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REFERENDO, DINHEIRO PERDIDO

Hoje será o plebiscito sobre o uso de armas. Dizem que foram gastos 700 milhões de reais pelo governo. Qualquer que seja o resultado, nem as armas vão deixar de ser vendidas, tampouco a violência desaparecerá. A raiz da violência é complexa. Há muitas causas. Uma delas é a própria natureza humana. Outra, a pobreza das cidades e a sua ocupação desenfreada por milhares de pessoas à procura de teto e trabalho. Bem que esses 700 milhões de reais poderiam ter tido uma outra utilização. Por exemplo: uma casa popular pode ser feita por 3 mil e quinhentos reais. Se você dividir setecentos milhões por três mil e quinhentos reais, dará 200 mil casas. Se essas 200 mil casas fossem feitas em uma metrópole qualquer, a maioria dos habitantes de suas áreas de risco teria um teto para morar. Seria um milhão de pessoas com casa.
Imaginem, por outro lado, quanto se gasta em propaganda e publicidade públicas no Brasil. Se parte do que se gasta com propaganda e publicidade para referendo, eleições, inaugurar escola, estrada, preparação de viagem de autoridade, programa disso e daquilo, patrocínio de jogos de vôlei na praia, gasolina da Petrobras em carro de corrida estrangeiro e outros mais, fosse utilizado em habitação e segurança, a história seria outra. Mas, a propaganda do Brasil se gaba de ser uma das melhores do mundo. Isto quer dizer o quê? Significa que ela é também ilusionista, vende mortalha para casamento, engana, mistifica, doura a pílula. E tudo fica colorido apenas nos jornais e nas televisões. A pobreza é em preto e branco ou preto no branco, sem ilusão ou tapinha nas costas.
Voltemos à habitação. Ora, se a casa é um dos bens e direitos fundamentais do ser humano, isso não parece preocupar governos, sejam quais forem seus matizes ideológicos ou partidários. Não se vê mais grandes construções na área de habitação popular. Só há discurso e promessa. E há uma profunda distinção entre o discurso e a prática política. Não vale o que se promete e pouco se cobra de quem prometeu e não cumpriu. Culpa nossa.
No próximo ano haverá eleições. Muitas figuras de sempre tentarão permanecer. Mostrarão o pouco que fizeram, culparão a ´conjuntura´ pelo que não fizeram e terão desculpas pelos erros, se flagrados. Farão discursos, aparecerão em programas de rádio e televisão, abraçarão velhos, crianças e enfermos, visitarão templos religiosos e prometerão novamente. Alguns até chorarão. Nós, os eleitores, é que deveríamos chorar de vergonha pelos erros de escolha. Choremos, mas aproveitemos as lágrimas para limpar a vista e enxergar mais e melhor. É tempo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/10/2005.

