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DOAR É UMA NOVA GÊNESE

Estava eu com um artigo pronto para este domingo sobre o 2o. Aniversário do 11 de setembro de 2001. No ano passado escrevi um livro – ´Sobre a Gênese e o Caos´ – no qual, sob a forma de contos, especulo as reações pessoais dos envolvidos nas tragédias dos atentados à nação norte-americana. Iria dizer o pensado e o ainda a pensar sobre a gênese e o caos decorrentes. Porém, em telefonema com um amigo, tomo consciência do drama de uma família perdendo seu chefe pela impossibilidade de fazer transplante de rim. Decido, então, abordar este caos, na esperança da eclosão de uma nova gênese.
Há uma culpa coletiva nesta história. Mesmo que já tenham sido definidos em lei a forma e os procedimentos necessários ao recebimento de órgãos por doadores mortos. Há uma ausência de responsabilidade social dos principais agentes. Poderiam motivar as pessoas para deixarem determinado por escrito: eu sou doador(a). Igualmente, deveriam ser conscientizadas as famílias de pessoas com morte cerebral não ser a doação uma mutilação do corpo, mas a dignificação da vida transmudada.
Os órgãos encarregados da saúde pública, a imprensa -como está fazendo o SVM-, as igrejas, os clubes de serviços, as escolas, as universidades, as forças armadas, as entidades patronais e sindicais deveriam procurar divulgar de todas as formas possíveis o que significa ser doador(a). Apegos, desinformações e até ignorância podem estar bloqueando desejos latentes de fraternidade e até de caridade. Doar órgãos pode poupar vidas de pessoas acometidas de doenças curáveis ou controláveis, morrendo pela indiferença de parte da sociedade que tanto cobra e pouco dá.
Sou doador universal e deixo isso, mais uma vez, bem claro neste artigo. De que me servirão órgãos se estiver com morte cerebral comprovada? Cada pessoa, independente de suas crenças religiosas e idade, deveria fazer uma reflexão sobre o significado de ser doador, não só por se sentir mais digno, mas como contraprestação à natureza transformadora de um mero gameta em ser vivo, partícipe do milagre da existência, maravilhando-se a cada dia com o nascer do sol, a possibilidade de respirar livremente, se locomover, amar, procriar, progredir e, naturalmente, morrer. Não como uma punição, mas como coroamento de um ciclo a se fechar. Fechar sim, para os não-doadores, pois os doadores se perpetuarão em novas vidas alegrando famílias por seus gestos de desprendimento. Acredite, doar pode ser uma nova gênese.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2003.

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A VIÚVA ENCARNADA NO VESTIDO – DN CULTURA

