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PÁSCOA: COMIDAS, BEBIDAS E REFLEXÕES

Já não há mais queimação ou malhação de Judas nos sítios arrumados com os longos testamentos e a algazarra dos meninos. Agora tudo é intramuros. São outros tempos. Tempos de insegurança. Os que podem trancam suas portas, das casas os lazeres, e vão de queijos e vinhos, peixes, ovos de páscoa e afins. Os outros, a maioria, ficam como já estavam a espera do que não sabem bem. Mas esperam. De que qualquer modo, hoje é domingo de Páscoa.
A festa da Páscoa, instituída pela Igreja Católica Romana no Primeiro Concílio de Nicéia, no ano 325 depois de Jesus Cristo, é uma festa móvel, para louvar a ressurreição de Cristo e sempre celebrada no domingo que segue a lua cheia da passagem do equinócio. O primeiro equinócio, pois há outro em fins de setembro. O equinócio é um fenômeno da natureza, em função da posição do Sol em relação à Terra, e é a época do ano, aqui no hemisfério sul ou abaixo do equador, em que o dia e a noite tem, cada um, exatas doze horas.
A religião, desde sempre, misturou ciência, fé e crenças populares. Daí acredito, marcar-se no Ceará o 19 de março, o dia do santo padroeiro, São José, bem próximo à passagem do Equinócio, quando pode haver a consolidação das chuvas ou a esperança de inverno. Se chove, haverá inverno. Por esta razão e outras mais, celebremos.
A Páscoa é, pois, uma celebração coletiva dos cristãos, maior que cada um de nós. Nesta festa anual dos cristãos, onde se comemora a ressurreição de Cristo – aquele que teve a vida pública menor que um mandato político e mudou a história – é preciso que se exalte o amor ao próximo, o bem querer e a louvação à vida. Neste tempo de páscoa ou passagem de uma vida a outra, é bom que cada um reflita sobre o seu caminho e busque respostas para as suas dúvidas. Ora, se a vida é passagem, Páscoa também é passagem. Logo, tudo é trânsito, o eterno é o que fica.
Como esta crônica está parecendo pregação de pastor, deixo claro que os tempos de alegria, e a Páscoa é um deles, devem ser momentos para regozijo coletivo ou de avaliações e ajustes pessoais, com a fé ou com os nossos botões.
É bom que neste domingo de Páscoa, em que muitos se dão conta de que usaram apenas os feriados para libação a Baco ou investidas pantagruélicas ou, em português nosso de cada dia, beber e comer muito, ainda haja tempo para refletir sobre a nossa passagem por aqui, tão mais breve que imaginamos, mas tão mais longa que sobra tempo para uma parada essencial em nós mesmos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2005.

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AS TINTAS COLORIDAS DO ESCRITOR

Juarez Leitão surgiu na ´turma dos sábados´, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do sério entre falações e Baco, pelas mãos de Dorian Sampaio, se não me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de ´causos´, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Daí que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intuía. Desta salada saiu o livro ´Sábado, Estação de Viver´, memória, estória e história.
O Juarez poeta passava a perder espaço para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espaço da ´turma dos sábados´ foi apenas o mote para a desenvoltura artística de Juarez.
Além de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas páginas do livro. Era como se estivesse dizendo: ´a vida tem todos os matizes com os quais o vejo´. E assim, foi entremeando estórias da turma, com estórias de domínio público e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho.
Surgia, naquele fim de década de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra estação do título poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudança.
Sábado, Estação de Viver´, em nada se assemelha a outras duas estações que conheço, também cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Próxima Estação) de Teoberto Landim ou ao célebre ´Rumo à Estação Finlândia´, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, crítico literário, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo.
Juarez se permite, e o faz com maestria, a não seguir com organicidade o manual acadêmico de escrever, não vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre.
Escreve como contador de histórias, sem preocupações filosóficas, como se estivesse – e realmente estava – em uma tarde de sábado olhando para um caís e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um é o desassossego da vida e do mar. Assim é o livro, tem remansos, mas é prenhe de ondas em que quase todos são jogados como o vai e vem das marés. Escapam todos na celebração.
A partir de ´Sábado, Estação de Viver´, o trem literário e existencial de Juarez Leitão toma novo rumo, não o das indagações profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de ´A Próxima Estação´, de Teoberto Landim. E esse novo rumo é misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. É o exagero do contador de causos também por trás da vida e do pincel. Some-se a isso sutilezas e não sutilezas que vão sendo expostas nas estórias relatadas como se achasse o contador de pernas estiradas, chapéu de palha na cabeça, camisa estampada, ventre protuso, copo à mão, e um grupo de amigos ruidosos, curiosos e atentos à escuta.

