De repente, um grupo heterogêneo de pessoas, sem nenhuma razão aparente resolve estudar filosofia. São, na maioria, empresários e alguns professores e estudiosos do assunto, sob a coordenação de um doutor em filosofia. A propósito, é bom ler o que disse Michel Foucault sobre a busca de conhecimento: ”Não há relação de poder sem a constituição correlativa de um campo de conhecimento, como também não há nenhum conhecimento que não pressuponha e constitua ao mesmo tempo relações de poder”.
Como não havia um nivelamento entre todos os participantes, o professor optou por uma visão abrangente da história da filosofia e de suas principais figuras. Cada sessão tem a duração mínima de duas horas, uma vez por semana. Já estamos nisso há mais de dois meses e, passo a passo, vamos chegando à modernidade.
Didático, preparado e com uma capacidade incrível de se recuperar após perguntas de toda ordem, o professor vai mostrando aos que nunca tinham estudado filosofia e aos que imaginavam saber alguma coisa, as diversas concepções acerca do ser, dos seres e dos papéis do homem no universo dentro das variáveis espaço e tempo.
Imagino que se criou no meio do grupo – uma espécie de babel de formações pragmáticas e acadêmicas – a consciência da necessidade de uma atitude crítica, a partir de reflexões. Já se observa, como produto dessas reflexões, um amadurecimento do raciocínio lógico e de especulações, talvez até inconscientes, sobre a moral, a ética e a semiologia com sua linguagem dos signos.
Muitas vezes, após as aulas, alguns ficam confusos e sentem o peso das informações recebidas, mesmo com a ressalva da bibliografia, cuidadosamente preparada para neófitos. Pois não é que ä frequência tem aumentado e muitos já não se sentem acanhados em associar os seus raciocínios à lógica das escolas filosóficas. Ora, se filosofia, do ponto de vista etimológico, significa “amor à sabedoria”, os que estão tateando têm consciência de suas limitações e o fazem na certeza de que precisam refletir sobre o pensar e o agir humanos. Essas atitudes reflexivas vão sendo agregadas e servirão, provavelmente, para balizar suas condutas.
Certamente, após esse curso, não serão conferidos diplomas e ninguém se sentirá um novo filósofo, mas, por certo, a formulação de seus pensamentos práticos ou teóricos obedecerá, mesmo sem perceberem, a novos critérios, ideias e juízos de valor, a partir da perplexidade, base primeira da filosofia, segundo Aristóteles.
Durante algum tempo, considerando que tudo não venha a ser absorvido e ficar de todo sedimentado, pensarão no que ouviram sobre a filosofia grega, os filósofos cristãos, a reforma, o iluminismo, a modernidade e nessa coisa meio louca que é o pós-modernismo, a partir do niilismo que nos conduziu a este mundo de hoje, com poucas crenças e muitas desavenças.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/09/1999.
TOLERÂNCIA
A convivência social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos é uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Começamos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na ânsia de nos transformar em “gente”, nos obrigam a seguir horários, tomar banhos, ir à escola, cortar cabelos e unhas, comer o que não queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irmão, tomar remédios que nos tornarão fortes e saudáveis, rezar para pedir perdão (de quê?) a Deus etc.
Na escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que não nos interessam. Apesar disso, além da tolerância em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar matérias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que não são bons para nós. Muita gente dirá que as crianças e os adolescentes ainda não têm a capacidade de saber o que é importante ou bom para os seus futuros e é preciso colocar muitas informações em suas cabeças, na ilusão de que isso possa se transformar em conhecimento.
Não concordo com essa ideia. Desde cedo deveríamos estudar aquilo que nos atrai, aguça a curiosidade e mexe com a inteligência. Sei, por outro lado, que é preciso de um instrumental básico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei também que há um conjunto de regras sociais necessárias à convivência.
Tudo isso não deve invalidar o prazer de estudar. Esse é um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso é verdade, eles não estarão sendo tolerantes com crianças e adolescentes que precisam estímulos e emulações para acordar cedo, cumprir horários e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazeirosa, alegre e receptiva.
