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A NOVA MÃE

O amigo Edison Silva instiga: ´e aí não vai falar sobre o Dia das Mães?´ Claro que vou falar sobre o Dia das Mães, mas desejo fugir do estereótipo. Nós, homens nascidos ainda nos desvãos do Século XX, tendemos a ter apenas uma imagem romântica da mãe. Somos, na maioria, presos a padrões familiares que o tempo vai se encarregando de mudar. Imaginava-se, no tempo dos nossos pais e até bem pouco, que casar – e ser mãe – era o único destino de quase toda mulher. Ela vivia de ciclos: nascia, crescia, casava, paria, cuidava da casa e dos filhos, envelhecia e morria. De uns tempos para cá, a história mudou. A mulher estabeleceu, por suas próprias conquistas e méritos, parâmetros diferentes em sua relação com o homem. O homem deixou de ser ´o senhor marido´ e mantenedor. Passou a ser o companheiro, o parceiro e alguém com quem também disputa o mercado de trabalho. Negligenciada por milênios, a mulher se descobriu com instrução, percepção, talento e conhecimento para mudar, por sua conta e risco, a imagem recebida de suas avós e mães.
Hoje, lúcidas e ciosas de seus direitos, as mulheres já preferem até permanecer com seus nomes de solteira, programar filhos para o tempo em que achar certo, dividir as contas, casar – se for o caso – com separação de bens e viver uma relação mais honesta e clara. O amor deve durar o tempo que tiver que durar. E lutam para que seja duradouro. Os filhos, entretanto, não são mais joguetes para a sustentação de uma relação que, por várias razões, pode ter falido. Essa nova face da mãe é fruto da afinidade com o seu companheiro que deve se basear na cooperação, relacionamento, redistribuição de tarefas e encargos. Enfim, na comunicação que possa superar suas distinções de percepção e atuação, sem falar nas orgânicas e psíquicas que sempre existirão entre homem e mulher.
Não pensem que esta nova mãe não tem medos, fragilidades e sonhos. Os medos e fragilidades, ela tenta administrar. Os sonhos são vividos, mas cuida do real que está ali a pedir respostas e ações concretas de responsabilidade. Não pensem que ela não gosta de ser tratada como princesa, mas sabe que seu homem também tem o lado sapo. Não duvidem nunca de seu amor pelos filhos. Passará noite acordada a ninar a criança insone, mas cuidará também do seu dia, pois o trabalho é uma das bases da sua independência.
Esta constatação não é reparo ou agrado, mas a quase certeza de que essa nova mãe poderá ajudar a mudar a sociedade em que se viveu até agora, em que falsos padrões morais prevaleciam para manter aparências que, pouco a pouco, desmoronam.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/2004.

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UMA CARTILHA PARA AS ELEIÇÕES

