Sem categoria

AS CAIXAS PRETAS SÃO AMARELAS – Diário do Nordeste

Aprendi a não ter medo de voar em teco-tecos. Meu pai era piloto privado, tinha um avião Aeronca e me levava para passear. Fiz muitos voos com ele e seus colegas de aeroclube. Os aviões, por serem pequenos e frágeis, balançavam muito e o ruído forte e contínuo, ainda bem, do monomotor chegava diretamente aos nossos ouvidos, mas tudo era folguedo. Depois, vieram os voos em aviões comerciais. Era ainda tempo dos Douglas, dos Constellations, dos Viscount, até chegarmos a era dos jatos, quando a Boeing se projetou com o 707 que hoje não passa de um sucatão. Passei, entretanto, por dois sustos, um pela TAP, outro pela Varig. No primeiro caso, um motor parou. No outro, o trem de aterrissagem não recolheu. Em ambos os casos, os aviões tiveram que jogar combustível fora e fizeram pousos de emergência, depois de pânico entre os passageiros.
Hoje, os aviões a jato são altamente beneficiados pelos avanços da tecnologia e têm sistemas quase perfeitos de segurança. Tudo, ou quase tudo, é controlado por sistemas de computador que ainda possuem alternativas em casos de pane, incêndios e outros incidentes e defeitos. Apesar disso, vemos, vez ou outra, cenas de desastres aviatórios e eles nos chamam a atenção pela quantidade de vidas perdidas e as dúvidas sobre as suas causas que não são totalmente respondidas pelas “caixas-pretas” que, quase sempre, são amarelas. E o amarelo é sinal de perigo.
Está mais que provado que a maioria das causas em quedas de aeronaves é falha humana. O homem foi feito para viver com os pés no chão, onde pode cair e levantar mesmo que seja com o braço quebrado. Lá em cima, em meio ao firmamento, não pode haver erros, tudo tem que estar certo. E o pior é que pilotar avião é extremamente monótono, há pouca coisa a fazer, os instrumentos cuidam de todos os acertos, ajustes e alertam em perigos. Mas, e sempre há os mas, há situações em que o olho humano, o seu cuidado, atenção, são desviados por problemas que ficam aqui na terra e sobem à sua cabeça. Por outro lado, os controladores de voo, os que ficam nos aeroportos e fornecem as “aerovias” aos aviões são funcionários com problemas como todos nós e podem falhar. Ainda bem, que falham pouco, mas quando falham o resultado é uma tragédia.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/10/2006.

Sem categoria

ÚLTIMA PESQUISA – Jornal O Estado

Imaginemos um acadêmico-pesquisador em contato com jovens um pouco acima de 16 anos. Digamos: um adolescente rico, um de classe média, um filho de trabalhador e um morador de favela. Imaginemos, também, que todos estão estudando, tiraram o título de eleitor e o que ele deseja saber é o que pensa a juventude brasileira sobre o que está acontecendo no Brasil, neste exato momento.
O pesquisador toca a campainha da portaria do edifício onde mora o menino-rico. Alguém, do outro lado de um grosso vidro, fala, pela voz metálica de um microfone: quem é, mostre a identidade, com quem deseja falar e se já havia marcado. O pesquisador coloca a identidade no escaninho, diz seu nome, afirma que já havia ligado, marcara hora, podia confirmar. Um minuto. Passam dez. Pode entrar. O portão se abre, uma câmera gira e mira o pesquisador que fica confinado em uma antecâmara gradeada. Não recebe a sua identidade, só na volta. Vem um segurança armado e o acompanha até o elevador envidraçado e segue junto até ao andar determinado. Aperta a campainha do apartamento e vê que o hall tem detector de presenças e uma câmera disfarçada. Afinal, a porta pesada se abre. O menino-rico está de gel nos cabelos e uma raquete de tênis na mão. Pede que o pesquisador sente e vem uma copeira fardada servir café e água. Afinal, vamos às perguntas: Em quem você votou para presidente da República? Ele responde: em uma mulher. O senhor quer dizer Heloisa Helena. Ele responde: talvez. Posso saber a razão? Era uma coroa raivosa, deve ser legal sair com ela, imagino. E em quem vai votar no segundo turno? Ainda vai ter essa chatice, acho que vou viajar, que saco. Levanta-se e acompanha o pesquisador até o elevador.
O pesquisador entra no pátio do condomínio de casas geminadas de um bairro afastado, mas bonito, onde o espera o menino-de-classe-média. O porteiro conversa com uma doméstica e nem olha para ele. A mãe de classe média, com os cabelos numa touca, pede que entre e sente na sala onde os sofás são de imitação de couro. Dá um grito e lá vem o menino-de-classe-média com um I-Pod na mão, fone nos ouvidos e o corpo balançando ao som de uma música que tem tudo para ser baiana. O pesquisador faz as mesmas perguntas e ele responde: pensei em votar no Lula, fiquei em dúvida, depois pensei em votar no Geraldo, mas não gosto de chuchu e aí anulei o meu voto. No segundo turno, acho que vou fazer a mesma coisa, não acredito em político. Você não vai assistir aos novos programas eleitorais? De forma alguma, tenho mais o que fazer.
A rua esburacada, o lixo amontoado, antecede a casa de vila onde está o menino-filho-de-trabalhador.Os pais estão trabalhando fora. Entra sem cerimônia na porta cortada ao meio, à guisa de janela. Ele usa camisa de imitação de uma dessas marcas conhecidas e calção comprido que cobre os joelhos. Não há cerimônia, o pesquisador senta em uma cadeira de plástico meio cambaia e ouve: votei nele, vou votar de novo, ele é legal. O resto não me importa. Fim de papo. E coloca a mão no ombro do pesquisador que se despede.
O pesquisador entra na favela, vê uma aglomeração, gritos, carros de polícia, tiros, e é atingido por uma bala perdida. Sua pasta cai, alguém a rouba. Era a sua última pesquisa.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/10/2006.

