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INTELIGENTE, EDUCADO E ESTUPEFADO

A maioria das pessoas que se considera inteligente, educada e sabida se diz estupefata com a realidade crua de o Brasil ainda ser um país de Terceiro Mundo. A culpa sempre é dos outros, do governo e dessa ´gente sem educação e princípios´. Ora, ´essa gente´ somos todos nós, os que vemos sempre os defeitos do outro e esquecemos os nossos.
Três exemplos: 01. Tudo pode começar no esporte: não importa que o nosso time faça um gol-de-mão aos 45 minutos do segundo tempo, o importante é que ganhe. 02.Passa pela mídia: Não importa que se saiba do preconceito disfarçado que há contra os nordestinos pobres. O nordestino só é manchete quando algo ridículo (comer rato, morar sob viaduto ou ter uma bicicleta muito enfeitada) possa ser levado à televisão, ou retratado em filmes caricatos. Isso vem de longe e ainda não se absorveu na cultura nacional a migração como fator natural. O nordestino é sempre o ´baiano´ e, quando se faz algo errado no trânsito, é uma ´baianada´. 03. Nem o dado inquestionável do presidente da República ser nordestino tem sido poupado. Muito pelo contrário, serve de motivo para piadas em jornais e o disse-me-disse em rodas que pretendem ter a hegemonia da educação, das regras de convivência e etiqueta sociais. As elites o engolem como alguém inevitável e porque precisam dos favores oficiais, não porque o assimilaram.
Provavelmente, o início do ano deveria servir para crônica mais amena, menos óbvia e contundente, mas está na hora de se pensar em brasilidade, isto é, na capacidade de aceitar as peculiaridades e identidades de cada um, sem prejuízo do esforço coletivo de todos, para dar a este país um sentimento nacional de respeito ao outro, que nada mais é que ele visto por mim, ou eu visto por ele.
Se assumíssemos que não somos inteligentes, sabidos e educados, não ficaríamos tão estupefatos com certos índices de desenvolvimento humano e econômico. Quase 50% da população mora em sub-habitações, mais de 12% da população ativa está sem emprego. Dados como esses refletem o quanto ainda precisamos aprender a crescer, para sermos, pelo menos, um país em que as desigualdades não tenham que ser resolvidas apenas com programas de combate à fome e à mortalidade infantil. Um país que enfrente a convivência com o favelamento, a que sucumbem as grandes e médias cidades brasileiras; onde falar de segurança pública, por exemplo, possa não parecer piada, já que a criminalidade não é apenas efeito, mas também causa dessa indiferença de todos os que se imaginam inteligentes, educados e sabidos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2004.

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BOAS FESTAS OU FELIZ NATAL?

Estão discutindo por este mundo afora, como se isso resolvesse alguma coisa, se devemos dizer Boas Festas ou Feliz Natal. Argumentam que, pelo menos, 30% da população do mundo não têm nada a ver com o mundo ocidental e cristão. Para eles, este tempo é uma quadra qualquer. E dizem que nós não celebramos Buda e Maomé. De qualquer modo, fico com as duas. Esses, os questionadores, os tais politicamente corretos, preferem Boas Festas.
Argumentam, repito, que nem todos acreditam na natividade, no menino que nasceu em Belém e já há mais de 2.000 anos mexe com a cabeça das cabeças. Mexe com o que temos de mais profundo, o que revelávamos ao padre confessor, no tempo em que isso existia da forma que era. Mexe ainda hoje, quando, meio cínico e meio crente, nos perguntamos como anda a nossa fé. Essa fé que, com altos e baixos, nos remete ao nosso eu mais denso, quando mergulhamos no mar dos nossos pensamentos, sonhos e palmilhamos a estrada do que já passou e ficou. E nos faz, quando faz, orar em silêncio, sem repetir fórmulas prontas.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as festas, não essas a que somos obrigados a ir e todos já chegam com ar de enfado, o olho no relógio e a desculpa de que há ainda caminhos e caminhos a percorrer. As festas são os brilhos que saem dos nossos olhos quando estamos com gente que nos diz respeito, com quem o abraço não é uma pantomima, mas um halo de aconchego, um jeito seguro de ficar, sem que o tempo nos incomode. É festa quando as palavras não são policiadas e a delicadeza não é fruto de ensaio.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com o Feliz Natal, não pelos presentes, pelas árvores ou a alegria consumista, mas a certeza de que precisamos estar juntos, não por laços de engodo, mas pelo enlevo e a suspeita de que somos únicos, uns para os outros. Não só pela fé renovada ou combalida, mas pela esperança. E é essa esperança que nos chama ao convívio e à celebração, mesmo que tudo seja efêmero.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as duas, pois não há como dissociá-las, embora algum leitor possa não acreditar nos meus sentimentos. A crença é o produto da confiança e da história de cada um. E neste dia de hoje, em que paramos e pairamos sobre as nossas diferenças, há como ter perspectiva de que o amanhã virá melhor se não dissimularmos o que sentimos. Assim, de verdade, Boas Festas e Feliz Natal.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/12/2005.