João Soares Neto
Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2005.

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MULHER TEM DIA?

Não concordo que 8 de março seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens.
Não vou cair no exagero de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, estão ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos.
Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção.
Mulheres e homens precisam muito descobrir porque as suas diferenças básicas não podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas aceitas.
Neste tempo de hoje em que quase todos estamos, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de nossas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Porque ele não tem o mesmo nível de paciência dela. Porque ela se apega a detalhes que não ele não vê. Porque ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta de cremes, colônias e perfumes. Porque ainda não descobrimos uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em nossas vidas tão diferentes, mas complementares.
Porque não vemos os filhos com olhos similares e os criamos divididos com as nossas formas diferentes de amor. Porque nos apropriamos de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazemos disso um grande problema. Por que traímos, não o amor, mas o que não aceitamos na outra pessoa, tão frágil quanto nós.
Porque discutimos sem o uso da razão e deixamos que tudo vá mais longe que o necessário, porque não aprendemos a pedir desculpas e não cultivamos o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil e pesada. Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que queríamos. Por que?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2005.

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HOLLYWOOD E A ESTÉTICA DA MISÉRIA

Hoje é noite de Oscar em Hollywood. Não tem nenhum filme brasileiro (Diários de Motocicleta é falado em espanhol e é uma coprodução de vários países) na disputa e, se tivesse, certamente não ganharia. Quais as razões? Não sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que realçam a tal estética da miséria ou contar, em parceria, por exemplo, a história do jovem Che Guevara (Diários de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no critério hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi.
Não adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Aliás, sonhar é bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos é diferente do nosso. Eles não veem estética na nossa exposição de miséria. As nossas fraturas sociais não dizem respeito à traumatologia cinematográfica da era Bush.
A festa da noite de hoje é, quer nós queiramos ou não, a festa da futilidade, exibição, filmes coloridos com histórias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engraçado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. É o cinema quase inconsequente ou glamouroso. Lá o fórum é outro. É alienado, desengonçado e segue a estética das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os “flashes’ e olhando para as câmeras. As críticas, quando as há, são em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. É querer muito. Se é tempo de guerra no Iraque, miséria na África, “tsunami” na Ásia e guerrilhas na América Latina, os membros do júri do Oscar não querem ver, saber ou discutir disso.
E parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam sendo admirados por aqui. O filme “Hitch” (Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma comédia sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador não precisa pensar, foi visto por mais de 262 mil brasileiros no último fim de semana. O “Aviador”(Scorsese e De Caprio) que é um pouco, só um pouco, letrado, pois conta a história, fragmentada, de uma das muitas versões de Howard Hughes, empreendedor rico, cínico e visionário que enveredou pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco, foi visto por 121 mil. E olha que não estou falando dos filmes “Menina de Ouro”, de Eastwood com Hillary Swank (a moça lutadora de Box) e “Sideways”, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depressões) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros estão cansados ou cansando do uso da miséria para os mais diversos fins.
Quem sabe se mandarmos no próximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Aragão não teremos mais chances de indicações?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2005.

