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BOI CHOCO – Jornal O Estado

Cansado das praias conhecidas, bares, clubes e restaurantes onde sempre encontramos as mesmas figuras, algumas tristes, como as queria Cervantes, outras saltitantes, como manda a vida que escolheram, fui, com pequeno grupo de amigos, levado ao Boi Choco. Certamente, vocês não sabem onde fica o boi choco. Eu também não sabia. Ele não consta de roteiro turístico, tampouco dos lugares aonde os saltitantes espíritos vão ao sair de casa, não para comer ou beber, mas para serem vistos ou ver e falar o que não sabem.
O Boi Choco é um lugar perdido na zona oeste, no lado onde o sol dormita no crepúsculo, depois da barra de um rio, logo após o passar da grande ponte e começa outra cidade. Depois de se passar por um arruamento precário, chega-se a uma nesga de praia com pouca areia, em maré cheia. e uma curva profunda, com barracas de palha, mesas de madeira velha, cadeiras tortas e maresiadas, sons bregas emitidos por toca-fitas de carros com muito tempo de fabricação, múltiplos donos e alquebradas funilarias, mas que se afoitam a varar o areal, munidos de espontâneos capatazes dispostos a empurra-los quando o eixo traseiro afunda.
E foi em um desses bares, onde o próprio dono serve os comes e bebes vestido em encardido calção de cor indefinida e mostra as pelancas de sua protusa barriga, que ficamos. Ao lado, havia pessoas misturando cachaça com sukita e tirando gosto com cerveja, sem esquecer de dar uma colherada em um baião-de-dois que mostrava a independência do feijão e do arroz.
E foi lá que vi um bêbado que não era equilibrista, certamente não ouvira falar em Aldir Blanc, trocando as pernas e tartamudeando palavras, mas não escondia o desejo de mais uma bicada. Não sei se continuará bêbado, mas todo o seu sistema renal deveria estar sendo cobrado e os olhos vermelhos demonstravam a queda dos seus impulsos. E nas paredes estavam sendo afixados cartazes de candidatos, não mais com a velha cola branca, pois são autocolantes, eleição moderna, ora vejam. E quando me distanciei da roda para ver o mar de perto, ouvi o pio do meu celular informar que a bateria havia descarregado e eu estava só, isolado e olhando para a minha cidade, tão perto, mas distantemente silenciosa, não mais aquela que nos aconchegava a todos, mas a que amedronta em todas as esquinas, ruas e lugares. Ali, em meio ao sol da tarde e ao vento agudo que trazia micro grãos de areia vi meus olhos marejarem, mas isto é outra história.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/09/2006

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BIBLIOTECAS E O AMOR – Diário do Nordeste

Recentemente, por uma dessas sortes da vida, participei de uma tarde de conversa com o acadêmico Antonio Olinto, o bibliófilo José Mindlin, o cronista Vicente Serejo e outras pessoas. Falavam de livros, de como esses papéis impressos, encadernados e encapados foram importantes em suas vidas. Deixavam clara a seriedade da ação das bibliotecas públicas no desenvolvimento do saber e da cultura. E ficou explícita a carência de bibliotecas em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, se chegou a conclusão de que é um profundo desperdício o fechamento das bibliotecas aos fins-de-semana. Ora, dirão alguns, quem trocará praia, banho de rio, futebol, botecos ou cinema por uma biblioteca? Ocorre que nas bibliotecas não caberiam todas as pessoas. Elas, ainda em pequeno número, dariam apenas para centenas de pessoas e essas mesmas pessoas sairiam de lá, sem dúvida, não com a pele bronzeada, mas com a inteligência aguçada, maior capacidade de análise crítica e descobririam que suas imaginações poderiam lhes transportar a outros mundos, outros sentidos de existir.
O apelo que os bibliófilos, os que amam e cuidam de livros, fazem aos governantes de todos os matizes é que criem mais bibliotecas e as deixem abertas aos sábados, domingos e feriados; divulguem seus horários, locais de funcionamento, programem contações de histórias, palestras e debates sobre autores e suas obras.
A propósito, a maior biblioteca de São Paulo, a Mário de Andrade, que tem um acervo de 3 milhões de obras, realiza, sistematicamente, ciclos de palestras. O último acontecido, foi sobre “A literatura russa pelo prisma do amor”. Assim é que autores clássicos como Dostoiévski, Tchekhov e Tolstói, entre outros, foram revisitados nas suas nuances afetivas, sensualidade e compaixão. Todos, desde os jovens que ainda não escrevem cartas ou e-mails de amor, aos já maduros com suas complexidades existenciais e até os idosos em seus processos pessoais de ajustes de contas com o tempo, são enredados, uns mais, outros menos, pelas teias do amor e nada melhor para guiá-los em suas trilhas afetivas, que um bom livro com paixão, sentimentos, relações de ódio, esperança e gozo. Não são as receitas prontas dos livros de autoajuda as que podem auxiliar nas dores de amores, mas a descoberta ou identificação em histórias que, aparentemente, pouco têm a ver com nossas vidas. E é nessa visão não ortodoxa que as bibliotecas e os livros podem agir como cupidos, encarregando-se do enlevo que precede o encanto dos que sabem estar apaixonados e correspondidos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2006.