Há um equívoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas farão de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido é, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Você é que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas reações com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo não como uma versão de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contrários têm que conviver e aprender que a tolerância é sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista.
Entranhe-se com seu filho, ao invés de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeusá-lo, mas o aceitando como uma pessoa autônoma que não é um clone seu. O DNA não é tudo. O amor, a compreensão e a tolerância são ferramentas para torná-lo forte, sem que perca a sensibilidade tão necessária ao equilíbrio emocional indispensável aos embates que terá por toda a sua vida.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/09/1999.
NOVOS MICROCONTOS
Quando tive a coragem de publicar 12 microcontos neste espaço, fiquei tão atônito que até meu e-mail forneci para receber opiniões. Foram várias e, graças a Deus, sempre favoráveis. Bancário, advogado, psicanalista, médico, pedagogo e jornalista (imaginem) foram algumas das profissões de pessoas que, não só gostaram, mas pediram para escrever mais alguns. Aproveito este espaço liliputiano com tipo de letra consorciado a oftalmologistas e óticas, para, apropriadamente, publicar mais alguns microcontos.
MC 01
Os gêmeos univitelinos eram econômicos. Uma só casa, um só carro, um retrato 3X4 para os dois, uma só mulher e um vizinho muito atuante.
MC 02
Deu na televisão. Um brasileiro, afinal, poderia ganhar o Prêmio Nobel da Paz por ter matado um grupo de brancos que dizimara uma tribo de índios.
MC 03
Tinha consciência de sua falsidade e isso o machucava. Subiu no palanque, abriu o sorriso, fez o discurso e se julgou eleito pelo povo.
MC 04
Viúva recente. Os bons costumes pediam recato. Telefonou, pediu uma pizza e entregou-se ao entregador na cama do falecido.
MC 05
Vail, Colorado. Os esquis caíram. A neve a cobria, lentamente, até o pescoço. Gritou e a avalanche chegou em resposta.
MC 06
Hospital cheio e o jovem médico atendia pacientemente a moça estuprada. Limpava o sangue e o seu sangue fervia. Tomou um calmante e deu uma canelada na maca.
MC 07
Pois não é que descobriram umas cartas da Hillary para a Mônica reclamando de sua falta de amor ao Bill. Hillary, indignada, dizia não entender a traição de Mônica.
MC 08
No interior do submarino ele temia ler a carta da mãe. Criou coragem e leu que seu casamento dera água. Sua mulher acabara de fugir com um vendedor de aquários.
MC 09
Estava com fome e não tinha dinheiro. Trocou a roupa do corpo por um sanduíche. Teve botulismo e o corpo pagou.
MC 10
Ajustou os óculos novos. Enxergou o que não via antes: a miséria de sua casa, a pobreza de sua favela e a fealdade do seu rosto. Matou o oculista.
MC 11
Era carnaval. Tímido, usava máscara. Encontrou-se perdido no meio da multidão abraçado a um gay. Gostou. Rasgou a máscara.
MC 12
No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/1999.
CARTA ANÔNIMA
Alguém me telefona do sul do país e pergunta o que fazer com uma carta anônima. Respondo, sem titubear: deixá-la anônima, não passar o recibo que o seu autor ou autores desejam.
Segundo Aristóteles, a coragem é a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras. Quem não tem coragem, utiliza, por exemplo, o recurso da carta anônima.
Há uma corrente psicanalítica que considera a carta anônima uma coisa abjeta. Quem escreve uma carta anônima, no mínimo, tem medo de mostrar a sua cara, deixando patente, segundo essa corrente, a sua pequenez.
Ninguém e nenhuma instituição são tão fortes que não possam ser enfrentados. Se você se sente fraco, impotente, procure alguém para lhe aconselhar e respaldar. Una-se à sua associação de classe, procure a polícia, um advogado, a imprensa ou a justiça. Agora, escrever carta anônima é um recurso absolutamente descabido e inócuo. Ninguém pode ou deve acreditar em pessoas que não têm coragem de defender os seus pontos de vista e usar o seu próprio nome ou, se for o caso, do grupo ou instituição que integra.