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PAIS, IGNORÂNCIA E APRENDIZADO

Quando minhas filhas foram nascendo, procurei em livrarias do Rio e de São Paulo algo que me desse subsídio para entender de crianças. Não havia nada, exceto “O Livro do Bebê”, do dr. Delamare e chatos livretos de fundamentação religiosa. Fiquei meio perdido. Já havia feito cursos disso e daquilo, aqui e no exterior, mas não tinha aprendido nada sobre a difícil tarefa de ser pai. Falava com pais mais velhos e não recebia muita luz. “Cada filho é um filho”, “palmada só se perde a que não dói” e outros que tais. Resolvi pensar sobre o assunto. Lembrei da minha infância, éramos nove irmãos, compartilhando quartos, banheiros, toalhas, sabonetes, fardas que passavam dos mais velhos aos mais jovens e os livros escolares encadernados com papel madeira para durar dois ou mais anos.
Depois de um tempo matutando, inventei dois personagens, Rosinha e Paulinho. Os dois seriam um pouco mais velhos que minhas filhas e não estudariam no mesmo colégio, pois assim poderia ser descoberto o mistério. Rosinha seria um bom exemplo de estudante, sempre uma das primeiras da turma, alegre, comunicativa, compreensiva e não se deixaria abater quando o Paulinho brigasse com ela ou não quisesse dividir a merenda etc.
Deu certo. Quando algo acontecia fora do “script” familiar, eu me valia da Rosinha e do Paulinho. Eles tomavam banho quando voltavam da escola, não deixavam roupa molhada sobre a cama, faziam o dever de casa, dividiam as coisas, moravam no mesmo quarto e brincavam muito. Paulinho e Rosinha “existiram” até minhas filhas ficarem adolescentes. Nessa época, falei para elas da minha “invenção” como um recurso para lhes passar mensagens, ensinamentos, especialmente sobre o compartilhar, amizade etc. As minhas filhas riram muito, pois nunca “encontravam” a Rosinha e o Paulinho, a quem elas tanto queriam conhecer, especialmente quando passeávamos de carro ou íamos à praia. Sempre eu dava um jeito: eles acabavam de sair, estavam viajando etc.
Recentemente, uma filha, já casada, disse-me que tinha “ressuscitado” a Rosinha e o Paulinho. Estava falando com sua filha – e minha neta – sobre o bom comportamento da Rosinha e do Paulinho, especialmente sobre cuidados com livros, a atitude de compartilhar, aceitar as diferenças e ouvir. Agora, havia chegado a minha hora de rir.
Hoje, com tantos livros de autoajuda, Internet, reuniões de pais e mestres, talvez não seja mais necessário inventar personagens, mas alegra olhar para o passado e lembrar que vivências podem decorrer da mera imaginação e interação dos pais com os filhos. Procurando não ser caretas, mas realçando exemplos, respeitando o próximo e gerando união através de pequenos gestos, como o que faziam, entre outras coisas, as minhas filhas que passavam o ano poupando e guardando presentes para distribuir, pessoal e anonimamente, no Natal. Coisa que só vim a saber tempos depois.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2005

