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CONVERSA SEM FIM

Num dia qualquer do fim do século passado, Natércia e eu viramos amigos. Foi uma chuva de benquerença lavando as nossas almas já com tantos poréns. Descobrimo-nos amigos, aquela amizade definitiva e sem adjetivos que aporta e diz: estamos juntos. Pois foi assim. Era quase sempre na sua casa, doada pelo pai atento e cuidadoso. A varanda era o canto da conversa. De lá, o mar parecia tão perto, mas não se ouvia o seu barulho. Eu chegava e ela vinha com as mãos cheias de papéis, cartas e livros que íamos lendo, comentando, destrinchando, como se a destecer as redes que prendem as pessoas em mundos paralelos. Alegre, brejeira, crítica sem nenhuma acidez pessoal, entronizou-me em tudo.
A partir dos tempos da Praia de Iracema, dos avós, a vida no Benfica, os filhos nascendo, as várias moradas, os primeiros escritos, o prêmio em São Paulo, o desfazimento do altar. A dor não superada da perda do filho Zé, e para cobrir o vácuo a profusão de cartas lítero-afetivas trocadas por correio, de forma ávida e romântica, com intelectual radicado em São Paulo. As amigas e a vida das filhas, as daqui e as que brilhavam em Brasília. E tinha o amor maduro lá em Acauã, tão terno e forte como uma estaca bem fincada, com atenções e idas e vindas.
Desse amor saiu livro com conversas de alpendres. E no meu pensar, sua vida, a partir daí virou definitivamente. Câmara Cascudo cruzou o seu caminho e pode ter sido o mote das ricas imagens advindas. E aí a contista foi se alicerçando em romancista com luz, tempo, história e vernáculo próprios, criando a casa a contar sobre vivos e mortos o que nenhum analista ouviu e a exorcizar os demônios que a todos visitam até que a água encerra tudo. Outros prêmios, ingressos em academias, o casamento matutino da caçula em mês de luas azuis, o desvelo pelo filho varão, os telefonemas sem fim com a irmã dos Guararapes e o tentar cuidar da mãe que se bastava na sua lucidez.
Ríamos e padecíamos com os nossos individuais casos afetivos, cada um do seu jeito, como só o fazem os que se conhecem sem mentiras e sabem que o afeto não precisa de forma definida para existir. Amigos, como não sabíamos haver entre homem e mulher. Um dia, ela me fala da água balançando. Sempre água. E aí não se antecipou sentimento que doía um pouco a cada dia. Foi um longo lutar médico, seguido de altos e baixos, com serena dignidade. E então veio a manhã do dia de 02 de junho de 2004, aquela era a exata manhã que eu não queria que acontecesse E veio precedida da certeza que espantava com conversas sérias e troças, mas sabia que Ela chegaria. E desde então não há tempo em que a cabeça deixe de pagar sentimentos e, em alguns momentos, ainda nos imagino conversando.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/06/2005.

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NAS FRONTEIRAS DA TOLERÃNCIA