Em artigo que publiquei em 1987, dizia que os eleitores não têm o direito de reclamar dos políticos eleitos. Eles foram eleitos por nós. Os eleitos são, quer queiramos ou não, parecidos conosco. Agora, neste 2004, vai haver uma nova eleição. A que escolhe vereadores e prefeitos. Vereadores são delegados diretos do povo, mas não despachantes a serviço de eleitores. Os prefeitos são gestores, administradores e controladores das várias e complexas faces dos municípios.
Nada de novo no que escrevi, mas esta obviedade precisa ser entendida e vivenciada por eleitores e candidatos a vereador e a prefeito. Por incrível que pareça, algumas pessoas querem ser vereadores porque não deram certo em outras atividades. Outros políticos acreditam que exercem um cargo vitalício. Ser vereador é uma tarefa nobre, com tempo certo, e pressupõe que a pessoa que exerce tal cargo tenha a dimensão da sua responsabilidade pública. O prefeito é um delegado-empregado da sociedade e a ela deve satisfações. Tudo isso seria mais bem entendido se os partidos políticos tivessem a humildade de dar cursos de iniciação política e, principalmente, cuidassem que os seus candidatos aprendessem, pelo menos, rudimentos de direito eleitoral e ética.
Djalma Pinto, autor do bem elaborado livro “Direito Eleitoral”, publicado em 2003 pela Editora Atlas, procura dar, ao longo das suas 346 páginas, noções gerais sobre direito eleitoral, justiça eleitoral, direitos políticos, representação popular, partidos políticos e por aí vai. Ocorre que, mesmo tendo adotado uma linguagem simples, certamente não será lido pela maioria dos candidatos a vereador e prefeito. Seu livro serve basicamente, e é dito na contracapa, como leitura complementar para as disciplinas de Direito Eleitoral, Direito Constitucional e Ciência Política dos cursos de graduação em direito.
Por esta razão, tomei a liberdade de sugerir ao prof. Djalma Pinto que transformasse seu livro em uma cartilha simplificada com perguntas e respostas. A ideia parece ter sido discutida também com a editora. Fui adiante e repassei a ideia para a Escola de Formação de Governantes, que está além dos partidos políticos. Dessa forma, pelo menos na minha ótica, seus úteis ensinamentos poderiam – ou poderão – gerar uma aura benfazeja junto aos partidos políticos, candidatos, Justiça Eleitoral e até para a mídia que a repassaria para todos os eleitores. Ora, se não sei o que vem a ser um vereador, qual o compromisso que tenho como candidato? Se não conheço os limites da responsabilidade fiscal como me atrever a ser prefeito? Eleitores e candidatos precisam de mais informações, menos propaganda enganosa e ter pactos com a sociedade.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/2004.

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A PAIXÃO DE CRISTO OU O FEL DO MEL

Segundo qualquer dicionário, a palavra paixão significa sentimento exagerado, afeto violento, sofrimento prolongado e outros que tais. Neste sentido, a paixão de Cristo que, segundo a liturgia cristã, se encerra hoje com o domingo de Páscoa, foi o sofrimento a ele infligido pelos judeus, através de seus sacerdotes, com a passividade de Pôncio Pilatos, que representava o poder dominante de Roma. Roma dominava quase todo o mundo da época, diga-se de passagem.
Tudo isso está na Bíblia, no Novo Testamento, no evangelista João, narrado como se fora uma história com começo, meio e fim. Esse evangelho, certamente, foi o material básico para Mel Gibson montar a estrutura dramática e o roteiro de seu discutido e visto filme “A Paixão de Cristo”. Na verdade, Mel Gibson diz ter se baseado em Mateus, embora, no meu entendimento, esteja despistando. O evangelho de João- que viveu na época de Cristo – parece, se lido apenas com cuidado, um roteiro básico. Basta, por exemplo, observar: “E era a preparação da páscoa, e quase à hora sexta (meio-dia); e disse (Pilatos) aos judeus: Eis aqui o vosso Rei. Mas eles bradaram: tira, tira, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso Rei? Responderam os principais dos sacerdotes (judeus): Não temos rei, senão César (o imperador romano que subjugava a pobre região judaica)”.
Era a covardia do dominado em face da opção dada pelo preposto do poder dominante. Tudo isso está nos capítulos 18 a 21 de João. É só conferir o filme, está exatamente igual. A força da trama urdida por Mel Gibson é tão grande que não se fala muito do ator James Caviezel que interpreta, de modo convincente, o papel de Jesus Cristo em suas doze últimas horas de vida, tampouco se comenta o sóbrio desempenho da atriz Maia Morgenstern que faz uma Maria, a mãe de Jesus, equilibrada e nada piegas.
O que há a reclamar na produção profundamente bem-sucedida de “A Paixão de Cristo” é o exagero na flagelação de Jesus. Para uma psicanalista amiga, tal exagero chegaria às raias do sadomasoquismo. Eu digo que essa tal brutalidade foi o fel do Mel Gibson. Na visão hollywoodiana, certamente esse fel ou a flagelação exacerbada foi o condão para gerar toda a polêmica – prévia e atual – que faz do filme um sucesso de bilheteira em todo o mundo e, ao mesmo tempo, deu aos cristãos, principalmente, oportunidade de revisarem os fundamentos de sua fé, após 2000 anos de história. Algo que persiste com tanta força, merece a atenção de todos, independente do fel do Mel.
A propósito, feliz Páscoa, que vem a ser comemoração anual dos cristãos em memória da ressurreição de Cristo, após a sua paixão.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/2004.

