Esta crônica me leva a utilizar este finito espaço em caminhos de especulações recorrentes. Ouso arguir três aspectos complexos da vida de todos: o ser, o ter e o parecer.
O ser é a base. É onde ficam o País, estado, cidade, bairro, espaço em que se vive, o tipo de família que nos trouxe ao mundo; com raça, origem, categoria social e formou a base da educação, seja doméstica, formal pela escola, professores e colegas; informal ou social e no que o seu espelho e a consciência revelam e se aceita com ou sem questionamentos.
O ter é aquilo que se agregou a você, sejam bens materiais ou as bagagens profissional, cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita básicos para a sua existência. O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu é, sendo.
O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que não são e viver com o que não têm. É o mundo da aparência, do supérfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, é aceito não por sua qualidade intrínseca, mas por ostentar uma marca de significação para a imagem de quem usa. Um relógio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir a posição social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é movediço. E ainda há os que usam coisas falsas imaginando que possam parecer verdadeiras para os
outros. Ora, o que isso importa, se quem usa sabe que é imitação, cópia?
A sociedade e, por mais que não queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízo de valor falso ou verdadeiro. É aquilo que se acredita poder ser fabricado com “marketing pessoal”. O sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensar o vazio de não poder ficar consigo mesmo e disso gostar. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam à cata do que se chama de validação. A validação é acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. Não pesa, para o validado, a referência própria, aquilo que a sua essência profunda diz, mas o que lhe é soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito.
Esse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da própria consciência ou razão. Mas, descubro ter começado um assunto que não cabe em crônica. Bem apropriado seria em ensaio ou tese para os quais, infelizmente, faltam-me engenho e capacidade. Como disse Chamfort: “há tolices bem vestidas como há tolos bem vestidos”.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/11/2006.
UMA MULHER CHAMADA LUIZA
Corria o ano de 1991. Pelegrino José Donato e Luiza Trajano, estavam satisfeitos com o que faziam. Sua empresa era fruto de muito trabalho e de suas histórias de vida. Tinha nome, respeito, 31 lojas e faturava 80 milhões de reais por ano. Mas, como diz um provérbio árabe: “Deus não completa nada para ninguém”. Não possuíam filhos e estaria na hora da sucessão. Pensaram, trocaram ideias e escolheram a sobrinha Luiza Helena para dirigir o negócio e eles ficariam acompanhando, como conselheiros. E aí a sobrinha, que há muito integrava a equipe, incorporou, em plenitude, a superintendência dos negócios na cidade de Franca, interior de São Paulo. Era uma mulher no início da maturidade, casada, três filhos, formação em direito, comunicativa e ágil no pensar, decidir e comandar. E do seu jeito simples, direto e de olho em oportunidades focadas para o que fazia com amor, garra e competência, o “Magazine Luiza” foi crescendo, abrindo filiais e se aprestando a aportar na capital e outros estados.
E, por gostar de lidar com gente, ser leve e ter consciência de que pessoas e empresas mal humoradas ou “metidas” estão ou estarão fora da realidade, foi que aprendeu a celebrar cada passo conquistado, cada nova loja aberta, sem esquecer de apoiar colaboradores, realizando confraternizações, orações em comum, subsidiando suas formações profissionais e garantindo-lhes assistência plena.
Luiza Helena Trajano Inácio Rodrigues esteve falando, na semana passada, de forma ordenada, descontraída e prazerosa, na Unifor para professores, estudantes e convidados sobre sua trajetória de sucesso. Foi bom ouvi-la dizer do seu espírito inovador. Como, por exemplo, criou uma “liquidação fantástica”, no início de cada ano, que começa às 5.00 horas e se encerra às 8.00 horas da manhã. E ouvi-la dizer que ainda consegue tempo para escutar clientes que, por acaso, não tenham ficado satisfeitos com o serviço de atendimento ao consumidor e, para isso, criou o “Disque Luiza”.
Hoje, espalhado por vários estados brasileiros, o “Magazine Luiza”, com faturamento anual superior a 2,5 bilhões de reais, é uma referência no varejo nacional, tendo uma eficaz logística, qualidade no que faz, agregando serviços com foco no cliente comum e inovando com lojas virtuais, que quebraram paradigmas. Por estas razões e por sua trajetória pessoal é que Luiza Trajano é tão festejada, ouvida e premiada. Entre tantas outras honrarias, ela é integrante do Fórum Permanente de Líderes Brasileiros, entidade a que pertenço e onde, mesmo distante, passei a vê-la como referência de preparo, simplicidade e sucesso. Tão especial ela o é, que incentivou sua filha Ana Luiza, a enveredar pelos caminhos da culinária e tivesse luz própria, tornando-se eficaz dona de restaurante nos Jardins, em São Paulo. Este curso de vida, para mim, é, sem dúvida, um “Brasil a Gosto”.