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LEITURAS ERRADAS – Jornal O Estado

Amiga reclama das leituras erradas que fazem do que fala e de como vive. Diz que é incompreendida e que alguns, de boa ou má-fé, resolveram espalhar inverdades a seu respeito. Lamenta que não a conheçam na sua essência e façam coro a estórias, sem ouvir a sua palavra. Reclama que alguns não a conheçam como realmente é, desconheçam as atitudes que toma em situações emergenciais quando é preciso ter bom senso, comandar, discernir e ajudar o próximo.
Pois é. O comum, e mais cômodo, é as pessoas fazerem leituras erradas dos outros. Os sentimentos de empatia, simpatia e antipatia são muito próximos, limítrofes, e dependem sempre da história de vida, da essência, do olho e do ouvido do outro. Nós somos o que somos, mas os outros imaginam que somos o que pensam que somos. E aí é que residem as grandes querelas entre gente que se amou, foi colega ou amiga. Um dia, rompem.
São fatos, atitudes, e boatos que minam as relações de amizade, benquerença e amor. Chega um dia em que os arautos da maledicência são os ‘vencedores’, por plantarem a discórdia, a desunião e até a separação de pessoas que, mesmo cometendo erros, gostariam de ter alguém que lhes trouxesse alento. Falta, nestas horas, um pacificador, alguém leal às partes envolvidas, sem tomar partido. Ao contrário, sobram os que põem lenha na fogueira das fofocas, os que referendam leituras erradas, aqueles que trazem a ‘solidariedade’ não pedida, fazendo eco às tais maledicências e desentendimentos. Os maledicentes depois voltam para as suas vidas, tristes, alegres ou indiferentes por terem insuflado o rompimento de colegas, familiares, casais ou amigos. Os rompidos ficam lá, em suas solidões induzidas, questões a resolver, sem ter mais o apoio dos que lhes minaram a relação e que, via de regra, já estão atrás de outras estórias, fofocas e vítimas. Os ‘solidários’ voltam, quando muito, como Pilatos no Credo, de mãos lavadas, sem emoção e coragem de, pelo menos, dizer: reconsiderem, reexaminem, não foi bem assim e, se foi assim, desculpem ou perdoem.
Cada um precisa encontrar a sua própria resposta, sem medo de ceder, desculpar e sem ódio. E não seria perda de tempo conhecer a letra traduzida da música ´My Way´. Cada um tem o seu jeito, o seu modo de viver, reagir, amar e ser amigo. E o importante é que o nosso jeito de ser possa, apesar dos pesares, aceitar o jeito de ser do outro. E vice-versa.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/09/2006.

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AS DORES DOS FILHOS – Jornal O Estado