Sem categoria

PENSAR PARA VOTAR – Diário do Nordeste

Não sei se você vai ler jornal antes de votar. Espero que sim. Fique calmo, não vou pedir voto. Também não desejo criticá-lo, induzir ou aliciar votos. O que venho tentando é mostrar o óbvio: que somos responsáveis pelas nossas escolhas e decisões, e votar é um dos principais exercícios da cidadania.
Votar é estar comprometido com o coletivo, com essa ideia de Estado, de Federação, de Nação. Se você não teve tempo de pensar nisso e vota apenas porque é obrigação, infeliz de você, coitado de nós, desgraçado Brasil. Votar é escolher, é decidir, é influir no futuro, não é se vingar anulando ou deixando em branco, é corrigir erros do passado ou reafirmar sua satisfação com resultados, projetos, propósitos de alguém, de ideologias, partidos ou coligações.
Tenho dito que deputado, seja estadual ou federal, não é despachante, amigo ou alguém indicado por A ou B, nem mera pessoa que faz da política uma profissão, por falta de outra opção. Deputado é representante do povo, delegado, isto é, alguém que recebe uma missão de quem o elegeu e deve ter um mínimo de conhecimento e capacidade para participar de uma assembleia ou congresso que delibera, faz leis e fiscaliza governos. O deputado deve se submeter ao longo e, especialmente ao final de seu mandato, a uma nova avaliação dos seus feitos, propósitos e atitudes. Assim, votar consciente para deputado, estadual ou federal, mostra o seu compromisso com as coisas públicas. Não é favor, é exercício de direito, é cidadania
O senador deve ser alguém maduro, na presunção de que mais idade possa dar comedimento, moderação e serenidade na função de revisar as leis oriundas da Câmara dos Deputados, de julgar o Presidente da República, ministros, membros do Supremo Tribunal Federal, procurador geral da Republica em crimes de responsabilidade. Assim, é muita clara a função do senador: não deve ser um mero aliado ou adversário do partido que detém o governo. É bem mais que isso. É ele quem representa seu Estado.
O Presidente da República é o mais alto funcionário do país. A ele incumbe não só representar o Estado brasileiro, mas administrá-lo, geri-lo, ter o seu controle, através de ministros, assessores e ocupantes de cargos comissionados ou de funções gratificadas. Enfim, deve entender e respeitar o princípio universal da divisão dos poderes entre o executivo que representa, o legislativo que elabora as leis e o judiciário que julga a todos.
Não, não sou professor de direito constitucional, tampouco nada tenho de cientista político, mas creio, por responsabilidade social, que este espaço é importante para esclarecer o significado do ato de votar, pois o voto é uma decisão que tem efeitos a curto, médio e longo prazos e atinge a todos, especialmente a mim e a você.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/10/2006.

