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NOVO ANO – Jornal O Estado

Estou de paquera com o novo ano. Alguém já andou falando que paquera é química interativa. Linguagem jovem, mas sou um incorrigível acreditador e não tenho medo do ano novo, pois os dias são novidade para mim, eu que levanto nas manhãs pela graça de algo superior, porquanto o sono é a eternidade, até que se acorda.
Estou de amor novo com minha casa. Nada mudou, o meu olhar é que está mudando e posso sentir no que faço e penso, outro sentir. E quero elogiar o ano que termina hoje. Ele foi o passaporte que nos deu visto de entrada neste portal novo, onde as estruturas são os nossos atos, suportando o que pesa sobre nós.
Estou de paquera com o meu corpo, não de forma narcísea, mas por aceita-lo tal como é, bendize-lo pelos prazeres que me concedeu, pela locomoção permitida e a capacidade de fazer ainda o que sempre me enlevou.
Estou amando os meus novos pensamentos, sem esquecer dos velhos, esses que se transformaram em conhecimento e me fizeram chegar até aqui, escrever estas linhas e alegre por dizer o que digo, na forma que digo e sinto.
Estou em paz com a minha alma, ela que me cobra e sanciona os meus desregramentos. Ela que me conduz pelas picadas das noites, entre lençóis ou com os olhos varando livros. Estou pensando que esta alma que não tem forma é que dá a forma do meu pensar, deixando de lado o que não vale a pena e tentando descobrir o que me regozija. E estou fazendo a minha estrada, não é essa Br toda, mas é uma vicinal conhecida, tem sombras e remanso para matar a sede. E de pé no acelerador da vida vou fazendo o meu “punta taco”, acelerando e freando, pois o caminho tem curvas a vencer.
Estou de amor novo com a esperança, pois sei das tristezas que passei e as fui levando, passo a passo, para o poço do Paço, pois não há palácio que não tenha um poço. E deixei por lá os meus desenganos e estou na minha estrada, do jeito que sei guiar, sem jogar nada pela janela, olhando para o horizonte real ou imaginário, eu que misturo o fato com o sonho. Mas estou pronto para o que der e vier, faltam poucas horas e quando o sol brilhar novamente há de ser a aurora do novo ano. E se houver chuva, nem assim o ano deixará de vir, pois a água fecundará o que estava seco e fará brotar a sensibilidade que tenho guardado escondida e que de tanto ter ficado amordaçada pede para respirar. E eu deixarei que respire no ano que está vindo. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/12/2006

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AMOR OU BENQUERENÇA – Diário do Nordeste

E como não fujo à regra geral, tento fazer uma lista de lembranças neste Natal. Penso na família, amores e amigos. Arrisco imaginar o que cada pessoa gostaria de receber, mas sou traído por desejos de que cada uma recebesse um livro. Não seria um livro impresso, porém especial e único para cada um. Nesse livro, manuscrito, eu falaria das emoções em comum, de amor ou benquerença, pediria desculpas por faltas cometidas, por ansiar que muitos vivam e reajam da forma como eu penso que faço.
Diria que sinto falta delas, das que vejo sempre ou quase nunca e seria bom a nossa linguagem ter identidade comum, sem mal-entendidos, coberta de leveza, alegria e bem-aventurança. Pediria desculpas por minhas irreverências, erros, peripécias e desditas. Poderia até acontecer lágrima umedecendo página como prova dos pedidos recíprocos de perdão. E tentaria apagar gestos duros e atitudes fátuas. Verdade.
E se tudo o que escrevesse nesses livros ecoasse nos sentimentos de cada pessoa, eu ficaria alegre como menino em entrada de circo e daria cambalhotas de felicidade, mesmo tendo que passar linimento no corpo dorido no dia seguinte. Mas, a par das dores físicas, este corpo ficaria mais ereto e conteria brilho permanente nos olhos que já viram tanto e enxergaram pouco. Olhos desviados de rotas, mas que voltaram a ver a luminosidade do sol, as nuances do claro e escuro, a segurança tranquila de um abat-jour que focava certo quando o corpo pedia repouso e se resguardava por trás de outros livros.
E assim, por não ter sabido escrever cada um desses livros, mesmo que poucas páginas tivessem, eu me quedo triste pela incapacidade de me fazer entendido, de expandir este coração que ama mas tem medo de dizê-lo com alma e cara lavadas, peito arfante e riso encabulado de felicidade. E sou levado a caminhar nas alamedas das lembranças vãs, as que não levam impresso os meus sentimentos que, de forma marota ou infantil, se fecham quando deveriam dizer, simplesmente: estou aqui e estou com você. Feliz Natal.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/12/2006.