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GUARDADOS EXISTENCIAIS

Quando nascemos o pacote já vem pronto. Temos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Tudo isso junto vai formando o tempo de viver. Essa vida que recebemos sem querer ou saber e, só a partir de um determinado instante, muito depois, dela tomamos vera consciência. E isso acontece, por exemplo, quando se completa 40 anos de formatura em Direito. Nesse instante é que nos perguntamos: E agora? Agora é aquele momento em que se para e recebe um sacolejo, procurando respostas que não sabemos ou a pouca audácia nos impede de descobrir.
Esta época do ano não é só de justas comemorações, nem apenas o tempo de se fazer listas de presentes, comer, beber ou programar o que fazer com as sobras do salário. Ela é um tempo em que muitos ficam a pensar nos sonhos que imaginou, realizou ou os perdeu pelo caminho. Nos desejos jogados para escanteio em nome da preservação de relações, interesses ou medos. É a procura, quem sabe, daquilo que deveria ter sido feito e não foi.
Isso bate mesmo. Bate para o Papa, o Rei da Espanha, o Zé da mercearia, o Dirceu, a Marília, o Bush, enfim, sobra para todos os que estão mexendo com o exercício de viver. E bate porque sabemos que para tudo há começo, meio e fim. E quando chegamos ao que se acredita seja o meio de tudo isso, aí a vontade vem de roldão e nos fustiga a coragem, mexe com as entranhas e estranhos juízos passam pela cabeça.
É o tempo de remexer nos guardados existenciais, os que colocam uma espécie de Sonrisal no presente e dele não saem só borbulhas de amor, como quer o Fagner. Seria um tempo de revelação, mesmo que fugidio como o passo da gazela ou sutil como o pousar de uma borboleta. Essa estação que se quer eterna — e não o é, mas um mero ciclo, quiçá um breve ciclone que provoca cismas, — passa e deixa sedimentos de esperanças que não podem ser desperdiçados. Fugazes são e precisam ser capturados pelo obturador que repousa em nossos sentimentos.
Como não podemos viver na ante-sala do amanhã, precisamos ralar o chão do presente, tentar dissipar as teias que nos enredam, escoimar o que não nos diz respeito e abrigar os que queremos bem, os que estão conosco para o que der e vier. Estes, são poucos. E justamente por serem raros têm de ser rastreados com destreza e atados pelos fios da benquerença em laços que não devem ser afrouxados pelo tempo, esse déspota que não descansa.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2005.

