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MÉXICO NO CEARÁ

Neste início de setembro, o México se fez presente no Ceará em duas áreas distintas. Primeiro, foi a participação de Felipe Ehremberg, Adido Cultural da Embaixada Mexicana no Brasil, e Mário Gutiérrez, da Secretaria de Cultura da Cidade do México, que vieram apresentar, na Bienal Internacional do Livro, o programa “Arte por todas as partes”, um caleidoscópio de arte que culminou com a reafirmação do convite oficial para que Fortaleza e o Ceará se façam representar, por artistas e escritores, na Feira de Zócallo, uma grande feira artístico-cultural que começará em 08 de outubro próximo e que terá a duração de dez dias.
A Feira de Zócallo fica na parte central da cidade do México e terá uma área destinada preferencialmente ao Ceará, o Estado convidado, de forma a permitir uma maior aproximação entre as culturas mexicana e brasileira, tão ricas e tão desconhecidas uma da outra. É de se acreditar que esta oportunidade seja correspondida e que Fortaleza e o Ceará possam levar uma delegação à altura de nossas aspirações de inserção no mundo, tão duramente perseguida por Floriano Martins, em um trabalho sem trégua.
Em segundo lugar, a Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo, com uma grande comitiva, veio com professores, pesquisadores e até empresários, para a formatação e assinatura de convênio com a Universidade Estadual do Ceará, bem como contatos com o Padetec, Partec, Unidade de Agropólos, Banco do Nordeste e com a Federação das Indústrias, onde foram examinadas possibilidades de cooperação científica e tecnológica.
Estes dois fatos mostram o interesse objetivo que o México tem demonstrado de aproximar-se do Brasil e, por conta de um trabalho que já se faz maduro, especialmente com o Ceará, que tem procurado a superação de dificuldades e dar um salto de qualidade, tanto na área cultural, como em suas exportações, ainda tão pouco significativas. Não basta procurar, é preciso expor e expor-se.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2004.