Conheço José Maria Barros Pinho desde 1961. Fomos colegas da turma pioneira da escola de Administração do Ceará. Barros Pinho chegara do Piauí, via Crateús, e assentara-se na Pedro Pereira com Padre Mororó. Estudamos, lutamos, viajamos e fizemos política estudantil. Barros Pinho, por sua liderança, pagou um preço muito alto. A vida política quase pagou essa conta. Mas isto é outra história.
Desde esse tempo, Barros Pinho aliava à sua retórica a veia poética que ele teima em situar nas barrancas do Rio Parnaíba. Sua poética transcende às nascentes e a foz de um rio, ela se fez mar e inundou a praia onde moureja seus versos há mais de quatro décadas.
Agora, na juventude de sua maturidade, envereda pelo gênero da crônica, salvo incursão ligeira numa antologia de cronistas novos em 1971. Primeiro concorreu com o conto “O Zeca do tiro no bode da Nazária” ao Prêmio Ideal de Literatura, ano 2000, merecendo destaque. Depois, neste livro, reuniu 16 contos, editados pela Record, 2002, e, já na estreia oficial como contista, teve a honra de ser prefaciado por Gerardo Melo Mourão, o maior intelectual vivo nascido no Ceará e, sem dúvida, um dos maiores do Brasil. Se isso não bastasse, José Alcides Pinto (na orelha), Cineas Santos e Francisco Carvalho, (na contracapa) dão o fechamento, aprovação e louvação à obra de Barros Pinho. O que dizer ainda, até porque não sou crítico literário. Sou sim um leitor crítico. Concordo com Lya Luft, no seu livro “O Rio do Meio” , p. 134/135, quando diz: “ Impressiona-me que outros analisem com tanta clareza textos que escrevi: comentários eruditos, profundas aproximações, fazem-me parecer tão grave que chego a me inquietar, como se, de volta aos bancos de escola, andasse outra vez distraída de tarefas importantes. Essa de que aí falam sou realmente eu?
Pois é, Barros Pinho, embora possa ser vaidoso de sua trajetória, não é uma pessoa grave. Barros Pinho não se desfaz da veia poética:
O sol era o mais claro referencial da manhã. O rio, a mesma indiferença de sempre. A capela, no alto, erguia-se para o céu. (p.20).
E vai em frente:
Os peitos dela, mal comparando, eram duas nascentes de bicos finos, ver bico de beija-flor atacando no mato das veredas no início das águas (p.44).
Por outro lado, constrói frases próprias de cronistas não derramados, mas aprumados em suas tramas.
Os dias eram uma gulodice comendo o tempo (p.28). “Vive da sala para o quarto onde padece seu sentimento de dor dentro dela. É tanto, que a gente sem querer, olhando para ela, bota água nos olhos com gosto de não parar” (p.47). Fêmea comigo hoje não tem preço e pode até custar a vida de quem meter tramela na minha tão grande vontade (p.67).
Destaque-se, ainda, o tratamento dado aos personagens, com suas falas, pensamentos, medos, modos, com a pureza de um mundo talvez não urbano talvez não mais existente, perdido em meio a rios sempre recorrentes, mesmo que o conto seja outro, e as margens deem em lugares diferentes e nos quais nunca pisamos.
Há contos com personagens duros e dramáticos em seus conteúdos, gestados na infância, paridos nesta maturidade libertária de fantasmas agourentos, trazem epílogos cruéis ou fantásticos, apascentando a alma de quem escreve, disfarçando a dor vinda de longe, não se perde com o tempo e se recria no imaginário da prosa curta, mas firme. Assim é com Zeca:
O Zeca se rezava, rezava com o punhal na mão” (p.60), Bené Galvão. “O Bené pulou este batente e saiu daqui com uma cabeça de onça, o corpo de homem e asas de gavião encantado (p.85).
Ou com Tia Donana:
Vestia o vestido encarnado da promessa feita ao italiano, seu marido, sob o olhar espantado de quantos se preparavam para assistir a cerimônia oficiada pelo cônego Deusdedith de Freitas, que nos dentros dos botões de sua batina viveu atormentado por muito tempo (p.127).

João Soares Neto,
Da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2003.

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BENQUERENÇA

Vai chegando um tempo em que as águas assentam no fundo do pote. Você sabe bem quando a coisa está acontecendo e quando as benquerenças ficam definidas. É uma coisa que não depende de você, nem de contrato, tampouco de tempo definido. Chega e mostra a cara, quando vem de sopetão, parecendo enchente de rio em inverno bom. Outras vezes, aparece de mansinho, vai somando afinidade e se define no jeito de ver as coisas, o mundo e as pessoas, principalmente, como se fosse uma árvore que vai crescendo e já lhe dá sombra. Há também aquelas que pareciam ser uma coisa e são outra. A purpurina parece ouro, mas não é. O ouro é feio e esmaecido, quando sai do garimpo. Aí a gente reformula o pensamento, pede desculpas, se explica e abre o coração sem medo. Tal como o polimento do ouro fora do garimpo bruto, quando o brilho resplandece parecendo sol de verão.
Benquerença é reserva de domínio de sentimento. É aquela vontade de trocar ideias sobre qualquer coisa ou nada, especificamente. É empatia ou anseio que se transmuta em identidade entre duas pessoas, independente de sexo, idade, estado civil, cor da pele, dinheiro na poupança, grau de instrução, religião, ideologia ou nacionalidade. Isso que, a gente sabe, vai rareando a cada dia que passa, mas é só parar e sentir, sem pressa. Quando do lado de fora há tanta pressa em se chegar. Alguns não sabem bem para onde vão, mas vão apressados. Basta você ver quem buzina no sinal de trânsito, não respeita pedestre, vê mendigo com olhar atravessado, fura fila, faz cursos que não levam a nada, vão a tudo que é lugar, riem sempre ou são sempre zangados, não sabem ficar calados e ouvir, têm respostas para tudo e imaginam que a vida é eterna.
Comportamentos assim mostram como a vida é complexa, porque nós, seres humanos, somos tão diferentes apesar de parecidos. Aí que, se alguém afina com você, não perca tempo. É a tal história do cavalo selado que passa na sua frente. Não tenha medo de benquerença. Pessoas seguras de si revelam sentimentos e abrem as comportas de suas reservas, deixando escoar o que podem compartilhar e usufruir. E, preste atenção, benquerença não é só o usufruto do prazer, mas a percepção do outro em suas nuances não faladas, mas reveladas em gestos e silêncios.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2003.