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URUCUBACA

Meu amigo Adamastor ficou injuriado com o bispo ítalo-paulista que quis fazer sucesso no nordeste-baiano. Ele disse que também vai fazer uma greve de fome até a Igreja acabar com o celibato dos padres. Ia falando em pedofilia, mas pedi que calasse. E pretende que a sua greve seja em frente à casa do tal bispo que recebeu a visita de tristes figuras e, ainda, segundo ele, tomava todas as noites uma sopa trazida por uma beata em caneca que dizia conter água.
Maluquices à parte, de lá e cá, deixo claro que crônica não tem a obrigação de ser séria e profunda como um editorial, mas pode expressar revolta quando muita gente quer continuar usando a ´indústria da seca´ com carros-pipa, frentes de serviços e cestas básicas para ganhar dinheiro, votos e fazer média com eleitores incautos. Tem gente achando que sofrimento é destino e não vale a pena acabar com a miséria real da parte seca do Nordeste. Há revolta quando alguém fica do contra só porque imagina o presidente Lula ganhando a reeleição se iniciar a transposição de águas do Rio São Francisco para Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Ora, todo político quer ser reeleito, inclusive os que criticam a transposição porque estão do outro lado do rio. Digo melhor, em outro palanque.
Querem colocar urucubaca em tudo o que o Nordeste real produz ou faz, para usar um termo da semana. Todos sabem que só serão utilizados menos de dois por cento das águas do Velho Chico. Todos sabem que, por conta disso, a Chesf não produzirá menos energia. Todos sabem que o Rio São Francisco precisa ser revitalizado. Isso é antigo, para não dizer centenário. Mas, uma coisa não implica em outra. Ocorre, entretanto, que a mídia dá cobertura às tristes figuras, criando obstáculo e citando problemas para a transposição. Simplesmente, a grande Imprensa se lixa para quem não tem como viver com dignidade no semiárido nordestino. Eles não são o público-alvo, o ´target´ de consumo e não contam nas pesquisas qualitativas.
Os quase 5 bilhões de reais, pensam, seriam bem mais aproveitados em empréstimos para bancos que quebram, multinacionais que repatriam lucros, companhias quase insolventes como as de aviação e outros tomadores (na fiel expressão da palavra) que tais.
Como diz o Lula: a turma do Flamengo não quer que o Vasco ganhe e a turma do Vasco quer a derrota do Flamengo. O grande problema é descobrir quem torce Vasco ou Flamengo e se o árbitro não faz parte da máfia do apito. Imaginem se não fossem todos brasileiros. Xô urucubaca.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/10/2005.

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NO REINO DO BESTEIROL

Já participei de muitos cursos, seminários, debates, jornadas e afins. Aqui e em outros países. Alguns são bons e deixam algo de positivo. Noutros, o que se ouve e vê, logo é esquecido, ou não serve para a vida. Não exagero. Esses surgem em ondas como modismo. Quem já não ouviu falar em reengenharia, qualidade total, leitura dinâmica, cinco S, planejamento estratégico e outros que tais? Eles chegam e logo aparecem “facilitadores” que cuidam de dar uma “visão sistêmica” e o uso do “data show” deixa a coisa mais bonita. É besteirol puro, quase sempre.
Eles têm que ter “coffee break”. Não vale uma paradinha para o café, tem que ser” coffee break”. Neles algumas palavras são aprendidas, anotadas e repassadas até para discursos ocos feitos em solenidades, muitos deles escritos por assessores. Fazem-no como desobriga e aí a lengalenga se torna bonita aos ouvidos de alguns oradores e certos basbaques que os aplaudem com pose de inteligente.
A propósito, isso me faz lembrar e-mail que tratava de palavras que hoje são usadas para tudo. Essas palavras servem hoje para: palestra, reunião de diretoria, encerramento de curso, entrevista, festa de tecnocrata, posse, recebimento de comendas e o diabo a quatro. Se você embaralhar as tais palavras da moda vai ficar um “gênio”. Não é brincadeira. Vou colocar as palavras, você poderá misturá-las e fará frases sensacionais. Quem sabe se não conseguirá aumento, ingressar ou continuar na política, ser convidado a participar de um grupo de trabalho ou algo parecido.
Palavras não têm donos. As frases, sim. Por tal razão é que juntei palavras que me repassaram com outras que tinha na memória. Vejam como são interessantes: paradigma, emblemático, agilizar, meta, exercício, sistema, risco, otimização, operacional, gestão, resultado, implantação, fundamentos, aderente, rendimento, melhorias, funding, portfólio, briefing, enfoque, desdobramento, rede ou network, responsável, cronograma, diagrama, banco de dados, desafio, volatilidade, inferência, estratégia, mentalidade, planilha, somatório, ação preventiva, nicho, proativo, influência, ponto futuro, automação, em princípio, a nível de, custos, agregar valor, business plan, master plan, introjetar, investir, consignado, ranking etc.
Experimente colocar essas palavras em cinco colunas com 10 em cada e depois vá fazendo combinações. Do jeito que quiser. Vou dar apenas dois curtos exemplos: 1) o paradigma é responsável pelos fundamentos e a sua estratégia cria um nicho proativo e agrega valor. 2) A rede ou network é um desafio, em princípio, mas seu enfoque de gestão e ação preventiva são um exercício responsável.
Pouco mais que 50 palavras e você estará pronto para qualquer parada.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/10/2005.