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DIALOGAR COM MOACYR SCLIAR

LIVROS
Moacyr Scliar na bienal
Fui avisado, na semana passada, por uma das coordenadoras desta Bienal, que tinha sido escolhido para dialogar com Moacyr Scliar. Por que eu? João, deixe de conversa, será sexta-feira, dia 3, às 19 horas. Um beijo e desligou. Fico matutando e lembro que li recentemente uma pequena coleção chamada de “Vozes do Golpe”, da Companhia das Letras, e que um desses pequenos e preciosos quatro livros, era “Mãe Judia”, 1964, de Moacyr Scliar.
Certamente, o exercício a que se propôs Scliar é prova de sua reconhecida capacidade de transposição do real para o imaginário e, ao mesmo tempo, de misturar real e imaginário ao criar uma mãe doente mental, que se vê em um hospital psiquiátrico e passa a falar de seu filho desaparecido e da sua vida para uma capela vazia e é objeto de escuta psiquiátrica e política, pois a coisa vem de longe, não é de agora. Relembro de Max e os Felinos e, certamente, de O Centauro e o Jardim, entre outros. E claro, de suas gostosas e sarcásticas crônicas, das segundas feiras, na 2ª página do caderno Cotidiano, da Folha de São Paulo, do qual sou assinante há décadas.
Encabulado, ligo para a casa de Moacyr Scliar. Era fim de tarde. Ele está em meio a uma entrevista e falamos rapidamente. Digo, de saída, a verdade. Sou um mero escrevinhador amador de província e que tinha sido designado para um bate-papo com ele na Bienal. Ele responde rápido e vai retomar a sua entrevista.
É cobra criada e uma bienal a mais não fará diferença para ele. Para mim, sim, pois estava falando com um ficcionista do tamanho dos pampas com uma experiência literária que faz inveja a qualquer grande escritor latino americano.
Traduzido, entre outras línguas, em espanhol, inglês, alemão, holandês, sueco, francês e hebraico, Moacyr Scliar tem prêmios que dariam para tornar célebres muitos escritores. Um escritor para cada prêmio.
Quem tem os prêmios Joaquim Manoel de Macedo, Érico Veríssimo, Cidade de Porto Alegre, Guimarães Rosa, Brasília, Jaboti, Associação Paulista de Críticos de Arte, Casa de Las Américas, em Cuba, Pen Clube do Brasil, José Lins do Rego, este da Academia Brasileira de Letras, pode, e tem o direito, de ser consciente de sua capacidade literária e receber de todo o público brasileiro a consagração que merece.
E eu metido com ele. Imagina a minha perturbação.
Resolvo, de forma audaciosa, mandar um livro meu para ele por Sedex e, após três dias, ligo novamente. Ele ainda não havia recebido o livro. Falei da minha apreensão sobre o nosso bate-papo. Moacyr disse que não carecia de eu me preocupar. E eu tremendo de medo. Tudo bem. Chegou a hora.
Trocamos poucos e-mails e estou aqui nesta arena tal qual os cristãos lutando contra leões na Roma antiga. Seja o que Deus quiser.
Direi apenas, o que todos já sabem, Moacyr Jaime Scliar é uma das maiores referências da literatura brasileira dos últimos 30 anos e, certamente, esta é a razão básica de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 2003, com 35 votos entre 36 eleitores.
Sua história pode ser sumariada assim: Seus pais vieram da Besarábia para trabalhar em um projeto de colonização agrícola no interior do Rio Grande do Sul. Ocorre que o projeto já estava no fim e eles mudaram para Porto Alegre onde Moacyr Scliar nasceu no ano em que Vargas, seu conterrâneo, resolveu criar o Estado Novo, sob a inspiração do jurista Francisco Campos com toda a roupagem do fascismo que se instalava na Europa e começava a fustigar os judeus e toda a humanidade.
A família morava no Bairro do Bom Fim, área de imigrantes, e Moacyr, além dos ensinamentos básicos recebidos de sua mãe, foi estudar, em 1943, na Escola Iídiche, que viria a ser futuramente o Colégio Israelita Brasileiro. Em seguida, em 1948, Scliar é transferido por sua família para um educandário católico, o Colégio Rosário. Menino, já era o escritor da família e do seu bairro, pois tudo colocava no papel, de pão que fosse.
Em 1955, entra na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de onde sai formado no ano em que o seu conterrâneo João Goulart comemorava o primeiro ano de governo. Mal sabia ele o que viria depois.
Diploma na mão e já com um primeiro livro pronto, “Histórias de um Médico em Formação”, em que conta a sua experiência acadêmica.
Ingressa no SAMDU, uma instituição médica pública que a Revolução resolveu extinguir. Especializa-se em saúde pública com ênfase em medicina sanitária. A sua vocação de médico, exercida em plenitude, o fez estudar a vida e a obra de Noel Nutels e Oswaldo Cruz. Desse estudo, saíram dois livros.
A partir de 68, o ano que antecedeu o Ato Institucional nº 05, surgiu “O Carnaval dos Animais” e não parou até hoje. São quase 70 livros entre romances, novelas, contos, ficção juvenil e ensaios, expostos nas livrarias da Bienal do Livro do Ceará que teve a honra de recebê-lo sexta à noite.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2004.