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OS DIAS DOS FILHOS

Há duas datas no ano consagradas aos pais. São festas móveis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a mãe, e o segundo domingo de agosto, para o pai. São feitas aos domingos, quem sabe, para não atrapalhar os dias úteis dos filhos tão embricados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias – e muitas das noites – são reservados aos filhos. Não vai aqui nenhuma queixa ou lamento. Mas, a história parece se repetir. Os pais são vistos, via de regra, como aquelas pessoas que cobram, tentam estabelecer limites, obrigam a estudar, verificam os boletins da escola, falam que determinadas amizades não servem e tentam até dar palpite sobre as escolhas para namorar ou casar. Como se ainda valesse…
Os pais são pessoas mais velhas. Vinte ou trinta anos é um tempo imenso para uma criança ou adolescente. Os pais têm costumes diferentes. E são ´chatos´, pois têm de levar, quase sempre ´à força´, os filhos à escola, seja puxando pelo braço, no colo, na garupa da bicicleta, no ônibus, no lombo de um animal, no trem ou carro. Os pais também puxam pelo dedão do pé para que acordem, colocam a pasta na escova de dente, dizem que a roupa não está certa e, cansados, à noite, ainda vão olhar os deveres de casa e as tarefas extras que a escola manda fazer.
Os pais não devem discutir na frente dos filhos, mas têm, a todo instante que separar as suas brigas. Os pais podem estar desempregados, salário atrasado, a empresa falida, mas precisam conseguir dinheiro para a comida, aluguel, conta da luz e da água, prestação disso ou daquilo. Quando se diz ´os pais´, estamos fazendo justiça a uma relação nova entre marido e mulher ou companheiros, pois ambos são provedores. Acabou-se aquela história do homem ir à luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e já faz algum tempo, ambos vão à guerra e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. É claro, há exceções, mas essas não contam.
Tudo isso é para dizer: todos os demais dias do ano são dos filhos, essas criaturinhas parecendo ´ter o rei na barriga´ e, quando crescem um pouco mais, a primeira coisa a dizer é: ´não pedimos para nascer´.
No domingo passado foi o dia do pai. Este ser mais periférico ainda que a mãe, meio abobalhado ao saber existir um inevitável hiato ou desencontro entre gerações e as perspectivas pessoais com os filhos amados e pelos quais deu e dá tudo de si. Em meio aos cafés, almoços, lanches e jantares no dia dos pais e das mães, surgem figuras novas das famílias, as noras e genros, enquanto os netos não entendem bem por que os seus avós estão ganhando presentes, pois nem pais são. Pois é…

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2003

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EM MEIO A LIVROS AVIA-SE UM VIOLÃO