João Soares Neto,
especial para o DN
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/11/2006.
LIBERDADE
Alguns comportamentos são repetitivos. Por exemplo: você encontra com alguém e esquece que assumiu compromissos com outra pessoa. Por amizade, amor ou mera gentileza, deveria fazer o favor de comunicar a sua ausência.
É provável que essa característica não seja um defeito, mas um hábito. E os hábitos ficam entranhados e passam a ser naturais para quem os têm. Há ainda artifícios que muitos usam, como o de dizer que está sempre cansado, doente, cheio de problemas e afins. Essa tendência, como uma espécie de defesa, pode levar, inclusive, à somatização que cria doenças de verdade. O corpo obedece ao que é repetido, sempre.
Todos sabemos da importância da família e mais ainda das singularidades de cada uma, mas deve haver um mínimo de delicadeza no trato uns com os outros, na não dramatização de problemas pessoais que, por si sós, já são complicados.
As relações pessoais não podem ser tolhidas por nossas conveniências, pois assim estaremos cuidando apenas do eu que sou e não do nós que uma relação cria. Algumas pessoas, por caminhos diferentes, foram habituadas a ditar as regras de uma relação. Por tal razão, talvez, as relações pretéritas dessas pessoas não tenham sido boas. Não há boa relação se ela não for franca, civilizada e consequente. Isto não implica em descaracterizar a nossa personalidade, nem invadir a privacidade do outro, tampouco abolir a família, mas ajustá-la a uma relação saudável e não traumática.
Se alguém fica feliz com a alegria e o bem-estar do outro, é natural que a pessoa que é o foco da atenção também deva se comprometer. Uma simples ligação de dois minutos pode ser esclarecedora; uma atitude respeitosa sempre é entendida, mas a arma usada do telefone desligado, no silencioso ou não atendido é uma forma, no mínimo, não afetuosa ou educada de comportamento, para não falar de desrespeito. Cria-se um biombo na comunicação e na relação.
Não temos o predomínio da verdade, tudo o que se disse acima pode não ter sentido para você, mas pode fazer sentido para quem vive misturado com os seus sentimentos, sejam eles certos ou errados. Por essas razões e por não acreditar em relação com horas, momentos, dia ou mês previamente marcados, é que muitos se consideram absolutamente livres, até porque é outra característica pós-moderna a liberdade de agir, viver e interagir com as pessoas, na hora e nas condições que se quer.
Temos todos, hábitos arraigados. Por exemplo, o de não aceitar formas veladas ou ostensivas de desatenção. Ser amigo, simplesmente, pode parecer fácil, mas não é. O que mais se precisa é de cuidado. Não se não se pode continuar pensando e fazendo o que sempre se fez e não deu certo, sob pena de incorrer nos mesmos erros e resultados.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/11/2006.
CHUTAR O PAU DA BARRACA – Diário do Nordeste
Escrever algo e intitulá-lo de crônica é uma coisa aparentemente simples, mas não o é. Especialmente, se a tarefa é diária ou semanal, pública e sujeita a olhos ávidos para nos ver através de seus prismas existenciais. Mas falávamos de crônicas e cronistas. Há cronistas monotemáticos, cronistas de todos os assuntos e cronistas doridos, amargurados, como se as eras vitoriana ou romântica ainda fizessem parte deste mundo pós-tudo. O meu cronista preferido é Carlos Heitor Cony, que escreve diariamente na Folha de São Paulo, de quem sou leitor há décadas. E o Cony escreveu esta semana: “Tempo houve em que um cronista sem assunto era mais ou menos obrigatório, foi talvez a era de ouro do gênero. O cara abria a janela, olhava o mundo e a vida, sentava à máquina e escrevia sobre o nada, a falta de assunto. Hoje, com a inflação de assuntos, as crônicas já não se fazem como antigamente.”
É verdade. Há tanta coisa para se falar que a desculpa de falta de assunto pode parecer enfado, charme, deprê ou preguiça. Basta olhar além do nosso umbigo, da nossa micro estatura e teremos assuntos tão variados, como: eleições, corrupção, desastre aéreo, assaltos, sequestros, cinema, futebol, música, viagens, amor, saudade, amigos, personalidades, livros, Brasil, mundo, discriminação, família, saúde etc.
