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AS MISTURAS DO EVANDRO

Quem conhece Evandro Ayres de Moura sabe que seu livro “Histórias do Ontem e de Hoje” é a cara dele. É muita história vivida com fatos misturados, aparentemente díspares, mas todos fazendo parte do variegado cotidiano e do rico imaginário de um homem inquieto, inteligente, trabalhador, destemido, competente, amoroso, sentimental e leal.
Não poderia ser diferente. Evandro é misturado mesmo. É cearense ou paraibano? Ama Sobral ou Fortaleza? Bancário ou advogado? Administrador ou político? Professor ou contador de histórias? Pai extremado ou marido apaixonado? Frequentador das rodas do Ideal Clube ou xingador nos estádios pelo time do Fortaleza? Religioso ou amante de versos fesceninos? Gosta da roda da Praça do Ferreira ou da turma dos sábados no Iate Clube? Quem optou por todas as respostas, acertou. Na linguagem dos jovens de hoje, poder-se-ia dizer: “Pense em uma pessoa ativa, agitada?”, pois essa pessoa seria Evandro.
Há alguns anos seu coração, talvez cansado de tanta lida, pediu sossego, pois tinha acompanhado suas várias emoções de menino querido, depois sofrido e solitário, seminarista, estudante, revisor, jornalista, estudante de direito, bancário comum, pai de família, gerente de agência, presidente de banco público, professor, diretor de clube social, prefeito de Fortaleza, deputado federal e diretor de banco privado. Mas ele não concordou. Foi ao embate com a ajuda de médicos, refez-se tal como o sertão seco aparentemente morto tinge-se de verde e de benesses ao fim de chuvas copiosas. Redivivo, impôs-se a tarefa de registrar em livro, o que viu, sentiu, lutou e venceu. E o fez para gáudio de seus amigos, que são muitos, e de seus filhos.
Quem conhece os filhos de Evandro sabe que está lidando com gente diferenciada. Cada qual com modo peculiar de ver o mundo e todos com acendrado sentimento de família. Isso é genético e produto do desvelo de Evandro e de sua discreta, fiel e diligente mulher, Aunésia. Como se formassem um casal de águias, protegeram seus filhotes, deram-lhe vida e amor, mostraram um céu sem limites e permitiram voos independentes. Cada um a seu modo, mas nunca esquecendo o velho ninho, permanente, grande, caloroso e generoso.
Evandro finaliza seu livro mostrando, com propriedade, ser ele uma referência “que registra para os pósteros a memória de acontecimentos do passado por mim vividos ou presenciados, para preservar a história da região, do seu povo e de seus costumes”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2002.