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A POLÍTICA DA CULTURA

Aqui em Fortaleza, ali no Centro Dragão do Mar, reuniram-se, na semana passada, embaixadores, adidos culturais e cônsules de cerca de 30 países para discutir, no Fórum Cultural de Cooperação Internacional, a posição da cultura neste mundo de tantos atentados, guerras e crises econômicas. Tudo isso se deu graças a uma iniciativa do governador Lúcio Alcântara, materializada pela Secretaria de Cultura e secundada pela Sociedade Consular. Foram três dias de muita troca de informações, discussões e entendimento, entre pessoas de línguas, histórias e formações distintas. Tinha gente da Finlândia ao Suriname. Da China à Costa Rica.
Tudo começou com uma demonstração da realidade cearense com palavras, filme, coral, orquestra e a apresentação de uma suíte de “Duas Estações” pelas meninas da Edisca, dirigida pela Dora Andrade. Era o Ceará se pondo a nu, do Cariri ao litoral, mostrando as entranhas, carências e também o seu grande potencial. Nada de sofismas ou humildade disfarçada. Era como se toda a sessão inaugural fosse uma anamnese e tivesse uma mensagem: nós somos assim e assado, mas temos sonhos e capacidade. E o que se viu foi um contrato espontâneo de adesão sendo firmado e visualizado no gestual e aplauso dos estrangeiros que iam absorvendo e se maravilhando com o mostrado.
Depois, vieram as sessões de trabalho. Muito trabalho. Tudo sob a coordenação da Secretária Cláudia Leitão, que soube dar o seu recado de forma certa, altiva e com aprumo. Cada país deu o seu quinhão desvendando e contando a história de sua formação cultural. E o fizeram de modos diversos, como era de esperar. Muitos, a maioria, com graça e estilo, outros, poucos, de forma enfadonha e ultrapassada. O resultado foi profundamente positivo, especialmente graças a uma plateia miscigenada. Intelectuais, professores, estudantes e curiosos do Ceará agregaram-se a diplomatas e deram expressão local a um evento internacional de excelente nível.
Ao fim e ao cabo, o Ceará pode ter saído desse Fórum com uma nova e positiva imagem internacional, mercê da estrutura montada, do jeito simples de ação e da qualidade final das discussões. É preciso apenas que as pessoas nele envolvidas tenham a capacidade de decidir. Ficou clara a percepção de que a cultura não deve e nem pode ser considerada um apêndice, mas um assunto de Estado e, como tal, tratada com prioridade, valorizando as suas manifestações artísticas, acadêmicas, científicas, folclóricas e populares, como política de inclusão social. Os frutos da cultura percorrem caminhos diversos dos tradicionalmente conhecidos, mas podem ser uma âncora importante para a paz e entendimento neste mundo tão desigual e violento.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2004