Agora, neste momento, estamos em um grande feriado no Brasil, que começou na quinta e se estende até hoje, domingo. Dos 180 milhões de brasileiros, mais de cem milhões estão de pernas para o ar, fazendo o nada, enxugando cervejas, bebericando umas e outras, comendo feijoadas e outras calorias brabas , mudando pneu furado, discutindo com agente de trânsito, vendo televisão, gritando nos estádios, queimando ao sol nas praias, visitando alguém em hospital, orando em igrejas ou aborrecidos em algum aeroporto por conta do atraso dos voos.
Essa nossa condição humana de seguir o calendário imposto, nos transforma em seres quase programados, seguindo rotinas e roteiros de vida que não fogem ao lugar comum, não nos permitem tentar o novo, o ousado, o que poderia ou poderá ainda nos apaixonar sem amarras, sentir as narinas pulsando e o sangue impelindo ao desafio, ao contrário da corrente. Mas, e os mas são para isso mesmo, temos medo de chutar o pau da barraca, de dizer o que é preciso e fazer o que nos anima. E aí, quando nos decidirmos pela mudança, aventura, destemor, o calendário terá mudado, será segunda feira e as amarras serão reatadas, a nau da liberdade ficará encalhada no trapiche da nossa indecisão e mesmo que o sol brilhe, o cinza repercutirá em nossas retinas.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/11/2006.
IDAS E VINDAS – Jornal O Estado
Eu tenho me “especializado” em ir e voltar, quase nunca, fico. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser direto, inclusive nas viagens que faço. Procuro ver tudo de forma seletiva, mas ainda tenho tempo de olhar os meus sóis e luas, comprar livros, ver teatro, conversar com desconhecidos, algumas poucas compras, cada vez menos, e aí, volto. Não é não gostar de ficar. É claro, poderia permanecer sempre um pouco mais. Há, no entanto, um desejo, sentimento de urgência e a responsabilidade me trazendo de volta, sempre. Atavismo, quem sabe.
Isso, entretanto, não me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte; de participar de cerimônias budistas em Tóquio; de andar de riquixá em Seul; de fotografar as cataratas do Niágara quase congeladas; voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes; andar de camelo no Cairo; tomar um pisco em Lima; perambular pelos corredores da Casa Branca; subir escadarias de pirâmides no México;ver dois papas em Roma; andar na calçada da fama em Los Angeles; ser roubado em Nova Iorque; ouvir discursos malucos em parques públicos de Londres; sair vivo do Mar Morto; perder um trem em Baden; tocar em relíquias do campo de concentração em Auschivitz; fazer um check up em Frankfurt; curtir as ladeiras e curvas de San Francisco; passear na cidade proibida em Jerusalém; estudar em Massachusets; ver os destroços da deposição de Allende em Santiago; virar a noite em Madri até a polícia nos mandar para o hotel; jogar em Las Vegas; atravessar o antigo muro de Berlim; aprender a gostar de Miami; aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza; conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo; tomar banho em Punta Del Este; repetir as casas de tango de Buenos Aires; passear de navio pelo Caribe; enternecer-me com o Mosteiro dos Jerônimos; viajar de barco no Mar da China; discutir sobre Robert Frost em Barcelona; brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais.
Pode ser que alguém ache – e talvez até tenha razão – que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se escrevo onde andei de carro, trem, avião e navio aí a coisa fica mais à mostra. Paciência, faço parte de uma família de andarilhos. Começou com Pero Vaz de Caminha, meu “ancestral materno”.
Gosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. Nós somos pessoas de um mesmo planeta, mas diferentes. Não é só questão de raça, religião ou do lugar onde moramos. É algo maior, separando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo.
Há algum tempo, li um livro da jornalista Sônia Nolasco, “Moreno como vocês”, nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e nas suas identidades abaladas. É um livro sobre a análise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, em certa viagem feita, li no “The Brazilian Sun” depoimento de uma jovem brasileira, após quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilusões.
Quem sabe se as minhas viagens de ida e volta não sejam para não perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo não meu? O meu mundo é aqui, onde estão as pessoas amadas, conheço até os buracos das ruas, sei quem são as criaturas boas e me sinto parte do povo, com o qual interajo sem medo, vanglória ou preconceito.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/11/2006.