Sergio Braga trabalha em uma sala entulhada de livros. Aos sábados, a sala se transforma em ponto de encontro de gente que gosta de conversar, ler, escrever e até tocar. Em meio a tudo isso, circulam capotes, galinhas e peixes, todos devidamente mortos e prontos para serem deglutidos. Não há hierarquia, embora circule gente que comanda o Estado, poeta, crônica, pinta, caricatura e, repito, toca. No sábado, 2, deste, Nonato Luiz estava por lá sem instrumento de trabalho. Sergio aviou um Di Georgio desafinado e lá se foi Nonato Luiz dar o seu jeito às cordas.
Enquanto isso, o instiguei a pensar na hipótese de só tocar três compositores. Após eles, o dilúvio. Nonato escolheu: Haendel, Villa Lobos e Baden Powell. E o fez com a maestria de sempre, como se os acordes que aprendeu em Lavras da Mangabeira tivessem, por mimetismo, se assenhoreado de um andamento andaluz ou mouro. No instante em cada melodia era tocada, peguei um pedaço e fiz breves anotações: Haendel – Sentados, sentidos e postos. O violão decola e entre na história. Parte de Haendel e tira da corda o que o saber evoca e recorda. Faz-se pausado, cadência vária e a sala vira santuário, um oratório. Como se os livros fossem mudos instrumentos uníssonos. E os pés silentes deixam que as mãos falem. E falam fundo, profundo, como se existisse um mundo barroco e um vale na floresta negra em pleno dia de sol e ventos cearenses. Villa Lobos – chega Heitor e não traz uma matilha de lobos, nem as bachianas. Constrói uma vida de acordes e nos desperta da barbárie, fazendo-nos meditar quão grande tolice seria o mundo sem a música, ela que nos extasia e mexe até com o que imaginávamos não mais escutar, nem os cantos da floresta tropical.
Baden Powell – não foi e nem é um escoteiro, mas cria, escolta e revolta a afro-música brasileira que, em meio a dissonantes, se transformam afinados em berimbau em que a corda esticada e marcar dolente parecem mostrar a negritude das origens e o banzo que nos acode nas aflições do amor.

João Soares Neto
Da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2003.

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O TRONCO DA BIANCA

Saio do hospital onde fui ver Bianca nascer. É dia claro, os ventos são fortes nesta manhã venturosa e a poeira levantada me faz fechar os olhos, entrar numa viagem no tempo. Tempo que se confunde e infunde tantas vidas. Eis a narrativa da viagem: era o primeiro filho… Não lhe deram nem o sobrenome da mãe, tampouco o do pai. Herdara um dos dois sobrenomes do avô paterno, exatamente o que o dito-cujo avô não incluíra na certidão de batismo do seu pai. Assim, sem pedir, viera ao mundo desconectado dos nomes do pai e da mãe que o conceberam e amaram. E o avô voou cedo para outras paragens, lá ficou e finou. Não herdou fama, nem desfama. Era apenas um neto usando o nome do avô.
E descobriu depois, quando vieram os irmãos, que também eles não tinham nada do seu nome. Era neto, filho e irmão desconectado de sobrenome. Parece que seria ele, só, sempre.
Foi crescendo em meio a essa confusão e um dia amou e pretendeu casar. Casar nos dois, no religioso e no civil com comunhão total de bem-querer e de bens. Precisava do batistério, prova de que era cristão, sua cabeça havia sido banhada na água-benta, ungido nos santos óleos e provara o sal da salvação. Juntou o batistério à certidão de nascimento. Não conferiam. Um ano as separava. Um ano não vivido. No limbo. Era mais velho para a lei dos homens, sem ser, e só fora recebido na igreja no ano seguinte. Nem era ainda cristão, mas já era pagão, sem ter corpo ou alma.
Explicou-se tudo, muitas vezes e devagar. Entenderam quando um parente bispo, apaziguou os ânimos, disse ser um erro do cartório e o casamento foi acertado. A noiva, por seu turno, resolvera retirar, ao casar, o sobrenome duplo do pai. Assim, os filhos deles, o novo casal, teriam o sobrenome dele, sem nada a ver com o de seus irmãos e pais. E o dela, apenas com o sobrenome da mãe. Era uma genealogia nova e diferente. E gente, nascida do e por amor, foi brotando, surgindo um novo tronco. As velhas raízes que sustentavam a árvore haviam sido podadas e só restara aquele novo a crescer e esgalhar.
Deus – ou o destino-, por pirraça, por não entender a confusão ou em represália, quem sabe, ao podar as raízes paternas, determinou com seus poderes supremos e mágicos que só vingaria mulher naquele novo tronco que formaria outras famílias. Vieram quatro filhas, frutos da nova árvore-base. Cresceram, apaixonaram-se e duas delas, com os seus eleitos maridos, geraram novas quatro filhas, incluindo a que chegou agora, nesta última quarta-feira, 30 de julho: Bianca, leonina, nascida sob os ares do sol, uma melodia, canto novo, plena de graça, verdadeira prenda para seus pais, bonita, sadia, abençoada por Deus. Nova vida, novo ciclo, quem sabe.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2003.