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ESTORINHA DE NATAL PARA CRIANÇAS – Jornal O Estado

(especial para Luana, Amanda, Ângela, Bianca e Nícolas)
Em uma cidade qualquer deste mundão em que vivemos, era uma vez uma família de gente muito bonita, que morava em casa agradável e que ficava mais simpática quando o ano ia terminando. Todas as crianças ficavam de férias e se preparavam para a festa de Natal. E em uma dessas festas de Natal usaram as suas melhores roupas, prepararam comidas e ficaram perto da Árvore, montada por todos, para bater fotos. Ao pé dessa árvore, que era feita de galhos secos e tinha enfeites de muitas cores, havia um pequeno berço de madeira, parecendo um escoador de água de pratos, com uma imagem do Menino Jesus, um desses de louça, que lembraram de colocar em meio aos presentes.
Nessa árvore nada era vermelho, não havia a figura de Papai Noel, pois escolherem homenagear uma criança que, segundo a História e a tradição, nasceu judia, na cidade de Belém, lá no Oriente Médio, quando os romanos dominavam grande parte da Terra e viveu por 33 anos, quando foi crucificado e morto por sua fé em um Deus que não dizia as palavras do mesmo jeito como imaginavam os outros judeus de seu tempo.
Voltando à estorinha: uma noite, já perto desse Natal, uma menina da família, perdeu o sono, contou carneirinhos, mas não conseguiu dormir. Levantou-se, saiu do quarto e de camisola velha e amarrotada foi ficar perto da árvore lá na sala. Deitou-se. E consta que ela ouviu uma voz na noite alta. Teria sido o Menino Jesus.
Ele teria dito:
– Você é bela.
E ela teria respondido:
– Como, se estou com roupa velha e amassada, cabelos despenteados?
E ele teria falado:
– A beleza que falo é a interior. As coisas do espírito, o que você faz pelos outros, sem aparecer. Seja sempre assim.
E dizem que a menina adormeceu ali mesmo ao pé da Árvore e quando sua mãe acordou na manhã de sol ela ainda estava dormindo e sorria com um raio de luz sobre sua face e havia uma foto ao chão. A mãe olhou a foto: nela, um menino pequeno dava as mãos a todos os outros que ainda dormiam, se isso era possível. E nessa foto, o bercinho estava vazio. De repente, a foto caiu de sua mão e se transformou em um pequeno pássaro que voou em direção à luz do sol, enquanto a menina abria os olhos e se espreguiçava dengosa.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/12/2006.

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SAUDADES – Diário do Nordeste

