra, por seu próprio caminho, o que é cidadania, a certeza de que está no gozo de seus direitos civis e políticos e a responsabilidade ou dever de exercê-los.
Tenha a capacidade de se indignar ou apaixonar, dar respostas aos criadores de vendavais, aos que estão aí há muito tempo e só falam em futuro, como se eles não estivessem comprometidos até agora com o nosso passado e não vivessem neste presente tão árduo e carente de homens públicos verdadeiros.
Sua arma contra o vendaval é o voto. É a sua flecha da esperança. E você poderá usá-la de forma silenciosa, sem medo, sem alardes, com os olhos no futuro que deseja e espera, sem esquecer o que prometeram e não fizeram no passado e presente, embora rindo, apertando mãos e dourando pílulas que ainda amargam em nossas entranhas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2002.

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O PAÍS DO SONHO

Uma vez, ao voltar de uma das minhas visitas à Alemanha, escrevi um artigo (Alemanha de raspão) em que disse que aquele país passava a sensação de estar pronto. Lá não há miséria, a segurança é perfeita, a economia é forte, os parques e as florestas são bem cuidados e o povo tem amor próprio. Hoje, após o segundo gol de Ronaldo, agradeci a Deus pelo fato da Alemanha já ter tudo. Nós precisamos de sonho, esperança e não nada mais parecido com o sonho brasileiro que futebol. Ganhamos com a alegria de meninos favelados que conseguiram, com os pés, a reverência de países ricos que os idolatram.
É o menino pobre do interior pernambucano que se soma ao favelado carioca e este ao moleque gaúcho. São tantos, a maioria já rica e consagrada, pela graça de suas fintas e a pontaria de seus chutes.
A Alemanha não precisava do campeonato. A Alemanha tem o Euro e pode trabalhar amanhã com mais afinco em suas milhares de fábricas robotizadas. O brasil sim precisava desta taça, onde não há concavidade, mas uma bola sendo erguida como se fora – e é – um cetro.
Em meio a tanta crise, a uma campanha eleitoral marcada pela perfídia, a espionagem e o uso exacerbado do marketing, ao descrédito mundial provocado pela ganância de investidores sem pátria e sem hora, o brasil precisava beijar o ouro. Mesmo que de forma fugaz. Um país que, quem sabe, precise da rudeza e do sentimentalismo de um sargentão, que está faltando para colocar ordem em nossa grande casa. Avulta, em meio do Delírio coletivo, a certeza de que basta alguém falar grosso, bater na mesa e saber afagar, quando possível. Chega de parecer primeiro mundo. Não dá pra esconder nossas mazelas com a visita obrigatória de autoridades às escolas de samba. É preciso assumir o que somos, mas cozinhar a nossa dignidade com todo o misticismo inato. Paradoxal? Claro. Este é um país assim, nenhum se compara a ele.
Esta lição do futebol nos remete à capacidade de manter acesa a esperança, mesmo que nos vejam com olhos atravessados, torçam o nariz ao nosso exotismo e não acreditam que a bagunça é a ordem do caos com uma pitada de felicidade.
Queremos tão pouco. É só deixar que as favelas exportem talentos, que os intelectuais não sejam tão pomposos e a alegria para substituir a violência. Há neste país muito a fazer. Nada está pronto, tudo precisa ser cuidado e as pessoas podem se unir para isso. O futebol, na sua singeleza, nos aponta o caminho. Acreditem em sonho. Sonho tem cinco letras, as cinco letras do penta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2002.

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PARA TER FÉ NO FUTURO

Dá para ter fé no futuro? A pergunta, feita de chofre por pessoa jovem e inteligente, de primeira linha, me pega de surpresa. Antes de tudo, preciso explicar o que entendo por pessoa de primeira linha. Penso ser aquela que, após um curso secundário bem feito, passa sem sobressaltos para o curso superior escolhido. Não o mais fácil, mas o que combina com a sua personalidade. Não na faculdade ou universidade mais camarada, mas na que dê respaldo à sua vida futura. É preciso ficar claro que o curso universitário é apenas uma etapa da vida de uma pessoa, importante para semear e consolidar conhecimentos, fazer estágios, sedimentar amizades, distinguir amigos de colegas e criar base para encarar o mundo com respeito, mas também com fé, sem medo de amar e ser feliz. Depois da universidade vem a vida real, a dureza.
Dito isto, não tenho dúvida em repetir a pergunta (dá para ter fé no futuro?) e responder não e sim. Paradoxal? Pode ser, mas é simples de explicar.
Não dá para ter fé no futuro se acredita que o paizão ou a mãezona vão continuar a quebrar todos os seus galhos, soltar aquela grana e conseguir um trabalho ou emprego legal, afinal, quem vai ficar lá é você. Não dá para ter fé no futuro se você faz de conta que estuda ou trabalha, não se relaciona bem com amigos, colegas e familiares. Viver é comunicar-se. É interagir, isto é, trocar ações, energia, sentimentos e visões. Não dá para ter fé no futuro se você sucumbe na primeira dificuldade e se escuda em desculpas esfarrapadas. Reconhecer erros e admitir falhas são atitudes que levam à maturidade, a compromissos para superá-los, descobrindo saídas alternativas ou refazendo o caminho percorrido.
Dá para ter fé no futuro se você gosta de ler, de escrever, de rir de si mesmo, de pensar abstratamente e possui a consciência de viver em um mundo competitivo onde os mais capazes terão mais chances de êxito. Dá para ter fé no futuro se você for brincalhão, curioso, souber estabelecer juízos de valor e tiver uma memória razoável. Dá para ter fé no futuro se você for capaz de ir se apercebendo das mudanças de cada dia e acreditar que isso será uma constante. Dá para ter fé no futuro se você souber usar bem o computador como instrumento de trabalho e até de comunicação, mas sem esquecer de que as criaturas foram feitas para o olho no olho, para toques e nada substitui o relacionamento humano, por mais difícil que isso possa parecer. Enfim, a fé no futuro começa com a fé em você próprio, passa pela compaixão pelo outro e no amor compartilhado, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2002.