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FOFOCA E PRIVACIDADE

Pesquisas revelam que o Brasil é o país da fofoca. Fortaleza seria a cidade-rainha da fofoca. É por estas e por outras, que cada pessoa deve preservar mais a sua intimidade. Assim, seja você como for, não permita que invadam a sua privacidade, lute para afastar os que se adonam de você de forma explícita ou não. Não existem só os meios tradicionais de invasão que você conhece (os que se fazem de íntimos, os amigos de todo mundo e de ninguém, os bisbilhoteiros contumazes, pessoas que você não vê há séculos e dão as caras, parentes com quem não convive e tecem redes de intriga etc). Não dê trela a quem, por não ter satisfação com a própria vida, vive de bisbilhotar e distorcer as dos outros.
Hoje, neste mundo em que a informática e a comunicação têm um lugar destacado, há outras invasões menos sentidas, mas também danosas. Por exemplo, há alguns anos foram criadas as mailing-lists ou listas de correspondência. Se você compra em loja, se tem um ou mais cartões de crédito, faz parte de alguma entidade ou clube, assina revistas etc, certamente integrará as famigeradas mailing-lists e receberá cartas, cartões, convites, propagandas e outros que tais. Hoje, no Brasil, há empresas especializadas em vender listas de correspondência e faturam alto com o nosso nome.
Se você utiliza computador, tem um e-mail e cai na tolice de responder a alguém que lhe manda correntes de orações, piadinhas, protestos contra políticos etc., sem dúvida entrará em muitas listas de ´spam´, que é o lixo da Internet. O spam é, em outras palavras, tudo aquilo que você recebe sem pedir e querer e que lhe dá trabalho de, literalmente, colocar na lixeira
Outra invasão é aquela feita através do seu telefone fixo ou celular. Há pessoas que adoram números de telefones de amigos ou de gente importante e têm o desplante de passarem para frente, o que alguém lhe confiou ou conseguiu, por mera bisbilhotice. Outros, sem perguntar se você está ocupado, ligam dizendo que querem trocar duas palavras e passam um tempo maior que a sua paciência permite. Isso tudo é quebra de um tácito contrato social de privacidade/civilidade que lhe deixa vulnerável a pessoas que violam a intimidade a que todos têm direito, especialmente fora do exercício de uma função pública. Ouça gente que sabe que a sua imagem (fotos, filmagens etc) não pode ser utilizada sem a sua autorização e se deixam embevecer pelo flash que espoca ou o aparato de uma filmagem.
É claro que não podemos viver como Howard Hugues, um excêntrico bilionário americano que se isolou do mundo e acabou morrendo sozinho. Você deve estar atento à infiltração contínua da sua privacidade e lutar para que fantasias, interesses, fantasmas e fofocas não sejam criados a partir da imaginação dos que, costumam ter a inveja como prumo e o desatino como rumo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2003.