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MEMÓRIA

Adam Phillips é um psicanalista que, atualmente, coordena a tradução, para o inglês, das obras completas de Sigmund Freud. Consequentemente, Phillips tem escrito sobre memória. De seu último ensaio, “A Memória Forçada”, vou tentar, na medida da minha incompetência psicanalítica, tirar alguns trechos. Foi originariamente, publicado na revista “Index on Censorship” e, posteriormente, no caderno de cultura “Mais”, neste novembro.
Segundo ele, “Existe uma crença esperançosa sob o mito redentor da memória: a de aquilo que deve ser lembrado – desde que nos lembremos das coisas certas e da maneira certa -beneficia o nosso bem-estar e até mesmo a nossa virtude. Recordar, se o fizermos da maneira apropriada, nos dará as vidas que desejamos”.
Adam Phillips pretende demonstrar, parece ser, que muitas memórias não têm nada de espontaneidade histórica e, provavelmente, apaziguam sentimentos. Na verdade, a memória é aquilo que não se esquece espontaneamente e a história registra independente do passar do tempo. Reparem quando diz: “A memória pode até nos manter cordatos. Mas, na verdade, estamos conscientes, em área distinta de nossas mentes, que a memória seja mais virtuosa do que aqueles que a manifestam”.
E explica porque isso acontece: “Nosso medo (moderno) é o de que não obtenhamos sucesso no esquecimento ou de que o esquecimento não seja possível”. E vai em frente: “Fazer com que as pessoas recordem tende a presumir que seja possível calcular as respostas que terão às memórias. É uma tentativa de impor uma solução artificial, quando soluções artificiais são parte do problema. A recordação forçada – a absurda ideia de que seria possível aprender de cor a história pessoal e em uma visão correta – na verdade demonstra medo da história: um bem fundamentado temor de que o passado esteja sujeito a múltiplas e variadas interpretações”.
Dito isto, pois de memória entendo pouco, embora imagine ter sentimentos que guardo e preservo, lembro-me do que escreveu, dia desses, Carlos Heitor Cony: “Leitores, se os tenho, reclamam aos canais competentes dos assuntos que abordo em minhas crônicas, que não considero colunas, mas crônicas mesmo”.
Assim, falar de memórias, mesmo fazendo citações, pode até parecer que não seja crônica, mas talvez seja. E, para encerrar, uma de Gilberto Amado (A Chave de Salomão): “Todas as desgraças humanas vêm da memória. O homem junta-lhe ainda a inquietação do futuro.”

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/12/2005.

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PARAÍSO SEXUAL?

Do lado direito de onde moro existe um prédio. Poderia ser mais um entre tantos, mas é desses do tipo “flat”. Flat é uma palavra inglesa que pode significar apartamento, mas não necessariamente. E significa também planície ou plano. Mas resolveram entender que “Flat” seria um conjunto de apartamentos pequenos, entre 25 e 60 m², para venda ou locação, administrado como se fora um hotel, sem sê-lo.
Ocorreu uma profusão de construção de “flats” no final dos anos 80 e por toda a década de 90. O “Flat” é uma entidade híbrida: nem é edifício residencial, nem deixa de ser, e também não é um hotel, embora reúna algumas de suas características . Pois bem, esses tais “flats” são, em boa parte, ocupados por residentes nativos, pessoas comuns e ordeiras de todas as cidades, mas a sua população variável é composta, quase sempre, de estrangeiros, que vêm para cá na certeza de que isto aqui é um paraíso sexual. Não escrevi tropical, escrevi sexual.
Quem quiser ver cenas de nudez e correlatos é só se demorar um pouco olhando para os tais “flats”. Há de tudo. Recentemente, por exemplo, vi um já combalido senhor, em plena calma e total nudez,de pé na minúscula varanda, como se estivesse em uma colônia nudista. E o fazia como se fosse o único habitante da selva, tal qual um Tarzan, mas sem a tanga. De outra feita, vi as figuras e ouvi todos os ruídos, sussurros e os gritos finais de uma relação entre uma bem jovem morena e um brancoso quarentão.
Nada de puritanismo, tampouco de estupefação, mas esta terra precisa de uma definição turística mais lisonjeira. Hoje, quase todo taxista que estaciona seu carro defronte a esses flats, alguns bares e boates, sabe a razão dessas viagens organizadas por operadoras estrangeiras que praticam preços baixíssimos em moeda estrangeira. Os turistas, na maioria homens em grupos, trazem endereços, cotações dos serviços, fotos e outras indicações que tais.
O que causa constrangimento é ler nos jornais que o turismo está sendo incrementado e que devemos receber bem os nossos visitantes. O que realmente é importante, justo e até bíblico. Mas, os que cuidam do turismo não podem fazer vistas grossas de tantos fatos sabidos, repetidos, comprovados e divulgados pela imprensa. Não vale a pena a quantidade de turistas de segunda classe que chegam, até infectam pessoas, degradam áreas, gastam míseros reais e saem propagando que aqui é terra de ninguém. E novas hordas chegam ávidas. Basta acompanhar os roteiros que fazem. É simples constatar. O que falta?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/12/2005.