Dizia Balshenkof que “toda relação é um teste de limites”. Nunca há greve de sentimentos na vida. Assim parece ser na família, trabalho, sociedade, política, costumes e ordem social. Por esta e outras razões, nos dias 16,17 e 18 deste maio que finda, na cidade de Lisboa, estudiosos, cientistas, profissionais, acadêmicos e interessados de Portugal, Espanha e Brasil estiveram discutindo as fronteiras da tolerância sob os auspícios da Universidade Nova de Lisboa.
Na realidade, havia um Colóquio internacional e interdisciplinar tentando levantar questões e encontrar respostas envolvendo as perspectivas filosófica e histórica, cuidando de ver os direitos humanos e as liberdades do agir, pensar e da fé. Igualmente, analisava culturas e ciências, bem como o comportamento das minorias no ontem e no hoje.
Verificava-se, como claro é, que há ressurgimentos com sinais claros de intolerância ao redor do mundo, daí foi escolhido o nome de Pro Dignitate para o movimento que foi organizado e deflagrado pelas Dras. Maria de Jesus Barroso Soares e Maria Helena Carvalho dos Santos, auxiliadas por Mery Ruah e Antonio Andrade, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL. Na abertura dos trabalhos, a Dra. Barroso Soares disse que “as questões da tolerância e da intolerância atravessam transversalmente as sociedades” e falou também que “a história do mundo tem constantemente viajado entre esses caminhos, seja no plano político e religioso, seja relativamente a imigrantes e minorias, seja, ainda, no interior das famílias, escolas ou no mundo do trabalho”.
Assim é que se analisou, entre outros temas, o significado do humanismo, o papel da mídia, o direito de imigrar, a genética molecular, as liberdades individuais e coletivas, a violência contra a mulher, a prática da mutilação genital feminina em países africanos e do Oriente Médio, a xenofobia, os direitos humanos e a exclusão social.
Poderá alguém dizer que é muito tema para 03 dias de estudo. É e não é. Na verdade, cada um dos expositores teve o cuidado prévio de arrumar, por escrito, suas ideias que brevemente serão apresentadas em livro que circulará inicialmente em Portugal, mas poderá ter edições brasileira e espanhola. Como escreveu poeticamente a Profa. Maria Helena Carvalho dos Santos: “continuamos a escrever livros e aprendemos a fazer colóquios. Para quê? Talvez todos juntos estejamos em condições de aprender a escrever a palavra paz”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/05/2005.

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O SOL DE LÚCIA MARTINS

“Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela já existiu há séculos que se passaram antes de nós”. Está lá no Eclesiastes. E foi desse livro bíblico que Lúcia Martins tirou o nome do seu romance “Nada de Novo sob o Sol”, publicado em 1967. No princípio, era Sandra Lacerda, mas logo se descobriu o seu nome verdadeiro e com ele, em 1977, ganhou o prêmio José de Alencar, pela UFC. Mas, já era vencedora. Em 1945, com “Janelas Entreabertas”, foi menção honrosa no prêmio Aequitas. Em 1952, o prêmio Rádio Roquete Pinto, no Rio, com “Histórias Infantis Radiofonizadas”. Em 1953, com “Destinos Cruzados”, o prêmio da Prefeitura de Fortaleza.
Neste mês de maio o Ceará perdeu o sol de Lúcia Martins. Não era cearense, mas se cearensizou ao casar com Fran Martins. Lúcia teve olhos atentos para o que acontecia nesta terra e manifestava esse conhecimento em crônicas, contos e romances. Olhar profundo, semblante sereno, o jeito de quem sabe do mundo e a certeza de “não há nada de novo sob o sol”, não se deixou ofuscar pelo brilho do marido. Tinha sol próprio. Eram talentos diferentes e paralelos.
Em 1952, aos 26 anos, quando da morte de Joaquim Alves, integrante do grupo Clã, escreveu: “Agora, o que se faz preciso é cultuar-lhe a memória, dar-lhe o lugar entre os grandes trabalhadores intelectuais do nordeste, não deixá-lo esquecido, como se fez com Oliveira Paiva, que somente sessenta anos depois de sua morte teve os seus méritos justamente louvados.”
Em 1953, na revista 14 do Clã, estava Lúcia a entrelaçar palavras ao criar o conto “Questão de Consciência”, depois reproduzido no seu livro “Histórias para passar o tempo”, de 2000. Vejam como Lúcia escreve sobre a morte de uma personagem: “Meia hora depois estava na casa da amiga morta. Chegou apressada, uma cara que sempre fazia para ocasiões dessa natureza: missa de sétimo dia e enterro pedem uma fisionomia diferente. Um ar mais sério, mais sóbrio. E ela sabia manter aquela linha que considerava fazer parte da personalidade da mulher”.
Estive no velório e na missa de sétimo dia de Lúcia e tudo me fazia lembrar o que ela descreveu em 1953, como se madura fosse e era para antever fatos. A serenidade de Lúcia Martins, pós-morte, me fez lembrar de Platão, na Apologia, quando dizia que “ninguém sabe se a morte, que os homens, em seu medo, supõem ser o maior mal, não é talvez o maior bem”.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2005.