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SORRI OU “SMILE”

Pedem-me que escreva sobre a música “Smile” ou “Sorri”, em Português. É covardia. Ela, com 69 aos e desgastada, é ainda das minhas favoritas e diz bem da tristeza que há até nos palhaços e humoristas. É verdade que Charles Chaplin é apenas um dos três autores, os outros são John Turner e Geoffrey Parsons. A versão brasileira, feita pelo compositor Braguinha, é um primor de delicadeza. Vejam como é bonita: “Sorri, quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios. Sorri, quando tudo terminar, quando nada mais restar do teu sonho encantador. Sorri, quando o sol perder a luz e sentires uma cruz, nos teus ombros cansados, doridos. Sorri, vai mentindo a tua dor e ao notar que tu sorris todo mundo irá supor que és feliz”.
“Smile” foi feita para o filme “Tempos Modernos”, de 1936. Uma profunda sátira a um mundo que havia, entre outras coisas, acabado com o cinema mudo, criava o “fordismo”, a sincronização dos tempos e movimentos industriais e deixava perplexo quem não queria aceitar o dito “progresso” com greves, desemprego, drogas e pobreza no século XX. Charles Chaplin, ou “Carlitos”, seu personagem-clone, usou a bengala, quem sabe, como um modo de expressar que todos somos capengas e claudicamos em relação às nossas pequenas dores e as grandes agonias do mundo. E aí tem que sorrir.
O sorriso é tido como atenuante “quando a dor te torturar”. E cada um deve saber qual a dor que o atormenta, se real ou imaginária/emocional. Ora, se a dor mexe com a emoção, ela deixa de ser imaginária e passa a ser “real”. E é uma tortura, pois faz “a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios”. Pois é, quando a saudade chega, ela toma assento e o sol se faz cinza e o dia fica vazio, embora possa estar pleno de luz. E a música pede – ou manda – que se sorria “quando tudo terminar, quando nada mais restar do teu sonho encantador”. Quando o sonho acaba, o amor termina, a doença chega, alguém morre, uma amizade aparta, a tragédia surge, parece que a única solução é sorrir. Pode até ser do jeito que Carlitos sorria, meio amarelo, meio triste, misturando o palhaço que mora na criança que fomos um dia, com o adulto que reclama, como se ainda criança fosse, das pauladas que a vida nos impõe.
Por esta razão é que há décadas ouço as muitas interpretações originais e versões de “Smile”. Ouvir dá força, embora, como qualquer mortal, se possa sentir quando o sol perde a luz e rouba a energia. É aí, “quando sentires uma cruz nos teus ombros, cansados, doridos” deves mandar tudo para o alto, respirar fundo e sorrir. Sorri, porque é uma boa solução.

Eita, está parecendo autoajuda, mas não há como não ficar tocado quando se ouve, fala ou escreve sobre “Smile”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/10/2005.

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O NORDESTE TEM CULPA?