O Natal vai ficando próximo e lembro dos que estão longe dos olhos, se perderam no insondável, mas se quedam firmes nos escaninhos da lembrança, lá onde não sai quem se retira de cena, pois as marcações gravadas nas saudades teimam em não se afastar. Assim é que percorro o labirinto do meu tempo vivido e vou pinçando os que se foram e não voltam na dimensão em que nos encontramos. Cada um do seu jeito peculiar, na amizade resolvida ou questionada, no folguedo ou na expiação, em longos tempos ou breves vidas em comum, mas ainda sinto-os de formas distintas, como se existissem diálogos inimagináveis em que conseguimos rir de nossas lambanças, andanças, festanças ou desesperanças.
Se bem me lembro, o primeiro foi Francisco Parente de Vasconcelos que, ainda universitário, se fez éter lá no Rio de Janeiro. Depois, vieram chamar o Marcelo Duque, camarada de colégio, amigo de embuanças que se tornou diverso de todos e se foi. Geraldo Deusdarah, colega de direito, viajou em seguida por conta de seu coração sofrido. O comandante Edson Queiroz, tão forte quanto o monólito que o tragou, espaçou-se, refundindo-se de forma gaseificada e como água pura, jorra no eterno. E o jeito direto, instigante, atento e arguto do Alcimor Rocha deixou saudade.
E que peça nos pregou o Rogaciano Leite, poeta-amante, isolando-se para sentir-se pronto, aquietado, quem sabe, e definitivo. Raul Fontenele ainda nos fixa com a imaginária brilhantina, camisa bem passada e o vejo impresso e impermeável. E aí o riso, galhofa e sentimentalidade do Tancredo Carvalho ocupam o vazio da mesa onde não mais nos reunimos, pois dispersos ficamos. Como discutir mais com o Régis Jucá ou ouvir o seu jeito didático de falar sobre as coisas do coração, órgão e sentimento?
E é nesse estado meio entre o não entender mistérios e o resgate da parca memória que me sinto agora e procuro, não com lágrimas mas com emoção, as nuances sutis de cada relação com esses amigos homens, sem esquecer – e como poderia – a mulher amiga, Natércia Campos, que irmã se tornou pelo olhar comum e bem querer que enlevava e nos tornou cúmplices eternos.
E nestes dias de Natal, quando as perdas dos amigos pesam e me tornam roto, relembro, com saudade profunda, além dos que enumerei com afeto, a figura do meu pai, simples e destemido, capaz e independente, inteligente e perspicaz, cioso de suas crias, levado que foi ao fechar o portão de sua casa, como se simbolizasse, nesse último ato, a abrupta saída de cena, tão gente que me perco em saúda-lo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/12/2006

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FUTEBOL E REALIDADE – Jornal O Estado

Nós, brasileiros, com esse jeito que Deus nos deu, temos a certeza de que produzimos os melhores jogadores de futebol do mundo. Igualmente, temos a falsa ideia de que a nossa seleção de futebol é a melhor. Uma coisa não implica na outra. Uma seleção ou clube de futebol precisa de um histórico de administrações eficazes, formar jogadores, ter estruturas dinâmicas e flexíveis à realidade que, a cada ano, vai sendo modificada. Ou nos ajustamos às mudanças ou o nosso trabalho, qualquer que seja ele, passará a ser ignorado e só dele falarão, quando falarem, das nossas desditas. Estaremos de mudança para o passado. Isso também vale para o futebol.
Venho pensando que é preciso mudar a estrutura do futebol brasileiro, da cúpula aos clubes da terceira divisão. Caso isso não aconteça, as coisas vão ficar como estão: clubes falidos, dirigentes brigando com torcidas, entrevistas pífias, a televisão ditando horários e determinando cachês diferenciados, alguns técnicos e jogadores mercenários sem identidade etc.
Os grandes clubes europeus são estruturas de geração de renda de todas as naturezas, têm até títulos na bolsa de valores e seus patrimônios valem bilhões. Precisaríamos apenas olhar o que está acontecendo por lá. Não necessitaria ir muito longe, bastaria ver o que se faz em Portugal. Seria demais pedir dessem um pulo na Espanha e na Inglaterra.
O Flamengo e o Corinthians, maiores e mais populares clubes brasileiros, por exemplo, são um poço de problemas e as receitas do televisionamento, campeonatos e torneios de que participam, não dão para cobrir sequer as dívidas com a previdência, salários atrasados e as questões trabalhistas oriundas de contratos capengas, juridicamente.
Em janeiro, teremos novas administrações estaduais no Brasil e o governo federal acena com mudanças de rumo. O futebol pode ser um diferencial competitivo para o Brasil, não só pela imagem que gera, mas pelas divisas que são escamoteadas e receitas efetivas que não deveriam ser apenas as que constam nos borderôs declarados de cada jogo de futebol. Além das receitas com jogos no exterior, passes de jogadores, é preciso não abusar do torcedor. O brasileiro, ao menor aceno de esperança, vai aos estádios, paga ingressos, consome transporte, gasta com alimentos e bebidas. Agora, boa parte, fica em suas casas, restaurantes, bares e até nas sedes dos próprios clubes (ou times) vendo os jogos pela televisão paga. Tudo é mais prático e conveniente, em época de violência nos estádios e insegurança nas ruas. É preciso rever tudo isso.
Há até um Ministério dos Esportes e só as loterias da Caixa Econômica repassam mais de um bilhão de reais por ano. Como e para quem são boas perguntas? Seria bom que todos pensassem mais sobre o que o Brasil está perdendo com o despreparo gerencial e mercadológico do futebol brasileiro. Os técnicos de futebol são, salvo exceções, aprendizes de monitores de autoajuda com alguma fundamentação futebolística. Nenhum país se torna desenvolvido por acidente, mesmo que tenha reservas minerais riquíssimas e talentos especiais. O principal elemento que transforma pessoas, instituições e países é o conhecimento. Não o de algibeira, midiático, focado no imediatismo e na mesmice, mas o que transcende e aniquila as obviedades e ousa, porque tem essência e substrato. O futebol precisa ser repensado. É tempo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/12/2006.