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DISCURSOS E IMAGENS DE PRESIDENTE

Quem viveu ou estudou os anos 60/70 na América Latina sabe que era comum o tratamento ´companheiro´ entre os jovens e militantes de esquerda. Vieram os anos de repressão, a clandestinidade, as guerrilhas e a volta gradual à democracia.
Quem viveu ou estudou os anos 60/70 no mundo sabe da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, da guerra do Vietnã e da intensa propaganda feita por Moscou e Washington para demonstrar isso ou aquilo.
A queda do muro de Berlim em 89 e o esfacelamento da União Soviética nos anos 90 tornaram a balança favorável aos Estados Unidos. Esse fato não fez diminuir a existência de grupos e correntes de esquerda na América Latina e a expressão ´companheiros´ continuou em voga.
Ano 2003, Brasil. Um antigo companheiro chega à Presidência da República. Assume com um apoio popular imenso, enquanto a credibilidade externa do país está em baixa. Em seis meses de governo pode ter sido o Presidente que mais tenha feito discursos. É natural que um político que criou e viu crescer o Partido dos Trabalhadores até chegar ao poder, tenha ânsia de dizer a que veio, o que pretende e o que espera de políticos e da sociedade. Por outro lado, mais natural ainda é que os seus assessores, que se esmeram em apresentá-lo bem vestido e cuidado, tenham a coragem de dizer-lhe que já é tempo de participar de menos reuniões. Qualquer assessor presidencial sabe que o chefe da Nação é o ´Primeiro Magistrado´. O que quer dizer isso? Que a pessoa que ocupa os palácios da Alvorada e do Planalto é o delegado de todos nós para governar e distribuir justiça.
O discurso não deve ser o foco. O foco é a governabilidade e a distribuição da justiça sem precisar, por exemplo, vestir a camisa de times de futebol, receber misses ou usar bonés seja de quem for. Alguém precisa ser mais leal ao Presidente. Lealdade não passa pela subserviência e a aprovação popular não deve ser entendida como aval para dissipar o tempo em cerimônias e viagens que podem ser evitadas. O Presidente tem ministros e assessores e esses são, naturalmente, seus representantes nessas solenidades menores. O Presidente deveria ser mais resguardado para manter incólume a credibilidade que granjeou em meio à esperança de todos.
O Brasil precisa sair mais do noticiário. A imprensa brasileira atual, especialmente a da televisão, só tem duas vertentes: a denúncia e o governo. A mídia deveria ser mais responsável e criativa. Ao invés de espalhar maledicência e flagrar o presidente comendo um biscoito ou falando de sua mulher, deveria estar preocupada em melhorar a qualidade do que informa, pagar seus impostos e ver o Brasil não como um produto, mas como um país a ser respeitado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2003.

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GABO E A SOLIDÃO

Um dia desses alguém me perguntou se deveria ler o livro ´Cem anos de solidão´, de Gabriel (Gabo) Garcia Márquez. E argumentava: ´já não aguento a minha própria solidão, pois não sei administrá-la. Como perder meu tempo lendo um século de solidão?´
Cada pessoa é livre e ler é um ato individual que exige vontade e concentração. É uma decisão pessoal em que os olhos passam a comandar os nossos sentidos e nos fazem deixar o mundo real para penetrar em uma seara imaginária em que tudo é permitido, pois depende do contrato de adesão entre a mente de quem lê e foco de quem escreve. Ler pode até ser perda de tempo, mas é uma das perdas de tempo mais gratificantes da vida. O ser humano começa a ler quando identifica a mãe, o pai e o lugar onde vive. Antes de falar, os olhos já leem. Depois, passa a entender símbolos: as letras do alfabeto. Em seguida, junta os símbolos e faz um primeiro jogo com as palavras: bola, pé, papai, mamãe etc. De repente, o jogo clareia e as palavras formam frases. É claro que o ambiente familiar e a formação escolar ajudam a formar leitores. Se observa os pais lendo e há jornais, livros e revistas em casa é um passo para a criança passar a ser um leitor, especialmente se foi acostumada, desde cedo, a ouvir histórias antes de dormir. Igualmente, se a escola a estimula a ler para fazer pesquisas, aprender biografias e História. Feito isso, será mais fácil gostar de escrever e compreender melhor o que lê.
Voltemos ao livro. Não vou fazer resenha nem aconselhar. Apenas tal pergunta aguçou minha curiosidade. Resolvi procurar o meu velho livro ´Cem anos de solidão´ e verifiquei que o permanente costume de marcar frases estava lá. A marcação de frases pode representar o que se pensa no momento da leitura, concordância ou discordância com o que diz o autor através de seus personagens.
Entre amigos que gostam de ler há intercâmbio de livros ´marcados´, isto é, já lidos. A partir das marcações, fazem até psicanálise de brincadeira e identificam os pontos que têm em comum, apesar de, muitas vezes, terem nascido em lugares ou países distintos e profissões diferentes.
Vou mostrar as minhas marcações de frases sobre o que dizem os personagens de Márquez no ´Cem Anos de Solidão´. Cito apenas sete: 01. As coisas têm vida própria. Tudo é questão de despertar a sua alma. 02. A curiosidade pode mais que o temor. 03. Na verdade estavam ligados até à morte por um vínculo mais sólido que o amor: uma dor comum de consciência. 04. O tempo põe as coisas no lugar. 05. Não suplique a ninguém, nem se rebaixe diante de ninguém. 06. Só ele sabia, naquele tempo, que o seu aturdido coração estava condenado para sempre à incerteza. 07. A armadilha da saudade… Que se há de fazer, o tempo passa. É verdade. Mas não tanto.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2003.

