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ENTREGA À MÃE-TERRA

Voltei mais rápido que esperava e desejava. As bandeiras me chamaram. Estava, novamente, na terra do chapéu Stetson e aonde foi selada a vitória de Bush sobre Gore. Foi agora em maio e eu me lembrei, mesmo sem querer, da entrega do Oscar deste ano, quando um americano meio fora do padrão, Michael Moore, ganhou a estatueta de melhor documentário com o filme “Tiros em Columbine”, brandindo horrores contra o Sistema americano por ser uma nação louca por armas. A América é muito complexa para ser descrita em um só filme. É um país tão multifacetado que cabe não só em “Tiros em Columbine”, como no filme “Pães e Rosas” e em tantos outros.
Voltava às pressas, a chamado de sentimentos. Os mesmos voos, a mesma estrada, as mesmas árvores, a rua tranquila. Faltavam as bandeiras americana e brasileira. O pórtico estava apenas com os aros. As bandeiras haviam sido retiradas. Estavam em outro lugar. E foi para lá que fui.
Era uma igreja católica. Bonita, moderna. Estrutura de aço, mas toda recoberta por madeira. Parecendo ser o que não era. Ou era o que não parecia. Lá estavam as bandeiras, lado a lado. De pé. A diferença é que havia alguém deitado para sempre e outra tentando, com todas as suas forças, manter-se de pé. Um padre jovem, alto, bem-apessoado, de voz canora, fazia às vezes da casa. Houve cânticos, discursos, rosário, missa de corpo presente, música sacra, gaitas irlandesas, encomendação e a gentileza dos homens de preto que cuidavam de tudo.
Era chegada a hora de tomar outra estrada, afinal. Partimos para a cidade onde Jeb Bush trabalha. Chegamos à noite e, em poucas horas, novamente, uma igreja. Desta vez ela era americana assumida, batista, inflável, de plástico, climatizada e poderia ser também uma quadra esportiva. As bandeiras já estavam lá. Haviam sido transportadas. Houve mais preces, cânticos e até um longo discurso do Procurador Geral do Estado. Reminiscências. A música cessou e apareceu a limusine. Sem limusine não estaria encerrada a participação dos homens obrigados a estar ali. Tomamos a limusine. Gente das duas bandeiras. Vimos a estrada nos levando para uma floresta bonita. A limusine fez uma curva, saiu da estrada, e parou. Pisávamos em chão batido. Descemos e ficamos em posição. Éramos das duas bandeiras. Estávamos ali para entregar à mãe-terra alguém que quis ficar em meio a ciprestes e a seus ancestrais, fora da estrada e ao reencontro de sua verdadeira natureza. Pássaros cantaram e saímos silentes.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2003

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AS MÃES-MENINAS

Seria bom que o dia de hoje fosse um dia alegre para todas as mães brasileiras. Seria bom que todos os filhos pudessem homenageá-las e vê-las felizes. Seria bom que todos nós tivéssemos a consciência tranquila de que as mães são assistidas, respeitadas, amadas e festejadas. Neste País em que 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a história real é bem diferente da mostrada nos elaborados comerciais de televisão, jornais e emissoras de rádio. Não haverá festa, nem presentes para a maioria das mães brasileiras, especialmente as mães-meninas. Será mais um dia de cão.
Em qualquer pequena, média ou grande cidade brasileira você viu, vê e verá, dia e noite, adolescentes grávidas ou jovens mães vestidas com andrajos levando crianças ao colo ou puxando pela mão como aval para mendigar nos semáforos, praças, avenidas e portas de templos religiosos. Este é um retrato cruel, sem retoques e malsinado de um país que se arvora de ser uma das maiores economias do mundo.
Neste dia das mães é para essas meninas-mães ou mães-meninas que a lembrança acode. Não estudaram, suas famílias são desestruturadas, têm na face a desnutrição, nos olhos carregam a desilusão, no corpo as mazelas, mas não puderam conter o fogo natural da juventude, perdidas na voracidade das noites em que tudo é permitido, nada é vigiado e o sol custa a nascer.
Sem saber nada de nada, estavam grávidas a troco de qualquer coisa e jogadas em um mundo cruel que as discrimina e desampara. O que dizer de tudo isso? O que é tudo isso? Há dezenas de órgãos de proteção aos menores. Há um Estatuto da Criança e do Adolescente e tudo continua na mesma, sem que nenhuma orientação seja dada ou providência tomada. Não são raros os casos de mães que entregam seus filhos por qualquer ninharia e o fazem, quem sabe, como um último ato de amor. Se não podem mantê-los têm, pelo menos a esperança ou a ilusão de que a pessoa que ´comprou´ sua criança cuidará dela melhor e a criará ´feito gente´.
Pode ser indelicado falar, no dia de hoje, nesta face cruel que tentamos esquecer ou ignorar. Por outro lado, seria bom que cada pessoa de bem pudesse sair de seus casulos e em meio às suas festas pantagruélicas sentisse um pouco dessa dor e compartilhasse da solução com responsabilidade solidária, a partir de engajamentos cívicos, sem demagogia ou alardes.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2003.

