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O PRESENTE DO PAI

As enciclopédias e dicionários dizem que pai é (1) homem que tem um ou mais filhos;(2) animal do sexo masculino que gerou outro;(3) Deus, no sentido bíblico;(4) protetor etc. Parece que hoje a coisa mudou. Pai é, quase sempre, apenas alguém que tem um barco para comandar e sabe que as suas mãos calejadas talvez não tenham mais força para levar a nau e tripulantes a um bom porto. De qualquer forma, cá estamos em novo dia dos pais. E o presente?
No duro, o que me vem à mente é que o pai é um ser periférico. As mães, primeiras hospedeiras dos filhos, deixam isso bem claro para eles: eu é que sou importante. Eu é que sofro. Eu é que educo. Eu isso e aquilo. O pai, bem, o pai é apenas um pai.
Sou pai do século passado, mas ainda não entendi bem a razão de nos cobrarem tanto e, em contrapartida, não nos darem muito?
Cobram atitudes, comportamento, amor, dedicação, presença e parece que esse ato de cobrar se esvai nele mesmo. Tenho conversado com muitos pais, especialmente pais já maduros, de filhos adolescentes e adultos. E percebo, em muitos, um sentimento de desapontamento em relação aos filhos. São pais na hora dos problemas, das crises, das angústias, mas são esquecidos nas horas do bem bom, na alegria pelas vitórias pessoais, quando acontecessem.
Desde Freud e seus seguidores, vem sendo dito que é preciso “matar o pai” para poder crescer. Se não é assim, é algo parecido, segundo os psi. Creio que a nova geração de jovens e adultos jovens levou essa história ao pé da letra. O pai é uma espécie de “step”, fica ali próximo, na reserva.
É natural que o filho precisa crescer e tomar decisões próprias, daí, quem sabe, a ideia de isolar o pai e não se deixar contaminar por “sua experiência meio ultrapassada”. E se o velho sofrer com isso: “paciência, todos sofremos”.
É provável que o pai, como todos os seres humanos, seja carente e, por tal razão, queira estar mais próximo, não apenas quando o circo pega fogo, mas no dia em a turma sai para festejar ou quando a sua opinião, mesmo não tão esperta, possa servir de alguma forma como balizamento em decisões.
Pai não tem diploma de competência, certificado de santidade ou de referência de vida. Pai é apenas um cara que nasceu antes, escolheu e amou uma mulher com quem gerou filhos. Isso não o faz iluminado, semideus e paradigma de virtudes.
Penso que o maior presente que o pai deseja do filho, é apenas ser reconhecido como sua imagem e semelhança, sem essa de patriarca, mas com a afetividade do amigo que entende o outro por ter defeitos parecidos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/08/2005.

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OS MILHÕES DE SOLTEIROS DO BRASIL

