Hoje será o plebiscito sobre o uso de armas. Dizem que foram gastos 700 milhões de reais pelo governo. Qualquer que seja o resultado, nem as armas vão deixar de ser vendidas, tampouco a violência desaparecerá. A raiz da violência é complexa. Há muitas causas. Uma delas é a própria natureza humana. Outra, a pobreza das cidades e a sua ocupação desenfreada por milhares de pessoas à procura de teto e trabalho. Bem que esses 700 milhões de reais poderiam ter tido uma outra utilização. Por exemplo: uma casa popular pode ser feita por 3 mil e quinhentos reais. Se você dividir setecentos milhões por três mil e quinhentos reais, dará 200 mil casas. Se essas 200 mil casas fossem feitas em uma metrópole qualquer, a maioria dos habitantes de suas áreas de risco teria um teto para morar. Seria um milhão de pessoas com casa.
Imaginem, por outro lado, quanto se gasta em propaganda e publicidade públicas no Brasil. Se parte do que se gasta com propaganda e publicidade para referendo, eleições, inaugurar escola, estrada, preparação de viagem de autoridade, programa disso e daquilo, patrocínio de jogos de vôlei na praia, gasolina da Petrobras em carro de corrida estrangeiro e outros mais, fosse utilizado em habitação e segurança, a história seria outra. Mas, a propaganda do Brasil se gaba de ser uma das melhores do mundo. Isto quer dizer o quê? Significa que ela é também ilusionista, vende mortalha para casamento, engana, mistifica, doura a pílula. E tudo fica colorido apenas nos jornais e nas televisões. A pobreza é em preto e branco ou preto no branco, sem ilusão ou tapinha nas costas.
Voltemos à habitação. Ora, se a casa é um dos bens e direitos fundamentais do ser humano, isso não parece preocupar governos, sejam quais forem seus matizes ideológicos ou partidários. Não se vê mais grandes construções na área de habitação popular. Só há discurso e promessa. E há uma profunda distinção entre o discurso e a prática política. Não vale o que se promete e pouco se cobra de quem prometeu e não cumpriu. Culpa nossa.
No próximo ano haverá eleições. Muitas figuras de sempre tentarão permanecer. Mostrarão o pouco que fizeram, culparão a ´conjuntura´ pelo que não fizeram e terão desculpas pelos erros, se flagrados. Farão discursos, aparecerão em programas de rádio e televisão, abraçarão velhos, crianças e enfermos, visitarão templos religiosos e prometerão novamente. Alguns até chorarão. Nós, os eleitores, é que deveríamos chorar de vergonha pelos erros de escolha. Choremos, mas aproveitemos as lágrimas para limpar a vista e enxergar mais e melhor. É tempo.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/10/2005.