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A PRIMAVERA DA AMÉRICA

Sou uma espécie de peregrino sem caminho preestabelecido. Penso estar aqui e me surpreendo voando. Não que voar seja o meu fraco, pois não sou alado e tenho que me render aos aviões. Dois voos após, estava na América. Na América pós-Iraque, nestes feriados da Páscoa emendados com Tiradentes. Por desligamento, entrei na imigração na fila dos americanos. Pedi desculpa e ia saindo. O agente que estava atendendo riu e disse: fique. Mostrei o passaporte e eu fui quem fez perguntas sobre o seu sobrenome não americano grafado no crachá. Falou-me dos pais imigrantes, carimbou o passaporte e deu votos de boas-vindas. Estava na América de Bush. Na terra em que de cada dez carros, pelo menos quatro, portam bandeiras americanas. Onde os prédios públicos e privados e as escolas vivem uma febre patriótica exacerbada. Paciência, as eleições americanas foram o que foram. Eles são assim, pensam que pensam certo e agem errado, até, vá lá, por boa-fé.
Saí do aeroporto e me dei conta da primavera que iluminava o sol, mas deixava ainda um friozinho na pele. Peguei a estrada. Tinha milhas e milhas a percorrer e promessas a cumprir antes de dormir, como diria Robert Frost. Duzentos e oitenta milhas depois estava na casa de amigos, por quem o meu coração clamava. Casa grande, bonita, quase centenária em uma pequena e nobre alameda de apenas duzentos metros, povoada de árvores frondosas que pareciam chorar pelas galhas. No pórtico: duas bandeiras. Uma americana, outra brasileira. Ainda bem. Limpei os pés e toquei a campainha. Era hora de estar lá. Sem promessas, mas com a espada da benquerença desembainhada. Falamos tanto, como se houvesse uma guerra ao silêncio que cercava o medo. Falamos sem peias, expressando tudo. E o passado se fez ali para, mesmo que em vão, descobrirmos as origens das feridas sorrateiras a corroer o corpo quando a alma silencia.
Éramos irmãos, mesmo que de países diferentes, falando de coisas sérias e duras com uma candura imprópria a homens maduros. Só as árvores testemunhavam o nosso entendimento à beira da hora da verdade. Após tudo ter sido dito, passamos a ser três. Achegou-se a irmã de sangue, embora prenhe de costumes americanos. Sabíamos que podíamos escancarar a alma e que ninguém estava ali por acaso. Ali fui levado pela linguagem da alma. Não tinha nada a dar, mas precisava ir. Era tempo de chegar, da adição do olho no olho. Do aperto de mão verdadeiro, do conforto mútuo e da consciência de que estávamos prontos, mesmo sem saber para que. A vida põe âncoras em pessoas em portos não escolhidos e vai-se gastando o tempo da ampulheta do destino quando surgem os terremotos. Mas os que se respeitam e creem no que fazem, logo encontram o chão firme e não têm receio do vazio. Há sempre plenitude na racionalização e no emaranhado de sentimentos que teimam em florescer.
Fez-se hora de voltar. Nada é permanente, a não ser a efemeridade do instante. Tudo fora dito e sabíamos que voltarei qualquer hora dessas, desejando seja novamente primavera e as bandeiras, as duas, ali continuem.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2003.