Imaginemos que uma pessoa A não goste da pessoa B e não tenha coragem de enfrentá-la. Será muito fácil dizer cobras e lagartos de B, utilizando-se do recurso do anonimato. Da mesma forma, se algumas pessoas, em bloco, se julgam prejudicadas, estabeleçam uma estratégia e mostrem a sua identidade. Quem não aparece e não tem coragem de enfrentar o adversário não merece fé.
A carta anônima é uma instituição antiga, usada, segundo especialistas, via de regra, por pessoas invejosas, recalcadas e que se comprazem em denegrir, sem provas, a honra alheia, quase sempre construída a custa de muitos sacrifícios. Ora, como acreditar em quem tem medo de aparecer? O argumento de que a pessoa denunciada tenha um aparato para defendê-la não procede. O Presidente Collor foi apeado do Poder porque os seus denunciantes tinham nomes e assumiram suas acusações. Um dos denunciantes era um simples motorista.
Viver é correr riscos. O autor da carta anônima, quando não identificado – o que quase sempre acontece pelas pistas que deixa – não corre risco nenhum e pode jogar lama nos outros de uma forma condenável para ver se fica alguma sujeira.
“Ninguém pode usar máscara por muito tempo”, já dizia Sêneca. É por isso que os autores de cartas anônimas, mais cedo ou mais tarde, são identificados. Principalmente agora que a tecnologia funciona junto com a criminalística na elucidação do que se imagina secreto.
Quem já foi alvo de alguma carta anônima sabe o quanto é desconfortável não identificar a pessoa que está lhe assacando impropérios. Aquele que tem indícios ou provas, pesquisa, mostra, desmascara, enfrenta, denuncia ou utiliza a imprensa que está ai sequiosa por notícias e manchetes.
Ao receber uma carta anônima não a propague. Jogue-a no lixo. Se você ainda não é, poderá ser a próxima vítima e, nessa ocasião, não estará rindo da desgraça alheia. Ficará atônito e amaldiçoará quem utiliza tal expediente torpe.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/09/1999.
SEM TERRA, SEM RUMO E STRAVINSKY
Desde que há algumas semanas os caminhoneiros se reuniram-extremamente bem coordenados, diga-se de passagem – para a sua greve geral que se fala em crise institucional. De repente, na quinta-feira passada, outro grande movimento, o dos sem terra, segundo muitos, e dos sem rumo, segundo FHC, mexeu com o coração de Brasília e escancarou a situação brasileira.
Enquanto isso, no sul e sudeste, aproxima-se a primavera e, segundo os arautos de sempre, o Brasil, em breve, entrará nos eixos. É bom lembrar que o 05 de outubro é nada mais, nada menos, que o “Dia da Ave”, segundo o calendário cívico-histórico brasileiro. Os pássaros ficarão felizes pela escolha, quem sabe, do seu dia para o anúncio do fim dos problemas brasileiros. E voarão em rasantes sobre a Praça dos Três Poderes. Quem acredita em Nostradamus pode acreditar em tudo.
Para quem mora por estas bandas do Brasil, onde as estações se resumem a sol e chuva, ou seca e enchente, a coisa até parece piada. Como parece piada a discussão sobre globalização e o que é ou não é empresa nacional, pois parte das maiores das daqui, se não tivessem sido assistidas com o dinheiro farto e generoso dos incentivos fiscais e dos rombos em bancos estatais, pouco mais seriam que espectros.
Por tudo isso é que fiz, mesmo sem entender de música erudita, uma analogia entre as promessas da primavera, do governo e a obra musical “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky. Recebida como um verdadeiro escândalo quando de sua estréia na primavera de 1913, em Paris, sua força foi tamanha que passou a influir na mudança da postura cultural da época e o choque produzido mexeu com as classes dominantes de então que, estupefatas, a ouviam no Teatro dos Campos Elíseos.
É provável que a analogia que me proponho a fazer se prenda ao próprio conteúdo da peça musical que se compõe de duas partes. O governo atual também tem duas partes, a antes do início do segundo mandato em janeiro de 1999 e a que veio depois.