Sem categoria

SAUDADE QUE NÃO É METÁFORA – Jornal O Estado

Amanhã, 30 de setembro, é dia dos santos Jerônimo, que sabia rezar e escrever, e Gregório, um iluminista ou iluminado. E também era o dia em que nasceu uma não-santa, uma mulher pequena e grande, valente e medrosa, paradoxalmente, vinda a este mundo para enriquecê-lo com os filhos que gerou em 54 meses, ou quatro anos e meio de barriga, em que deixava seu corpo adelgaçado se transformar em outras vidas.
Amanhã, 30 de setembro, estaria marcando tempo uma mulher nascida e criada por estas paragens, miúda, ampla, silente e palradora. Essa mulher que andou, já madura, pelas terras de Camões e Cervantes, as que ficam na outra margem do Atlântico Sul e lá foi se aconchegar e aninhar-se aos seus. Essa que navegou pelas águas turvas dos rios da Amazônia, onde seus pontos de lágrimas clareavam e rastreavam a escuridão próxima dos corrimões do seu navio. Espantou-nos, com arte delicada, cuidada e misteriosa, em noite de fogueiras, com as suas iluminuras. Era simples, até tomar da caneta,
Amanhã, 30 de setembro, será dia de louvação a uma mulher que, após filhos criados, recolheu seus bordados, com lágrimas vertidas ou não, exorcizou desdita, tomou da caneta como se fora colher de pedreiro, e construiu uma casa, tijolo a palavra, arquitetada pela memória ancestral ou recente, em meios a arquétipos, desilusões, devaneios, lembranças, realidades, brumas, mistérios, dramas e nela gravou seu ferro invisível: NC. E, quiçá espantada pelo que criara, deixou-a afundar.
Amanhã, 30 de setembro, será dia de exaltar a vida de quem se fez viva na juventude da maturidade em meio a missivas trocadas, guardadas, e soube dar sentido ao que era sentido, sem ser permitido. Deixou-se enlevar, guiar pelo odor da tinta e a goma dos selos que tiravam o bolor do seu existir. Transformando-se e transformada. Essa vida, transformada, transformadora, quis ser acesa em alguma paragem, em dimensão outra, e nos dar a sensação da presença-não-presença e do enlevo-desengano, obra do que se sente e não se explica. E hoje, amanhã e sempre, será parte do húmus da terra, fazendo brotar quimeras, em meio à saudade que não é metáfora, e não está fora, pende dentro, em lugar inacessível aos olhos alheios.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/09/2006.

Sem categoria

CONVERSANDO COM MONA ANIS – Diário do Nordeste

Participei de uma travessia literária com a escritora e jornalista egípcia Mona Anis, na “Tenda do Escriba” da 7a. Bienal Internacional do Livro, em Fortaleza, Ceará. Travessia literária é uma oportunidade que se dá a dois escritores para que troquem ideias durante determinado tempo, com a intervenção de um(a) mediador(a), sobre suas obras ou sobre o contexto sociocultural em que vivem.
No caso específico dessa minha travessia, poderia dizer que estava surpreso com a escolha do meu nome para debater com a escritora Mona Anis, uma das expoentes do pensamento cultural contemporâneo do Egito e, por extensão, dos países árabes do Oriente Médio. Mona Anis é editora de cultura de um jornal egípcio editado em inglês, Al-Ahram, e tem uma larga vivência acadêmica, a partir de um doutorado na Universidade de Essex, na Inglaterra.
Suas experiências acadêmica e jornalística, especialmente quanto ao que pensa, como vive e reage o povo árabe, espalhados em vinte países, que vão do Marrocos até o Iraque, têm dado origem a convites para que possa expor suas ideais sobre as questões que causam tanta repercussão na mídia internacional, como agora entre o exército israelense e a facção Hezbollah, no sul do Líbano.
Conheço o Oriente Médio apenas de passagem e pouco sei da cultura árabe, tão rica e com fundas raízes na península ibérica, da Idade Média até o Renascimento, época em que ocuparam Espanha e Portugal, influenciando toda a sua linguagem, pensamento, arte e arquitetura que, por força da colonização portuguesa, nos foram, em parte, repassados.
Entender, o que não é fácil, todo esse amálgama foi o que procurei, especialmente nas perguntas que lhe fiz sobre o que havia mudado no mundo islâmico para a mulher que adentra o século XXI. Como ela entendia as justificativas do grupo Al-Qaeda sobre os atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001? Que perspectiva admite existir para a solução do conflito entre palestinos e judeus? e quais as consequências da ocupação americana no Iraque e como ficará aquele país quando essa ocupação findar? em razão de tantas as correntes de pensamento que dividem a sua classe política e os religiosos.
O que deve ter ficado de positivo nesse encontro foi o despertar da minha curiosidade sobre a vastidão de literatura, que se encontra sobre o que se convencionou chamar de “orientalismo”, no dizer de Edward W. Said, autor do livro “Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2006.