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CEARÁ: A FORTAL DA CULTURA

O mês de julho serviu para debates e embates jurídicos se haveria ou não o Fortal, o carnaval fora de época. Cada dia parecia uma luta por medalha. Hoje, perde. Amanhã, ganha. Acabou havendo. Agora, neste final do mês de agosto, o Ceará vai virando um banco de cultura, do jeito que Lúcio Alcântara gosta e tenta, como intelectual assumido, sedimentar em nossa terra. Estou dizendo banco, no sentido de dizer que a cultura está viva por aqui, pulsando, com a troca de energia que torna as pessoas mais instruídas e valorizadas.
De um lado, no aterro da Praia de Iracema, encerra-se hoje o Circuito Cultural Banco do Brasil que tenta popularizar a cultura, torná-la pública, com atividades gratuitas e outras a preços baixos. Armou tendas na praia e apostou em atrair público, especialmente o jovem, aquele que ainda está descobrindo que a curiosidade é filha da informação. E a informação é mãe do conhecimento. E o pai de tudo isso é o saber. Essa coisa que vai ficando sedimentada em nós, depois que todos os nossos sentidos são aguçados e resta lá no fundo da mente. O objetivo era que os jovens de idade e os de espírito deixassem suas tocas, unissem suas tribos e vestissem suas roupas de guerra, os seus “abadás”, nesta Fortal cultural, sem música baiana e sem confusão, e se misturassem, perguntassem, ouvissem, cantassem, discutissem e tentassem aprender e apreender um pouco sobre a arte e a cultura.
Ao mesmo tempo, já começou a Bienal Internacional do Livro do Ceará, um charmoso evento que vai até o dia 07 de setembro. Com sede fixa no Centro de Convenções, estará também espalhada por alguns pontos da cidade. Será a Bienal fora da Bienal. É só acompanhar a programação pelo jornal, que dará destaques diários aos acontecimentos. A Bienal tem milhares de livros de autores consagrados, estreantes, clássicos e populares e as muitas editoras vão brigar para vender bem. Haverá mostras, reuniões, shows, atrações musicais, debates, travessias, gastronomia, declamações, instalações, e, claro, até vendas de livros a preços promocionais com a presença e autógrafos de escritores brasileiros e estrangeiros.
O livro, desde que lido, é uma excelente moeda de troca no jogo da vida, especialmente neste Século XXI. O livro é também o amigo mais disponível e nunca reclama quando mexemos com ele. Ninguém é solitário se gosta de ler. A Bienal é uma feira livre de cultura, mercado aberto do saber e lugar agradável para se ver gente inteligente ou que posa de “culturette” com alguns livros debaixo do braço ou em uma sacola. Essa é uma programação recomendada até para quem não gosta de ler, o que não é o seu caso, pois se assim fosse você não estaria finalizando a leitura deste artigo.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/2004.

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O AMOR ATUAL

Somos todos frutos do amor. Seja ele duradouro ou circunstancial. De uma forma ou de outra, temos uma família que nos insere no mundo. Um dia, deixamos de ser filhos, e passamos a ver o amor como a mais legítima forma de estabelecer novos laços afetivos. A partir desse dia, vemos que é preciso encontrar uma pessoa a quem possamos amar, através de um processo de aproximação sucessiva, manter essa relação atraente, não desgastante-sufocante e viva com o correr do tempo, seja curto ou longo. E ao lado do amor, deixar fluir a vida real.
Vivemos, quer queiramos ou não, o tempo da pós-modernidade, essa coisa meio chata de definir, mas que pode ser encarada de vários ângulos e aspectos. Por sermos humanos, não temos selos de garantia, somos fracos e falhos. E temos urgência em viver relacionamentos que nos deem prazer, apoio e danifiquem o menos possível os nossos sentimentos. Além de tudo isso, como vivemos contextualizados, não podemos fugir muito das regras sociais da família, grupo e local. Somos comparados e comparamos. Temos que crescer profissionalmente, também. “Isto é básico”, na linguagem atual.
Esse mundo pós-moderno (do computador, celular, emprego externo ou em casa, contas divididas, insegurança pessoal e coletiva, caixa eletrônico, carro, liberdade, viagras e hormônios, corpos malhados ou remodelados querendo parar o tempo, motéis e da fragilidade dos relacionamentos) fez o ser humano ficar ainda mais tímido e confuso, admitindo que o seu amor pode se esvair rapidamente.
Hoje, além de todas as artimanhas do amor, os casais têm que formar uma sólida base econômico-financeira que os proteja da volatilidade dos empregos e da incerteza do futuro que é a única certeza.
Por tudo isso é que já não se estranha que uma pessoa entre em um relacionamento sem encerrar as contas do anterior, de modo a descobrir no outro o que falta “naquele, de antes”. Se der certo, fecha as contas de um e abre outra. Há, ainda, as categorias de casados-mornos ou casados-(a)parentes. Nelas, os parceiros têm consciência do desgaste da relação, esperam que os filhos cresçam ou que o tempo faça um milagre.
Os amores, até em casas separadas, e não mais apenas em quartos separados, são indícios da fragilidade da consistência afetiva entre as pessoas. Por outro lado, a liberdade atingida permite ainda a troca continua de parceiros, o que banaliza o relacionamento. Ficar com alguém é distinto de amar alguém. Sair para ver o que vai dar é diferente daquela busca romântica e finita do outro. O verdadeiro encontro ou prazer só se dá com o amor. O tempo não é santo, pois é contaminado pelo dia-a-dia da vida crua e nua, que vemos dentro e fora de nossas janelas. O resto é ato.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/2004.