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A CERVEJA E O SUPERMERCADO

Houve um tempo, e não faz muito janeiro, em que as pessoas conheciam os donos das empresas, mesmo as grandes, de sua cidade. Sabiam suas histórias ou o que imaginavam ser, através de boatos e fofocas, as suas estórias. Depois, as ditas grandes empresas da cidade foram sendo incorporadas ou incorporando empresas regionais. Em seguida, as empresas regionais foram tentadas a ser maiores e viraram nacionais. Um dia, bem recente, as multinacionais ou transnacionais, como chamam agora, resolveram, por conta da paradeira do Primeiro Mundo sair comprando por países afora o que achavam apetitoso ou estava dentro do seu nicho – esta é a palavra que usam – de mercado.
Todos sabem que Adam Smith, ao escrever “A Riqueza das Nações”, falou na tal da “mão invisível do mercado”. Ninguém vê a tal mão, mas ela não se mete em cumbuca. Só escolhe o que é bom e vai comprando, comprando, de forma invisível. Pois não é que, o supermercado que era do “seu Antônio”, já passara por outras mãos, é agora da maior multinacional do mundo de sua área. Silenciosos vieram os analistas, com os seus tradutores e os seus “notebooks”, fizeram as contas, disseram que pagaram e já estão mudando o nome. Tudo em nome do progresso, da economia de escala, da quebra de barreiras e da abertura internacional, pois este Brasil precisa muito de dinheiro de estrangeiro para pagar os juros que deve a estrangeiros. E como deve.
Do mesmo jeito, e no mesmo tom, há bem pouco tempo as cervejarias número 1 e número 2 se fundiram. Sem mudar os nomes das marcas, criaram uma grande empresa que se meteu a multinacional, comprando outras menores no Brasil e a número não sei o que da Argentina. De repente, vieram, uns silentes belgas e vapt: compraram o controle da 1, da 2 e de tudo o mais. Deram declaração nas tvs, compraram páginas e páginas de jornais e revistas para explicar um “acordo de acionistas” em que os brasileiros ainda continuarão co-gerindo, apesar de minoritários. Pois sim. O que se explica demais nem sempre é o mais certo.
Estas duas estórias, aparentemente engraçadas, são o retrato do que se vive hoje aqui e ali. Enquanto os josés, antônios e franciscos, que ainda são pequenos ou médios empresários continuam lutando para sobreviver, arranjar compradores, descontar títulos em bancos, receber o que lhes devem, acertar as contas com um fisco impiedoso e draconiano, as grandes empresas e as ditas transnacionais acercam-se de consultores fiscais, planejamento financeiro, não pagam impostos, até que se transformem, quem sabe, em um novo grande engodo ou escândalo, como aconteceu meses atrás no país onde se originou a pizza e veio reverberar aqui onde muita gente gosta de pizza.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2004.

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CÂNCER: DE LEIGO PARA LEIGOS

Estou convivendo com duas pessoas queridas que lutam contra o câncer. Um homem e uma mulher. Ambos maduros e que, apesar de inteligentes, não se cuidavam bem. O homem não fazia os exames rotineiros para detectar o câncer de próstata. Quando foi cuidar, o câncer havia se instalado e ameaçava a área periférica. Chorou, reclamou, desanimou. Eu e outras pessoas amigas fomos duros e ele se mandou para São Paulo. Fez radioterapia, reclamava muito dos enjoos e do sofrimento. Voltou mais magro e com o marcador (psa)ainda alterado. Tomou injeções de hormônio na barriga e já está com ótimo peso, marcador (psa) no nível normal, pintou o cabelo, anda de moto nos fins de semana e trabalha com afinco.
A mulher parece que deu azar. Apareceu uma “tal de água na barriga”, já era o câncer saindo da área primitiva e subindo. Enfrentou e enfrenta tudo com muita raça, perdeu a conta de quantas cirurgias já fez e continua lutando sem medo. Faz quimioterapia em casa, utiliza os recursos da alopatia e da homeopatia e tem um “savoir-vivre” de fazer inveja. A sua família faz a diferença.
Não estou devassando a privacidade de pessoas queridas. O que estou tentando fazer é utilizar este espaço em que escrevo, para alertar a todos, mulheres e homens, da necessidade de ser informado fazer prevenções de saúde. Basta reservar algum tempo e fazer os exames por um plano de saúde ou até pelo SUS. O que não se pode é ignorar que existem formas de prevenir. Admitindo, só para continuar o papo, que alguém seja surpreendido por um câncer. Chore, reclame, dê muro na parede. Quando o choro secar, vá à luta. Não se considere derrotado de véspera. Há muitos recursos médicos, desde que bem ser utilizados e no tempo adequado.
Se você não tiver dinheiro, venda qualquer bem, reúna a família e os amigos, conte a sua história e peça ajuda sem medo. Se não tiver quem ajude, vá atrás de seus direitos de cidadão na Secretária de Saúde, no Decon ou denuncie a um promotor ou procurador. O direito à cura é fundamental. A única coisa que um doente com câncer não pode fazer é desanimar e deixar que a depressão roube as suas defesas. Pelo contrário, descubra-se forte, pergunte, leia, encha o saco dos médicos, converse com quem já passou por algo semelhante, e vá em frente, com fé e sem essa de coitadinho.
Antes de terminar, se tudo estiver bem com a sua saúde, dê graças a Deus e, se for o caso, cuide para não ficar obeso, ande, mantenha uma dieta balanceada com frutas, legumes e carnes brancas, apague o cigarro, modere no álcool, informe-se, não esqueça dos exames de rotina e faça as pazes com quem brigou. Ódio é a pior doença.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/02/2004