BRASIL: A RESPOSTA DAS RAÍZES – Diário do Nordeste
Ocorrendo hoje tudo o que dizem as empresas de pesquisa, Lula será reeleito. O jornalista José Simão, de humor fino e ácido, diz que será “réu-eleito”. Lula não é réu, nada resta provado e a vontade do povo é soberana. O que alguns podem fazer é procurar explicações para o comportamento da maioria dos eleitores brasileiros.
O duelo dialético da corrupção versus privatização parece ter sido vencido pela indiferença da maioria. Essa indiferença representaria ainda, quem sabe, nesta época de pós-modernidade, ao que Sérgio Buarque de Holanda chamou da reação do “homem cordial”. Pois bem, esse “homem cordial” seria, ainda agora, a representação simbólica do brasileiro típico. O excelente escritor Silviano Santiago, em seu recente livro “As raízes e o labirinto da América Latina”, editora Rocco, analisa os pensamentos de Sérgio Buarque em “As raízes do Brasil” e do ensaísta mexicano Octavio Paz em “O labirinto da solidão” e volta a falar no “homem cordial” brasileiro e no “pachuco”, seu similar mexicano. Fiquemos no Brasil. Silviano diz que “o retorno do recalcado tem um nome feliz e inglório, o homem cordial”. O “recalcado” a que ele se refere, quem sabe, pode ser entendido de duas formas: como o reprimido que se solta ou o excluído que tem a oportunidade de mostrar os seus desejos.
Essa leitura é que precisa ser entendida pelos que se consideram “elite” em um país mestiço e que não tem, na sua maioria, identidade com o que vem de fora do seu meio e da sua capacidade de apreender. Tanto isso é verdade que Alckmin passou a ser chamado por seu pré-nome Geraldo. Lula representa uma profunda identidade com a maioria dos brasileiros, os que não leem revistas semanais e não ficam acordados para ouvir debates tardios, pois têm que acordar cedo para trabalhar. Além disso, criou-se, artificialmente ou não, nestas eleições, especialmente no segundo turno, uma clara apartação social, o que pode trazer consequências danosas num futuro próximo.
O fato concreto, incontestável, é que o povo decidiu pelo modelo, no entender da maioria, que mais se aproxima da satisfação dos seus desejos. Quem sabe se o povo não está procurando, no seu inconsciente coletivo, a sua real identidade: deixar de ser postiço. Essa mobilidade social é argutamente definida por Silviano “como nem sempre fosse vedado a netos de mecânicos alçarem-se à situação dos nobres de linhagem e misturarem-se a eles, todos aspiravam à condição de fidalgos”. Foi o Brasil não “fidalgo” que venceu.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/10/2006.
LIVROS – Jornal O Estado
Hoje é o Dia do Livro. “Os livros governam o mundo, ou pelo menos aquelas nações que têm uma linguagem escrita. As outras não contam”. Quem disse isso foi Voltaire, escritor francês do século XVIII. E o padre Antônio Vieira dizia que “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Ora, se o livro é tudo isso, por que se lê tão pouco neste Brasil? Será por que o livro é caro? Será por que não sabemos ler? Ou por que esta é uma nação que não conta? Já foi dito que um país pode ser considerado como civilizado quando se gasta mais com livros do que com goma de mascar.
Tenho, por prova provada, a convicção de que não há solidão quando se tem um bom livro. Pelo contrário, muitas vezes, ser interrompido ao ler, pode nos deixar tristes, embora acompanhados. O mundo atual tem encantos mais fáceis que a leitura de um livro. A televisão é uma delas, mas o livro nos faz pensar, criar, criticar, perceber, distinguir, elucidar, duvidar, enfim, nos dá capacidade de raciocinar criticamente. De não aceitar verdades que nos são impostas, de assumir atitudes dissonantes da maioria, de ter autocrítica, de rir de nós mesmos.
Ter livros, abri-los, lê-los, grifa-los, guardá-los ou emprestá-los são movimentos que dignificam uma pessoa, mesmo sendo tão simples. Alegrar-se ou indignar-se com o conteúdo de um livro é uma forma de demonstrar que estamos vivos, não desistimos de nossos sonhos, temos convicções, alimentamos esperanças e não nos acomodamos com a mediocridade do viver supérfluo, sem mergulhos na essência do existir.