Voltemos à Strasvinsky. A primeira parte da peça é a Adoração da Terra (seriam a defesa intransigente dos ruralistas e a ação constante dos sem terra?), em que é descrita o renascimento da natureza (seria o respeito ao meio ambiente ou o aproveitamento de terras improdutivas?), os augúrios da primavera: dança das adolescentes (seriam as esperanças e os dramas da nossa jovem democracia?), os jogos de captura (seriam os jogos de poder entre os do governo e as esquerdas?), os jogos das cidades (poderiam ser os interesses e as guerras fiscais entre sudeste-sul e norte- nordeste?), a procissão do sábio (alguma semelhança com alguém e o seu séquito?) e a dança da terra (as invasões, os crimes e a impunidade?).
Espero que esta analogia não se configure também na segunda e última parte da composição de Stravinsky que é iniciada com o sacrifício (seria o nosso holocausto?) e concluída com a dança do sacrifício (seria a vingança dos “sem, sem” com a dança dos “com, com?”).
Stravinsky e analogia à parte, o brasileiro já vive a dança do sacrifício há muito tempo e se penitencia, talvez, da insensatez coletiva que permite a eleição e reeleição de muitos políticos corruptos, despreparados ou maquiavelicamente geniais que se contrapõem a uns tantos capazes e honestos que, pouco ou quase nada, conseguiram nesta década findante.
Vitórias a comemorar? Quais? Não se sabe ainda como o país e a Nação reagirão aos direitos, encargos e diretrizes da globalização, nome que pode ser tão efêmero quanto o tempo que medeia uma e outra estação. Ë bom lembrar que a estação que antecede à primavera é o inverno, sem esquecer que ela é substituída pelo verão, época sujeita a chuvas e trovoadas, especialmente em países tropicais e bonitos por natureza.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/1999
ANIVERSÁRIO
Pois não é que hoje é o dia do meu aniversário. Nasci no meio da Segunda Guerra Mundial e, no dia em que completei um ano, o Brasil declarava guerra ao Eixo. Os alemães deviam estar tremendo nas bases enquanto eu me lambuzava de bolo, recebendo a atenção comum aos filhos primogênitos. Comecei a estudar quando os Estados Unidos outorgaram uma Constituição ao Japão e implantavam o Plano Marshall na Europa.
Fiz minha primeira comunhão logo após o Brasil ter perdido a Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Terminei o ginásio quando Juscelino inventou de criar Brasília. Conclui o colegial após o Brasil ter ganho a sua primeira Copa do Mundo. Entrei na Universidade quando Jânio aparecia com sua vassoura. Fiz minha primeira viagem ao Exterior no ano em que John Kennedy morreu. Conclui administração no ano da Revolução e Direito quando foram criados o cruzeiro novo, o MDB e a Arena.
Casei no ano em que o homem pisou na Lua e a minha primeira filha nasceu quando a China foi admitida na ONU. A segunda filha nasceu enquanto Ernesto Geisel era indicado para Presidente da República. A terceira filha nascia enquanto morria Mao Tse Tung e a última no ano em que o divórcio foi instituído no Brasil.
Nos anos do milagre brasileiro eu cuidava de minha firma que havia sido fundada à época da morte de Costa e Silva e da Constituição outorgada. No ano em que foi decretada a Anistia ela completava dez anos. Dei um duro danado e fui queimando etapas.
Completei a idade em que Cristo morreu quando foi inaugurada a Ponte Rio – Niterói. Descobri-me quarentão quando o Aiatolá Khameine foi escolhido presidente do Irã. Desde cedo aprendi e continuei a fazer, como hobby, o que Carlos Heitor Cony faz por profissão. Andei meio mundo, conheci muita gente e cultivei alguns poucos amigos, dentre os quais o que faz censura prévia em quase tudo o que escrevo. Concordo com o doido do Paulo Francis quando ele dizia que “as amizades mais profundas vêm desse sofrimento a dois, ou a três”.
Todas as manhãs, bem cedo, ando com um grupo de amigos. Às sextas-feiras e sábados, quase sempre, almoço com amigos que fazem da crítica inteligente o prato principal da refeição. Tomo, aos sábados, café com uma colega de universidade e os domingos eu reservo para intimar com minha mãe que se tornou mandona depois da morte do meu pai, no ano em que completei dez lustros de vida. Nesse dia ela dá carão nos seus filhos marmanjos e puxa o saco das “santas filhas”.