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ESCRITOR OU EMPRESÁRIO?

Algumas pessoas perguntam por que, ao lado do meu nome aí no título, está a palavra escritor. Ora, certamente, porque estou exercendo aqui neste espaço o ofício de escrever. Não contentes com a resposta, alguns perguntam: mas você não é empresário? Sou, também. Ninguém tem que ter obrigatoriamente um só ofício, um só dom, um só problema e uma única solução. Todo o saber – ou a prática acumulada – vai sendo dirigida ao que se precisa para viver e também ao que nos dá prazer. Escrever, para mim, foi e é uma das atividades mais prazerosas. Tentei ser pianista, não consegui. Só pintei um quadro e fui um esportista de terceira categoria, até um braço quebrei jogando vôlei.
Agora, escrever foi um hábito que veio desde a adolescência, quando já lia muito, fazia diários e imaginava que escrevia crítica de cinema. De repente, estava formado e precisava cuidar de ser advogado ou administrador. Já tinha trabalhado em jornal e sido correspondente de uma revista. Optei por ser administrador e fui juntando a pouca experiência com muita pretensão e destemor. Sem que me desse conta, virei empresário. Foi duro, muito duro. Deus sabe.
Isso foi há 35 anos. Em março de 1969 era empresário com a coragem e a cara e, logo em maio, casei. A família é a base de tudo. No dia 31 de agosto do mesmo ano o Presidente Costa e Silva tiveram um derrame e assume uma junta Militar. O Brasil pára. E eu fico tonto. Decidem escolher Médici e o país volta a funcionar. Eu tento acompanhar o ritmo. Em 1974 o Gen. Geisel assume o poder, coincidindo com o fim do milagre econômico. Eu procuro entender e fico aturdido. De Geisel para cá já tivemos 09 presidentes (Geisel, Figueiredo, Tancredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula). Esses 09 presidentes já criaram 09 moedas diferentes, tivemos 05 planos econômicos e 18 ministros da Fazenda. Todos tinham a pretensão de salvar o Brasil e fizeram o que sabiam. Eu é que ia entendendo menos. Ora, com tanta confusão, crises econômicas, impostos novos e problemas para resolver, é preciso que um empresário – ou qualquer outra pessoa – procure uma válvula de escape. A minha sempre foi ler e escrever. Mania essa, como já disse, vinda de longe. Em meio a jornadas de trabalho de até três turnos, viagens de todas as naturezas e para quase todas as partes do mundo, o livro sempre foi a companhia indispensável. A par disso, ia escrevendo em máquinas de escrever, em todo pedaço de papel que encontrava, até que o computador pessoal entrou na minha vida. Sem querer – ou querendo – já faz mais de 20 anos que publico artigos, sempre aos domingos. O grande escritor Monteiro Lobato também era empresário e brigão. Tá explicado?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/2004

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A ARCA, OS VALES E OS MONTES