Em meio a denúncias, fofocas e afins, sobraram seis páginas na revista Veja desta semana (03.08.2005) para um assunto ameno: as melhores cidades brasileiras para solteiros. Para quem não leu a reportagem na Veja, vá em frente. De princípio, fique logo acertado, que solteiro é hoje: toda pessoa, mulher ou homem, maior de 18 anos que não tenha casado, ou seja separada, desquitada, divorciada, viúva e junta, mas nem tanto.
Há 52 milhões de solteiros no Brasil. De primeira remessa ou com muita estrada. A Veja quis saber o que fazem os solteiros e até estabeleceu “os critérios do ranking” das cidades: “A cidade precisa ser servida de bares, restaurantes e casas noturnas. Além disso, eles gastam mais com atividades culturais. Por isso, é importante que haja uma grande quantidade de teatros e cinemas”.
Na classificação, deu São Paulo na cabeça. Lá, os solteiros têm tudo o que querem. Será? Brasília ficou em 2° lugar, também pudera, com tanto dinheiro circulando. Curitiba está no 3°. Belo Horizonte, apesar das agências de publicidade, ficou em 4°. Salvador, onde tudo é mais lento, ficou em 5°. O Rio de tantos tiros e folguedos vem no 6°. Porto Alegre, com chimarrão e churrasco, está no 7°. Recife do mangue-beat se queda em 8°. Fortaleza, metida a não sei o quê, amargou o penúltimo lugar e Manaus, franca e calorenta, fica em último.
E tem mais: um em cada três solteiros de São Paulo fala no mínimo um idioma estrangeiro. Fala para o espelho? 33% dos brasilienses acessam a internet, certamente para ver como anda a sua conta bancária. Os curitibanos gostam de esportes radicais (40%). 87% dos belo-horizontinos adoram comprar roupas, pois há muito dinheiro. Em Salvador, o bom é beber. 66% frequentam bares e o resto vai para a academia. Trabalhar para que?
No Rio, a cidade das aparências, 69% gostam de experimentar novos produtos e marcas. Em Porto Alegre, 60% dos solteiros preferem ficar em casa, não se sabe se sós ou acompanhados, mas criam gatos e cachorros. 60% dos recifenses colocam o trabalho em primeiro lugar e talvez por isto continuem solteiros. Em Fortaleza, 44% saem para jantar e 35% dizem frequentar clubes ou afins.
Ao fim e ao cabo, apesar da superficialidade da reportagem e da crônica, fica a certeza de que mais de um 1/3 da população adulta brasileira mora só e parece não ver o casamento como solução ou segredo da felicidade. Egoísmo? É provável. Desapontamento? Todos têm desapontamentos. Insegurança emocional? Quem sabe. Mas, Sócrates já dizia que “um bom casamento exige que o homem seja surdo e a mulher cega”. Parece que os homens solteiros estão ouvindo bem e as mulheres solteiras cada vez enxergam melhor.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/08/2005.

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GONZAGA, LONDRES, GONZAGA

Gonzaga é uma cidade perdida no interior de Minas Gerais. Tem menos de 6.000 habitantes, mas possui 4.599 eleitores. A renda média mensal é de 240 reais e lá não existe leito hospitalar. Foi nessa cidade que nasceu Jean Charles Menezes, o brasileiro de 27 anos, morto dentro de um vagão de metrô de Londres com oito tiros, dizem que imobilizado e de bruços.
Um dia, como tantos outros brasileiros sem esperança, ele resolveu enfrentar a vida e escolheu Londres. Fez-se eletricista, ralou, regularizou seus documentos e ia vivendo. O problema de Jean Charles é que ele não era caucasiano. Era um brasileiro de raças misturadas, como quase todos nós. Por estar em Londres, a cidade que estava sendo alvo de atentados terroristas, Jean Charles foi perseguido por homens a paisana que eram policiais. Entrou no metrô e morreu, do jeito que todos já sabem.
Londres abriga, como toda metrópole, um grande contingente de estrangeiros, especialmente os vindos do dito 3o. mundo em busca de emprego e um lugar em meio ao sol, ou melhor, à bruma quase diária. Pesquisas e análises feitas por organismos internacionais, ongs e assemelhados mostram claramente que esse êxodo é produto exclusivo da falta de oportunidade em seus países de origem. Acresça-se a isso: os imigrantes constituem mão-de-obra barata e, quase sempre, submissa e explorada.
Quase todos os dias pessoas como Jean Charles estão tentando atravessar fronteiras de países. Só no México, neste ano de 2005, entraram cerca de 60.000 brasileiros e só há registro de saída de 7.000. Os outros 53.000 estão entre os que já tentaram atravessar a fronteira e conseguiram, os que tentaram e foram presos, os que tentaram e morreram e os que ainda estão tentando. Nos próximos dias chegarão em avião fretado 300 deportados.
Voltemos a Londres. De lá o corpo de Jean Charles voltou para Gonzaga. Foi enterrado. Houve discursos e cobertura jornalística. Por certo, uma indenização seguiu junta e a família ficará agradecida ou dará procuração a um diligente advogado que, certamente, se apresentou solícito.
Em breve, o caso Jean Charles será esquecido, mas outros brasileiros como ele estarão sendo empurrados para a aventura no exterior e correrão os mesmos riscos para mandar dinheiro para os seus, contabilizado pelos bancos brasileiros, quem sabe, como “divisas vindas do exterior”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2005.