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FRENTE PARA O MAR – Diário do Nordeste

Vou chamá-los de João e Maria. Moram ali defronte ao Atlântico que se espraia e quebra quase ao pé deles. Não plantaram a árvore, mas gostam de sua sombra e é sob ela, dia após dia, que cuidam de morar. Um atrelado ao outro, quase atados, roupas empilhadas, banho a poucos passos, iluminação boa, sem IPTU, cabine da Polícia a poucos passos e brisa permanente. E com eles está o Japi, digamos assim, o pequenino cão misturado à alegria dos dois. Japi, João e Maria, entre alegres, sonolentos e dengosos, se aninham sobre uma relíquia de colchão graciosamente disposto sobre o carpete cinza que envolve o chão vermelho de ladrilho. E a alegria se constata na forma como as mãos jovens de Maria catam aquilo na cabeça de João que, vaidoso, peito nu, ainda porta uma dessas barbichas ralas.
Como todo os casais, brigam, ralham um com o outro, mudam roupas e até se amam ali mesmo, com a brisa a abençoar o clímax. Os olhares curiosos, dia e noite, são muitos, alguns balançam cabeças burguesas e não entendem talvez essa postura crítica, vanguardista, o descompromisso firme com o de trabalho, como se esse conjunto seja uma instalação viva de artista pós-tudo a chocar a plateia, cutucando a insensibilidade sócio-existencial que desnuda a indiferença dos provocadores dessa permitida atitude de ‘gentileza urbana’.
E aí chega um casal de estrangeiros, sentam ao chão e, em português arrevesado, dizem que são de uma ONG em favor da aceitação do homem em seu habitat e prometem um movimento internacional com base no amor telúrico, no direito inalienável de escolher o local de morada e citam o Pe. Lebret para um João confuso e uma Maria perplexa, enquanto Japi lambe um caroço de manga. Ao final, tudo documentado em uma câmera portátil comprovando o alcance desse gesto solidário.
E João e Maria se pensassem, admitiriam que bem cabe uma análise sociológica tendo como substrato o direito de morar bem e receber, com ou sem protetor solar, raios do sol acompanhando o ócio diário com amassos, saídas fisiológicas e comer o que não lhes falta, pois, prazerosos por sua companhia os vizinhos, sugerem que não instalem fogão, pois a dificultaria a ação dos bicos de gás.
E assim, como nas belas histórias de amor, essa conjunção de almas é abençoada contra a maldade dos que se arvoram de donos do pedaço e gastam energias em caminhadas vãs, pois nada mais são que sobrepesados burgueses queimando excessos de alimento que falta a outros. Eles, João e Maria, devem ficar defronte ao mar.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2006.