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O BRASILEIRO É CORDIAL?

Já faz muito tempo que vivemos baseados em pesquisas. Pesquisa-se o clube favorito, carro adequado, perfume inebriante, mulher mais atraente etc. Há pesquisas para todos os gostos e formas. Uma delas me chamou a atenção. Via Internet foram entrevistadas 10.646 pessoas em novembro passado, sobre o que causa mais irritação ao brasileiro. O resultado foi apresentado neste maio de 2005, via Reader’s Digest, por Dirley Fernandes.
Há até bem pouco tempo o brasileiro era tido como um “homem cordial”, assunto abordado inclusive no livro de Sérgio Buarque, “Raízes do Brasil”, de 1936. O brasileiro era alguém que levava tudo na brincadeira e aceitava os revezes com bom humor e galhardia. A coisa mudou e de forma bastante clara. A cordialidade urbana minguou. Até mulheres, que davam exemplos, hoje furam filas, fazem gestos obscenos ao dirigir, gritam e xingam por nada. Dos homens nem se fala. São os “machões” que sabem tudo, bebem em demasia, discutem muito, têm razão sempre e brigam em casa ou em público.
A pesquisa recebeu respostas de todo o Brasil. Gente de todas as classes sociais, bastando ter um computador conectado à Internet. O resultado foi por ordem de queixa. Explicando: a primeira queixa foi a que teve o maior percentual de respostas. A última: a que teve menor índice. Deu Impunidade em primeiro lugar. 65% dos pesquisados não acreditam que as leis sejam cumpridas no Brasil. O segundo lugar (61%) ficou para a Violência, não só a urbana, nos estádios, mas a que se espalha nas cidades do interior e nas questões agrárias. A Falta de Segurança ficou em terceiro lugar (48%), incomodando brasileiros que referiram a assaltos, sequestros, assassinatos, roubos de carros, casas e em condomínios, e a desarticulação das polícias.
O quarto colocado (43%) foi o Desrespeito às Leis. Todos se acham donos da lei, exigem-na e poucos a cumprem. Começa, por exemplo, com o vizinho que faz uma festa até às quatro da manhã e “faz porque pode”, não se importando com o descanso do outro. A quinta reclamação (34%) foi a Superlotação dos Hospitais Públicos. Esse item é tão claro que nem precisa explicar. A Descortesia (33%) vem em 6º lugar. No Brasil ninguém pede licença, poucos agradecem ou dão bom dia. Um minuto de elevador parece uma eternidade. Os Fumantes (32%) já caíram para o 7º lugar, mas ainda jogam pontas de cigarro pelas janelas dos carros, cospem após fumar, dão a última baforada dentro do elevador, e desrespeitam a proibição de não fumar em lugares fechados e climatizados.
Em 8º lugar (30%) vem o Lixo nas Ruas. Muita gente culpa as prefeituras, mas a outra acusada é a absoluta falta de cidadania. A rua é um depósito onde todos jogam tudo e esperam que retirem rápido, pois ele próprio, o Sugismundo, passa a reclamar. Em 9º e penúltimo lugar (21,4%) vem os Engarrafamentos, muitos deles motivados por pequenas batidas de carros que não têm seguro e aguardam por perícias que pouco resolvem. Por último (21,3%) vem a Má Educação ao Volante. Todos têm razão, xingam, param nas faixas, pedestre não tem vez e isso, dizem, talvez se deva ao número de “flanelinhas” e pedintes que atormentam os guiadores brasileiros.
Afinal, o brasileiro é cordial ou não?
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/05/2005.