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LEIA E PASSE ADIANTE

No Brasil se leem, em média, 1,8 livros por ano. Enquanto isso, na França se leem 7,0 livros por ano. Nos Estados Unidos, o nível de leitura é de 5,1 livros/ano. Os brasileiros precisam e devem ler mais. O problema é que as pessoas não compram livro por duas razões básicas: ou não têm dinheiro para comprar ou não gostam de ler. É tempo de mudar e há muita gente preocupada com isso. Se não leio, não me informo, se não me informo, não posso saber, se não sei, não posso decidir bem. Leitura de jornal e de livros é uma arma contra a ignorância, contra o alheamento e a manipulação de nossa vontade pelos outros. Quem não sabe ou gosta de ler e só ouve rádio e vê televisão é presa fácil, pois quase segue sempre o que ouve e vê ou o que querem que ele ouça ou veja.
Felizmente, no mundo há uma porção de gente com ideias boas, sem outro objetivo que o de fazer o bem. Uma dessas ideias foi chamada de “book crossing” que, pelo dicionário inglês Oxford, é o ato de deixar um livro em local público para ser levado por alguém. Traduziram, livremente, em português, como “passe adiante”. O Passe Adiante é uma coisa que todas pessoas podem fazer. Não é uma dessas correntes de dinheiro, e-mails de fofocas, tampouco de felicidade, mas pode tornar pessoas mais ricas em conhecimento.
A ideia de criar grupos de “book crossing” -ou passe adiante – no mundo, parte do pressuposto de que muita gente tem livro já lido e, na outra ponta, há gente que quer ler, mas não tem dinheiro ou hábito de ir até a uma livraria. O que se fez foi juntar grupo de pessoas que tenham livros, já lidos, em suas casas. Essas pessoas, inicialmente, em um dia determinado, após divulgação pela imprensa, fazem uma grande distribuição de livros em locais públicos previamente escolhidos e, juntamente com os livros, deixam mensagens para quem receber cada livro ter a gentileza de fazer o mesmo, ou seja, também passar adiante o livro após a sua leitura.
Passar adiante é um ato simples, mas que pode criar hábitos de leitura. Escolha um local público. Pode ser um grupo escolar, colégio, igreja, faculdade, banco de praça, biblioteca pública, bar, shopping etc. Nesse local você deixará um -ou mais – livro e pedirá que o ganhador também possa, no futuro, fazer o mesmo. Desculpem se estou repetindo, mas é preciso que cada pessoa que deseje ser um voluntário no “Passe Adiante” conheça como ele funciona.
Em breve, muito breve, teremos um ou mais movimentos Passe Adiante. Quem tiver livros já lidos para doar poderá ir separando. Uma pergunta final: Se alguém não lê, de onde virá o seu saber? Pense nisso.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/07/2005.