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Cidade de Deus ou do Diabo?

Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indicações (direção, roteiro, edição e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido não fosse ´Cidade de Deus´. Vi o filme de Fernando Meireles com atenção e respeito, mas confesso que não encontro razões para tanto incenso a uma produção que tem como base a banalização da violência, o uso do que se convencionou chamar de ´cosmética da fome´, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, ´o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.
Para ficar no passado recente, desde o filme ´Central do Brasil´, de Walter Salles, outro discípulo da ´cosmética da fome´, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O país mostrado nesses dois filmes é parte da realidade nacional, mas não é o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. São, ao contrário, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas não são bons produtos de exportação. Estão mais para a execração, ainda que lastreados em fatos reais.
A imagem brasileira, já tão desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos países desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como ´terceiro mundo´. Aqui não é nenhum paraíso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil é uma grande ´Cidade de Deus´. Há muito argumento, além das favelas, o agreste esquálido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que são as motivações essenciais de quase todos os últimos filmes brasileiros.
Não se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminatória de grande parte da sociedade brasileira. Mas há tantos outros ´brasis´ e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ranço ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista estético, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na visão racial.
Se eu estiver errado, peço desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem não apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa tão combalida, repito. Que venham as estatuetas, se possível, mas é urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira tão ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado ´noir´ de uma nação colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastróficos e densos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2004.

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RECEITA DE BOLO

Pediram-me que escrevesse sobre a vida. Eu que ainda não aprendi. Vão alguns pensamentos alinhavados sobre vários ângulos do ato de viver. É uma mera receita de bolo. Posso ter errado nos ingredientes e nunca soube cozinhar. Apesar disso, desobrigo-me. Leia devagar. Frase por frase, como se fossem parágrafos.
Aja com clareza, faça planos e tente atingi-los, pode ser hora de acreditar em você sem, necessariamente, descrer dos outros. Não esqueça os detalhes, simples números são o segredo para abrir um grande cofre. É preciso mesclar as coisas da vida: não se pode viver só estudando, trabalhando e sonhando. Tenha alegria, misture-se com gente, ore, cante, troque energia. Não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida e ria do que passou. É hora de alegrar-se, a tristeza é feia. Acredite, não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões no tempo certo.
O amor pode chegar derrubando porteiras ou manso e mexe com todos os seus sentimentos: curta-o, breve ou longo que seja. A mentira sempre retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá: fique no lugar deles e sinta. Sem amigos, você é um carro sem combustível: não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Creia: sem acreditar que as coisas darão certas elas começarão com erros. Você é o seu maior torcedor: vista a sua própria camisa e atue para ganhar. Conheça-se: é difícil, mas tente. Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você e, se puder, aos outros. Estilo é quando você se repete. Espere: há situações em que precisa cautela; pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. Respire, puxe a sujeira que está dentro de você e expire devagar. Imagine o que quer e inspire fundo. É preciso trocar de ar, sempre.
Ouça música, boa música. Boa música é a que você ouve sozinho e gosta. Faça tal qual o leão: seja forte, mas calmo. Cace o que precisa para sobreviver. Respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo o dia é hora de rever o errado e mirar o futuro. Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo. Descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Ande. Mexa-se. Você é terra, mesmo que precise de ar, água e luz. Tente acertar. Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. Compartilhe, especialmente atitudes. Pense sempre nos outros, mas não esqueça o seu maior companheiro: você. Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Fale pouco, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2004.