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ENTENDENDO O BRASIL

Quando voltei de minha primeira viagem aos Estados Unidos, por conta de uma bolsa de estudos, fui perguntado por um repórter: do que gostou mais? Respondi, voltar para o Brasil.
Soube que a entidade patrocinadora não ficou feliz. paciência. Era e é o que penso. Gosto muito deste país tão louco, sem pé nem cabeça, em que nós agradecemos a um sargentão, adequadamente chamado de Felipão, por ter lavado a nossa honra e tudo com os pés. Era o maior herói nacional e no primeiro jogo após o penta perdeu para o Paraguai. Levou vaia.
Conheço quase tudo neste país. Já viajei por terra, mar, rio e ar. Converso com miseráveis, pobres, remediados e ricos. Este é o melhor país do mundo. Já andei por muitos lugares em vários continentes, mas não há nada que se assemelhe a esta terra. Ela é tão singular que tem dois descobridores: Pinzón e Cabral. Duas datas de descobrimento, uma independência onde não houve morte e uma república proclamada enquanto se pedia a volta do Imperador. Mais de 40 anos após a transferência da capital para Brasília os congressistas ainda têm direito, todos os meses, a passagens aéreas para o Rio de Janeiro, a antiga capital
Os ecologistas, após mais de 500 anos, resolveram dizer que havia 5 milhões de índios à época da descoberta. Quem contou?
Este país é tão louco que o candidato à Presidência do partido da situação diz que não concorda com o que os seus pares fizeram por oito anos. O candidato da oposição, tida até bem pouco como radical, ostenta ternos de costureiros internacionais, um candidato a vice que é um megaempresário, e fala hoje como um monge franciscano. Outro candidato se diz representante de Vargas e Juscelino e sequer havia começado a ler quando ambos faziam política. É pastor evangélico e o seu partido é socialista. Um é cearense, mas nasceu em São Paulo. É separado, mas luta pela eleição de sua ex-mulher, enquanto cuida com desvelo pela saúde da atual namorada. Ambas o apoiam com veemência.
Cada candidato diz que os outros estão mentindo e que só ele fala a verdade. As emissoras de televisão e jornais se dizem isentos mas até um cego pode ver e um surdo ouvir por quem estão torcendo. E tudo com uma sinceridade que dá para rir.
É tudo tão insano. Bandidos fecham ruas em sinal de luto por colegas assassinados e policiais encontram celulares, diariamente. nos presídios, embora todos sejam revistados ao entrar.
Não dá para entender nada e não há cientista político que possa fazer um juízo profundo sobre os nossos valores. Rio quando ouço sociólogos e antropólogos procurando justificar o nosso status quo. Mas este é o país em que vivemos, amamos e pelo qual, patrioticamente, iremos às urnas no dia 06 de outubro acreditando que vamos salvá-lo. A velhinha de Taubaté já está com o título pronto e nós também.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2002.

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SE É NATAL, POR QUÊ LER?

Neste domingo, você escolheu, entre tantas opções, ler esta crônica. Obrigado. Vá juntando as palavras e frases e veja se elas fazem sentido para você. Uma crônica é um relato simples, uma mistura da intuição de quem escreve e a sua oportunidade de falar do cotidiano. Hoje, o mote é dizer do Natal que aí está. Um natal sem fome, pregam uns. Um natal de paz, oram outros. Um natal sem injustiças, pedem todos. Um natal de amor, enfim. Mas, poucos se dão conta de que o Natal é uma etapa, o nascimento, a délivrance, a expulsão de um feto que deixa o útero após meses de gestação e, para viver, chora.
Assim é o ensinamento deste Natal, mesmo que a nossa fé seja interesseira, a solidariedade seja falsa e amor se esfume na primeira intriga. De repente, não importa a nossa história pessoal. Estamos todos, queiramos ou não, envolvidos na aura de um tempo que há de vir. Sempre foi assim e é assim que deve ser, pois não importa o que somos, vale agora como estamos e o queremos vir a ser.
E como estamos? Estamos perplexos pela pouca preparação de vida de cada um de nós para esta festa, repetida todos os anos, como se fosse um aviso ou chamamento que, independente do que compramos ou comemos, dá um sacolejo em nossas entranhas, tornando estranhas as mesquinharias a que todos estamos sujeitos. Esta festa é uma espécie de incenso virtual inalado, a penetrar em nossa pequenez. A fumaça perpassa, simbolicamente, os nossos chacras, sentimentos, a razão e as áreas de nossos corpos e mentes. Corpos e mentes talvez afetados por males reais ou imaginários, e sai… Sai, subindo o espaço sideral e leva uma radiografia do que somos, temos e podemos nos transformar ainda.
Precisamos reescrever novos roteiros pessoais, mesmo que isso nos custe caro e as incompreensões surjam. Não é uma garfada segura que nos garante o alimento que necessitamos, mas o ofício de reescrever sempre o que precisamos e devemos, com os sinos da esperança que teimam em tocar dentro de nós, por mais descrentes e indiferentes que estejamos.
Vale o lugar comum: este é um tempo mágico, mas, paradoxalmente, temos de arremessar fora cartola, habilidades de mágico e cartas marcadas. A magia de que se fala é uma conjunção e você, despido de suas verdades e certezas, pode sair do abstrato de sua realidade atual e imprimir o sonho que nunca teve coragem de viver.
Se você chegou até aqui é porque valeu a pena. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2003.