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DO SERTÃO OLHANDO O MAR

Neste domingo, deste mês de julho de tantas descobertas não científicas, o Ceará, depois de muita luta, recebe, com alegria e carinho, expressivo número de cientistas para mais uma Reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência –SBPC. Todas as reuniões serão na Universidade Estadual do Ceará –UECE, campus do Itaperi, um ambiente simples, acolhedor e agradável que reflete o nosso jeito de ser. “Do Sertão olhando o Mar” é o sugestivo leit motif do encontro.
E como ciência é uma palavra que comporta várias interpretações e gradações, certamente teremos manifestações diversas de conhecimento, todas passando, quem sabe, pela única definição clássica que penso ter aprendido de Ciência, aquela que se constitui um conjunto organizado de conhecimentos relativo à determinada área do saber, caracterizado por metodologia específica.
O grande problema de reunir luminares, aspirantes e afins é que existe uma ciumeira histórica entre cientistas dos vários ramos do conhecimento humano. Se sou físico (especialmente neste ano que é dedicado à física), certamente imagino que sou mais cientista que um sociólogo. Já o sociólogo (que acredita que todos os anos são deles) pensa exatamente o contrário e por aí vai. E o que ficará pensando o matemático disso tudo? Pois é.
Esquecida ou desaquecida a fogueira das vaidades, é importante que, mesmo com os naturais e benfazejos pensamentos conflitantes, cientistas das mais diversas áreas se reúnam e debatam livremente o que está acontecendo no mundo da produção científica, mas sem deixar de lado o que se passa no mundo real, base do nosso existir.
Não quero e nem sei falar sobre a filosofia da ciência, pensamento que vem desde o século XIX, mas este encontro deve reservar bastante tempo para reflexões sobre o Brasil atual e real, este que nos acolhe e encolhe em meio a diatribes de muitos imputadas a poucos.
É certo que não deve haver preconceito para rever posições e comportamentos em reunião de cientistas e, se isso acontecer, seguramente todos sairão ganhando, pois há temas que transcendem às pautas e teses a serem expostas e defendidas. E talvez seja o caso de nos lembrarmos da Ciência da Lógica de Hegel que a entendia não como o universal abstrato, mas o particular, o casuístico que modifica ou encarna o universal.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/07/2005.

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IDEALIZAR OU DEMONIZAR O OUTRO

Um dia, por um motivo qualquer, perdemos a confiança em alguém. A relação, que havia sido construída, acaba. E o pior é que nós ficamos ruminando, pensando, procurando descobrir as razões. Nessas horas, sempre idealizamos ou demonizamos o outro. Até o instante da perda da relação, o outro faz parte do nós, pois o nós depende de, pelo menos, duas pessoas. Assim, parece ser na vida familiar, afetiva, profissional, social e até nos sonhos políticos e de grandeza que sempre mantemos acessos para o nosso país em cada eleição.
De dois em dois anos, quer queiramos ou não, somos obrigados a estabelecer uma relação lógica e lúcida com candidatos, mas somos afetivos. Temos que escolher, fazer um juízo de valor, mas, quase sempre, optamos por gostar mais de A do que dos outros. Por isso, o escolhemos. E como o brasileiro é passional, embora não vigie e nem cuide, imagina que tem um vínculo com o seu candidato. E o mais sério, cada um imagina que o seu candidato também tem um vínculo com ele. Basta uma frase bem dita na televisão, uma ideia salvadora, um gesto forte, a mensagem de que tudo será diferente e o vínculo está atado. Ele é o nosso candidato e herói e pensamos que vai fazer lá o que nós gostaríamos. Para nossa alegria, ele vai eleito. E aí torcemos para que tudo dê certo e as promessas sejam cumpridas.
O tempo passa. Um dia, por outro motivo qualquer, perdemos a confiança na pessoa que foi eleita. Mas, para isso acontecer, durou um tempo anterior de desconfiança. Primeiro, foram os hábitos que mudaram. Depois, as companhias. Enfim, o comportamento. E aí o desengano, como se ele deixasse de fazer parte do nós afetivo que, unilateralmente, criamos. Pois o brasileiro não é apenas eleitor, é uma espécie de avalista afetivo do seu candidato. É claro que estou falando do eleitor que se imagina esclarecido, do que se acredita politizado, do que sempre faz planos para o futuro.
E como os nossos políticos gostam de falar de improviso, isso me leva ao filósofo Thomas Hobbes, em seu famoso Leviatã, escrito em 1651, há 454 anos, e que pretendia ser matéria, forma e poder de um estado (eclesiástico e) civil. Pois Hobbes, talvez admitindo política como negócio, diz na página 256 do seu Leviatã: “Em qualquer negócio, por mais capazes que sejam os conselheiros, o benefício do seu conselho é maior quando o dão a qualquer pessoa sua opinião juntamente com as razões dela, do que quando fazem por meio de um discurso numa assembleia. É tanto maior quando pensaram antes o que vão dizer do que quando fazem de improviso. Porque em ambos os casos tiveram mais tempo para examinar as consequências da ação e estão menos sujeitos a cair em contradição, devido à inveja, à emulação ou a outras paixões que surgem da diversidade de opiniões”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/07/2005.