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A JANELA DA VIDA

Em meio à quietude da tarde, por opção e prazer, abro o envelope, rompo o lacre e retiro o disco compacto que recebi de presente de José Arimatéia Santos, um homem que mexe há tanto tempo com grandes números e conservou a capacidade de ser simples. Ligo o som, coloco o CD, ajusto graves e agudos procurando qualidade, e associo-me à harmonia, melodia e ritmo tirados dos ajustes das cordas às cravelhas de violino, viola e violoncelo dos músicos do Quarteto Iguaçu. Os arcos de Oliver, Freitas, José Maria e Dany estão prontos e ressoam os primeiros acordes com arranjos de Ricardo Petracca. Fecho os olhos e deixo que os sons das cordas do quarteto se misturem ao vento que entra na janela do meu quarto. Nem todas as janelas são da vida, mas a música que ouço dá vida à janela pela qual vejo, em meio ao casario e tantos prédios, a singeleza da igrejinha de São Pedro, nesta tão bonita, intrigante, discutida e abandonada Praia de Iracema.
De princípio, veio Prelúdio ao Luar, certamente Pensando em Você, mas ainda dá para ver O Sol que Brilha no Mar. Se um dia não tivesse existido Isolete, penso eu, com a sua Mensagem de Amor, certamente não teria acontecido A Janela da Vida. Mas aconteceu. E José de Arimatéia é gente que troca a brisa do mar da cidade grande pelo calor e o amor à Guanacés, um lugarejo quase perdido no interior do Ceará, em Cascavel, onde espalha graça e esparge a sua benquerença com atitudes e afeto, levando saúde, instruindo jovens e formando banda de música. Mesmo não sendo compositor de carteira, pediu aos santos – que obrigatoriamente o acompanham até no nome – inspiração e Deus parece ter atendido nos sons aqui paridos e purificados por um quarteto no Paraná, capitaneado pelo músico cearense José Maria Magalhães Silva.
E enquanto O Pôr do Sol já se aproxima desta Ponte dos Ingleses, aqui nesta terra em que pouca gente ouve música com enlevo e sem remelexo, ecoa O Meu Ceará, com uma viola sofrida e bela. De repente, aparecem A Espera, Você Chegou. Paradoxalmente, acabou-se a espera. É hora d’ A Chegada. Até que enfim, pois o Crepúsculo vai caindo, permitindo que os acordes do Quarteto Iguaçu reavivem os sentimentos nesta tarde-noite em que os sons parecem dar mãos ao marulho das ondas que morrem e renascem nestas pedras e areias com ritmo essencial para dizer que tudo é possível. É, basta abrir a janela para a vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2004.