“O visual não chega a ser agradável, agravado pelas fotos que a imprensa, especialmente a semanal, se esmera em apresentá-lo como cangaceiro” Carlos H.Cony, FSP, 12.09.2005
Severino Cavalcanti renunciou por ter culpa. Este é o fato. Mas há muitos “severinos” por todo o Brasil. Imaginam, entretanto, os que moram de Minas para baixo, que não. Acreditam que só o Nordeste é lugar de incultos, desonestos e dos esteticamente não apreciáveis. O problema é que o Nordeste sempre foi tratado assim, como uma terra de “severinos”, apenas. O Nordeste, não é responsável se 300 deputados do
Amazonas ao Rio Grande do Sul votaram em Severino há sete meses. A culpa, assim como a glória, é individual, não é de uma região.
O Nordeste tem culpa, sim, de deixar que achincalhem seu povo comum em programas de televisão, jornais e outros que tais. O Nordeste tem culpa sim, de não reagir às grosserias perpetradas contra sua gente que luta e tenta sobreviver em ambiente hostil e preconceituoso.
As novelas (onde os nordestinos são quase sempre coronéis, porteiros ou domésticas), os programas de humor e outras formas sutis de gozação são vistos, lidos e ouvidos como se isso fosse natural acontecer. A lei Afonso Arinos, que trata da discriminação racial, poderia, quem sabe, ser invocada, em sentido lato, para coibir tais abusos. E, igualmente, os nordestinos deveriam demonstrar o desagrado coletivo.
A justiça e a imprensa não devem julgar pela origem. O que revolta é aproveitarem ocasiões desse tipo para denegrir a imagem de uma região, como se o fato de ter nascido em um lugar determinasse o DNA da ignorância, da periculosidade ou da desonestidade de alguém. Personalizam atitudes, generalizando comportamentos.
No calor das discussões atuais do Brasil, houve a disseminação quase diária desses fatos, que transcendem a culpa individual e se cria um estereótipo. Essa visão, meio que subliminar, pode, se exagerada, tender a uma espécie de fascismo, em busca de uma eugenia que o Brasil não tem e nunca vai ter.
Este país em que a maioria teima em parecer o que não é, fazer o mínimo que pode e viver acima do que deve, tem que cair na real de que é latino, misturado. Não adianta copiar, fingir e pensar que não é. E ser latino deveria ser motivo de orgulho, pois a mistura de raças sempre é um remédio contra pretensões desse tipo. No século passado milhões de pessoas foram mortas por conta de sua origem. Neste século, profundas diferenças e tratamentos entre raças têm produzido tragédias e guerras. O Brasil não deve aceitar discriminação. Afora em guerra, ninguém comete crime em nome de um país. E de uma região, muito menos.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2005.

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A DURA ARTE DE VENDER LIVROS

No início da década de 80 tentei ser editor. Criei uma pequena editora. Só consegui fazer uma publicação técnica e dei o negócio por encerrado. Não me atreveria a voltar a ser editor. É uma tarefa difícil, incompreendida e de resultados imprevisíveis. Isso não impede que observe e admire os editores profissionais. Há pouco tempo, por dever, curiosidade e convite, participei de duas feiras de livro. Uma em Fortaleza, outra no México.
Na Feira de Fortaleza, anfitrionei mexicanos desejosos de conhecer o nosso jeito de fazer feiras e fiz uma travessia literária com Moacyr Scliar. A Feira é realizada no ambiente refrigerado do Centro de Convenções, em meio à dificuldade de estacionamento e a uma circulação forçada por pisos diferentes.
Na Feira da cidade do México, fui como convidado e vi a sua montagem em uma grande e plana praça central com pequenas, médias e gigantes tendas brancas, armadas ao ar livre em meio a bonitas esculturas e a uma vegetação em vasos. Ao canto, área para shows. Ao seu derredor, circulavam veículos, inclusive ônibus, sem falar na estação de metrô no subsolo. O povo se misturava naturalmente à Feira, pois ela estava no meio deles.
Em ambas, vi o cuidado dos organizadores, editores, livreiros e autores, em apresentar opções várias de livros, especialmente os de preços populares. Das feiras, fiz dois registros.
O primeiro, em Fortaleza: Sérgio Braga, que trafega entre a livraria e a editoria, revelou-me que as boas vendas foram apenas as de livros a preços abaixo do mercado, os chamados saldos. O segundo, no México: Luiz Falcão, da Imprensa da UFC, que comandou a venda de livros na bem decorada tenda do Ceará, viu como é duro vender livros em Português. Ao final, resolveu doar os livros que sobraram a instituições universitárias, culturais e à Embaixada do Brasil, sob pena de se pagar o frete de volta. Valeram os contatos.
Na última Feira Nacional do Livro, em Porto Alegre, que também usa tendas e abomina os estandes e refrigeração, ficou clara a dura realidade do mercado de livros que encolheu 8% no último ano. O Brasil não tem ainda “a fome de livros”, projeto que o ministro Gilberto Gil tenta incrementar. Apenas 26 milhões de brasileiros são leitores ativos. Eleitores, sim. temos mais de 110 milhões. Mas isto é outra estória para livros de História.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/09/2005.