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UMA FORTALEZA SEM FIOS

Ano passado, em uma noite de céu claro em Madri, descobri que não havia nenhum fio ou cabo entre os diversos postes da cidade. Tudo era subterrâneo. A paisagem ficava mais limpa e o céu parecia livre dos tentáculos dos fios e cabos que conduzem a eletricidade, a telefonia e as televisões a cabo. É claro que muitas cidades do mundo são assim (Brasília era assim, porém …) e isso não é privilégio de Madri, mas foi lá que tal fato me chamou a atenção. Imaginem uma cidade sem fios e cabos, pois é bonito, posso dizer.
Agora, para alegria minha, vejo que na cidade de São Paulo foi aprovado o projeto de lei nº 248/01 do vereador Milton Leite, do PMDB. Só precisa agora que o prefeito José Serra sancione. Se não sancionar, tenho pena do futuro político dele. Deixo tudo claro para que algum vereador de Fortaleza procure o texto na Internet ou tente fazer algo semelhante em Fortaleza. E a lei em questão prevê que tudo seja resolvido em cinco anos pelas concessionárias e que no local de cada poste retirado seja plantada uma árvore. Como seria bom que esta cidade se livrasse do emaranhado de fios e cabos e, consequentemente, dos furtos que provocam mortes, acidentes e desligamentos, sem falar nos “gatos” que encarecem a energia de todos, na melhoria visual da paisagem urbana e nas podas de árvores, nem sempre adequadas, que as concessionárias de energia e telefonia fazem.
O plantio de árvores, por outro lado, poderia oferecer créditos de gás carbono à Fortaleza, instrumento normatizado pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto. Trocando em miúdos, a cidade agregaria valor do ponto de vista ambiental e teria condições de pleitear financiamentos nacionais e internacionais e negociações a fundo perdido para aplicar em meio ambiente. Hoje, já há mercado de negociações para as cidades que melhoram a poluição ambiental, aumentam o plantio de árvores, semeiam parques, despoluem cursos d’água e dão demonstrações claras de que lutam por um desenvolvimento sustentável.
O desenvolvimento sustentável para mim, que não sou ecologista, é, pelo menos, a consciência e a ação dos que vivem hoje de que não podem abusar dos recursos naturais sob pena de prejudicar os que virão depois. Se não for assim, é algo parecido. O importante é que a responsabilidade social, não só a dos políticos, mas a de todos nós, se torne clara e não seja um mero exercício de retórica.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/07/2005.