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NÉLIDA PIÑON: DUAS PALAVRAS

Na semana que passou, a escritora Nélida Pinõn visitou a Academia Fortalezense de Letras. Coube a mim a tarefa de saudá-la e ´dizer duas palavras´. As duas palavras seriam: Nélida Pinõn. Bastaria isso. Procurei, todavia, fazer apenas algumas rápidas observações sobre essa ilustre visitante. Ei-las: Nélida é um nome novo que com ela nasceu e que veio a existir pela criatividade de seu pai, Lino. Nélida é uma anagrama de Daniel, seu avô materno. Piñon significa um pinhão ou descanso de gatilho. Pinhão é uma engrenagem que se mexe, movimenta e gira. Nélida tem sido essa engrenagem na literatura brasileira. Professora de Criação Literária na UFRJ, romancista e contista, saiu de Vila Isabel, no Rio, e foi para a Galícia de seus pais dos 10 aos 12 anos. Voltou e aqui sedimentou a sua formação. A partir daí virou cidadã letrada do mundo, descansando o seu gatilho ou mexendo as suas engrenagens do saber na City University of New York, Columbia University, Miami University, John Hopkins University, Universidad Católica de Lima e na Universidad Complutense de Madrid.
Suas engrenagens literárias continuaram a girar. Dessa vez em direção aos dicionários e à imortalidade.Pois foi ela, em 1990, a sucessora de ninguém menos que Aurélio Buarque de Holanda na Academia Brasileira de Letras e, em 1996, substituiu a Antônio Houaiss na Presidência da ABL. Era a primeira mulher – e única até hoje – a ser presidente da Academia Brasileira de Letras. Uma mulher de letras, cercada por muitos fardões, guardada ou guardando Aurélio e o Houaiss, os filólogos e os dicionários.
A obra de Nélida é vasta. Não cabe analisá-la neste arremedo de apresentação. Mas recomendaria, entre tantos romances e contos, pelo menos um breve conto: I love my husband. Nesse conto, Nélida vai quase nocauteando o leitor, mas o deixa consciente para a reflexão sobre o viver a dois nesta terra brasilis, ainda tão machista.
A nossa ilustre convidada é mulher de muita premiação. Em 1995, entre outros, ganhou o Prêmio Internacional de Literatura Juan Rulfo, da Universidad de Guadalajara, no México. Antes, já havia ganhado os prêmios nacionais Walmap, Mário de Andrade, Pen Clube, Bienal Nestlé, Golfinho de Ouro e outros.
Em seus romances (Guia-mapa de Miguel Arcanjo, Madeira feita cruz, Fundador, A Casa da Paixão, Tebas do meu coração, A República dos sonhos, A doce canção de Caetana, Vozes do Deserto etc) e contos ( Tempos das frutas, Sala de armas, O calor das coisas etc), Nélida deixa flagrante a sua rara habilidade em tratar dos mistérios, dilemas e angústias do fazer literário, e isso parece incomodar aos que não sabem que a glória de quem escreve é ser bem lido por seu povo, tornando-o mais reflexivo e consciente das dores e amores do mundo. Nélida faz isso e os seus leitores sabem disso há mais de quarenta anos. Fique bem-vinda, sempre.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2005