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ZÉ FLÁVIO, O PAI DAS MUDANÇAS – Jornal O Estado

Há cerca de três semanas conversei, por algumas vezes, com Zé Flávio. Expliquei para ele a ideia “Gente Que Conta” em que entrevisto pessoas que com histórias para contar, entrelaçadas com as próprias vidas. Ele topou ser entrevistado, esbocei o questionário, mas não deu. Ele, já alquebrado, não resistiu. Hoje, é História.
José Flávio Costa Lima nasceu em 1921 às margens do Rio Jaguaribe, na cidade de Aracati, de onde partem os ventos que amenizam a temperatura de Fortaleza. Era o primeiro filho homem de um casal que tinha gerado quatro filhas mulheres. Seus pais, Alexanzito e Egisa, provinham de troncos frondosos que se enraizaram e, juntos, formaram uma nova estirpe. E o menino cresceu – ou pensava demais – para ficar no Aracati e veio estudar na capital. Anos depois, faz vestibular para direito em Fortaleza, ainda brejeira e pachorrenta, cursou dois anos e seguiu para a Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou. Era a eterna necessidade de ares mais plenos, da não aceitação da mesmice, da descoberta do que imaginava existir além do que seus olhos viam e onde o corpo pisava. Estava na plenitude da 2a. Guerra Mundial. Quem sabe, tenha pensado em se alistar como voluntário ou ir lutar na Itália. Esse conflito, que abalou o mundo, certamente foi basilar para a sua formação democrática, entender os dissensos, pensar na carreira política de seu pai, Alexanzito, prefeito e deputado estadual.
A guerra acaba. Diploma na parede e muitas ideias na cabeça. Ficar em São Paulo, a cidade grande que o acolhera ou voltar para o Ceará? Casar com uma paulista? Decide voltar, mas havia surgido D. Hebe em sua vida e, com ela, a alegria da chegada gradativa de Alexandre, Valéria, Urbano e Artur, seus filhos. No Ceará, encara a realidade como um “Costa Lima” do Aracati e procura centrar-se nos negócios da família de exportação e importação. De repente, ou lentamente, vai surgindo o germe da política classista em seu caminho e se viu engolfado na realidade cearense. O que realmente aconteceu nesses idos da década de 50, quando Vargas se suicidou e Juscelino ascende à vida pública nacional, teve ter sido o aflorar do atavismo paterno, doublé de empresário e político. E a política de verdade, a partidária, misturou-se ao seu sangue de empresário. Corria o tempo da União Democrática Nacional- UDN, do Partido Social Democrático-PSD e do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. E foi com emoção e razão que se deixou enredar e não saberia dizer se isso alavancou ou prejudicou seus negócios.
O pouco que sei é que foi secretário de estado da indústria e comércio, se fez bravo deputado federal por dois mandatos, lutou pela institucionalização, efervescência e equanimidade da Sudene e atou-se à política classista, sendo um dos sérios presidentes da Federação das Indústrias do Ceará, administrando-a por nove anos, ao mesmo tempo em que firmava posições sólidas na Confederação Nacional da Indústria. E aí, de seu pensar criativo e destemor, fez ressurgir o Centro Industrial do Ceará, CIC, que, por seus membros mais jovens e inquietos, modificou o panorama político do Estado, de forma irreversível, fazendo eclodir “o governo das mudanças”. A esse homem, espécie de Dílson Funaro cearense, devem a nossa indústria e a história política prestar reverência, por sua trajetória, inteligência aguçada e sentimento de que futuro não se espera, se planta com trabalho, decisão, inovação e capacidade.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/12/2006.

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AS TORRES FINCADAS – Diário do Nordeste