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MÃE DE ONTEM E DE HOJE

Um dia desses comentava com amigos que a nossa geração – a minha e a deles – tinha vindo ao mundo de forma mais gentil. Os filhos nasciam, quase sempre, por mãos de médicos amigos ou de parteiras que, quase integrados às famílias, ofereciam a criança à mãe parida ainda envolta no líquido que a protegeu por longos meses. Após o parto, médico ou parteira lavavam o rosto e as mãos, tomavam café com bolo, davam adeus e saiam. A conta ficava para depois, sem pressa e sem ajustes prévios.
A partir daí era a mãe quem tomava as rédeas. O filho é teu, cuida dele. Quando muito, era ajudada por uma parenta ou empregada que fazia de tudo. Os filhos mamavam no peito, o berço ficava ali de lado da cama do casal e os outros irmãos, pois sempre tinham outros, entravam e saiam em algazarra, enquanto ela pedia, sem êxito, silêncio.
Essa mãe, quase sempre, era apenas dona de casa, daí encontrar tempo para cuidar dos filhos, contar histórias, ouvir rádio, costurar, cerzir, ler e tomar banho ao final da tarde para, perfumada e vestida em leve vestido de algodão, esperar o marido que trazia novidades da rua.
Essas histórias e lembranças, em meio a este Dia das Mães de 2005, parecem ter acontecido em outra vida em que as portas das casas não tinham chaves de cilindro, nem eram protegidas por grades, eletrônica e trancas. As calçadas eram prolongamento do viver em família e os vizinhos não só se conheciam, mas formavam grupos de amigos que jogavam peladas, xadrez, damas, bila, triângulo, gamão ou baralho, com cartas já usadas e curtidas pelo tempo. Hoje, “é o menino do 201”, “a viúva do 402” e “o casal que briga no 702”. Parece que ninguém tem nome.
E é esse mesmo tempo, que nos mostra a face atual da maternidade, pois quem muda são as pessoas e as coisas. A mãe de hoje é, via de regra, mulher profissionalizada, ciente dos seus direitos, corresponsável pelo sustento da família, interconectada, programando-se para ter os filhos que determinar, deles cuidar com outros olhares, e assistida – quando pode pagar – por “enfermeiras” ou babás de carteira assinada. É neste tempo de medo e dúvida que a família se nucleariza e se fecha com temor das diásporas sociais. A mãe de hoje vê o parceiro não mais como alguém que chega da rua com certezas, verdades ou mentiras, mas um associado, alguém que com ela compartilha e se defronta no dia- a- dia com uma sociedade competitiva, quase nada solidária e sem muitas referências essenciais.
Às velhas mães ainda vivas, as que já se foram e as que estão no meio da tarefa braba de cuidar dos filhos e da vida, ficam o reconhecimento e estas lembranças catadas no passado, entremeadas com a vertigem do viver atual, tão imponderável quanto desafiador.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2005.

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TRISTEZA NO AR

Nos últimos dias tomei quatro voos diferentes. Como todos sabem, em cada voo há uma tripulação específica: comandante, co-piloto, comissário(a) chefe e comissários(as). Os aviões costumam ter, pelo menos, duas classes: executiva e econômica. Nos voos mais longos, pode haver uma primeira classe. O que distingue essa categorização é o maior tamanho da poltrona, uma tênue cortina que a separa dos demais e o serviço que inclui, nas classes primeira e executiva, bebidas alcoólicas e um cardápio que permite opções nas refeições. Essa tentativa didática, e talvez até dispensável, é para chamar a atenção do que está acontecendo, além do que já se sabe, com a aviação comercial brasileira.
A crise é bem mais profunda que a qualidade do assento e da alimentação servida e sobre ela já falaram tantos. Até agora, nenhuma solução foi encontrada. As dívidas aumentam, empresas fecham, outras devolvem aviões etc. Não tenho a solução para a crise, pois esse assunto se arrasta há anos e, parece, que políticos que voam muito, sempre acenam com prováveis saídas. Que venham.
O que me preocupou nestes últimos quatro voos foi a apatia, uma espécie velada de tristeza, das tripulações. Fazem o serviço seguindo o manual. Teoricamente são polidos, mas está faltando alegria no ato de trabalhar dos aeronautas. Cumprem a obrigação, mas sem amor. E o que digo não é obrigado a ser certo, mas tento errar o menos possível. Em um desses voos, procurei conversar com uma comissária e perguntei porque ela estava visivelmente triste. Foi o bastante para que uma torrente de afirmações saísse. Primeira queixa dela: estava trabalhando em escala apertada, em face das demissões na empresa para diminuir custos. Segunda queixa: não sabia até quando continuaria a trabalhar. Temia uma estafa ou receber o aviso prévio.
No mesmo instante pensei nos pilotos na cabine, aqueles a quem são entregues os sofisticados aviões de hoje em dia e no pessoal da manutenção em terra, a quem cumpre checar se tudo está certo antes da decolagem. Na história da aviação comercial há exemplos claros de erros humanos que causaram a morte de muita gente, mas essas falhas poderiam ser minimizadas se a tripulação estivesse trabalhando com a cabeça tranquila e descansada. Bem que o Departamento de Aviação Civil, sabedor de tudo isso, poderia olhar logo o lado humano da crise, antes da solução financeira, se é que vai haver.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/05/2005.