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QUATRO ANOS DEPOIS.

Faz hoje quatro anos. O século mal havia começado. Todos nós imaginávamos que o novo século e o novo milênio seriam de bem-aventuranças. O muro de Berlim tinha caído, já não existia a polarização que durou por toda a Guerra Fria, a briga milenar continuava na faixa de Gaza, o Afeganistão era dizimado, a África continuava a morrer de fome e de doenças endêmicas, a Colômbia convivia com o narcotráfico, a Iugoslávia ia desaparecendo, mas, apesar disso e muito mais, acreditávamos que era assim mesmo e a vida ia sendo tocada como cada um podia.
E o dia de hoje amanheceu. E o dia tinha sol em metade da Terra. As pessoas se encaminhavam para os seus trabalhos ou começavam as suas lidas. Bilhões de pessoas, pois somos perto de sete bi de todas as cores, raças, credos, idades, patrimônios, misérias, dores e sonhos. Todos em trânsito, mas o transe iria eclodir.
De repente, todos fomos atingidos, não porque estivéssemos lá ou cá, mas por estarmos. Víamos tudo e do jeito que ainda estava acontecendo. Parecia loucura e era. A tragédia não era uma farsa. Era o cruel do real, do que a mente atormentada gera, do sucesso da insensatez ou do que a fé distorcida provoca. O que fosse. Era a vingança ou o delírio. Estava lá. Era fogo querendo aprisionar olhares, eram mergulhos nos ares criando um mar de desencanto. E as pedras rolavam, como se fossem puxadas pela gravidade. E havia gravidade, não a lei da gravidade, mas a de instintos que plantaram cântaros de ódio e os espargiram com um esgar mortífero. E respirações pararam para sempre.
Atônitos, olhávamos uns para os outros, os meios de comunicação estavam a pleno, todos falando entre si, sem que uma língua comum existisse. Babel XXI. Éramos parvos a soletrar palavras desconexas e, disléxicos, mexíamos os braços sem saber onde colocar as mãos e os sentimentos.
Desespero, era. Desilusão, era. Perplexidade, era. Medo, era. Desafio, era. E era uma Nova Era que chegava ao mundo, de forma tribal, sem limites e quiçá que não por muito. O dia custava a passar e nada do que se ouvia fazia sentido, embora todos os nossos sentidos estivessem alertas. E o pior é que não houve alerta, tudo foi de surpresa, não havia anunciação, chegou o dia de soslaio, como uma pedra que se joga no rio da humanidade e mata parte da fauna. Descobrimo-nos faunos e mergulhamos na busca dos homens que imaginávamos que fossemos. A noite chegou. O dia terminou. Quatro anos passaram, outros dias como aquele pulularam e, neste mesmo dia de hoje, nada mais tem a cor do céu de antes. É o mesmo azul, o céu eterno, as orquídeas florescem, mas os pintores são outros, e a plástica que se cria não inspira mais a ilusão que os olhares ainda acreditavam possuir.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/09/2005.