E na terça-feira sou chamado por Laéria e Carlos Augusto para almoçar, juntamente, com Sérgio Braga e Antonio Torres. Antonio Torres, escritor brasileiro, nascido no Junco, interior da Bahia e que se fez globe-trotter aos 20 anos, resenraizando-se e ganhando prêmios e mundo. Jornalista, publicitário, mas escritor acima de qualquer dúvida ou compadrio, se fez cearense-visitante pelas mãos pródigas de Sérgio Braga,desde 1997. E esse Antonio Torres é um bom conversador que faz o tempo não descer na ampulheta e nos deixa a todos mais leves olhando, da varanda, os verdes mares bravios. E foi com José de Alencar, esse iracemista escritor, que Antonio Torres se alfabetizou falando ver-des-ma-res-bra-vi-os e sentiu seus olhos cresceram para o que não via, mas intuía. E o Junco foi sendo saudade, mas ficou a sedução da origem, da terra adusta, do formigamento mental do menino que sabia que ali era e não era o seu lugar. E tomou a estrada aérea da vida e foi parar na paulicéia, não a desvairada, mas a que despertava para uma tardia industrialização brasileira e levava a todos, passo a passo, para a escada ou o fosso da globalização.
E a noite, após os camarões laerianamente preparados, apreciados, louvados e deglutidos no almoço, nos encontramos novamente. Aí o cenário era outro: a mesa bem posta do Lautrec, o pequeno reinado de César e Denise, em meio a luminosas micro lâmpadas que a China nos impõe culturalmente nesta quadra do ano. E a conversa ficou leve e se via, mesas ao lado, a beleza sutil de Patrícia Pillar, a inteligência nata de Ciro Gomes, a espirituosidade de Fausto Nilo e o olhar de lince de Arialdo Pinho. E do outro lado, bem próximo, estavam Fernando Costa e Fábio Campos que deixavam suas mentes pousar na essência do que bebiam e conversavam com José Carlos. Criara-se um halo virtual de bem-estar, do prazeroso convívio, cada mesa no seu universo privativo. Mas, a estrela da noite era Antonio Torres, com o ar sereno-maroto que a maturidade permite aos que ainda têm perguntas não respondidas e os solados dos pés estão esfolados das andanças pelas estradas do pensamento e dos lugares vistos de soslaio ou em profundidade.
E veio o outro dia, a hora do almoço se fazia tardia e o Carlos Augusto nos impunha o Ideal, sua descoberta fim-de-século. E na cumplicidade com Sérgio Braga, desviamos a rota e aportamos em um pós-moderno self-service, essa comodidade que se impôs e está ficando. E o Carlos Augusto, fervoroso seguidor de Baco, bradava contra o calor pelo vinho tinto não bebido por ele, voraz quase-enólogo que, vencido, em meio às folhagens de seu prato, tomava uma prosaica Coca-Cola. E éramos homens-meninos na intimação costumeira e o Antonio Torres, naquele instante, em meio a doces saborosos, se consolidava no peito de cada um de nós, descrentes e crentes figuras, andarilhos não da região da Mancha de Cervantes, mas destas pequenas paragens e alegrias que nos transformam a todos em cavaleiros errantes nesta nau (des)governada que é a vida.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/12/2006.

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OAB, ALEGRIA E TRISTEZA – Jornal O Estado

Um dia, muito jovem, temos que fazer escolhas. E aí surgem as paqueras, amigos de longo curso, e opções de cursos que, admitimos, nos darão seiva para a vida real que vai chegando. E como não há lugar para todos, somos postos à prova em vestibulares para ratificar que sabemos mais que outros jovens, tão ou mais atarantados que nós. Por competência, sorte, persistência ou acaso, somos aprovados. Quase heróis, quase tolos, e aí seguimos o destino.
Fiz direito. Juvenil, sem cursinho, no tempo da única faculdade, pública, exame anual e concorrido. E assim me tornei bacharel em direito e advogado, pelo exame de Ordem, uma espécie de validação do curso. Empós, passei mais dois anos estudando direito, não para concurso. E, desde esse tempo, sou e não sou advogado militante. Apesar disso, fui, com muita honra, até Conselheiro da Ordem. Circunstância. Mérito, zero. Mesmo assim, por necessidade, leio, acompanho trabalho de jovens advogados e, vez por outra, tento me atualizar, ouso emendar petições iniciais, contestações etc.
Tudo isso é para dizer apenas que, por coerência, orgulho-me e alegro-me da escolha que me deu, entre outras coisas, embasamento filosófico para entender que a vida é um eterno contraditório. E aí veio esta eleição da OAB de 2006. Na sua primeira edição, o local quase virou uma praça de guerra. A par disso, o chão, coberto de papéis, estava feio. Do lado de fora, como se fossem donos das ruas, muitos paravam carros de qualquer jeito. Era o caos. Não era direito.
Esta semana, houve a segunda rodada e, afinal, a eleição teve cabo. O que ficou claro nesta eleição foi a publicização de um problema conjuntural da Ordem em face do elevado índice de inadimplência. Por qual razão isso acontece? Creio que, afora os caloteiros existentes em todas as profissões, a grande charada é o enxurro de milhares de advogados lançados, semestralmente, no mercado, sem haver uma demanda efetiva por seus serviços. Existem, se vocês não sabem, mil cursos de direito no Brasil. A maioria é de faculdades particulares, algumas poucas são ótimas ou boas, outras são razoáveis e há cursos péssimos. Isto não quer dizer que os cursos em faculdades públicas estejam melhores, mercê das greves sistemáticas, professores desmotivados, bibliotecas pobres e descaso de governos que as patrocinam. Mas eu ia falando da inadimplência, pois não há quase mercado de trabalho para os que não se agruparem em escritórios, uns suprindo as deficiências dos outros ou somando suas inteligências. E há ainda a opção dos concursos disputados para o ministério público, judiciário, defensoria pública e carreiras afins. E disso me ficou uma tristeza, pelo vexame de milhares tendo seus nomes expostos, revelando escassez de clientes, incerteza do futuro e sonhos guardados em um vade-mécum qualquer.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/12/2006.