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MALEDICÊNCIAS E DESENTENDIMENTOS

Uma pessoa reclama das leituras erradas que fazem do que fala e de como vive. Diz que é incompreendida e que alguns, de boa ou má-fé, resolveram espalhar inverdades a seu respeito. Lamenta que não a conheçam na sua essência e façam coro a estórias, sem ouvir a sua palavra. Reclama que alguns não a conheçam como realmente é, desconheçam as atitudes que toma em situações emergenciais quando é preciso ter bom senso, comandar, discernir e ajudar o próximo.
Pois é. O comum, e mais cômodo, é as pessoas fazerem leituras erradas dos outros. Os sentimentos de empatia, simpatia e antipatia são muito próximos, limítrofes, e dependem sempre da história de vida, da essência, do olho e do ouvido do outro. Nós somos o que somos, mas os outros imaginam que somos o que pensam que somos. E aí é que residem as grandes querelas entre gente que se amou, foi colega ou amiga. Um dia, rompem.
São fatos, atitudes, e boatos que minam as relações de benquerença e amor. Chega um dia em que os arautos da maledicência são os ‘vencedores’, por plantarem a discórdia, a desunião e até a separação de pessoas que, mesmo cometendo erros, gostariam de ter alguém que lhes trouxesse alento. Falta, nestas horas, um pacificador, alguém leal às partes envolvidas, sem tomar partido. Ao contrário, sobram os que põem lenha na fogueira das fofocas, os que referendam leituras erradas, aqueles que trazem a ‘solidariedade’ não pedida, fazendo eco às tais maledicências e desentendimentos. Os maledicentes depois voltam para as suas vidas, tristes, alegres ou indiferentes por terem insuflado o rompimento de colegas, familiares, casais ou amigos.Os rompidos ficam lá, em suas solidões induzidas, questões a resolver, sem ter mais o apoio dos que lhes minaram a relação e que, via de regra, já estão atrás de outras estórias, fofocas e vítimas. Os ‘solidários’ voltam, quando muito, como Pilatos no Credo, de mãos lavadas, sem a emoção e o comprometimento da coragem para dizer: reconsiderem, reexaminem, não foi bem assim e, se foi assim, desculpem ou perdoem.
Cada um precisa encontrar a sua própria resposta, sem medo de ceder e sem ódio. E não seria perda de tempo conhecer a letra traduzida da música ´My Way´. Cada um tem o seu jeito, o seu modo de viver, reagir, amar e ser amigo. E o importante é que o nosso jeito de ser possa, apesar dos pesares, aceitar o jeito de ser do outro. E vice-versa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2003.