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O CELIBATO E A IGREJA

Há uma antologia feita por William J. Bennett que se chama “O Livro das Virtudes -O tesouro das grandes histórias morais”. O livro foi traduzido e adaptado para o Português por Luiz Raul Machado e publicado pela Editora Nova Fronteira.
Esse livro enumera uma lista de virtudes que não são as únicas necessárias a um ser humano, mas básicas ou fundamentais. É claro que toda preferência implica em uma supressão. Mas, o que gostaria de levantar é que entre essas virtudes citadas não há o celibato. Neste começo de Século XXI, o celibato ainda é uma das mais fortes decisões dogmáticas, políticas ou estratégicas da Igreja Católica Apostólica Romana, remontando a sua consolidação ao Século XVI, no Concílio de Trento.
Voltemos às virtudes citadas por Bennett. São elas: Disciplina, Compaixão, Responsabilidade, Amizade, Trabalho, Coragem, Perseverança, Honestidade, Lealdade e Fé. São 10 as virtudes. Iguais aos mandamentos da Igreja, mas não há nenhuma referência a celibato e olha que o livro trata das qualidades essenciais à formação ética das pessoas.
Falemos um pouco de celibato. A Enciclopédia Larousse e o Aurélio dizem que “celibato é estado de celibatário, condição de solteiro” ou “o estado de uma pessoa que se mantém solteira”. De uma forma ou de outra, deduz-se que é uma opção pessoal. No caso da Igreja, deixa de ser uma opção para ser um ato de disciplina, responsabilidade, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé. Em outras palavras, na visão estrita da Igreja, o celibato precisa de várias outras virtudes, mas não é, em si, uma virtude.
Tudo isso me vem à mente por várias razões. Uma delas: na minha adolescência quis ser padre, mas já achava antinatural que se considerasse pecado até uma simples polução (polução mesmo) noturna de um jovem com hormônios à flor da pele. Havia ainda o voto de castidade eterna que estava implícito no celibato. Era demais para mim.
Essa questão vem, tempos em tempos, à tona. Nesta semana, a revista Veja (edição de 12.01.2005), na sua página 86, sob o título Anunciado, traz a seguinte matéria: “acordo da Igreja Católica da Califórnia com 87 vítimas de abusos sexuais praticados por membros da diocese local contra menores nas últimas seis décadas. Serão pagos 100 milhões de dólares em indenizações. Em 2003, a diocese de Boston pagou 85 milhões em acordo semelhante. Calcula-se que o total de indenização no gênero nos Estados Unidos possa atingir 01 bilhão de dólares”.
A minha pergunta – e de tantos outros – volta com mais intensidade: qual a razão dos padres serem celibatários, se a natureza e a fisiologia humanas indicam o contrário? Por qual motivo, a Igreja Católica ainda insiste em não enxergar o mal que faz a homens de fé, virtude, honestidade e outras virtudes, mas que sentem, mais fortes que suas vontades, o desejo de se acasalar? Não encontrando o apoio de sua igreja, muitos apelam, entre outras soluções, para o homossexualismo e causam constrangimento a tantas pessoas que veem com tristeza a cegueira de Roma que já dura cinco séculos. Até quando?
João Soares Neto,Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2005.

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MÉXICO, TÃO DIFERENTE E TÃO IGUAL