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VESTIBULAR – A PRIMEIRA MARATONA

A imagem que me ocorre no momento é a de que a vida é uma espécie de longa maratona. Você sabe como os atletas se preparam para uma maratona? Fazem exames médicos, usam roupas e sapatos adequados, estudam as regras da corrida, formam um pequeno grupo para treinar junto, contratam um treinador, passam anos e anos a acordar cedo aprendendo a correr.
A vida real, não a ideal, é mais ou menos assim. Sempre – e para tudo – é preciso ter boa saúde. Imagine que você consegue ser empregado(a) de uma farmácia. Além de passar o dia todo de pé, o que exige um bom preparo físico, ainda terá que interagir com clientes, decorar nomes de remédios, saber para quais doenças servem e entregar ficha com o seu nome na hora da venda. Se, ao final do mês, a quantidade de fichas e os valores dos remédios forem compatíveis com o que determina a gerência, você fica. Caso contrário, será despedido(a).
Sendo você mais ambicioso(a), não desejará ser apenas balconista. Digamos que deseje fazer um curso superior sério. Aí vai precisar estudar regularmente, escolher a profissão que mais se assemelha ao seu jeito de ser e tentar um vestibular. A dúvida na escolha da profissão é cruel, pois somos jovens e indecisos à hora de fazer um vestibular. Há tantas carreiras charmosas e a que escolhemos sempre nos parece a mais chata e a que exige maior dedicação. Não é verdade. Todas as carreiras exigem a tal da regularidade no estudo e perseverança. A perseverança é a coragem de ir em frente quando temos vontade de mandar tudo para as cucuias. É deixar de ir àquela festa ou praia e meter a cara nos livros, enquanto o irmãozinho fica nos azucrinando o juízo pedindo para consertar a sua velha bicicleta, que já foi nossa.
O vestibular é também um exercício de memória, a contraprestação do aprendido, sem esquecer dos outros maratonistas que estão ao nosso lado. Todos correm na mesma direção, para entrar na primeira experiência como quase adultos, que é o estudo superior. Ora, se é superior, certamente é porque nos exigem que sejamos acima da média. Se ficarmos na média, estaremos no limbo, que é aquele espaço entre o céu – ou a felicidade – e o inferno – ou a infelicidade. Ninguém deseja ficar no limbo. Para isso é preciso estudar, estudar sempre e com método. O vestibular é uma espécie de hall de entrada da vida, um vestíbulo, em que os espelhos das paredes refletem se estamos adequados para entrar.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/04/2005.