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KENNEDY, 40 ANOS DEPOIS

Ontem, 22 de novembro, fez 40 anos que John Fitzgerald Kennedy morreu. Todos lembram ou ouviram falar do fato acontecido em Dallas, Texas. Eu tinha 21 anos e, com a vaidade boba dos jovens, orgulhava-me de ter ganho, por concurso, uma bolsa de estudos para os Estados Unidos. Era uma bolsa privilegiada e, ao final, incluía uma visita à Casa Branca. Não aos seus corredores, mas um encontro nos jardins internos com o Presidente, o jovem quarentão John Kennedy.
Pois bem, fomos todos de paletó e gravata falar com o homem. Ele nos recebeu de terno azul marinho, camisa branca e gravata vermelha. Alto, olhos miúdos com rugas ao redor, sardento, louro, jeito descontraído, parecendo estar à vontade. Era a época da “Aliança Para o Progresso”, angariando simpatias e fustigando Fidel Castro, que já incomodava Washington.
A conversa foi amena, fotos tiradas, gravação pela Voz da América, apertos de mão trocados e saímos todos com os nossos minutos de glória. Não é todo o dia que se é recebido pelo Presidente. Voltamos ao Brasil em agosto e aqui as coisas já esquentavam. João Goulart sofria pressão por “reformas de base” e os militares começavam a se articular. Mas isto é outra conversa.
Exato no 22 de novembro de 1963 estava eu escrevendo na redação dos Diários Associados, em Fortaleza, quando chegou a notícia do assassinato de Kennedy. Foi um alvoroço geral e eu ajudei a compor a matéria. Meses depois, conheci uma moça, funcionária do Dnocs, que estava em Dallas no dia do atentado. Explico: o Dnocs fazia a manutenção de um avião seu em Dallas e ela, amiga do piloto, pegara uma carona. Ocorre que, Lee Oswald, suposto matador de Kennedy, quando era levado à prisão, foi assassinado diante das câmeras. Ela me disse que assistia à TV quando reconheceu Jack Ruby, com quem havia dançado em uma boite. De repente, Ruby puxou de um revólver e matou Oswald. Soube-se depois que Ruby seria ligado à Máfia. Mundo pequeno.
Voltando à história, tem-se hoje quase certeza de que Lee Oswald, foi tido – e mantido – como o assassino oficial de Kennedy, mas o seu rifle de 13 dólares, não teria a precisão de dar os três tiros fatais, especialmente o último que destruiu o crânio do Presidente. A versão atual é que o real homicida foi o corso Lucien Sarti, contratado pela Máfia. E como a memória é episódica, tudo isso me fez lembrar o caso dos compadres (por procuração, via consulado) nordestinos dos Kennedy. Zé chegando alvoroçado da roça e dizendo para Maria: “Mataram compadre Kennedy.”. E Maria respondendo aflita: “Como ficará a comadre Jacqueline?” Pois é…

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2003.

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RACHEL E O ATO DE ESCREVER

Terça-feira, manhã cedo. O telefone toca. É Natércia Campos quem me relata o telefonema recebido, minutos antes, da amiga Maria Luiza de Queiroz. A irmã de Raquel fala de sua última noite, insone como que conversando com os seus mortos queridos. Aquietara-se só às cinco horas e às seis já havia partido, sem lamentos ou ais, como a cearense forte que sempre foi. Não há meios de entender a hora da morte, mas há sentido em louvar a vida. Rachel com ch. Ch de chama: o fogo que a incendiou e que deu luz à liberdade intelectual da mulher. Ao gerar “O Quinze” em 1930, com 20 anos, decretava o fim da submissão literária das que haviam nascido apenas para estudar, casar e cuidar da família. Rachel foi chamego de seus leitores e chama que ainda ardia aos 93 anos. Fez-se grande com seu jeito simples, direto e sábio de dizer o que pensava, em entrevistas, crônicas e romances conhecidos de todos. Sem alardes, mas com a têmpera dos que esperam a justiça dos homens, foi a primeira mulher a entrar, em 1977, na, até então machista, Academia Brasileira de Letras.
Rachel não era produto da mídia. Ela era a mídia. Não era uma marqueteira, mas produto de sua competência. Não bajulava, era bajulada, mesmo contra a sua vontade. Não era objeto de contemplação, mas um caniço ou baobá, dependendo das circunstâncias, com raízes fincadas em dores sentidas, em vitórias alcançadas e saudades acalentadas. Era tripartida: Fortaleza, onde deixou o seu umbigo; Quixadá, onde assentou seu coração; e o Rio, onde pousou seu corpo por mais tempo e para o sempre.
Não vou apreciar a obra literária de Rachel. Quase todos já leram O Quinze, As Três Marias, Caminhos de Pedras, Dora Doralina e Memorial de Maria Moura, para ficar nos trabalhos mais consagrados. Prefiro reverenciá-la. Curvo-me à sua face expressiva de cronista, quando fala com propriedade do ato de ler e do ofício de escrever.
Em crônica intitulada “Escrever”, publicada em 2000, no jornal “O Estado de S.Paulo”, Rachel assevera: “Existe ainda uma outra maneira de ver estimulada a vocação literária dos jovens: é uma casa aberta onde todo mundo lê, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem direito à crítica, a falar o que pensa sobre a produção de pais, irmãos, tios e visitas íntimas, numa espécie de tribunal literário exercido à mesa de jantar. E sobre escrever de verdade, ela assevera: “Mas voltando ao assunto da vocação literária: para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para o cantor é preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes na sua especialidade – medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam do seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus sempre é parco na concessão de dotes”.
Em março de 2003, no mesmo jornal, Rachel afirma, já no título, que “A inspiração não vem para todos”. Diz: “A noção comum que se tem a respeito do escritor é que são pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito – fenômeno a que se dá o nome de ‘’inspiração’. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel… E continua: Pode ser que existam esses privilegiados – mas os que conheço são diferentes…O processo todo é penoso e dolorido…” concluindo, com brilhantismo: “Talvez com autores de imaginação rica o fenômeno se passe diferente… Aí a sensação criadora deve ser de plenitude e gratificação. Mas esses são as estrelas. A arraia miúda escrevente – ai de nós – é mesmo assim como eu disse: pena, padece e só então escreve”. Rachel mudou de cenário e sabe que seu agnosticismo, mesmo citando Deus, não será empecilho para, na dimensão em que estiver, velar pela arraia miúda que pena, padece e tenta escrever.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/11/2003.