Ler nos faz escrever com um pouco mais de segurança esta língua portuguesa tão cheia de armadilhas. Saber o usar o ponto, a crase, a vírgula. A propósito, conta a lenda que alguém foi condenado à morte pela Corte. Recorreu à autoridade suprema. Esta, respondeu: “Se o Tribunal condena eu não absolvo”. O réu verificou que a decisão não tinha pontuação, resolveu, então, pontuá-la a seu modo e, assim ficou: “Se o Tribunal condena, eu não: absolvo.” E, ladinamente, foi solto. Lendas à parte, os pontos e as vírgulas fazem sutis diferenças. mas para tentar aprender a usá-los é preciso ler. E ler sempre.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/10/2006.
FALTA UMA SEMANA – Diário do Nordeste
Não importa em quem você vai votar, importa a razão pela qual vai votar. Não se vota por vingança, gratidão, compadrio ou simpatia, vota-se por convicção de que estamos fazendo o mais certo. Dessa forma, é bom que você tenha uma conversa com você mesmo. Só você sabe de suas razões e das suas convicções. Este festival de obviedades que estou a dizer é, quem sabe, necessário. Algumas pessoas acreditam piamente no que dizem os candidatos. É preciso ter cuidado, ir mais fundo, saber a diferença entre a mistificação e a verdade, entre os nossos valores pessoais e os apregoados pelos que tentam nos encantar com imagens e promessas.
É preciso pensar mais um pouco no Brasil, este grande teto que nos abriga a quase todos. Desde os confins da Amazônia, com suas riquezas e ainda mistérios, até ao Rio Grande com seus pampas tão belos. Há tantos brasis em cada região, estado e até em cada cidade. A filosofia, o inconsciente coletivo, o jeito de ser de cada comunidade, são frutos da história prosaica que acontece no dia-a-dia, nas necessidades ou desejos não realizados, na luta árdua ou amena pela educação, sobrevivência e sustento de cada família ou pessoa.
Assim é que, sem essa de sociólogo, antropólogo, cientista político ou reformador social, fico matutando sobre o que deve levar um brasileiro pobre do Alto Xingu a escolher um candidato. Igualmente, um solitário morador de um povoado distante e paupérrimo, no oeste do Piauí, no sertão central do Ceará ou das Alagoas, do norte de Minas e por tantos outros lugares desvalidos que ainda traduzem a miséria e aclaram a indiferença coletiva. A incapacidade política de transformar milhões de pessoas em cidadãos cônscios dos seus direitos e deveres, aptos a decidir o seu destino, sem esperar milagres que nunca chegam, olhando a abastança que passa ao largo, vivendo a pobreza que os consume e os incapacita de ver e julgar por conta da educação que nunca receberam e das oportunidades que não lhes foram dadas.
Falta uma semana. Depois dela, qualquer que seja o eleito, novos circos serão armados, os das alianças indispensáveis à governabilidade, e os que estiveram em lados opostos talvez se componham. Será nessa hora que precisaremos estar, mais uma vez, atentos, não apenas como meros leitores não-críticos de publicações e emissoras que querem nos impor seus disfarçados interesses, mas como brasileiros que não estão mais deixando ser tutelados por mistificações e engodos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2006.
RÉGIS: O BRASIL SE ACABANDO E NÓS BRINCANDO…” Jornal O Estado
“A doença nasce em silêncio. Seja pela ação de germes, ou substâncias nocivas, ou por processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha. Quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente. Em algum momento, algo acontecerá, uma dor, falta de ar, palpitação, hemorragia”. Este texto é do escritor e médico Moacyr Scliar no livro “A Paixão Transformada”. Régis Jucá sabia e cuidava disso com a competência de cirurgião, senso de humanidade e o convencimento de terapeuta.
Régis Jucá saía da UFC quando eu ainda estava entrando. Lá, os que fizeram política universitária, tinham conhecimento da trajetória do Régis no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina e no Diretório Central dos Estudantes. Fomos a geração seguinte e nos espelhamos naqueles que nos tinham precedido. Régis era um deles.
Depois, de uma forma espontânea e meio anárquica, formamos há mais de 30 anos, sob os auspícios de Edson Queiroz, o que hoje se chama de “Turma dos Sábados”. Régis foi um dos seus fundadores e expoentes, embora essa turma, por natureza, seja iconoclasta. Ele era assíduo, referência, polêmico e um hábil contador de histórias. Falava de suas viagens, seus cursos e professores, de figuras humanas, entre outras, de Juscelino e Edson.