Sem categoria

DESENCANTO E ENCANTO NO RIO – Diário do Nordeste

RIO DE JANEIRO – Desço no Aeroporto do Galeão, aliás Tom Jobim, teoricamente é inverno, estamos em setembro, mas a temperatura é de 35%.
Aparece logo um agenciador dessas cooperativas de táxi e, após alguns minutos, chega um Vectra novo, ar condicionado, cumprimento o motorista e tomamos o rumo da cidade.
Este Rio é um velho conhecido meu, desde o tempo de estudante em que ficava por aqui mesmo na Ilha do Governador, depois me mandava para Copacabana, onde até hoje permaneço, na minha temporalidade. Dizia que ia de táxi e, de repente, um brutal engarrafamento. Penso no pior, um assalto ou arrastão. Não era. Era um acidente com um carro que, desgovernado, bateu no guard-rail da ponte nova, onde estamos parados. Vejo o motorista ligar seu rádio e informar a seus colegas de cooperativa que evitassem a ponta nova, seguissem pela velha. Parados, sem ter o que fazer, pergunto a ele em quem vai votar.
Ele, meia-idade, linguagem clara, coerente e articulada, me diz que anulará seu voto e explica as razões. Formou-se em Matemática, fez pós-graduação em informática e foi ser analista de sistemas. Juntou dinheiro, comprou um pequeno posto de gasolina ao tempo em que liberaram as “bandeiras”, isto é, todos podiam comprar o combustível onde quisessem. Apareceram os vendedores de combustíveis adulterados, não comprou. Depois, vieram os fiscais e o quiseram achacar. Triste, vendeu o posto, com prejuízo, e comprou um táxi, onde trabalha 16 horas por dia, paga os estudos em uma faculdade particular de biologia para a única filha, que não conseguiu vaga em universidade pública. Desfila, a partir daí, o desencanto com os políticos do Rio e do Brasil.
Termina o engarrafamento, passamos pelo Fundão e tomamos a Linha Vermelha. Mostra os outdoors perto da favela da Maré e diz que o que os políticos gastam nas eleições, só recuperarão se for roubando. Entramos no túnel e já estamos na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde tristes militantes acenam cartazes de candidatos de vários partidos. Ele ri e diz não acreditar em pesquisas, é um cético e com sua formação cartesiana “prova” que a eleição não está decidida para ninguém, pois o número de indecisos, dos que vão votar em branco e nulo, é muito grande.
Aparece o mar, é, enfim, a orla do Rio, do jeito que Deus a fez, bela, exuberante, cheia de gente miscigenada em pleno dia de trabalho, biquínis e calções fazem pares, enquanto vendedores apregoam todos os tipos de quinquilharias. Sol a pino, é inverno, creiam. Chego a meu destino. Ele desce, apanha minha mala, pago e se despede. É Carlos, um brasileiro.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2006.