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A CIDADANIA

José Gutiérrez nasceu em um bairro pobre da Guatemala. Viu que seria pobre eternamente e descobriu-se sonhando com um futuro mais promissor. Não seria como seus pais, já velhos e sem perspectivas com menos de 50 anos. O mundo estava aí para ser conquistado. Trabalhou, juntou tudo o que tinha e fugiu para os Estados Unidos. Foi dar com os costados na Califórnia, lugar lindo, rico, em que tudo parecia funcionar. Viajava de trens, ônibus, caronas, mesmo que dormisse em prédios abandonados e vivesse se escondendo da “la migra”, como é chamada a polícia migratória.
Acreditava haver encontrado um sentido para a sua vida e uma nova casa. Não voltaria para a pobreza guatemalteca. Sonhava em ser um novo Antonio Banderas ou, quem sabe, um dono de uma daquelas lanchonetes em que a comida era cheirosa, serviam água com gelo e nos banheiros limpos fazia, escondido, os seus asseios.
Um dia, sem que esperasse, foi preso pela “la migra”. Desolado, soube por outros imigrantes ilegais que a melhor maneira de se safar era declarar-se refugiado. Assim o fez. Saiu das grades e viu que a única saída para ser igual aos outros que viviam na América era ter um “status”. Se não tinha dinheiro, não falava bem o inglês, mas era forte e jovem, a solução seria ingressar nas forças armadas, onde já estavam 130 mil latinos como ele, e conseguir o “green card”.
Era vidrado em filmes de guerra em que os “marines” sempre venciam as batalhas e tinham as mulheres que queriam. Seria um deles e mandaria fotos coloridas para seus pais e amigos da Guatemala. Escolheu o Corpo de Fuzileiros Navais. Agora era mais uma praça, o “Joe”.
Veio a oportunidade sonhada: a Guerra do Iraque. Não sabia bem qual a razão dela, mas isso pouco importava. Teria viagens, bom soldo, promoções e gostaria de conhecer de perto aquelas mulheres que se cobriam todas. Tiraria os seus panos e mostraria porque se achava um Antonio Banderas.
Viajou em um grande avião com farda camuflada e viu, ao chegar, que a coisa não era bem o que pensava. O Iraque lembrava a pobreza de sua Guatemala e o calor fazia ferver o seu sangue latino.Logo foi destacado para uma missão de reconhecimento em uma cidade que não sabia pronunciar o nome. Mascando chicletes, com toda uma parafernália de munições, equipamentos e armas, pensava estar protagonizando um daqueles filmes em que os “marines” sempre vencem. Seguia o que seu sargento mandava fazer e gostava de colocar os óculos em que via no escuro, como se fosse dia. Era, enfim um americano. O “Joe”. Em um instante, José Gutiérrez estava morto. Uma bala perdida ou dirigida, nunca se saberá, o encontrou. Era o segundo americano morto em operações no Iraque. Nem aí teve a glória de ser o primeiro. Seu corpo foi resgatado e colocado em um caixão de zinco enrolado em uma bandeira americana. Voltou no porão de um avião de guerra. A América concedeu a José Gutiérrez a cidadania post mortem, não precisaria mais do “green card”.

Escrito por João Soares Neto, a partir de notícia verídica do jornal “El Clarín”, de Buenos Aires, edição de 29.03.2003
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2003.