Faltando três anos para a virada do século (não do milênio) eu tive a alegria de ser avô, dose repetida no ano seguinte. E cá estou eu lépido e fagueiro com muitos cabelos, embora mal distribuídos, esperando minhas filhas e netas acordarem para decidir o que faremos hoje. Sei que uma delas, pelo menos, vai chegar atrasada. Não faz mal, estou acostumado.
Aproprio-me de versos anônimos para encerrar: “conta teu jardim pelas flores, nunca pelas folhas que caem. Conta teus dias pelas horas douradas, e esquece por completo as nuvens. Conta tuas noites pelas estrelas –não pelas sombras. Conta tua vida pelos sorrisos, não pelas lágrimas. E, alegremente, conta tua idade por feitos, não por anos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/1999.
VIAGENS VAPT-VUPT
Eu tenho me especializado em viagens vapt-vupt. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser rápido. Vejo tudo de forma seletiva, faço sempre o possível, mas ainda tenho tempo de olhar os meus sóis e luas, comprar livros, ver teatro, identificar e conversar com tipos estranhos, algumas poucas compras e volto. Não é não gostar de ficar. É claro, gostaria de permanecer sempre um pouco mais. Há, no entanto, um sentimento de urgência e responsabilidade me trazendo de volta, sempre.
Isso, entretanto, não me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte, de participar de cerimônias budistas em Tóquio, de andar de riquixá em Seul, de fotografar as cataratas do Niágara quase congeladas, voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes, andar de camelo no Cairo, tomar um pisco em Lima, perambular pelos corredores da Casa Branca, subir as escadarias das pirâmides do México, ver dois papas em Roma, pisar na calçada da fama em Los Angeles, ser roubado em Nova Iorque, ouvir discursos malucos em Londres, sair vivo do Mar Morto, perder um trem em Baden, mexer em relíquias do campo de concentração em Auschivitz, fazer um check up em Frankfurt, curtir as ladeiras e curvas de San Francisco, passear na cidade proibida em Jerusalém, estudar em Massachusets, ver os destroços da deposição de Allende em Santiago, virar a noite em Madri até a polícia nos mandar para o hotel, jogar em Las Vegas, atravessar o antigo muro de Berlim, aprender a gostar de Miami, aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza, conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo, tomar banho em Punta Del Este, repetir as casas de tango de Buenos Aires, passear de navio pelo Caribe, enternecer-me com o Mosteiro dos Jerônimos, andar de barco no Mar da China, discutir sobre Robert Frost em Barcelona, brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais.
Pode ser que alguém ache – e talvez tenha razão – que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se mostro onde andei de carro, trem, avião e navio aí a coisa fica mais à mostra. Paciência, faço parte de uma família de andarilhos. Começou com Pero Vaz de Caminha, meu “ancestral materno”.
Gosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. Nós somos pessoas de um mesmo planeta, mas como somos diferentes. Não é só questão de raça, religião ou do lugar onde moramos. É algo maior, misturando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo.
Recentemente, li um livro da jornalista Sônia Nolasco, “Moreno como vocês”, nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e suas identidades abaladas. É um livro profundo na análise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, nesta última viagem feita, li no “The Brazilian Sun” um depoimento de uma jovem, após quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilusões.
Quem sabe se as minhas viagens vapt vupt não sejam para eu não perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo não meu? O meu é aqui, onde estão as pessoas amadas, conheço até os buracos das ruas, sei quem são as criaturas boas e as maledicentes e me sinto parte dessa coisa informe chamada comunidade que, na verdade, poderia ser mais solidária.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/08/1999.
PAIS E PAZ
Já vai bem longe o tempo em que os pais faziam e aconteciam. Hoje os pais, via de regra, pisam em ovos ao falar com os filhos. Quando falo de pais, estou falando do plural de pai, o bicho homem.
Os que foram e são pais nestas três últimas décadas sabem a diferença entre o que viveram, enquanto filhos, e o que tentaram ao quebrar as barreiras do relacionamento humano, estabelecer vínculos de amor e laços de ternura.