O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres, México, 1994, Guantanamera, cubano, 1995, e o nosso Central do Brasil, 1997, que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez, pouco a pouco, ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida. No ano 2000, o Embaixador mexicano no Brasil, Jorge Eduardo Navarette, veio a Fortaleza dar uma palestra. Eu estava lá. Após a palestra, batemos um papo acidental e essa conversa foi puxando outra e mais outra. Depois de algum tempo, me vi Cônsul Honorário do México no Ceará. Só então o Embaixador Navarette me contou que essa escolha teve que ser aprovada até no Senado mexicano. Levei um susto e tomei posse em meio a uma festa com comidas típicas, requintada exposição sobre a arte e a cultura mexicanas e um recital de música erudita. Mas isso é outra história.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem cearense que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim.
Posso citar alguns exemplos de pessoas que fui conhecendo: a Ministra Alejandra Garcia; a embaixadora Cecília Soto, que sucedeu a Jorge Navarette; e o então chanceler Jorge Castañeda. Depois, conheci o violoncelista Carlos Prieto; o Cônsul-Geral Jorge Sánchez, o Presidente Vicente Fox e o Secretário-Adido Cultural Felipe Ehrenberg, além de outros.
Qualquer pessoa das citadas poderia ser objeto de uma crônica. O Embaixador Jorge Navarette e a Ministra Alejandra Garcia são diplomatas de carreira, viajados, amantes da gastronomia, música clássica e conhecedores da cultura mexicana. Cecília Soto, atual embaixadora no Brasil, é jornalista consagrada, ex-candidata a Presidente da República, aguçado gosto literário, além de ser uma mulher cativante, sagaz e leve. O violoncelista Carlos Prieto é possuidor de um dos mais raros violoncelos Stradivarius do mundo, concertista internacional dos mais requisitados nas grandes salas européias e americanas e nos honrou com um concerto no Auditório da Unifor. Jorge Castañeda é um social-democrata moderno, professor universitário nos Estados Unidos e profundo conhecedor de política internacional. Jorge Sañchez, Cônsul-Geral no Rio de Janeiro, é um inveterado cineasta e um exímio contador de histórias. O Presidente Vicente Fox é um pragmático homem de empresa, forte e decidido, conhecedor de todos os meandros das Américas e que conseguiu se eleger derrubando uma oligarquia política de mais de 70 anos.
Com todo esse time de figuras notáveis, deixei para falar por último de Felipe Ehrenberg. Por qual razão? Primeiro, é preciso dizer quem é Felipe. Felipe não é diplomata de carreira. Foi convidado, por sua história profissional, a ser Adido Cultural no Brasil pelo Presidente Fox e já decidiu que vai morar o resto de sua vida por aqui. É um artista plástico provado e aprovado não só no México, como em muitos países. Sessentão, fartos bigodes, fala grave e uma mão tatuada, vai mostrando em sua conversa descontraída a profunda e versátil cultura que possui. Depois, porque Felipe teve uma imediata identificação com o Ceará, a ponto de termos, ele e eu, redigido a Carta de Fortaleza, documento síntese das decisões de fórum internacional reunindo embaixadores, cônsules e adidos culturais de 27 países, realizado aqui no Centro Dragão do Mar pelo Governo do Estado do Ceará, e ter provocado a escolha de Fortaleza como cidade estrangeira convidada para a Feira Internacional do Livro na Cidade do México, em outubro de 2004.
É bem verdade que o município de Fortaleza não se fez e se fez presente. Explico: a Secretaria da Cultura do Ceará pegou o pião na unha e vez às vezes de Fortaleza, levando uma comitiva ao México que tinha de tudo, desde o sanfoneiro Waldonys e sua banda, a escritores, pintor, cordelista, editor, jornalista, montador de estante e pessoal de apoio. Pois esse Felipe, depois de estabelecer contatos com José Angel Leyva, Secretário de Cultura do Governo da Cidade do México, Mário Gutiérrez, do projeto Arte por toda a parte, e o Secretário de Cultura de Guadalajara, Santiago Baeza, os fez conhecer Fortaleza- por ocasião da última Bienal do Livro – para ganhar apoio e reforçar a nossa escolha como cidade convidada. No final, deu tudo certo.
Lá no México, Felipe só manteve contato conosco na abertura solene da Feira, quando a Secretaria da Cultura Cláudia Leitão falou em nome de Fortaleza. Depois, Felipe desapareceu e nos deixou livres e soltos em pleno outono mexicano em meio a tendas brancas no Zócalo, no centro da cidade, cercados de gente, livros e artes por todos os lados, mas com o apoio integral do Governo da Cidade do México e a plena assistência de José Angel Leyva e Mário Gutiérrez, devidamente acolitados por Karla Flores. Felipe é assim. O México é assim.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2005.