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BUSHUSSEIN: O SHOW DA VIDA E DA MORTE

Não quero ter na consciência o peso da indiferença ou da omissão. Os canais de TV estão fazendo da guerra do Golfo Pérsico um ato vil, sádico, desumano e tornando as pessoas insensíveis ao absurdo da agressão mútua e da morte descabida. Pintar Saddam Hussein e George Bush de tiranos ou defensores ou o quer que seja, é um filme tão ultrapassado, de retórica antiga, consistente como um pudim e defensável como uma freira fazendo ´strip-tease´.
Nenhum analista político americano ou iraquiano teve a coragem de ser explícito: a guerra é um emaranhado de mentiras, de embustes, de interesses econômicos contrariados e a pretensa defesa ou conquista de um emirado do Oriente Médio – que há pouco mais de trinta anos era parte de um protetorado britânico – não dá a ninguém o direito de fazer o que está sendo feito.
O Iraque brigou oito anos com o Irã e ninguém se meteu. Até armas químicas foram usadas. Os Estados Unidos invadiram Granada e o Panamá e a ONU ficou calada. A Rússia quase dizimou a Letônia e nada. A Letônia, o Panamá e Granada não têm petróleo. O Irã era inimigo dos Estados Unidos e o Iraque – até recentemente – seu aliado. Estes são os fatos. Não consigo entender a razão pela qual os canais de TV, inclusive a poderosa CNN americana, se rendem – ou se vendem? – a um ilusionismo digno de Houdini. Esse canais são dirigidos por pessoas como nós e se rendem a uma ignóbil propaganda, a mesma utilizada por Goebbels na Alemanha nazista. O elevado índice de aceitação (79%) por parte da opinião pública americana da posição adotada por Bush e o gen. Collin Powell, o primeiro negro a comandar uma guerra nos Estados Unidos, reflete a maciça propaganda mostrando que cabe aos Estados Unidos defender o mundo. Para defender o mundo, os Estados Unidos estão com um contingente onde a maioria é constituída pelas minorias raciais. Basta dizer que, segundo o jornal New York Times de 25 de janeiro último, 24,6% do total de soldados é de cor preta. Outro tanto é constituído de latinos, eslavos, italianos etc. A parcela WASP (anglo-saxônica, branca e protestante) é menos que 50% do total de americanos envolvidos no conflito.
A humanidade sofre com a fome do terceiro mundo, onde a África e a América Latina são contrapontos na orgia de mísseis e tecnologias que devoram, por dia, a dívida externa da Bolívia. Os cientistas do primeiro mundo dão uma demonstração patente de ausência de humanismo, de falta de preocupação de males como a fome, o câncer, a Aids e as doenças endêmicas resultantes de atraso e do descaso de uma comunidade de seres privilegiados e alheados da realidade social.
Ninguém pode se orgulhar de uma guerra com data marcada, correspondentes a postos como se fosse uma olimpíada, bilhões de dólares em equipamentos e em pessoal para serem dizimados em uma contabilidade onde o registro de uma façanha destruidora é motivo de uma edição extra por locutores com emoções orgásticas citando número de mortos e feridos. Para concluir, só um detalhe: este artigo foi escrito e publicado neste Diário no dia 07 de fevereiro de 1991. Filme em reprise?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/03/2003.