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SAINDO DA FOSSA

O tempo de cada pessoa passa, segundo a segundo. A consciência desse detalhe acaciano nos faz pensar em não gastar mal a nossa máquina de viver, o corpo, que se imagina também possa abrigar uma alma. Como o tempo pode nos oferecer, sem que se peça: rugas, gorduras, celulites, dor nas costas, olheiras, pressão alta, insônia, visão curta, torcicolos, cabelos ralos etc., vamos nos olhando nos espelhos e procurando respostas. A resposta é o próprio tempo. Essa ampulheta cruel que não para. Entretanto, muita gente acredita que há formas de ir enganando o tempo, como se fora um Mefistófeles, e imagina fazer plásticas, regimes que aparecem em revistas e se submeter a uma ditadura da estética que não tem referência padrão, mas que mexe com a cabeça de muitos. Ou ler autoajuda.
Um cara, sem profissão conhecida, resolve escrever um livro de medicina alternativa e vende milhares de exemplares. Mera e insossa colagem de publicações antigas de medicina natural. Mas os incautos compram e acreditam que, fazendo isso e aquilo, conseguem atrasar o seu relógio vital. Outros oferecem respostas prontinhas para o dia-a-dia em livros dito interessantes ou milagrosos que servem para dar conselhos, lições de vida, imaginam muitos. Cópias deslavadas. Apesar de tudo isso, de repente, caem na real vida e lá vem crise existencial. Um dia desses, por exemplo, uma pessoa amiga ligou e falou que a sua vida não valia mais nada, pois mesmo com plástica, regime, botox, alongamento, personal, acumputura, Reik, florais de Bach e uma vidente, o seu relacionamento havia ido para o brejo. Estava na fossa. Não concluiu. Caiu no choro e desligou.
Dei um tempo e liguei de volta. Vi que não adiantava repisar conselhos manjados. Não era simples fossa, parecia uma depressão pra valer. Imaginei que só resolveria com ajuda psiquiátrica. Foi daí que perguntei a tal pessoa: você tem plano de saúde tal? Ela falou que sim. Recomendei, então, o nome de um amigo psiquiatra. Maduro, fumante, ouve música, toma umas e outras nos fins de semana, escreve sempre e lê tanto que está quase cego, mas entende de farmacologia e da alma humana, vivido e sofrido que é.
Havia esquecido do fato. Após poucos meses eis que a pessoa me liga de volta, voz firme: “alegre e feliz com o que tem e o que é, sem essa de chorar o relacionamento que já estava falido mesmo” e diz que está “partindo para outra”. E ressalta que a ligação era para agradecer-me a indicação do nome do médico que a ajudou a “sair do buraco e recuperar a autoestima”. O que mais destacou: “não pagou nada”, bastou mostrar o cartão do plano de saúde e foi atendida com profissionalismo e descontração”. E pede para que eu faça uma crônica e diga o nome do médico que a atendeu. Não sei se ele vai gostar, mas o nome é Airton Monte. Pedido satisfeito.

João Soares Neto,
Escritor,
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2005

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VATICANO, WOJTYLA E VOTO

Corria o ano de 1965, era outubro, e eu estava em Roma. Primeira viagem à Europa e acontecia o Concílio Vaticano II. Ver como ele acontecia era um desejo curioso de um jovem adulto. Por sorte, havia um bispo amigo da família. Ele, literalmente, abriu as portas e passei sob as vistas da guarda suíça. Vi o alvoroço interno. Eram cardeais, bispos, padres e civis cuidando daquela reforma que marcaria o pontificado de Paulo VI. Depois, fui ao Colégio Pio Brasileiro e conversei com padres que faziam doutorado em teologia.
Vivia-se um tempo diferente. O mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e as posições ideológicas eram extremadas. Mas, a Igreja Católica Romana, analisava e montava suas novas estruturas teológica, pastoral, política e social, desde 1962. O Concílio, no meu olhar, trabalhava a partir da ideia de fé e fraternidade universal, considerando o domínio de novas técnicas, o progresso da ciência, as transformações psicológicas, morais e religiosas da humanidade e os muitos problemas pessoais, familiares e coletivos. Tudo isso, objetivando satisfazer as aspirações do gênero humano e tendo Jesus, como solução e resposta.
Depois de sentir o pulsar do Concílio Vaticano II, fui ver a Capela Sistina e os museus do Vaticano. Confesso ter ficado chocado com a riqueza, pompa e tradição. Ao mesmo tempo, lembrava das parcas coletas de esmola para as ditas Obras das Vocações Sacerdotais aqui no Brasil. Não tinha eu ainda a noção da Igreja como Estado e de que seu acervo de obras de arte se confunde com ela própria. Se tudo fosse vendido e repartido, a miséria do mundo não acabaria. A miséria é maior e mais profunda.
O tempo passou. Veio 1978, o ano dos três papas. A morte de Paulo VI; a escolha e infarto fatal, 35 dias após, de João Paulo 1º; e, a eleição de João Paulo 2º, ora sepultado. Wojtyla, eslavo, operário, ex-soldado, ex-ator, quebrou a centralidade italiana de 450 anos, foi um grande diplomata e midiático propagador da Igreja. Alguns teólogos, L. Boff entre eles, o intitulam de ultraconservador. No tempo do seu pontificado, participando ele ou não, foi que a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, a URSS se dividiu e a Comunidade Europeia surgiu. Neste 2005 ainda é cedo para julgar o pontificado de 26 anos desse polonês que misturava, é verdade, uma mão de ferro na gestão da Igreja ao carisma nas muitas viagens pelo mundo. Sabe-se que o Vaticano, lento em mudanças, costuma ser rápido, como regente de votos, em tempos de crise. E a morte, apesar da ressurreição sonhada e prometida, ainda é uma grande crise.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2005.