Há muitos dilemas no relacionamento pai e filho. É lógico, racional e educativo estabelecer limites, agir com firmeza, mas o coração amolece e a vaca vai para o matadouro. Os filhos, desde cedo, são exímios em testar os pais, pedindo o que podem e não podem, o que devem e não devem. Ao menor sinal de fraqueza o tiranozinho ou tiranazinha vai ganhando terreno e adquire hábitos que, quase sempre, comprometem a sua vida. Como as coisas do mundo não são fáceis, os que recebem tudo podem ficar despreparados para os embates do dia a dia, por toda a vida.
É preciso que se deixe claro o que é certo e errado e isso vai depender dos valores dos pais. Daí é essencial que a relação pai x filho seja baseada na franqueza e não se crie um escudo protetor isolando o filho da realidade. Os erros provocam consequências e isso os pais, mesmo cortando seus corações, devem deixar que aprendam para não repeti-los.
Os filhos costumam exagerar na atenção que necessitam. Nem tanto ao rio, nem tanto à margem. Distribua o seu tempo. Há tempo para tudo e isso não quer dizer que os filhos tenham o direito a usar todo o seu. Você tem compromissos e desejos outros. Use o bom senso e não fique com sentimento de culpa por umas férias necessárias ou um fim de semana para desanuviar o juízo.
Não prometa o que não pode e não fique estabelecendo comparações. Os filhos são severos na cobrança do prometido e não aceitam referências ao filho de fulano ou ao irmão que dá bom exemplo. Os filhos podem até mentir, mas não gostam de saber que seus pais mentem.
É bom que você tenha fé para transmitir a seu filho, mas é ruim que transmita a idéia de um Deus que pune e cobra. O “novo Deus” deve ser solidário e entender as fraquezas de todos nós. É como se fora um Deus-gente ao invés de um Deus-bicho papão.
Não enrole nas respostas. Se não sabe, diga. Um dia o filho vai saber que também não sabe. Não banque o durão. Há uma diferença entre ser firme e duro. As pessoas firmes têm e mostram sentimentos. As pessoas duras escondem ou escamoteiam.
Respeite os medos do seu filho. Não brinque com os fantasmas dele, você ainda tem os seus. Por outro lado, mostre que o medo faz parte da vida e só quando o entendemos é que podemos superá-lo.
Não queira que o seu filho seja você. Ele tem 50% de outros genes e vive um tempo novo que não é o seu. No máximo, queira que ele conheça você para entendê-lo e estabelecer uma relação de paz em que o bem querer não é uma virtude, mas um processo de aprendizado contínuo, a partir da tolerância e do respeito à individualidade do outro.
Posso ter me contradito? Paciência, pai é assim mesmo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/1999.
BIP
Gosto de ler o que escreve Carlos Heitor Cony e acompanho seus artigos e romances há anos. Fala de tudo, especialmente do que nos aflige e sufoca neste país ainda sem destino certo. Critica, mostra erros, dá exemplos e sugere soluções. Diz do seu ateísmo e não esquece o seu tempo de seminário. Se considera um homem antipático, não gostar de muito papo e conversar com muita gente. Criou o seu mundo particular e, nesse mundo, havia um lugar para o amor que dedicou a um cão. Falava dele com um enlevo que enternecia e deixou claro a sua dor quando o seu animal de estimação morreu. Mandou enterrá-lo em cemitério zoológico e se fez triste por um bom tempo. Visita o túmulo do seu cão e, vez por outra, deixa claro que a ferida ainda não cicatrizou.
Há pouco mais de um ano ganhei um cãozinho de presente, pequeno, castanho, peludo, mistura de duas raças estrangeiras e de uma meiguice que aplaca a raiva de recolher o seu cocô pelos cantos que escolhe. É solícito, gosta de brincar com bolas e se põe bípede quando chego do trabalho ou lhe acaricio a cabeça pequena e irrequieta. Agora, no quarto crescente da maturidade, passo a entender o sentimento de Cony e de muitas pessoas que se apegam a um cão ou a um gato. Os animais não falam, não discutem, não criticam, contentam-se com pouco e são extremamente reconhecidos a quaisquer gestos.