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O INCONFORMISMO DO OLHAR

Quem olha com mais atenção em geral é inconformado. O que vê não é apenas o que se pretende mostrar. Vê muito mais. Os olhos inconformados fazem leituras, filmam, auscultam, pintam e veem além da paisagem ou da pessoa. Vão lá dentro da alma, da essência e sentem o outro em sua fisiognomonia das aparências e dos gestos. E isso produz uma visão crítica severa, a de entender o outro não pelo que diz, mas pelo que se infere da sua e da nossa história.
Os artistas, especialmente os pintores, escultores, compositores, cineastas, poetas e escritores têm, quase sempre, esse viés. Não se contentam com a realidade aparente ou a aparente realidade. Fixam o olho e extraem a essência, aquilo que não fica exposto, embora seja uma fratura.
Os que viram o filme ´Frida´ puderam observar que ela possuía inconformismo no olhar e isso a fez ser a pessoa que foi, mesmo tendo ao seu lado a figura consagrada do pintor e muralista Diego Rivera. Eram avançados para o seu tempo e os seus olhos viam mais do que o mundo mostrava. Despetalavam a realidade e com o seu inconformismo, a transformavam na loucura real em que viviam.
Virgínia Woolf, tão pouco lida, mas muito comentada depois que um filme mostrou uma réstia da sua vida, era outra pessoa com inconformação no olhar. Acabei de ler ´Mal de Amores´, da consagrada escritora mexicana Angelles Mastretta. A personagem principal, Emília, tem o mesmo mal ou bem. Não repousa o seu olhar apenas nas paisagens de Puebla, mas o distribui por todo o México e dá rasantes na América, sem nunca esquecer de seus dois amores, tão diferentes quanto preservados e relevantes em sua vida singular e dupla. Por aqui há uma mulher de olhar inconformado: Natércia Campos, cansou-se de ser filha, esposa e mãe, e deu a si o direito de construir uma casa com o olhar tão amplo quanto os seus sonhos reprimidos. Sonhos transbordados em prosa tão luminosa quanto a dramática trama de seu livro ´A Casa´, um libelo pouco entendido, mesmo para os que o imaginaram ler com atenção. Será preciso ter olhar inconformado para conseguir ver ´A Casa´ em toda a sua plenitude e assombrações, este livro sobre pessoas, mas com almas e as lamas permeando o seu enredo.
Talvez valesse dizer aos namorados, festejados no próximo dia 12, que deem vazão ao inconformismo preso em seus olhares. Não finjam sentimentos e poupem quem espera amor e não apenas presentes. É preciso ser verdadeiro neste tempo de tantas mentiras. É preciso ter os olhos inconformados para adonar-se da vida, abrí-los para ver além. Depois, fechá-los e ouvir a sua voz interior. A que realmente conta.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/06/2003.