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XODÓ BEM ANTIGO

Dizia Mark Twain que “a pessoa que não lê bons livros não tem mais mérito que o homem que não sabe ler”. Foi por acidente que comecei a gostar de ler. E a cada dia que passa vou ficando mais ligado aos livros. É uma antiga história de xodó. Eu tinha menos de 14 anos quando uma camioneta de cargas parou defronte à nossa casa. Dela fizeram descer duas estantes de madeira com vidros. Na frente de uma estava entalhada no frontespício a palavra “Ateneu” (que significa academia ou escola e é também o nome de um romance – O Ateneu -de Raul Pompéia, escrito em 1888). Pois bem, começava ali, naquele dia, o meu xodó com os livros. Meu pai havia comprado toda a biblioteca de José Maia de Almeida. Sei disso porque em todos os livros estava a assinatura com letras bem desenhadas de Almeida. Até hoje não sei quem é ou foi José Maia de Almeida. Alguém sabe?
A maioria dos livros, todos encapados em papel madeira, era de bons autores brasileiros, tipo Machado de Assis e José de Alencar. Havia poucos estrangeiros, alguns livros de História Geral e do Brasil e enciclopédias. Mandei fazer um carimbo e apelidei as duas estantes de “Biblioteca Bezerra de Oliveira” e, em cada livro, dava um número, a partir do 1.
Faço a máquina do tempo girar e me vejo agora na Associação Brasileira de Bibliófilos, por obra e convite de José Augusto Bezerra, este sim, um bibliófilo apaixonado. Bibliófilo é quem ama e cuida de livros, os de primeira edição e, especialmente, os raros. Vai daí que recebi no dia 31 de maio passado, junto ao jornal Folha de São Paulo, o caderno Sinapse, um suplemento que a cada 30 dias traz matérias gostosas de se ler. Pois bem, a edição trazia na capa a manchete “Por amor aos livros” e falava de bibliófilos e de suas coleções. Mandei, com um bilhetinho, a tal Sinapse para o José Augusto Bezerra que, por sinal, acaba de ingressar, por méritos, no Instituto Histórico do Ceará. Foi aí que se viu a injustiça que a Folha cometeu com a nossa ABB. Deu destaque à Confraria dos Bibliófilos do Brasil que só tem 10 anos e esqueceu de lembrar da nossa Associação dos Bibliófilos do Brasil que faz exposições periódicas (agora mesmo tem uma sobre Don Quixote na Academia Cearense de Letras) e se orgulha dos bibliófilos que a integram. Está feito o registro. Que a Folha faça a correção, e breve. Caso contrário, mandaremos à sua redação qualquer livro-bomba, que certamente não fez e nunca fará parte de nossos acervos, pois como dizia Voltaire:” acontece com os livros o mesmo que com os homens: um pequeno grupo desempenha um grande papel”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2005.

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GUILHERME NETO

No quase final dos anos 60, saído da universidade, eu escrevia uma coluna diária no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados. Tinha o pomposo nome de “Administração e Negócios”. A coluna cuidava de escrever sobre essa profissão que surgia e, por conta disso, li e comentei sobre as minas do Amapá e a exploração de manganês pela Indústria e Comércio de Minérios – Icomi. Seu controlador, Azevedo Antunes, resolveu me convidar para conhecer “in loco” a extração e a exportação do manganês e o fez com liberalidade: “convide os jornalistas que quiser.”
Assim o fiz. Chamei sete. Mas, o que importa nessa história é que João Guilherme da Silva Neto era um dos convidados. Os Diários Associados ainda estavam em seu auge e Guilherme Neto era uma espécie de faz tudo na TV-Ceará, onde hoje fica a “holding” do Grupo Edson Queiroz. Fazia direção, tele-teatro, redação e cantava. E fazia tudo muito bem, com os limitados recursos técnicos de então, dando asas ao seu imaginário e inventividade. Hoje ele é astro do “Clube dos Gatos”.
Não frequento o “O Clube dos Gatos”, uma irreverência semanal etílico-literária onde a sabedoria do falar manso e a beleza de voz de Guilherme Neto se fazem ouvir. Mas, louvo os que ali se reúnem em torno de Baco e das canções com o descompromisso que a amizade deixa fluir. Embora distante, considero-me amigo do Guilherme Neto, pois dizia Emerson sobre a verdadeira amizade: “não precisamos nos encontrar, nem conversar, nem corresponder, nem trocar lembranças”. Basta ser.
Voltando à viagem, saímos de Fortaleza de avião para Belém e de lá para Macapá. Em Macapá, tomamos um charmoso trem privativo e fomos para Porto Amazonas, quando tivemos oportunidade de descansar dos ares e da estrada de ferro. Foi lá que descobri quem era Guilherme Neto, uma figura já madura, mas leve, humana, companheira e agradável. Fizemos uma boa camaradagem, instigados por Lúcio Brasileiro, que também estava no grupo. Anos depois, Lúcio, com a sua mania de nos tornar maiores que somos, resolve chamar Guilherme Neto de “Barão”. Pois não é que acertou. Na realidade, no Ceará nunca houve baronato por nobreza e sim por concessão do poder vigente. Pois Lúcio se tornou o poder concedente e o fez muito bem.
Agora, outro poder concedente, a Câmara Municipal de Fortaleza, outorgou a Guilherme Neto a Comenda Boticário Ferreira e o fez por justiça. E lá no Cumbuco, no seu exílio voluntário, certamente Lúcio Brasileiro, ao polir a dignificante 1ª. Medalha Régis Jucá que recebeu do Ideal Clube, no mesmo dia e hora em que o “Barão” recebia a Boticário Ferreira, verificará que seu gesto jornalístico antecipou em anos a homenagem que a cidade de Fortaleza devia a Guilherme Neto, gente de bem. E gente de bem fica para sempre.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/06/2005.