Quem tem filhos sabe do que estou falando. Primeiro, são os choros que eclodem com a saída do ventre materno e o forte impacto com uma nova ordem de vida, alimentação, sono e vigília. Depois, vem a socialização com a família, escola, amigos e colegas que vão encontrando ao longo da infância. Um dia, mais cedo que se imagina, começam a entender que existe amor além da família. É o namoro que vem, rompendo as amarras dos sentimentos que estavam ancorados nos pais e irmãos, e chega com força, mexendo com a estrutura familiar que era fechada e não conhecia estranho, exceto parentes, amigos e colegas.
É a partir desse encontro de nossos filhos e filhas com as filhas e filhos de outras famílias que surgem as primeiras dores existenciais das crianças que vão se tornando adultas, mas ainda acorrentadas pela imaturidade que nos acompanha quase sempre e, muitas vezes, atravessa toda a vida. Pois bem, os namoros geram conflitos e são os pais os que primeiro participam das dores de amores dos filhos, sem que tenham remédios prontos, pois suas receitas são de outros tempos, outros valores, outras histórias. Assim é que as famílias vão se conhecendo, quando há choro cá e chora lá. Quando as incompreensões podem toldar a alegria de estar junto, de dividir quimeras, de amealhar esperanças.
Depois, amainado esse tempo, trabalho resolvido, vem o casamento e são tantas as dores quanto às alegrias nos preparativos, independente do que possuímos, que todos chegam estressados à cerimônia, muitas vezes sob a ditadura temporária de uma cerimonialista que se arvora de magistrada, decidindo, impondo a sua ordem aos que lhe pagam e têm que obedecer. Casados, enfim. E aí, pela ordem natural, esperam-se filhos dos filhos e os desejamos que venham sadios, bonitos, que portem nossos nomes e sobrenomes, mas há desígnios outros que, muitas vezes, impedem a realização dessa vontade e isto causa dor, dor essa que vai se alastrando e atinge a todos. E é nos instantes naturais, mas diferentes da alegria da chegada dos filhos dos filhos na incapacidade ou perda momentânea de uma planejada e querida vinda, que todos devem estar juntos, descobrindo-se solidários e coerentes, admitindo que a vida não é apenas um acontecimento, qualquer que seja ele, mas o saber extrair dela algumas reflexões que possam nos tornar mais humildes e corajosos, paradoxalmente, para enfrentar o futuro, esse lugar entre as lembranças de ontem e o que devemos fazer de bom, hoje.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/08/2006.

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TREINANDO PARA VOTAR – Diário do Nordeste

Eleitores precisam de informações sobre os cargos e os candidatos, conhecer suas histórias de vida, seus atos públicos, ouvir menos propaganda enganosa e ter responsabilidade com os seus votos, pois não votam uma vez no dia 01 de outubro, mas várias.
João Soares Neto

Em crônica que publiquei em 1987, dizia que os eleitores não têm o direito de reclamar dos políticos eleitos. Eles foram eleitos por nós. Tem o nosso jeito. Os eleitos são, quer queiramos ou não, parecidos conosco. Agora, neste 2006, haverá nova eleição. A que escolhe deputados estaduais e federais, um senador, vice e governador, vice e presidente da República. Deputados e senadores são delegados diretos do povo, não despachantes a serviço de eleitores. Governadores são gestores, administradores e controladores das várias e complexas faces dos estados. O presidente da República é o mais graduado funcionário público do país, e a ele compete gerir com equilíbrio, segurança e honradez uma nação que já seria maior não fora os incontáveis desvios acontecidos ao longo da história brasileira republicana.
Nada de novo no que escrevi, mas esta obviedade precisa ser repetida, entendida e vivenciada por eleitores e candidatos. Por incrível que pareça, algumas pessoas querem ser deputados porque não deram certo em outras atividades. Outros acreditam que exercem um cargo vitalício. Ser deputado é uma tarefa nobre, com tempo certo, e pressupõe que a pessoa exerce tal cargo com a dimensão da sua responsabilidade pública. O governador é um delegado-empregado da sociedade e a ela deve satisfações. O presidente é o funcionário público mais graduado do país. Tudo isso seria mais bem percebido se os partidos políticos tivessem a humildade de dar cursos de iniciação política e, principalmente, cuidassem que seus candidatos aprendessem, pelo menos, rudimentos de direito eleitoral, ética, noções de direito constitucional, representação popular, fidelidade partidária e por aí iria.
Por essa razão, tomo a liberdade de sugerir aos coordenadores dos cursos de direito que assumam essa função: escrevam cartilhas simplificadas com perguntas e respostas sobre eleições. A idéia deveria ser discutida com os alunos. Dessa forma, pelo menos na minha ótica, seus úteis ensinamentos poderiam – ou poderão – gerar uma aura benfazeja junto aos partidos políticos, candidatos, Justiça Eleitoral e até para a mídia que a repassaria aos eleitores. Ora, se não sei o que vem a ser um deputado ou senador, qual o compromisso que tenho como eleitor? Se não conheço os limites da responsabilidade fiscal, dos graves problemas de segurança pública e educação, como me atrever a bem escolher um governador? Saberei que o presidente é “o mais alto dignatário da República”? Ora, para ser dignatário é óbvio que precisa ser digno, preparado, capaz. Eleitores precisam de informações sobre os cargos e os candidatos, conhecer suas histórias de vida, seus atos públicos, ouvir menos propaganda enganosa e ter responsabilidade com os seus votos, pois não votam uma vez no dia 01 de outubro, mas várias. É tempo. Há tempo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/08/2006