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MINDLIN

Já faz alguns decênios que acompanho a trajetória de José Mindlin. O que me fazia curioso era entender a capacidade dele de ter sido empresário vitorioso e, ao mesmo tempo, intelectual consistente. Na verdade, o descendente de judeus russos, formado em Direito em São Paulo, foi sempre um ser múltiplo. Ao mesmo tempo em que conduzia com aprumo, desenvoltura e bom senso, a Metal Leve, empresa que comandou por dezenas de anos, ia consolidando a sua capacidade de leitura e, pouco a pouco, se transformando no maior amante de livros do Brasil.
Nesta semana, José Mindlin esteve por aqui para dar nome a comenda criada pela Sociedade Brasileira de Bibliófilos. Veio, acompanhado por sua filha Betty, e esteve em rodas com apreciadores de livros, com a sabedoria acumulada em seus produtivos 92 anos. Por pouco tempo, bem menos que gostaria, estive a seu lado. Era admiração explícita, adulta, sem inveja e com a certeza de que aquele era um momento raro. E nesse instante me encabulou a fala de José Macedo, outro longevo, fraterno e bravo empresário, ao apresentar-me a ele como “o Mindlin cearense”. Agradeço a referência do amigo José Macedo, mas nunca serei bibliófilo, tampouco intelectual, apenas misturo o construir realidades com o enlevo da leitura, dispersa e vária, vício antigo e incorrigível. Não tenho livros raros. Longe, bem longe disso.
Não há outros Mindlins por este Brasil. Quanto muito, há pessoas que vão se transformando em amantes de livro, ao mesmo tempo em que exercem outras atividades. Ser amante de livros é um processo, uma história longa que tem começo e não termina nunca. O bibliófilo é o amante depurado de livros. Não bastam as compulsões da compra. Valem a paciência na procura, o sonho da leitura e da posse, o tratamento que empresta à antiguidade da obra, a análise do seu conteúdo, a certeza do seu valor histórico e o básico de ser primeira edição, com ou sem anotações de seu primitivo dono.
José Mindlin se confessa leitor, em média, de 100 livros por ano. Lê a quase 80 anos, o que daria um total de 8.000 livros já lidos, mas tem uma biblioteca imensa de quase 30 mil títulos, o que torna clara a sua paixão, quase uma obsessão. Essa paixão não embotou a sua lucidez e permitiu que doasse à Universidade de São Paulo o seu acervo de obras chamado de “brasilianas”. A Biblioteca José Mindlin na USP tem 10 mil títulos e ocupará 10.000m2, o que já a torna um dos maiores centros difusores do conhecimento nacional.
Este contar aligeirado é apenas um assentamento de admiração e respeito.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/11/2005

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A REPÚBLICA E A BANDEIRA

Terça-feira, 15, foi Dia da Proclamação da República. Feriado Nacional. O “brasileiro é um feriado”, já dizia Nelson Rodrigues. Foi dia de empresas paralisadas, repartições fechadas, cerveja, livros/jornais abertos, sol e papo furado. Poderia ser também o dia em que cada um tivesse pensado na sua relação com a República, o Estado organizado, a coisa pública que deveria ser comum a todos nós, mas parece ser mais de alguns que de todos. Nós, quer queiramos ou não, somos republicanos.
Quando Deodoro da Fonseca proclamou a República, em 15 de novembro de 1889, havia um clamor nacional, uma vontade imensa de mudar os destinos do Brasil, este país colossal, rico e poderoso, que, apesar disso, se confunde com uma seleção de futebol. Não é brincadeira. Se alguém fizer uma pesquisa e perguntar: o que significa Brasil? Muitos, muitos mesmo, responderão que é a seleção canarinha, o time dos ronaldinhos e do Parreira. É pena. E aí desfraldam a bandeira e torcem. Ora pois.
Ontem, 19, foi o Dia da Bandeira, um símbolo da Pátria, mas poucos se dão conta disso. Tampouco sabem que Brasil deveria significar República, nação organizada, um conjunto de valores e de ordem para servir à sociedade. E por que isso não acontece? Pelo nosso descivismo, descrença, desinformação e a presumida incapacidade de mudar as coisas que aí estão, como se tudo fosse fatalidade. Não é.
Fazemos sempre do mesmo jeito porque ainda não desenvolvemos a cidadania, não admitimos que nós é que transferimos a alguém a capacidade de cuidar dos nossos anseios, a responsabilidade de agir e decidir. Isso se faz pelo voto, um a um. Só isso. Não cobramos. E não damos o troco na hora certa. Apenas isso, nada mais.
Ao comparar, escolher, votar e eleger, estamos dizendo a uma pessoa que ela tem o nosso aval, autoridade e poder para agir. Ora, se a pessoa não age bem, se não fez aquilo que desejávamos, será tempo de mudar. Para isso é que existem eleições. Isso vale para o condomínio, clube, escola, associação de classe, cidade, estado e o País. Ninguém é insubstituível, especialmente se trata a coisa pública como se fosse um bem particular de que pode se apropriar e não tem o cuidado de escolher certo quem o acompanha. É simples, bem mais simples do que se pensa.
Não são a pompa e a posição que tornam uma pessoa digna, são os cuidados com o que faz, o modo como trata o que é coletivo e a sua responsabilidade social. Responsabilidade social não é modismo, é a consciência amplificada e tornada prática, coerente no dizer, sentir, viver e fazer.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/11/2005.