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EU, O COMPUTADOR E A INTERNET

Aprendi a mexer em computador meio desastradamente. Fiz um curso há muito tempo na IBM. Era uma sala gelada e o computador, imenso. O formal professor usava o inglês-ferramenta e a linguagem era Cobol. Sai mais tonto do que entrei, porém ficou alguma coisa. Depois, comprei um micro e fui batucando aqui e ali, mais errando que acertando. O tempo passou, vieram novos computadores e as limitações continuaram. Hoje, sou um mero usuário, sem método e sem fundamentação teórica (agora, tudo tem que se basear “em fundamentos”, o que também não sei o que significa). Como não tenho outro jeito, vou mexendo, errando e tentando aprender.
Tenho uma assistente de plantão, Josilene Lima, inteligente e preparada, que quebra os meus galhos – e de amigos – quando o computador para e parece dizer que sou burro. Ligo, ela vem e conserta, na maioria das vezes. E ainda ri para mim: era só isso?
Por tanto mexer, pesquisar, catar ensaios, livros e que tais, tenho que conviver com o Google, um “buscador” que responde tudo ou quase tudo. Se não sei, por exemplo, sobre Chopin, escrevo a palavra e mando procurar. É ai que surge o problema: tudo o que é Chopin aparece. Assim é preciso refinar a pesquisa, dizer qual Chopin e eu escrevo Frederic –sem acentos – Chopin, pois a Internet não trabalha com acentos nas palavras. Brevemente, sim. Enquanto isso, não coloco til, cedilha ou qualquer tipo de acento, grave, agudo ou circunflexo. O que estou dizendo é o básico, óbvio.
Voltando ao fio da conversa: procuro o que desejo de Frédéric – com acentos – Chopin, o compositor polonês, amigo do pintor Delacroix e de Liszt. Leio e seleciono. Assim, não pensem que sei muita coisa. O que faço é pesquisar e, às vezes, encontro. Também ocorre de procurar um fato e descobrir outro ou me perder no labirinto. Há, pasmem, 600 bilhões de páginas na Internet.
Mas, o que eu queria mesmo dizer é que no próprio Google descobri um tal de “google earth”. Earth é terra em inglês. O “google earth” é um site que se serve de satélites com recursos para mostrar fotos aéreas de tudo o que há no planeta Terra. É verdade. Tentei “Fortaleza” e apareceu a cidade, vista de cima. Tem uma mãozinha que você vai comandando com o “mouse”, e ele lhe leva para onde você quer. Pois não é que vi – e imprimi-os locais onde trabalho e moro e até os calçadões destroçados das praias. A propósito, li na Folha(FSP), de 31.08.05, pág. F2, que as tecnologias para exploração das profundezas da internet são consideradas questões e ferramentas de Estado. Paranóia ou medo? Valha-nos Deus.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/09/2005.

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OS APARATOS DA SOLIDÃO

A maioria das pessoas reclama de solidão. E há até os que enxergam solidão nos outros, mas não veem as suas próprias. Criou-se na sociedade urbana atual um verdadeiro aparato para proteger a nossa privacidade. Temos carros com vidros escuros, travas elétricas, alarmes e até blindagem. Usamos telefone que recebe mensagens, ligações, mas tem bina para triar com que achamos por bem falar. As casas têm porteiros eletrônicos, cercas protetoras, grades, muros altos e cães ou vigias. O edifício tem vigias, vigilância eletrônica, interfones, câmeras e até os elevadores têm códigos ou chaves. As empresas são ou imaginam ser verdadeiras cidadelas. Tudo trancado, confinado, filmado.
A cada dia as pessoas vão se isolando mais. Para alguns, o trajeto no elevador, em que o vizinho é companhia eventual, parece um tempo demasiado longo quando são apenas segundos. Trocam meros cumprimentos, se trocam. Há até os que entram no elevador, não enxergam o outro e ficam olhando para o infinito que esbarra na porta a centímetros dos seus narizes. O outro é o morador do 201 e não o fulano. A outra é aquela moça do carro cinza e sem nome E no mesmo prédio podem morar solidões a procura de companhia e ai os sites de amizades virtuais imaginam substituir as relações vivas entre gente de carne e osso.
Lembro da minha casa da infância e juventude de porta sem chave, carro sem trava, irmãos entrando e saindo, vizinhos pedindo para dar um telefonema ou trocando gentilezas. Hoje, as pessoas se quedam no silêncio, extravasam seus problemas no consultório de analistas ou na ilusão da bebida em bares e restaurantes onde o barulho do som embota as conversas. O ombro amigo, aquele que ouve e cala, vai ficando longe da realidade. Não se confia, não se confidencia, não se fia. E aí se poderia objetar que a pessoa amada deveria ser esse confidente. Na verdade, seria bom se assim fosse, mas não é a regra geral. Mostrar “as fraquezas” poderá ser fatal e aí não se desce à essência e os dois vivem em mundos paralelos e dessemelhantes.
Há saída? É claro que deve haver e isso vai depender de cada um admitir que o outro é alguém parecido com ele, padecendo dos mesmos males e ansiando por ter com quem possa trocar dois dedos de conversa ou de afagos sem medo de retaliações ou censuras, pois as nossas vidas, mesmo que não queiramos, acabam enredadas nas teias dos relacionamentos. Há um provérbio que diz: “Não declares que as estrelas estão mortas só porque o céu está nublado.” Assim, espere que as nuvens passem e descubra as estrelas.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/08/2005.