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INSEGURANÇA, DESONESTIDADE E IMPOSTOS – Jornal O Estado

A maioria das pessoas com as quais converso só tem hoje três assuntos para falar: insegurança, desonestidade dos políticos e o absurdo dos impostos. Vamos à insegurança: falam em assaltos-relâmpagos, sequestros, assaltos e que tais. Já esqueceram a Copa perdida e ainda não se fixaram nas eleições de outubro. Adoram contar casos pessoais, de familiares e de figuras públicas. Contam como se tivessem narrando uma cena de novela e acreditam que suas versões são verdadeiras, pois souberam, por sofrimento próprio, ou narração das vítimas e de amigos íntimos. São detalhes mínimos, alguns meios cruéis, outros romantizados. Falam pouco do descaso na prestação da segurança pelas várias esferas de governo. O fato é que hoje ninguém se sente mais seguro, quer more na periferia, em casa com vigilância ou em condomínio-prisional, pois há guardas, câmeras, alarmes, grades e senhas de entrada. As casas viraram prisões, por conta do medo disseminado como uma peste e contaminando a todos.
A desonestidade dos políticos é outro assunto em moda. Falam com deboche, com escárnio, mas há muitas pessoas esclarecidas, mesmo assim, a prometer repetir votos em candidatos confessadamente comprometidos com os últimos escândalos que movimentaram comissões parlamentares de inquérito e deram manchetes a jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. Alegam: todos são iguais, farinha do mesmo saco, e que ladrão por ladrão votam nos que ideologicamente lhes são mais próximos. Quanta incoerência, quanta irresponsabilidade e que exemplos dão quando são formadores de opinião e escancaram suas preferências por políticos que não podem negar a participação ativa ou passiva em corrupção pública.
A alta carga tributária é o terceiro assunto que mais ouço falar. Todos, do trabalhador avulso ao mais bem remunerado dos executivos, dão mais de quatro meses de salário ao governo. Ou dão sob a forma direta de imposto de renda ou sob a forma velada ao pagar ICMS da energia, de telefone, água e esgoto. De IPI na compra de bicicletas, motos, carros, roupas, sapatos e alimentos. Em tudo se paga imposto, desde o IPTU da casa onde moramos, ISS nos serviços, ao IPVA quando temos carros, como a CPMF em cada cheque que emitimos para pagar compromissos e impostos.
Se estivermos satisfeitos com insegurança, desonestidade dos políticos e a alta carga tributária que pagamos, devemos votar nos mesmos candidatos que elegemos e não fizeram nada para modificar a situação. Prometeram, mas não tiveram tempo em quatro anos para nos dar um mínimo de segurança, de cuidar de ser honestos e de baixar a carga tributária. Preocupem não, estão prometendo para o próximo mandato. Votem neles, de novo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2006.

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O QUE OS PAIS GOSTARIAM DE GANHAR – DIÁRIO DO NORDESTE

Acredito que deve chegar um tempo em que os pais – e os filhos – amadurecem, refletem, meditam, regulam o agir e o pensar. Diminuirão cobranças, surgirão mais afagos e acordos. Nesse tempo de cada um, as coisas, os presentes, os bens materiais, vão perdendo sentido nas datas marcadas. Haverá um instante em que não fará muita diferença receber ou não mais um par de sapatos, camisa ou perfume. Isso poderá, em momentos diferentes, valer até para todos os pais, mesmo os que têm poucos sapatos, camisas e não usam perfume. Nesse tempo que surge, o que os pais mais desejam é estabelecer gestos de entendimento com os filhos, pois são sabedores de que a diferença de idades influi na relação e modos de ver e encarar o mundo, mesmo que sejam queridos.
Provedores, ditadores de limites, ajustadores de conduta, definidores de objetivos, chatos, de um lado e, rebeldes, transgressores, obedientes, abusados, tímidos, confusos ou meigos, do outro. Sempre sobrará sequela, mesmo que de leve, nas relações de anos a fio, dia e noite. Falíveis que somos. Esses gestos de entendimento têm que ser cultivados sem mútua cobrança, mas com esperança. Servem como indicadores da maturidade que vai sendo cozinhada em meio à vida, amores, sonhos, realidades, no molho das dores, desenganos e do conhecimento de cada um sem pretensão da certeza, pois de nada valerá estar certo se isso não for entendido pelos outros.
Pais e filhos, em meio a mundos paralelos em que vivem, devem sentir a necessidade da presença do outro, que seja para um dedo de prosa, refeição ligeira, troca de ideias, ou uma distração qualquer. Mudam os tempos, filhos e pais já não viverão uma relação de dependência, mas de complementaridade, de troca de afeições, de ajustes de sentimentos.
Este domingo, Dia dos Pais – invento americano do começo do século passado (1919), quando Sonora Dodd resolveu homenagear seu pai, John Dodd- poderá ser um alegre momento de reflexão entre todos os que se tornaram atados para sempre pelos cordões do sangue e da benquerença. Elos tão fortes que superam faltas e falhas mútuas e enternecem os que sabem fazer da convivência em família a base geradora da energia e segurança necessárias para a lida do dia-a-dia, tão árdua que será menos dura se todos estiverem em harmonia.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/08/2006.