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LIBERDADE, IGUALDADE E OPORTUNIDADE

Há pouco tempo passei a virada do ano em Paris. Fazia frio, não havia táxis nas ruas e os metrôs estavam superlotados, porque gratuitos naquele dia. Depois do jantar, resolvi dar uma caminhada na região de Trocadéro, onde fica a Torre Eiffel. É um grande parque, lindamente gramado, fontes jorrando, bem iluminado, próxima do Rio Sena e da ponte D’Iéda.
Desci as escadarias. Havia muita gente, especialmente famílias, mas notei que poucos pareciam franceses ou, pelo menos, o que imaginava ainda pudesse ser o biótipo do francês. Ninguém parecido com Alain Delon, Jacques Chirac, Jean Paul Belmondo e afins. Havia gente parecida com Zidane e com os muitos franceses -ou não- oriundos das colônias africanas. Havia muitos árabes ou filhos de árabes. O leito do Sena estava sujo de garrafas vazias, camelôs vendiam quinquilharias luminosas e a algaravia de idiomas me deixava desconcertado.
O meu olhar procurara um táxi salvador, pois já viera de metrô. Era a primeira hora dia do novo ano e eu em meio à turba que cantava, bebia, vendia, enquanto outros, já entregues ao cansaço, dormiam sobre a relva. Naquele instante, passou o filme de minha primeira visita à França, em 1965. Era outro o país, não sei se melhor ou pior, mas o povo parecia ter uma maior identidade com a sua história. Ali, naquela madrugada, eu via algo como uma ocupação de imigrantes ou de seus filhos que tentavam se amalgamar aos costumes franceses, mas pareciam estranhos à terra, embora essa fosse deles.
Tudo isso me voltou à mente ao acompanhar o que está acontecendo nestes dias na França. Milhares de carros são queimados nas vias públicas e a imprensa destaca que os incêndios são provocados por jovens negros e de origem árabe, todos na faixa de 20 anos, que reclamam de discriminação no mercado de trabalho, poucas oportunidades de empregos e sentimento de marginalização social. Esse caos, que já se espalha pela Europa, é o retrato de um mundo desigual que teima em não ver a realidade, tão dura quanto próxima da vida de todos. O premiê francês, Dominique de Villepin, meio perplexo, diz que é preciso respeitar a todos e cada um pelo que são, mas, ao mesmo tempo, destaca que os atos de violência são “inaceitáveis e indesculpáveis”. E a Europa passa a viver o rescaldo da imigração, talvez uma resposta tardia à colonização que pode ter originado esse drama cujo primeiro ato estamos vendo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/11/2005.