Leitor voraz, inclusive de jornais, um dia bem cedo me liga e fala que havia acabado de ler uma crônica que eu escrevera: “Hospitais, ante-sala da morte”. Nela eu reclamava da falta de pronto atendimento – no hospital em que Régis pontificava – levando à morte por hemorragia interna o comum amigo Afrânio. Régis lamentou, mas justificou o fato por ser um fim-de-semana próximo do carnaval em que a emergência fica a cargo de médicos residentes.
Recentemente, sua mulher Bia e as filhas do Régis, Juliana, Raquel e Laura resolveram editar, tendo como organizadores Natalício Barroso e Luiz Falcão, o livro “Com O Coração Nas Mãos” que contém escritos seus: crônicas, perfis de personalidades, reflexões, política, temas ligados à saúde, educação e publicações científicas. E o fizeram muito bem. O lançamento foi no começo de uma noite nos jardins da Reitoria da Universidade do Ceará e lá se podia ver familiares, amigos, colegas e pacientes, todos lembrados de histórias vividas com o Régis, semelhantes ou diferentes das que contei acima. Mas, o que me chamou a atenção nessa noite foi o clima cordial, ameno, sem faltar o uísque que o Régis bebia como uma bebida que deve ser tomada lentamente para gerar a espiritualidade que seus ingredientes provocam.
Não é minha intenção fazer uma resenha de .“Com o coração nas mãos”, outros já o fizeram. Mas dizer que é um livro bem feito, gostoso de ler, pela forma simples, direta e limpa com que Régis cuidava das palavras, como se a arte de escrever tivesse que, necessariamente, incluir preparação, assepsia, técnica, a operação em si da escrita e o seus escritos encerrassem com efeitos positivos, como o resultado de uma boa intervenção cirúrgica, tais quais centenas das que ele fez.
Esta crônica, que reproduz alguns trechos por mim já escritos, deveria ter sido publicada no dia 22 de setembro passado, um dia após o 2o. aniversário de morte do Régis mas só sai agora, na Semana do Médico, véspera das eleições – política e medicina eram duas das paixões dele – para o segundo turno e me valho do próprio Régis, com trecho de seu artigo “O Brasil se acabando e nós brincando…” para finaliza-la: “Uma nação, ou mesmo uma cidade, será melhor ou pior conforme mais certa ou mais errada for a nossa decisão de hoje. Eleição é coisa séria, não é brincadeira, não é quermesse nem final de campeonato de futebol. E foi de brincadeira e brincadeira que chegamos onde estamos e pelos nossos erros, poderíamos já estar pior”.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/10/2006.
O AMANHECER NAS PRAIAS – Diário do Nordeste
Amanhece. É hora de ouvir motoristas com camisas doadas por algum dono de boate, esperando incautos ou impetuosos turistas sexuais saírem de suas tocas aqui nestas praias sem dono.
Eles param os carros de qualquer jeito. Não há mão ou contramão, não há silêncio, também pudera, não há fiscalização. O que vale uma orla em uma cidade cheia de problemas? Mero mictório público e estacionamento matutino de táxis que aguardam o fim de encontros entre mulheres pobres ou pobres mulheres que ainda acalentam sonhos de ser amadas por seus cafetões e clientes-usuários e se entregam a estrangeiros de qualquer nível por poucos euros, dólares ou reais, tão poucos que não dariam para uma refeição ligeira no outro lado do continente. Imagino o que possam pensar desta cidade os que vêm, apenas ejaculam e voltam. Lembrarão do seu nome? Seria Fortaleza ou retirariam do nome o rt e colocariam um d?
Por outro lado, literalmente, do lado de fora da proteção estrutural do local de onde estou escrevendo, ouço pios de andorinhas. Serão pios ou cantos pios? Na sutileza do canto da andorinha há a esperança não dissipada de que o pesadelo que deixaram florescer nestas praias não prospere e a cidade retome o que foi seu, tão grosseiramente perdido.
Enquanto o canto da andorinha nos nutre de esperança, a algazarra dos motoristas insones – catadores de lixo, meninos que cheiram cola, passeios quebrados plenos de areia por conta de uma disputa judicial sem fim, bêbados, pedintes – retrata o que todos plantamos com a nossa indiferença, descaso ou, quem sabe, da corrupção institucionalizada nos órgãos licenciadores e de registros, policiais surdos, rondas que não acontecem, imprensa investigativa que ainda dorme, CPI da prostituição que deu palanque e votos, promessas não cumpridas e escolhas que não sabemos fazer, mas fazemos, sem respeito a nós mesmos e ao próximo.
JOÃO SOARES NETO,
CRONISTA
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/10/2006.