Sem categoria

DE BRASÍLIA AO MÉXICO – Jornal O Estado

É fim de tarde. O avião sobrevoa Brasília e lembro da primeira vez que aqui estive. Quase tudo era barro, essa argila avermelhada que, ao contato com a água da chuva, se transforma em lama. Assim, o nascimento da cidade foi na lama. Era tempo de bossa nova, o aeroporto muito precário, quase tudo na cidade era oficial: carros, apartamentos, obras em construção e funcionários vindos do Rio e de outras partes. Placas, muitas placas. E o sonho urbanístico de Lúcio Costa, que muitos ainda imaginam ser de Niemayer, tomava a forma de um grande avião, com um grande bojo ou eixo e duas asas, a sul e a norte.
Era, àquela época, uma espécie de “far-west”, como um “remake” atualizado de um filme de Gary Cooper, todos em busca do ouro. Todos vinham para cá porque acreditavam no Eldorado, no que estava acontecendo e no que imaginavam iria acontecer. Vieram muitos, quase todos ficaram e hoje, neste quinto ano do novo milênio, Brasília é patrimônio da humanidade, pelo inusitado partido urbanístico que recebeu, pelos lindos parques burlemarxeanos e por sua implantação vigorosa e vertiginosa.
O carro passa pela Esplanada dos Ministérios, edifícios retangulares, sem adornos, sóbrios, iguais no pensar do Oscar, mas desiguais na prática de suas diferenciadas verbas, poderes e ações públicas e privadas. Lá está a Praça dos Três Poderes e há uma manifestação popular em suas cercanias. Os outros e são muitos, os não-ativistas, passam ao largo e nem olham para os piquetes, pois isto faz parte da paisagem da cidade-estado, onde tudo se procura e pouco se encontra. Ou melhor, alguns encontram. Abro a janela, o ar rarefeito de setembro se depara com a minha face e há carinho na pouquíssima umidade que me afaga.
Vou em direção ao setor de embaixadas e surge o desfilar de edifícios-nações, à esquerda e à direita, cada qual com seu estilo, mas todos cercados, vigiados, com carros de segurança por perto. Dobro à esquerda, entro em território mexicano, pois piso na Embaixada do México, é festa. Ali se comemora o 194o. aniversário de sua independência, há uma profusão de raças reunidas, latinos, anglo-saxões, africanos, asiáticos, enfim, povos de todos os cantos. Tocam os dois hinos, o Embaixador Andrés Valencia levanta um brinde em nome da luta iniciada por Miguel Hidalgo e seus companheiros, enquanto a noite vai entrando no lago em frente.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/09/2006.

Sem categoria

OUTUBRO ESTÁ CHEGANDO – Diário do Nordeste

Dá uma sensação esquisita ver e ouvir candidatos a deputado e até a senador, falando no tempo limitado da propaganda eleitoral gratuita na televisão como se estivessem pleiteando uma função de despachante, estafeta ou algo parecido. Na realidade, há uma parcela significativa de candidatos que não tem realmente nenhuma mensagem, além de serem desconhecidos da maioria dos eleitores; são os que se intitulam assim (Zé do Box) ou assado (Maria Parteira), colocando-se à disposição da comunidade em que atuam. E estou falando de candidatos pelo Brasil afora, pois me atrevo a sair catando essas preciosidades por aí.
Faltam duas semanas para as eleições, as esquinas estão cheias de bandeiras acenadas por “militantes” pagos, muros são pichados por todas as cidades, carros são adesivados e outdoors dizem das maravilhas que são os tais zés e marias. E assim, em meio a esse engenho, o Brasil mostra a sua cara, os candidatos, com exceções, é claro, são o que plantamos e colhemos em nosso tímido exercício de cidadania, nossa indignação capenga e na inapetência da maioria da população com o destino do país.
Em 01 de outubro, o Brasil informatizado, “coisa de primeiro mundo”, totalizará as urnas eletrônicas e dirá rapidamente a nós e ao mundo o nome dos vencedores aos cargos majoritários, os que passarão ao segundo turno e os dos novos e velhos representantes nas assembleias legislativas e Congresso Nacional. E as Comissões Parlamentares de Inquéritos, as tais CPIS, ainda por terminar, se arrastarão, os projetos prontos para a aprovação pela Câmara e Senado como “redenção” do país passarão para a próxima legislatura. O tempo que sobrará no ano que já finda será gasto com os segundos turnos, aonde e se acontecerem, para diplomação dos eleitos, arranjos, troca de partidos, limpeza de gavetas pelos derrotados, composição de ministérios, secretariados, estatais, descontingenciamento de verbas, confecção, distribuição e leitura de milhares de currículos de candidatos aos milhares de cargos comissionados e funções gratificadas, esse time que, meio desconhecido dos ocupantes do segundo e terceiro escalões, tece toda a trama burocrática brasileira, tão complexa quanto modorrenta, embora cheia de computadores e carimbos.
E o que importa é que dentro de pouco tempo, o programa eleitoral acabará, muitos muros continuarão pichados, o campeonato nacional entrará na fase decisiva, as compras de Natal ficarão aguardando a liberação do 13o salário. No próximo ano, teremos os jogos pan-americanos no Rio com a pompa e circunstância e a segurança pública cuidará de todos, que alegres e felizes poderemos comemorar a passagem do ano e nos prepararmos para o carnaval, pois ninguém é de ferro.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/09/2006.