Um dia desses assisti a um filme sueco em que um menino foge de casa porque os pais não deixaram que criasse um cão. Fugiu de bicicleta, com o cão dentro de um cesto no bagageiro. Os pais ficaram aflitos e depois de muita procura conseguem localizar o filho e aceitam o cão que rejeitavam. E ai entenderam que o seu filho único precisava de uma companhia leve, como não costumam ser os pais.
Não sei o que dizem psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas e psiquiatras sobre a criação de animais domésticos, mas a minha pouca experiência demonstra que eles ajudam a dar paz às pessoas a quem estimam. É claro que não estou dizendo que um “pet” substitui os relacionamentos humanos, saudáveis, indispensáveis e enriquecedores. Gente precisa de gente, sempre. Mas, tenho consciência de que há uma complementação sutil no lidar com o silêncio, o olhar indecifrável e a alegria manifestada em movimentos do corpo de um pequeno cão. Agora, neste instante em que escrevo, o “Bip”, meu cão de estimação, está aqui dormitando, esperando que eu levante do computador para brincar com ele e, se não o faço, cobra em latidos a minha atenção.
Pode parecer tolo o que escrevo, mas nós precisamos, de vez em quando, ficar tolos, se é que não o somos sempre. Dizia Churchill que “os tolos, às vezes, estão certos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/08/1999.
INTIMIDADE DEVASSADA
Recebi, de alguns leitores, cartas ou e-mails falando sobre o artigo Intimidade, que publiquei no dia 04 deste. Para quem não leu o referido artigo – e apenas para acompanhar o raciocínio dos leitores que me escreveram – digo que ele tratava do sagrado direito que temos de preservar a nossa intimidade e dos poucos amigos que a conhecem, sem precisar devassá-la, pois dela participam.
Voltando ao que recebi. Escolhi três leitores diferentes, identificados apenas pelas iniciais, que, cada um a seu modo, escreveram sobre o artigo
“Intimidade”. Como os textos são longos, tomo a liberdade de condensá-los.
O primeiro leitor(AJL) limitou-se a remeter o texto muito conhecido “Procura-se de um amigo”, de Vinícius de Moraes. Aí vão algumas partes: “Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir… Deve guardar segredo sem se sacrificar…Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar…Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo dever ser o de amigo…Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive”.
A segunda carta é de uma leitora (LPCC). Diz ela: “Sagradas as amizades. Você já definiu tão bem o que é um verdadeiro amigo. Posso acrescentar? E o que é necessário para que duas pessoas sejam amigas? Algumas afinidades, uma ética rigorosa no comportamento, uma lealdade inquestionável, e, o mais importante, aquela coisa que não se define, nem na amizade nem no amor, que não se sabe porque acontece: o gostar… Com os amigos deve-se fazer como fazem os bancos recadastrar periodicamente. As pessoas infelizmente mudam, e às vezes para pior.”
A terceira carta é de uma leitora do Rio, psicanalista de profissão(TSPO) que escreve: “ Você deve perturbar muito seus leitores… e provavelmente, também, enchê-los de prazer…Você utiliza um recurso que obriga o leitor a se deter, a prestar atenção ao que está lendo. É também um ‘chega prá lá’ que você parece dar, no real, aqueles que, justamente, querem chegar perto demais sem que para isso tenham conquistado o direito. É algo que você usa, desconsertando o invasor, pedrinhas que coloca no caminho como se dissesse que não é tão fácil assim chegar perto de pessoas atentas…Combina a delicadeza da sensibilidade à crueza daquele que não faz concessões… Agora, uma discordância(e ela me cita): “ algumas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem”(termina a citação). E ela continua: “ E eu digo: o pior é que quase sempre os que gostam de nós não nos conhecem. Pelo menos por inteiro. Mas e se nós mesmos não nos conhecemos? E quem pode impedir que o outro goste de uma coisa em nós que ele inventou (idealização)? Ele ( o outro), às vezes precisa, para sobreviver, amar o que não existe. Mas que existe para ele. E logo existe…”
Obrigado aos três.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/07/1999.