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PORTUGAL DO EURO

Revi Portugal. Todo viajante leva uma mala com roupas e outra, invisível, com a sua história, seus preconceitos. Não sou diferente. Portugal, para mim, é um país ainda a ser descoberto. Por mais que tenha estado lá, pouco entendo de seu ritmo, da essência do seu povo, da cultura de seus autores consagrados e da que exala de seus sobrados, monumentos, mosteiros e igrejas. Não entendo, mas tento.
A primeira vez que estive em Portugal foi em 1965. Nessa época reinava a ditadura de Antônio Salazar e as cidades portuguesas pareciam tristes como o andamento do fado e a roupa preta das mulheres. Nem a língua comum permitia ouvir dos portugueses o pulsar real de suas queixas. Ela se fecha em lamentos surdos e pouco se extrai da dor –nostalgia- avassaladora que parece ser a sua essência. Como se a dor alimentasse o semblante quase sempre carregado.
Quando da Revolução dos Cravos, em 1974, estive por lá e fiquei alegre por ver em Mário Soares um sopro da redescoberta intrauterina de Portugal. Parecia uma catarse coletiva e o país despedia-se da era salazarista à procura de uma nova identidade. Voltei outras vezes e vi nas décadas de 80 e 90 que o país tentava esquecer o ultramar perdido e abria-se para a Europa, sendo visto pelos países ricos como novo destino turístico, campo crescente para a implantação de indústrias, até culminar com a sua entrada na Comunidade Europeia em 1986.
Foram feitas privatizações. As multinacionais baixaram em Portugal e saíram comprando o que podiam. Grandes grupos portugueses se consolidaram. Aí parece ter ocorrido um erro de perspectiva. Com dinheiro fácil para novos negócios o país foi ficando endividado e, hoje, neste inverno de 2003, revi Lisboa como uma cidade mais moderna, com as reformas introduzidas para a realização da Expo-98 com o belo e grandioso Parque da Exposição, mas com um certo ar de recessão.
A euforia parece ceder, novamente, ao lamento e há até quem diga que o Euro, introduzido em 1999, não tenha feito bem a algumas pessoas que teimam em raciocinar em escudos e contos de réis. O choque da europeização de Portugal ainda é um fenômeno novo, mas o fado parece voltar a ter sentido, pois se reacendem os sentimentos de pesar, como se o progresso tivesse minado a alma de quase todos. Os preços subiram e o rico dinheirinho que era mandado de volta para as famílias pelos emigrados porteiros, motoristas, governantas, recepcionistas e garçons espalhados por toda a Europa rica não tem mais o encanto de outrora.
Disse, no início, não conhecer bem a essência da alma portuguesa, mas retrato o visto e ouvido nas minhas andanças pelo velho Chiado, a Baixa e tantos outros lugares. E o faço com o que tenho de Caminha e Soares no sangue. Gostaria de estar errado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2003.

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HISTORINHAS DE CARNAVAL

Neste domingo de carnaval em que muitos brincam, outros se escondem, vários viajam, os tristes curtem suas solidões e alguns até leem, resolvi contar umas historinhas de carnaval, todas passadas comigo.
Primeira: tinha por volta dos 12 anos e fazia parte de uma turma, entre adultos e crianças, que conseguiu um caminhão para passear no corso (corso era uma área da cidade em uma avenida de pista dupla, destinada, de um lado, aos blocos e os sujos, a atual turma da pipoca; do outro, ao tráfego dos veículos). Nosso caminhão era do tipo misto, com duas boléias e uma carroceria de madeira. Os mais velhos iam nas boléias. Os mais jovens ficavam na carroceria. Tinha ganho um lança perfume (cloretil Rodouro). Embora não estivesse fantasiado de pierrô, vi uma perfeita colombina e gastei todo o lança perfume com ela que me mandava tímidos sorrisos ao lado do irmão. O corso acabou, a colombina foi embora acenando e fiquei com o lança perfume vazio na mão.
Segunda: estava com cerca de 15 anos. Pedi ao meu pai para ir com ele a uma festa noturna de carnaval. Ele concordou. Era terça-feira. Naquele tempo havia umas vesperais em casas de família com discos. Fui participar de uma. Cheguei em casa cansado, resolvi repousar um pouco e acordei na quarta-feira.
Terceira: no fulgor dos 18 anos, resolvi liderar a formação de um bloco com estudantes do C.P.O.R. (para quem não sabe, futuros oficiais da reserva do Exército). Conseguimos até uma viatura militar para nos levar aos bailes. Houve um dia em que, eufóricos, levantamos o estandarte do nosso bloco mais alto que o da turma do Clube Líbano. Foi o bastante. Começou uma briga e a festa acabou.
Quarta: Já universitário e com namoradinha a tiracolo, fizemos um Bloco das Almas. Todos de branco, cobertos da cabeça aos pés, pintávamos e bordávamos pelo meio da avenida, sem que ninguém nos reconhecesse. Não havia bebida, só muita energia até que os pés pisados por terceiros pedissem uma trégua.
Quinta: Teatro Municipal, São Luís. Havia convidado uma turma de cearenses para assistir ao baile municipal com concurso de fantasias. Todos solteiros. No meio do desfile, um de nossa turma, que havia bebido, subiu à passarela e resolveu tomar, de um dos candidatos à originalidade, o longo bambu que tinha na ponta um pagode chinês iluminado por uma vela. Tomou, a vela ardeu e foi um vexame.
Sexta: Marquês de Sapucaí, Rio. Estava sentado na cadeira vendo as escolas de samba passarem. Nos intervalos, o bloco dos garis fazia a festa, até que apareceu alguém de paletó azul marinho e gravata acenando fortemente para a multidão, indo e vindo sem parar de um extremo ao outro. Perguntei quem era: Fernando Collor, futuro candidato a Presidente da República. É doido, pensei, e não votei nele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2003.