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OS NOVOS MOINHOS DE CASTILLA

Andei pelas terras de Castilla neste outono chuvoso e quase frio de meados de outubro. Não montava o ´Rocinante´, tampouco estava atrás de uma ´Dulcinéia´, mas percorri a região que serviu de palco imaginário para a obra de Miguel de Cervantes. Foram 750 km, entre ir e vir, e descobri que os moinhos de ventos só existem agora nas duas partes do romance Dom Quixote, escrito entre 1605 e 1615 e que hoje faz parte da boa literatura universal.
Passei – e parei – por Toledo, patrimônio histórico da humanidade, tão linda com sua mistura de influência espanhola e moura, circundei o rio Tajo, que é o nosso Tejo português, e tomei a estrada moderna, sinalizada e sem pedágios que dá acesso a Albacete, nosso destino naquele dia.
Chovia, o sol era tímido e o ar montanhoso mostrava uma região inóspita, tal qual o Nordeste brasileiro. As pedras afloram do chão e a vegetação não consegue esconder que suas raízes sofrem ao penetrar no solo rochoso. Ovelhas lanzudas pastam como em uma eterna espera pelas diatribes de Sancho Pança, fiel escudeiro e servidor do cavaleiro Quixote.
Próximo a Albacete o sol reaparece e mostra que moinhos novos estão surgindo nos morros a 1.000m acima do nível do mar. São quase 200 aerogeradores imensos, com 54m de altura, captando a energia eólica e a transformando em riqueza para acionar o desenvolvimento da Espanha arvorada, com sucesso, a pertencer ao time das nações desenvolvidas. Fecho os olhos e penso nos ventos cearenses tão fortes quanto inaproveitados. É bem verdade que já temos alguns aerogeradores espalhados pelo Titanzinho, na entrada da Prainha, e na Taíba. Mas são tão poucos, quase nada em frente à realidade que ora vejo no silêncio desta tarde que me molha o corpo, mas não impede que o meu espírito continue a sonhar, tal qual um Quixote, por um Ceará em que as suas potencialidades sejam aproveitadas, sem que sucumbamos no mar de vaidades e quase nenhuma ação.
E por tal razão é que nesse dia tive a alegria de alinhavar palavras em papel para tentar sedimentar, mediante um protocolo de intenções, com a Universidade de Castilla – La Mancha e a Federação das Indústrias do Ceará, uma perspectiva de criação em Fortaleza de um Instituto de Energia Renovável com a absorção de tecnologia que transforme os nossos ventos na riqueza tão necessária para que não se percam como os sonhos mirabolantes de Dom Quixote.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2003.