Os que nos conhecem verdadeiramente ou de perto, sabem que não somos profundos em nada. Somos, quando muito, curiosos, especialistas em uma coisa só ou, ao contrário, em generalidades. Lemos muito de algo ou um pouco de tudo e, consequentemente, não aprendemos muito. De qualquer modo, pinçando, aqui e ali, alguma coisa do que lemos e vivemos, somada à nossa (in)experiência, vamos repassando uns aos outros.
Um exemplo pessoal disso: faz cerca de vinte anos que procuramos ler sobre psicologia e psicanálise. Mera curiosidade ou seria acaso (Freud –ou Jung? – diz que não há acaso)? É um campo vasto, difícil, polêmico e apaixonante. Já andamos perpassando os olhos por Breuer, Freud, Jung, Melanie Klein, Lacan e, recentemente por Adam Phillips, um psicanalista inglês contemporâneo que escreve bem e fácil. A par disso, temos, aqui e ali, alguns amigos e conhecidos que são bons profissionais da área com os quais, eventualmente, trocamos ideias e livros.
Assim é com Thaís Oliveira, Laéria Fontenele, Airton Monte, Contardo Calligaris, Caterina Saboya, Malvine Kalcberg e Nadiá Ferreira, esse rol de gente que sabe o que diz e com quem temos, mesmo que eventualmente, o prazer de conversar, discutir, ler ou passar/receber e-mails. Não se trata de mera troca de figurinhas, mas prazer e curiosidade de saber ou aprender.
A esses, de uma forma ou de outra, procuramos atiçar com questionamentos teóricos ou falar sobre a vida e a morte de todos nós. Das correspondências, livros e artigos que escrevem, papos e telefonemas que trocamos, ousamos dizer que psicólogos, psiquiatras e psicanalistas não estão imunes a dramas e dilemas, do mesmo modo que ser da área de saúde não confere a ninguém garantia de bem-estar físico e, tampouco, os advogados vivem obrigatoriamente seguindo as leis. Somos todos, ao que parece, independente do que fazemos, passageiros dessa arca imensa, confusa e maravilhosa que é o existir, em meio a procelas. Clamamos por um porto ou um mero trapiche, mas parece que somos condenados ou eleitos a viver- e a morrer- longe da segurança da terra como terminaram os personagens centrais do livro de Gabriel Garcia Márquez, “Amor nos tempos do cólera”. E isto se tivermos a sorte de encontrar, no correr da vida, alguém que se arrisque a subir a escada bamboleante que leva à arca, onde marcamos encontro ou eventualmente nos achamos.
Daí que ninguém se sinta abatido por ficar triste ou com dificuldade, pois estamos, certamente, ou na arca ou, se em terra, entre vales e montes que nos levam para baixo e para cima, com ares diferentes, conforme correm os fatos, atos e a nossa parca filosofia concebem. Por outro lado, tanto a arca nas águas como a terra, com os seus vales e montes, podem propiciar visões e momentos breves ou longos de alegria e deleite que ainda nos fazem crer nas pessoas e no significado da vida.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/07/2004.

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O MÉRITO INDUSTRIAL

Fico feliz quando vejo pessoas jovens determinadas a ser empresários. Sei como isso acontece. É aquela vontade de ser independente, dono do próprio nariz e de escolher uma área para atuar. Não vai estudar para concursos públicos, não quer ser profissional liberal, o que deseja é criar, transformar e empreender. Tirar algo do nada e torná-lo real, palpável, mesmo que seja uma fábrica de velas. A pessoa que monta, por exemplo, uma fábrica de velas, compra a cera, faz ou manda fazer as formas, um grande fogão e panelões, cordão para o pavio e coloca um nome. Digamos, velas celestiais. O dono da fábrica de velas celestiais sabe que está criando algo para vender, disputar o mercado e, se tiver qualidade e preço, permanecerá. Caso contrário, a tal da mão invisível de que falava Adam Smith se encarregará de por termo à sua iniciativa. As velas servirão para iluminar a morte da empresa.
Imagine que uma pessoa jovem, em vez de fazer velas, resolva, digamos, montar uma pequena indústria de confecções. É um prazer imenso estudar o mercado, escolher modelos, mandar fazer moldes, tecidos, aviamentos, embalagem, marca, distribuição, ajustar as máquinas em uma linha de produção e contratar gente, pois sem gente boa ao lado não se vai a lugar nenhum.Não importa o tamanho ou o negócio que se tenha, o admirável é que o traga seguro na mão, isto é, saiba como fazer para torná-lo rentável e vivo, ano após ano. Este é o grande segredo, pois as empresas morrem muito cedo no Brasil. Tão logo alguém monta um negócio e, orgulhoso, coloca a placa na frente, chega o fiscal municipal perguntando pelo alvará de funcionamento, o IPTU e a vigilância sanitária sai para ver banheiros, vestiários e refeitório.
Depois, vem o fiscal estadual cobrando o ICMS e os livros de entrada e saída de mercadorias. Em seguida e, muitas vezes ao mesmo tempo, entra o Auditor da previdência pedindo as carteiras dos funcionários, os recolhimentos disso e daquilo, enquanto o pessoal do sindicato da categoria dos empregados coloca um alto-falante na porta e pede aumento, diminuição da jornada de trabalho, produtividade etc, mesmo que as vendas tenham despencado, o estoque cresça e os clientes não paguem. Tem também a fiscalização do IPI que chega junto. Se ocorrer de dar um lucro, o imposto de renda fica com um terço do que você produziu. E até agora não se falou ainda do tempo para cuidar da clientela, financiamentos bancários, de certos concorrentes que querem vê-lo arruinado, e da família que cobra, com justo direito, atenção e não entende porque não tira férias. Respira fundo, vê que já não cuida muito bem do seu corpo, dorme mal e, muitas vezes, recorre à bebida ou tranquilizantes para esquecer os problemas que voltam no dia seguinte.
Essa estória acima não é para fazer ninguém desanimar, mas para vibrar com os jovens capazes e corajosos que, mesmo cientes de tudo isso, resolvem ser empresários. Industriais, principalmente. E enaltecer os que, na última quinta-feira, receberam o Mérito da Federação das Indústrias, vencendo o tempo e todas as suas barreiras, injúrias, invejas, desapontamentos, a imensa e desigual carga fiscal brasileira e gerando empregos. Eles sabem como isso é gratificante e, paradoxalmente, difícil de ser compartilhado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/2004.