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OS DIAS DOS FILHOS – JORNAL O ESTADO

Amanhece, os pais saem para o trabalho a pé, de bicicleta, ônibus, lombo de animal, trem ou carro. Fazem isso todos os dias, a vida inteira. Antes, tiveram que puxar pelos dedões dos pés dos filhos para que acordem. Colocaram pasta nas escovas de dente, preparam lancheiras, dizem se a roupa está certa e mandam, ou levam, a turma para a escola. Cansados na volta, à noite, ainda vão ajudar nos deveres de casa e nas tarefas extras que a escola pede.
“Os pais não devem discutir na frente dos filhos”, mas têm, a todo instante, que separar brigas. Os pais podem estar desempregados, salário atrasado, empresa falida, mas têm que se virar, dar um jeito. Em contrapartida, há duas datas no ano consagradas a eles. São festas móveis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a mãe, e o segundo domingo de agosto, para o pai. São feitas aos domingos, quem sabe, para não atrapalhar os dias úteis dos filhos tão ocupados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias – e muitas das noites – são reservados aos filhos. Sem essa de queixa ou lamento, apenas registro.
Os pais são vistos, via de regra, como aquelas pessoas cobradoras, procurando estabelecer limites, obrigando a estudar, verificando boletins da escola, falando que determinadas amizades não servem, tentando ajudar ou dar palpite sobre empregos, profissões e escolhas para namorar ou casar. Como se ainda adiantasse…
“Os pais são velhos”. Vinte ou trinta anos são um tempo imenso para uma criança ou adolescente. Os pais têm costumes diferentes. E por isso são ´chatos´, pois precisam trabalhar para conseguir dinheiro da comida, aluguel, conta da luz e da água, prestação disso ou daquilo. Quando dizemos ´os pais´, estamos fazendo justiça a uma relação nova entre homem e mulher, pois ambos são provedores. Acabou-se aquela história do homem ir à luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e já faz algum tempo, ambos vão à ação e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. É claro, há exceções, mas essas não contam.
Tudo isso é para narrar: os demais dias do ano são dos filhos, essas criaturinhas lindas, algumas parecendo ´ter o rei na barriga´ e que, quando crescem um pouco mais, as primeiras palavras a dizer são: ´não pedimos para nascer´.
No próximo domingo será o Dia do Pai. Este ser mais periférico ainda que a mãe, atordoado ao saber existir um inevitável hiato ou desencontro entre gerações e as suas perspectivas pessoais com as dos filhos amados e pelos quais deu e dá tudo de si. Em meio a cafés, almoços, lanches e jantares no domingo, surgirão figuras novas, quase sempre bem-vindas, nas famílias: amigos, namorados, noras e genros, enquanto netos pequenos não entenderão bem por que os seus avós estão ganhando presentes, pois nem pais são. Pois é…

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/08/2006.