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O GRINGO-BRASILEIRO ERROU

“Por que um país católico, como o Brasil, tem uma cultura tão menos confessional do que a minha pátria protestante, os Estados Unidos, onde até os não-famosos escrevem sobre os seus triunfos e traumas, não importando o quão triviais eles sejam?” A pergunta é feita na Folha de São Paulo pelo escritor americano Michael Kepp que mora a 22 anos por aqui. Discordo completamente do “gringo-brasileiro”, como ele se auto-intitula.
Kepp erra ainda ao dizer que “os brasileiros somente se expõem nos reality shows.” Ora, ele esquece que esses “bigs” da vida começaram lá na sua pátria. Uma coisa é ser confessional, outra coisa é a palhaçada em que a televisão mostra cenas íntimas de pessoas trancafiadas à espera do dinheiro do prêmio ou da glória futura.
Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Luiz Fernando Veríssimo, Airton Monte, Lya Luft e outros são puramente confessionais. Cony contou o drama da doença e morte de seu cachorro, sem falar na vida suburbana de seu pai. Zuenir relatou todos os seus passos de sua luta vitoriosa contra um câncer. Veríssimo descreve sobre o saxofone que toca, o time que torce e faz troça de sua condição de gaúcho macho. Airton se derrama falando dos amigos, das músicas que ouve, do dinheiro que espera ganhar na loto e das longas tardes-noite de domingo em que o vinho o embala na escritura. Lya se desnuda como mulher madura e fala como gente comum de dores, amores perdidos, desenganos, mas com esperança.
Creio que Kepp anda lendo pouco os cronistas brasileiros. Bastaria ler, por exemplo, a Danusa Leão. Ela é confissão pura, sem retoques e com a liberdade da mulher que tirou todos os acessórios reais e virtuais e resolveu assumir a sua solidão, as lembranças dos ex-amores, a dor pela perda de um filho e a declarada antipatia pela vida social que levava. Os cronistas brasileiros, maiores e menores, se mostram totalmente no que escrevem.
Qualquer leitor arguto verá as feridas da alma de quem registra fatos no papel, mesmo que a ironia presida as suas palavras. E olhe que não estou falando na profusão de livros lançados todas as semanas. Neles há meninos sonhando, adolescentes criticando, maduros se questionando e velhos se revelando. Muitos falam de suas vidas e as famílias ficam felizes por terem um “escritor” entre os parentes. Este não é só um país da fofoca, mas é também o país em que a maioria das pessoas, mesmo as que não escrevem, falam de suas entranhas e das coisas estranhas que acontecem em suas vidas.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/06/2005.