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“AMÉRICA” E A REALIDADE

A novela “América”, que não assisto ou vou assistir, mas sobre a qual ouço comentários e leio releases, notícias e sinopses, mostra e mostrará, entre rodeios, tapas, fugas e beijos, a crueza da luta de imigrantes ilegais brasileiros, via fronteira mexicana, para atingir os Estados Unidos, “fazer a América” e conseguir “ser gente”. Tudo por falta de oportunidade por aqui. Verdade e mentira. É verdade que milhares de brasileiros tentam, com risco de vida, fazer isso, desde sempre.
É mentira que o Brasil não seja um país de oportunidades. Os grandes problemas do Brasil são a desigualdade na distribuição de renda, na formação educacional ou cultural das pessoas. Os que conseguem estudar, de verdade, têm oportunidade por aqui. A regra vigente há tempos neste país, e consolidada neste início de século XXI, é a de que só os de ponta obterão acesso às riquezas. Não haverá mais lugar para os mais ou menos ou para os que, por falta de oportunidade, não tiveram boa ou nenhuma formação, sem falar nas exceções. Daí o êxodo. Ele é o retrato de todos nós, ricos ou pobres, malditos ou miseráveis.
Mas, estava eu no Palácio do Itamaraty, em Brasília, em julho de 2002, quando os presidentes Fernando Henrique e Vicente Fox assinaram o Acordo de Complementação Econômica entre o Brasil e o México. Por esse acordo, os dois países decidiram a redução ou a eliminação de tarifas de 800 bens ou produtos. Por coincidência ou não, bem perto de mim estava atento o empresário mexicano Carlos Slim, hoje um grande investidor no Brasil, dono, entre outras empresas, da antiga estatal Embratel. A tudo ouviam as embaixadoras do México no Brasil, Cecília Soto e a dos Estados Unidos, Donna Hrinak, hoje, casada com um brasileiro e atuando como consultora de investimentos. Em seguida, em conversa informal, falávamos que aquele instante estabelecia um novo marco na relação entre os dois países. Dito e feito.
Hoje o México é um dos grandes mercados brasileiros. Basta dizer que, de 1998 para 2004 as exportações brasileiras para lá cresceram 300%, com ênfase nos três últimos anos. Por outro lado, as exportações mexicanas para o Brasil deram um pulo. Só em 2004 cresceram 34% e isso é bom para brasileiros e mexicanos, mas em nenhum dos dois lados a desigualdade tem diminuído. E isso é ruim, também para os dois.
Estamos, Brasil e México, prestes a virar países ricos, desde que saibamos superar desafios nas relações internacionais. Podem crer. É questão de poucas décadas. Mas será, se acontecer, uma riqueza talvez sem alegria, pois ainda calcada na desigualdade, que esperávamos ver diminuída. É ela que dá origem ao sucesso de novelas como “América” que, além de levantar o problema, queira Deus não sirva de incentivo para os muitos que não têm vez e voz por aqui.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/04/2005.