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OLHAR MATUTINO OU DE COMO OS OLHOS PASSEIAM

As janelas estão orvalhadas. O dia está tímido e o sol ainda se espreguiça entre as nuvens que teimam em acobertá-lo.
A cidade está muda. Os raros notívagos embebecidos e pouco embevecidos passam com as suas garrafas tão vazias quanto a solidão que os acompanha. As moças do atacado – ou seria do varejo – dão as últimas passadas metidas em saias mínimas, com seus toscos e cambaios sapatos altos e a pintura desbotada.
Um quitandeiro noturno recolhe a sua mesa e cadeiras de plástico enquanto conversa com desocupados. Boceja, arruma tudo em uma tralha, põe as mãos nos quadris e toca o bolso, talvez assegurando que o minguado dinheirinho está lá. Uma geladeira usada virou um trenó, uma espécie de ´rosebud´ de sua maturidade sem perspectivas.
Aqui do lado, na pracinha vazia de almas, pássaros pequenos entoam, em bloco, uma louvação à manhã, como se as nervuras de nuvens trapaceassem com eles que clamam sem êxito pelo fulgor do sol.
Um táxi branco passa vagarosamente à cata de passageiros e dois mototaxistas ficam à espreita, como se disputassem o que não vem.
Há telhas sujas, cobertas dignas de um pardieiro e os edifícios altos quedam-se sem luzes aparentes. Do outro lado, o mar faz a sua tarefa contínua de ir e vir trazer água salgada, envolta em brancos filós, às pedras que impedem sua passagem, mas recebem beijos molhados com a sua frieza estrutural. O mar ainda está gris e só uma bamboleante jangada se aventura nesta manhã ainda infantil de um sábado que já ouviu o repicar das seis badaladas.
Um homem gordo, de velhas bermudas caqui e camisa rosa, pita um cigarro na sacada de seu prédio. Dá a última baforada, mostra que não tem civilidade e recolhe-se, deixando a porta entreaberta como a esperar a felicidade que talvez persiga.
Aqui bem perto tem gente que amo. Um pouco mais na frente, também. E andando-se na mesma trilha, outras amadas estão a dormir ou voaram de seus leitos para paragens várias. É assim. Minha força de amar tem tristezas, mas o sol está perdendo a timidez e eu revolvo e renovo sentimentos.
Meus olhos voltam-se para onde estou e após escrever o ponto, farei gestos mecânicos obedecendo a um ritual tecnológico que incorporei e desliga-me da máquina que, paradoxalmente, dá sentido humano ao letramento produzido.

João Soares Neto
Da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2003.

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GENEROSIDADE OU RESPONSABILIDADE SOCIAL?

As experiências das empresas no campo da ´responsabilidade social´ não deveriam decorrer de atos generosos, mas da consciência de que é preciso retribuir o que a sociedade lhes confere, independente do rótulo novo. Há empresa que, muito antes da obrigatoriedade dos vales-transportes, já financiava bicicletas, veículos e mantinha ônibus para transporte de seu pessoal. Paralelo a isso, construiu casas em vila operária, servidas por energia elétrica, água da concessionária, telefone público, parque infantil e escola. Todos seus empregados recebem, pelo menos, uma cesta básica por mês, são segurados (inclusive os cônjuges) e participam de planos de saúde.
Essas ações internas, feitas sem alardes, motivam ações externas para difundir a arte, como um concurso público entre pintores e escultores julgados por dois júris (um popular e um formado por críticos), concedendo dois prêmios: uma viagem aos Estados Unidos e outra à Europa. A empresa também desempenha sua responsabilidade social nas áreas da cultura e da solidariedade com carentes, assistidos e reunidos em ONGs e organizações sociais. Entre outras ações, destaca-se hoje a assistência a pessoas com mais de 55 anos que têm direito a preços diferenciados e participam de reuniões mensais onde são ministrados cursos, palestras, e sessões de motivação. Outra experiência que merece destaque na área é um projeto de solidariedade permanente, renovável todos os meses, em que são distribuídos gêneros não perecíveis, brinquedos e roupas, arrecadados de seus empregados e clientes, a entidades reconhecidamente sérias.
O importante é que os diversos setores da sociedade estão redefinindo seus papéis. As empresas, adotando um compromisso socialmente responsável, são agentes de mudança para, juntamente com Estados e sociedade civil, construírem um mundo melhor. Esse comportamento é caracterizado por uma coerência ética nas suas ações e relações com os diversos públicos com os quais interage, contribuindo para o desenvolvimento contínuo das pessoas, das comunidades e de suas relações entre si e com o meio ambiente. A responsabilidade social deixou pois, de ser uma alternativa, para se tornar um componente estratégico na política das empresas. E a principal tendência que se vem delineando nos últimos anos desafia as empresas a adotarem uma postura de responsabilidade social desfocada dos seus objetivos econômicos e essenciais. Isso evita que a imagem da empresa e seus valores sejam confundidos como simples propaganda, superando antigos paradigmas de lucratividade, para, então, viabilizar uma postura cidadã integrada ao processo de desenvolvimento social do país e especialmente dos locais onde exerce a sua atividade.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/10/2003.