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A BIENAL ARTE CABEÇA

Visitei, com olhos de leigo, uma parte da Bienal de Artes das Américas. A própria bienal se diz “ponta-cabeça”. É uma proposta de vanguarda, experimentação, rupturas, instalações e objetos. Certamente sem rigor, conceito, conteúdo e formas consagradas. Ponta-cabeça pode dizer muita coisa ou não expressar quase nada.
Sabemos que a arte pode ser um choque, uma distorção da realidade, um desfocar sobre a visão dita normal. Sabemos também que toda arte, como já pensava Picasso, é uma espécie de mentira por meio da qual se procura perceber a verdade. O artista, no caso em espécie, é, tal os poetas, um fingidor, e dá aos seus desvarios uma expressão viva dos seus sentimentos, engajamento social ou político e, quiçá, de sua alienação.
A “ponta-cabeça” parece não ter feito a maioria das cabeças das pessoas que estavam por lá. Tive o cuidado de perguntar e o desapontamento era maior que o regozijo. Coisa de leigo, quem sabe. Embora não possa dizer que baldes plásticos agrupados não sejam uma expressão artística. Tampouco tenho autoridade para discordar que graxa espalhada em um encontro de paredes seja, em sua negritude, uma manifestação fértil a perturbar a retina de quem vê. Arte é perturbação. Nesse caso, a graxa está bem aplicada. Pregos em uma parede branca com iluminação artificial podem ter efeitos inquietantes. E arte é também inquietação. Jornais espalhados e um caminho a percorrer entre eles pode não ter uma finalidade precípua. E arte não tem finalidade. Tem simbologia, alegoria e reflexos. E quem sou eu para dizer que não havia reflexos e simbologia em meio ao caminho que passei entre vales e montanhas de páginas políticas, econômicas, sociais, esportivas etc.
Vi águas da Tailândia em um vídeo que poderiam ser de um rio qualquer, mas eram da Ásia e revoltas. E águas revoltas, de qualquer continente, serão até manifestação de arte. Tudo o que mexe com a nossa inércia mental, provoca pensar, prazer, desconforto, sentir, e poderá ser arte. Talvez tenha sido essa a intenção do artista filmador.
E, de sala em sala, vi ainda retratos em que as íris dos olhos eram máscaras de homens engravatados, como a dizer algo que o artista percebeu. Artista vê com o terceiro olho, como os yoguis. Quase a sair, outro vídeo. Este, de pessoas tentando fazer o jogo da velha em meio a um cruzamento de um trânsito louco, em que semáforos não oportunizam o pintar dos jovens ajudantes do câmera inquieto que dirige a cena sobre o asfalto pintado em xis. No final, uma grande bola, com pequenas reentrâncias, quase monocromáticas, assimétricas, como a nos dizer da imperfeição de todos nós, especialmente os que, como eu, não entendem de arte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2003.