Sem categoria

ADMINISTRADORES, SENHORES DO FUTURO – Jornal O Estado

Estudo administração desde a década de 60. De lá para cá já convivi com várias designações da carreira. No princípio era Técnico em Administração, depois resolveram transformá-la em Bacharel em Administração. Em seguida, reduziram-na para Administrador. Qualquer que seja o nome, pois hoje o importante é o saber e não o nome que se dá ao detentor do conhecimento, há uma consolidação dessa atividade, ciência ou profissão. A par disso, explodiu no Brasil uma miríade de cursos de MBA e mestrados que, salvo exceções, não acrescentam muito ao que se aprende na graduação e na prática, fazendo, errando, lendo e consertando.
É bom lembrar que em 1903, Henry Ford fundou uma empresa que fabricava veículos e introduziu a linha de montagem e os processos de automação. Surgiam, então os fundamentos do fordismo, tão criticado por Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos” e, posteriormente, no livro “Admirável Mundo Novo”, de Adlous Huxley. Ao mesmo tempo em que Henry Ford praticava gerência, Frederick Winslow Taylor, considerado o pai da profissão, concebia a ideia da racionalização do trabalho e dava o embasamento teórico da “engenharia social”, nome primitivo da atividade.
Do outro lado do mundo, precisamente na França, Henri Fayol começava a definir o lado conceitual da administração. Isso foi apenas o começo. Agora, nestes tempos informáticos e performáticos, há, como já disse, um número imenso de escolas e faculdades de administração pelo Brasil afora. São cursos de montagem relativamente barata e a obtenção de licença de funcionamento do Ministério da Educação não parece ser tão difícil. O fato é que a profissão de Administrador já está quase empatando, em quantidade, com a de Advogado e isso seria positivo se a qualidade dos cursos fosse boa, mas não é o que consta, pelo menos é o que tenho ouvido falar de quem tenta recrutar bons administradores.
Esta é a semana do Administrador, uma profissão de futuro e do futuro, sem a qual a sociedade não mais teria capacidade de entender os mecanismos de funcionamento das empresas, um amálgama de procedimentos, entendimento de legislações, manutenção e prospecção planejada de novos negócios. Por essa razão é que os candidatos a Administrador devem procurar bons cursos. E bons cursos são os que exigem presenças, puxam pelos neurônios nos trabalhos e provas, incentivam leituras e cobram resultados. Os outros são auto-engano.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/09/2006.

Sem categoria

INDEPENDENCIA OU SORTE? – Diário do Nordeste

Quinta-feira comemorou-se mais um aniversário da Independência do Brasil. Já lá se vão 184 anos desde que D. Pedro I, “às margens do riacho Ipiranga, resolveu cortar os laços com Portugal”. O mais estranho nessa história é que esse mesmo D. Pedro I, Imperador do Brasil, foi, quatro anos depois, escolhido Rei de Portugal, ainda que pelo período mínimo de sete dias, entre abril e maio de 1826, com o nome de D. Pedro IV. Ora, se era para romper os laços, como é que D. Pedro I veio a ser, tempos após, Rei do país que havia perdido a sua mais importante colônia? Coisas de família real, os Orleans e Bragança que mandavam aqui e lá. Será que isso mudou muito?
Agora, nesta antevéspera de uma nova eleição, inclusive para presidente da República, uma espécie de “rei” para grande parte da população, exatamente a que vota agradecida por favores recebidos, pois não possui o menor sentimento de cidadania, não conhece os direitos que tem, analfabeta que é. Não falo do analfabeto político a que se referia Bertold Brecht e é comumente citado, mas do dito analfabeto funcional, o que apenas sabe escrever o seu nome e não possui, pois estudo não teve, capacidade de analisar criticamente virtudes e defeitos de candidatos.
Dessa forma, o país que todos desejamos independente, só o será por sorte, pois o fado não concede prazos para quem não se qualifica aos humores do mundo, que nos cobra desempenho, responsabilidade e atitude. É patético ouvir frases que justificam votos a pessoas sabidamente comprometidas com falcatruas ou incompetentes. “Todos são iguais”, “farinha do mesmo saco” e outros que tais, são exclamações de quem não tem tempo a perder com a escolha consciente de candidatos ou, infelizmente, não sabe mesmo escolher e vai à onda.
Ao ver as paradas militares, os pronunciamentos de políticos e a cegueira de grande parte da imprensa, só nos resta exercer, mesmo com indignação, os votos que somos obrigados a dar. O fato de ser obrigatório, como forma de consolidar o hábito democrático de votar, transformou-se em pesadelo para quem não acredita mais na ordem que está vigendo e não sabe qual a melhor saída que nos tire da opção da sorte e que nos conduza não à morte, mas à vida.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/09/2006.