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HOMENS E MULHERES

Li crônica de Danuza Leão sobre misoginia (desprezo e aversão às mulheres) publicada no domingo passado na Folha de São Paulo. Ela fala de desencontro e indaga o que estará acontecendo se homens, de verdade, preferem conversar entre si em bares e restaurantes? Imagino que ela trocou a palavra. Talvez desejasse usar, em sentido amplo, misogamia (horror ao casamento). Os homens têm vivenciado que o casamento – ou união –vem se transformando, com a liberação e o crescimento das mulheres, numa relação nova, compartilhada e não de submissão. Ficaram tontos, mas nada de horror.
Alguns homens podem ter medo da nova mulher, esse ser que despontou e que ainda está em processo de montagem final. Ela mexeu com a cabeça dos homens e não houve ainda a sedimentação dessa mudança, tão forte quanto necessária. O choque, que antecede ao ajuste, tem sido mais longo que o esperado, mais agudo que a capacidade de absorção masculina pode ter. Que nenhum homem saiba, mas as mulheres parecem mais centradas que eles. Sabem o que querem, vão à luta e, quase sempre, conseguem seus objetivos. Por outro lado, a conquista, em sentido amplo, que era privilégio masculino, passou a ser comum de dois. Se ela quer, encara e chega junto. Alguns homens, em resposta, ficam receosos e não sabem reagir com naturalidade a esse mundo emergente.
Quando homens se reúnem isoladamente podem estar apenas se divertindo ou, em alguns casos, mostrando que a bebida, a vanglória e o falar alto, são disfarces de sua perplexidade. Nada de horror, aversão ou desprezo às mulheres. A perplexidade vai passar. Caso contrário, poderia torná-los, paradoxalmente, mais distante do real encontro com as suas parceiras.
Passará. E chegará num tempo breve em que homens e mulheres não disputarão supremacia, pois reconhecerão que são seres distintos, livres, mas necessários, suplementares e indispensáveis uns aos outros. Nesse tempo de uma nova conquista, haverá mais mesas de casais em bares e restaurantes e, em vez, das vozes alteradas, sussurros e afagos antecederão o prazer do verdadeiro encontro.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/11/2005

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FUTEBOL, JOGO SUJO

Luiz Fernando Veríssimo, Blanchard Girão, Carlos Augusto Viana e Airton Monte gostam de escrever sobre futebol. Nelson Rodrigues escrevia e torcia. Eu tento ficar ao largo, mas não dá mais para ter calma ou fair play, expressão inglesa que significa jogo limpo. Não há jogo limpo no futebol brasileiro de hoje. É jogo sujo, daí a revolta.
Fazia sete jogos que o Fortaleza não ganhava uma partida. Foi a Minas jogar contra o Atlético de lá e quase era roubado, mais uma vez. Conseguiu, por felicidade, superar um árbitro parcial que validou gol em impedimento e truncava os seus ataques. Neste brasileirão de tanta mutreta, árbitros confessamente desonestos e outros, que continuam apitando. Vamos aos fatos: nos últimos jogos, o Fortaleza tem tido jogadores expulsos, sofre gols em impedimento, além de receber uma marcação exagerada de faltas. Coincidência? Não é. Por essa razão, o Fortaleza tem que jogar mais. Há xenofobia na CBF contra equipes nordestinas e o Fortaleza é o último e único representante da Bahia ao Maranhão. Querem que o Fortaleza perca. Isso todo mundo de lá fala, só não diz expressamente. Os dirigentes do Fortaleza e da Federação do Ceará não protestam, acham que já é muito estar disputando a primeira divisão. É não. Está por mérito. Protestem. A imprensa não dá ênfase quando o árbitro rouba. Deviam escrever, dizer nas televisões: o juiz roubou. Ninguém faz uma reclamação formal, anexando vídeo, depoimentos etc. É assim que muitos times fazem. Pressionam e a coisa muda de figura. Ninguém erra contra São Paulo, Corinthians, Internacional etc. Contra o Fortaleza, sim. É só rever todos os teipes, anotar e protestar.
Além da roubalheira, o Fortaleza tem jogador que só dá para o gasto. Um exemplo: Marquinhos. Arrumadinho, é um “boleiro”. Há outros. O técnico Espinosa é pago para ver. Que veja. Por outro lado, Clodoaldo, de quem os preparadores físicos deveriam cuidar melhor, “come a bola” nos minutos em que joga. No jogo com o Palmeiras, por exemplo, o gol do Rinaldo veio de um passe de calcanhar de Clodoaldo. O penal que o Lúcio perdeu em outro jogo, foi cometido em Clodoaldo. Se tivesse cobrado, provavelmente teria convertido. Clodoaldo, quando joga, como na partida com o Atlético, sofre faltas próximas à grande área e, só agora, Igor começou a cobrar. O problema é que Clodoaldo e Igor são cearenses e baixinhos. O Fortaleza tem 21 pontos a disputar, precisa se impor perante a CBF e árbitros, e dar o retorno esperado por sua torcida. Fiel, ordeira e presente.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/10/2005.