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DE MÉDICO E LOUCO …

Conviver é uma forma primária de se obter ou pensar obter saber. De médicos e loucos, todos temos um pouco, dizem. O meu “fortuito e pseudo – saber médico” é produto de “corda de amigos-clientes”, da convivência com médicos, de razoável ouvido e da curiosidade que me leva a pesquisas casuísticas na Internet, leitura do DEF – dicionário de especialidades farmacêuticas, e a alguns poucos livros sobre os meus males e os dos amigos. Alguns médicos amigos até já me disseram: João, cuidado com o Conselho Regional de Medicina. Fiquei temeroso, acreditem.
Pois não é que, em vez de ser punido por “exercício ilegal”, uma entidade médica me confere um título honorífico? Sou agora um dos seus pares, imaginem. E esse título tem relevância ao ser outorgado pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, presidida pelo poeta médico José Telles. Teoricamente, os escritores veem mais, têm sonhos e delírios. E quando são delírios verdes de esmeraldas surgem com hiperatividade e mialgia, sem nenhum sinal de crioterapia nas emoções.
Sabe-se que a literatura sempre se valeu da medicina como contraindicação à mesmice e a usa como plasmadora de enredos e tramas. Consta que Hipócrates comparava o exercício da medicina com uma cena em que intervêm três atores: o paciente, o médico e a enfermidade. Talvez seja esta a razão primeira da literatura e da medicina caminharem juntas, tentando, uma e outra, entender, explicar e resolver os problemas humanos. Claramente, o exercício da medicina é uma tarefa difícil, pois deve associar ciência ao humanismo indispensável à boa prática, no entanto fascina escritores e é matéria prima importante para a literatura. Igualmente, a literatura extasia muitos médicos.
A escrita é como uma hemoptise imaginária, o sangue jorra pela mão que faz curar mente e corpo. É a premência de colocar no papel, ou no computador, como se fora uma emergência, juntando palavras. Não meras fórmulas alquimistas ou teses científicas, mas a quimera da escrita, uma espécie de catarse, de ressuscitação do eu profundo
Então fica acertado assim, que por ser meio louco, por não ser médico e apenas mero aprendiz de escritor, amigos médicos-diretores da Sobrames, após grave junta médica, com anamnese e estudo clínico específico, cuidaram de apascentar meu juízo com o título de sócio honorário e o fizeram justo em um congresso nacional, para que eu assumisse de público, em caráter nacional, o compromisso de nunca mais exercer a minha proibida e incipiente medicina de algibeira. Ledo engano, agora é que a coisa complica, pois fui legitimado, Transformaram-me em colega.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/08/2005.