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CERVANTES E AS INJUSTIÇAS

A primeira vez em que estive na Espanha foi em 1965. Data desse tempo a minha aligeirada iniciação a Miguel de Cervantes, o mais célebre escritor espanhol. Foi numa longa viagem de ônibus, cortando todo o país. Comprei, num sebo, um barato e velho exemplar de D.Quixote. Outras oportunidades vieram depois. Nenhuma, como a que fiz em outubro passado, em que por erros e acertos, novamente de ônibus, andei pela região da Mancha, onde a imaginação de Cervantes, no ano de 1604, foi plantar, em meio a moinhos, a figura de D.Quixote, um desengonçado cavaleiro que via além do que era permitido à época, em que a inquisição reinava. Parecia que estava vendo o esboço errático de D.Quixote nos arredores de Albacete.
Miguel de Cervantes tinha 57 anos em 1604, muita idade para a época, quando decidiu escrever D. Quixote. Já havia lutado, viajado, escrito, sido acusado e preso. Restavam-lhe uma mão, um pífio emprego e alguns fracassos literários. Parece que a sua desdita – literária e pessoal – foi o condão para criar uma prosaica história que se mantém viva 400 anos depois. Do seu gênio saiu o primeiro e um dos maiores romances da era moderna.
A história de D. Quixote é simples: um velho e exótico fidalgo de província que se contentava em ler histórias de cavalaria, resolve incorporar um herói e se descobre sonhador, apaixonado, perdido e desolado. Veste-se com uma ultrapassada armadura e uma lança e sai a defender uma utopia, guerreando contra as injustiças. Apanha muito, mas não desiste de seus sonhos, dentre eles o amor idealizado por uma camponesa (Dulcinéia), que ele acredita ser a mais bela das mulheres. Não adianta que o padre e o barbeiro queimem seus livros. Quixote resiste a tudo, monta em seu cavalo (Rocinonte) e consegue a parceria e a fidelidade de Sancho, uma espécie de contraponto para as suas tristezas, quimeras e desventuras. Ao final, é ferido em duelo com Carrasco, recolhe-se e agoniza sem o amor de Dulcinéia (“Quem tu és não importa, nem conheces o sonho em que nasceu a tua face”, Saramago). E, mesmo assim, antes de morrer, os seus delírios realçam a ilusão e a crença nos seus valores e utopia.
Pois bem, não é que D. Quixote e Cervantes foram, recentemente, tema central de um seminário (“A Justiça e D.Quixote”) entre juízes brasileiros no Rio de Janeiro, com a participação do Ministro Edson Vidigal, presidente do Superior Tribunal de Justiça, em que se rediscutiu a necessidade das pessoas manter utopias. Não basta a realidade crua e fria do dia-a-dia, é precisar sustentar acesos os sonhos, as utopias de combate à injustiça. E isso é bom, quando parte de juízes que precisam dar aos brasileiros alguma esperança em meio a tantos problemas reais que levam ao desencanto. Para o Ministro Edson Vidigal, “precisamos de um sonho para nos manter de pé. Por que então não sonhamos com um Brasil mais alegre, mais fraterno, mais desenvolvido e com menos sofrimento e ansiedade?”.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/2004.