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INTENÇÃO, PROPÓSITO E REALIDADE

Ninguém desconhece existir boa intenção e firme propósito do Governo Lula em resolver, entre muitos outros, os problemas gravíssimos da fome, desemprego, assistência médica pública, inclusão social e desequilíbrios regionais. Lula tem fé de ofício nessas áreas. Saiu de Pernambuco em um Pau-de-arara, amargou fome com a família, viu a primeira mulher morrer por falta de assistência médica e foi um sindicalista proeminente no combate ao desemprego. Conhece, de prova provada, o que é desequilíbrio regional. Vivia na São Paulo dos pobres, sem participar da São Paulo dos ricos que hoje querem ser os seus mais recentes amigos de infância. Lula tem formação de vida nitidamente paulista, mas traz na sua história genética a dor e a angústia do nordestino retirante.
Ninguém desconhece também que grande parte dos atuais ministros de Lula não tinha experiência na gestão dos graves e complexos problemas a necessitarem de soluções urgentes e equilibradas. Isto não quer dizer que as pessoas escolhidas não possam adquirir experiência, mas é preciso saber que a palavra experiência deriva de experimentar ou experienciar. Em outras palavras: leva tempo. Por outro lado, o Brasil entregue à Lula e sua equipe era, e ainda é, um país dividido em Capitanias na mão de ´lobbistas´, políticos e partidos praticando pouco do discurso, especialmente quando diante de microfones ou em entrevistas públicas. Acresça-se a isso, a existência de uma burocracia pesada, cara e pouco eficaz, sem entender ou não querendo entender a necessidade da agilidade no serviço público. Um país com pouca burocracia seria a nova cara do Século XXI.
Neste sentido, os agentes públicos precisam ficar cientes de que todos os brasileiros, direta ou indiretamente, são contribuintes e os verdadeiros pagadores de seus salários e aposentadorias. Ao entrar em uma repartição, qualquer brasileiro se sente aturdido e desestimulado pela morosidade das informações e, muitas vezes, pela indiferença ao que acredita ser legítimo pleitear. Todo brasileiro é cliente da máquina estatal e por tal razão merece ser bem tratado, independente da sua condição social ou financeira.
Já ouvimos falar de várias reformas, especialmente as previdenciárias (para diminuir despesas) e tributária (para gerar mais receitas). Não se falou, contudo, da necessidade de uma reforma ou planejamento administrativo, gerencial ou estratégico para tudo funcionar. Isto nos remete às intenções e propósitos de Hélio Beltrão e Paulo Lustosa em desburocratizar o Brasil. A realidade mostrou terem sido vencidos pela máquina kafkaniana da burocracia. É preciso, portanto, contar com o apoio dos servidores públicos e dos gestores de escalões intermediários. Sem eles, será difícil aproximar intenção e propósito da realidade fática.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/09/2003.