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O PROFESSOR E A MÁQUINA DE ESCREVER – DIÁRIO DO NORDESTE

Esta semana encontrei um contemporâneo de bancos acadêmicos. A vida nos fez tomar rumos diferentes. Ele, atendendo ao chamamento da escola em que nos formamos, aceitou o desafio de ir se aprimorar em São Paulo, fez doutorado, tornou-se professor e consultor e por lá se quedou. De minha parte, também convidado, fui mordido pelo desafio de cuidar, eu mesmo, do próprio destino. Isso, entretanto, não impediu de termos contato. Aqui e em São Paulo. Já são dezenas de ano entre o sonho de ser gente e a realidade do viver.
Falava que havíamos nos encontrado esta semana e o fizemos tomando um prosaico guaraná que imaginamos aditivar as nossas manhãs embaladas por corpos suados à cata de uma juventude que se faz distante. Pois bem, o meu camarada é hoje professor da maior universidade pública brasileira e o faz com maestria, comandando um programa de elevado significado social que se ramificou para as nossas plagas, onde, por conta disso, vem dar com os costados todos os meses.
E o mais paradoxal nessa nossa conversa de agora, entre centenas de outras que já tivemos, é que ele se nega a usar o computador como instrumento de trabalho e o faz com a veemência que o seu público conhece. A sua argumentação é simples: o computador não tem nada a ver com ele. Nunca aprendeu a mexer com o “bicho” e não vai perder tempo com isso agora. Não se incomoda em dizer que essa invenção tecnológica veio a destempo para ele. Já estava com os seus hábitos arraigados, sua caderneta de anotações, canetas coloridas para sublinhar os muitos livros que lê e uma velha máquina de escrever na qual batuca os seus escritos.
E em razão disso, da sua negativa aparentemente inabalável, é que torno público a nossa conversa e o desafio a mexer no “bicho” e não se apaixonar, principalmente ele, que coloca emoção em tudo que faz. Ser usuário de computador é uma das coisas mais simples que existe, o difícil, para os que viveram, até agora, analogicamente, é quebrar o gelo e ir em frente, sem medo de perguntar, de errar e ir, pouco a pouco, descobrindo o mundo inusitado que se abre com essa mera ferramenta, nada mais que isso.
Desse modo e, de forma expressa, o convido a passear pelos caminhos desenvolvidos por Bill Gates, a quem ele tanto admira pela filantropia universalizada, mas que não teria sido possível, se usuários de todo o mundo não utilizassem, por exemplo, as linguagens e sistemas disponibilizados e tão repetidamente propagados e vendidos por uma estrutura de negócios que não teria existido se houve tanta resistência como a dele.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/08/2006.

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LER O OUTRO – JORNAL O ESTADO

Um dia, há muitos anos, em uma dessas viagens noturnas aos Estados Unidos, conheci uma pessoa. Era uma viagem festiva, pois inaugurava linha aérea de uma companhia que não mais existe. Não, não era a Varig. Todos muito bem tratados pelos comissários e até um, que se fizera bêbado e incomodava os que procuravam dormir, só foi censurado quando apelou para a agressão verbal repetida a um dos pacíficos passageiros.
Chegamos e o bêbado, num passe de mágica, recuperou-se de sua carraspana, ficou sóbrio a tempo de responder as perguntas que os guardas aduaneiros faziam. Mas dizia que, nesse voo, conheci e distingui uma pessoa, entre tantas outras. A perdi de vista no aeroporto. Para onde teria levado suas malas? Moraria por lá ou era uma visitante como eu? A mão do destino me fez, inocentemente, ir a certo hotel distante procurar um amigo. Soube lá que o amigo havia se mandado para outro estado a fazer pesquisas sobre criminologia, especialmente a era do surgimento da máfia e de seus principais personagens. Sem ter o que fazer, sentei no bar do dito hotel e lá estava a tal pessoa, a que havia visto no avião e me chamara a atenção por seu porte bonito e até a forma elegante de fingir não ouvir as diatribes do bêbado já mencionado.
Acerquei-me e a cumprimentei. Estava triste, era visível seu ar de desencanto e angústia. Não sei bem a razão mas, sem intimidade alguma, falei para ela que viagem não resolve problema de ninguém, apenas o adia e, muitas vezes tem o condão de estragar o que se pretende ver. E disse mais: não adianta fugir de sua realidade e por aí fui. Ela me chamou de bruxo por ter lido o seu pensamento, o que parecia óbvio para mim. As pessoas, quase sempre, deixam pistas no rosto do que a alma não consegue resolver. E foi aí, em meio a confissões vindas a seguir, que se formou uma amizade que vara os tempos, não lastreada na presença física, no contato pessoal, mas na troca de sentimentos, na capacidade de ouvir o outro, mesmo que não se tenha resposta, pois as respostas estão, quase sempre, guardadas dentro de nós. O outro, quando muito, nos sacoleja e dá coragem para remexermos no nosso eu profundo e encarar ou negar a realidade que nos aflige com ou sem razão.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/08/2006.