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2004 MAIS UM OU 2005

Estes últimos feriados e domingos são dias reservados à preguiça, festas e Baco, mas bem que poderiam servir também para analisar o que fizemos de errado. O certo não precisa ser remexido, deve ser incorporado ao nosso modo de viver. O que deve ser mexido e remexido são os nossos erros, especialmente aqueles que repetimos ano após ano.
Se não fizermos isso, este ano vai ser mais um, igual ao que terminou anteontem. Vamos repetir o 2004 e ficar reclamando do Presidente da República, do governo do Estado, da prefeitura, dos deputados e vereadores, do nosso trabalho, da família, da imprensa, dos impostos, da falta de sorte, do sol, da lua e de nós mesmos.
Uma palavra que está na moda, embora velha, é atitude. A atitude se refere ao modo como procedemos e aos nossos propósitos de modificar atos que nós mesmos identificamos como incorretos, errados, deselegantes, dissimulados, falsos, mesquinhos etc. Aproveite que está sem ter muito o que fazer e liste as dez coisas que você faz e sempre lhe causam problemas, quer por sua natureza ou por causar prejuízos, vexames, tristeza ou medo. Este exercício pode ser uma prova de maturidade e o começo real de um novo ano. A propósito, novo é novidade, é o que é feito pela primeira vez, o que é atual ou original.
Sem querer dar conselho, pois tudo já é sabido ou óbvio, vou pensando por escrito, mesmo que fora de ordem. Eu imagino que o novo é procurar fazer sempre algo de bom e produtivo. É trabalhar procurando inovar e ter propósito definido. É respeitar os seus próprios limites. É pensar antes de dizer o que, em seguida, pode causar arrependimento. É amar sem medo e deixar-se amar sem peias. É tentar não ser vulgar e admitir que calar, na maioria das vezes, é bem melhor que falar. É tentar ouvir mais. É não contrair dívida sem saber se vai poder pagar. É não pedir e nem dar aval. É procurar falar a verdade, mas sem ser dono dela. É buscar aprender sempre. E se aprende na prática, com um bom livro ou ouvindo quem sabe. É admitir que sempre é possível poupar. E poupança dá segurança.
É relaxar quando o corpo dá sinais de alerta. É andar, correr ou mexer-se, seja de que forma for. É fazer exames médicos. É cultivar os amigos com suas manias e caturrices, mas também é ser leal e dizer quando algo não lhe agrada. É procurar agendar sua vida e compromissos, mas não se escravizar. É ter paciência, especialmente com crianças e os mais velhos. É não deixar de ter fé e acreditar, sem ser bobo ou piegas. É tentar ir resolvendo as coisas tão logo elas aconteçam para não deixar pendências. É não se escorar nos outros esperando solução.
Se não tivermos com uma cabeça nova, arejada, aberta, logo neste princípio de janeiro, podemos correr o risco de pagar pelo velho e o novo. Feliz 2005 e não um mero 2004 mais um.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/01/2005.

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BALANÇO DO ANO – Diário do Nordeste

As pessoas que têm sentimento reconhecem suas faltas e enfrentam as consequências, sabem que todo tempo é época de balanço, não o de haveres e deveres materiais, mas os que, como refletia Einstein, acreditam que existam duas maneiras de ver a vida. Uma, é pensar que não há milagres e a outra é que tudo é um milagre. Sendo relativo, eu diria que a vida é um milagre sublime, mas cada pessoa tem que fazer sua parte, sair da superfície e descer ao seu eu profundo e descobrir-se.
A vaidade, muitas vezes, faz muita gente inchar o peito e admitir que tenha a melhor cabeça, a companhia mais interessante, a casa mais bonita, a família mais perfeita, a vida mais justa, a resposta mais pronta e a saúde inabalável. E aí eu me lembro do que disse, certa vez, Carl Sagan : “diante da vastidão do espaço e da imensidade do tempo, é uma alegria para mim, partilhar uma época com você”. É bom compartilhar alegrias na simplicidade do existir e acreditar na permanência do efêmero, na aceleração que é a vida, esse tempo que nos arranca do ventre materno e nos põe no mundo para o que der e vier.
E estou diante de uma taça de vinho. Olho a sua cor vermelha e lembro que alguém já disse que o vinho é poesia líquida. Então, sorvo poesia. E, de olhos fechados, vejo que viver é como estar na moda. Um dia, saímos de moda e viramos o estilo que fizemos ao longo do tempo que nos é destinado aqui na terra. E cada um vai, dia a dia, fazendo o seu estilo, deixando sua marca, costurando a sua boa ou má fama. E temos que ser pastores dos nossos momentos e descobrir que os possíveis gracejos dos que não nos conhecem a fundo são ultrajes e que o riso deles talvez seja uma forma inconsciente de admiração e inveja.
E ainda não falei do ano que está a sair de moda, virar estilo, pois se consolidará, em nível pessoal, o que assentamos e colhemos. E no mundo, o que aconteceu, mereceu registro e ficará para julgamento. Cada homem é a sua moda. Seu estilo é a sua alma, mesmo que, por ser invisível, não seja reconhecida de pronto. As almas não têm fim. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/12/2006.