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FUTEBOL E REALIDADE – Carta Maior

Nós, brasileiros, com esse jeito que Deus nos deu, temos a certeza de que produzimos os melhores jogadores de futebol do mundo. Igualmente, temos a falsa ideia de que a nossa seleção de futebol é a melhor. Uma coisa não implica na outra. Um clube de futebol precisa um histórico de administrações eficazes, formar jogadores, ter estruturas dinâmicas e flexíveis à realidade que, a cada ano, vai sendo modificada. Ou nos ajustamos às mudanças ou o nosso trabalho, qualquer que seja ele, passará a ser ignorado e só dele falarão, quando falarem, das nossas desditas. Estaremos de mudança para o passado.
Venho pensando que é preciso mudar a estrutura do futebol brasileiro, da cúpula aos clubes da terceira divisão. Caso isso não aconteça, as coisas vão ficar como estão: clubes falidos, dirigentes brigando com torcidas, a televisão ditando horários, determinando cachês diferenciados, alguns técnicos e jogadores mercenários sem identidade.
Os grandes clubes europeus são estruturas de geração de renda de todas as naturezas, têm títulos na bolsa de valores e seus patrimônios valem bilhões. Precisaríamos apenas olhar o que está acontecendo lá. Não necessitaria ir muito longe, bastaria ver o que se faz em Portugal. Seria demais pedir dessem um pulo na Espanha e na Inglaterra.
O Flamengo e o Corinthians, maiores e mais populares clubes, por exemplo, são um poço de problemas e as receitas do televisionamento, campeonatos e torneios de que participam, não dão para cobrir sequer as dívidas com a previdência, salários atrasados e as questões trabalhistas oriundas de contratos capengas, juridicamente. Em janeiro, teremos novas administrações estaduais no Brasil e o governo federal acena com mudanças de rumo. O futebol pode ser um diferencial competitivo para o Brasil, não só pela imagem que gera, mas pelas divisas e receitas efetivas que não deveriam ser apenas as que constam nos borderôs declarados de cada jogo de futebol. Além das receitas com jogos no exterior, passes de jogadores, o brasileiro, ao menor aceno de esperança, vai aos estádios, paga ingressos, consome transporte, gasta com alimentos e bebidas.
Há até um Ministério dos Esportes. Seria bom que todos pensassem mais sobre o que o Brasil está perdendo com o despreparo gerencial e mercadológico do futebol brasileiro. Nenhum país se torna desenvolvido por acidente, mesmo que tenha reservas minerais riquíssimas. O principal elemento que transforma pessoas, instituições e países é o conhecimento. Não o de algibeira, midiático, focado no imediatismo e na mesmice, mas o que transcende e aniquila as obviedades e ousa, porque tem essência e substrato.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO Carta Maior EM 26/11/2006.