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CAMINHOS

Tenho recebido alguns convites de formatura das várias universidades que hoje pululam por aí. Todos muito arrumados. Feitos para durar. Há mensagens (aos pais, mestres, amigos, amores, ausentes etc.) imagens, fotos sorridentes, papel de qualidade, diagramações cuidadas e espaços para oferecimentos. Isso mostra, por um lado, o zelo dos formandos. Por outro, salvo engano, a vaidade de parecer dizer a alguém: ´o meu é mais bonito que o seu´. Pois o público que vai a essas solenidades é constituído, como todos sabem, dos pais, namorados, amigos e os antigos colegas de colégio que seguiram ou tentaram carreira diferente. Estarei errado?
Além de ter recebido vários, alguém teve a coragem de me pedir idéias sobre mais um convite. Queriam fazer algo diferente. É provável que vá estragar a surpresa, mas resolvi sugerir a abertura com Patativa do Assaré: ´É um me chama para cá, me leva para lá, diploma, festejo, uma louvação danada´. Sugeri também uma reflexão de Rainer Maria Rilke: ´Você está olhando para fora, e é justamente isso o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou julgar. Ninguém. Só há um caminho: procure entrar em você mesmo´
Recomendei ainda citações de Einstein, Camus, Emerson, Cantares (8:6-7), mas fiquei encantado com uma, especialmente do quase esquecido Carlos Castañeda, tão lido pelos jovens contestadores dos anos 70. Diz ele: ´Cada caminho é apenas um entre milhões. Se você acha que não deve segui-lo, não precisa ir adiante. O fato de abandoná-lo não pode agredir você, nem pode ofender ninguém. A sua decisão de seguir ou abandonar um caminho deve ser livre de medo ou ambição. Eu lhe aviso: examine cada caminho com atenção e propósito. Experimente-o tantas vezes quanto julgar necessário. E pergunte a você mesmo: esse caminho tem coração? Se tiver, o caminho é bom. Se não tiver, não tem utilidade´. Depois que repassei o material, li e reli. Descobri que não só os formandos com as euforias naturais, mas os pais, os amigos, os namorados e os mestres deveriam meditar sobre os seus próprios caminhos, tão difíceis nesta época em que as pessoas ficam cheias das próprias certezas por não terem coragem de abandonar comportamento, vertebrarem-se, que não agregam muita felicidade e isolam entendimentos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/02/2003.

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A FESTA DE PARIS

Por um desses acasos, na virada do ano, estive em Paris. Relembrei Hemingway no livro ´Paris é uma festa´. Preparado para a noite fria, misturei-me à multidão na vasta região que fica entre a Av. Champs-Elysées e a Torre Eiffel. Táxi, nem pensar. O jeito foi mergulhar na estação George V e emergir do metrô superlotado em Bir Hakeim perto do Trocadero ao pé da obra de Gustave Eiffel. Na noite do dia 31 de dezembro os metrôs de Paris são gratuitos, pois não há possibilidade de controlar a multidão e os táxis somem. Há policiais de carro, moto, bicicleta e todos ficam atentos, mas distantes.
Restaurantes cheios, gente de todo o mundo e uma turba imensa soltando fogos de artifício, bebendo, esquecendo a baixa temperatura que sombreava a noite, mas deixava resplandecer os lampiões e a iluminação especial que adornava a torre de mais de 300 metros de altura. Depois do jantar gostoso, cheguei à base da torre onde camelôs vendiam brincos e colares fosforescentes, bebidas e comidas. Foi então que descobri que grande parte do povo na rua parecia de origem muçulmana ou africana. As roupas coloridas, a cor da pele, as famílias com muitas crianças sendo puxadas por pais severos, o som característico das suas línguas denunciavam a ´invasão´ turística ou permanente tão reclamada pelos franceses. ´A França é dos franceses´, dizem os xenófobos, mas não haverá lei, tratado ou força militar que consiga mais desentranhar dali os que chegam ou vieram das antigas colônias e se apropriam da metrópole, repetindo sem saber, o que dizia o socialista utópico francês Proudhon ser a propriedade um roubo.
À meia-noite não houve contagem regressiva. Cada qual viu em sua própria hora chegar o novo ano e os fogos que nem de longe lembravam Copacabana ou qualquer grande cidade brasileira coloriam a noite de forma tímida, enquanto garrafas vazias de champanha entulhavam os canteiros e até desciam para repouso nas águas do Sena. Pouco a pouco, como se houvesse uma chamada geral, as pessoas foram se dispersando. Os mais afoitos e liberados se cumprimentavam, trocavam abraços e se beijavam. Era 2003 e o jeito foi pagar mais euros que o devido a um taxista que, usando o seu carro particular, aproveitava a oportunidade, para garantir a compra dos queijos que, certamente, comeria na manhã do novo ano que já despontava.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/01/2003.