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O ZÉ DO CAMPANÁRIO

Audifax Rios galopa com maestria pelas areias da cidade imaginária ou imaginada de Campanário. Desloca-se na garra de um homem novo pela floresta adentro e o traz de volta com muito ouro e disposição. Tudo para dar sentido, vida, sustança e destino a Zé do Egito ou Zegito.
Detalha com cinzel de artesão, pincel naife, linguajar de escritor maduro, prosa livre de cantador sem viola e a propriedade de etnógrafo, o que vai ocorrendo na vida e nas circunstâncias do Zegito. Como se fora um ferrador de gado, vai marcando, vezes sem conta, o que passa na mente e nos possuídos desse matuto brabo nascido no ano de 191. E o trás pelo cabresto, ao final desenfreado, até os recentes idos de 1964. Há tanta beleza na narrativa de Audifax que é difícil pinçar trechos, sem cometer injustiça, trechos entre os que embevecem, prendem e seduzem o leitor. Apenas dois exemplos:
Um: ´Pois eu lhe conto uns tantos e quantos sucessos das gentes deste lugar perdido nos cafundós do sertão nordestino, que bem poderia ser um qualquer outro pedaço esquecido do planeta. Conversa fiada sobre alguns viventes de um chão abençoado e maldito, empoeirado pelo arrastado das bestas-feras e burras-de padre povoantes destes pagos em noite de espanto.
Dois: ´E durante este tríduo de chuvas nefastas continuaram a desabar raios de pouca monta em comparação com a bola gigantesca e queimaram-se todos os bicos de luz, as válvulas dos rádios rabos-quentes e seus esmeraldos olhos mágicos. Enguiçaram também os aparelhos alto-falantes e o Morse do telégrafo e tudo quanto dependia de magnetos e galenas e outras maravilhas da ciência elétrica e mais descobertas deslumbrantes naqueles tempos de progresso.
Com o jeito de quem conhece a estrada onde pisou e´as gentes deste lugar perdido´, Audifax Rios vai tecendo as teias do tecido social de uma cidade que recebe, em 1946, Zegito em seu retorno de herói-bandido das terras molhadas do Amazonas. Alforje pleno de ouro, um curumim-filho a tiracolo e uma disposição imensa de mostrar a todos quem era e quem seria, chega e finca os seus mourões, o dito José do Egito. De sobrenome tão grande quanto desnecessário, pois a fama daí para frente construída é fruto do Zegito, um agitador que tinha as rédeas da cidade e o beneplácito do céu pela intercessão do Pe.Justiniano, que acumulava as funções de seu amigo, confidente, sócio e beneficiário das suas diatribes.
São tantos os personagens fortes ou sutis, marcantes ou marcados desta mini-epopéia que me indago a razão do destaque aos búfalos que, nada fizeram além de um galope alucinado igreja a dentro e da beberagem tomada pelos irracionais e racionais, todos animais, explodindo a capacidade ´viagrática´ de uma procriação maltusiana que nos faz lembrar o melhor da fantástica criação dos escritores latinos de língua hispânica.

Não é preciso sair citando, um a um, os coadjuvantes dessa cidade-circo mambembe que nos lembra as reinações de Ariano Suassuna e, longe, muito longe, a fase primeira de Jorge Amado, nos confins das terras dos cacaus.
Tão rico é Zegito que o aposto- é aposto mesmo – de Major é supérfluo e descabido. Essa patente teria sido ´comprada a peso de ouro à Guarda Nacional´, entidade extinta pelo presidente Wenceslau Brás desde 1918 e, por tal razão, desconectada da cronologia da narrativa. Tal fato, sem macular o brilho da história, dá a Audifax o condão que tem os autores de mexerem com a temporalidade, sem que isso perturbe ou aflija quem lê este livro.
Ora, Candinha, Orapronobias, , Padre Justiniano, Henrique Imaginário, Maria Guayana, Messias Salvador e muitos outros são mais relevantes e revelantes que os 12 búfalos trazidos da Ilha de Marajó e que, incontidos em sua sexualidade, transgrediram as leis da natureza e receberam, quem sabe, por castigo a morte coletiva ´à beira do abismo inacabado´.
Cada um desses coadjuvantes marca com ´letras capitulares´ todo o enredo que conta a saga, com um fim aligeirado, e a volta-fuga não bem explicada de Zegito para a Amazônia. Por estas e por outras não contadas é que me rendo ao título marquetado de ´Os Búfalos de Campanário´, mas faria, igualmente, elogios ao brilhante Audifax se ´O Zé do Campanário´ estivesse incrustado no frontispício deste primoroso livro que fecha com fulgor o ano da graça de 2003, tão rico em surpresa, quanto em desencanto, mas que prenuncia alvíssaras para todos no raiar do 2004. Os búfalos, afinal, já se foram.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2004.