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SOBRE NATÉRCIA

Natércia Campos é mais do que se sabe. É preciso ler e reler o que ela escreveu, para conhecer a essência de sua obra. Não vale passar os olhos. Tampouco falar dos prêmios que ganhou. Urge ver o que está dito e o mistério tecido em tudo que escreveu. É preciso palmilhar as palavras e os seus significados em Iluminuras, Por Terras de Camões e Cervantes, A Noite das Fogueiras e A Casa.
Não basta dizer que Natércia Campos era da Sociedade das Amigas do Livro, Academia Cearense de Letras e Academia Fortalezense. Nestes dois últimos anos, foi a mestra que conduziu com clarividência, energia e objetividade os passos que a conduziram para o eterno neste 02 de junho de 2004. Caterina, Emmanuela, Rodrigo, Clarissa e Carol, a família e os amigos sabem o quanto Natércia foi grande e que o lamento nunca passou por suas palavras e mente.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/06/2004

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ESSES, SÃO OS AMIGOS

A comemoração dos 55 anos do cronista Airton Monte, alardeado por ele e amigos, entre os quais ouso me incluir, dá mote para este artigo/crônica. Leva a que cada um dê um balanço nas amizades que vão surgindo desde o tempo de ‘pratrasmente’ até os dias da maturidade. E, nesse tempo todo, se conhece muita gente. Algumas, inexplicável ou explicavelmente, são eleitas como especiais. Esses, são os amigos. É uma espécie de seleção natural, não adianta forçar.
Amizade, de verdade, independe de tempo, duração, dinheiro, poder, sexo e circunstância. Ela é aquele realce espontâneo que a própria vida vai dando em algumas pessoas com as quais interagimos. Não pelo que têm ou são, mas pelo bem que provocam, pela empatia que surge e a confiança que se constrói sem medo. De repente, uma pessoa passa a ouvir você com mais atenção, entender os seus defeitos, reconhecer as suas razões, sem justificá-las, e cria-se o liame.
Certamente, as pessoas têm a tendência de privilegiar amizades com o sexo oposto. Isto não quer dizer que homem não possa ser amigo de homem e mulher de mulher. Claro que pode. O que vale na amizade é o selo do entendimento que não privilegia mentira, trama, desonestidade e interesse. É, acima de tudo, o enlevo de saber-se ligado, legitimado, sem ser usado, mesmo que exista distância e a louca vida que se vive limite os encontros.
Essas pessoas amigas são as que colocam água na fervura da nossa desventura, funcionam como moderadores e fazem ar de censura ou aprovação, muitas vezes sem precisar dizer uma palavra. Não é amigo o que fuxica, intriga, disputa, bajula, açula ou dá corda. O amigo tenta ser paciente, ponderado, mesmo se mordendo por dentro e já pense saber a resposta antes que o outro termine.
Ter amigos é, neste mundo cão, uma dádiva. São como escudos que nos protegem sem que estejamos presentes, têm conhecimento das nossas fraquezas, mas não tripudiam sobre elas. Ao contrário, nos transmitem a sua força. Pois bem, entre os poucos amigos escolhidos ou que a vida, com a sua mão imponderável, nos dá, há sempre um(a) que, em determinado momento ou situação, precisa de mais atenção. Essa é a hora de perceber isso e estar junto, sem precisar ser alertado ou cobrado. Daí ser sempre bom não alardear o que se faz, diz ou sente. Achegue-se sempre e deixe que a energia da benquerença possa transmitir, mesmo calada, os seus sentimentos e atitudes. O tempo sempre põe as coisas no lugar e a incerteza que é própria do estar vivo não deve nos afligir, mas consolidar raízes que deixam um legado de confiança mútua.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/2004.